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Círculo do Graal

O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE Romance

Carmo Vasconcelos

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O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE Romance

Por Carmo Vasconcelos

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Com a minha gratidão a todos os companheiros de estrada, vivos e mortos, que, presentes ainda entre nós ou religiosamente guardados na minha memória, contribuíram para a elaboração e publicação deste livro. A autora Carmo Vasconcelos

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"O homem de acção raramente escreve o seu diário; é quase sempre mais tarde, do fundo de um período de inactividade, que ele recorda, anota e, na maior parte dos casos, se espanta." (Marguerite Yourcenar)

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INTRÓITO A "O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE" Por Armando Figueiredo (Dr.)

Tornou-se moda e escola comum entre os cultores da Arte Narrativa, depois da voga simbolista, na prosa, na prossecução da rebeldia à escola neo-realista, escrever com as mais variadas conotações simbólicas, tendo alguns autores recorrido às recônditas áreas da subconsciência. Freud deu azo a que toda esta revolução literária tivesse funcionado nessa correnteza, uma vez considerados os avanços conseguidos no estudo dos comportamentos diferenciados e condicionalismos sociais patológicos, áreas do saber e conhecimento às quais foram buscar material para a escrita romanesca e poética, igualmente consideradas. A vaga dos escritores alegóricos aparece depois de Marcel Proust. E ainda que este não tivesse atingido a feitura artística de Boris Vian ou de Vergílio Ferreira (da sua 2.ª fase), ou de José Saramago - não os desmerecendo, bem colocada a questão no seu tempo cronológico, cultural e social, diferentes óbvia e consequentemente - sendo aquele consagrado mestre, dos melhores - diga-se para que não subsistam dúvidas, no seu estilo próprio e na sua idiossincrasia. Em presença da narrativa O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE, não é muito importante fazer alusão aos mestres da Literatura e da Linguística. A simplicidade é a tónica, e a leitura fácil. Recorre a algumas analepses para a tornar mais atractiva e rendilhar no gosto, o carácter de surpresas esporádicas, ou seja, de suspense bem comedido; o tecido textual é, todavia, comparável à narrativa camiliana ou queirosiana ou dinisiana ou garrettiana. Nada de intrincadas costuras elaboradas no emaranhado elíptico de avanços e recuos discursivos e narrativos (mais ou menos barrocos - 'aprèsla-lettre'), como esses que foram muito costurados à laia de William Faulkner ou de António Lobo Antunes. A narrativa é para ser lida, neste caso, ao jeito de crónica de usos e costumes enraizados nesta Lisboa dos tempos modernos, à qual se juntou o prazer da escrita com as suas cores e esboços bordados artisticamente pela pena de Carmo Vasconcelos. A narrativa da história de Carmen é, deste modo, um mergulho no tempo centenário que começa praticamente na deflagração da 2.ª guerra mundial e estende-se até aos nossos dias. É uma narrativa bem escrita numa linguagem cuidada. A autora é uma poetisa premiada, e a sua obra O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE enquadra a narração no seu tempo histórico com referência aos episódios mais marcantes do século passado, expondo o seu ponto de vista na apreciação dos conflitos sociais e ideológicos. Recorre esporadicamente à astrologia para definir caracteres e detém-se amiúde na descrição dos usos e costumes da época em que são narrados e da sociedade lisboeta, com especial incidência numa pequena burguesia que luta pela sobrevivência do remedeio, em contraste com outra média e alta, que esbanja dinheiro até se arruinar, e consequentemente perder o estatuto da sua média. Embeleza o fio da meada discursiva com um lirismo muito próprio, recurso endógeno que lhe advém da alma de poeta, perpassando ainda por toda a narrativa uma tentativa de aproximação de conceitos místicos apropriados, caracterizando-a como algo que tem muito a ver com o carma hindu, ou seja, a prova existencial que leva a que os humanos atinjam estados de Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal progressiva perfeição anímica em ciclos sequenciais até atingir o fim da espiral na forma divina. Estamos em presença, possivelmente, mais da simplicidade de Fernando Namora, John Steinbeck, Ferreira de Castro, François Mauriac, José Cardoso Pires, Albert Camus, Branquinho da Fonseca ou Somerset Maughan. E nesta lisura escorreita duma viagem pelo caudal dum discurso sem muitas curvaturas, diríamos à moda duma leitura crítica de Roland Barthes que o prazer está quando abrimos a obra e nos prendemos ao desenrolar dos acontecimentos. O prazer de ler é o sinónimo figurado de abrir, entrar e agarrarmos a fraseologia que nos diverte o espírito e o imaginário nele criado. Quando isso acontece, vamos na alegria duma viagem longa, e ao mesmo tempo tão breve que deixa alguma saudade! Quem quiser passar algum tempo a ler O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE, sairá com a sensação de que a viagem na sua duração, valeu a pena, e até gostaríamos que ela continuasse. Para uma apresentação da obra, a simplicidade da narrativa de Carmo Vasconcelos exige a simplicidade da exposição exegética, para que não haja discrepância ou dissonância entre autora e feitor do intróito, este que se sente honrado pelo convite de responsabilidade muita, e que naturalmente envolveu uma sua escolha (e agora um aparte: ela teria certamente, a meu ver, outras escolhas mais prestigiantes e merecidas, a que não recorreu por razões que só ela poderá fazer valer). Armando Figueiredo (Dr.) http://daniel.cristal.planetaclix.pt/index.html

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INTRODUÇÃO

Esta é uma história que abrange várias gerações. A saga de uma família, de há cem anos a esta parte. Nela existe tragédia, farsa, comédia e drama, num misto de risos, lágrimas, sonhos, vitórias e decepções. Sempre presentes, o amor e o desamor em todas as suas facetas. E como esquadros do tempo: História e Poesia. Mas nela descobrirão, sobretudo, um grato e fervoroso amor pela dádiva Divina que é a Vida. Peça e actores extraídos das memórias de uma amiga muito íntima – ficção ou realidade? – que só agora se dispôs a expulsar demónios e a reaver deuses. Seu nome? Chamar-lhe-ei “Carmen”. Vamos conhecê-la!

A autora Carmo Vasconcelos

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I PARTE Capítulo I

Chamar-lhe-ei Carmen, pois era esse o desejo de seu pai. Porém, na hora do registo, aproveitando a ausência do progenitor, a madrinha, religiosa convicta, dera-lhe o nome da santa da sua devoção (Nossa Senhora do Carmo). E com esse nome santificado vem atravessando a vida. Quem sabe se também com a sua protecção... Seu pai escolhera-lhe o nome em memória da irmã Carmen, cedo falecida. Esta, por sua vez, fora assim baptizada em homenagem à célebre ópera de Bizet. A família, de raiz aristocrática pelo lado de sua avó, fixou residência na Rua do Século, em Lisboa. O avô Manuel, linotipista no Jornal “O Século”; a avó Clotilde e a tia Carmen que dividiam o seu tempo entre as modistas, as óperas no Teatro São Carlos e os chás na Pastelaria Bénard; e Carlos, o benjamim da família, cujo nome lhe fora dado em honra do teatro de que elas tanto gostavam. Carlos, que viria a ser o pai da nossa protagonista. O menino crescera, a bem-dizer, aos cuidados de uma criada velha, entre as ausências do pai, que trabalhava de noite no Jornal, e as da mãe e da irmã, que se pavoneavam pelo Chiado. Família de meios, deram-lhe um curso de GuardaLivros (hoje, Contabilista) que mais tarde lhe valeu para sobreviver. Não na juventude, que essa era pouca para gozar a vida! Jovem da sociedade, foi desbaratando a fortuna da família entre o Casino do Estoril, o Parque Mayer e os cabarés da Praça da Alegria. Vejo lágrimas nos olhos da minha amiga quando me fala do pai.

Baixa estatura, moreno, grandes olhos negros, lábios cheios e sensuais, uma inteligência muito acima da média, um humor subtil, quase britânico, uma ironia fina, um desprezo exagerado pelos bens materiais; um conversador nato, uma alegria transbordante, um amante inveterado, um sedutor. Um “gentleman” e um “play-boy”. Não obstante, um coração do tamanho do mundo! De Carmen ainda não posso falar-vos, pois ainda não nasceu. Mas falarei de sua mãe. Chamava-se Diolinda. E era linda, segundo consta. Duma beleza serena, quase envergonhada, pele morena, feições de “biscuit” traídas apenas pelos olhos grandes e negros, longas pestanas, cabelos da mesma cor. Altura média, silhueta elegante. Alma tímida e recatada. Um receoso respeito, para não dizer medo, pelo pai a quem devotava uma cega obediência. Augusto, assim se chamava o progenitor, era funcionário público num Ministério do Terreiro do Paço. Senhor de grandes bigodes encaracolados, fazia tremer a vizinhança da Rua das Janelas

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Círculo do Graal Verdes, onde morava, que o apelidara de “O Mão-de-Ferro”. Isso, pelo rigor com que tratava a mulher, Maria do Rosário, e as filhas. Diolinda não era filha única. Lucrécia Augusta, a mais velha, Prazeres e Diolinda, as do meio, Celeste, a mais nova. Porém, como eram diferentes! E a mão de ferro de Augusto, ao contrário de manter firme a família, é a alavanca que a faz desmoronar. Carmen relata-me como sua mãe Diolinda contava, dando como exemplo o avô Augusto: – Se eu e as minhas irmãs, distraídas, nos esquecíamos de lhe beijar a mão quando chegava a casa, ele nada dizia, mas à mesa do jantar encontrávamos o prato voltado.

Sinal de que sem beija-mão não teriam direito à refeição. Rápido se lhes avivava a memória. Trocavam afagos por comida, não havia carícias gratuitas! Estávamos em 1900... Só hoje, Carmen percebe como o berço é delineador do carácter. E porque sua mãe, tão humilde e doce na juventude, se tornou tão dura, tão dominadora, tão avara de beijos. Maria do Rosário, a esposa, vítima submissa da prepotência de Augusto, um dia revoltou-se. Afrontando os preconceitos da época que não perdoavam a Mulher rebelar-se, abandonou o marido e procurou nos braços de outro a compreensão e o carinho que lhe faltavam. Augusto foi duro e intransigente. As filhas ficariam com ele! Maria do Rosário proibida de tentar sequer vê-las. Se a mãe alcançou ou não a felicidade sonhada, Diolinda nunca o soube. Era muito pequena. Mas guardou na lembrança os doces e os mimos que a mãe lhes levava às escondidas de Augusto. Se Maria do Rosário conseguiu ser feliz, a sua ventura foi de curta duração. Morreu pouco depois, com apenas trinta e nove anos, tinha Diolinda somente nove. Da nova relação deixou outra filha – Isaura – que veio aumentar o número de tias de Carmen. Carmen interrompe-me a escrita. Mostra-me retratos dos avós, da mãe e das tias quando meninas. Vestidos compridos, rendas alvas, grandes babados, chapéus com plumas, maiores do que os seus pequeninos rostos, rostos de meninas tristes e infelizes a quem não deixaram ser crianças. Depois, sorrindo, relembra uma das muitas travessuras que sua tia Augusta – a única que se atreveria a tal – costumava fazer quando moça. Impedida até de assomar a uma janela, tinha o hábito de subir aos telhados, tal a ânsia de ver o mundo lá fora. Um dia, seu pai regressou mais cedo do Ministério. Talvez para apanhar as filhas de surpresa... Augusta quase é surpreendida. Valeu-lhe uma vizinha que avistando Augusto ao fundo da rua a avisou: “Augusta, vem aí o teu pai!” Veloz, a menina abandona o telhado, entra por uma clarabóia, daí para o sótão da

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Círculo do Graal vizinha, esgueirando-se para casa mesmo a tempo de dar o beija-mão ao pai. Tão pronta que Augusto franziu o sobrolho, desconfiado. Sem o esteio da mãe, Lucrécia Augusta, a mais viva e rebelde, a mais avessa a preconceitos, foi a primeira a abandonar o pai e a sua tirania. Que fazer porém, sozinha num mundo a descobrir, mundo do qual seu pai a isolara? Mas Augusta só sabe que se sente finalmente livre. Livre para admirar o mundo no seu plano horizontal. Todavia, como ele era diferente de quando o tinha a seus pés, saltitando pelos telhados como uma corça, sonhos mais perto do céu! Estudos não tinha. Só de piano, a pouca instrução a que tivera acesso, e mesmo essa sob a vigilância do pai que a ia levar e buscar à professora que lhe dava as lições, o mesmo acontecendo com a irmã Prazeres. – Pobre tia Prazeres! – Deixa escapar Carmen, que não chegou a conhecê-la. – Ceifada pela morte, tão nova, vítima de febres mal explicadas na época. Foi sepultada vestida de noiva, no dia em que deveria casar-se. Mas, voltando a Augusta. Já devem ter reparado que eliminei o Lucrécia, nome que ela abominava. Tão cedo foi senhora de si, logo ela mesma o eliminou. E foi simplesmente com o nome de Augusta que entrou para o teatro de Revista. Tendo como única moeda de troca a sua beleza e o espírito alegre e ávido de movimento, foi o primeiro caminho que a liberdade lhe ofereceu. De Celeste, a mais nova das filhas de Augusto, Carmen pouco sabe da sua juventude. Separada das irmãs e entregue aos cuidados duma madrinha logo após a morte da mãe, só muito mais tarde apareceu. Talvez ainda possa falarlhes dela, se Carmen tiver coragem para o fazer. Por enquanto, só posso dizerlhes que a vida não lhe sorriu. E assim, desmembrada a família, só restava Augusto e a filha Diolinda, menina assustada e submissa, a única que acompanhou o pai durante mais tempo. Levada com ele para um novo casamento, foi acabada de criar por uma madrasta, senhora requintada, mas que nunca foi capaz de a amar como mãe, pois também ela já possuía uma filha – Carlota – que era a luz dos seus olhos. Para essas duas mulheres, Augusto abriu a sua “mão de ferro”. Diolinda e Carlota foram amigas enquanto crianças, amizade que se perdeu no tempo, pois a madrasta, subtilmente, foi marcando as diferenças. Nunca os privilégios foram iguais. Enquanto Carlota ia prosseguindo os estudos, inclusivamente de música, Diolinda ajudava na costura e nos bordados, para os quais, diga-se de passagem, tinha umas mãos de ouro. Até que Augusto, instado pela nova esposa, concorda com a ideia de Diolinda se empregar como balconista nos Grandes Armazéns do Chiado. Era, segundo ela, um emprego decente e honesto, próprio para uma rapariga séria. E sempre podia ajudar ao seu sustento... Augusta continuava no Teatro. O pai quando o soube, através de amigos, respondeu: “Não tenho nenhuma filha com esse nome!” E, mesmo riscando-a da sua vida, não conseguiu nunca engolir a sua vergonha.

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Um dia, fazendo compras no Chiado, Augusta reencontrou Diolinda, da qual se separara mas que nunca esquecera. Informada da sua vida, mais uma vez a sua rebeldia, a sua revolta, vieram à tona. – Não consinto! – Exclamara. – Como podes submeter-te dessa maneira? Vens viver comigo! Aluguei um quarto. Vais também para o Teatro, tornar-te-ás independente! – Dissera-lhe Augusta, enquanto lhe desvendava a vida de sonho que era ser actriz. Porém, Diolinda, dona de uma vontade amarfanhada, reflexo de vinte e três anos de dominação, não sabia insurgir-se e sentia-se incapaz de dar tal passo. Seria mais uma vergonha para seu pai... Não! Era superior às suas forças! Continuou no seu emprego e, enquanto em casa costurava vestidos e chapéus para o enxoval de Carlota, prestes a casar-se, o seu coração balançava entre a agulha e o sonho. A irmã trouxera à superfície desejos recalcados e, em silêncio, Diolinda interrogava-se: “Ir para o Teatro? Tentar um novo rumo? Conhecer outro mundo, quem sabe, o seu príncipe encantado?” E dentro de si, a diferença de privilégios ia tomando vulto, crescendo, crescendo... Certo dia, um daqueles dias em que não conseguimos conter mais mágoas, Diolinda aventurou-se. Em vez de voltar para casa, procurou Augusta, que a recebeu de braços abertos, disposta a mostrar-lhe um mundo novo, um mundo que Diolinda nem em sonhos vislumbrara. Foi assim que Diolinda também ingressou no Teatro. Só a ousadia da irmã, mulher de espírito aberto, “avant-garde” – atributos raros naquela época – foi capaz de a levar a tal. Todavia, com que dificuldade... Augusto, ao saber disso, não quis acreditar. Augusta, vá que não vá, sempre fora rebelde, mas Diolinda, a mais dócil, a mais submissa das suas filhas, a personificação da obediência, uma boca calada, umas mãos de ouro... Não podia ser! Devia haver algum engano. Só vendo com os seus próprios olhos...

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Ouvem-se as pancadas de Molière... As coristas, nervosas, espreitam a sala pelo buraco do pano... Augusta grita: – O pai! O nosso pai está na primeira fila!

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Círculo do Graal Diolinda recusa-se a entrar. O director de cena empurra-a, sobe o pano... E Diolinda, o rosto puro desvirtuado pela maquilhagem, as pernas nuas, dança, dança... A cabeça rodopia-lhe no desvario da vergonha; sob o atavio das plumas tenta esconder o rosto e o corpo seminu, na esperança de passar despercebida; vacila, quase desmaia... Felizmente, as luzes de cena não a deixam ver a plateia e, cega, Diolinda dança o pior bailado da sua vida! Fim da primeira parte. Cai o pano. E com ele tomba também o último elo de ligação de Diolinda com as suas origens. De novo, as pancadas de Molière... Mas quando o pano sobe já um lugar tinha ficado vago na plateia. Vago um lugar na assistência; vago, mais um lugar no coração de Augusto! Contava-se à data, que a partir daquela noite Augusto nunca mais voltara a ser o mesmo. A sua “mão-de-ferro” voltara-se contra o próprio rosto! A minha narradora está cansada. Cansada e emocionada. – Pobre mãe, como deve ter sofrido! – Desabafa, Carmen. – Continuaremos noutro dia – sugeri. Carmen concordou. Descontraímos com um café e um cigarro e só depois nos despedimos, marcando novo encontro para breve. Já a sós, pensei: “Espantoso! Como Carmen guardou tão antigas memórias de sua mãe! Dir-se-ia que as absorveu quando ainda no ventre materno...”

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Capítulo II Corre o ano de 1928. Lisboa fervilha. O Maxime e o Fontória, cabarés da Praça da Alegria, são a “coqueluche” do momento para os amantes da vida nocturna. São os bailes de máscaras povoados de dominós, columbinas e arlequins; as mascarilhas de cetim bordadas a lantejoulas, salpicadas de purpurinas, cheias de mistério. Por vezes, mascarilha arrancada, quantas desilusões para os apaixonados... É a música, o champanhe, as bailarinas, o “striptease.” Quantas fortunas desbaratadas, quantos casamentos desfeitos, quantos lares destruídos! Quantos jovens dizimados pela tísica, contaminados pela sífilis! Providencialmente, é o ano em que Fleming descobre a penicilina, marcando o início da era dos antibióticos. Mais tarde, os cabarés foram substituídos pelas “bôites”; hoje, pelos “pub’s” e discotecas. E a tísica e a sífilis deram lugar à SIDA, o novo e terrível mal da actualidade. Ainda em 1928: É a moda do “charleston” na Europa. Correm filmes como: “A Quimera do Ouro”, de Chaplin; “Os Miseráveis”, de Fescourt; “A ViúvaAlegre”, de Von Stroheim. E o Teatro de Revista está no auge. E é aqui que voltamos a encontrar Carlos. Lembram-se? O menino da Rua do Século... Tem agora dezanove anos, os olhos mais negros, a boca mais sensual – e galante como nunca! Com ele encontramos Rui, “menino-bem”, filho de família rica, residência no Bairro Azul. Alto, elegante, louro, bigodinho cuidado a realçar os lábios finos e irónicos. Amigos inseparáveis, colegas de curso, companheiros de esbórnia e de estúrdia, bem-falantes, a mesma paixão pelas mulheres. Rui, um futuro tio para Carmen, como virão a saber.

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Noite de estreia num Teatro do Parque Mayer! Azáfama nos bastidores... Papéis relidos à pressa no medo de falhar... Costureiras apressadas pregam lantejoulas, colam “aigrettes”, engomam tafetás, sacodem plumas; caracterizadores terminam as máscaras, quais pintores dando a última pincelada; cenógrafos dão os retoques finais... E as luzes, as luzes que não funcionam!... Berros do ensaiador, gritos do empresário: – Será que a casa vai encher? Será que vamos poder pagar a toda esta gente?... Carmo Vasconcelos

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Mensageiros trazem flores e bombons para as actrizes preferidas, cartões perfumados a convidar para a ceia depois do espectáculo (para a ceia e, se possível, para a cama...) No meio desta Babilónia, Augusta e Diolinda, dois rostos de anjo, duas almas ainda não perdidas, dois corpos de donzela. Ambas começavam já a desiludir-se com aquele mundo de faz-de-conta, aquela exploração de corpos, aquele paraíso fictício. Mas era preciso pagar o quarto todas as semanas, comer, vestir... Contudo, elas não se vendiam, embora compradores não faltassem. No seu íntimo, a “mão-de-ferro” da sua infância não as abandonara, continuava a segurá-las. E ainda sonhavam com o príncipe encantado! Breve as notaram Carlos e Rui. Havia nelas, escondido sob os mantos de fantasia, qualquer coisa de diferente, um não sei quê que não escapou ao olhar experiente dos dois jovens. Que, de mulheres percebiam eles... E com eles as belas-adormecidas desencantaram. Diolinda tomada de amores por Carlos; Augusta apaixonada por Rui. E os dois jovens conhecendo finalmente o verdadeiro amor. Amor que daria início a uma nova etapa das suas vidas. Rapidamente tiraram as jovens do Teatro. Seriam as suas esposas, as mães dos seus filhos! Porém, impreparados para assumirem responsabilidades, cursos nunca postos em prática, bolsas devastadas, iniciaram vidas bem difíceis. Os pais não acreditaram na sua intenção de assentarem. Para mais, com duas coristas... – Nem dinheiro nem casa! – Disseram, implacáveis. Aqui, as duas irmãs voltam a separar-se. Cada uma lutando à sua maneira para salvar o seu amor, que era afinal o único tesouro que possuíam. Tesouro bem pobre quando não existe pão... Carmen esforça-se por ressuscitar mais lembranças das memórias de sua mãe. Digo-lhe que descansemos, que façamos uma pausa, pois deve estar esgotada. – Ainda não – responde-me. – Há muito que eu queria testar as minhas lembranças, desenterrar velhos fantasmas, libertar, talvez, alguns remorsos pela incompreensão juvenil com que afrontei várias vezes minha mãe. E para isso preciso de si, minha amiga, para me ajudar a coordenar as minhas lembranças desordenadas. – Prossigamos então, sou toda ouvidos! E Carmen, a minha preciosa confidente, continua a desenrolar para mim os seus novelos. Tento descodificar as suas palavras, pois chegam-me, por vezes, um tanto embargadas pela comoção.

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Círculo do Graal Começa então para Diolinda e Carlos a rota pelos quartos alugados, as partes-decasa, o credo na boca quando chegava o último dia de pagar o aluguer. E Diolinda já grávida do seu primeiro filho que, para não fugir à tradição da época, se viria a chamar Carlos como o pai. Mas não apenas Carlos, e sim, Carlos Alberto, o que nos vai ajudar, a mim e a vós, leitores, a não os confundirmos. Foram tempos duros. Carlos fazia escritas para várias firmas, arranjava empregos com facilidade. Além do curso que seus pais lhe haviam legado, era inteligente, inventivo, senhor de um expediente a toda a prova. Porém, os vícios da juventude ainda persistiam nele. Noitadas, mulheres, jogo, e amigos com quem dissipava tudo o que ganhava, deixando Diolinda e o filho já nascido, esperando pelo sustento. As esperas da companheira, não raro por vários dias e noites, eram pacientes. A paixão ainda era grande! – Estive no Porto, querida, trabalho importante que me fez ganhar bom dinheiro! – Explicava Carlos quando voltava. O certo era que enquanto esse dinheiro durava Carlos não aparecia. Mas à chegada, cobria Diolinda de beijos, saudoso e apaixonado. E, curioso, sempre com um presente para ela – flores, bombons, meias de seda. – Não é disto que preciso, nem eu nem o nosso filho! – Insurgia-se Diolinda, mais madura, brigando por uma vida estável. – Temos de alugar uma casinha! Tens de aceitar um emprego fixo, um ordenado certo todos os meses! – Dizia-lhe, meia sufocada entre os seus braços. Recordo-vos que Diolinda tinha então vinte e seis anos e Carlos apenas vinte. Própria da sua imaturidade e do seu espírito sonhador, era a resposta que ele lhe dava: – Não te preocupes, querida, eu ganho o dinheiro que quiser, hei-de cobrir-te de jóias, e não é uma casinha que quero para nós, há-de ser um palacete! E Carlos afogava-lhe as frustrações com beijos, com devaneios, com a sua eterna sedução! E nessa confusão de sentimentos, mais filhos iam sendo gerados. Porém, emprego fixo, ordenado certo, horários a cumprir, nada mais abominável para Carlos. Tudo isso era demasiado vulgar para ele. Era um ser livre, o risco e a aventura corriam-lhe no sangue. Vivia no limite, mas era um prazer sentir que a sua inteligência, a sua argúcia para tornear situações, a capacidade que possuía para arranjar colocações vantajosas, eram inexcedíveis. E assim foram decorrendo os anos... Carlos fazia esforços para dominar a sua natureza. Aceitava o tal emprego fixo, o tal ordenado certo. Mas breve se libertava dos grilhões e das “casinhas burguesas” que montava para agradar à mulher que amava. A casa dele era o mundo! Queria ser empresário, montar o seu próprio negócio, trabalhar por conta própria, sem donos, sem grilhetas. Contudo, Diolinda continuava a ser o seu grande amor. Creio que o único, tal como ele foi o dela! Além disso, Carlos adorava filhos, queria todos, todos os Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal que o “destino” lhes enviasse. A seguir a Carlos Alberto veio Vítor Manuel, depois, Fernando José e, por último, Carmen. Irão saber mais tarde como não ficou por aqui a descendência de Carlos... Sobre esta já numerosa família, pesavam, como um desígnio cruel, dia a dia, mais revezes. Como é fácil de adivinhar, sendo Carlos um espírito livre e inconformista, não pactuava com o vigente regime de Salazar. Várias vezes suspeito de acalentar ideias subversivas, não escapou a diversas detenções levadas a cabo pela então PVDE (mais tarde denominada PIDE). Diolinda tudo suportava, dividindo-se entre as crianças e as visitas prisionais. Mas, seus filhos passavam necessidades. Quantas vezes Diolinda se deitou sem comer para os alimentar frugalmente. E, para os adormecer, cantava-lhes, à mistura com lágrimas, velhas canções, reminiscências da sua fugaz passagem pelo mundo do Teatro: Maria, são teus olhos azeitonas, Cachopa, os teus lábios quais cerejas... ... As rosas são as flores que aos amores tecem ninhos de desejos... Adormeciam os pequenos e as mágoas de Diolinda, também. A dada altura, já Carlos Alberto, o primogénito, tinha sido entregue aos cuidados dos avós paternos. Melhor dizendo, aos cuidados do avô, que Clotilde nunca tivera jeito nem tempo para crianças. Diolinda vira-se obrigada a pedir-lhe ajuda. Alma nobre, o avô oferece-lhe a casa. Porém, só a ela e ao neto! A Carlos não perdoara ainda. Diolinda não aceitou. Ainda não estava preparada para abandonar o amor da sua vida. Ficaria somente o menino. Sensata, embora com grande desgosto, lá deixou o seu primeiro filho. Sabia que nada lhe faltaria e essa certeza consolava-a. O avô Manuel adorava o neto. E como não pactuava com a vida mundana de que a mulher gostava, era com o pequeno que dava grandes passeios. Vestia-o como a um príncipe, todos os mimos eram poucos para Carlos Alberto. E pô-lo a estudar até frequentar o liceu. Até que... Voltaremos mais tarde a Carlos Alberto – o mais mimado, o mais bem-criado de todos os irmãos, pelo menos na primeira infância. Contudo, não obstante os bons princípios, um trágico fim...

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Círculo do Graal A vida de Augusta também não corria bem. Rui, trajectória idêntica à de Carlos, perde-se entre o jogo e as amantes. O filho varão morre-lhes de tifo, ainda criança. Lurdes, a filha, sobrevive para experimentar a dureza da vida. Augusta, filho morto, mas sempre corajosa e lutadora, abandona Rui e parte com a filha, fixando-se no Alentejo. Aluga uma casa enorme e subaluga quartos, desenvolvendo um negócio próprio como dona de uma pensão. Mais tarde, também de um café. Aí, conhece um pintor, homem extravagante, espírito de artista, que adorava Augusta e que soube decerto fazê-la feliz, pois juntos viveram até ele falecer. Entretanto, Lurdes... Carmen interrompe-se para me mostrar um quadro do dito pintor que apenas conheceu por fotografia. – Pedi-o à minha prima Lurdes para lho mostrar, faz parte das recordações que a tia Augusta deixou ao abandonar este mundo. Admiro então, as belas cores de uma paisagem alentejana. – Nunca ouvi que chegasse a ser famoso... – diz-me Carmen. – Mas quantos artistas conseguem ser famosos neste país?... Menos ainda há sessenta anos! – Não pude deixar de exclamar. Mas, continuemos: Diolinda continua a lutar pela união da família. Como lhe doía ainda o deslaçamento dos seus elos de menina! Todavia, como uma maldição que tivesse sido lançada sobre várias gerações, a história teimava em repetir-se. Diolinda, desgastada, doída e sem forças, após doze anos de luta, renuncia ao seu amor e separa-se de Carlos, levando os filhos consigo. Como já se disse: “Amor, tesouro bem pobre quando não existe pão!” E pão, pão era o que ela, mãe por excelência, queria para os seus filhos. Acima da sua suposta felicidade, do seu sonho de amor!

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Capítulo III Corria o ano de 1940. Em curso, a Segunda Guerra Mundial. A consolidação do poder nazi na Alemanha permitiu a Hitler passar a uma política agressiva em relação aos países vizinhos, num desafio manifesto às potências aliadas. Aliás, já em 1935, Hitler desafiara as democracias ocidentais quando, desrespeitando o Tratado de Versalhes, entrou na Renânia. Três anos mais tarde, a anexação da Áustria não depara com qualquer reacção internacional vigorosa. Mas quando em 1939 forças alemãs invadem a Polónia, tem início uma das maiores guerras da História. Portugal, além do peso da ditadura de Salazar, vivia o reflexo de um mundo conturbado. Não obstante, em 1940 vê inaugurada em Lisboa a “Exposição do Mundo Português”, evento a que não posso deixar de referir-me, pois ele foi um marco importante na vida de Diolinda que, a braços com três filhos, decide enfrentar o mundo e os seus preconceitos. Vítor Manuel, Fernando José e Carmen têm então, respectivamente, nove, sete, e dois anos. Carlos Alberto continuava com os avós. A madrinha de Carmen, a tal que a baptizou com o nome da santa da sua devoção, ajudou Diolinda nos primeiros tempos. Tinha duas filhas e duas criadas que ficavam com as crianças enquanto Diolinda procurava emprego. Com trinta e sete anos mantinha ainda uma beleza que nem os filhos nem as amarguras tinham roubado. Tomavam-na, uma timidez reforçada pelo medo de dar mais passos em falso, uma magreza que lhe acentuava a silhueta elegante nas roupas sóbrias, uma tristeza pronunciada, uma negrura intensificada nos olhos. A negrura do seu amor perdido, do seu sonho desfeito! Na sua alma, a mesma pureza, a mesma seriedade e integridade, gravadas nela a ferro e fogo pela “mão-de-ferro” da sua raiz. Mais do que empregos lhe apareciam pretendentes. Mulher bonita, separada, quantas vezes medida por uma bitola injusta! A todos os pretendentes dizia “não”. A madrinha da sua menina, a quem devia o favor da hospitalidade, aconselhava: – Tens de pensar no teu futuro, Diolinda, no futuro dos teus filhos! Os anos passam... Todavia, em Diolinda, ainda cheia do seu amor por Carlos, não cabia tal ideia. Entretanto, a situação de favor em que se encontrava ia dilacerando o seu orgulho. Era mais um espinho que se juntava aos já existentes naquela rosa! Um dia, apresentaram-lhe António. Homem solteiro, boa figura, pela mesma idade de Diolinda. Tinha uns olhos azuis que eram, de facto, o reflexo de uma alma pura e sã. A sua descendência de pai espanhol dava-lhe um sotaque interessante. Vivia com a mãe e dois irmãos, eternamente solteiros, em plena Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Baixa lisboeta. O pai tinha regressado a Pontevedra, sua terra natal, e aí ficara, tomando conta das propriedades da família. A mãe ficou em Portugal com os filhos, não vocacionados para a vida rural. Oriundo de uma família de sólidos princípios morais, António não degenerou. Como dominava o espanhol, empregou-se ainda jovem num hotel da capital. Estudou outras línguas, foi melhorando de situação e era, à data, recepcionista conceituado num Hotel do Rossio. Apesar de solteiro, não cortejou Diolinda. Ofereceu-se para lhe arranjar um emprego, um emprego à medida daquela cuja delicadeza e seriedade, tinham cavado fundo nele. Estendeu-lhe uma mão amiga, desinteressada. E o emprego surgiu: uma colocação na “Exposição do Mundo Português”. Talvez pela primeira vez, Deolinda sentiu-se “gente”. Recobrou ânimo, a pouco e pouco a auto-estima. Alguém se preocupava com ela, a aconselhava, lhe oferecia palavras de conforto e de esperança. E o seu primeiro ordenado?... Diolinda lembrava-se bem! Comprou roupas novas para os meninos, levou-lhes chocolates. E com que ansiedade eles a esperavam! Como os olhitos negros da pequenina Carmen brilharam quando a mãe lhe colocou nos cabelos escuros o primeiro laçarote cor-de-rosa! Entre Diolinda e António foi nascendo uma amizade. Nela, sobretudo um sentimento de gratidão, pela ajuda, pelo respeito, pela protecção, pelos conselhos quase de pai – apesar de António ser da mesma idade. Nele, uma admiração profunda pela mulher sofrida mas incorruptível, pela mãe extremosa. António não se poupava a pequenos mimos que ajudassem Diolinda a esquecer os dias negros, a colmatar as suas desilusões: um ramo de flores, uma lembrança singela, um passeio a Sintra, um almoço à beira-rio... Diolinda começou por recusar, especialmente os passeios. – Não quero deixar os pequenos, já basta quando vou para o emprego – dizia. – Mas, por que não levá-los? O ar puro fará bem às crianças, sempre tão fechadas em casa – lembrava ele. Pensando nisso, Diolinda acabou por aceitar. Há quanto tempo não davam um passeio... E lá iam, todos respirando leves, um “ar de família” até aí nunca experimentado; Carmen usufruindo do colo, ora de um ora de outro; os rapazitos, alegres e saltitantes, descobrindo maravilhas à sua volta. Carmen interrompe-se: – Sabe, minha amiga? Poderá parecer que esta imagem de António era uma imagem “fabricada” para servir futuros intentos. Mas eu lhe digo que não. Ele era um homem raro, íntegro, puro e límpido como os seus olhos azuis. Recordoo com muita saudade... Eu que cresci junto dele... – Cresceu junto dele? Conte-me, por favor! – Peço-lhe, ansiosa.

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Círculo do Graal – Lá iremos, responde-me Carmen, carinhosamente. O tal “ar de família” – esposa, filhos – começou a invadir António, e foi crescendo dentro dele, crescendo tanto que se tornou impossível de conter... Quando se deu conta, o coração já não lhe pertencia. Ele, um solteirão inveterado, a quem, até aí, tinham bastado como família, a sua amada mãe e os dois irmãos... No entanto, percebeu que naquela mulher ainda não havia espaço para o Amor. Mas nele, essa lacuna, que sempre se mantivera calada, começava agora a reclamar os seus direitos... Compreensivo e paciente, António soube esperar. E o tempo, o grande mestre que sempre com grande sabedoria, ora aviva saudades e lembranças ora contribui para as sepultar, ajudou a fazer o que era justo!

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Um ano se passou. António decide-se. Com directrizes bem definidas, rectas como o seu carácter, oferece o seu amor a Diolinda. Não só o seu amor; propõe-lhe casamento, um lar, um pai para os seus filhos. Ela, para quem a gratidão não era palavra vã, amizade cimentada, olhos postos no futuro, seu e das crianças, aceita a proposta, enternecida. E assim, Diolinda encetou uma nova etapa da sua vida. Uma longa etapa, não florida pela paixão nem pelo amor cantado pelos poetas, mas assente numa amizade sólida – talvez por isso, menos efémera. Esqueço-me das horas, empolgada pela narrativa de Carmen. As lembranças afloram à sua mente com tal rapidez, que tenho dificuldade em acompanhá-la. Os seus olhos, porém, traem o seu cansaço. Sinto-me igualmente fatigada, como se eu própria tivesse feito parte desta longa caminhada. Mais uma vez lhe peço que descansemos. – Tem razão, minha querida; desta fonte, há ainda muita água para brotar. Não devemos bebê-la de um só trago! E com estas palavras acertadas, Carmen se despediu de mim. Já em casa, releio e organizo o que escrevi. Verifico, então, que a minha amiga Carmen, além de uma memória de elefante, tem um “sótão” tão bem arrumado que faria inveja a qualquer dona-de-casa escrupulosa. Tudo sai como novo daquelas gavetas!

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Tencionava continuar hoje a descrever-vos a rota apaixonante desta família. Apaixonante, pelo menos para mim, que continuo a aguardar ansiosamente o precioso material que Carmen me trará. Porém, a minha amiga, enredada nos seus múltiplos afazeres, adiou o nosso programado encontro. Aproveitarei esta pausa para lhes dar a conhecer um pouco da nossa Carmen actual – “nossa” porque não tarda, passarei a partilhá-la de corpo e alma convosco. Penso que terá à volta de uns sessenta anos. Isto, pela ligação de datas da sua narrativa. Eu, não lhe daria tantos! Os seus cabelos quase totalmente brancos, que usa lisos e apanhados na nuca, fazem um contraste interessante com os olhos escuros e brilhantes e emolduram um rosto liso que deixa transparecer ainda uma certa juventude. Não porque o pinte – é muito parca nas pinturas – mas porque ele espelha um optimismo nato, uma força intrínseca, um amor intenso pela vida que, segundo me disse, considera uma dádiva Divina. Pequena de estatura, é, todavia, ágil de movimentos e de raciocínio. Veste com uma elegância simples, feita menos de roupas caras, mais de harmonia de tons. Fugindo ao estilo clássico, há nela, sempre um pequeno toque de originalidade. “O equilíbrio das cores é imprescindível ao nosso próprio equilíbrio”, disse-me um dia. Será?... Não se acha bonita e quando lhe dizem que o é, fica até um pouco confundida. Responde invariavelmente: “Sabe? À revelia das feições, a verdadeira beleza ressalta de dentro para fora; uma harmonia entre o corpo e a alma, uma tranquilidade interior, uma serenidade perante as vicissitudes, uma consciência limpa – podem dar essa aparência de beleza, sim!” Um tanto filósofa, torna-se por vezes um pouco estranha, ou melhor dizendo, invulgar. A mim, a impressão que me dá é de que a vida lhe tem corrido sempre bem. Nunca vi nela um gesto de revolta, uma palavra mais rude, um laivo de impaciência. Senhora de uma mente organizada, tem sempre um jeito amável, um sorriso nos lábios, um ar sereno e confiante. Deve ser – deve ter sido toda a vida – muito feliz!? Aguardemos então que chegue o momento de ela nos levantar o véu da sua trajectória até aos dias de hoje!

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Capítulo IV

Estamos agora em 1941. O mundo continua em guerra. Os bombardeamentos aéreos são notícia de primeira página em todos os jornais. Via rádio, chega até nós a canção “Lili Marlene”, muito popular entre o exército alemão. Entramos na viragem decisiva da Segunda Guerra Mundial. A estrela bélica de Hitler encontra-se no auge. A Alemanha invade a Rússia. Porém, a abertura de uma nova frente de guerra torna-se fatal para a Alemanha. Após as primeiras vitórias e um avanço inicial rápido no território russo, no final do ano as tropas são detidas às portas de Moscovo. Daí em diante, os exércitos alemães passam à defensiva. Paralelamente, é iniciado em Chicago e Los Angeles o Projecto Manhattan de investigação atómica. A ele se seguiria, já em 1942, a primeira experiência de obtenção de energia nuclear levada a cabo por um cientista italiano – Enrico Fermi – que tinha emigrado para os EUA fugido ao fascismo de Mussolini. É o início da Era Atómica. A Humanidade abria assim uma nova “Caixa de Pandora”. Portugal enche-se de refugiados. Os hotéis estão repletos. São tempos prósperos para a indústria hoteleira e seus empregados, como era o caso de António. Este, que sempre fora de fazer economias, sem ser avarento, dispõe do seu pé-de-meia a favor da felicidade da sua nova família e aluga uma bela casa que mobila primorosamente. Era a “casinha” que Diolinda sempre desejara. E foi neste soprar de ventos de guerra que ela encontrou a sua paz, e Carmen o seu primeiro lar. O seu primeiro lar e o seu verdadeiro pai, embora lhe tivesse chamado sempre “o padrinho”. António desejou então ter um filho seu, um filho da sua carne, do seu sangue, do seu amor. E dois anos depois nasce Eduardo, um lindo bebé loiro, de olhos azuis como o pai – mais um irmão para Carmen, que tinha na altura quatro anos. – Desse tempo e dos tenros anos que se seguiram, conservo muitas lembranças – adverte-me Carmen. – Fale-me delas! – Foram tempos felizes. Tínhamos uma bela casa onde nada faltava. O meu padrinho enchia a despensa como um celeiro. Eram os presuntos, os queijos e os doces, que não parava de comprar. Por vezes, tínhamos de dar parte deles para que não se estragassem. À minha mãe, que ele adorava e que lhe dera o desejado filho, não se poupava a presentes: eram luvas, lenços, chapéus, e jóias dos melhores joalheiros. Ainda conservo algumas que me couberam por sua morte e que guardo como relíquias. Como relíquia, guardo também um guarda-jóias em Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal pau-santo com incrustações de prata, que ele lhe ofereceu, cheio de amêndoas, numa Páscoa. Por falar em Páscoa, vieram-me à memória umas amêndoas com que nos brindava. Tinham a forma de bonequinhos recheados de licor. Era uma guerra entre mim e os meus irmãos a disputa dos bonecos... Ah! E os Natais?... Esses, não esqueci nunca! Havia o presépio que nós próprios armávamos: uma montanha feita de cartão amolgado e forrado de papel de seda, onde colávamos erva e areia e onde não faltava o rio onde bebiam as ovelhinhas, imitado por um velho caco de espelho; e na gruta (uma caixa de sapatos bem disfarçada), o burro, a vaquinha, e os três reis magos, majestosos nos seus camelos de barro. Tudo se nos afigurava tão real, que até o Menino Jesus nas palhinhas, entre o S. José e a Virgem Maria, parecia sorrir para nós... Depois, o grande pinheiro natural colocado a um canto da sala, que enfeitávamos de bolas e fitas multicores e pequeninas lâmpadas que ora se acendiam ora se apagavam, num piscar ininterrupto. E na hora das prendas, as bonecas, umas de celulóide outras de pano com cabecinhas de porcelana; os miniaturais serviços de chá, os pianos, os xilofones – brinquedos que o meu padrinho escolhia pessoalmente na “Quermesse de Paris”, hoje desaparecida, trucidada pelos grandes Centros Comerciais. Ainda me recordo do meu primeiro desgosto, quando Eduardo arrancou as pernas e os braços à minha boneca preferida. Sabe que ainda a tenho?... Mandei consertá-la no “Hospital das Bonecas”. Mais tarde, vieram os livros de histórias de fadas e princesas, os puzzles, as ardósias com giz de cores... Era uma festa! Ainda retenho no nariz o cheiro que vinha da cozinha, uma mistura de bacalhau cozido com grelos, peru assado, filhoses e rabanadas. E que dizer da ingenuidade com que colocávamos o sapatinho na chaminé, duvidando, infantilmente, se o Menino Jesus se lembraria de nós? Só o saberíamos depois da ceia, que somente se iniciava, impreterivelmente, à meianoite! Entretanto, preparávamos pequenas trouxas de roupas usadas, embrulhos com doces acabados de fazer e alguns brinquedos já postos de lado, e descíamos à rua, onde, fazendo nós próprios de “meninos-Jesus”, os ofertávamos às crianças menos afortunadas. Mas, mais do que a ceia e todas as guloseimas que ela implicava, mais do que os brinquedos, o pinheiro e o presépio, o que ficou gravado em mim até hoje, foi a alegria, o calor humano, o espírito de família e de solidariedade, a campainha que não parava de tocar, trazendo sempre mais um. E para que ninguém ficasse sem a sua surpresa, nós, que não tínhamos mesada como as crianças de hoje, recolhíamos os tostões dos nossos mealheiros e corríamos à rua para comprar à pressa mais um cartão de Natal, uma caixinha, uma caneta, uma bugiganga qualquer, que embrulhávamos e atávamos com papéis e laços coloridos, como se fosse a prenda mais valiosa do mundo. Não era o valor do conteúdo que contava, mas a alegria de dar, distribuir... Isso nos fora ensinado pelo exemplo! – Ainda não lhe disse, que ao longo dos anos da minha infância, a minha mãe foi recuperando a pouco e pouco e reunindo na nossa casa, especialmente nas alturas festivas, os entes queridos dispersos. Carlos Alberto; as tias: Augusta, Celeste e Isaura; a prima Lurdes. Enquanto isso, o meu padrinho ia adoptando como sua, e sempre com agrado, essa numerosa família. A certa altura, por graça, dizia ele, que a nossa casa deveria chamar-se “O Asilo de Santo António”. Carmo Vasconcelos

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– Na verdade, são memórias preciosas de um tempo feliz – digo, emocionada. – Só que... os tempos felizes não duram sempre – responde Carmen. – Mas também não se extinguem. Digamos que se alternam, cumprindo a lei da alternância existente em toda a natureza: o dia e a noite, o Verão e o Inverno, a maré-alta e a maré-baixa... E, como tal... Olhamos o relógio. – Meu Deus! Como se passaram as horas! – Dizemos em simultâneo. E como eu e Carmen temos, como alternância a estas memórias, um tempo presente que espera por nós, temos de vos dizer: “Até breve!”

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Círculo do Graal Não tendo a pretensão nem conhecimentos para fazer deste romance uma narrativa histórica – longe disso – não posso, no entanto, deixar de aproveitar esta pausa que me separa do novo encontro com Carmen, para relembrar alguns factos importantes que ocorreram em simultâneo com a sua infância. De entre as grandes atrocidades que o regime nazi cometeu, um dos crimes mais hediondos foi a exterminação cruel e sistemática de cerca de seis milhões de judeus. O anti-semitismo constituía parte fundamental da ideologia nazi e a discriminação dos judeus na Alemanha começou logo que Hitler subiu ao poder. Iniciada a guerra, os dirigentes do regime decidiram pôr em prática a “solução final” para o seu extermínio, não só na Alemanha como em todos os territórios ocupados. Os campos de concentração de Auschwitz, Treblinka, Dachau, entre muitos outros, foram testemunhos trágicos de esse grande holocausto da História. E é em 1945 que a Alemanha capitula com a tomada de Berlim pelo Exército Vermelho e com a destruição atómica de Hiroxima e Nagasáqui, levada a cabo pelos Estados Unidos da América, cujas terríveis consequências em termos de vidas humanas, levou à rendição do Japão e ao término da Segunda Guerra Mundial. É a “paz” assente no poder nuclear. Em Portugal, vive-se uma “paz” assente no medo. A ditadura de Salazar, escudada pela PIDE, não admitia descontentamentos. Abrir a boca representava prisão ou morte. Éramos pois, um povo “satisfeito”, porque calado à força. Bem sabíamos o que acontecia aos mais ousados, aos mais irreverentes. Eram os lares devassados fora de horas, os suspeitos arrancados às famílias deixadas sem pão, a tortura, o apodrecer das vítimas no forte de Peniche, a “fritura” nas frigideiras do Tarrafal. E quantas vezes, injustamente! Quantos inocentes! Quantas denúncias falsas por vinganças mesquinhas! Não admira que ainda hoje nos considerem um povo manso, de brandos costumes. Foram quarenta e dois anos de repressão, de vontade política amordaçada, de liberdade de expressão cerceada, imprensa censurada, evolução intelectual e artística, truncadas... Carmen tem por essa altura sete anos. Muito poucos para ter uma memória clara do clima que se vivia.

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Capítulo V De novo com Carmen, dou-lhe a ler o que escrevi. – Céus! Pensar que cresci no meio de tudo isso! – Exclamou. E como se eu tivesse accionado um interruptor na sua memória, diz-me: – Mas tenho memórias vagas, sim. E devem ser desse tempo as lembranças que agora me ocorrem, de como minha mãe me acordava cedo, ainda de noite, para a acompanhar às bichas que se formavam para conseguir algum peixe, algum pão, alguma carne. Em troca, recordo-me bem, davam-se uns papelinhos – as senhas de racionamento. Minha mãe levava-me com ela para que eu lhe guardasse o lugar nas bichas, enquanto voltava a casa para dar o pequeno-almoço aos meus irmãos. Lembro-me também de que havia falta de açúcar e que para obtermos uma bebida açucarada tínhamos de o comprar numa mistura de “cacau com açúcar”, de que eu gostava imenso, diga-se de passagem, e que eu ia buscar alegremente à leitaria do Sr. Acácio, não tendo consciência do quanto isso saía mais caro. A verdade é que essa guerra, aparentemente tão distante, não deixou de produzir os seus efeitos perniciosos entre nós. Na nossa casa, a fartura a que estávamos habituados não era mais a mesma e, por arrastamento, começaram tempos difíceis. Algumas famílias, porém, enriqueciam de repente, o que, a princípio incompreensível, se foi pouco a pouco tornando claro: era o “Mercado Negro”. Eram os bens escasseados, vendidos a peso de ouro. Os honestos empobrecendo, os espertos fazendo fortunas! Accionado o interruptor, cada vez mais luz se foi fazendo nas submersas memórias da minha narradora. Uma coisa aqui, outra ali, sem datas definidas, pois a infância, tão ávida de captar e abranger tudo o que a rodeia, esquece-se de datar o que a marcou. Carmen fala-me então, um pouco a esmo, de várias recordações que tentarei sintetizar: Começarei por seu pai. Por esta altura, Carmen já o conhecia. E digo, por esta altura, porque quando seus pais se separaram, ela mal tivera tempo de o conhecer. E Vítor Manuel, agora com catorze anos, visitava o pai de quando em quando, e algumas vezes levava Carmen consigo. Carlos sempre os recebia alegremente, como era da sua natureza. Sempre afável e divertido, levava-os a jantar fora e ao cinema. E Carmen adorava o seu bom humor, as piadas a propósito de tudo e de nada, a conversa fina de homem educado. Uma lembrança viva na sua mente é a fábrica de bordados que seu pai um dia possuiu e as saias de barra bordada que ele lhe dera. Com elas – cor-de-rosa, azuis, amarelas – as blusinhas brancas com bordados da Ilha da Madeira, onde dançavam figurinhas segurando pandeiretas de fitas multicores. Com que vaidade as exibia na escola! Nenhuma das suas colegas as tinha iguais. E Carmen não frequentava uma escola qualquer. Frequentava o que naquele tempo se chamava “a escola Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal particular”, situada ao meio da sua rua. Aí, Dona Ermelinda, a professora, leccionava meia dúzia de meninas cujos pais ainda podiam pagar uma mensalidade. Apenas meninas, pois nessa época a mistura de sexos era impensável. Doutro modo, nem a Dona Ermelinda, senhora austera, ousaria dizer logo de manhã quando entrava na sala de aulas, dirigindo-se às alunas que já a esperavam de pé: – Bom dia, meninas! Abram-me essa janela, que me cheira aqui a cuecas mal lavadas... Posta no ar esta peculiar saudação, a professora dava então início às lições. – Quem quer vir ao quadro? Silêncio absoluto! Só Carmen se oferecia. Por fim, era a professora quem recusava. – Sempre tu, não! Vem a Margarida, ou a...? Enquanto a escolhida, titubeando, se tornava cada vez mais pequena, ante o comprido ponteiro que Dona Ermelinda brandia como uma espada sobre a sua cabeça, Carmen tagarelava, ininterruptamente, à esquerda e à direita. A professora, furibunda, julgando-a completamente distraída, chamava-a de surpresa: – Carmen, vem resolver este problema, já que tanto conversas! Mas, apesar de palradora, Carmen sabia sempre tudo, roubando à professora o prazer de lhe infligir umas boas reguadas. Isto, porque seus irmãos mais velhos foram para ela como que uma “pré-primária”. E, também, porque lá em casa os jornais eram um “luxo” que seu padrinho não dispensava. Carmen entrara para a escola sabendo já ler o jornal. Porém, “pela língua morre o peixe” e pela língua Carmen apanhou uns bons sopapos de sua mãe, quando Dona Ermelinda a mandou chamar para que ensinasse a filha – um papagaio, como a apelidara – a ser mais calada. Das lições não havia nada a dizer, mas distraía as outras meninas, que só com grande sossego aprendiam alguma coisa. Aos nove anos, Carmen fez o seu exame de Instrução Primária, exame que era então acrescido de um outro de admissão aos Liceus ou, opcionalmente, às Escolas Comerciais ou Industriais. Antes da tomada de opção, que cabia aos pais, Dona Ermelinda voltou a chamar a mãe da menina. Desta vez, não para que lhe desse uma reprimenda, mas para dar um conselho à mãe:

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Círculo do Graal – Na minha opinião, a Senhora deveria optar pelo exame de admissão aos Liceus, é o que mais tarde virá a dar acesso a um curso superior. E será uma pena se a sua garota não o puder seguir, pois tem qualidades para isso. Inversamente, porém, Carmen fez o exame de admissão à Escola Comercial. Fêlo, “aprovada com distinção”, como teria feito o outro. Mas, na época, era um pouco assustador para uma família de tantos filhos, ousar um curso superior, pois, como já sabemos, os tempos corriam difíceis. Devo explicar que as complicações da família aumentavam de dia para dia, o que nos leva agora a falar de Carlos Alberto que, não obstante o conforto de que desfrutava em casa dos avós, nunca se conformou por ser o único filho separado dos braços da mãe. A dado momento, já rapazote, deixou aquele que sempre fora o seu lar e veio procurar junto de Diolinda o que ele achava que lhe tinha sido negado injustamente – o carinho de mãe! O pai, ele não procurara. Esse, ora administrava uma fábrica ou uma grande empresa, ora se encontrava sem emprego nem negócio certo. Dividia-se entre hotéis, pensões e grandes casas alugadas, profusamente adornadas de lustres (que fazia questão de manter sempre acesos) e onde dava opíparos jantares aos amigos. Com ele nada era constante nem sinónimo de segurança. Numa única mulher, também não se fixara ainda. A propósito, Carmen relembrou um desses jantares de que participou. Os convidados eram, na sua maioria, indianos (todos doutores) e os criados também. O menu, um caril fortíssimo e outras iguarias a gosto da tradição dos convivas, fê-la regressar a casa enjoadíssima e vomitar a noite toda, perante a indignação de sua mãe que, enquanto lhe fazia engolir uns goles de chá, ia murmurando: – Que irresponsabilidade! Dar essas porcarias a uma criança. Há-de ser sempre o mesmo – o berço o deu a tumba o leva! Carmen não alcançava o significado pleno de tal arrazoado, só sabia que não gostava de ouvir tais palavras sobre seu pai. O “brilho” de Carlos fascinava-a. Identificava-se com ele. E perguntava-se a si própria porque não teria sido possível viverem juntos. Carmen era uma criança intrinsecamente alegre, viva e curiosa. Herdara do pai a mesma vontade forte de viver superando todos os obstáculos, a mesma inquietude e irreverência, a sua natureza apaixonada. Provavelmente, tal como ela, seus irmãos sentiam o mesmo apelo dos genes, a força do sangue que lhes corria nas veias; talvez até mais intensamente, por serem homens. O pai era o voo mais alto, o sonho, a fantasia, a aventura; a mãe, a segurança, a estabilidade, a certeza da cama quente, da refeição a horas. Compreensivelmente, esta dicotomia produziu em todos os frutos daquela união uma instabilidade e uma insatisfação latentes que, ao longo da vida, uns conseguiram gerir melhor do que outros. Carlos Alberto foi, talvez, o menos hábil. Tornou-se um belo jovem. Moreno, olhos negros, como os irmãos, mas o único com uma estatura acima da média. Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Era o que se chamava “um galã”, em analogia com os actores de cinema da época. Porém, nunca encontrou o rumo certo. Não terminou o liceu, e profissões, teve várias e as mais estranhas. Mulheres também! Filhos, muitos, como seu pai... Diolinda e António abriram-lhe as portas. Mas, conter três jovens adolescentes, além de Carmen ainda menina e de Eduardo quase bebé, tornou-se insustentável. Não porque António se rebelasse, mas era necessário haver normas, regras. Uma delas, era que todos os rapazes tinham de estar em casa até à meia-noite. A partir dessa hora não entravam. Porém, regras e normas não cabiam nos seus temperamentos. Umas vezes cumpriam, outras ficavam na rua, e noites havia em que Diolinda transigia e abria-lhes a porta já de madrugada. Tinham uma natureza noctívaga, e mesmo quando entravam à hora marcada, prolongavam as conversas, os jogos, as discussões acesas, entre as quatro paredes do quarto que, claro, não era à prova de som. Os seus espíritos vivos, pujantes e rebeldes, soavam na noite como leões enjaulados. E ninguém dormia. Carlos Alberto foi o último a entrar e, voluntariamente, o primeiro a sair. Iria viver com o pai – não haveria normas! Mais tarde, levou Fernando José. A partir daí, foi um vai e vem entre as várias moradas paternas e a casa materna, à medida dos seus descontentamentos e das suas necessidades. O sentido era extraírem, ora do pai ora da mãe, os sucos das suas raízes diferentes... Diolinda era, sem dúvida, a que mais sofria com o desatino de seus filhos. Ao fim e ao cabo, os filhos eram seus, e o peso que ela trouxera a António tornava maior a sua angústia. Para ajudar a tantas despesas, fazia rendas e engomava roupas para fora. António comprara-lhe uma máquina de costura das mais modernas, que até fazia “ajour” e bordados. Nela, Diolinda costurava e consertava as roupas de casa, o vestuário da família, e confeccionava para Carmen lindos vestidos com folhos e saias rodadas que a faziam parecer uma boneca. Dos rapazes, Vítor Manuel foi o que permaneceu mais tempo em casa. Era o mais ajuizado e, aparentemente, o mais sereno. Era muito inteligente e, embora não tivesse ido além da Instrução Primária, tornou-se um autodidacta. Lia muito e passou também a escrever “coisas”. Era um sonhador e um poeta. O tempo veio incrementar e confirmar essas suas tendências. Tornou-se o ídolo de Carmen que, às escondidas, bisbilhotava tudo o que ele lia e escrevia. Vítor Manuel tinha um amigo inseparável, o Toy. Durante anos viveram grudados um no outro, partilhando “intelectualidades”. Um escrevia, o outro desenhava. Diolinda fazia café para os dois, enquanto Carmen rodopiava em redor deles, escutando, bebendo as suas conversas. E com que gosto lhes fazia recados! Ia comprar-lhes cigarros a tostão, entregar-lhes as missivas apaixonadas às jovens que moravam em frente. Como recompensa, autorizavam-na a ficar sentada junto deles, cientes de que ela não entendia nada dos seus “elevados” sonhos e debates. Carmo Vasconcelos

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O Toy é hoje um pintor internacionalmente conhecido. Ainda vos tornarei a falar dele quando chegarmos à adolescência de Carmen... À medida que fala, as memórias de infância da minha amiga vão aflorando à sua mente, um pouco desordenadas, por vezes turvas, tal como o depósito de um poço remexido sobe anarquicamente à superfície. E sendo as memórias caprichosas, pois vêm como e quando querem, forçoso se torna captá-las rapidamente, aprisioná-las ao papel, antes que fujam mais depressa do que vieram. Foi o que Carmen e eu tentámos fazer nesta longa tarde iniciada sob um Sol radioso que, sem darmos conta, vimos substituído por uma não menos radiosa Lua. Penso que todos nós temos agora direito a um merecido descanso...

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Descanso breve, desta vez. Carmen telefonou-me logo no dia seguinte a marcar novo encontro. Rejubilei! Mal tinha ainda digerido a última conversa, mas não hesitei em aceitar de imediato. Encontrámo-nos no lugar por ela marcado – uma esplanada à beira-mar. O sítio não me desagradou. Já percebi que temos muitos gostos parecidos. Carmen confessou-me ter horror a espaços fechados. Para ela tudo tem de ser amplo, rasgado, luminoso. Há nela uma ânsia de liberdade, de espaço, por vezes, de Infinito! Tenho cogitado de quando em vez o que será a sua vida fora dos nossos encontros. Parece-me uma mulher de espírito muito prático, vivendo constantemente apressada, como se tenha sempre alguém esperando por ela, mil e um assuntos para resolver, tarefas por terminar. Por outro lado, quando se fala de ideias, de sonhos, de livros, de viagens, noto que se esquece do tempo, assemelhando-se a uma bailarina que dança o bailado da existência com um pé na terra e o outro nas alturas. Curiosa, não pude deixar de perguntar-lhe qual o motivo de tanta pressa em me reencontrar. Respondeu-me: – Tive receio que encerrasse o capítulo da minha infância. Aconteceu que depois de a deixar, não consegui fechar a torneira da memória, e um caudal de outras lembranças inundou-me. Não quis deixar de a convidar a banhar-se nele, pois sei do entusiasmo que tem posto no seu romance, ao qual, perdoe-me dizê-lo, começo também a afeiçoar-me como se fosse meu. Tenho grande admiração pelos prosadores, especialmente pelos romancistas, já que eu, tirando meia dúzia de pequenas prosas, não consegui ainda aventurar-me para além da poesia.

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Círculo do Graal Acho que abri a boca de espanto. Estava então, perante alguém que também escrevia. E poesia, em cujas malhas sempre adorei enredar-me. – Mas, Carmen... nunca me disse que escrevia! – Como há muitas outras coisas que ainda não lhe disse... Não é para isso que estamos aqui? De súbito, entendi aquela minha sensação estranha de que havia em Carmen alguma coisa que vibrava em uníssono comigo, de que algo nela, como em mim, pairava mais alto. Era o seu “pé nas estrelas”. – Quer dizer que é poetisa? – Escrevo versos, sim! Já ganhei até alguns prémios em Jogos Florais e tenho um livro publicado. Apenas um livro... Contudo, não tenho pressa. Aprendi ao longo da vida que há um momento certo para tudo. E acredito que ele vem a caminho. Lentamente, para um tempo inventado pelos homens; na medida certa, para o meu tempo real. – Confesso que não entendi muito bem. Pode explicar-me melhor: “Tempo inventado pelos homens/ Tempo real”?... – O que quero dizer, minha amiga, é que eu – como todos nós – terei ainda muitas vidas para concretizar sonhos e aspirações. Não adianta colher as uvas antes de estarem maduras... – Se bem percebi está a falar-me de Vidas Sucessivas, de Reencarnação!? – Porque não? No entanto, não foi com esse objectivo que vim ao seu encontro. Num outro dia poderemos falar sobre esse assunto... Ainda um pouco perplexa, apressei-me a retirar da pasta o meu bloco de notas. Passámos rapidamente e de novo à infância de Carmen. Findo o seu exame de admissão com vista a ingressar na Escola Comercial, não o pôde fazer de imediato. Ao tempo, a lei só lhe permitia esse ingresso aos onze anos. Carmen tinha apenas nove. Sua mãe não perdeu tempo. A filha não ficaria em casa dois anos lendo tudo o que apanhava. Seria perigoso! “Uma menina tem que aprender outras coisas que, no futuro, façam dela uma boa esposa” – justificava Diolinda. E decidiu colocála numa modista para aprender a arte. Porém, Carmen detestava a agulha. A monotonia dos pontos, cuidados, medidos, desmanchados vezes sem conta até ficarem certos, a falta de movimento sentada horas seguidas sem poder levantar os olhos das bainhas, tudo isso lhe era insuportável. Breve, arranjou maneira de fugir àquele suplício. Preferia ir fazer as entregas das obras a casa das freguesas. Era o procedimento usual na época. A “mestra” a princípio recusou – Carmen

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Círculo do Graal era muito pequena (de idade e de tamanho) – mas, perante a sua ineficiência para a costura, acabou por anuir, não sem antes lhe recomendar: – Toma cuidado, as sedas escorregam, não vás perder as saias, os vestidos! Carmen ficou contentíssima. Arejava, andava de eléctrico, via as montras, tudo a distraía. E ainda por cima, as clientes achavam-lhe graça, davam-lhe sempre uma gorjeta, dez tostões, quinze tostões, as mais pródigas, vinte e cinco tostões! No regresso, comprava um bolo ou um chupa-chupa, e voltava para casa, feliz. Diolinda começou a estranhar tanto contentamento. Quando soube a que se devia, ficou indignada: – Onde já se viu? A minha filha a servir de moça de recados, todo o dia na rua! Escusado será dizer que se acabaram os passeios e com eles a “aprendiza de modista”. Contudo, Diolinda não desistiu. Na sua ideia fixa de preparar a filha para vir a ser uma esposa “prendada”, no ano seguinte pô-la num “atelier” de bordados para que aprendesse a bordar à máquina. Tentativa igualmente gorada. Passados poucos dias, Carmen lutando com um ponto de “cordonnet”, trespassou unha e dedo com a agulha da máquina que, dolorosamente, teve de lhe ser retirada. Foi o fim dos bordados! Sua mãe decidiu então distribuir-lhe tarefas caseiras. Carmen não retorquiu (nem podia!). Todavia, na hora das arrumações, Carmen escondia um livro por debaixo das roupas e trancava-se por dentro. Dois terços do tempo devorava as páginas; no terço restante, cumpria a tarefa à pressa. E assim, ia iludindo as “boas intenções” de sua mãe. – Pobre mãe! – Interrompe a minha narradora. Devo ter-lhe dado muito trabalho. Era uma mãe difícil, é certo! Mas também não se pode dizer que eu fosse uma filha fácil! De notar que a minha mãe era “Capricorniana”. Nasceu no Dia de Reis, a 6 de Janeiro de 1903, sob o signo astrológico de Capricórnio, que é um signo de “Terra”. Os signos de terra conferem aos que nascem sob a sua influência uma combinação de frio e seco. Se, por um lado, a secura conduz à rigidez e à tensão, por outro, o frio confere concentração, coesão, objectividade, duração. A terra é o elemento mais positivo e materialista que existe. Sob os pontos de vista físico e psicológico, proporciona paciência e resistência perante o fracasso, além de um carácter firme, íntegro, tenaz, perseverante, de grande sentido prático. No que se refere ao destino, prognostica estabilidade e permanência. Eu, contraditoriamente, era, aliás, sou “Geminiana”, isto é, nasci sob o signo astrológico de Gémeos, que é um signo de “Ar” – Os signos de ar proporcionam uma combinação de húmido e quente – com predominância do primeiro, que tende a conferir fluidez e elasticidade. O quente confere expansão e mobilidade. Sob os aspectos físico e psicológico, induz ao movimento, à adaptabilidade, às reacções cerebrais vivas; também à flexibilidade, à inteligência, à intuição, à Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal diplomacia, ao sentido artístico, ao talento inventivo, à subtileza e à sociabilidade. Sob o ponto de vista de destino, prediz mudanças e instabilidade. – Quer dizer que a Carmen também entende de Astrologia? – Apenas um pouco, minha amiga. A verdade é que ao longo da vida fui-me munindo de várias sabedorias, estudando algumas ciências e filosofias menos comuns, que me têm ajudado a compreender melhor os outros e, principalmente, a mim mesma. Os retratos astrológicos que acabei de fazer-lhe, explicam em parte e com toda a clareza, as divergências natas que existiam entre mim e minha mãe; entre os seus objectivos e os meus. Apesar disso, fazendo o balanço da minha infância, os pesos sempre pendem para o lado positivo! – Ainda não lhe falei, por exemplo, dos passeios semanais que dávamos a Sintra, no dia da folga do meu padrinho. Vou contar-lhe, ou melhor, vou mostrar-lhe um pequeno texto que fiz há tempos, e que incluía a descrição desses dias felizes. Se quiser, pode transcrevê-lo. – Já que mo permite, vou partilhá-lo com os nossos leitores: “Recordo o tempo da minha infância e o meu padrasto, santo homem, muito digno nos seus fatos escuros e colarinhos brancos engomados, alto e imponente, em quem, somente uns olhos azuis escondidos sob grossas lentes, denunciavam a suavidade da sua alma. Tal figura e indumentária levaram a vizinhança a, durante algum tempo, julgá-lo padre. Como nos rimos, quando o soubemos! O meu padrinho tinha uma predilecção muito especial por Sintra e era lá que nos levava, invariavelmente, todas as semanas, de comboio. A variante era a Praia das Maçãs ou Colares, que fazíamos a partir de Sintra, no velho eléctrico. Com ele, minha mãe, eu e Eduardo, fazíamos longas caminhadas pela subida que conduzia da Vila ao Palácio da Pena, que o meu padrinho fez questão de nos mostrar por dentro e por fora. A meio da caminhada deliciávamo-nos com o farnel preparado pela minha mãe, a que não faltava a toalha de quadrados que estendíamos sobre uma das velhas mesas de pedra do Parque das Merendas. Eu parava a cada passo para contemplar as hortênsias coloridas que ladeavam o caminho, para admirar as casinhas minúsculas que se avistavam nos vales e, imagem que nunca esqueci, os tanques cobertos de colchas de limos verdes aos quais eu e meu irmão lançávamos pedras para confirmarmos se tinham água. Algumas vezes, fazíamos a subida nos tradicionais carros puxados a cavalos, ainda hoje existentes, e eu sentia-me como uma princesa a caminho do seu palácio.” – Eram uns belos passeios! – Recorda Carmen, saudosa. Porém, as suas lembranças não ficam por aqui. E continua falando, falando... Apesar de já não serem deste mundo, dentro dela não morreram ainda a “mamã Hilda” e o “papá Bastos”. Era o casal que morava no lado esquerdo do seu Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal andar. Ele, contabilista, trabalhava no Sindicato dos Jornalistas e em vários Jornais. Ela, senhora de casa, filha de Oficial do Exército, tinha estudado como interna no Convento de Odivelas. Não tinham filhos e, talvez por isso, não eram muito felizes. Adoravam a pequena Carmen e ensinaram-lhe a chamar-lhes “mamã” e “papá”, desde pequenina. A casa deles, paredes-meias com a sua, era quase o seu segundo lar. Artur Bastos, quando chegava para almoçar e jantar, tocava em simultâneo a campainha da casa dele e a de Carmen. Ela corria para ele, que logo a pegava ao colo exigindo o beijo habitual e, muitas vezes, Carmen acompanhava-os na refeição. Artur tinha sempre bilhetes de ingresso para os mais variados espectáculos. Cedo, muito cedo, Carmen passou a fazer parte das saídas daquele casal, como se fosse a filha que eles não tinham tido. Diolinda, ciumenta, reclamava, mas acabava por ceder. Eram tão amigos, tão dedicados, não tinha coragem de lhes negar aquela felicidade emprestada. E Carmen gostava daquela atenção e ternura que sua mãe, tão dividida, se esquecia de lhe prodigalizar. Por outro lado, eles davam-lhe a possibilidade de alargar os seus voos, saciando-lhe a curiosidade por novos horizontes. Hilda, aborrecendo-se de passar os dias sozinha, levava Carmen a passear. Iam às compras à Baixa, lanchar ao Chiado e, frequentemente, ao Jardim Zoológico. Curiosamente, aí, o que Carmen mais apreciava não era propriamente admirar os animais nos seus gestos rotineiros: o elefante tocando a sineta em troca de um molho de cenouras ou os macacos brigando pelos amendoins e bananas cujas cascas devolviam aos espectadores. Nada disso! O que a deliciava mesmo, era percorrer os Jardins do Conde de Farrobo, anexos ao Zoo, deter os olhos nos imensos roseirais ladeados de tufos verdejantes, sentar-se no meio daquele paraíso, conversando com Hilda, que falava com ela como se ela fosse uma senhorinha mais velha. E depois da merenda, ficarem em silêncio, lendo cada uma o livro que tinham levado. – Como era sereno e repousante aquele lugar! – Rememora Carmen. No Inverno, nas longas tardes em que não saíam, enquanto Hilda repousava das dores de cabeça habituais, Carmen enfiava-se no escritório dos Bastos, o seu refúgio predilecto. Aí, percorria extasiada uma biblioteca que fazia os seus encantos, e foi lá que devorou a eito os volumes mais tentadores: Veríssimo, Zweig, Zola, Hemingway, Moravia, Dostoievsky, Tolstoi, Balzac, etc. Hilda não lhe fazia restrições às leituras. Achava má política proibir, pois bem sabia, pela educação austera que tivera, como o fruto proibido era o mais apetecido. Como variante a estas tardes, havia as empolgantes “matinées” de cinema: os filmes para crianças, e os outros, pois nessa altura não existia ainda a classificação por idades. Inesquecíveis, o maravilhoso espectáculo “Holidays on Ice”, a temporada de Circo, e os espectáculos de Carnaval no São Luís e no Ginásio.

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Círculo do Graal Contudo, a recordação que Carmen mantém, talvez mais viva, talvez mais emocionante, é a das noites de “première” nos teatros de “Revista”. “Première” que, como sabem, era a noite de estreia; não para o público, apenas e estritamente para convidados especiais, para a Imprensa e, lamentavelmente, para a Censura. Nessa noite, o espectáculo era apresentado na íntegra, conforme tinha sido concebido por autores e realizadores. Na noite seguinte, seria a estreia para o público em geral que, depois de a Censura ter feito os inevitáveis “cortes”, obviamente perdia o melhor. A preocupação maior dos censores era cortar as piadas alusivas ao regime político vigente, que, em jeito de rábulas jocosas, traziam a lume as inúmeras injustiças e revoltas caladas. Preocupação menor eram as piadas picantes, pois essas faziam o povo rir e esquecer momentaneamente o seu descontentamento e as suas necessidades frustradas. Para Carmen, resumia-se a uma noite de festa. Tudo a empolgava: a saída nocturna – o espectáculo só começava depois da meia-noite – a entrada na sala, repleta de gente faiscante nas suas indumentárias e adereços. E ela, muito senhora de si, nos seus vestidos de xadrez ou veludo com golas bordadas, meias e luvas de renda branca, sapatinhos de verniz, toaletes que lhe eram oferecidas pela “mamã Hilda”, sempre acompanhadas da seguinte recomendação: “Não são para levar para a escola, guarda para quando fores connosco ao teatro!” Depois de subido o pano, seguiam-se cerca de quatro horas de sonho: a música, os bailados, o jogo de luzes, o fascínio dos cenários, o brilho das lantejoulas, as plumas multicor, o cantar do refrão acompanhando os actores, os aplausos, o esplendor da apoteose. Era um encantamento! Carmen nunca adormecia, sequer pestanejava. No regresso, lá pelas cinco da manhã, um ritual que os Bastos não dispensavam: a passagem pela padaria, trazendo o pão quente que comiam já em casa, coberto de manteiga e acompanhado com chá. Enquanto saboreavam aquela refeição tão matutina, iam comentando o espectáculo, rindo de um ou outro chiste mais engraçado. E, apesar da hora avançada, os Bastos não deixavam de responder de bom grado às mil e uma perguntas que Carmen sempre tinha para fazer. Nessa noite, Carmen pernoitava em casa deles, num quarto previamente arranjado para si, onde dormia e sonhava até o Sol ir bem alto. E já o Sol tinha desaparecido no horizonte, quando a minha preciosa narradora deu por findas as suas reminiscências de infância. – Gratas lembranças! – Deixei escapar, afectuosamente.

enquanto nos despedíamos

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O que me atrevo a constatar é que Carmen atravessou a meninice como um pássaro que fortaleceu as asas saltando de ninho em ninho, escolhendo e Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal alimentando-se do melhor que em cada um encontrava... Arriscaria dizer que, tão sabiamente alimentada, difícil seria que as agruras da vida lhe quebrassem as asas...

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Capítulo VI O tempo, que ora nos parece demasiado veloz, quando queremos eternizar os momentos felizes, ora se nos afigura demasiado lento, quando queremos libertarnos de uma angústia ou de uma ansiedade que nos consome, passou, na sua cadência ritmada e alheia a sentimentos. Volvido um mês sem ter notícias de Carmen e não podendo mais dominar a minha ansiedade – o meu romance reclamava os seus pés para andar, a sua voz para se fazer ouvir, as suas emoções para vibrar – decidi telefonar-lhe. – Como está, Carmen? Que se passou? Esqueceu-se de mim?... – Ora viva, minha cara amiga! Claro que não a esqueci! Mas... Passou tanto tempo assim? – Um mês! Não é costume... Estranhei. – Um mês? Já?... Nem dei por isso! Irá compreender quando lhe contar. Podemos encontrar-nos amanhã à tarde? – Com certeza! Onde? – No Jardim da Estrela, às três horas, pode ser? – Combinado! Enquanto esperei pelo dia seguinte, cogitei: “No Jardim da Estrela? Porquê? Nem moramos perto...” Depois: “Algo de muito bom se deve ter passado com ela, para ter perdido assim a noção do tempo...” Um mês, imaginem! A mim, pareceu-me um ano! Como o tempo é relativo, não é mesmo? Finalmente, chegou o momento esperado. Carmen trazia realmente um ar feliz! Rapidamente, saciou a minha curiosidade. – Perdoe, minha amiga, o tê-la deixado sem notícias, o ter relegado para segundo plano o seu romance. Mas é que aconteceu uma coisa maravilhosa! Nasceu o meu primeiro neto! Um menino lindo, a quem os pais puseram o nome de Diogo, embora, carinhosamente, lhe chamemos Didi. Também ele traz a marca da família: moreno, olhos negros. – Mas que novidade! Agora compreendo. É, de facto, um acontecimento capaz de fazer esquecer tudo o resto. Parabéns! – Curioso é que nasceu sob o signo de “Gémeos”, como eu. Oxalá ele saiba lidar com isso! Carmo Vasconcelos

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– É assim tão difícil? – Difícil?... Se é! É necessário ter uma noção exacta do Bem e do Mal e uma força incrível para não deixar o segundo sobrepor-se ao primeiro; não se deixar mover por influências nem deixar-se arrastar totalmente pelo elemento “Ar”, perdendo a “Terra” de vista! Os “Gémeos” são dois e, embora a interpretação mitológica deste signo simbolize a acesa amizade, a união harmónica de duas naturezas ou caracteres, não exclui uma certa duplicidade, o que faz gerar frequentemente sentimentos contraditórios, neles e nos que lhe são próximos. Muitas vezes, aparentam o que interiormente não são porque, revestidos de uma couraça, raramente mostram o que sentem; excepcionalmente desnudam os verdadeiros sentimentos. À conta desta duplicidade, não raro são injustiçados, por mal compreendidos. A ponto de se pôr uma dupla questão a seu respeito: “Os Gémeos são felizes? É-se feliz com eles?...” Mas deixando de lado a astrologia e a mitologia, o que não cessa de me maravilhar é o que considero o “milagre mais perfeito da Criação”: o nascimento de uma criança, na sua miniatural perfeição externa e interna; a sua transcendência para além da Biologia e da Genética... – Partilho plenamente desse seu sentimento! – Exclamei, vivamente emocionada. – Então, estou perdoada? – Eu é que lhe peço mil perdões pela minha incontrolável ansiedade! – Não diga tal, minha amiga! Entendo-a muito bem! O seu romance justifica-a totalmente. Quando escrevemos é como se o mundo parasse ao nosso redor, alheamo-nos da realidade, às vezes, da própria existência. Relembre-me então onde ficámos, por favor. – No final da sua infância. A partir daí, Carmen esqueceu o presente, trepou às nuvens do tempo e pôs a funcionar a máquina das lembranças remotas que nos transportou ao início da sua adolescência. Tinham finalmente decorrido os dois anos necessários para que ela pudesse iniciar os seus estudos pós primários. Era o início de uma nova aventura! Colocada longe de casa, numa Escola Técnica situada entre a Estrela e Campo de Ourique, tinha um longo percurso a fazer diariamente. As aulas começavam às oito da manhã e duravam todo o dia, apenas com alguns intervalos entre aulas. Para ela, era um princípio de independência e uma forma de se alhear dos problemas da casa, de se libertar da vigilância atenta de sua mãe, das constantes

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Círculo do Graal e acesas discussões que Diolinda mantinha com os seus irmãos mais velhos, e de fugir das traquinices de Eduardo, à data com sete anos. A hora do começo das aulas era um suplício para Carmen que já nesse tempo deixava adivinhar uma péssima relação com horários, a qual, segundo me confessou, ainda mantém. Providencialmente, havia uma colega que morava próximo, encarregada de lhe tocar à porta para fazerem o trajecto juntas. Quantas vezes esse toque era o último “toque de alvorada” para Carmen que só perante esse sinal de alarme se levantava da cama para, de seguida, se lavar e vestir às pressas e galgar num ápice os degraus que a fariam juntar-se à paciente companheira. A vítima chamava-se Conceição. Não obstante, foram amigas por muitos anos. Porém, como eram diferentes! Por fora e por dentro! Conceição tinha dois belos olhos azuis, tão azuis que pareciam dois retalhos de céu emoldurados por uma farta cabeleira castanha e encaracolada; os lábios finos, raramente deixavam passar uma gargalhada. De estatura baixa, magra e franzina, tinha um temperamento sereno e tímido, quase triste. Seu pai tinha uma loja de mercearia e taberna, anexas à casa farta. Homem rude, não deixava as filhas pisar em ramo verde. E digo filhas, porque Conceição tinha duas irmãs. Das três, Conceição, sob essa aparência frágil, era a que albergava maior ambição de se tornar “alguém”. Além de pontualíssima, era o que se podia chamar uma estudante aplicada. Os trabalhos de casa sempre feitos, as lições mais que estudadas, os cadernos rigorosamente em dia. Carregava diariamente uma pasta de fole, enorme e pesadíssima, com o material de todas as disciplinas, que eram muitas. Como bagagem extra, havia o fato e as sapatilhas de ginástica, os T’s e esquadros para o desenho, os acessórios para trabalhos manuais e lavores femininos. E, o que nunca podia faltar: a bata branca, cujo esquecimento equivalia a uma falta na caderneta. Para além desta parafernália, havia ainda as sanduíches e a fruta para o almoço. Tudo a Conceição levava! E como não gostava de ir de bata vestida, ainda a transportava no braço. Carmen, cumprindo a sua hereditariedade, era morena, e um espesso e longo cabelo negro condizia com dois olhos da mesma cor. A boca vermelha e carnuda alargava-se facilmente em gargalhadas sonoras. Pequena de estatura, era roliça e bem torneada. Tinha um temperamento alegre e fogoso – tudo menos sereno. E, ao contrário de Conceição, não albergava ambições. No seu íntimo, já se sentia “alguém”, pelo que, o seu desejo mais forte era apenas “viver”. Não era uma estudante aplicada – nem precisava – o que ouvia nas aulas por obrigação, colava-se-lhe à memória como o pez se agarra aos troncos à revelia da vontade das árvores. Não admira, portanto, que carregar tal equipamento estudantil fosse complicação demais para Carmen! Aliás, ciente das dificuldades familiares, não dava a saber em casa nem metade do material que era preciso adquirir. Num único caderno tomava nota dos sumários de todas as disciplinas. Orientava-se pelos livros das companheiras de carteira, pedia emprestados os apetrechos de ginástica às colegas de outras turmas; e, exercendo o seu sentido prático, levava Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal a bata já vestida de casa, o que até lhe convinha, para camuflar as vestimentas impostas por sua mãe, nem sempre do seu agrado. O lanche, do qual não prescindia, era praticamente a sua bagagem. Transportava-o, juntamente com o único caderno, numa pasta de pele, muito leve, que fechava com um fecho “éclair”. Essa pasta, considerada na época um acessório de luxo, tinha-lhe sido dada por seu pai que a comprara em tempo de vacas gordas, e Carmen orgulhava-se muito dela. Levando-a debaixo do braço, caminhava saltitante, de mãos confortavelmente metidas nos bolsos da bata branca. Porém, brevemente se livrava dessa bagagem que, apesar de pouca, ainda se lhe afigurava um estorvo. A cada pequeno intervalo da manhã ia dizimando, uma a uma, as sanduíches e as peças de fruta, até poder guardar a pasta vazia e dobrada na grande mala da sua amiga Conceição. Chegada a hora do almoço – o intervalo às vezes era de duas horas – Carmen corria para o grande pátio do recreio para entrar a tempo nos campeonatos do jogo do “Ring”. Rompia meias e sapatos de tanto correr naquele pátio! Enquanto isso, Conceição tomava a sua refeição descansadamente e quando lhe sobrava tempo adiantava os deveres para o dia seguinte ou reunia algumas colegas para lhes dar explicações. Era uma aluna muito atilada, a Conceição! Porém, o que era incrível, é que quando se tornavam conhecidas as notas dos pontos e dos períodos, as de Carmen eram sempre mais altas, o que, para Conceição, representava uma afronta. Isso dava lugar a algumas desavenças entre as duas amigas, estremecendo temporariamente aquela amizade. Todavia, breve faziam as pazes e reconheciam não poder passar uma sem a outra, confirmando a teoria de que os opostos se atraem... Enquanto escrevia as palavras ditadas por Carmen, ocorreu-me um pensamento que não posso deixar de partilhar convosco: “Como a vida daquela garota era feita de contrastes! Ao mesmo tempo que exibia uma pasta de pele genuína, não tinha umas sapatilhas de ginástica e nem sequer os necessários livros de estudo, porque, consciente dos tempos difíceis que assolavam a sua casa, nem sequer pedia que lhos comprassem... E mais… Os sapatos, rotos à força de tanto correr e brincar, tinham de caminhar com ela alguns meses, até que sua mãe pudesse comprar-lhe outros... Curioso é que nada disso abalava a sua alegria nem impedia que tirasse as melhores notas... Estava eu embrenhada nestas cogitações, quando a minha narradora me lança subitamente uma pergunta: – Não adivinhou ainda porque a trouxe aqui? Apanhada de surpresa, fiquei momentaneamente sem resposta. Rapidamente, olhei em volta e acordei para o belíssimo Jardim da Estrela que nos cercava! – Parece-me que começo a compreender – respondi um pouco insegura. – Eu lhe direi, minha amiga. Frequentemente, quando faltavam professores (o que eu agradecia aos céus) aventurávamo-nos em grupos, em pequenas digressões fora da escola. Este jardim faz parte das minhas recordações dessa época. Aqui, passei momentos bem alegres e divertidos. Os rapazes que, apesar Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal de frequentarem a mesma escola, estudavam separados de nós, seguiam-nos dizendo piropos às meninas suas preferidas – escolhas que raramente coincidiam com as nossas... Mas isso não era o mais importante. Havia muito riso, muita descoberta, nesses primeiros contactos com o sexo oposto e, ao mesmo tempo, tanta inocência! Como me sentia feliz e solta! Como se tivesse molas na voz e no corpo, era a mais eloquente e a mais vivaz dos grupos. O meu sentido de humor, a displicência com que lidava com as responsabilidades académicas, a pouca timidez perante os professores, creio que divertiam os colegas menos atrevidos, até mesmo a minha amiga Conceição, tão pouco dada a irreverências. Havia também a presença das graças da natureza – as flores coloridas, as árvores muito verdes, aqui e ali uma nesga de céu azul, um raio de sol, o cantar das fontes, o chilrear dos pássaros – coisas que sempre me extasiaram. Hoje, que me entendo melhor, percebo como tais cenários eram necessários ao meu equilíbrio; como eles traziam paz à minha inquietude! Aliás, os jardins sempre fizeram parte das minhas aventuras, das minhas escapadelas, receio até que venham a tornar-se uma constante no seu romance... Quando não íamos ao Jardim da Estrela, visitávamos um horto próximo onde se vendiam flores. Havia-as de todas as qualidades, era uma estonteante mistura de cores e cheiros. Os botões de rosa fascinavam-me. O meu desejo de comprar um daqueles botões era de tal modo irresistível, que me obrigou algumas vezes a regressar a casa a pé, por ter gasto nele o único “1 escudo” que minha mãe me dava para o bilhete do eléctrico. E a que preço me ficava aquele botão de rosa! Ao longo percurso que tinha de fazer a pé ao fim do dia, acumulavam-se os inevitáveis ralhos de minha mãe pela hora tardia a que eu chegava. – Mas onde andaste? Sabes que horas são? A Conceição já chegou há mais de uma hora! – Vim a pé, mãe. Gastei o dinheiro do eléctrico nesta rosa. Era para lhe oferecer – justificava-me eu, exibindo a minha rosa já murcha. – Onde já se viu? Gastar o dinheiro do eléctrico em bagatelas que não valem nada – ripostava minha mãe, insensível, acusando-me de desmiolada. O quanto eu desejava naquela hora que ela me compreendesse! Que me ralhasse brandamente e me desculpasse com um beijo, aceitando a minha rosa murcha! Porém, isso era desejar o impossível! Entende agora, minha amiga, por que fiz questão de marcar aqui o nosso encontro? A volta a este lugar, ao fim de tantos anos, ajudou-me a reavivar a memória. – Não só entendi, como considerei uma tarde maravilhosa. Eu e o meu romance só podemos ficar-lhe gratos. E assim nos despedimos.

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Capítulo VII Sentada à mesa do Café Caleidoscópio, aguardo Carmen, que prometeu transportar-me hoje de volta aos anos 50/52, ou talvez mais, se tivermos tempo. Olho em redor do local, como sempre por ela escolhido. E… num jardim! Não é um café vulgar. Um salão enorme, à altura de um segundo andar, forma um espaço completamente envidraçado. Lá fora, flores, árvores, e lagos onde esvoaçam patos, deslizam barquitos. Basta-me olhar em frente para ter a sensação de estar pairando sobre eles. O ar condicionado completa a sensação de frescura, imprescindível num dia de calor como este. Como a minha amiga tarda em chegar, vou tentando situar-me na época prometida, envolver-me na atmosfera que a rodeava então. Se a memória não me falha, o poder e a ambição continuavam a gerar guerras pelo mundo. Os homens, esquecidos de que a Criação formou um Universo sem fronteiras, pertença de toda a Humanidade, querem a todo o custo delimitar possessões, demarcar territórios, alargar poderes, fazer alarde do seu egoísmo. E, para isso, não hesitam em continuar a derramar o sangue dos inocentes. É o início da Guerra da Coreia, tão vivamente pintada por Picasso no seu quadro: “Massacres na Coreia”. A origem desta guerra centrou-se na ocupação da península coreana, em 1945, por tropas russas a norte e tropas norte-americanas a sul. A rivalidade entre as duas superpotências impedia uma solução comum, fazendo nascer daí duas repúblicas de sinal político diferente. Em 1950, as tropas norte-coreanas invadem a Coreia do Sul. A política de Truman levou à intervenção da China e a guerra internacionalizou-se. Só passados três anos, as partes beligerantes chegaram a um acordo de cessarfogo que determinou o paralelo 38 como fronteira entre as duas Coreias. Entretanto, quantos massacres, quantas vidas ceifadas (algumas ainda no ventre prenhe de suas mães), quanta juventude dizimada, quantas viúvas e filhos órfãos! Em Portugal, Salazar orgulhava-se de manter a “paz”; as “guerras internas” dominadas, refreadas – todos sabemos a que preço! Contudo, na sombra, a oposição vai crescendo, engrossando as suas fileiras, atrevendo-se a mostrar o rosto. Tenho que ficar por aqui! Carmen chegou! Como é seu hábito, atrasadíssima em relação ao combinado. Para se redimir, e antes que eu pudesse abrir a boca, coloca-me na mão um rolo de papel, atado com uma fita de seda dourada. – É para si, minha amiga! – Como assim?... Não faço anos. Carmo Vasconcelos

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O seu ar misterioso e ao mesmo tempo gentil, aguçou a minha curiosidade. Apressei-me a desatar a fita cor de ouro e o rolo de papel abriu-se para mim. Comecei a lê-lo. Era um poema. Demorei algum tempo a saboreá-lo. Por fim, só consegui dizer: – Obrigada, Carmen! É muito bonito! – Que é isso, minha amiga? Foi apenas uma brincadeira. Uma recompensa pelos meus atrasos. – Posso mostrá-lo aos nossos leitores? – Perguntei. – Se faz questão... – Será um bom início para o nosso trabalho de hoje...

UTOPIA Ai de quem não alberga um ideal E não sabe atear do sonho a chama, De quem da vida nada mais reclama Do que a mera verdade temporal! Ai de quem escorraça a utopia Esvaziando-se de vida aos poucos, Dos que nunca foram chamados loucos Porque não deram azo à fantasia! Ai de quem não consegue ver estrelas E em redor tudo o que vê é lama, De quem por baixo seu olhar derrama E não aponta ao alto para vê-las! Ai de quem não consegue vislumbrar A comédia escondida sob o drama, De quem nessa cegueira chora e brama Sofrendo suas penas a dobrar! Bendito o que com sonho e utopia Ousar distribuir a sua luz, Pois desse se dirá um certo dia Que mais leve tornou a nossa cruz! – Agora que já divagámos, voltemos ao mais importante – o seu romance, dizme Carmen!

Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal – Será que vale a pena? Será que chegarei a vê-lo impresso? – Murmuro. – Coragem, amiga, ajudá-la-ei! Continuemos! E, de novo, Carmen abre as suas memórias. Carmen ronda então os treze anos. Começam a vislumbrar-se nela os contornos de uma mulher muito feminina. Seios precocemente desenvolvidos, pernas bem torneadas, cintura fina. E cresceu, embora não muito. Findos com sucesso os dois anos preparatórios, Carmen é obrigada a mudar de escola. Também longe de casa, situava-se esta junto à Igreja de São Vicente, nas imediações do Castelo de São Jorge e da Feira da Ladra. O percurso era obrigatoriamente feito a pé – cerca de três quartos de hora para lá e outros tantos para o regresso – pois não havia transportes compatíveis. Lembremo-nos de que nessa altura ter pais que levassem os meninos à escola, de automóvel, era um luxo raro. Escusado será dizer que Carmen e Conceição continuavam companheiras inseparáveis. Conceição ainda mantinha a sua figura frágil, formas dissimuladas, os olhos talvez mais azuis, realçados por fundas olheiras negras que tentava a todo o custo disfarçar. Cada vez mais forte, porém, a sua louvável vontade de vencer, movida pela certeza de que estava no estudo a sua felicidade futura. Carmen não tinha tempo para pensar nisso. Deixava-se levar ao sabor da maré. Tinha outras coisas na cabeça... Ler, viajar, conhecer o mundo, eram os seus sonhos. Mas deixemos Carmen com os seus sonhos e deitemos um olhar à sua realidade de então – ao seu lar e à sua família. Estamos já em 1952. Carlos Alberto tinha partido para fazer o serviço militar em Macau. Carmen recorda-se bem dos navios cheios de tropas junto ao Cais de Alcântara, onde foi com sua mãe despedir-se dele. Muitos gritos, muitas lágrimas; abraços e beijos sôfregos, como se fossem os últimos; depois, nuvens de lenços brancos acenando e os navios afastando-se lentamente, implacáveis, tornando-se cada vez mais pequenos na distância, até desaparecerem na linha do horizonte, como se fossem barquitos de papel. Neles partiam centenas e centenas de “pedaços da própria carne” dos seres que, despedaçados, ficavam imóveis no cais, de olhar estupidificado colado ao rio. Diolinda, apesar de endurecida pela vida, chorava copiosamente, dizendo entre soluços: “Meu querido filho, já não volto a ver-te...” Nesse momento, varriamse-lhe do coração todos os dissabores, todas as arrelias, todas as palavras e acusações amargas que já tinham brotado daquele filho – acções e palavras que não eram senão o fruto da sua desajustada existência. Carmen teve saudades desse irmão. Era de todos o que lhe demonstrava mais carinho, mais ternura, como se depositasse nela todas as suas carências afectivas. Carlos Alberto tinha um coração enorme, daqueles que despem a própria camisa Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal para dar a um necessitado. Carmen não pode esquecer o dia em que ele, aflito, levou para casa um gato, embrulhando-o na sua camisa branca que, de imediato, ficou vermelha de sangue. O pobre bicho tinha sido atropelado. Seu irmão limpou-o, tratou-lhe as feridas, deu-lhe leite, e o animal recompôs-se. Em breve, ronronava em volta das pernas do seu salvador. Para além da faceta altruísta, Carlos Alberto era bem-falante, alegre e divertido; contava histórias mirabolantes e cantava com uma bela voz de tenor. – Gostava muito dele! Era um palhaço que ria para não chorar! – Deixa escapar Carmen. – Disse “gostava”?... Quer dizer que?... – Isso mesmo, minha amiga! Já não se encontra entre nós! Nesta altura, a minha narradora sente-se incapaz de continuar. Vejo lágrimas nos seus olhos, que ela tenta disfarçar puxando de um lenço e limpando os óculos. – Desculpe, foi mais forte do que eu. Apossou-se de mim uma saudade imensa que arrastou com ela recordações terríveis, não dessa época, mas posteriores. Recordações de assassínio e morte... Duma grande dor, também. – Carlos Alberto?... Assassinado?... – Apenas com quarenta e seis anos... Perdoe-me se não posso falar disso agora... – Mas?... A Carmen, sempre tão alegre – titubeei, incrédula. – Nem sempre, minha amiga, nem sempre! Ainda verá rolar muitas lágrimas... Contudo, Carmen recompôs-se rapidamente – mais rapidamente do que eu, confesso! – E recomeçou falando, falando, como que para atropelar sem dó aquela dor momentânea. As cartas de Carlos Alberto iam chegando regularmente de Macau. Nelas, a par dos episódios divertidos que contava, podia sentir-se a sua grande solidão interior, a carência de mãe que ele nunca conseguiu ultrapassar. Acompanhando as cartas, sempre enviava “santinhos”, gravuras de papel com ternas dedicatórias para a sua irmãzinha querida. O que o tinha levado a ser tão religioso, Carmen não sabe explicar. – Ainda conservo essas estampas – diz-me Carmen, visivelmente comovida. – Trouxe até algumas para lhe mostrar. Veja! – Incrível! Nem parece que passou por elas quase meio século! – Exclamo, emocionada, ao ler as dedicatórias. Carmen prossegue:

Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal – Em correio separado, Carlos Alberto enviava-me sedas chinesas, brocados berrantes – para fazer vestidos, dizia ele. – Sabe que ainda guardo numa mala, como relíquia, um corte de brocado “rosa-shocking”, do qual nunca me atrevi a fazer fosse o que fosse?... Em compensação, as sapatilhas de veludo verde com bordados chineses, usei-as até não terem conserto. Com elas fazia as delícias das minhas colegas de escola, dançando em pontas sobre as secretárias reservadas aos professores. Um dia, fui mesmo apanhada por um deles que resolveu entrar na sala mais cedo. Mas, porque era benévolo, desculpou-me. Do que Carmen me contou depois, se bem entendi, quem não desculpou a Carlos Alberto foi o Exército. Fez tais tropelias em Macau que foi deportado para Cabo Verde, de castigo. Era o pular do muro depois do recolher, as saídas do quartel sem dispensa, o regresso a cair de sono e de bebida depois das noites de estúrdia, etc. Constou na família, embora à boca pequena, que se tinha apaixonado por uma chinesa e que, obrigado a deixar Macau, teria por lá deixado o coração e um filho. Foi coisa que Carmen nunca soube ao certo. O que sabe é que ele regressou de Cabo Verde, são e salvo, talvez por volta de 54/55. Vítor Manuel e Fernando José tinham-se tornado também uns belos jovens. Porém, de temperamentos e gostos diferentes. Vítor Manuel vivia para os livros e para a escrita. As faces um tanto pálidas, uma certa tristeza no olhar escuro e profundo, uma timidez mal disfarçada, davam-lhe um ar de artista incompreendido. O cabelo negro, um pouco comprido na nuca (à poeta, como se dizia então) usava-o sempre impecavelmente penteado, à custa da “brilhantina” muito em uso na época; uma camisola branca de gola alta, um sobretudo azul-escuro pelos tornozelos (que tinha a vantagem de encobrir as calças puídas) e uma pasta debaixo do braço completavam o figurino. E não se julgue que esse era o traje de Inverno... Era a sua indumentária, mesmo em pleno Agosto... A sua imagem de marca! Todos os seus amigos, entre eles o Toy, o pintor de que já falámos, professavam gostos e aspectos semelhantes. Havia alguns que trajavam capa e batina pretas. As tertúlias em casa deste e daquele ou no Café Martinho – ponto de encontro de intelectuais – eram o seu passatempo preferido. Um café e água para toda a tarde, livros diversos e jornais aos montes, enchiam as duas ou três mesas que juntavam. Trocavam prosas e versos, desenhos e caricaturas, falavam dos escritores e pintores que estavam na berra e comentavam, entre dentes, a actualidade política. Muitas vezes, Vítor Manuel deixava que Carmen, já uma senhorinha de catorze anos, fizesse parte do grupo. Metia-lhe na mão um livro para ler ou um jornal para que se entretivesse a fazer “palavras cruzadas”. Carmen achava-se importante no meio deles e absorvia como uma esponja tudo o que ouvia. O sentimento que a ligava a este irmão era, para além duma grande ternura, uma profunda admiração. No seu íntimo, albergava uma afinidade com os seus gostos literários, com a sua alma de poeta, até mesmo com a sua faceta mística. De mão em mão, passavam os livros: Carmo Vasconcelos

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“Na Outra Margem entre as Árvores”, de Hemingway (que viria a ganhar o Prémio Nobel em 54); “A Rosa Tatuada”, de Tennessee Williams; “A Noite e a Madrugada”, de Fernando Namora; “A Curva da Estrada”, de Ferreira de Castro; “O Diabo e o Bom Deus”, de Sartre; “A Leste do Paraíso”, de Steinbeck. De boca em boca, corria a fama de pintores como: Júlio Pomar com os seus “Meninos no Jardim” e “Vendedeiras de Estrelas”; Picasso com “Massacres na Coreia”; Miró com “Convergência”; Dali com a sua “Madona de Port Lligat”; Vieira da Silva e a sua “Capela Gótica”. Mas Carmen nunca esqueceu uns livros estranhos que seu irmão recebia pelo correio. Ele não deixava que ela os lesse. “Não são para a tua idade!” – dizia. Mas, curiosa, ela sempre arranjava maneira de lhes dar uma espreitadela. Era literatura que naquela época se lia em segredo – esoterismo, misticismo, ciências ocultas. Talvez Carmen não entendesse completamente o que lia, mas gostava, como se as ideias transmitidas não lhe fossem de todo estranhas... E, passados mais de vinte anos, essas e outras “sabedorias”, como Carmen ligeiramente lhes chama, vieram de novo ao seu encontro, quem sabe se escolhendo elas próprias a hora certa... Mas voltando a Vítor Manuel: Com vinte e um anos, sem emprego, viu-se obrigado a protelar os apelos do espírito – quase sempre incompatíveis com as necessidades da sobrevivência – e a deitar a mão a várias profissões que, obviamente, não se coadunavam com o seu temperamento sensível e idealista. Adiando até à última o ingresso na vida militar, refugiou-se algum tempo no Alentejo, em casa da tia Augusta, trabalhando como empregado de mesa no Café que a ela pertencia. Um retrato que mandou para a família, atestava bem o ar enfiado com que suportava a “fatiota” da praxe: fato preto, camisa branca e laço no pescoço. Carmen está em dizer que lhe veio daí um certo tique engraçado que ainda hoje conserva em certas ocasiões, quando com um dedo enfiado no colarinho, repuxa o queixo para cima, como que para aliviar uma sensação de aperto. Fernando José, mais novo, era irrequieto, alegre e despreocupado; preferia os cinemas e os bailes. Embora estivesse a viver com o pai, raro era o dia em que não passava lá por casa para que a mãe ou a irmã lhe passassem a ferro uma camisa, umas calças, para ir a uma festa, a um baile. Carmen, que tinha um leque de interesses muito alargado, logo se pendurava nele para o acompanhar. Bem frescos na sua memória esses bailes dos anos cinquenta, em que três os quatro elementos formavam um conjunto de “pseudo música”, tocando banjo e bandolim. Fernando José advertia: – Só danças comigo, ouviste? Fica aqui sentada enquanto eu vou dançar, já venho buscar-te! Carmen fingia acatar, mas quando ele voltava, já ela rodopiava na pista de dança. Seu irmão zangava-se, mas no regresso a casa riam ambos, felizes, e do sucedido ele guardava segredo à mãe. Carmo Vasconcelos

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Nessa altura, Fernando José trabalhava com o pai – que tinha sempre uma firma, um escritório, fosse do que fosse. Era uma espécie de secretário dele para todo o serviço, fazendo de tudo um pouco. Ia aos Bancos, aos Correios, buscar-lhe um café, comprar-lhe cigarros; atendia telefonemas, marcava entrevistas, etc. Em troca, seu pai dava-lhe diariamente uma pequena quantia, para o tabaco e pouco mais. – Foi numa dessas funções de “para todo o serviço”, pegando numa mala de livros pesadíssima, que Fernando José deu o primeiro passo para a morte – revelou-me Carmen, com voz embargada. – Meus Deus! Tão jovem!?... – Exclamei, sem me conter. – É verdade, o primeiro passo para o último caminho – respondeu Carmen. E fazendo menção de continuar: – O que se passou a seguir... Carmen parecia desligada das horas, de tal modo se tinha enredado no passado. Fui eu que, reparando no seu ar cansado, no seu olhar húmido e distante, puxei do relógio e fingi estar atrasada. Por minha vontade não teria arredado pé, mas senti que continuar a remexer nas cinzas só faria avivar as brasas dolorosas que um dia queimaram, e voltariam a queimar agora, a “nossa” Carmen. E, para uma única tarde, a fogueira já tinha ardido bastante... Por isso, dando um tom natural às minhas palavras, sugeri: – Não acha melhor terminarmos por hoje, Carmen? É que... daqui a pouco tenho um compromisso – menti – e quase me tinha esquecido dele. – Claro, minha amiga! Fez bem trazer-me de volta ao presente. Na realidade, só agora reparo como também eu estou atrasadíssima. – Então, até mais ver! – Lancei, apressadamente, receosa de deixar transparecer a minha mentira improvisada. – Até mais ver! – Respondeu Carmen, com um sorriso estranho, como se tivesse compreendido tudo...

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Durante duas semanas não voltei a ver a minha interlocutora. Tínhamos ficado num ponto quente, prestes a saltar do lado “esquerdo” das suas memórias. “Esquerdo”, pois segundo antigas crenças era o lado do corpo e da mente que armazenava as coisas más.

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Círculo do Graal Uma outra Carmen começava a abrir-se para mim, revelando-me facetas impensáveis da vida de uma jovem que, julgara eu, fora sempre alegre e despreocupada. Mas, como dizia Proust: “A nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio.” Uma ligeira gripe serviu-me de desculpa para protelar a reunião seguinte. O relato que se avizinhava não me entusiasmava nem um pouco. Embora o adivinhasse rico de emoções, pesava-me desenterrar tristezas duma amiga tão querida. Todavia, um romance não é um conto de fadas! Devo por isso aceitar todo o material que me é oferecido e que é, afinal, o único de que disponho no momento! E foi com este pensamento encorajador que caminhei para o encontro que, finalmente, eu própria me tinha decidido a marcar. Para meu espanto, Carmen já me esperava. Sorridente, como de costume. Após as saudações habituais, acrescidas do meu “Bravo!” à sua pontualidade, pedimos um café (um café sempre nos animava) e decidimos encetar rapidamente a continuação do nosso trabalho. Eu, simulando não me lembrar do ponto triste onde tínhamos ficado, atirei: – Então, Carmen, o que me traz hoje? Lúcida e objectiva, Carmen respondeu: – Antes de lhe transmitir algo de novo, gostaria de concluir o assunto interrompido da última vez por causa do seu “compromisso urgente”, lembra-se? Nessa altura, deixei em suspenso uma frase: “O que se passou a seguir...” – Ah, sim! É verdade, agora me recordo! Partamos então daí, se prefere. Carmen estava muito serena e pegou na deixa, calmamente. – O que se passou a seguir foi terrível! Ver desaparecer um jovem que vendia saúde e alegria, em cerca de uns escassos três meses, é-me difícil descrever. Todas as palavras me parecem escassas. Mas, “ver desaparecer” é o termo certo, pois Fernando José ia desaparecendo todos os dias um pouco, perante os nossos olhos sofridos e os nossos esforços vãos. Depois de ter pegado naquela mala fatídica, algo que residia nele, quieto, adormecido, acordou de repente com uma fúria assassina e não teve contemplações. Começou por cercá-lo com dores nos rins e nas costas. A princípio, atribuiu-se a causa a um mau jeito ou a uma crise lombar. Experimentaram-se pomadas, fricções; tudo inútil, não havia melhoras. Consultados médicos e hospitais, fizeram-se os exames de diagnóstico possíveis à data. Não foram precisos muitos, nem muito tempo, para o “cancro” mostrar a Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal sua face hedionda, localizada no baixo-ventre. A opinião médica foi unânime: – É preciso operar com urgência! E com urgência Fernando José foi operado; num Hospital, onde, dizia-se, estavam os melhores especialistas. Porém, todos foram impotentes. Alegaram não haver nada a fazer, devido ao estado adiantado da doença, e mandaram-no para casa. Para casa, para morrer! Não só para morrer... Também para sofrer! Um sofrimento atroz e indescritível que jamais se apagará da minha mente... Tentando dissimular a minha perturbação, interrompo Carmen: – Descansemos um pouco! Quer uma água, outro café? – Talvez uma água, sim! A minha garganta está um tanto seca. – Não admira, além de ter falado ininterruptamente já fumou quase um maço de cigarros! – Ah! Os meus cigarros! São perniciosos, eu sei! Mas fazem-me tanta companhia... Os cigarros são comparáveis a certas pessoas; agridem-nos, fazemnos mal, intoxicam-nos, e mesmo assim teimamos em não dispensá-las, tomando-as como imprescindíveis, no receio pueril de ficarmos sós... A propósito, vou tentar dizer para si um poema que fiz há tempos, exactamente sobre o cigarro. Quer ouvir?... – Claro! Um pouco de poesia só poderá fazer-nos bem. Nesta altura, será como um bálsamo! – Então, lá vai! Se quiser, pode escrever!

NUM CIGARRO Dia após dia, queimo num cigarro Essa imagem que tento dissipar De um amor fugidio que não agarro E que mora não sei em que lugar. E queimo ainda essa voz que teima Em reclamar, furtiva, esse amor, Num crepitar constante que me queima, Braseiro manso, mas devastador! Dia após dia, queimar é o que desejo, Essa imagem, longínqua e desfocada, De um amor que imagino mas não vejo, Para torná-la pó, cinzas e nada! Mas a cada cigarro que eu acendo, Na ânsia de queimar, desiludida, Essa miragem, dor que não pretendo, Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Vorazmente, eu vou queimando a vida!” – Cuidado, Carmen! Está desafiando o Cupido... – Ah, não! Sabe que acabámos por nos tornar velhos amigos? – Amigos?... – Digamos que aprendemos a brincar um com o outro... Soltei uma gargalhada. – Bem, agora que já nos refrescámos com água e poesia, posso continuar a minha narrativa? – Vamos a isso! Carmen recomeçou. O seu rosto expressivo, que por momentos se desassombrara, retomou o ar grave. – Depois de Fernando José ter sido mandado para casa, pôs-se a questão: qual casa? A da mãe ou a do pai? Claro que foi para nossa casa! Ninguém melhor do que a mãe para o acompanhar naquele momento angustiante! Ele era o único que ignorava a realidade. E até mesmo nós que conhecíamos a gravidade do seu estado, não deixávamos de albergar esperanças. – Os médicos às vezes enganam-se… – diziam uns; – É tão moço ainda, há-de recuperar-se! – diziam outros. Como se perante um facto tão terrível e inesperado, todos duvidassem da sua veracidade. Estranhamente, o meu jovem irmão era o mais esperançado na convalescença. Convalescer da operação, fora o motivo que os médicos lhe haviam dado ao mandá-lo para casa tão rapidamente. Crente nisso, a sua vontade de viver debatia-se ferozmente com essa força estranha que parecia querer arrancá-lo à vida. E nem por um só momento, ele mostrou suspeitar do mal que o atingira. Todos nos unimos como pudemos. Apesar de o “padrinho” providenciar as despesas elementares, Vítor Manuel recorria ao nosso pai que, solidário naquela hora amarga, mandava algum dinheiro e medicamentos. A minha mãe tentava a todo o custo manter as forças do filho doente, fazendo-o engolir um caldo, um copo de leite, tudo o que ele dizia apetecer-lhe e que acabava por não ingerir. As dores foram-se tornando cada vez mais atrozes, os medicamentos menos eficazes. A morfina foi o último recurso. Porém, uma vez aplicada, todos sabemos como a habituação ao produto se instala velozmente, dando origem à sua consequente ineficácia. Um mês, dois meses, e tudo cada vez mais difícil, mais doloroso... Fernando José era já uma sombra do que fora; apenas dois olhos negros, desorbitados, sobressaíam na sua magreza esquelética. As injecções que começaram por ser diárias, eram já necessárias de hora a hora, quer de dia quer de noite. Quantas vezes a minha mãe me levantou da cama, de madrugada, para ir com ela tocar às portas dos enfermeiros mais próximos a fim de lhes implorar Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal que fossem ministrar uma injecção. Por fim, perante incómodo tão assíduo e fora de horas, as respostas negativas intensificaram-se: “O Sr. Enfermeiro não está, só amanhã!”, “A Sra. Enfermeira está de serviço ao Banco esta noite!”, “O Sr. Enfermeiro foi atender outro doente!”... Voltávamos para casa em pânico, lágrimas nos olhos, o coração apertado por tanta insensibilidade, e por termos de enfrentar tamanha dor sem lhe levar apaziguamento. Já na fase terminal da doença, minha mãe, arrancando forças não sei de onde, enche-se de coragem e, sem nunca ter aprendido, passa ela própria a injectar o filho, quando, perante os seus gritos, já não suportava vê-lo sofrer. Ao fim de três meses, simultaneamente tão curtos e tão longos, cessou a batalha, a corda quebrou pelo lado mais fraco – a impotência humana perante a invencível lei da morte! Carmen calou-se. Respirou fundo, acendeu mais um cigarro... Imitei-a. Tentando romper o súbito silêncio, exclamei: – Que tragédia! Não deve ter sido nada fácil para uma jovem de catorze anos presenciar tudo isso. Por outro lado, que mãe corajosa a vossa! Como a vida não parava de pô-la à prova, de a castigar... – Foi mesmo, minha amiga! Uma grande mulher, a minha heróica mãe! Só depois de eu própria ter sentido na pele as várias queimaduras da vida, comecei a compreendê-la melhor. Quanto à jovem de catorze anos que eu era e que presenciou todo aquele drama, hoje eu sei que transportava dentro de si “uma alma bem mais velha”. Só muitos anos mais tarde entendi porque tinha ficado quase insensível aquando do funeral do meu querido irmão. Toda a gente chorava! Eu olhava-o, indiferente, como se ele já não estivesse naquele lugar... Julgo que, tal como um caminheiro que conhece bem a estrada, à força de tantas vezes a percorrer, eu já era sabedora, embora inconsciente, de que a morte não é o fim da caminhada. Apenas o final de uma etapa, o culminar de uma série de experiências, o “despir” de um corpo gasto ou precocemente deteriorado; uma pausa para a alma se “revestir” de um novo invólucro e continuar a jornada. Carmen falava rápida e naturalmente, como se falasse de um assunto vulgar. No entanto, as suas palavras soavam-me confusas, dificilmente faziam sentido, o que me levou a interrompê-la: – Mais devagar, Carmen, se não se importa... Não consigo acompanhá-la. Falou de “uma alma bem mais velha”, de “uma sabedoria inconsciente”, do “despir um corpo gasto”, de “uma pausa...”? Está novamente a falar-me de Reencarnação? Carmen pareceu acordar do que, para mim, era um monólogo. – Desculpe, minha amiga! Por vezes, falo involuntariamente do que me apaixona...

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Círculo do Graal – Não! Continue! É uma matéria que até me parece interessante mas que conheço apenas superficialmente. Ainda me suscita dúvidas, interrogações... – Compreendo! A mim, porém, afigura-se-me bastante clara. Mas foi preciso estudá-la a fundo... Só depois, Vida e Morte passaram a ter para mim significados compreensíveis. Nessa matéria encontrei explicação para quase tudo o que não entendia. Hoje, acredito que a morte não existe, não obstante o desaparecimento do corpo físico, e que ela é apenas a transição para um plano de consciência diferente, do qual havemos de retornar várias vezes para cumprir a Lei Cósmica da Evolução. Quanto à vida, aliás vidas, sei que cada uma delas é apenas uma etapa da pirâmide que escalamos, enfrentando lutas e dificuldades, até que o tempo certo nos mostre o Vértice Luminoso da Pirâmide. – Mas, Carmen... – Voltaremos a falar sobre isso, minha amiga. Verá que é uma doutrina apaixonante. Dizendo isto, Carmen começou a arrumar maquinalmente as suas coisas. Percebi que estava dando por findo o nosso encontro. Apressei-me a despedir-me, não resistindo ao impulso de a beijar ternamente nas faces, enquanto lhe dizia: – Mais uma vez, muito obrigada! – Não me agradeça, por favor! Eu é que me sinto grata por poder contar com uma ouvinte tão atenta; simbolicamente, uma fada que nesta retrospectiva me tem ajudado a expulsar demónios e a reaver deuses. Retrospectivas de vida são como visitarmos um sótão há muito fechado à chave, onde largámos as “coisas velhas”. Se apurarmos o ouvido, perceberemos que essas velharias têm voz própria, e que todas elas nos dizem terem cumprido uma finalidade no tempo apropriado, tornando-se depois testemunhos das nossas etapas vencidas. – Nunca tinha pensado nisso! Mas sendo assim, acompanhá-la-ei na próxima “visita ao sótão”! – Respondi-lhe, em ar de graça. – Tudo bem, conto consigo! – Retornou Carmen, deixando regressar o seu sorriso.

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Capítulo VIII Eis-me hoje de visita a mais um recanto do “sótão” de Carmen, aonde a acompanhei conforme o combinado. Bem instalada, de ouvidos bem atentos, escuto e escrevo: Após a partida dos dois irmãos – Carlos Alberto, levado para terras tão longínquas, Fernando José, tão cedo regressado à eternidade – Carmen sentiu-se mais pobre, mais só, defraudada do carinho de ambos. Diolinda, embora fisicamente aliviada de canseiras, carregava agora o peso do maior dos desgostos, a perda de um filho! Porém, a vida, de ciclo inalterável, obriga-nos a seguir a sua rota, a lutar contra as marés, a esbracejar para não soçobrarmos. E nessa luta, obriga-nos até a esquecer! Contudo, nos subsequentes Natais em casa de Carmen, quando se erguiam os cálices com o vinho do Porto para fazer a tradicional “saúde”, erguia-se com eles a memória dos que tinham partido, e era com lágrimas nos olhos que todos, de pé, tocavam os cálices, dizendo, solenemente: “Pelos presentes e pelos ausentes!” Diolinda ia envelhecendo e tornava-se cada dia mais nervosa e irritadiça, aparentemente mais dura. António, pelo contrário, redobrava de calma e paciência. Era ele que amainava frequentemente as explosões da mulher, umas vezes dirigidas a Carmen que, como já sabemos, era rebelde, outras vezes dirigidas a Eduardo que, nos seus dez anos traquinas, nem sempre lhe obedecia. António, tentando serenar Diolinda, ora intercedia por Carmen: “Deixa a pequena, nunca perdeu um ano, traz sempre boas notas...”, ora defendia Eduardo: “Tem calma, mulher, deixa o garoto brincar um pouco, depois fará os deveres...” De seguida, chamando o filho, dizia-lhe: – Não arrelies a tua mãe; sabes como anda nervosa. Deves estudar. Põe os olhos na tua irmã! António tinha nascido sob os auspícios do signo de “Balança” e identificava-se perfeitamente com os seus canais astrológicos. Segundo a minha narradora, “Balança”, além de abarcar as características do signos de “Ar”, que já descrevemos, é o signo do equilíbrio, da harmonia, da compreensão humana, da amabilidade, da doçura, dos bons costumes, da justiça, da paz e do coração amante. Faço uma pausa para interpelar Carmen: – Vejo que se prende à Astrologia... – Digamos, minha amiga, que ela me atrai. Não a pseudo astrologia enganosamente comprimida num minúsculo rectângulo de jornal, mas aquela que atraiu Copérnico, Galileu e Paracelso, há muitos séculos atrás, no tempo em que se inferiu a existência de relações e concordância entre o que se passa no Universo Sideral e o que ocorre na Terra e, em particular, no Homem.

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Círculo do Graal – Mas diga-me com sinceridade, Carmen, acredita mesmo que os Astros podem reger o nosso destino? Carmen, não gostando de falar levianamente, pensa um pouco antes de responder: – Reger o nosso destino? Não! As características astrológicas dadas por um determinado signo não significam de modo nenhum um destino fixo e imutável, escrito de antemão, a que não se pode escapar. Porém, o conhecimento dos factores de personalidade que recebemos ao nascer devido à posição dos astros nessa hora, pode servir-nos, sim, para canalizarmos as nossas potencialidades, trabalharmos a nossa matéria-prima em direcção ao objectivo certo. Não falando apenas dos factores positivos a que chamamos “qualidades”, mas também dos factores negativos, ou seja, daquilo a que vulgarmente chamamos “defeitos”. Foi Eça de Queiroz quem disse: “se a curiosidade, por um lado, leva a espreitar para casa do vizinho, por outro, conduziu à descoberta da América”. O que quer dizer que devemos aproveitar o “ouro” das características positivas, não desdenhando, contudo, o “barro” das negativas. Resumindo: Todos temos uma determinada “natureza” que faz parte da nossa individualidade. Querer negá-la, em todos ou em parte dos seus aspectos, é pretender remar contra uma corrente demasiado forte. Muito mais fácil e produtivo será encaminhar essa natureza por uma via útil, aproveitando a energia que lhe é própria. Se todos nós tivéssemos um melhor conhecimento de nós mesmos e da espécie de energia que corre a nosso favor, mais facilmente evitaríamos decepções e frustrações; evitar-se-ia o mau médico que daria um óptimo advogado, o engenheiro medíocre que daria um louvável professor, ou o arquitecto frustrado que poderia ser um pintor genial, etc. É assim que eu encaro a Astrologia, não me “prendendo” a ela, como insinuou. Sei que há outras forças que moldam a nossa vida. Não podemos esquecer os genes, o ambiente, a educação, a instrução, o “Karma” e, decorrência de algumas ou de todas elas, a saúde física e mental. Não sei se respondi à sua pergunta, ou se me perdi falando demais... – terminou Carmen. – Digamos que excedeu as minhas expectativas. Mas as suas respostas sempre me surpreendem com algo que, não sendo totalmente novo para mim, ainda permanece difuso na minha mente. Por exemplo, já li alguma coisa sobre o “Karma”, mas confesso que não aprofundei. Por vezes, assaltam-me dúvidas, cogitações, mas logo as expulso, talvez por comodismo. Mas agora, à medida que a Carmen vai deixando escapar essas “coisas”, é como se a minha curiosidade fosse despertando aos poucos. – Então, está no caminho certo, minha amiga. “Aos poucos” é a medida ajuizada. Só devemos lançar a semente, depois de preparada a terra! – A ideia que tenho é que o “Karma” está relacionado com os conceitos de “destino” ou “fatalismo”, não é assim?... Carmo Vasconcelos

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– Nem pensar! Onde ficava então o livre arbítrio de que é dotado o Homem como ser pensante? O “Karma” é apenas a justa e harmónica Lei da Compensação que, não interferindo com esse mesmo arbítrio, não deixa de ser a balança de nossos actos e comportamentos, que nos sujeita, inevitavelmente, a colher o que semeamos, quer nesta vida quer numa próxima existência. – Parece-me agora mais compreensível... – Mas não acha, minha amiga, que estas nossas conversas extra estão empatando o curso do seu romance? – Lembrou Carmen. – Tem razão, voltemos a ele! – Ao trabalho! – Dissemos em uníssono, o que nos fez rir bastante. Após a morte de Fernando José, a vida foi retomando aos poucos a normalidade. Carmen prosseguia os seus estudos na mesma forma de sempre, isto é, sem grandes cuidados, sem grandes canseiras, não permitindo que a tomassem na totalidade. Situada a escola, como já disse, junto à Igreja de São Vicente, por detrás dela se fazia a típica Feira da Ladra. Desconhecendo-se a origem do topónimo, sabe-se no entanto que a existência desta Feira data dos primórdios da Nacionalidade, e que depois de ter ocupado vários locais, como a Ribeira e o Rossio, estabeleceu-se finalmente no Campo de Santa Clara. Hoje, penso estar um pouco deturpado o seu panorama, mas na altura era uma espécie de Mercado de Antiguidades, à semelhança do “Rastro” de Madrid, do “Marché-aux-Puces” de Paris, do “Porta Portheçe” de Roma ou do “Porto Bello” de Londres. Tudo ali se vendia, desde o inútil até às valiosas obras de arte. Frente a essa miscelânea de objectos díspares, detinha-se Carmen, extasiada. O seu espírito curioso estacava em todas as bancas e barraquinhas, bem como nos inúmeros estendais coloridos que cobriam o chão, fazendo-a tropeçar por vezes nos objectos mais estranhos. A sua atenção tanto se prendia a um prato antigo, um velho sabre cravejado de pedras preciosas, um vaso de prata, como a figurinhas de porcelana, pinturas de madonas e santos, caixas de música, rendas, castiçais, etc. Voltava às aulas com as faces afogueadas, e os seus olhos cheios de tanta cor, de tanto brilho, pregavam-se às letras e aos números com mais ardor, mais entusiasmo. E ao fim do dia, regressava a casa sentindo-se mais rica, carregando consigo todas as preciosidades que a tinham encantado. Igualmente perto, o milenário Castelo de São Jorge, pleno de História e de tradições. Mistura de arquitectura da época romana, suevo-gótica e árabe, foi nele que o nosso primeiro rei colocou a bandeira das quinas no lugar do quadrante muçulmano. E nessa varanda sobre Lisboa, onde a cidade se abraça em redor das suas muralhas, Carmen também se perdia, na visão contemplativa do Tejo, galgando os horizontes distantes. Percorreu as suas alamedas arborizadas, sentou-se nos velhos bancos de pedra. Desde a Cidadela à Torre de Ulisses, da Torre do Tesouro à Torre de Menagem, da Porta da Traição às altas ameias, Carmen conhecia-lhe todos os recantos, todos os esconderijos. Neles correu, brincou de esconde-esconde e... namorou.

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É altura de lhes dizer que Carmen, apesar dos seus verdes catorze anos, já tinha descoberto o Amor. O seu primeiro amor! Como e quando? No dia em que ele se mudou, junto com os pais, para um andar vago, prédio fronteiro ao seu, janelas a um salto das suas, não tardando que ambos começassem a fazer dessa abertura para o exterior o seu lugar preferido, o seu posto de vigia recíproco. Rapidamente surgiu a oportunidade de travarem conhecimento. A mãe de Edgar – assim se chamava o eleito – instalou na nova morada, um salão de cabeleireiro. Diolinda passou a ser sua cliente e Carmen acompanhava-a de bom grado. Aí, os dois jovens chegaram à fala. Edgar tinha dezassete anos, finalizava o Liceu, era filho único e tinha uma relação excepcional com a mãe – muito carinho, muito companheirismo, muita dedicação de parte a parte. Carmen chegou a sentir uma ponta de inveja daquela ternura tão explícita entre mãe e filho. Mas logo percebeu que isso era apenas um dos privilégios de que gozam os filhos únicos, privilégio que ela jamais preferiria à “riqueza” dos seus numerosos irmãos. Pouco a pouco, foram-se conhecendo melhor. Enquanto Diolinda arranjava o cabelo no Salão, os dois jovens passavam à sala de estar e conversavam. Falavam dos estudos, de leituras, de música, e de si próprios. Edgar, não sendo propriamente bonito, era muito atraente. Inteligente, alegre, e um conversador brilhante. Amava os livros e coleccionava pensamentos célebres, tal como Carmen. Além disso, tocava piano e cantava com uma voz cálida e romântica. E ambos adoravam dançar. Sem se darem conta, a breve trecho estavam apaixonados. Depois, a propósito de trocarem livros, ou a qualquer outro pretexto, Edgar passou também a frequentar a casa de Carmen. Diolinda, apesar de conservadora, não se podia dizer que fosse anti-social. Na sua casa recebia de maneira afável, tanto a família como os amigos, seus e de seus filhos. Porém, no que tocava a Carmen e às suas amizades, não descurava a vigilância. Quando Edgar manifestou o desejo de namorar a filha, logo respondeu: – Nem pensar... Carmen é muito nova! Só amigos! Curioso é que Carmen, de facto, ainda usava “sockettes”. Sua mãe só a autorizou a usar meias de “nylon” aos dezassete anos, quando acabou o Curso. Mas... nem esse pequeno detalhe, nem a proibição de Diolinda, a impediram de responder ao apelo do Amor! Sempre que podiam, os dois jovens encontravam-se longe das vistas daquela mãe tão atenta. Edgar ia esperá-la à Escola, tão-somente para fazerem o caminho juntos, de mão dada. Ou, se faltavam professores e havia uma ou duas horas de lazer, Carmen logo lhe telefonava e ele corria para estar com ela. Juntos, conheceram melhor o velho Castelo de São Jorge e os Miradouros de Lisboa, onde, por entre trepadeiras e com a cidade aos pés, se sentiam no céu. Carmo Vasconcelos

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Todos nós, salvo raras excepções, conhecemos as delícias do primeiro amor, do primeiro entrelaçar de mãos, do primeiro beijo... E Carmen sentiu todas essas emoções, intensamente. Como definir o namoro daqueles verdes anos? Puro? Inocente? Misterioso? Talvez o vocábulo mais acertado seja “Romântico”, comparado com os namoros de hoje, em que nada é proibido, nada é ocultado e, consequentemente, desvanecido se torna o mistério, diluído se esvai o romantismo. Naquela época, uma troca de olhares mais ternos, um apertar de mãos mais caloroso, um leve roçar de lábios, era o bastante para nos deixar nas nuvens. Durante muitos anos, Carmen não viu mais ninguém, não havia jovem, por mais bonito, por mais educado, que se comparasse àquele que amava! Porém, há sempre um “porém”. Edgar era demasiado conquistador e muito assediado. As raparigas esvoaçavam em volta dele como moscas em volta de um pote de mel, e ele não as enxotava... E não só raparigas. Mulheres feitas também. Mulheres que ofertavam facilmente a Edgar o que ele não ousava pedir a Carmen. Diolinda foi sempre contra aquele namoro. Chegou até a trancar, provisoriamente, as persianas das janelas que batiam com as do vizinho, não se dando conta de que, inversamente ao que pretendia, não mais lograva do que exacerbar aquele amor. Carmen insurgia-se; não só aquela prepotência arranhava a sua sensibilidade, como a magoava profundamente o desdém materno pelos seus sentimentos, criando-lhe a sensação dolorosa de que a mãe não a amava o bastante. Então, revoltava-se e atrevia-se a discutir com ela. Nessas discussões, trazia o pai à conversa, lançando à cara de Diolinda o quanto gostava dele, afirmando que o sentia mais inteligente, mais compreensivo e tolerante. Um dia, numa discussão mais acesa, Carmen chegou até a recriminá-la por se ter separado dele, deixando os filhos privados da sua ternura. A resposta não se fez esperar: uma pesada mão que, não sendo de ferro, também não era de prata, assentou duramente no rosto de Carmen, obrigando-a a calar-se. Contudo, não para sempre! Carmen ainda enfrentaria sua mãe muitas mais vezes, e outras tantas sentiria o peso da sua mão. Como se tudo isso não fosse já o bastante para a fazer sofrer, Edgar, não abdicando dos seus devaneios, frequentemente era apanhado a cortejar uma ou outra rapariga. Carmen fingia não ver, não se zangava, não dizia nada. Mas como represália, deixava-se acompanhar até à porta de casa por um ou outro jovem, dos muitos que lhe faziam a corte. Era uma espécie de vingança muda! Edgar, que tudo presenciava da sua janela, logo se apressava a procurá-la para recompor as coisas, reconquistar o seu lugar ameaçado, dizendo-lhe: “O que viste não é nada, nada importante! Contigo, é para casar!” E com este argumento recuperava a confiança de Carmen e tudo recomeçava. Porém, as tentações eram mais fortes do que ele e, rapidamente, voltava ao mesmo. Carmen, ferida no seu orgulho, rompia o namoro e ia aceitando a corte Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal ora de um ora de outro, procurando um substituto para esquecer Edgar. Todavia, cega no seu amor, não conseguia encontrar o mesmo encanto em nenhum outro e logo os dispensava. Deste modo se foram passando os anos, durante os quais se manteve um jogo perigoso de “pega e larga” entre os dois jovens. Como acabou o jogo?... Não é possível sabê-lo hoje. Começa a fazer-se escuro neste sótão que visitámos e as velharias, cansadas, deixaram de se fazer ouvir. Decepcionada, só me resta seguir Carmen, que já desce a caminho do patamar da sua actualidade.

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Capítulo IX Carmen telefonou-me uns dias antes da data aprazada para nos reunirmos, avisando-me de que nessa altura estaria de férias numa praia da nossa Costa. Convidou-me a ir até lá. Aceitei, gozando antecipadamente, não só o prazer de um dia ao ar livre, como a perspectiva de poder engordar o meu romance, ainda tão magro. Chegado o dia marcado, dificilmente encontro Carmen no lugar combinado – uma esplanada de praia cuja única referência era um toldo verde. Fui percorrendo o pontão, onde bares e esplanadas rivalizavam a escassos metros uns dos outros. Toldos verdes, perdi-lhes a conta. Comecei então a olhar atentamente os ocupantes das esplanadas. Esquecendo os transeuntes, ia esbarrando de quando em vez com uma barriga obesa, um seio volumoso, tropeçando a cada passo em pés enormes e molhados, cães que corriam seguindo os donos. A luminosidade do dia confundia-me a visão, e um tanto aturdida, o que eu via já não eram pessoas. Eram apenas corpos nus ambulantes, ossos montados em andas, banhas derretendo em dobras sobre pernas minúsculas, bocas disformes chupando gelados em trejeitos obscenos. O que eu ouvia já não eram sons humanos, eram gritos simiescos, gargalhadas de hienas com cio, choros aflitivos de crianças a quem, selvaticamente, tinham tapado o nariz e a boca, obrigando-as a mergulhar naquele mar imenso que as assustava. Por pouco não desisti! Finalmente, pareceu-me reconhecer Carmen reclinada sobre uma cadeira, numa esplanada deserta, um tanto recuada, onde uma fila de arbustos verdes, artificiais, se interpunha para nos poupar àquele espectáculo grotesco, para amortizar aquela balbúrdia de sons dissonantes. Um chapéu vermelho de abas largas cobria-lhe parcialmente o rosto; um “top” branco deixava-lhe a descoberto apenas o colo e os ombros morenos, e uma saia longa, serpenteada de arabescos vermelhos e brancos, descia-lhe até aos pés, poisados de forma displicente numa cadeira fronteira. A posição, algo irreverente, e o traje a destoar no meio de tanta nudez, fizeram com que me aproximasse. Um livro e um estojo cigarreira/isqueiro meu conhecido, poisados sobre a mesa, dissiparam de vez as minhas dúvidas. De olhos semicerrados, Carmen nem deu pela minha chegada. Quase a assusto quando lhe toco ao de leve, dizendo baixinho: – Bom dia, Carmen! – Ah! É você, minha amiga? Já? Que horas são? – Passa das onze. Venho cedo? – Não! Eu é que perdi a noção do tempo. Creio que estava sonhando. Hoje sintome estranha, pairando num ponto abstracto, indefinível, entre feliz e melancólico. Deve ser a misteriosa influência do mar! Além disso, está um dia Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal radioso, e este Sol que me afaga o rosto e os sentidos, trouxe-me à pele carícias remotas e perdidas. Deixei-me embalar pelo suave murmúrio das ondas, envolvime nelas como num abraço de amor, e uma deliciosa languidez transportou-me oceano além, até ao misterioso Continente Africano. Era lá que eu estava quando me despertou. Um pouco embaraçada, desculpei-me: – Lamento tê-la acordado de tão belo sonho. Como podia adivinhar?... – Ainda bem, minha amiga, que me trouxe à realidade. Foi tudo há tanto tempo... Já nem faz sentido. Um tanto confusa, pergunto: – Mas... era apenas um sonho ou já esteve realmente nesse continente distante? – Ambas as coisas! Foi uma realidade e um sonho, um sonho de amor... Porém, tão breve que me deixou na boca o travo amargo da iguaria roubada... Ventos da Revolução, minha amiga! Estávamos em 74... Perante a ambígua resposta de Carmen, hesitei, mas arrisquei perguntar: – Outro amor?... Não me diga que o Cupido...? – Não sabe que o Cupido tem asas, minha amiga? Não há continente que lhe escape... – Quer falar-me disso? – De quê? Do sonho? Da felicidade breve? Da conturbação? Do meu amor abandonado? Não sei! Creio que ainda não! Talvez mais tarde... – Respondeu Carmen com a voz velada. – Como queira! – Respondi, um tanto desiludida. De súbito, o semblante de Carmen modificou-se, e ouvi-a dizer num tom cristalino e alegre: – Creio que por hoje já estive demasiado tempo sentada sobre as minhas lembranças. Que tal darmos um passeio ao longo da praia? Ainda mal refeita da minha recente experiência deambulante, quase gritei: – Isso não! Por favor! Perante a estranheza de Carmen, contei-lhe resumidamente o que tinha sofrido para a encontrar. Carmen riu, e disse: Carmo Vasconcelos

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– Ah! As pessoas! Sabe, minha amiga? Eu embrenho-me de tal maneira nos meus pensamentos, nas minhas recordações, nas minhas sementeiras poéticas, que nem dou pelos estranhos que me rodeiam. No entanto, compreendo como tudo isso deve ter sido desagradável para si. Iremos então para minha casa! Apresentar-lhe-ei a minha família mais chegada. Depois, poderá refrescar-se, descansar um pouco, enquanto preparo um almoço leve. Concordei de imediato, e visivelmente aliviada quando metemos pés a caminho. A casa de Carmen, isto é, um singelo apartamento de férias, distava apenas uns poucos metros da praia. Modernamente equipado, dispunha de três quartos, onde o mobiliário de palhinha e os reposteiros floridos davam uma nota de frescura. Uma sala enorme separava-se da “kitchenette” por um gracioso balcão de madeira ao qual se encostavam quatro bancos altos, sugerindo refeições rápidas. Na sala, uma mesa oval, de boa madeira clara, fazia conjunto com dois jogos de sofás de tecido lavrado em tons suaves de verde e rosa. O chão de mármore, cor de champanhe rosado, arrefecia impiedosamente as ondas de calor que ousassem entrar. Ao fundo, numa ampla varanda coberta por um toldo colorido, a mesa branca de ferro forjado e o carrinho de bebidas completavam a decoração. Situado o apartamento num andar altíssimo, da referida varanda abarcava-se praia e mar numa extensão a perder de vista. A família de Carmen era simpática e muito acolhedora. Carmen fez as apresentações: – Esta é a minha amiga Carmo Vasconcelos com quem me encontro frequentemente. Ambas amamos a escrita, e juntas estamos tentando escrever um romance... Depois, voltando-se para mim: – Rosalina, mãe do meu falecido marido; Pedro e Telmo, os meus filhos; Isabel, mulher de Telmo, e o meu neto Diogo, filho deles. Com excepção do bebé Diogo, que dormia profundamente, alheio a estas etiquetas, todos nos cumprimentámos numa mistura de beijos amistosos e mãos que se cruzavam, acompanhando os proverbiais “Muito prazer!”. Apresentações feitas, Carmen sugeriu: – Carmo, por favor, fique à vontade. – Isabel, leve a nossa convidada até à varanda, enquanto preparo alguma coisa para comermos. Rosalina, sempre pronta a ajudar, seguiu Carmen. Não tardou que passássemos à mesa do almoço, primorosamente posta. Carmen, com aquele espírito prático que eu já tinha adivinhado nela, tinha preparado, num ápice, uma refeição fria muito agradável. Uma entrada de ricota com nozes – uma delícia composta de queijo, tâmaras, nozes e passas, tudo picado e envolvido em maionese, sobre folhas de alface; uma salada surpresa, fresquíssima, onde consegui descobrir cubinhos de tamboril, camarões, ovos Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal cozidos e azeitonas verdes, tudo coberto com molho de abacate. A finalizar, uma mousse de manga, bem gelada. Durante o almoço, conversámos, conhecemo-nos melhor. Soube que Rosalina tinha a bonita idade de oitenta e quatro anos e que o seu único incómodo eram as artroses dos joelhos, o que a obrigava a apoiar-se numa bengala. Todavia, uma cabeça muito lúcida e a energia com que ainda ajudava nas lides caseiras, espantaram-me. Pedro, o filho mais velho, enterneceu-me pelo carinho que dispensava a toda a família, mas em especial a sua mãe. Com trinta e quatro anos mantinha-se solteiro, e ninguém lhe daria a idade não fosse o cabelo negro que começava a mesclar-se de branco, contrastando com um rosto de menino. Parecidíssimo com Carmen! – Observei. Os jovens, Telmo e Isabel, apenas com vinte anos e já pais de um bebé, conseguiram contagiar-me com a sua vitalidade e juventude. Diogo, que entretanto acordara reclamando o seu biberão, era um bebé adorável. Com pouco mais de dois meses muito rechonchudos e mexidos, prometia vir a ser um belo rapaz, tal a vivacidade com que o seu olhar nos seguia, a força com que tentava erguer a cabecita. Mais tarde, tomando o nosso café na varanda e ficando a sós com a minha anfitriã, não pude deixar de dizer: – Os meus parabéns, Carmen! Agora percebo a sua habitual pressa em deixarme. Tem uma família encantadora! Deve sentir-se muito feliz! Carmen, olhar perdido mar adentro, respondeu-me: – Feliz? Claro que me sinto feliz pelo que tenho! Embora, nem sempre me sinta assim – pelo que não tenho, pelo que não fiz, pelo que os outros não têm, pelos que sofrem, pelos que não posso tornar mais felizes, pelo que já não terei tempo de fazer nesta vida... Mas, procuro não pensar nisso, e quando a insatisfação me assalta, recordo este poema, cuja autoria se atribui a Francisco de Assis: “É maravilhoso, Senhor, ter braços perfeitos quando há tantos mutilados! Meus olhos perfeitos, quando há tantos sem luz! Minha voz que canta, quando tantas emudeceram! Minhas mãos que trabalham, quando tantas mendigam! É maravilhoso voltar para casa, quando tantos não têm para onde ir! É maravilhoso! Amar, viver, sorrir, sonhar, quando há tantos que choram, odeiam, revoltam-se em pesadelos! Morrem antes de nascer!

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Círculo do Graal É maravilhoso ter um Deus para crer, quando há tantos que não têm o consolo de uma crença! É maravilhoso, Senhor, sobretudo, ter tão pouco para pedir e tanto para agradecer!” – É um poema divino! Pena é que nem todos o conheçam, ou melhor, que nem todos consigam senti-lo! – Tem razão, minha amiga. Quanto a mim, já que estou jogando consigo o jogo da verdade, dir-lhe-ei tudo o que sinto e o que me vier à cabeça... Às vezes, falo consigo como se estivesse falando comigo mesma. Cabe-lhe a si separar o trigo do joio quando passar ao papel as nossas conversas. – Oxalá eu saiba fazê-lo, Carmen... O que sei dizer-lhe é que foi um dia muito agradável. Gostei de conhecer os seus entes mais queridos, deliciei-me com o seu almoço e adorei alimentar o meu romance. Não são motivos mais que suficientes para agradecer a sua gentileza? – Também lhe fico grata pela visita. Há muito que desejava mostrar-lhe uma parte do pequeno mundo em que me movo. Se quiser voltar, será um prazer! Como sempre, as horas tinham corrido velozes como andorinhas em migração, e já o Sol se punha no horizonte quando me despedi de Carmen e dos seus familiares.

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Durante a viagem de regresso, vim cogitando sobre a família que acabara de conhecer. Quatro gerações vivendo em comum sob o mesmo tecto e, como pude constatar, de uma forma muito harmoniosa. Reparei que Carmen era a mola real daquele agregado. Tomava sobre si, afectuosamente, a responsabilidade de manter solidários e unidos seis entes de escalões etários diferentes, que perfilham interesses e gostos divergentes, muitas necessidades comuns. Fazê-los felizes, tanto quanto podia, era o lema de Carmen! Até a jovem nora ela adoptara como filha, amando-a já como tal. Recordo-me de termos falado sobre isso durante o almoço. Isabel fora criada sem o acompanhamento da mãe, razão porque julgo ter visto, pelo carinho e respeito com que Carmen e Isabel se tratavam, que uma estava ganhando a filha que não tivera e a outra recuperando a mãe que perdera. Vim também a saber que a sogra, Rosalina, vivia com Carmen desde a morte do sogro Simão, há mais de vinte anos, e com ela permanecera, mesmo depois do falecimento de Jorge, marido de Carmen e seu único filho. A convivência com a nora e os netos adoçara-lhe o carácter, outrora duro e seco. Hoje confiava em Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Carmen como se confia numa boa filha. Curioso foi notar como, apesar da idade avançada, se sentia feliz partilhando tarefas. Entre outras, embalar o bisneto, darlhe o biberão, o que me fez recordar um artigo que li há tempos, não recordo onde, sobre a nossa sociedade actual, e que não resisto a mencionar: “As bisavós da nossa memória tinham cabelos cor de anil. Tinham xailes negros de viuvez, armários defendidos a naftalina, dedos refractários, pernas desmobilizadas e as recordações todas emaranhadas. No exílio dos quartos deixavam-se estar a tricotar malhas e vidas passadas. As bisavós de agora andam de mala a tiracolo e ar atarefado. Os seus dias têm uma hora de ponta que coincide com as saídas dos colégios. Mudam fraldas, vão às vacinas e sabem os nomes dos desenhos animados japoneses. Nunca têm mais que fazer, nunca dizem: “despacha-te”. As bisavós de agora, são as avós de antigamente.” Eu própria já tenho observado que, com a esperança de vida a aumentar, cada vez se vão formando mais famílias como a de Carmen. Penso que elas são benéficas às crianças, dão-lhes uma sensação de segurança, fazem-nas sentir-se como as árvores que, agarrada às suas raízes, o vento não derruba. Para os mais velhos, avós e bisavós, julgo que também são proveitosas, pois a oportunidade de serem úteis – quantas vezes, imprescindíveis – dá-lhes uma noção de continuidade, de não estarem na “prateleira”.

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Agora que a minha viagem terminou e este dia chegou ao fim, tenho a estranha sensação de ter deixado para trás uma irmã gémea muito querida. Isto, e a perspectiva de ficar longos dias sem matéria-prima para a continuação do meu livro, trazem-me uma espécie de angústia. Porém, os dias suceder-se-ão inevitavelmente e, logo logo, estarei de novo com Carmen... e convosco!

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Capítulo X Passada uma semana, o correio trouxe-me, inesperadamente, uma carta de Carmen. Sobressaltei-me. O que teria acontecido? Atabalhoadamente, rasguei o envelope. Li a missiva com olhos rápidos. Fiquei mais tranquila; mais feliz, também! A carta começava assim: Estimada amiga, Neste lazer em que o tempo sobra, dei comigo a pensar em si e no quanto lhe deve ser penosa a enormidade dos dias sem material para trabalhar o seu romance. Vieram-me então à ideia outras férias, férias da minha juventude, que me lembrei de lhe relatar. Fiquei animada. Material para o meu romance era, sem dúvida, do que eu estava a precisar para preencher o meu vazio. Seguiam-se páginas simples e despretensiosas, que li avidamente. Depois, contagiada pelo entusiasmo juvenil que emanavam, apressei-me a romanceá-las: Carmen teria à volta de dezoito anos e seu irmão Eduardo, catorze. António, sempre preocupado com a saúde da família, especialmente com a do filho, que aos oito anos tinha sofrido uma pleurisia, pensou mandar a família para “ares”. Teriam que escolher uma localidade não muito longe de Lisboa, para que ele pudesse visitá-los no dia da sua folga semanal. António nunca tirava férias. Naquele tempo, gozar férias era sinónimo de prejuízo económico, pois não só não existia o 13.º mês, como, não trabalhando o seu salário baixaria substancialmente. A família iria sem ele! O sítio, ainda dubitativo. Acontece que na mesma época (corria o ano de 1956), era usual as famílias citadinas, de médios recursos, terem uma “lavadeira” a quem entregavam as roupas brancas para serem lavadas nos rios e coradas ao Sol. As lavadeiras vinham de vários pontos dos arredores. Mulheres de idade indefinível, vestidas de preto, saias compridas tocando as botinas, e deixando ver, num ou noutro movimento mais descuidado, saiotes interiores tão brancos como a roupa que saía das suas mãos. Lenços franjados que escondiam carrapitos e aventais bordados eram o seu luxo. Chegavam pontualmente a meio da semana, amontoadas aos magotes em camionetas de caixa aberta, onde se acomodavam por entre as trouxas de roupa. Uma destas mulheres, já idosa, servia a casa de Carmen. Chamavam-lhe “tia Amélia”. Subia a escada, um segundo andar, afogueada, de trouxa à cabeça. Trouxa arreada, Diolinda mandava-a entrar para a cozinha, oferecia-lhe um copo de água, uma caneca de café. A “tia Amélia” vinha de Lousa, localidade campesina situada a cerca de trinta quilómetros de Lisboa e famosa pelos seus Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal bons ares. Aí se encontrava instalado, no alto de um pico, um sanatório onde se recuperavam pessoas fracas dos pulmões. Entre dois dedos de conversa e uns goles de café, a “tia Amélia” ia desfiando como muitos lisboetas alugavam casas na sua terra para passarem férias, e como a ela também lhe daria jeito alugar a sua – era viúva, alojar-se-ia temporariamente em casa da filha casada. Foi deste modo que Carmen, Diolinda e Eduardo, e uma cadela que tinham à data, partiram de camioneta e foram veranear para Lousa. Carmen, um pouco contrariada. Era muito citadina. Deixar Lisboa, a Baixa, as tertúlias de café, pareceu-lhe insuportável. Mais insuportável ainda, deixar de ver Edgar, mesmo que fosse apenas por um mês. A casa da “tia Amélia” ficava num lugar alto, ao término de uma subida íngreme que a separava da povoação. Em frente, um pinhal cerradíssimo. A construção era típica. Casa de pedra, baixa, ampla, janelas pequenas. Exteriormente, muito negra; por dentro, aclarada pela cal que cobria as paredes. Humilde, mas muito limpa. A cozinha era a divisão maior, que dava directamente para a rua. Numa mesa comprida, feita de tábuas de madeira escurecida pelo tempo, e à qual se agregavam os bancos corridos, eram tomadas as refeições. Nos quartos pequenos e rectangulares, camas de ferro, antigas – umas, pretas, outras, brancas – eram alindadas por almofadões e dobras de lençóis alvíssimos, a sobrepor mantas de retalhos coloridos. A um canto, o lavatório a condizer com a cama, encimado por um espelho minúsculo e manchado. O telhado, de telha vã, deixava entrar os raios de sol mal despontavam manhã cedo, e de noite dava passagem ao luar que inundava de azul a alvura das paredes e das camas. Havia ainda a casa de banho, improvisada numa divisão exígua, da qual a “tia Amélia” muito se orgulhava, por serem raras no povoado. À chegada, a primeira impressão de Carmen foi de decepção. Tudo muito escuro, muito tosco! Afigurou-se-lhe estar fora da civilização. Porém, de natureza adaptável, rapidamente se integrou no ambiente. Arranjou os seus cantinhos: sítio para os livros e para a sua roupa. Depois, como era seu hábito, começou a explorar as redondezas. Com um chapéu de palha de abas largas a cobrir-lhe os longos cabelos negros, um livro debaixo do braço, partia à descoberta. Eduardo acompanhava-a e “Índia”, a cadela, seguia-os. O pinhal próximo foi o primeiro alvo. A princípio, pareceu-lhe monótono, todo igual na sua vegetação. Todavia, a pouco e pouco foi-lhe descobrindo os encantos: os carreirinhos ladeados de amoras que ia apanhando e comendo, as flores silvestres com que compunha ramalhetes para alegrar a mesa da cozinha, as pinhas que se entretinha a esvaziar. Eduardo apanhava ramos secos que atirava longe, para a “Índia” buscar. A cadela corria, voltando de seguida com eles na boca e a cauda a abanar de contente. Às vezes, o seu travesso irmão desaparecia-lhe da vista, e Carmen tinha de o procurar, não fosse ele perder-se. Frequentemente, encontrava-o escondido por detrás de uma árvore, bem debaixo do seu nariz, somente para a arreliar. Quando, já cansados, encontravam uma larga clareira, Eduardo sentavase num couto de pinheiro partindo e comendo pinhões; Carmen acomodava-se naquele chão de caruma seca, mergulhava na leitura e esquecia a sua saudade de Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal Edgar com quem trocava postais e cartas. Numa delas, Carmen, com a concordância de sua mãe, convidou o jovem e os pais a fazerem-lhes uma visita. Edgar, agora com vinte e um anos e já com carro próprio, facilmente faria a deslocação. A resposta não se fez esperar. Iriam no próximo domingo. Com que ansiedade Carmen esperou aquele dia! O tempo que habitualmente corria veloz, andava agora a passo de caracol... Mas, como todos os domingos, aquele domingo também chegou. Foi um dia inesquecível. A “tia Amélia” levou um grande cesto de figos, envoltos em folhas de parreira para se conservarem frescos, e deu uma mãozinha no arrumo da casa. Diolinda preparou um belo almoço e Carmen ajudou a mãe a fazer um bolo e uma sobremesa, tarefas a que usualmente se furtava. Todos acharam o local pitoresco e repousante. Durante o almoço, muito apreciado, conversaram e riram animadamente. Porém, os dois jovens ansiavam por ter uns minutos a sós. – Agora que já almoçámos, podemos ir dar uma volta pelo pinhal? – Perguntaram, quase ao mesmo tempo. – Está muito calor! – Respondeu Diolinda, tentando evitar que eles escapassem da sua alçada. – Vão, vão! – Anuíram os pais de Edgar. Nós ficaremos aqui a descansar. Diolinda, não querendo parecer indelicada, não teve outro remédio senão concordar. No entanto, acrescentou: – Mas o Eduardo vai convosco! E não se demorem! E lá foram os três, isto é, os quatro, pois a “Índia” sempre seguia os donos. Foi uma tarde maravilhosa! Carmen nunca esqueceu aquele cheiro – uma mistura de resina e flores silvestres – a ternura daquela caminhada, de mãos dadas com o seu amor, o braço dele enlaçando-lhe a cintura, os beijos furtivos trocados às escondidas de Eduardo. E como os seus corações batiam, como transpiravam as suas mãos! Edgar também deve ter gostado, porque voltou uma vez, outra e mais outra, até que as férias acabaram!

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O que posso extrair mais da carta de Carmen? Que durante esse mês os dois irmãos fizeram amigos entre os outros jovens veraneantes? Que se juntavam em Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal grupos e tomavam banho nos tanques de rega das herdades dos amigos, como se o fizessem nas mais sofisticadas piscinas? Que, feitos alpinistas, trepavam às encostas do Cabeço de Montachique? Ou que, entre esses amiguinhos de Verão, Carmen fez mais dois apaixonados, cujos nomes já nem recorda?... Nada disto me parece relevante! O que me impressionou mesmo nesta narrativa estival de Carmen, tão “à propos”, foi a sua nítida memória das imagens, cores, cheiros e sensações... E, principalmente, a candura, a ingenuidade, a força do seu primeiro amor! Como se tudo isso se tivesse colado à sua pele, para sempre!

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Capítulo XI

Carmen continua de férias. Eu, que tal como ela, sou como que o “pivot” de uma família que é a minha, não consegui este ano sincronizar a minha disponibilidade, de modo a poder ausentar-me da cidade. Escrever tornou-se, portanto, a minha evasão, uma outra forma de viajar, de tomar contacto com outras gentes, outros hábitos, outras vidas... Rebusco os meus papéis. Tenho o hábito de guardar todas as anotações, rascunhos, pequenos memorandos e, agora em especial, os que tenho colhido das minhas conversas com Carmen. Releio-os atentamente. Descubro neste trabalho de revisão que, na minha ansiedade de chegar ao fim, houve passagens que omiti, pormenores que julguei insignificantes, personagens que deixei para trás. É deles que me ocuparei enquanto a minha amiga não regressa. Recordam-se de Rui, o elegante amigo de Carlos que se tornou tio da nossa Carmen e pai da sua prima Lurdes? Creio que nos separámos dele na altura em que Augusta teve a mesma atitude. Dissolvida a sua união com Augusta, Rui juntou-se com Olga, filha única de um comerciante bem estabelecido em Lisboa e para quem Rui fazia a escrita da firma. Senhora solteira, de saúde delicada, Olga tinha ao seu serviço, entre outras, uma criadinha jovem, de nome Mariana, oriunda de uma família muito pobre dos arredores. Não demorou que a criadita se insinuasse ao novo e bonito patrão. Era ela que o esperava quando ele regressava a altas horas e Olga já se encontrava recolhida; que lhe preparava o banho, lhe engraxava os sapatos e lhe escovava o casaco antes de ele sair pela manhã. Quanto tempo Olga e Rui viveram em comum? Deduzo que muito pouco. O que se sabe é que patrão e criada fugiram juntos e só a morte os separou, mais de quarenta anos passados. Menos afortunada, Olga, cuja saúde frágil não resistiu àquele golpe, morreu pouco depois. O que o tempo mostrou foi que Rui tinha encontrado a última mulher da sua vida. Com ela acabou por construir finalmente um lar. A princípio, com dificuldades, pois os pais continuavam a não aceitar as aventuras daquele filho – dessa vez com uma criada! Mas, com o decorrer dos anos, aquela mulher simples revelou-se uma companheira dedicada, capaz dos maiores sacrifícios para segurar o seu amor. E conseguiu! Rui, mais firmado na vida, enceta agora uma luta com Augusta para reaver Lurdes, a filha de ambos, e vai ao Alentejo várias vezes, no intuito de a trazer consigo. Queria pô-la a estudar, dizia. Augusta, diz repetidamente não! E para que Rui tirasse da cabeça aquela ideia, interna a menina num colégio de freiras em Vila Viçosa. Era um colégio caro, para meninas ricas. Lurdes permaneceu aí, Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal talvez uns dois anos, até que a mãe, sem posses para manter aquela situação, desiste da sua teimosia e deixa que Lurdes venha viver com o pai e a madrasta. Teria talvez um futuro melhor... pensou. Mas Lurdes apanhou tempos difíceis. A madrasta, mulher de fibra, fazia rendas e encarregava Lurdes de as vender pela vizinhança. E enquanto Mariana se entregava ao “crochet”, Lurdes tinha ainda a seu cargo o serviço doméstico. Hipótese de estudar, nem pensar! E com tudo isto, a jovem era a que mais sofria; tinha saudades da mãe, da infância despreocupada, e até mesmo do colégio de freiras. Só as paredes do seu quarto eram testemunhas mudas das suas lágrimas. Não obstante, adorava o pai, não porque ele a mimasse como ela desejava, mas porque o sangue assim lho pedia. Contudo, Rui, acima de tudo e de todos, só adorava Mariana! E ambos acabam por legalizar, indissoluvelmente, a sua união, casando pela Igreja. Os pais dele rendem-se àquele casamento, abrem-lhe a bolsa, e uma nova era se inicia para o casal. Uma era mais abastada e não isenta de um certo requinte. Acaba-se o “crochet” para vender! Rui providencia uma professora que vai a casa leccionar Mariana e que começa por ensiná-la a ler e a escrever. Depois, ministra-lhe ensinamentos de etiqueta, boas maneiras, regras de comportamento em sociedade. Por outro lado, a mãe de Rui, senhora distinta com quem Mariana passa a conviver, tem também um papel preponderante na sua ascensão. Leva-a às melhores modistas, aos salões de beleza mais em voga. A beleza morena de Mariana, de cariz forte e um tanto primitivo, estilizou-se. Breve, passa a acompanhar a sogra às compras e aos chás no Chiado; seguem-se as temporadas de termas nos melhores hotéis; Buçaco, Luso, Curia, lugares preferidos pela alta sociedade da época. Mas, enquanto Rui manteve inalterada a sua distinção nata, Mariana nunca passou de uma “nouvelle riche”. O frágil verniz de que se revestira, estalava a cada momento, quando não caía de todo. Decerto, por conhecimento de causa, nunca consentiu criadas portas adentro. Ela própria, com a ajuda de Lurdes e de uma ou outra empregada diária, mantinha a casa em perfeita ordem. Mariana era a mulher com que todos os homens sonham: um misto de mãe, esposa, amante, e aia pessoal. O que ela nunca conseguiu foi dar-lhe um filho! Apesar disso, Lurdes nunca foi tida como filha, na verdadeira acepção da palavra, e nada aproveitou daquela mudança de vida. Não retomou quaisquer estudos e raramente participava das saídas do casal. Quando as viagens de Rui e Mariana se prolongavam, Lurdes era levada para casa da tia Diolinda e lá ficava ao seu cuidado. Tinha mais dez anos do que Carmen e era como uma irmã mais velha para todos os primos. No lar de Carmen, Lurdes namorou, e desse mesmo lar saiu vestida de noiva, pelo braço de António que a acompanhou ao altar, cerimónia a que o pai e a madrasta se furtaram. Para não se cruzarem com Augusta, argumentaram… Mariana tinha-se apressado a casar a enteada, não lhe dando tempo nem oportunidade a que pudesse fazer a sua própria escolha. Também não se preocupou em escolher-lhe um marido à altura dos meios sociais que frequentava, embora Lurdes o merecesse, pois era bonita, educada e, apesar da curta instrução a que tivera acesso, tinha o que Mariana nunca conseguiu – um porte naturalmente elegante e uma distinção nata (coisa de sangue).

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Círculo do Graal Mariana cozinhara-lhe o casamento com um vizinho, operário de profissão, que tinha virtudes, é certo! Era um bonito rapaz, honesto, trabalhador, e apaixonado por Lurdes. Será que foi o suficiente para a fazer feliz?... O que sei é que esse casamento teria durado para sempre, não fora a morte tê-lo levado ao fim de mais de cinquenta anos de união! Certo é, também, que as conversas são como as cerejas e que eu sempre me deixo arrastar pelas palavras. O que queria mesmo dizer-vos é que Carmen sempre frequentou a casa do tio Rui e de Mariana, a quem chamava “padrinhos” desde que começara a falar. Da sua convivência com eles durante a meninice, Carmen tem lembranças vagas, mas tem gratas memórias desse relacionamento, quando já adolescente. Os “padrinhos” gostavam muito dela. Não lhe poupavam elogios. Admiravamlhe a inteligência, as boas notas que tirava nos estudos; gabavam-lhe a honestidade e a forma como sabia ser discreta. A propósito da honestidade, Mariana, que tinha muitas jóias e tinha o péssimo hábito de as deixar por qualquer sítio, costumava dizer: “Com Carmen estou descansada, pode até achar “ouro em pó”, que não lhe toca...” Ou, a propósito da discrição: “Ninguém arranca nada daquela boca, mesmo que se lhe puxe pela língua...” Isto, no que se referia a ditos e mexericos, bem entendido! Carmen nunca contava aos padrinhos o que ouvia da boca de sua mãe quando esta se referia a Rui: – Pois é, agora que está rico, esqueceu-se dos amigos que tanto o ajudaram... Já nem conhece mais o teu pai! Também não contava a Diolinda o que Rui comentava para Carmen: – O teu pai era um homem muito inteligente, pena que não tivesse tido cabeça, desbaratava tudo com os amigos... (Rui já não se recordava de que tinha sido um deles...) – A dada altura, eu quis dar-lhe a mão, mas ele era muito orgulhoso, não quis aceitar. Carmen ouvia de um lado e do outro, tirava as suas conclusões, mas calava-as. Considerava-se um ser independente. Os padrinhos tratavam-na com carinho, com um certo respeito, até! Isso bastava-lhe! Convidavam-na amiúde para sua casa. Para animar a conversa não havia como ela. Sempre que Carmen almoçava ou jantava com eles, Rui dizia, rindo: – És tal e qual o teu pai! Tens tudo no prato, falas mais do que comes! Todas as semanas havia um dia em que Carmen saía com eles. Iam jantar fora, depois ao cinema Tivoli ou ao S. Jorge. Outras vezes, ao Teatro D. Maria ou ao Trindade. Nesse tempo, os espectáculos tinham longos intervalos. Os “foyers” ficavam repletos, especialmente em noite de estreia. Era o momento das senhoras mostrarem as toaletes e as jóias, dos cavalheiros fumarem o seu charuto, cumprimentarem amigos e comparsas de negócios. Carmen gostava daquele movimento, alimentava a sua curiosidade, o seu espírito de observação.

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Círculo do Graal Terminado o espectáculo, metiam-se no carro apressadamente, para poderem arranjar mesa na Versalhes, onde se servia o melhor chocolate quente com torradas. Nessa época, a Versalhes fechava às duas da manhã... Durante a ceia, Rui gostava de discutir o filme ou a peça de teatro com Carmen, altura em que Mariana ficava a perceber melhor algumas subtilezas que não tinha entendido. Terminada a ceia e a conversa, deixavam a pequena em casa, para ela ouvir de sua mãe o tradicional: “Tão tarde! Para a outra vez não vais! Escusam de me vir pedir!” Mas, na semana seguinte, tudo se repetia. No Verão, era a piscina do Hotel Atlântico, no Estoril. Rui não gostava de praia – com muita pena de Carmen! Contudo, a piscina como variante, não lhe desagradava. E aqueles almoços, servidos com requinte à beira do rectângulo verde, valiam a troca. Havia também os dias em que os padrinhos não saíam. Carmen almoçava com eles, após o que, Rui e Mariana recolhiam ao quarto para fazerem a sesta, coisa que Carmen sempre detestou. Porém, antes de se recolherem, diziam-lhe: – Faz uma sesta na sala, se quiseres... ou vai para o escritório, lê o que te apetecer... Era o que ela queria ouvir! Ia para o escritório e aí sentia-se bem acompanhada, à semelhança do que acontecia no escritório dos Bastos. Com uma diferença: a dificuldade de escolha era maior. Albergando uma rica biblioteca, as estantes de Rui iam do chão ao tecto, razão por que, dissimulado numa das portas, se encontrava um pequeno escadote onde Carmen se empoleirava para alcançar os títulos mais altos. Foi lá que leu “Os Maias”, “O Crime do Padre Amaro”, “A Cidade Eterna”, “O Vermelho e o Negro”, o “Bon Jour Tristesse”, entre outros. Com que rapidez se passavam aquelas horas! Quem poderia trocar “aquilo” por uma sesta?... Tenho de dizer-vos que hoje os Bastos e os padrinhos já não são deste mundo e que Carmen recorda com saudade aqueles “ninhos” onde poisava nos seus verdes anos.

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Carmen, finalmente, regressou de férias. E eu dei-me conta de como, verdadeiramente, tinha sentido a sua falta! Ela confessou-me o mesmo. Era como se Carmen e eu fôssemos a mesma, de tal modo me sentia misturada na sua vida. Falei-lhe da minha saturação da cidade e do que me dispus a escrever para colmatar a sua ausência. Carmen falou-me dos livros que lhe tinham feito companhia durante as férias – habitualmente lê mais do que um ao mesmo tempo – de como esquecia tudo ao ler Marguerite Yourcenar e de como se envolvia com Proust “Em Busca do Tempo Perdido”. Depois, mostrou-me alguns poemas que tinham brotado, não do lazer dos dias, mas da solidão das Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal noites. Houve um que me tocou especialmente e que destaquei para o partilhar convosco: ALGEMAS D’OIRO Fecham-se em mim as tuas mãos... Algemas de oiro na mansidão, cerram com elas ilhas de medos, mares de ciladas... E os teus dedos, pontas de lume, furam degelos, abrem segredos, nas madrugadas.

Entretanto, Carmen já me falava do Diogo e dos momentos de encantamento que passara, partilhando os seus primeiros sorrisos, os seus primeiros gestos. A certa altura, disse-me: – Sabe, minha amiga? Sempre que uma vida nova cresce junto de mim sinto-me rejuvenescer! Com o nascimento do Diogo estou experimentando de novo essa sensação. A última vez que a experimentei, lembro-me bem, foi quando nasceu o meu filho Telmo, já o Pedro tinha quinze anos... E foi talvez essa criança, que todos (menos eu) achavam tardia, que me trouxe forças e alento para suportar a longa noite que se avizinhava... Carmen calou-se, como sempre fazia quando uma lembrança a magoava. Afigurou-se-me que, involuntariamente, tinha voltado ao passado. Mas eu não conseguia entender o porquê dessa sombra de tristeza, entrelaçada com a alegria do nascimento de Telmo. E como Carmen parecia não querer sair daquele silêncio imerso em bruma, resolvi quebrá-lo. – Desculpe, Carmen, mas agora fiquei confusa... Carmen pareceu não me ouvir. – Mas comigo é sempre assim! Nenhuma felicidade é completa, nenhum bem é duradouro, como se o bom e o mau tomassem cada uma das minhas mãos para me acompanharem a par e passo... – Por favor, Carmen, tente ser um pouco mais clara. Fale-me dessa longa noite...

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Círculo do Graal – Posso tentar, mas fá-lo-ei muito resumidamente, porque por mais que eu quisesse ser exacta, tudo sairia como uma tosca imitação de um quadro autêntico, impossível de reproduzir. – Foi assim tão mau?... Carmen continuou: – Logo a seguir ao nascimento de Telmo, corria o ano de 1979, como se de uma troca se tratasse, uma doença terrível quase me roubou Pedro, o meu Pedro, com apenas quinze anos... Uma doença sem rosto num corpo são, cuja causa continua a ser um enigma, e a sua localização uma incógnita. Algures no cérebro, esse desconhecido? Ou na mente indecifrável?... Não era uma doença de morte, era pior, daquelas em que a razão e a loucura quase se tocam, separadas por um débil fio invisível que pode quebrar-se a qualquer momento. Até termos um diagnóstico que tornasse possível combatê-la, foram anos de corrida a neurologistas, psicólogos e psiquiatras e, em fases desesperadas, às Urgências dos Bancos Hospitalares. Até que encontrámos um médico extraordinário, um médico com “M” grande, que descobriu o nome da inimiga que atormentava o meu filho – “Neurose obsessiva-compulsiva” – e que se dedicou a fundo ao seu combate. Sem ele, não sei o que teria sido de Pedro, e de mim também. Sabe que me apaixonei por esse médico? Não, não era paixão no sentido vulgar do termo. Era mais do que isso. O meu sentimento era um misto de atracção, carência e admiração, talvez a força que inventei para me ajudar a suportar a dor imensa, um factor ilusório de sobreposição que relegasse para segundo plano o meu intenso sofrimento. Cedo percebi que o que eu perscrutava através dos seus profundos olhos azuis, era a ciência, a sabedoria capaz de me arrancar ao pesadelo. Era ele que, a par da assistência clínica que prestava ao meu filho, me explicava tudo sobre a doença, me aconselhava, me incentivava a ter esperança. E a minha “paixão”, da qual ele nunca suspeitou, não era, afinal, senão a forma de que se revestia a minha gratidão silenciosa. – Que fatalidade, Carmen! Nunca supus... Essa é, de facto, uma doença assustadora, porque perigosa e incapacitante. Hoje, chamam-lhe DOC (Distúrbio Obsessivo-Compulsivo) mas, embora a ciência esteja continuamente a fazer progressos, continuam a desconhecer-se os motivos que a desencadeiam. Mas continue, Carmen, por favor. – Depois de diagnosticada, foram sessões de terapia familiar, períodos de internamento hospitalar, fugas desses internamentos e recondução a eles. Só quem o sentiu na pele pode imaginar o que é o inferno dum hospital psiquiátrico... Depois, outros tantos anos se seguiram até se achar a fórmula certa de controlar a doença. Foi muito sofrimento... Mas Pedro foi, sem dúvida, quem mais sofreu: pela incompreensão do mal que o atingira, pelos estudos interrompidos, pela juventude refreada por medicamentos, pela liberdade truncada, pelo futuro comprometido. A ponto de Pedro só pensar em acabar com a vida...

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Círculo do Graal – É tarde, Carmen, e se ficássemos por aqui? – Interrompi, camuflando o meu nervosismo perante assunto tão doloroso. Porém, Carmen parecia surda às minhas palavras. – E eu, eu... lutando por todos os meios ao meu alcance para amenizar os seus dias e noites de angústia, secar-lhe as lágrimas, inventar razões que lhe devolvessem a vontade de viver. Por outro lado, esforçando-me por acalmar o meu marido, profundamente desiludido com o filho que lhe coubera, totalmente descontrolado face a uma situação com a qual não sabia lidar, porque não compreendia e, sobretudo, porque se recusava aceitá-la. Como se tudo isto fosse pouco, eu tinha ainda de enterrar fundo os meus sentimentos, amordaçar a minha dor, para deixar aflorar a serenidade necessária ao desenvolvimento tranquilo do meu filho recém-nascido. Meu Deus, ainda hoje me pergunto como fui capaz... De repente, Carmen emudeceu, como que parada no tempo e totalmente alheada da minha presença. Eu estava siderada, só a minha mão escrevia sem parar. Mas, era demais... Era preciso fazer com que Carmen voltasse rapidamente aos dias de hoje, urgia apagar-lhe a memória, fazê-la correr a cortina do passado, pelo que decidi interceptá-la bruscamente, disfarçando a minha comoção: – Chega, Carmen, chega por hoje! Lembremos apenas que Pedro está hoje livre de tudo isso, que é um homem perfeito, inteligente, e um filho muito dedicado. – Tem razão, minha amiga! Nem sei por que enveredei por este assunto. Não tinha intenção... Como as memórias se atropelam... E, já em jeito de despedida, Carmen entregou-me um volumoso envelope contendo folhas manuscritas. – De que se trata? – Indaguei. – Apontamentos, memórias soltas, material que fui compilando para si. Tirará deles o que achar que tem interesse para o seu romance. – Porquê, Carmen? Vai deixar-me de novo? – Perguntei, ansiosa. – Apenas por um tempo, minha amiga. Dois meses, ou pouco mais... – Vai viajar? – Continuei perguntando. – Não, se bem que era o que gostaria... – O que tenho agora é que me entregar totalmente à revisão de uma obra inglesa que foi traduzida para a nossa língua, trabalho que me propus fazer para uma editora, o que, depois de férias, se me afigura como transpor uma montanha.

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Círculo do Graal – Não sabia que também se dedicava a esses trabalhos. Como consegue?! A família, a poesia... – Fazendo tudo com gosto! Até as tarefas mais rotineiras... Já Leonardo da Vinci dizia: “Mais importante do que fazer-se o que se gosta, é gostar-se daquilo que se faz...” Além disso, conto sempre com os serões pela noite dentro, a noite é a minha melhor companheira de trabalho! E porque a hora já ia adiantada, Carmen despediu-se mesmo! Desta vez, não com um “até breve!”, mas dizendo: – Prometo transpor a montanha depressa! – Assim seja! – Respondi-lhe. Parti, pesarosa. Porém, ao apertar debaixo do braço o volumoso envelope que Carmen me trouxera, senti-me mais confortada.

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Capítulo XII De posse do material que Carmen me deixou, constatei que abrangia cerca de cinco anos da sua juventude, mais ou menos entre 1955 e 1960, calculo que entre os seus dezassete e vinte e dois anos. Tentarei resumi-los. Em simultâneo, é de assinalar em 1955, o início das lutas pela independência da Argélia, conflito que durou até 1962, data em que o Presidente De Gaulle proclamou a independência daquela colónia. Também em 1955, Portugal vê os seus territórios ameaçados com a tentativa frustrada da invasão civil de Goa, Damão e Diu, por parte de seis mil indianos. Começa, então, o envio de grandes contingentes de tropas portuguesas para a Índia! De novo, os lenços brancos, os dolorosos adeus! E Diolinda que novamente repetia: “Já não volto a ver-te, meu filho!” Foi a vez de Vítor Manuel partir. Carmen, com dezassete anos, despede-se de mais um irmão. Era o terceiro que a vida, em rajadas, lhe roubava. Como que assolada por ventos cíclicos, a sua árvore ia-se despojando de ramos... Agora, presos ao tronco, só Carmen e Eduardo. Mas que afinidades podiam existir entre um rapazinho de treze anos e uma senhorinha de dezassete? Nessas idades, uma diferença de quatro anos toma as proporções de um abismo. Não liam os mesmos livros, não tinham os mesmos interesses, e os amigos, como é óbvio, também não se coadunavam. Carmen acaba o seu Curso Geral de Comércio. Sendo um curso prático, destinado a um objectivo de emprego imediato, era muito extenso e diversificado. Depois de passar em todos os exames, havia ainda uma prova de “Aptidão Profissional”, e só Carmen e um colega obtiveram o almejado diploma final. Nem Conceição o conseguiu – ficando mais um ano para o repetir – o que deu azo a que as duas amigas tivessem de seguir rumos diferentes! Depois dos irmãos, até a amiga! Eram muitas perdas! Sensivelmente por essa altura, Diolinda contrai uma grave doença de olhos, uma úlcera da córnea, que lhe provocava dores lancinantes. Consultados vários oftalmologistas, todos são de opinião de que teria de ser operada. Entretanto, alguém lhe indicou um grande especialista, que tinha um porém: cobrava caro. Mas entre a luz dos olhos e as jóias que lhe restavam, Diolinda não hesitou. Vendeu algumas e correu a consultá-lo. Depois de a observar atentamente, o médico disse-lhe:

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Círculo do Graal – Vai ser demorado, mas curo-a sem precisar submeter-se a operação! Só precisará de ter muita paciência e cumprir à risca as minhas indicações. Diolinda cumpriu. De olhos vendados, é obrigada a permanecer de cama, completamente às escuras. Do quarto apenas saía para ir aos tratamentos, e mesmo assim, de cabeça coberta, os olhos totalmente protegidos. Durante esse período, Carmen tomou sobre si todas as tarefas caseiras: o arranjo da casa, das roupas, as compras, a cozinha. Dava as refeições a sua mãe e punhalhe pingos e pomadas às horas prescritas. Se para Diolinda foi difícil, para Carmen também não foi fácil. Embora a mãe lhe desse todas as indicações, a jovem dona-de-casa andava numa roda-viva. Felizmente, seu padrinho tomava as refeições no hotel, mas tinha de cuidar de Eduardo, para que tivesse as refeições a tempo de não chegar atrasado à escola. Carmen quase se esquecia de comer. De comer e de outras coisas... pois até Edgar andava um pouco esquecido. Com algumas falhas, Carmen levou muito a sério aquela inesperada responsabilidade, talvez para provar a sua mãe como, apesar das divergências entre elas, a amava o bastante. Na verdade, conforme o médico prometera, Diolinda sarou, e até ao fim da sua vida nunca usou óculos, nem mesmo para ler o jornal, leitura que não dispensava! Todavia, o responder às cartas que chegavam da Índia, enviadas por Vítor Manuel, era tarefa que Diolinda delegava na filha e que esta protelava o mais que podia. Não porque Carmen não gostasse de escrever, mas porque sua mãe a obrigava a sentar-se a seu lado horas intermináveis, ditando-lhe o teor das cartas. O mesmo se passava com as cartas para Carlos Alberto. Carmen tinha que relatar o que sua mãe ditava, sem tirar nem pôr: banalidades, lugares comuns, trivialidades que Carmen achava insuportáveis. Era o género de escrita que a entediava, pois não lhe dava azo a qualquer tipo de criatividade, além de que lhe roubava um tempo precioso... Precioso para ler os seus romances, escrevinhar os seus versos, idealizar os seus sonhos! Contudo, abria ansiosamente as cartas que chegavam, e lê-las, sim, era um prazer. Sempre lhe traziam algo de novo: imagens de terras longínquas, descrições de povos distantes, costumes e rituais diferentes. As cartas de Vítor Manuel eram autênticos “testamentos”. Cada uma delas era como que uma viagem dilatadora de horizontes, e Carmen, ingenuamente, invejava os irmãos e a sorte deles por terem nascido homens. Dentro de si, viajar era o sonho maior! E sentia-se tão aprisionada... Senão, vejam esta poesia feita na sua juventude:

PÁSSARO FERIDO Pássaro ferido de asas cortadas… Carmo Vasconcelos

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Faz longos voos pelo imaginário. Ninguém entende o seu cantar nem seu fadário! Pássaro ferido de asas cortadas...”

Da Índia chegavam-lhe os presentes de seu irmão: tabuleiros e caixinhas de charão, álbuns com música, colares de missangas, tecidos finos e leves onde se entrelaçavam fios dourados e prateados. De um desses tecidos – branco com fios de prata – Carmen mandou fazer um vestido de noite que usou no baile de fim de curso. E, segundo as suas palavras: “Só aquele maravilhoso vestido pode ter sido o responsável por me terem atribuído o título de Princesa da Festa!” Carmen foi guardando carinhosamente, ao longo dos anos, todos os “mimos” de seus irmãos. Tal como as estampas sagradas de Carlos Alberto, o álbum para fotos enviado por Vítor Manuel, também resistiu ao tempo, e ainda hoje deixa ouvir a sua música.

~~~/~~~ E, mais uma vez, o cais. O cais que Carmen já apelidara de “o cais das lágrimas”. Mas, desta vez, vestido de festa, o que não evitava uma constante: as lágrimas! Mas, agora, de alegria. Tal como antes, os mesmos olhares colados ao rio, fixando os barquitos minúsculos que, ao invés de se afastarem, se aproximavam, crescendo, crescendo, à medida da comoção dos seres que os esperavam. E no momento em que, já atracados, se tornavam navios, o mar devolvia-lhes os entes queridos que um dia levara! Então, eram abraços e beijos, saudades de anos despejadas de rompante, pais reconhecendo os filhos que tinham deixado no colo ou nas barrigas prenhes das mulheres amadas. Porém, para alguns que voltavam, a alegria era ensombrada pela ausência de um ou outro ente querido que, entretanto, se finara. Carmen lá estava com sua mãe, como sempre! Tantas foram as vezes que pisou aquele chão e sentiu aquela mistura de sentimentos, que dois quadros ficaram profundamente gravados na sua mente: um, eivado dos negros das partidas, outro profusamente colorido, com as cores alegres das chegadas. Desta vez, era Carlos Alberto que voltava! Porém, o serviço militar, a sua estada em Macau e o castigo em Cabo Verde, não o fizeram “mais homem”, como é uso dizer-se dos mancebos que vão à tropa. Pelo contrário, transformaram-no num ser mais sofrido, mais revoltado! E a última paixão, precocemente abandonada em Macau, fê-lo talvez mais carente do que nunca... Anos desenraizado da pátria, ela não o recebeu de braços abertos. Mais velho e sem Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal uma profissão definida, difícil se tornou a integração na terra que o vira nascer. Os vícios adquiridos em terras de além-mar – álcool e mulheres – acharam nele o habitat perfeito. Para lhes fazer face deitou a mão a várias profissões. De notar, que as suas capacidades de resistência, de improviso, de adaptação, eram excepcionais. Mas nunca conseguiu mais do que ocupações incertas. Como incerta seria toda a sua vida!

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Capítulo XIII Carmen inicia agora uma nova etapa da sua vida: o mundo do trabalho. A sua meta era ganhar dinheiro para custear as suas próprias despesas, entre elas, ampliar os estudos. O seu sonho secreto era ser médica, se possível na área da psicologia. As doenças da mente sempre a atraíram mais do que as do corpo. Carmen era uma curiosa dos comportamentos humanos. Essa sua inclinação era já visível nesta quadra da sua adolescência:

Eu queria saber tudo deste mundo que tantas vezes na aparência mente. Por que se ri quem chora lá no fundo, e por que chora a dor quem a não sente...

Porém, apesar dos seus verdes dezassete anos, ela tinha plena consciência de que um curso de medicina não era para a sua bolsa. No entanto, os impossíveis não a frustravam. Havia outros caminhos... Começou a busca de emprego pelos anúncios dos jornais. Sua mãe, conhecedora da vida, sempre a acompanhava às entrevistas. Queria saber e ver tudo: onde era a firma, quem nela trabalhava, quem eram os patrões. E essa protecção exagerada sempre gerava a discórdia entre mãe e filha. A jovem, mais uma vez se insurgia: – Onde já se viu? Ir responder a um emprego acompanhada da mãezinha! Hãode julgar que não assumo responsabilidades! – Não senhora! É bom que vejam que a menina tem família, que não é uma qualquer – retorquia Diolinda. – Pensarão que sou uma criança, isso sim! – Irei contigo e está dito! E de nada valia Carmen ripostar. O seu primeiro emprego foi curioso. A remuneração era de trezentos escudos mensais; a firma, um grande armazém de roupas com loja para venda ao público. Nas montras, o pronto-a-vestir de “baixa” costura emparceirava com roupas de cama, jogos de banho, toalhas de mesa, meias, lenços e outras miudezas. No interior, uma sala exígua e sem janela servia de escritório. À luz de um minúsculo candeeiro eléctrico, Carmen lutava com montes de papéis e com uma antiquada máquina de escrever, da qual, a muito custo, fazia sair a correspondência. À mão, somava facturas, passava recibos, escriturava os livros de contabilidade. Uma vez por semana aparecia o guarda-livros, e havia o patrão, um quarentão alto e encorpado, de bigodes farfalhudos, e reluzentes anéis de ouro. Que, felizmente, parava pouco por lá. Carmen só dava conta de Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal que ele tinha entrado, quando um súbito silêncio se fazia entre os dois caixeiros de balcão e a engomadeira de camisas, esta muito tagarela, por sinal. Não tardou muito que Ricardo e André, os dois empregados, entrassem, de certo modo, na sua vida. Com ela, eram sempre muito delicados e corteses. Ambos solteiros, eram muito amigos, não só profissionalmente como na vida privada. Contudo, eram donos de personalidades muito diferentes. Ricardo, que já rondava os trinta anos, tinha um ar enigmático e introvertido que o fazia parecer mais velho. Fumava cachimbo e andava sempre com um livro debaixo do braço. André, vinte e poucos anos, era alegre, divertido, e muito atraente. Ambos tinham uma paixão comum: as motos. Cada um com a sua, todos os dias provocavam um barulho ensurdecedor que anunciava o abrir e o encerrar da loja. O que surpreendeu Carmen foi quando o mesmo ruído atroador passou a rasgar os ares, sob as janelas de sua casa... Um dia, André aproximou-se de Carmen e disse-lhe: – Preciso falar consigo! – Pois não! De que se trata? – Ainda não notou? O Ricardo anda triste. – E daí? Fiz alguma coisa errada? – Não, não é isso! É que... O Ricardo está apaixonado por si. – Ricardo?! Então por que não veio ele falar comigo? – Não tem coragem. É muito tímido. Eu, que sou muito amigo dele, é que achei que a Carmen devia saber. Mas, por favor, não diga a Ricardo que lhe contei! – Fique descansado, continuarei não sabendo! E assim foram decorrendo os dias. Ricardo encerrado no seu mutismo e Carmen fingindo não perceber. Entretanto, os dois amigos, que eram sócios de uma Casa Regional, começam a convidar Carmen para os bailes que ali se realizavam. Devo dizer que, por essa altura, a vida amorosa de Carmen andava muito tumultuada. Edgar estava pior do que nunca. Tão embrenhado andava nas suas conquistas que Carmen tinha esfriado, ao ponto de não querer mais vê-lo. E como adorava dançar e nunca perdia uma oportunidade de se divertir, sempre convencia sua mãe a acompanhá-la aos referidos bailes.

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Círculo do Graal Ricardo e André, sempre lá caídos! Ricardo não dançava. Afastado, observava a assistência, fumando placidamente o seu cachimbo. André, muito extrovertido e um dançarino de primeira, tornou-se o par fixo de Carmen. Mal a música começava, logo ele se antecipava a pedir-lhe a dança. No dia do aniversário de Carmen, completava ela dezoito anos, um mensageiro bateu-lhe à porta para lhe entregar um soberbo ramo de rosas brancas. Ela ficou estupefacta. – De quem são? – Perguntou. – Não sei! – Respondeu o mensageiro. Venho mandado da florista. Deve trazer um cartão. Era a primeira vez que alguém lhe enviava flores. Intrigada, pensou: “Só podem ser de Edgar!”. Logo, um minúsculo cartão se desprendeu do vistoso ramo e, para decepção e surpresa de Carmen, quem o assinava era Ricardo. Confissão, nenhuma! Apenas um “Feliz Aniversário!”. No dia seguinte, ela agradeceu-lhe a gentileza, ficando tudo por isso mesmo. Entretanto, Carmen tinha-se matriculado no Instituto Britânico para aperfeiçoar o seu Inglês, o idioma estrangeiro de que mais gostava. Após um exame preliminar, iniciou os estudos no Britânico posicionada no terceiro ano. Às aulas, ia depois de sair do emprego. A pretexto de falar de Ricardo, André começou a ir esperá-la à saída do Instituto. Sentados num banco do Jardim do Príncipe Real, conversavam. André manifestava a sua preocupação em relação ao amigo: – Sabe? Ricardo não é mais o mesmo. Anda esquivo, não quer sair à noite com os amigos, e até mesmo comigo noto-o diferente. Penso que é por sua causa... – Não vejo razão! – Respondia Carmen. Sempre fui simpática com ele. Além disso, Ricardo nunca me manifestou esse sentimento de que fala. – Quer dizer então que não lhe corresponde? – Perguntou André, um tanto hesitante. – De maneira nenhuma! Acho Ricardo muito correcto e um bom colega, nada mais! – Fico muito feliz por isso! – Deixou escapar Sérgio. Daí por diante, as esperas do jovem tornaram-se mais assíduas, as conversas mais prolongadas, e cada vez falavam menos de Ricardo. Uma atracção mútua foi nascendo entre ambos e um namoro começou a esboçar-se. Sempre se alongavam nos encontros, o que os obrigava a regressar “voando” na moto de André. Carmen, cabelos ao vento, o ar fresco fustigando-lhe o rosto, adorava

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Círculo do Graal aquela sensação de liberdade. Por outro lado, o estar fazendo algo que sua mãe nunca permitiria, dava-lhe também um inefável prazer. Por vezes, entre dois beijos, André deixava escapar frases estranhamente tristes: “Por que não te conheci mais cedo?” ou, “Não quero perder-te!”. Carmen não entendia o sentido velado daquelas palavras, mas começou a suspeitar de que André tinha algum segredo... Certo dia, uma voz amiga segredou-lhe ao ouvido: – Carmen, não se prenda! André tem uma vida complicada... – Complicada porquê? Pelo que sei, não é casado, nem sequer tem namorada... Nunca o vi acompanhado de qualquer rapariga, até aos bailes vai sozinho! – A mesma voz continuou: – Realmente, tudo o que diz é certo! – Então? Qual é o problema? – Insistiu Carmen. Perante a sua cegueira, a resposta veio de chofre: – Um filho! André é pai de um bebé. – Um filho?! – Exclamou Carmen, perplexa. – Tem a certeza?... – Absoluta! – E a mãe? Quem é?... – Alguém que André diz não amar e que se recusa a assumir como esposa. – Mas isso não é justo! – Indignou-se Carmen. De súbito, fez-se luz no seu espírito. Estavam explicadas as meias palavras, as frases dúbias, o segredo pressentido. Se fosse apenas uma namorada, ela não se abalaria! Mas uma criança?! Um filho condenado a viver jogado entre pai e mãe, como uma bola de pingue-pongue? Carmen não hesitou! Sem contar nada a sua mãe – que decerto ficaria possessa – numa breve carta disse a André o que sabia, e nessa mesma carta o proibiu de voltar a acercar-se dela. E não foram necessários os conselhos de Diolinda para Carmen tomar essa atitude. Ela ressaltou da sua própria consciência. Para corroborar o afastamento que se impunha, Carmen decidiu mudar de emprego. – Porquê mudares? – Inquiriu a mãe. Carmo Vasconcelos

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– Pagam pouco para o trabalho que faço! O que ganho mal dá para pagar as aulas de inglês. Tenho condições para arranjar melhor, afirmou Carmen, seguramente, e sem mentir. Na verdade, aquele emprego não a satisfazia; a remuneração era injusta, as condições de trabalho, péssimas. Além disso, havia Ricardo cujos olhos tristes pareciam acusá-la de não retribuir a sua paixão, e ainda teria de enfrentar Andr�� – a seu ver, um carácter indigno! E foi assim que, facilmente, Carmen se desprendeu daquela sua primeira experiência profissional e de um namoro que não chegou a criar raízes.

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Capítulo XIV O segundo emprego de Carmen teve, também, algumas características peculiares. De entre vários, um anúncio que solicitava “Secretária” foi o escolhido por Carmen. Enviou a sua candidatura e foi-lhe marcada a entrevista. Dessa vez, convenceu sua mãe a não a acompanhar. Já tinha dezoito anos!... Vestiu-se com esmero. Pareceu-lhe apropriado à ocasião o seu “tailleur pied-depoule” branco e preto, de saia pregueada e casaquinha cintada, à qual uma sobregola de “piqué” branco dava um ar de Secretária americana dos filmes anos 50. O cabelo negro enrolado na nuca reforçava-lhe o aspecto profissional. Pintura no rosto não usava. Bastavam-lhe os olhos grandes e escuros sombreados pelas longas pestanas, a boca carnuda e vermelha, as faces rosadas. Enquanto aguardou a sua vez no meio de uma numerosa fila de candidatas, Carmen quase esmoreceu. Pareciam tão experientes! Todas mais velhas do que ela. Sobretudo, mais altas! Umas louras, outras morenas – havia até uma ruiva – vestiam-se imitando as actrizes de cinema mais ousadas, não lhes faltando mesmo a maquilhagem a condizer. Só o seu espírito afoito a incitou a não desistir. Até que chegou a sua vez! Após uma longa troca de perguntas e respostas entre ela e o entrevistador – que era o próprio patrão – Carmen retirou-se, levando consigo, tal como as outras, a costumada frase sacramental: “Dar-lhe-emos uma resposta dentro de dias!” Quando Carmen já nem esperava, a resposta chegou. Tinha sido a seleccionada! Nem queria acreditar! Parecia-lhe um óptimo emprego e o ordenado era tentador. Novecentos escudos mensais representavam para ela uma fortuna! A firma situava-se num sítio muito aprazível de Lisboa – frente ao Parque Eduardo VII – num prédio de luxo, ocupando um andar altíssimo. O patrão, Monsieur L., era um francês simpático e dinâmico que geria uma representação de máquinas industriais. Duas salas enormes, modernamente equipadas e com amplas janelas viradas para o parque, estavam destinadas ao serviço de escritório. Uma sala para o Monsieur, outra para a Secretária. O resto da casa servia de habitação. Aí residiam, portanto, Monsieur L., a esposa, Madame L. e duas filhas, crianças em idade escolar. A Madame era belga. Mulher alta, graúda de osso, ao contrário do marido, era feia e antipática. Falava mal o português e arrastava os erres. As meninas eram loiras e encantadoras. Carmen adorava as suas funções. Era a única empregada e o patrão habituou-se a confiar nela para tudo. Além do serviço interno – correspondência, contacto com clientes, marcação de entrevistas, etc. – Havia também o serviço externo – depósitos bancários, letras para pagar, cheques para levantar. Ela gostava daquelas incumbências movimentadas, da responsabilidade que lhe cabia. Nunca lhe agradaram as tarefas monótonas! Quando contou a sua mãe estas suas incumbências externas, Diolinda apavorou-se:

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Círculo do Graal – Toma cuidado, filha! Podem assaltar-te! Mas Carmen tranquilizava-a: – Não se preocupe, mãezinha, eu tomo cuidado! De resto, quem vai adivinhar o que levo comigo? Monsieur L. fazia viagens frequentes ao estrangeiro. Durante a sua ausência, o serviço interno amainava. Mas ficavam as datas calendarizadas para Carmen sair a pagamentos e cobranças. Nos dias mortos, lia os vários jornais que a firma recebia diariamente, e os romances que sempre a acompanhavam. Divertia-se com telefonemas ao acaso, e deliciava-se com a vista que o Parque lhe oferecia, incluindo os pares de namorados que ignoravam estar a ser observados do alto. Na hora de almoço, ela própria passeava pelas compridas alamedas, contemplando os verdes que a encantavam, ou detendo-se junto ao lago, observando os irrequietos patos que ora ensaiavam curtos voos ora mergulhavam, finalizando as suas acrobacias com ruidosos espanejar de asas. Na quietude melancólica da Estufa-Fria, saboreava a merenda que levara de casa e lia, lia e sonhava... Aquela paz acalmava-a, serenava a inquietude do seu espírito. De facto, Carmen não mentiu quando me disse, alguns capítulos atrás, que os jardins tinham sido uma constante na sua vida. A Madame não interferia nos assuntos profissionais. Fazia a sua vida: saía a compras, ia ao cabeleireiro, ia buscar as meninas ao colégio. Havia dias em que Carmen nem a via, a não ser quando lhe dizia: “Bon-jour ou Au revoir, Madame!” Mas, sempre que o marido estava ausente, a patroa não deixava de lhe solicitar alguns favores, à margem das funções para que fora contratada. – Se a menina “irr” ao Baixa, “trraga-me” café da Casa Chinesa, meu “marrido” “gostarr” muito. – Oui, Madame! – Anuía Carmen. – Como a menina não tem que “fazerr” pode “irr” “comprarr-me” pão à “padarria” de São Nicolau (ficava no Chiado!), minhas filhas só “gostarrem” do pão “desse padarria.” – Oui, Madame! – Condescendia Carmen. Com o tempo, a Madame foi alargando o rol dos recados: um dia o café, outro, o pão, outro a farmácia, outro isto, outro aquilo...

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Círculo do Graal Carmen nunca soube se Monsieur L. tinha conhecimento disso, mas, por precaução, nunca lho disse. Seis meses passados, já a Madame tinha inserido no rol das tarefas extra, que Carmen iria buscar as meninas ao colégio. E elas não estudavam perto! Frequentavam o Liceu Francês, que ainda distava uma boa meia hora, a pé. – Oui, Madame! Oui, Madame! Oui, Madame! – Repetia a jovem Secretária, no receio de perder o emprego. Acumulava agora as funções de Secretária, moça de recados e aia de meninas... escondendo de sua mãe, é claro, tais serviços. Um dia, alguém veio em seu socorro. Estava ela no pátio do Liceu Francês, a aguardar que as pequenas saíssem das aulas, quando ouviu junto de si uma voz: – Carmen, que fazes aqui? Ficou para morrer. Era a Dra. Alice, sua ex-professora de francês e que nutria por ela uma simpatia especial. – Eu... Eu... – engasgou-se Carmen, envergonhada. – Tens aqui algum irmãozinho? – Continuou a professora. – Não! Isto é... – titubeou Carmen, acabando por desenrolar a sua história. A professora arregalou os olhos de espanto. – Parece impossível! Uma aluna como tu! Vou contar o que vi e inscrever o teu nome na Escola! Não sabes que há firmas idóneas que nos pedem referências das melhores finalistas, a fim de lhes oferecerem um emprego compatível? – Não sabia! Mas fico-lhe muito grata pelo seu interesse, Dra. Alice! – Não me agradeças ainda. Aguarda e verás! E com dois beijos nas faces ruborizadas da ex-aluna, se despediu Alice, a fada benfazeja. O caminho de regresso, fê-lo Carmen, alegremente, com as duas francesinhas pela mão e quase saltitando como elas. A professora cumpriu o que prometera e não tardou que Carmen recebesse uma nova e melhor proposta de colocação, que prontamente aceitou. Foi deste modo singular que a nossa jovem pulou para o seu terceiro emprego.

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Círculo do Graal A firma empregadora, um conhecido laboratório de especialidades farmacêuticas, tinha como director e proprietário um não menos conhecido e respeitável médico. Carmen admirou nele o democrata preocupado com o bemestar dos seus empregados, oferendo-lhes, além de remunerações compensadoras, contrapartidas de carácter social inovadoras. Foi colocada na contabilidade e tinha agora tarefas bem definidas. E a remuneração já ultrapassava os mil escudos! Aí, tomou contacto com as primeiras máquinas de calcular. Eram engraçadíssimas! Funcionavam à manivela! Somas para a frente, subtracções para trás. A princípio, Carmen não confiava nelas e conferia os resultados à mão. Mas, a pouco e pouco, pôs de lado essa meticulosa desconfiança. O cálculo comercial, disciplina que estudara, fornecera-lhe facilidade e rapidez de raciocínio. Rapidamente se integrou nas novas funções. A empresa, que funcionava apertadíssima numa vivenda no centro de Lisboa, mudou posteriormente as suas instalações para uma quinta enorme, situada numa localidade da linha de Sintra. Para lá foram transferidos todos os serviços e funcionários e, obviamente, Carmen também. O director, sempre atento ao bemestar dos seus empregados, disponibilizou carrinhas para os transportar de Lisboa até ao novo local de trabalho e para os trazer de regresso. A carrinha destinada ao seu grupo saía, impreterivelmente, da Praça Marquês de Pombal às oito e quinze da manhã. A única dificuldade de Carmen, o seu calcanhar de Aquiles de sempre, persistia: cumprir horários. Não tiveram conta as vezes que ela, confrontada com a ausência do meio de transporte, que entretanto já tinha partido, teve que rumar à estação do Rossio, apanhar um comboio e, chegada à estação de destino, fazer ainda um trajecto a pé, que levava no mínimo quinze minutos, por uma estrada de terra batida. Não teria sido tão mais simples cumprir o horário da carrinha? Mas nisso, Carmen era incorrigível. As novas instalações, onde tinham de permanecer das nove da manhã às seis da tarde, eram magníficas. Além dos departamentos reservados a laboratório, armazéns, e escritórios, dispunha de um amplo refeitório onde eram servidas refeições completas muito agradáveis. Nele comiam doutores, pessoal de escritório e operários, sem distinção de classes. O preço da refeição?... Um escudo! Imaginem!... É evidente que essa quantia tinha sido estipulada apenas como um preço simbólico. E uma coisa curiosa que Carmen nunca esqueceu: dispostos em vitrinas, viam-se chocolates, rebuçados, garrafas de sumos vários, completamente à disposição dos funcionários. Com uma particularidade: não havia ninguém para receber o preço neles marcado, ninguém a vigiá-los. Apenas uma caixa de cartão, testemunha muda, aguardava que o comprador ali depositasse o valor da mercadoria retirada. Com tal voto de confiança, seria impossível ser desonesto! Uma sala de leitura repleta de livros e revistas, especialmente do foro médico, completava as instalações de lazer. Nela, Carmen saciava a sua curiosidade pela medicina.

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Círculo do Graal Certo dia, ao tomar conhecimento de que fazia falta mais uma empregada para a contabilidade, Carmen logo se lembrou da sua amiga Conceição e indicou-a para o lugar. Esta, que ainda não se empregara, aceitou de mãos abertas a oportunidade e, assim, ficaram de novo juntas. Juntas, porém, distantes... e a distância era criada por Conceição. Algo quebrara aquela amizade juvenil, algo que Carmen nunca compreendeu. Talvez uma dissemelhança de temperamentos, apenas, ou porque Conceição, a quem não se conheciam namorados, criticasse intimamente os sucessivos namoros de Carmen a quem pouco importavam as opiniões alheias. Carmen era, de facto, e sob uma análise superficial, namoradeira. Para isso contribuíam os muitos pretendentes que a assediavam e a insegurança que sentia em relação a Edgar. Ou seria carência de pai? Carência de afecto?... Ou seria já a sua ilimitada curiosidade pelos comportamentos humanos?...

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Capítulo XV Após aquelas férias campesinas em que Edgar se mostrara tão apaixonado, Carmen, de volta à cidade, deparou-se com as habituais aventuras romanescas do seu eleito. Carmen, que não tinha vocação para sofredora, ia tentando encontrar alguém à altura da sua exigência. Alguém havia de superar Edgar ou, pelo menos, igualá-lo. Mas, o destino não a ajudava. Daí, as várias experiências. Depois do seu curto namoro com André que, diga-se de passagem, não chegara a implantar-se fortemente no seu coração, outras se seguiram, igualmente frustradas. Por outro lado, Edgar, que volta não volta lhe aparecia para reiterar as suas juras de amor e a já conhecida promessa: “Contigo é para casar!”, desorientava-a e impedia-a de se fixar noutro amor. A dada altura, o Toy – o jovem pintor de que já vos falei – após a partida de Vitor Manuel para a Índia, começou a aparecer mais assiduamente na casa de Carmen. Ia saber notícias do amigo e da família que, à força de tão longa convivência, considerava um pouco como sua. Tinha, entretanto, acabado o curso de Belas-Artes, e persistia nele o sonho de vir a ser um pintor famoso. Até já alugara um estúdio, uma pequena divisão que destinava aos seus momentos de inspiração. Numa das suas visitas, Toy perguntou a Diolinda: – Posso levar a Carmen ao cinema? – Se ela quiser... porque não? Contanto que seja à “matinée” – respondeu Diolinda, que tinha por ele grande amizade, considerando-o quase como um filho. – Que vamos ver? – Perguntou Carmen, para quem o cinema era um dos passatempos preferidos. – Uma peça de teatro que adaptaram em filme: o “Pigmaleão”, de Bernard Shaw. Vais gostar! – Em que cinema vai? – No Tivoli. – No Tivoli? Fui com os padrinhos à estreia de sexta-feira e o filme não é esse... – É uma sessão especial que só decorre às 11 horas da manhã – explicou Toy. – Ofereceram-me dois bilhetes. – Então vou! – Disse Carmen, alegremente. – Já que a mãe deixa... – Virei buscar-te às dez! Mas não te atrases, como é teu costume! – Recomendou ele.

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Círculo do Graal Carmen ficou envaidecida. O Toy, a quem ela costumava fazer recados, levar cartas às suas apaixonadas... Ao pé dele sentia-se ainda a mesma criança... O que não sabia era que ele já tinha descoberto nela uma mulher! À hora combinada lá foram. Conversaram, riram, e ambos adoraram o filme. Carmen só estranhou o jeito terno com que o amigo lhe tomara a mão durante o espectáculo. Uma forte intuição lhe dizia que algo de estranho começava a passar-se. E como não adquirira o hábito de tirar dúvidas desse tipo com sua mãe – sempre preferira aclará-las sozinha – ficou-se com a sua dúvida. Dias passados, foi Carmen quem convidou Toy para uma sessão de cinema que ia passar à tarde no Instituto Britânico. Era o famoso “Hamlet”. Ele aceitou, com agrado. Mas a peça era longa demais, e às tantas, Carmen que não tinha lanchado, tirou às apalpadelas da sua bolsa a sanduíche que sua mãe lhe preparara e partilhou-a com o companheiro. A escuridão da sala não dava para ver o que recheava o pão. Quando perceberam que estavam comendo “omeleta”, vendo o “Hamlet”, tiveram um tal ataque de riso que a plateia, ofendida, não hesitou em mandá-los calar. Nem se lembraram que estavam assistindo a uma das maiores tragédias de Shakespeare!... Carmen era assim. Tudo lhe servia de pretexto para rir. Continuava a ser intrinsecamente feliz! O seu riso, fácil e espontâneo, contagiava quem a acompanhasse. Até o Toy, habitualmente tão sereno e comedido, não conseguia parar de rir. Contida a hilaridade, retomaram a peça e, tal como da outra vez, as mãos dele afagaram as suas. De volta a casa, comentaram a sessão, voltaram a rir do sucedido e despediramse como bons amigos – como se as suas mãos não lhes pertencessem, tivessem tido uma linguagem independente... Toy, que sabia da paixão de Carmen por Edgar e daquele namoro irregular, perguntou um dia: – Então, Carmen, como vão as coisas com o Edgar? – Se queres que te diga, nem eu sei! Sabes como ele é! Não pode ver uma burra de saias... Anda meses desaparecido, mas se vê alguém rondando-me a porta, logo me aparece ao caminho. Da última vez, acabei tudo com ele! – Acho que fizeste bem! Conheço Edgar e o seu temperamento volúvel. Quer todas e não quer nenhuma! Na minha opinião, não te merece. – Mas Edgar não é só isso! – Defendeu Carmen. É inteligente, sensível, tem um coração de ouro e é um filho extremoso. Sei que dará um bom marido! – Duvido que te faça feliz... – E quem me fará feliz? – Desabafou Carmen.

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Círculo do Graal – O tempo o dirá! E, mudando de assunto, Toy disse: – Queria que visses os meus quadros, que passasses um dia pelo meu “atelier”. Não os mostro a toda a gente, sabes? – Gostaria muito! Agora deixaste-me curiosa! E a oportunidade surgiu. Uma tarde, findo o trabalho no Laboratório, Carmen trocou as aulas do Britânico por uma visita ao estúdio do seu amigo pintor. Era uma sala pequena. Quadros e tintas espalhavam-se por todo o lado. Penduradas num gancho, uma bata suja de tintas e a boina preta que Toy frequentemente usava. A um canto, no chão, um colchão coberto de almofadas, sugeria momentos de descanso e inspiração, ou talvez algo mais... – Ainda bem que vieste! – Disse Toy, com ar feliz. – Tenho uma surpresa para ti! – Uma surpresa?... Para mim? Toy tapou-lhe os olhos com as mãos e fê-la caminhar pela sala, guiada por ele. Até que parou e, destapando-lhe os olhos, exclamou: – Já podes! Apoiado num cavalete, um quadro tinha como legenda: “Ninotchka”. Era assim que Toy lhe chamava desde menina. Carmen mirou e remirou a pintura. Não sabia o que dizer. Era tão estranha!... O seu, porventura antiquado conceito de beleza, estremeceu. – É o teu retrato! – Disse o pintor, perante o silêncio da jovem. Carmen, pondo o seu habitual ar zombeteiro, perguntou: – Eu sou aquilo?! – Para mim, tu és aquilo! – Respondeu Toy, sorrindo. – Mas... tenho apenas um olho, um cone no lugar dos seios, uma cabeça quadrada... Era, nitidamente, uma influência da fase cubista de Picasso... Carmen não apreciava a pintura moderna. A sua noção de Arte – ou para quem quiser, a sua ignorância – não pactuava com determinadas obras muito em voga na época. Pernas soltas pelo espaço, cabeças viradas ao contrário, olhos flutuando fora das órbitas, não se harmonizavam com ela. Carmo Vasconcelos

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Era uma nova forma de arte, uma nova forma de ver o mundo, dizia-se. Mas, Carmen sentia-se ainda ligada aos célebres retratos e paisagens de Rembrandt, aos famosos lírios azuis e girassóis de Van Gogh, às formosíssimas Virgens e Meninos de Memling. Conhecendo, porém, o espírito sensível e delicado de Toy, apressou-se a dizer carinhosamente: – Perdoa se não te compreendo! Vais dizer que sou muito ignorante... – Como te enganas! O que vou dizer é que estou doidamente apaixonado por ti! E antes que Carmen pudesse responder alguma coisa, tapou-lhe a boca com um ardente e prolongado beijo. De seguida, retomando a compostura, murmurou: – Não fiques assustada! Sabes como te respeito! Só então, apesar de um pouco aturdida, Carmen teve a certeza de que a sua intuição não a enganara. Reparou, depois, que o amigo, que sempre vira como um irmão, tinha dois belos olhos negros, meigos e profundos, uma boca carnuda e sensual, e uma testa altíssima que não negava a sua inteligência. Da figura esguia, usualmente vestida de negro, sobressaíam as mãos ágeis e secas, de finos dedos alongados – verdadeiras mãos de artista! Assim, Carmen encetou um novo romance: terno e confiável. Certo dia, Toy veio com uma novidade: – Lembras-te daquela candidatura que fiz à Gulbenkian? Ganhei a Bolsa de Estudo! Irei a Paris, donde seguirei para a Alemanha. Não é fantástico?... – Bravo! – Exclamou Carmen. – Era tudo o que sonhavas, não é verdade? – Era... mas nunca julguei que o sonho se concretizasse. E logo agora que começava a realizar um outro sonho! – De que falas? – De ti! Do desejo de te ter só para mim. – Como? Se vais partir... – Irei organizar-me, fixar residência. Depois irás ter comigo. Tal como eu, deixarás este país que é pequeno demais para nós... Carmo Vasconcelos

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– Vais sozinho? – Não! Vamos quatro. E Toy desfiou o nome dos jovens pintores que o acompanhariam e que ela já conhecia. Toy partiu! Carmen sentiu a falta dele. Era tão inteligente, tão carinhoso e protector... Primeiro, os postais, depois as cartas, não se fizeram esperar. Todos começando por “Querida Ninotchka!”. Neles, Toy ia desenrolando os seus passos, ilustrando-os com fotos: Paris, Munique, as suas primeiras exposições... Estava lutando pelo seu ideal, com dificuldades, mas feliz! Carmen sonhava já com o dia em que se juntaria a ele. Iria viajar, conhecer outros mundos. A vida irreverente e sem preconceitos que Toy lhe descrevia, fascinava-a. Diolinda, porém, estava renitente. Embora soubesse do namoro e gostasse de Toy, ia sempre dizendo: – Nem pensar! Vida de artista, vida de saltimbancos... Lá por tão longe, sem eira nem beira. – Mas, mãezinha, não irei antes de casar e do Toy ter preparado uma casa para morarmos. – Isso veremos, veremos... – respondia Diolinda. Carmen que, segundo os meus cálculos, teria agora dezanove anos, ia continuando a sua vida: o Laboratório, o Britânico, as saídas com os padrinhos. Passaram-se os meses. Toy escreve dizendo que viria a Lisboa tratar de uns papéis. Não sabia ainda a data certa. Carmen esperava-o, ansiosamente. O que aconteceu a seguir, bem se pode dizer que foi uma grande partida do destino. Uma das muitas que esse “menino travesso” pregou a Carmen... Toy chegou sem se fazer anunciar e, querendo fazer-lhe uma surpresa, resolveu esperá-la à saída do Britânico. No mesmo dia e à mesma hora, Edgar – com quem Carmen já havia rompido – teve a triste ideia de fazer nova investida àquela que considerava a sua noiva eterna. De carro novo, plantado à porta do Instituto, esperava-a também. Imagine-se a cena! Se Carmen não esperava ver Edgar, muito menos esperava a surpresa de Toy! Depois de uma azeda troca de palavras entre os dois pretendentes, que se conheciam bem, Edgar pôs o motor em marcha e retirou-se.

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Círculo do Graal Carmen, que se mantivera à distância, só então se aproximou. Toy estava lívido. Os beijos que guardara para ela, tinham-lhe morrido na boca. Caminharam juntos até casa. Em vão, Carmen tentou explicar-lhe que estava inocente. Porém, Toy parecia de gelo. Não acreditava em tamanha coincidência! E foi Carmen que, orgulhosamente, perante a injustiça do seu ciúme, da sua desconfiança, deu por terminado o namoro. Toy partiu daí a dias. Sem uma palavra, sem uma despedida. Carmen perdera, sobretudo, um grande e velho amigo. E, com ele, uma janela para o mundo. O jovem pintor ficou-se pela Alemanha. Por lá casou, teve filhos, fez nome e tornou-se famoso, passando a expor em vários países. Hoje, o que Carmen mais lamenta é não ter voltado a encontrar o seu amigo de infância. Como gostaria de o abraçar, sem ressentimentos, de o felicitar pelo seu sucesso!

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Capítulo XVI E como ia a família de Carmen? Seu pai, parecia ter assentado, finalmente. Vivia há já alguns anos com uma senhora (que o tempo veio confirmar ser a última) e com ela aumentou a sua prole. Carmen ganhara, entretanto, mais dois irmãos e uma irmã. Habituada a visitar o pai, continuou a dar-se de igual modo com a nova família. Peculiar era esta forma de relacionamento inter-familiar! Todos se davam com todos! De tal maneira, que os novos irmãos chegaram a participar de alguns Natais em casa de António. E, numa altura em que a mãe deles teve de baixar ao hospital, foi aos cuidados de Diolinda que os pequenos ficaram. Mais tarde, também Eduardo, filho de António, foi trabalhar com o pai de Carmen, como ajudante de guarda-livros. Isto não era comum em Portugal nos anos cinquenta! Hoje, já é vulgar coexistirem na sociedade portuguesa este tipo de famílias alargadas, provenientes de divórcios e de novos casamentos, onde, para além de “os meus” e de “os teus”, há também, “os nossos filhos”. Carmen cresceu neste tipo de convívio. Quando, os professores lhe perguntavam: – E tu, Carmen, quantos irmãos tens? Ela sempre demorava a resposta: – Um momento, sotôr, tenho de os contar... E, contando pelos dedos, lá ia enumerando os seus irmãos – sete ao todo. Quando lhe falavam de “meios-irmãos”, para ela não fazia sentido. Costumava até dizer, de brincadeira: – Meio-irmão, como? Da cintura para baixo ou da cintura para cima? Do lado direito ou do lado esquerdo?

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Vítor Manuel, que também sentia a falta da família, desterrado nessa Índia estranha e misteriosa, resolve casar por procuração com a namorada que deixara em Portugal. Era uma jovem algarvia, de cabelos loiros e olhos amendoados como os frutos das amendoeiras da sua terra. Era muito bonita, muito serena, e apaixonada por Vítor. Corridos os trâmites do casamento, veio para Lisboa e passou algum tempo em casa de Diolinda, agora sua sogra, aguardando o navio que a levaria a tão longínquas paragens. Nunca viajara, mas esse facto não impediu que, sem hesitação, se aventurasse naquela longa viagem para se juntar Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal ao homem que amava. Lá, viveram a sua lua-de-mel, e os filhos não se fizeram esperar. Primeiro uma menina e logo de seguida um rapaz. As cartas de Vítor traziam cada vez mais novidades. A nova casa, as fotos dos garotos, o convite para Carmen ser a madrinha da menina... Carmen ficou radiante! E Teresa Leonor tornou-se a sua primeira afilhada.

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E Carlos Alberto? Também ele ganhou, tempos depois, uma companheira dedicada. Chamava-se Graça. De uma beleza incaracterística, sem artifícios, era uma alma simples e honesta. Apesar da situação incerta do homem que escolhera, amava-o e confiava que a sua ternura faria dele um ser equilibrado. Formaram um lar e dessa união nasceram dois filhos. Como se fosse uma praxe, também desta vez, Carmen foi a madrinha do seu primeiro filho, a quem pôs o nome de Luís Filipe. Diolinda e Carmen uniram-se para segurar aquela família. Visitavam-nos frequentemente, levavam mimos para as crianças, ajudavam o mais que podiam. E era com elas que Graça desabafava, chorava as suas lágrimas – porque as lágrimas já choviam naquele lar. Verdade seja dita, Carlos Alberto estimava a mulher e adorava os filhos, porém, as noitadas e o álcool derrubavam todas as suas boas intenções. Não raro era vê-lo chorar, revoltado, suplicando que o compreendessem, que o perdoassem. Mas Graça começava a estar cansada. Os seus esforços mostravam-se inúteis. Até que, exausta de lutar por aquele amor sem futuro, abandona Carlos Alberto e parte para França levando consigo as crianças. E foi um caminho sem regresso! Feita em farrapos, a vida de Carlos Alberto tornou-se um círculo vicioso. A frustração de perder a companheira, a saudade dos filhos queridos, tudo a escapar-lhe das mãos como areia por entre os dedos, fizeram-no descer mais fundo. Desse círculo escapava bebendo e, bebendo, voltava a entrar nele... Carlos Alberto e a vida, não se poupando um ao outro!

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Carmen debatia-se entre pedaços de inferno e retalhos de céu. Por um lado, o sofrimento daquele irmão, a ausência do outro, as suas próprias desilusões amorosas; por outro, os livros, os devaneios poéticos, os jardins, a busca constante do amor idealizado. A vida profissional corria-lhe sem problemas. Do Laboratório, só pretendia sair para ingressar na Função Pública.

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Círculo do Graal Era mais seguro, dizia-se. Além disso, garantiria uma reforma na velhice. Carmen nunca foi muito de pensar no futuro, e a velhice parecia-lhe tão distante... Mas os mais velhos alertavam-na. Especialmente sua mãe, que sempre sonhara esse futuro para a filha. Carmen observou então, que outros jovens, empregados como ela, também mostravam essa preocupação. Entre eles, um casal com quem fez amizade: a Paula e o Manuel. Ambos estavam na corrida para o funcionalismo público. Liam o “Diário do Governo” (antigo nome do Diário da República) e estavam a par de todos os concursos. Breve formaram um grupo, incluindo Conceição, e os quatro juntavam-se para estudar a “Gorda”, livro que como o nome indica, era volumoso, recheado de legislação a empinar para quem se quisesse tornar funcionário público. Carmen detestava todas aquelas leis, artigos e parágrafos, e empinar, fosse que matéria fosse, representava para ela um tédio. Mas, por outro lado, era um desafio e de desafios ela gostava. Assim, entrou Carmen na movimentada concorrência com aqueles que almejavam “o tal cargo seguro com direito a reforma na velhice” – embora os seus vinte anos achassem isso um absurdo... Algumas afinidades foram unindo os quatro amigos, gerando entre eles uma convivência mais alargada que levou o grupo a acamaradar em passeios de fimde-semana, sem a “Gorda”, é claro! A Paula e o Manuel formavam um casal simpático, de ideias modernas e progressistas, roçando o intelectual. Razoavelmente cultos, interessavam-se por boas leituras e o marido dedicava-se, nas horas livres, a fazer traduções de livros estrangeiros. Carmen chegou a colaborar com ele na tradução de um desses livros: “Ser Peregrino”, de Joyce Cary. Como aparte, intercalo aqui uma curiosidade que confirma a forte ligação de Carmen ao passado, como se a ele se tivesse agarrado para não soçobrar... Conforme guardou até hoje “os mimos” de seus irmãos, na sua biblioteca pode ver-se, há mais de quarenta anos, um exemplar do dito livro, autografado pelo seu amigo tradutor. Mas, continuando: O casal, muito selectivo nos seus relacionamentos, integrou no grupo um primo muito chegado, o Francisco, e um amigo deste, o Bernardo, ambos já formados em “Económicas e Financeiras”. O primo era “um cérebro”, segundo constava, e estava já bem colocado num Organismo Público. Não obstante, era de uma simpatia e de uma simplicidade tocantes. Por sua vez, Bernardo, apesar de simpático, deixava transparecer uma certa vaidade, um certo snobismo. A verdade é que a selecção se fez naturalmente e, para além do casal, dois pares se formaram: Carmen e Francisco, Conceição e Bernardo. E digo “pares”, devido apenas à forma como se aliaram. Carmen e Francisco falavam sem parar e riam a bandeiras despregadas; Conceição e Bernardo, muito contidos, falavam menos e sorriam apenas. A mistura resultou num grupo que ora falava de cultura e coisas sérias, ora ria divertido, fazendo chiste de qualquer banalidade. Dos passeios que fizeram juntos, Carmen recorda especialmente a visita a Óbidos. Como se deliciou com aquela paisagem, que dir-se-ia saída da paleta de um pintor: o casario muito branco, envolvido pelas altas e negras muralhas; as ruas minuciosamente empedradas; as flores e trepadeiras nas varandas, colorindo Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal com a sua policromia a brancura das fachadas; as igrejas e pequenas ermidas, que escondiam verdadeiros tesouros. E as sucessivas provas de vinho do Porto pelas várias “capelinhas”? Essas, contribuíram para avivar o espírito alegre do grupo. Em suma, foi um dia inesquecível! Outros encontros se sucederam. Almoços, passeios, sessões de “slides” em casa de Francisco. Por razões pessoais, Bernardo foi o primeiro a abandonar o grupo. Francisco mantinha-se e começava a demonstrar um interesse especial por Carmen. O facto de ser uns sete ou oito anos mais velho, deixava-o um tanto inibido. Um dia, aconselhou-se com os primos: – Gosto muito da Carmen. Gostaria mesmo de casar com ela, mas receio que não me aceite. Que acham? – Tu é que sabes... Carmen tem óptimas qualidades, mas não tem um curso superior como tu... Precisas de uma mulher “formada”, para melhor te acompanhar no futuro promissor que te espera... Fosse por isso ou pela sua timidez, o certo é que Francisco não ousou declarar-se e, entretanto, o grupo desfez-se. Os concursos a que se tinham submetido deram os seus frutos, e cada qual seguiu o seu caminho. Carmen deixou o Laboratório, onde tinha permanecido quatro anos e, para alegria de sua mãe, ingressou na Função Pública. Só muitos anos mais tarde, por casualidade, Carmen soube da conversa havida entre Francisco e os primos “conselheiros”. Veio a saber depois, que Francisco se tornara uma figura de vulto na economia portuguesa e que, após ocupar vários cargos de destaque, chegou a Ministro de um dos governos que se seguiram ao 25 de Abril. E mais: tal como o aconselharam os íntimos, casou com uma mulher “formada”! Se essa particularidade o fez feliz ou não, só ele poderá responder... O que pude perceber foi que Carmen não sentiu o menor abalo, pois nunca o vira senão como um amigo. Quem parece que se deu mal com aquele casamento foram os autores do “sábio” conselho, pois, não sendo eles próprios “formados”, logo se viram, discretamente, afastados da nova família, pela “bem formada” esposa de Francisco.

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Capítulo XVII Esgotado o material que a minha amiga me tinha confiado, comecei a impacientar-me. Eu já tinha galgado uma montanha de papéis. Como estaria a escalada de Carmen? Algo me dizia que devia estar prestes a chegar ao fim. Movida pela minha intuição, não resisti a telefonar-lhe. – Não acredito! – Ouvi do outro lado do fio. – Carmen? – Perguntei. – Eu própria, minha amiga! Já não conhece a minha voz? – É que fiquei surpresa... Porquê o “não acredito”? – É que estava justamente a pensar em contactá-la ainda hoje. – Quer dizer que já transpôs a sua montanha? – Isso mesmo! Dei por terminado o meu trabalho e já está entregue. Posso agora respirar um pouco. – Então, ver-nos-emos em breve? – Amanhã mesmo, se quiser... – Óptimo! Onde? – No Jardim Botânico, pelas quatro horas, está de acordo? – É um lugar esplêndido! Lá a espero. Apesar de Setembro estar a findar, o Verão não se mostrava disposto a deixarnos. No dia seguinte, sequiosa da frescura e exotismo do lugar escolhido, caminhei alegremente ao encontro de Carmen. Surpreendentemente, ela já me esperava. Abraçámo-nos como se não nos víssemos há anos. A primeira coisa que me ocorreu dizer-lhe foi: – De novo um jardim! Vejo que continua a amá-los! – Eu não lhe disse, minha amiga! – Respondeu Carmen. – Sinto-os do mesmo modo que os sentia Natércia Freire quando escreveu: “Possuem ou não os jardins, na penumbra da sua vegetação, na humidade cheirosa do seu húmus, na dignidade orgulhosa da sua solidão e do seu silêncio, uma alma atenta e profunda, capaz de entender os poetas e os amantes, felizes Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal ou desgraçados?! Parecem feitos para o encantamento das crianças, para o gozo da sua imaginação, para seu leito e seu baloiço, seu esconderijo e, um dia, sua saudade. Mas na cósmica harmonia que os circula, feita de Água, Luz e Vermes, eles são a expressão de uma alma hermética, antiga e atenta, coerente com o eterno rodar do mundo, em seu despertar deslumbrado, e seu adormecer fatigado.” – Tal como ela disse, eles foram meu baloiço, meu esconderijo e, agora, a minha saudade. – Na verdade, ninguém para sentir e amar os jardins como os poetas – comentei. Depois, falámos das nossas famílias, das graças do Diogo, dos dias que nos separaram, da nossa saudade recíproca e, por fim, dos nossos trabalhos literários. Mostrei a Carmen o que tinha escrito a partir das notas que ela me tinha entregue. Mostrou-se admirada: – Tudo isto? – Gostaria que lesse, não sei se traduzi exactamente as suas memórias. – E que importância teria se assim não fosse? A ideia é escrever um romance, não uma biografia. – Mas, sem as suas experiências, Carmen, eu jamais o escreveria. – Retorqui. – Digamos que eu lhe forneço a matéria-prima, minha amiga. Contudo, sem o artífice toda a matéria permaneceria em bruto. E, neste caso, eu não poderia tê-la posto em melhores mãos. – É que há momentos em que me sinto tão insegura... Tudo me parece imperfeito... – Isso é próprio do artista, seja qual for a arte em que se empenhe. Quantas vezes eu sinto o mesmo em relação à minha poesia. Quantos sentimentos rasgados, deitados no lixo... Todavia, é essa insegurança, essa busca da perfeição, que nos faz crescer. Portanto, minha amiga, o segredo é continuar! “Labor omnia vincit improbus.” – Como? Importa-se de traduzir? – São fragmentos de dois versos das “Geórgicas”, de Virgílio – “O trabalho perseverante vence todos os obstáculos.” – E agora é tarde para parar, não é verdade? Só lhe peço que não me abandone, Carmen, sentir-me-ia perdida...

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Círculo do Graal – Não creio. Mas prometo caminhar consigo até ao fim desta aventura, embora se avizinhem tempos difíceis... O que já se avizinhava já, era o cair da tarde e, pela necessidade de encerrar o jardim, quase fomos postas na rua. Combinámos uma sessão de trabalho para daí a dois dias, exclusivamente dedicada ao nosso romance, jurando ambas que da próxima vez não nos perderíamos em divagações...

~~~/~~~ De volta a casa, quem se perdeu em divagações fui eu: “Será que ainda falta muito para Carmen terminar a sua história? Que surpresas me reservará ainda, o jorrar da sua fonte?” Esta dúvida excita-me e atormenta-me! Se por um lado, anseio concluir este romance, por outro, é como se me doesse já o vazio da obra terminada... Para amenizar um pouco a minha dúbia intranquilidade, resolvi preencher o tempo dando uma olhadela, de relance, à História de então. Relembro-lhes que, depois da última retrospectiva, Carmen teria à volta de vinte e dois para vinte e três anos. Estávamos em 1961 – um ano “quente” para Portugal. A segurança do Estado Português sofre abalos em várias frentes. Logo no princípio do ano, o capitão Henrique Galvão, ferrenho oposicionista ao governo de Salazar, toma de assalto o paquete Santa Maria; em Fevereiro, têm início as lutas pela independência de Angola; e em Março deflagra no Norte daquela colónia uma onda de violência contra a presença portuguesa em terras africanas, o que leva Portugal a encetar uma guerra ultramarina que duraria nada mais, nada menos, que treze anos. Falar dela será escusado. Todos sabemos as vidas que destruiu, o sofrimento que causou. Melhor do que eu o faria agora, os meios de comunicação social têm-se encarregado de trazer, frequentemente, ao conhecimento dos mais jovens o que foram esses anos negros, o que representaram de terror, invalidez e morte para outros tantos jovens como eles... E o ano culmina com a ocupação de Goa, Damão e Diu pelas tropas da União Indiana. Pelo meio, algumas tentativas internas de rebelião, sempre abortadas, eram o espelho da revolta reprimida que grassava em Portugal contra a política de repressão vigente. E como ia o resto do mundo? Impossível não falar do Muro de Berlim – “O Muro da Vergonha! ”

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Círculo do Graal Finda a Segunda Guerra Mundial, a constituição de duas Alemanhas inseridas em blocos militares antagónicos, fez de Berlim Oeste, sob administração da Alemanha Ocidental, uma ilha no território da Alemanha Oriental. Centenas de milhares de cidadãos do Leste, sobretudo quadros técnicos, aproveitam o estatuto internacional da cidade para fugir para o Oeste. Foi então que o Muro, que se estendia por mais de cem quilómetros, dividindo a cidade em dois sectores, foi mandado levantar – justamente neste ano de que falo – pelas autoridades do sector oriental para evitar que os cidadãos descontentes com o regime que aí imperava se passassem para o sector ocidental. Esta medida que, por um lado, veio pôr fim à hemorragia demográfica, insustentável para a jovem República Democrática Alemã, por outro lado gerou, como todos sabemos, efeitos desumanos indescritíveis: famílias irremediavelmente separadas; trabalhadores privados dos seus empregos; seres humanos ceifados da sua liberdade individual, confinados a uma barreira intransponível. Quantos inconformados perderam a vida ao tentar escalar aquele muro! Só passados vinte e oito anos, mais precisamente no ano de 1989, outros ventos sopraram, e com eles ruiu o Muro de má memória. Digna de nota, também em 1961, é a viagem de satélite levada a cabo por Yuri Gagarine da U.R.S.S. – O primeiro homem a cruzar o espaço!

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De regresso à actualidade, lembro que amanhã irei encontrar-me de novo com Carmen, facto que, só por si, já faz nascer em mim uma alma nova!

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Capítulo XVIII Apesar da chuva que resolveu brindar-nos com a sua aparição, nenhuma de nós desistiu do encontro marcado. Uma casa de chá muito acolhedora e, providencialmente, “às moscas”, deu-nos a tranquilidade desejada. Depois de nos libertarmos das incómodas capas molhadas e dos não menos incómodos chapéus-de-chuva, sentámo-nos confortavelmente, enquanto pedíamos um chá quente e reconfortante. A minha ansiedade não perdia tempo: – Vamos ao trabalho? – Calma! – Respondeu Carmen. – Ainda não bebemos o nosso chá... Com Carmen tudo é assim! Leva a vida num ritmo muito próprio, sempre disposta a aguardar que “algo” lhe dê o sinal de partida – lhe indique o momento certo para dar um passo. Nunca se preocupa com o futuro. – É uma perda de tempo! – Costuma dizer. E o passado, relembra-o, sim, mas como uma porta que se fechou. Não posso deixar de confessar que, por vezes, a sua tranquilidade me desconcerta. O que fez ela da sua turbulência juvenil? Da sua ânsia de abarcar o mundo? De que modo lhe teria a vida ensinado que não vale a pena correr atrás seja do que for, impacientar-se, remar contra a maré?... Tão embrenhada estava nestes meus pensamentos, que só difusamente ouvi a voz de Carmen: – Então, minha amiga, vai deixar arrefecer o chá? Como que apanhada em falta, imiscuída numa intimidade que não me dizia respeito, respondi apressadamente: – É que prefiro bebê-lo aos poucos e menos quente... – Sendo assim, que tal começarmos a trabalhar? – Estou pronta! – Quase gritei. – Terá de recordar-me em que ponto ficou! – Deixe-me ver... Quando a Carmen se tornou funcionária pública, calculo que por volta de 1961. – Ah! Tinha eu vinte e dois para vinte e três anos... Dito isto, Carmen ficou silenciosa. Parecia com pouca vontade de prosseguir, o que me levou a perguntar:

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Círculo do Graal – Sente-se bem? Se não está com disposição... – Não, não, estava somente a rememorar, a despedir-me de uma menina que rapidamente se tornaria numa mulher... – Abeiramo-nos de uma fase de mudança, minha amiga, da primeira grande viragem da minha vida. Lentamente, Carmen começava a abrir o portal das suas recordações. Pareceume notar uma nuvem de tristeza no seu olhar, fixo algures, num ponto longínquo. Aguardei em silêncio, temendo que qualquer interrupção quebrasse o fluir das suas lembranças. – Que tempos aqueles! Cupido insistia em jogar comigo à “cabra-cega”. E eu, de olhos vendados, incapaz de o apanhar! Incapaz também de desistir! Ele deixava-se tocar, para logo me fugir... E nesse jogo de dá e tira me foi envolvendo, até que um dia mudou de jogo, deixando-me na mão uma charada para resolver... Foi quando pôs Jorge no meu caminho. Tinha a minha idade, era bonito, elegante, gentil e meigo. Trabalhava como desenhador e cursava o Instituto Industrial com vista a tornar-se engenheiro. Alguns meses depois de nos conhecermos, já falava em casamento. Tinha pressa em me apresentar aos pais, mas eu ainda me sentia hesitante. Ainda não privara com ele o suficiente para lhe definir o carácter. Apresentei-o à minha mãe que, caso raro, até gostou dele. A partir daí, passou a visitar-nos. Entretanto, Edgar estava de namorada fixa. Impossível eu não saber, dada a proximidade das nossas moradas. O mesmo se passava com Edgar, que já se tinha apercebido do meu recente namoro com Jorge. E, Cupido continuou maquinando o quebra-cabeças que tinha inventado... Um dia, era uma sexta-feira de Verão, Edgar acercou-se de mim com uma atitude sobejamente minha conhecida: – Preciso falar contigo! – Sobre quê? – Sobre nós! – Não vejo o que possa ser! Já passou tanto tempo... – Venho repetir-te o que sempre te disse: que contigo era para casar! – Porquê repeti-lo agora? – Porque desta vez é definitivo! Acabei o meu curso de engenharia, estou bem empregado e ofereceram-me uma compensadora transferência para

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Círculo do Graal Moçambique. Quero aceitá-la e ir casado. Tenho poucos meses para resolver. Venho propor-te que cases comigo e me acompanhes. Por segundos, fiquei muda. Tremiam-me as pernas. Depois, disfarçando o meu nervosismo, argumentei: – Não percebo. Sei que namoras! – Não é com ela que desejo casar. É contigo! – Deves saber que comecei há pouco um namoro e, desta vez, parece-me sério. – Eu sei! No entanto, ambos estamos a tempo. Não precisas responder já. Pensa, fala com a tua mãe. Eu já falei com os meus pais, sabes como eles gostam de ti – apoiaram de bom grado a minha escolha. – Não sei... Além do mais, tenho o meu emprego, que me custou tanto a conseguir... – Não precisarás trabalhar, vou com uma situação muito confortável – garantiu Edgar. Porque estava na hora de me apresentar ao serviço, despedimo-nos à pressa, com um rápido mas terno apertar de mãos, enquanto Edgar ia dizendo: – Telefono-te amanhã! Lá fora, a chuva continuava a cair. A minha mão estava gelada, quase dormente, de escrever ininterruptamente.

Não tive outra alternativa senão pedir a Carmen que descansássemos um pouco. – Com certeza, minha amiga! Se pedíssemos mais um chá? – Seria óptimo, porque o meu gelou. Enquanto aguardávamos a nova bebida quente, não pude deixar de dizer: – Mas que vida amorosa acidentada, Carmen! Cupido não hesitava em cravá-la de setas! – E não sabe de todas, minha amiga!... Cupido sempre foi um brincalhão! Felizmente, apesar de me ter incluído nas suas vítimas preferidas, quase todas as setas que me dirigia eram de papel – tocavam-me e caíam sem deixar mossa. De aço mesmo, daquelas que enterram fundo e deixam cicatrizes quando as arrancamos, não mais que duas, até hoje... Mas, quanto a isso, o melhor é ficarmos por aqui, já que fizemos uma promessa de não nos perdermos em divagações...

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Círculo do Graal – Melhor é quebrarmos a promessa – sugeri. – Será que vamos conseguir cumpri-la?... – Também acho! Está quebrada! – Disse Carmen, rindo. Só então reparámos que o nosso chá fumegava debaixo dos nossos narizes, transportado decerto por mãos invisíveis, pois nem demos conta de que já o tinham trazido. Bebemos uns goles, e mais reconfortadas dispusemo-nos a prosseguir. Carmen acendeu mais um cigarro e recomeçou: – A minha cabeça estalava. Era uma decisão importante! A primeira realmente importante com que me defrontava. Dela dependeria a minha felicidade futura! – Por um lado, Edgar era tudo o que eu sempre desejara, além de que realizaria ainda o meu sonho de uma vivência em terras de além-mar... No entanto, quem me garantia que ele tinha mudado, que o seu espírito de D. Juan o tinha abandonado para sempre? Por outro lado, havia Jorge, tão apaixonado e fiel... Cupido desta vez excedera-se! Era, na verdade, um quebra-cabeças! Uma charada que eu não conseguia resolver! Quando regressei a casa, contei tudo à minha mãe e ao padrinho. A mãe, sempre cautelosa, alertou-me: – Sabes como o Edgar é mulherengo! Além disso, perderias o teu emprego. E se tiveres problemas, lá tão longe, não terás quem te ajude! Jorge parece-me mais sério, mais digno de confiança. E com ele, ficarás perto de nós... O padrinho não era da mesma opinião. – Tu é que deves decidir! Sempre gostaste de Edgar, nós bem sabemos. E ele parece gostar de ti a valer, para te fazer essa proposta... Pode ser que tenha mudado... Todo aquele arrazoado só serviu para me deixar mais confusa. A minha cabeça duvidava, o meu coração impelia-me a aceitar sem reservas. Qual deles estaria certo? No dia seguinte, o telefonema de Edgar não se fez esperar: – Então, Carmen, pensaste no que te disse? – Não fiz outra coisa, mas ainda estou confusa. – Não foi para saber já a tua resposta que telefonei. É que a minha mãe gostaria de reafirmar o meu pedido, na presença da tua mãe. É sábado, podíamos sair os quatro logo à noite, que achas? – Telefono-te mais tarde a confirmar. Não sei se a minha mãe estará de acordo... – Fico à espera. Um beijo! Carmo Vasconcelos

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– Outro! – Respondi. A noite chegou. Combinámos sair. Edgar tomou o caminho da Marginal. À frente, a seu lado, eu podia sentir-lhe o perfume, o calor do seu corpo. As duas senhoras conversavam no banco de trás, o rádio tocava baixinho. Sempre que podia, Edgar tirava a mão do volante, afagava-me o rosto, apertava-me as mãos. A minha emoção era indescritível. O meu amor, apenas adormecido, acordava de novo com toda a sua força. Estava uma noite quente, um céu profusamente estrelado, e o sussurro do mar parecia dizer-me: – Por que esperas? Aceita! Aceita! Não é ele o teu príncipe encantado?... Ficámo-nos por um local nocturno muito acolhedor. Tinha uma música ambiente, cálida e romântica. Para mim, era uma estreia, a primeira vez que pisava uma “bôite”! Os “slows” sucediam-se e enquanto as nossas mães falavam, talvez sobre o nosso futuro, nós dançávamos, frente aos seus olhos enlevados... A palavra casamento tinha vergado Diolinda. O marulhar das ondas misturava-se agora com as palavras de amor que Edgar me segredava. A minha cabeça rodopiava e tudo me parecia irreal, como num conto de fadas. – Então, querida, já pensaste? Já não me amas? – Sabes que te amo! Sempre te amei! – Então, por que não me dás a resposta que quero ouvir? – Dá-me tempo. Só mais uns dias... Até segunda-feira, concordas? – Combinado! Segunda-feira dás-me a resposta. Na verdade, nem eu própria sabia por que não lhe respondia de imediato, se desde o primeiro instante tudo dentro de mim gritava: “Sim! Sim!” A noite acabou mais quente do que começara, e o nosso beijo de despedida foi mais terno e sensual do que nunca.

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No dia seguinte, domingo, saí a passeio com os padrinhos, como era hábito. Emocionada, contei à madrinha o que se passara. Ela deu-me a sua opinião, sem hesitar: – Por que esperas? Se é de Edgar que gostas, como eu sei, deves ficar com ele! Rui dirigia-se, como de costume, à piscina do Estoril. Foi quando me lembrei que Edgar me dissera ir passar o domingo na casa de veraneio que possuía numa Carmo Vasconcelos

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Círculo do Graal praia não muito longe dali. Não resistindo à ideia de o ver, de lhe expor as minhas dúvidas, de destrinçar mais claramente os seus sentimentos, pedi ao padrinho que mudássemos o programa e fôssemos até lá. Um tanto contrafeito, Rui, que como eu já disse não gostava de praia, acabou por me fazer a vontade. Os meus olhos percorriam a praia de ponta a ponta, na esperança de ver Edgar, e o meu coração batia acelerado na expectativa da surpresa. O que eu não sabia, ainda, era que Cupido continuava a fazer as suas traquinices... Só o percebi quando ao fim de algum tempo, avistei Edgar passeando junto ao mar, pisando a areia molhada com aquele jeito de andar que eu tão bem conhecia. Porém... não caminhava sozinho. Uma jovem caminhava a par e passo com ele, pendurada no seu braço. Reconheci-a. Era a sua última namorada. A minha reacção foi instintiva! Levantando-me de um salto, atravessei a praia correndo, mesmo a tempo de, quase tocando o parzinho, mergulhar nas ondas, bem na frente deles. Deu para perceber que Edgar me tinha visto, e isso era tudo o que eu queria naquele momento. A minha decepção foi tal que nem o mergulho gelado conseguiu esfriar-me a cabeça. Regressei rapidamente para junto dos padrinhos, que me fitaram, atónitos, pois não tinham percebido aquele meu repentino desejo de mar... Tentando disfarçar o meu nervosismo, eu apenas disse: – Se o padrinho quiser, podemos ir embora. Já tomei o meu banho, e como está na hora do almoço... – Mas, que te deu? Porquê tanta pressa? – Não tive tempo de explicar. Edgar encontrava-se já junto de nós. Nervosíssimo, só conseguia dizer: – Não é o que estás a pensar! – Não estou a pensar nada! – Respondi, pondo um ar natural e continuando a vestir-me. – Estava precisamente a tentar acabar tudo com ela! – Não tens que me dar explicações! – Ouve-me, por favor! – Já estamos de saída. Amanhã falamos! E com estas palavras me afastei, seguindo os padrinhos que, discretamente, já se retiravam. Carmo Vasconcelos

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– Mas que situação, Carmen! – Não pude deixar de intervir. – É para que veja, minha amiga, como Cupido me dava com uma mão o que me tirava com a outra! – E o que decidiu, depois disso? – Depois disso, o meu orgulho rugia dentro de mim como um leão enjaulado, não me deixando ouvir mais nada! Só desejava que o dia seguinte chegasse depressa para enviar a Cupido a solução da charada que ele, maldosamente, tinha arquitectado para mim. – Não me diga que?... – Não sei o que está a pensar, minha amiga, mas o que eu fiz no dia seguinte, bem cedo, foi pegar no telefone e dizer a Edgar: – Conforme o prometido, venho dar-te a resposta. – E então?... – Não estou interessada na tua proposta! – E que respondeu ele? – Interrompi de novo, ansiosa. – Por momentos, ficou mudo, mudo de espanto, como pode imaginar. Depois... um lacónico “Está bem!” encerrou a conversa e a nossa longa relação. – Só assim?... Apenas com essas palavras? – Indaguei, incrédula. – É verdade, minha amiga! Poucas palavras, mas as bastantes para alterarem definitivamente o nosso futuro... – Futuro que iremos saber, não é verdade? – Certamente! Mas não hoje! Começa a fazer-se tarde. – Tem razão! Além disso, já me forneceu material suficiente para uns dias... – Os seus ouvidos merecem-no! Como dizia Goethe: “Falar é uma necessidade. Escutar é uma arte.” – Bela frase para terminarmos o nosso trabalho de hoje! – Comentei. Já de saída, reparámos que a chuva tinha passado, dando lugar a um suave vento morno que trazia até nós um agradável cheiro a terra molhada. Foi quando Carmen me surpreendeu, dizendo:

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Círculo do Graal – Ah! Que cabeça a minha! Se não fosse este cheiro característico que paira no ar, não me lembraria do poema que trouxe para lhe oferecer... Verá como ele se coaduna com esta tarde de chuva que passámos juntas, saboreando chá e memórias... – Muito obrigada, Carmen! Nada como finalizarmos estas emocionantes memórias, com o bálsamo da poesia!

BAILANDO COM A CHUVA

Lá fora... cai a chuva, indiferente, Dançando nua, gelada e ondulante, Invade-me o seu frio penetrante, E ensopa-se a minha alma lentamente. Baila com a chuva o meu imaginário, A valsa de ontem, memórias esquecidas, Rodopiam sonhos, paixões adormecidas, Pecados inconfessos, segredos de um diário. É um bailado grotesco, alucinante, Vertiginoso, cruel, fantasmagórico, A um só tempo deprimente e eufórico, Sombras chinesas numa tela esvoaçante. Lá fora... cai a chuva, persistente! Já mal a ouço, absorta em devaneio, De alma alagada, mente náufraga, sem freio, Meu corpo enrodilhado e indolente. Lá fora... pára a chuva de repente! E um odor a seiva, a pão, terra molhada, Enxuga-me a alma e faz brotar a gargalhada Que devolve à vida o meu corpo já dormente! Nas asas do vento morno, o passado foge! Do porão da alma, eu tranco as escotilhas! Mudo o cenário, troco as sapatilhas! E volto para o palco, bailarina de hoje!”

FIM DA PRIMEIRA PARTE

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O Vértice Luminoso da Pirâmide, Vol I