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OLHO CRÍTICO que falam da rebelião do excluído das possibilidades burguesas, acaba servindo de recado à grande parte da platéia, que verá na trajetória da dupla a projeção da própria história de vida. Contudo, não devemos pensar que o filme mostre uma crítica política. Se há denúncia, é porque se entrevê a condição precária da família ao longo da narrativa que, fiel ao olhar Zezé, acaba trazendo à tona situações de evidente injustiça social, como os dias de fome, a doença que acomete o irmão Wellington, o trabalho infantil dos dois meninos para ajudar a sustentar a família, a falta de escola, a casa miserável na periferia de Goiânia etc. - elementos que reforçam para o espectador o tamanho da batalha empreendida pelo pai e pelos meninos, hoje famosos e narradores da história. Como já é lugar-comum no Brasil, só a transformação de um dos filhos em jogador de futebol ou artista permite, dentro da lei e da ordem, que uma família pobre escape da miséria. Sabendo disso, Francisco não espera, arregaça as mangas e, com obsessão, coloca os filhos no caminho da música - daquela que conhece e admira: a caipira, ou moda de viola, ilustrada no filme pela gravação de Beijinho Doce, de Tonico e Tinoco. E a estréia de Zezé, ainda na pequena cidade goiana de Pirenópolis, será justamente cantando, ou tentando cantar, Beijinho Doce. A partir de então, firme em seu propósito, Francisco “obriga” seus filhos a aprenderem música. Primeiro, compra uma gaita de boca para Mirosmar, para desespero do ouvido da família, substituindo-a mais tarde por um acordeom, ao qual acrescentaria um violão para o filho mais novo, Emival e para a compra dos instrumentos, empenha toda a colheita, para escândalo do sogro. É aqui que o filme desenha a luta de Francisco e o recado passado para os meninos: a música, ou a vida de músico, seria a alternativa ao duro e desprestigiado trabalho “no cabo da enxada”. Espreitando o pai a capinar, Mirosmar/Zezé ensaia os primeiros acordes aceitáveis de Tristeza do Jeca, não por outra razão a música que daria à dupla o primeiro tostão - quando os meninos decidem tocar na rodoviária de Goiânia para dar de comer à família. Como tantos trabalhadores rurais na mesma situação, Francisco se desentende com o sogro/proprietário e acaba rumando com a família para a cidade grande, não sem levar consigo a esperança de que no urbano haveria mais “futuro”

para os seus filhos. E por futuro leia-se: empregos melhores que o trabalho braçal, escolarização, alguma chance de melhoria econôm ica. Com o o pai de Zezé, uma infinidade de trabalhadores rurais fez a mesma estrada em direção às periferias das cidades industriais e das capitais dos estados. Muitas vezes, saíram motivados pela expectativa de melhores condições de vida; muitas outras, expulsos pelo processo de modernização da agricultura, pela violência da grilagem ou pressão do capital agrário concentrador. Acompanhando a mudança da família Camargo rumo à Goiânia, podemos perceber de maneira sutil, as etapas da transição do Brasil rural para a consolidação do capitalismo urbano e de mercado que observávamos acima: vemos a troca do lampião pela luz, da lavoura pela construção civil, do rádio pela televisão, e também as mudanças da tradicional música caipira rumo à constituição do atual gênero sertanejo pop. Um trajeto que parte da integração à vida rural coletiva (cujo exemplo máximo na fita é o baile na tulha ao som da sanfona), passando pela sua desintegração e conseqüente absorção pela indústria de cultura de massa, quando se “contamina” com os elementos de outros gêneros. Acompanhando coerentemente esse percurso, o filme se inicia com as canções tradicionais caipiras interpretadas pelas velhas duplas para terminar com os cantores que fazem sucesso no estilo MPB, como, por exemplo, Ney Matogrosso, que canta Calix Bento, e Maria Bethânia cantando Tristeza do Jeca.

De caipira a sertanejo É na rodoviária de G oiânia que M iranda, “ um empresário exatamente de dupla caipira”, como se intitula o próprio, “descobre” a dupla infantil que passara a apresentarse naquele terminal para conseguir algum dinheiro para a família num momento de grande privação. Note-se que neste filme a identidade de dupla caipira não é negada: pelo contrário, é aceita pelo pelos personagens que, neste momento da narrativa, tentam tirar proveito dessa identificação. Com a entrada de Miranda na vida dos meninos, estes conhecerão o trabalho duro, a exploração e também alguma fartura que, por obra da malandragem de Miranda, acaba sendo mais do próprio empresário que da família Camargo. Miranda, com 92

Sinopse 11  
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