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Revista Ciência em Pauta, ano 1, n. 03, abril de 2012

Especial Ostras

Do mar à mesa Parceria entre universidade e Estado gera alternativas para pequenos produtores

Entenda como funciona uma torre sustentável

Software aponta contaminação em águas subterrâneas


Carta ao leitor

A Revista Ciência em Pauta chega a terceira edição para consolidar a proposta de trazer ao leitor, e em especial aos alunos do Ensino Fundamental, diferentes perspectivas acerca da produção científica na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Com matérias desenvolvidas nas distintas áreas do conhecimento e abordando temas de relevância na atualidade, tentamos manter a essência das edições anteriores no que diz respeito aos textos e fizemos algumas mudanças no projeto gráfico, para torná-lo mais leve e adequado ao público-alvo. Apesar das novidades no design da revista, a publicação de conteúdo de qualidade continua sendo nosso principal objetivo. A literatura infantil é objeto de estudo em pesquisas que deram origem a uma interessante reportagem que procura destacar a importância da percepção e atuação dos professores nas salas de aula e os benefícios que a literatura, quando ensinada de forma lúdica, pode trazer para os alunos, influenciando diretamente na formação da identidade das crianças. Já na área de Engenharia, a revista traz assuntos relacionados à sustentabilidade, como um infográfico que explica o funcionamento de uma Torre Sustentável capaz de proporcionar economia de energia e água para casas populares. Estudos com petróleo, que focam na exploração e nos danos ambientais, também foram fonte de

inspiração para nossa equipe. As últimas páginas da publicação ficam por conta de um projeto desenvolvido na UFSC que visa tornar o consumo de ostras mais saudável e seguro nos restaurantes de Florianópolis. Nossos repórteres analisaram todo o processo de produção do alimento em Santa Catarina. O assunto, de grande relevância para a população catarinense, foi o escolhido para ilustrar a capa desta edição Esperamos que você, caro leitor, possa desfrutar de uma boa leitura e apreciar nosso trabalho, desenvolvido sempre com o intuito de despertar sua curiosidade e agregar conhecimento sobre projetos interessantes e que, muitas vezes, passam despercebidos em nosso cotidiano. Contamos também com sua ajuda na busca por projetos e pesquisas que possam render boas reportagens. Se você tem alguma sugestão de assunto ou conhece alguma pesquisa que vem sendo desenvolvida e que ainda não foi tema na revista, envie sua ideia para a redação do Ciência em Pauta pelo e-mail: nupejoc@cce.ufsc.br. Acompanhe também nossos especiais, podcasts e videos no site: www.cienciaempauta.com.br. Desejamos uma ótima experiência de leitura e desde já o convidamos para ler as próximas edições da Revista Ciência em Pauta, que serão lançadas ainda em 2012.

Expediente Coordenação: Prof ª Tattiana Teixeira - DRT-BA 1766 Redação: Lucas Miranda, Luisa Pinheiro, Marilia Labes, Monique Nunes, Bruna de Paula, Juliana Passos Infografia: Rafael Canoba Revisores: Lucas Pasqual, Helena Stürmer, Tiago Pereira e Julia Ayres Design: Lucas Goulart Diagramação: Jennifer Hartmann e Julia Ayres Agência Ciência em Pauta | UFSC - Centro de Comunicação e Expressão - Departamento de Jornalismo - Sala 143 | Campus Universitário Trindade Florianópolis - Santa Catarina | nupejoc@cce.ufsc.br | +55 48 3721 48 38 Impressão: Gráfica Natal Tiragem: 1000 exemplares

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ÍNDICE Literatura ajuda a formar identidade

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Torre sustentável promove economia de energia

Pesquisas com petróleo visam sustentabilidade

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Estudos incentivam produção de ostras em SC

Depuradora criada na UFSC completa seis anos

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Tiago Pereira

EDUCAÇÃO

Utilizar livros que têm uma linguagem mais simples é uma alternativa para que o gosto pela leitura seja adquirido desde a infância

Literatura influencia formação da identidade infantil Textos como fábulas exercem papel de formadores da personalidade de crianças Lucas Miranda -Mas, vovó, o gosto pela leitura não vem da escola? - Ah, não, minha filha. Os livros escolares são em geral tão sem graça com suas estopadas instrutivas, morais e cívicas, que as crianças saem da escola com horror do papel impresso, absolutamente convencidas de que todos os livros são maçadores. É justamente nas bibliotecas infantis, livremente organizadas, que as crianças tomam gosto pela leitura ou se libertam do horror ao papel impresso que adquirem nas escolas. Depois da pergunta de Narizinho, Dona Benta deu logo a resposta que muitos professores ouviriam com o nariz torcido de Emília. Hoje, 66 anos depois que esse diálogo foi escrito e lido por Monteiro Lobato na inauguração de um busto em sua homenagem, ainda se discutem propostas de escolarização da literatura.

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Na UFSC, pesquisadoras como Luana von Linsingen estudaram questões que se vinculam diretamente ao papel da literatura infantil no desenvolvimento e no aprendizado das crianças. Em sua dissertação de mestrado, a autora abordou a literatura infantil no ensino da disciplina de Ciências e chegou a conclusões instigantes. Ao analisar uma coleção de livros infantis com temas relacionados principalmente à Biologia, foi possível fazer uma série de reflexões, inclusive sobre a capacidade efetiva de a literatura didática ensinar e transmitir conhecimentos. Nesse caso, o papel do professor adquire uma importância fundamental. Para tornar mais efetiva a aprendizagem das crianças através da leitura, se faz necessário nas escolas a presença de educadores capacitados para mediar a relação da criança com o livro, uma tarefa bem mais complicada do que parece. Um dos motivos é a falta de uma preparação adequada por parte desses educadores, como atesta a pesquisadora Eliane Debus, que ministra a disciplina Literatura Infantil no curso de Pedagogia da UFSC. “Muitos professores têm uma visão muito utilitarista da literatura, a literatura

apenas na escola. O mediador não pode se preocupar apenas em passar um conteúdo, mas também em criar o gosto pela leitura nos seus alunos”. Outra questão é definir o tipo de literatura e o momento em que será usado. Há professores que não incluem nas suas aulas o incentivo à leitura lúdica e utilizam a literatura apenas com caráter didático, como único eixo que norteia a inserção de livros infantis na escola. Na visão de Luana von Linsinger, porém, a literatura não deve ser usada na disciplina de Língua Portuguesa, por exemplo, apenas como base para ensinar gramática, gêneros textuais e algo como interpretação de texto. Para a professora, o papel da leitura vai muito além disso. “É essencial dar a ênfase necessária a outro valor da literatura, que muitas vezes é deixado de lado: o da formação da identidade”. A fábula, gênero amplamente explorado na literatura infantil, figura como um formador de identidade nesse contexto, já que os diálogos nela construídos são essencialmente simbólicos. Ao interpretá-la, a criança trabalha com a construção e revisitação de sentidos, de formação de significados.


pesquisa nessa área - na UFSC, não há nenhum grupo de pesquisa que aborde sistematicamente o tema. Eliane Debus afirma que, no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Língua Portuguesa e Alfabetização (NEPALP), ela é a única que foca essa temática, e defende que deveria haver mais espaço para estudos mais aprofundados do assunto na Universidade.

Arte: Lucas Goulart

E seja falando de literatura infantil, de ensino através da literatura ou de fábula, é impossível não voltar a Monteiro Lobato. O escritor foi capaz de fazer o que Eliane Debus considera como “mágico”: embora tenha produzido livros com caráter curricular, tais como “Emília no País da Gramática”, suas obras reuniram elementos fantásticos e didáticos em um formato sem precedentes. Em “A Chave do Tamanho”, por exemplo, Lobato usa o olhar de Emília para transportar o leitor ao mini e micro universo biológico, quando, na história, a personagem fica do tamanho de um inseto e passa a enxergar o mundo por outra perspectiva. Neste sentido, a obra de Lobato assume duplo valor ao ensino de Ciências, pois incita a observação, a concentração e a interpretação de um ambiente, além da busca pelas relações entre os fatores bióticos e abióticos e o incentivo à prática do exercício de “olhar além do umbigo”, de despojamento do egoísmo natural entre crianças e adolescentes.

Leitura didática : o terror da criançada Na escolha do uso deste ou daquele tipo de livro também vale lembrar que, como von Linsinger afirma, “para a criança o livro didático é uma chatice a priori.” Naturalmente, é difícil para o estudante ser obrigado a assimilar a informação contida num material durante uma leitura que foi imposta por alguém. Além disso, é no livro didático que estão as questões que ele tem que realizar em casa, como tarefa, quando gostaria de estar fazendo outras atividades. “Uma das grandes barreiras do livro didático é que ele já vem ao aluno como material forçado. Não foi algo que ele escolheu, foi algo que a escola e o professor escolheram e que ele terá de engolir”, explica. Para a pesquisadora, a utilização de livros paradidáticos – caracterizados por uma linguagem coloquial com a presença de diálogos e elementos como o humor - é uma ótima alternativa para que o gosto pela leitura seja adquirido desde a infância. “Não se trata de um texto simples, esvaziado de conteúdo relevante; é um texto mais acessível. Com isso, desarma-se a resistência original do aluno, que acaba se tornando mais atento ao que está sendo informado”. Von Linsinger acredita que a escolha, junto com a destituição de um preconceito para com a leitura de um conteúdo visto como “de escola”, auxilia o processo cognitivo do estudante. A questão central do problema é que, para aprimorar a utilização do livro na escola, é importante que haja

O papel da leitura vai além do ensino da gramática

Lobato escreveu obras com grande valor didático

Saiba mais

Leia a tese de Doutorado de Eliane Debus “Monteiro Lobato e o leitor, esse conhecido” http://tinyurl.com/722jfhk CiênciaemPauta

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ENERGIA

Como funciona a torre sustentável

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Infográfico: Rafael Canoba, Luisa Pinheiro e Marilia Labes

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Laboratório de Eficiência Energética em Edificações (LabEEE) da UFSC desenvolveu a torre sutentável para casas de baixa renda a partir do projeto de pesquisa nacional “Tecnologias para a construção habitacional mais sustentável”, trabalhando na área de energia. Buscando uma aplicação prática da pesquisa, o Laboratório criou uma parceria com a COHAB-SC para melhorar as habitações unifamiliares

propostas pela Cooperativa. O projeto da torre sustentável se adequou ao modelo básico pré-concebido das casas, com soluções que não implicassem em grandes custos e não mexessem de maneira significativa na estrutura das residências. O principal objetivo é promover economia de água e energia, além de ter o potencial de transferência para que a torre possa ser construída tanto em casas novas como nas já existentes, e adaptada a diversas regiões brasileiras. No Morro da Caixa, em Florianópolis, foi construído um protótipo artesanal de acordo com as condições locais enquanto a torre não é fabricada de forma industrializada. Veja o funcionamento dele a seguir.

4 Este é o cano que acumula a água mais suja, que será descartada. Acima dele, fica o dispositivo que peneira os sólidos.

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Reservatório potável A água chega até o tanque (1) através do encanamento da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan) e é levada para as pias e chuveiros da casa por um cano na parte inferior do reservatório. A caixa d’água tem capacidade de 1.000 litros, duas vezes o consumo familiar diário, para compensar o abastecimento descontínuo da Companhia. Esse tanque fica na parte mais elevada da torre para aumentar a pressão nos pontos de consumo da casa.

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Economia de água potável Apesar da necessidade de utilizar apenas 52,8% de água tratada, as residências a consomem 100% tratada. Usar a água da chuva, armazenada na torre sustentável para atividades como lavar a calçada e puxar a descarga é uma maneira de poupar água potável:

Aquecimento solar Vinda do reservatório potável, a água chega à parte inferior do tanque de aquecimento (2), localizado um nível abaixo. A capacidade é de 160 litros (considerou-se 40 litros diários por pesssoa), mas pode ser ampliada. Outro cano a encaminha para dentro da placa solar. Nela, é distribuída em pequenos tubos para faciliticar o aquecimento. Devido à redução de densidade, a água sobe e volta para o tanque cilíndrico, na parte superior. Dali, é conduzida aos chuveiros da casa. A placa solar também serve como toldo para o tanque de lavar roupa, que fica integrado à torre.

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Potencial de transferência

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O projeto prevê que a placa seja móvel verticalmente. A possibilidade de movimentá-la para cima ou para baixo serve para adequação à latitude onde está localizada. Em Florianópolis, a inclinação ideal é de 27 graus. A forma cilíndrica da torre foi pensada para que ela pudesse ser construída em várias posições, sempre em busca do Norte verdadeiro. Essas estratégias potencializam a eficiencia do painel, que depende da incidência solar.

Reservatório não-potável

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A água da chuva é captada pelas calhas ao redor do telhado da casa, entra no cano e passa por um dispositivo de descarte de sólidos, uma peneira inclinada. Os detritos que foram acumulados quando a chuva escorreu pelas telhas vão para o esgoto. Outra estratégia é desviar a primeira precipitação para um cano extra. Assim que o enche, a água volta ao curso normal e é levada para a parte de baixo do reservatório não-potável (4). Uma bomba capta a água da superfície - mais limpa - e a leva para o reservatório intermediário (3), no segundo nível da torre, de onde ela tem mais pressão para ser conduzida ao vaso sanitário, torneira de jardim, tanque e máquina de lavar. A capacidade do reservatório da água da chuva é de 3.600 litros, projetado para atender a uma demanda de 17 dias de estiagem em Florianópolis. A necessidade de água não-potável para uma residência é de aproximadamente 210 litros por dia.

Ficha técnica Altura: 5,6m Diâmetro: 1,50m Capacidade: habitação para quatro moradores. Economia de energia através da placa solar: 24% do consumo calculado para uma casa de quatro moradores. Construção do protótipo: 5 dias. Premiações: Holcim Awards 2008 Latin America - O projeto recebeu o prêmio de terceiro lugar na região; A fundação promove soluções sustentáveis de construção civil e obras públicas nos níveis regional e global. Selo de Mérito 2008 (Associação Brasileira de Cohabs); Mostra de Tecnologias Sustentáveis 2008 (Instituto Ethos) - O projeto foi escolhido em maio de 2008 para participar da Mostra de Tecnologias sustentáveis em São Paulo, promovida pelo Instituto Ethos.

E se não chove? Quando não há precipitação suficiente e o tanque fica quase vazio, a água encanada da Casan também é levada diretamente ao reservatório intermediário. É a boia que liga e desliga a bomba de acordo com o nível da água para não compremeter o abastecimento. Fonte: Maria Andrea Triana, arquiteta, e Marcio Andrade, engenheiro (Laboratório de Eficiência Energética em Edificações - LabEEE).

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PETRÓLEO

Pesquisas focam danos ambientais e exploração Laboratórios criam softwares para possibilitar reaproveitamento da água de efluentes e monitorar contaminação de lençóis subterrâneos Juliana Passos

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contaminação do meio ambiente pelo petróleo não acontece apenas quando grandes catástrofes são noticiadas nos jornais, como o caso recente do Golfo do México. O vazamento do óleo combustível por parte dos postos de gasolina também é responsável pela contaminação, não dos mares, mas dos lençóis freáticos, águas subterrâneas abaixo do solo terrestre. A eliminação dos componentes tóxicos dos combustíveis do lençol freático é um dos temas pesquisados no laboratório de Remediação de Água Subterrâneas (Remas), do Departamento de Engenharia Sanitária da Universidade Federal de Santa Catarina. Entre as preocupações dos pesquisadores estão compostos aromáticos do grupo Btex (benzeno, tolueno, etilbenzeno, meta e orto-xileno), presentes na gasolina que, por serem os mais solúveis em água, são os principais poluentes de águas subterrâneas. Um artigo publicado em fevereiro de 2011 trouxe os resultados de 10 anos de pesquisas realizadas pelo Remas. Entre as principais conclusões dos pesquisadores, liderados pelo professor Herny Corseuil, a ne-

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cessidade de total degradação do etanol para que se iniciasse o desaparecimento do benzeno, que por sua vez foi degradado com maior rapidez pela camada de microorganismos concentrados promovida pela degradação do etanol. O estudo foi realizado a partir do derramamento controlado de etanol em 45 tanques de monitoramento instalados no sul da Ilha de SC. Como uma das características da gasolina brasileira é a mistura com o etanol, a pesquisa aponta a necessidade de um maior monitoramento do etanol em caso de contaminação. O mesmo laboratório é responsável pelo desenvolvimento de um software que prevê o impacto de vazamento de óleos em regiões terrestres. Até 2014, o SCBR (Solução Corretiva Baseada no Risco) será instalado em 22 bases da Petrobras. Esse software permitirá calcular a área atingida por determinado derramamento de combustível a partir da movimentação das águas, densidade, tipo de solo, entre outras variáveis. “Em muitos casos se demora alguns anos para que o vazamento seja notado”, afirma Corseuil. O programa serve tanto para identificar os caminhos já feitos


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pelo poluente quanto para prever o comportamento de determinado combustível em caso de vazamento, possibilitando o planejamento de ações e as decisões sobre onde colocar postos de monitoramento. O desenvolvimento do software foi a aplicação da tese de Jonathas Cordazzo, realizada dentro do laboratório Simulação Numérica em Mecânica dos Fluidos e Transferência de Calor (SINMEC), do Departamento de Engenharia Mecânica. O trabalho foi defendido em 2006 e recebeu o prêmio Petrobras de Tecnologia. Cordazzo foi orientado pelo coordenador do SINMEC, Clóvis Maliska. A equipe do laboratório também trabalha com a extração de petróleo através da simulação por softwares de situações de perfuração de poços para que se saiba a pressão da injeção de água, o comportamento do óleo liberado das rochas. As pesquisas feitas no SINMEC possibilitam à Petrobras pedir determinadas adaptações aos simuladores que são comprados e ajudam os técnicos a conhecer melhor as potencialidades dos equipamentos. “Nosso objetivo não é um simulador completo”, explica o coordenador do laboratório, professor Maliska, “nosso interesse é estudar apenas o “coração” do equipamento, o núcleo numérico”. Há 20 anos a Petrobras financia projetos nesse laboratório. O principal foco das pesquisas do grupo agora são as operações multifásicas que consistem em codificar operações integradas entre a perfuração da rocha com a passagem pela tubulação, avaliando pressão, quantidade e tamanho das aberturas na tubulação para dar acesso ao óleo. Desde a década de 80, a perfuração horizontal começou a substituir os poços verticais. Dessa forma é possível aumentar a área ex posta à captação do óleo e se obtém uma maior vazão. A s técnicas para esse tipo de perfuração ainda estão em desenvolv i-

mento. Em 2009, os pesquisadores do SINMEC começaram a estudar as técnicas para esse tipo de perfuração e desde então trabalham no desenvolv imento de um software que tem como objetivo determinar quantas aber turas podem ser feitas na tubulação para entrada de óleo e a que distância. O estudo será entregue até o final deste ano à Petrobras. Patente - análise combustível Em julho de 2010 o grupo do Laboratório de Simulação Numérica de Sistemas Químicos (LABSIN) fez o pedido de patente de um processo para detecção da adulteração de gasolina. O produto foi apresentado à Agência Nacional do Patróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), para que eles desenvolvam o equipamento para a venda e a expectativa da coordenadora do laboratório, Selene Ulson de Souza, é de que a comercialização deva começar em 2012. Ele será destinado aos próprios motoristas que poderão verificar o combustível na hora do abastecimento. Sem fornecer muitos detalhes, por conta do processo de patente, Souza explica que há uma deformação de um polímero (plástico) se houver adulteração. Entre as infrações mais frequentes, de acordo com a pesquisadora, está a introdução de benzeno, produto altamente cancerígeno. Os compostos BTEX também são estudados no LABSIN com o objetivo de possibilitar o reaproveitamento e tratamento da água de efluentes industriais. O carvão é o principal agente da adsorção e eliminação dos compostos Btex. “Estamos procurando al-

ternativas mais baratas para retirar esses compostos para que possam ser aplicados com mais facilidade na indústria”, conta a coordenadora do LABSIN que cita como exemplo cana de açúcar e folhas de neem. As pesquisas com adsorção iniciaram com corantes da indústria têxtil, onde conseguiram bons resultados e duas patentes na área. Há oito anos os processos estudados passaram a ser pesquisados no petróleo. As pesquisas do LABSIN com os componentes Btex são financiadas pelo Instituto Brasileiro de Petróleo, já os outros laboratórios recebem recursos da Petrobras, principal financiadora das pesquisas ligada ao petróleo na UFSC. O investimento em Pesquisa e Desenvolvimento por parte da petrolífera cresceu a partir de 2004, quando a Lei do Petróleo estabeleceu que fosse destinado a P&D 1% do faturamento bruto de campos que pagam a Participação Especial, ou seja, que têm alta produtividade. No primeiro ano foram aplicados 83 milhões, em 2009, foram 454 milhões entre as 36 redes temáticas. Clóvis Maliska atribui a essa lei a maioria dos investimentos que as universidades têm recebido. “É uma consequência que o país vai perceber daqui a 10, 20 anos”, explica.

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OSTREICULTURA

Estudos ajudam a foment a

A ostra precisa de águas calmas , limpas e com temperaturas até 23 ºC condições encontradas em lugares como o Ribeirão da Ilha no sul da cidade

Do laboratório à mesa: saiba o papel de cada setor na produção do molusco em Florianópolis Bruna de Paula

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á 20 anos não se sabia o que eram fazendas marinhas e a maioria da população nunca tinha consumido ostras na capital catarinense. Hoje, a cidade é responsável por cerca de 70% da comercialização do molusco consumido no Brasil – cerca de 1.908 toneladas, em 2010 (ainda não há dados referentes a 2011), de acordo com a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). A atividade se transformou na principal fonte de renda de 143 famílias. Com a produção consolidada, o desafio agora é garantir a qualidade do produto, que já alcançou status de grife: a ostra de Florianópolis. De 1990 para cá, três esferas da sociedade trabalharam juntas para transformar Florianópolis em referência na produção do molusco. A parceria entre a universidade, o poder público e o setor produtivo contribuiu para gerar uma alternativa

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de renda sustentável aos pequenos produtores locais. Com a renda baixa da pesca artesanal e a inconstância nas safras, os pescadores encontraram na maricultura uma nova possibilidade. “Foi uma inovação social. As pesquisas da universidade vinham nessa direção e a necessidade dos pescadores tornou a atividade possível”, relembra o coordenador do Laboratório de Moluscos Marinhos (LMM) da Universidade Federal de Santa Catarina, professor Jaime Fernando Ferreira. Alex Alves dos Santos, engenheiro agrônomo da Epagri, explica por que a atividade ganhou força em Florianópolis. “A cultura açoriana, que tem uma relação muito forte com o mar, trabalhando em sintonia com a pesquisa e extensão da Epagri e da UFSC criou o cenário de sucesso para a maricultura”, destaca Santos. A Epagri foi parceira na implantação da ostreicultura e hoje desenvolve uma série de projetos para

fomento da atividade. Ferreira explica que além da vocação natural e do manejo correto, a ostra precisa de águas calmas e limpas, em uma temperatura que fique entre 18º C e 23º C e com incidência de correntes frias. Essas são justamente as condições encontradas na praia do Ribeirão da Ilha, ao sul, em Santo Antônio de Lisboa e Sambaqui, ao norte da Ilha de Santa Catarina. São nessas localidades que trabalham a maioria dos ostreicultores de Florianópolis. Somente em 2010, a atividade gerou uma movimentação financeira bruta estimada em R$ 14.156.55, de acordo com dados da Epagri. O papel da Universidade No início da década de 90, alguns dos pesquisadores do Departamento de Agronomia – o de Aquicultura ainda não existia – voltavam da Europa, trazendo na bagagem importantes aprendizados


Lucas Goulart

t ar cultivo de ostras em SC

controle da taxa de mortalidade dos lotes vendidos aos produtores. Na unidade do Sambaqui, o laboratório atua em uma área de colônia de pescadores desde 1994. Na Barra da Lagoa fica a estação de maricultura. O LMM se instalou lá em 1995, em uma área que abriga laboratórios de moluscos, camarões e peixes. Os reprodutores são trazidos do Sambaqui para a Barra da Lagoa, onde ocorre o tratamento para induzir a reprodução do molusco, através de

temperatura e alimentação controladas. Tanto no Sambaqui quanto na Barra, são feitas pesquisas de crescimento, sobrevivência e reprodução. “Recebemos pessoas de diversas universidades do Brasil e do mundo. A comercialização das ostras e o apoio de instituições como a Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência e Tecnologia garantem a sustentabilidade do laboratório”, destaca Ferreira. Bruna de Paula

sobre maricultura. Entre eles estava o professor Jaime Fernando Ferreira, que tomou a frente das pesquisas e ajudou a consolidar o Laboratório de Moluscos Marinhos (LMM). “Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia já tinham tentado desenvolver a atividade, sem sucesso. Aqui, contamos desde o começo com a participação da Carpesc”, relata. A Associação de Crédito e Assistência Pesqueira do Estado de Santa Catarina (Carpesc), ao lado da Associação de Crédito Rural de SC (Caresc) e da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Santa Catarina, deram origem, em 1991, à Epagri. A entidade foi fundamental no desenvolvimento de um projeto de extensão que apresentava a alternativa de cultivo de ostras à comunidade, através de palestras e cursos de capacitação. Hoje, o LMM conta com duas bases operacionais, uma no Sambaqui e outra na Barra da Lagoa. No Sambaqui ficam as ostras reprodutoras, que darão origem às sementes. Os reprodutores servem como uma boa fonte de experimentação e pesquisa em mar, além de garantir o

A produção de ostras em Florianópolis gerou uma movimentação financeira de mais de 14 milhões

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Produtores buscam opções para comercialização

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Jennifer Hartmann

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pesar das dificuldades de estrutura e financiamento enfrentadas pelos produtores, algumas iniciativas vêm se destacando e tornando a maricultura uma atividade rentável e desenvolvida dentro de bons padrões de qualidade. É o caso da Fazenda Marinha Freguesia, que fica em Santo Antônio de Lisboa. Leonardo Cabral Costa, responsável pela Fazenda, consolidou uma forma de manejo das ostras que o diferencia dos demais produtores da região. Com a manipulação na balsa, que fica a 200 metros da margem, os moluscos não precisam ser deslocados para a praia, o que diminui despesas, poupa tempo e garante maior segurança alimentar e sanitária. O processo garantiu à Fazenda Marinha Freguesia o quarto lugar no ranking de produtores no Brasil em 2003, posição que mantém até hoje. São comercializadas de 90 a 110 mil dúzias de ostras por ano. Dentro da balsa, o controle é rigoroso. Todo o material é de inox e polietileno, para evitar contaminações. Com o sistema de rastreabilidade que o engenheiro agrônomo Rafael Luiz da Costa implantou é possível saber a qual lote pertence a semente, há quanto tempo ele está no mar e quando vai chegar ao consumidor. A ideia é simples, feita em uma planilha manual com uma legenda de cores para cada lote. A preocupação com o meio ambiente também passa pela balsa de Costa. Todas as cascas são recicladas. “Nós temos três tipos de consumidores das cascas: o pessoal que usa para artesanato, os que usam para ração animal, já que a casca tem muito cálcio, e os que usam em estações de tratamento de esgoto, onde a casca substitui a pedra e ainda tem a vantagem de regular a acidez do solo”, detalha. As sementes chegam do laboratório com cerca de 1 milímetro e passam por três acondicionamentos diferentes. Depois de todo o processo de manejo, as ostras são separadas, limpas e já têm destino certo: metade vai para o restaurante e os outros 50% são comercializados para dez estabelecimentos da região. Tamanho controle foi fruto da preocupação em ser o primeiro produtor a receber o

Um dos desafios da ostreicultura é garantir a qualidade nos processos de produção

Certificado de Qualidade das Ostras da Grande Florianópolis, concedido por uma série de autoridades. “Para obter o selo, existe uma análise de controle que vai do laboratório à mesa”, explica Leonardo. Ele adotou o manual de boas práticas desenvolvido pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Santa Catarina (Sebrae/SC), uma preocupação com o cliente, além de uma boa jogada de marketing. “Como fomos os primeiros produtores, também tínhamos que conseguir o selo primeiro”. A Fazenda Marinha Paraíso das Ostras, que fica do outro lado da Ilha, na Caieira da Barra do Sul, foi uma das três fazendas que conquistou a certificação, juntamente com a de Santo Antônio de Lisboa. Em atividade desde 2004, fornece ostras para restaurantes de renome, como o Ostradamus, que fica no Ribeirão da Ilha, também ao sul da capital. Além da certificação do fornecedor, o restaurante trabalha com o processo de depuração da ostra. O

aparelho que faz a depuração é muito semelhante aos filtradores de piscina. A água do mar é retirada a 200m da costa e submetida a um tratamento através de raios ultravioletas. Depois de passar no mínimo 12 horas dentro dos tanques com a água tratada para eliminar as bactérias e outras impurezas, as ostras estão prontas para ir para a cozinha. Rogério Carvalho, gerente que trabalha no restaurante há oito anos, garante que o processo não altera o sabor da ostra. “Pelo contrário. Em outros locais, quando se abre a ostra, ainda tem lama e impurezas e é comum que as pessoas as lavem em água corrente, da torneira. Isso tira o sabor do mar característico da ostra. Aqui elas são filtradas nos tanques com a água do mar”, garante Rogério. A ideia original era submeter à depuração somente as ostras que seriam consumidas in natura. Como a estrutura montada comporta uma grande quantidade de moluscos, toda ostra consumida no restaurante passa antes pelo depurador. A depuração é um

Todas as cascas são recicladas e reutilizadas no artesanato, ração animal e tratamento de esgoto


dos requisitos para exportação ainda não praticados largamente em Florianópolis, o que impede que o molusco atravesse o oceano e atinja grandes mercados consumidores, como a Europa. “Acredito que dentro de quatro ou cinco anos Santa Catarina exporte ostra”, prevê o engenheiro agrônomo Alex Alves dos Santos, da Epagri. Por enquanto, a limitação é tamanha que apenas oito empresas catarinenses conseguem comercializar o molusco em outros estados brasileiros. O Serviço de Inspeção Federal (SIF) é a condicionante que impede que os outros produtores também alcancem o mercado nacional. “Esses oito detém aproximadamente 80% da comercialização, o restante é formado por pequenos produtores que não conseguem implantar o SIF, pois o custo é muito alto”, argumenta Santos. A alternativa encontrada foi a criação do Serviço de Inspeção Municipal (SIM), que prevê regras que se adaptam à realidade dos pequenos produtores artesanais. A proposta foi aprovada pela Câmara de Vereadores no ano passado e deve ser assinada pelo prefeito Dário Berguer ainda no primeiro semestre de 2012. Uma vez em vigor, o decreto prevê que os ostreicultores passem por uma fiscalização, que leva em conta a higiene do local de manejo, o controle do tempo do molusco no mar, além do cuidado com aspectos ambientais e trabalhistas. Mesmo com o SIM, ainda não será possível comercializar o molusco para outros estados, mas será garantida a segurança alimentar e sanitária da ostra que vai para os restaurantes ou é comercializada diretamente aos apreciadores. Para Leonardo Costa, representante dos produtores, ainda que não resolva a situação dos pequenos produtores, a medida terá papel importantíssimo na profissionalização do mercado. “O que ainda se vê hoje são muitas fazendas clandestinas. Se as pessoas vissem como é produzido nesses locais, certamente não consumiriam. Mas quando vêem a dúzia da ostra no mercado a R$ 4, não pensam duas vezes antes de comprar”.

Saiba mais A Festa Nacional da Ostra e da Cultura Açoriana (Fenaostra) acontece todo ano desde 1999, e integra as já tradicionais festas de outubro de Santa Catarina. Durante o evento há atrações gastronômicas, folclóricas e culturais para o público, além de pequenos cursos e seminários voltados ao maricultor. Arquivo Fenaostra

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Consumo de ostras fica mais seguro no estado

Monique Nunes

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á seis anos, o pesquisador Carlos Rogério Poli, professor aposentado do Departamento de Aquicultura, desenvolveu a primeira depuradora de ostras de Santa Catarina, com capacidade para 1.000 litros de água e 200 dúzias de ostras. Com o apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Laboratório de Virologia Aplicada da Universidade Federal de Santa Catarina está testando novas depuradoras com capacidade para 300 litros de água e 50 dúzias de ostras. A proposta é que as depuradoras sejam vendidas para restaurantes litorâneos e também para os que não ficam próximos da orla. Os primeiros testes, ainda em 2005, foram realizados pelo Laboratório de Virologia Aplicada (LVA), com ostras contaminadas em laboratório pela bactéria Salmonella, que foram colocadas na depuradora com água esterilizada em uma associação de cloro e luz ultravioleta. Após 12 horas, as ostras estavam descontaminadas e próprias para consumo. Já o teste com adenovírus mostrou que eram necessárias 96 horas de depuração para que o molusco ficasse descontaminado. A iniciativa de criar a depuradora surgiu da necessidade de soluções para a contaminação das ostras, que fosse além de pesquisas

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Veja como funciona a depuradora no site da Agência Ciência em Pauta http://migre. me/4ebM9

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sobre a qualidade das águas nos sítios de cultivo. A pesquisadora Célia Regina Monte Barardi, coordenadora do Laboratório de Virologia Aplicada, explica que ao invés de apenas mostrar o problema da contaminação, buscavase uma maneira de ajudar o maricultor a melhorar a qualidade das ostras cultivadas e consumidas pela população. Por serem animais filtradores, as ostras absorvem tudo da água em que estão, sejam bactérias ou nutrientes, portanto uma das maneiras de descontaminá-las é através da depuração, colocando-as em água limpa, para que fiquem livres de vírus, bactérias e qualquer outra sujeira. A ostra é um alimento rico em proteínas, zinco e com pouca gordura. O zinco faz bem para a pele e para os cabelos, além de estar presente na formação

óssea, sendo por isso um alimento importante para crianças, pois ajuda no fortalecimento dos ossos. Jane Parisenti, doutora em Ciência dos Alimentos pela UFSC, explica que “ao contrário do que se pensava, ela não é rica em colesterol, o que aumenta isso são outras fontes de colesterol usadas no preparo, quando se coloca bacon, por exemplo”. Ostras podem ser consumidas cruas ou cozidas, sem alteração na quantidade de nutrientes e vitaminas, além de ser um substituto da carne vermelha na alimentação. No entanto, uma pesquisa publicada no Brazilian Journal of Infectious Diseases alerta que o consumo de ostras cruas ou mal cozidas deve ser evitado, devido à presença de microorganismos como o Vibrio parahaemolyticus, causador de gastroenterite.

Como funciona a depuradora Arte de Lucas Goulart sobre infográfico de Rafael Canoba

Primeira depuradora de ostras de SC reduz o risco de infecções alimentares em restaurantes distantes do mar


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