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1ªFILA desempregado, camelô, separado da mulher e profundamente saudoso da mãe falecida. A ausência do pai marca também a fala de Rubão, que suspeita que seu pai adotivo, já falecido, era de fato seu pai biológico. Ele conta como encontrou uma criança abandonada num corredor do prédio, e como isso o perturbou; que sonha sempre com o pai, e que “tem certeza” que a mãe vai lhe contar “a verdade” antes de morrer - todo um roteiro da verdade sobre si como um segredo familiar emocionalmente carregado. Também na fala de Antônio Carlos, apesar de seu conteúdo ser quase didático logo, pouco eficaz em termos de melodrama (“sempre mantive minha dignidade”, “eu não me escondo”) -, o tom das palavras e a sobriedade com que ele chora ao lembrar de um reconhecimento pífio por parte do patrão tornam seu sofrimento crível, ou seja, capaz produzir a identificação do espectador com o narrador vitimizado. Em outros casos, a auto-mise-en-scène melodramática não é bem sucedida. Como no caso de Maria Regina, que joga segundo a lógica do “quanto pior, melhor” e acaba não convencendo. Revela-se aí também o caráter teatral - no caso, um teatro mal realizado, que entrega demais sua composição e não gera identificação. Por vezes, ainda, o modo de auto-enobrecimento não é o apelo ao melodrama, e sim discursos de distinção mais explícitos e objetivos. Marcelo, por exemplo, apresenta-se como alguém que percebe a vida em termos estilísticos - o que Bourdieu21 define como a mais refinada estratégia de distinção -, um esboço de dandismo que se afasta marcadamente do m elodram a. Eugênia escreve poem as e, com pondo a personagem artística e inadaptável, disfarça sua condição precária de trabalho (animadora de festas infantis) com frases como “eu vivo do que aprendi na vida”. Um dos três jovens músicos que sonham com a fama chega ao paroxismo dessa atitude de estilização de si: ele, em absoluto silêncio, se deixa

permanente para o mercado de imagens e para o gozo imperativo, nova forma de imposição imaginária que substituiu a repressão18. Em Edifício Master, essas mise-en-scènes melodramáticas são de outro tipo. Como diz Coutinho, “é claro que existe um teatro, mas não é contaminado [como no “Big Brother, talk show etc.”, diz o autor pouco antes] pela noção de mercadoria” 19. O teatro freqüentemente melodra­ mático que ocorre encena o sentido daquela vida não como concorrência universal e direta, mas como compensação para a derrota social. Essas histórias mobilizam quase sempre como personagens os familiares. Reproduz-se, em tom acanhado, a estratégia que Diderot já anunciava como caminho para um teatro burguês: uma afirmação da vida privada como esfera da verdade, em contraposição às mascaras dos detentores do poder (naquele momento os aristocratas), em enredos onde viceja o ressentimento. “A estética do ressentimento: a ação dramática conduzida por uma personagem que é apresentada como vítima das circunstâncias que decidem seu destino; a mobilização das simpatias do espectador em função da inocência moral desta personagem em relação a seus próprios atos; a separação clara entre o eu e o mundo, situando o que é mau, violento e calculado como exterior ao psiquismo e o que é bom, sensível, verdadeiro, como interior ao psiquismo desta personagem, que é situada no centro das identificações do espectador.”20 Nas entrevistas, coincidem narrador e personagem, e sendo essa narração um improviso dialogai, a construção de si se expõe. Há momentos de grande eficácia melodramática em alguns desses atores-narradores de si próprios. É difícil não se deixar levar pelo canto patético de seu Henrique depois de conhecermos sua solidão, que quase o matou quando teve uma queda dentro de casa, e sua história de trabalho duro e fam ília nos Estados U nidos. A idade, a penúria e as dificuldades de movimentos resultantes de um derrame reforçam a identificação com o sofrimento de Roberto,

18 KEHL, Maria Rita. Op. cit., p. 14. 19 Em entrevista para MATTOS, Carlos Alberto. In: Eduardo Coutinho. o homem que caiu na real. Catálogo produzido pelo Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira, 2003. 20 KEHL, Maria Rita. Desejo e Liberdade..., Op. cit., p. 221. 21 BOURDIEU, Pierre. La Distinction - critique sociale du jugement. Paris, Minuit, 1979.

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Sinopse 11