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DA MESA DO DIRECTOR

Coimbra: licença para errar J. Norberto Pires Prof. da Universidade de Coimbra CEO do Coimbra Inovação Parque

Eu gosto dos momentos de crise. São mais ou menos como o Inverno; momentos tristes mas necessários. São uma oportunidade para reflectir sobre o nosso trajecto de vida, e planear os ajustamentos, as mudanças e as rupturas necessárias para que haja de novo esperança. A seguir a um inverno há sempre uma Primavera. É importante que sejamos capazes de transmitir uma mensagem de esperança às pessoas. Portugal tem vários problemas estruturais, que resumo nas seguintes ideias-chave: 1. Atitude: os países, antes de espaços geográficos, económicos ou políticos, são essencialmente as suas pessoas. Isso significa que o futuro depende em grande parte da forma como essas pessoas encaram a sua vida, se relacionam com os outros e desenvolvem a sua atividade. Atrair e fixar pessoas tem de ser por isso o nosso primeiro objectivo. E devemos estar particularmente interessados naquelas pessoas que procuram oportunidades, que as sabem identificar e têm o arrojo para definir objectivos e persegui-los com determinação. Na verdade somos todos muito bem comportados, uns “penteadinhos”, como gosto de dizer, que passamos do bibe ao fatinho numa vida toda certinha. Precisamos de mais gente “mal comportada”, isto é, gente criativa, com vertigem do risco, que vive como pensa sem pensar como viverá. 2. Valores: deixamos cair grande parte dos valores que já nos fizeram um país grande. O valor do trabalho, da necessidade de esforço para obter resultados, do rigor, do profissionalismo, da honestidade, da palavra dada, da honorabilidade, do direito de reserva, da liberdade, do reconhecimento que é devido ao mérito e ao esforço dos outros como pedras basilares de uma sociedade saudável, justa e fonte de progresso. É preciso, de novo, colocar estes valores na essência da nossa construção social, para que de novo se tornem valores característicos da nossa sociedade, para que de novo se tornem valores culturais. Vai demorar tempo, eu sei, não é uma tarefa que possamos fazer no curto prazo, mas é necessário começar. 3. Participação: participar na vida de uma comunidade é querer saber e estar informado, é debater com elevação, é avaliar, é fazer perguntas, é não aceitar respostas cheias de coisas técnicas, sabendo que quem não é capaz de explicar de forma simples então também não sabe muito bem o que está a dizer, é votar (mesmo que em branco), é perceber que em democracia a ausência de participação é uma atitude muito perigosa que tem geralmente consequências desastrosas. 4. Cultura empreendedora e de risco: o empreendedorismo e o risco são conceitos que é necessário incutir para que adquiram uma dimensão cultural e virulenta. Isso significa formar melhor, aliando à qualidade de informação o incentivo ao trabalho individual, original e criativo, procurando alertar para a necessidade de ir para além do que é pedido, para superar expectativas, avaliando os riscos inerentes. Mas significa também enfrentar a verdadeira cultura antiempresarial e de desvalorização do empreendedorismo e do risco por parte da sociedade portuguesa, e que se manifesta na total ausência de estímulo ao risco, ao planeamento, à organização, à gestão de recursos (do tempo, por exemplo), na ausência do mercado e das suas regras nos cursos superiores (especialmente os das áreas não económicas) e no ensino secundário, na ausência de valores relacionados com a competitividade e com a gestão de oportunidades. 5. Ética e responsabilização: são comportamentos que devem estar na base de toda a nossa estrutura organizativa. E devem ser exigidos pelos cidadãos nos organismos do Estado, nos respectivos procedimentos, no exercício de cargos públicos, nas empresas e na forma como elas se relacionam com o mercado. 6. Crescimento, acrescentar valor: todos temos de ter a noção que não podemos passar por um assunto sem lhe acrescentar algo. É uma ideia simples, mas de muito significado e de grande alcance: na nossa actividade temos de acrescentar valor a tudo o que fazemos, melhorando aquilo que encontramos. É essa a única forma de ter um crescimento sustentado. Alguns estudos sugerem que existe “uma correlação positiva entre o empreendedorismo e o crescimento económico”, e que o “crescimento sustentável baseado na inovação depende da existência de um número cada vez maior de start-ups, que apresentam um potencial de criação de mais e melhores empregos.” Na verdade, “os países que registam um maior aumento do empreendedorismo são, em muitos casos, os que subsequentemente apresentam maiores descidas das taxas de desemprego.”. Consequentemente, “se a Europa quiser preservar com êxito o seu modelo social, necessitará de um maior crescimento económico, mais novas empresas, mais empreendedores dispostos a lançar-se em projectos inovadores e mais PME de rápido crescimento.” Inovar significa conhecer melhor, ser capaz de fazer e de correr os riscos inerentes. Significa apostar de forma séria e consequente no aproveitamento e desenvolvimento da nossa capacidade de transformar conhecimento em actividade económica. Só isso conduz a iniciativas empresariais de crescimento rápido, resultantes de empreendedorismo de oportunidade, isto é, aquele que é competitivo no cenário internacional, gera valor e tem impacto no PIB. O país tem demonstrado a sua capacidade de transformar boas ideias em iniciativas empresariais, mas acima de tudo tem demonstrado que percebe, pelo menos em alguns sectores, o valor do I&D de risco e a sua capacidade de gerar valor. É a percepção desta realidade que vai mudar a face do país. Tenho a certeza disso. J. Norberto Pires

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robótica

Coimbra: licença para errar  

Autor: J. Norberto Pires; Revista: robótica nº82

Coimbra: licença para errar  

Autor: J. Norberto Pires; Revista: robótica nº82

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