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OLHO CRÍTICO qualificação, o trabalho continuaria braçal, mal pago e na última escala da construção civil. O custo de vida mais caro e o rancho substituído por uma casa não muito diferente dele. Quer dizer, rompido o elo com o rural tradicional, com sua hierarquia autoritária - mesmo na linha menos poderosa economicamente -, com o fatalismo ingênuo, Francisco é um homem sozinho com seu sonho de pertencimento e integração à vida burguesa brasileira moderna, cujo modelo ideal era aquele desenhado por Milionário e José Rico: fama, sucesso e poder de consumo. Mas o faria através da música caipira - ou da sua releitura, do sertanejo pop cantado pelos filhos -, o único cabedal da cultura rural pobre que julgava (justamente) válido para o mercado de consumo urbano. Na trajetória de Francisco há o sujeito abandonado por Deus e pelo Diabo, sem qualquer laço com o coletivismo (inclusive o dos engajados na luta pela terra) rural ou urbano, sem a proteção do Estado, sem acesso mínimo à cidadania, definitivamente individualizado. A improvável superação deste estado de coisas é que constitui-se no mote do filme, já que milhões de outros franciscos sucumbiram na tentativa de mudar o destino social com as próprias mãos. A empreitada quixotesca assume, segundo o olhar narrativo, condição de ação exemplar, de padrão a ser seguido em conformidade com a tese publicitária recente de que “o brasileiro é aquele que não desiste nunca”. Nessa perspectiva, o narrador acaba por exaltar o fato de que tudo se fez dentro da ordem e das leis, pois a família Camargo esteve alheia aos movimentos populares e políticos ou à qualquer saída que não fosse aquela do trabalho. O bom-mocismo dos filhos de Francisco sugere quase uma inverossimilhança, não fosse o fato de que o filme assume coerentemente o olhar daqueles que contam a própria trajetória com os instrumentos que lhes são facultados: a lógica do sacrifício em busca da justa redenção. Freqüentemente destituída do caráter político fundamental que assumiu ao longo da sua história, a trajetória do Presidente da República, outro migrante em direção à cidade, tem sido insistentemente contada do mesmo modo: o homem que alcançou a presidência depois de ter começado como vendedor ambulante, ainda menino. A perspectiva política conservadora, neste caso, assume caráter moral e faz eficiente contraste com Cidade de Deus. Por fim, observe-se que tanto os filhos de Francisco

quanto Milionário e José Rico, nas suas falas finais assim como nas letras das suas músicas, acabam deixando entrever uma saudade profunda da vida pobre rural, que aparece como uma espécie de tempo da felicidade. No final de Estrada da Vida, quando cada cantor toma um rumo, Milionário e José Rico cantam: Um carro de boi rodando/ Rodando dentro de mim/ Deixando rastro de saudade/ Saudade que não tem fim/ Ai se eu pudesse/ Voltar o tempo que foi/ Papai sempre contente/ Tocando carro de boi. Em 2 Filhos de Francisco, Zezé di Camargo e Luciano, abraçados aos pais durante o show final, cantam: No dia em que eu saí de casa/ Minha mãe me disse filho vem cá/ Passou a mão em meus cabelos/ Olhou em meus olhos começou falar/ Eu sei que ela nunca compreendeu/ Os meus motivos de sair de lá/ Mas ela sabe que depois que cresce/ O filho vira passarinho e quer voar/ Eu bem queria continuar ali/ Mas o destino quis me contrariar/ E o olhar de minha mãe na porta/ Eu deixei chorando a me abençoar/ A minha mãe naquele dia me falou do mundo como ele é/ Parece que ela conhecia cada pedra que eu iria por o pé/ E sempre ao lado do meu pai da pequena cidade ela jamais saiu/ Ela me disse assim meu filho vá com Deus/ Que este mundo inteiro é seu. Como explicar que os tempos de dureza, superados com esforço hercúleo, venham tomados nessa acepção romântica, tanto nos anos 70 quanto nos dias atuais? Talvez pudéssemos pensar em um certo romantismo agrário presente na cultura brasileira, revitalizado insistentemente no plano da retórica por aqueles que já podem olhar para o tempo rural como passado. O fato é que, em ambos os casos, volta-se ao campo na posição de proprietário, com carro de último tipo, e não mais na condição de trabalhador pobre. Mas é o caso de lembrar que também uma parte dos trabalhadores engajados no movimento por reforma agrária traz consigo esse discurso romântico de resgate da terra mítica, que um dia pertenceu aos seus pais ou aos seus avós, como o lugar da redenção, do reencontro com a natureza e a produção da própria vida. Mas, como vimos, não é do rural rebelde que aqui se trata. Este é outro filme. 95

Sinopse 11  
Sinopse 11  
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