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COLUNA EMPREENDER E INOVAR EM PORTUGAL

NÃO SE DEVE DAR MUITA COMIDA AO GATO Antes de mais importa recordar o conceito estruturado de empreendedorismo de Joseph Schumpeter, que associava a criatividade com a capacidade de alcançar sucesso com inovações, a que correctamente se chamou de processo de destruição criativa. De relevar ainda o contributo de autores como Frank H. Knight, F. A. Hayek, Ludwig Mises, Israel M. Kirzner, G.L. S. Shackle e Ludwig M. Lachmann para o avanço da conceptualização teórica do empreendedorismo. A partir daí, o conceito foi sendo sucessivamente burilado, fruto da “produção” das Escolas Económicas, Sociológicas e Psicológicas, de tal forma que na actualidade, empreendedorismo representa algo que todos sentimos, mas temos alguma dificuldade em explicá-lo. Tornou-se (muito) conceptual, um campo fértil para os téoricos, escolásticos e os (muitos) gurus, alguns de duração efémera, outros com maior capacidade de permanecerem no topo. É até muito interessante assistir a conferências sobre o tema, com distintos e sábios oradores, usando com generosidade o tempo disponível, imbuídos da nobre missão de ensinar aos outros, de forma assertiva e segura, todos os passos para o sucesso empresarial, que eles próprios, por razões que acredito de puro altruísmo, não quiseram seguir. Serão estes, os verdadeiros “Irmãos da Santa Casa do Empreendedorismo”? Para abordar e discutir o tema de uma forma mais realista e “co-produtiva”, sugiro a figura, agora muito oportunamente em voga, da desconferência. Encontros abertos, descentralizados e colaborativos, para trocas de ideias, experiências, conhecimentos e networking. Os participantes são os grandes protagonistas, interagindo de uma forma livre e criativa na discussão de um tema de interesse comum, moderado por pessoas com experiência na temática escolhida. Assumo pois, embora não dogmaticamente, a minha preferência pela pureza original do conceito empreendedor e pela sua análise numa vertente pragmática. Nas suas dinâmicas, nos seus movimentos, nos seus factores distintivos, nas suas curiosidades e porque não, nas genialidades de alguns dos seus protagonistas. Assim sendo e antes que o leitor accione a “Lei dos Dois Pés”, vou abordar a inovação como função específica do empreendedorismo, tendo sempre presente que o meu empreendedor favorito é alguém (preferencialmente) jovem, pragmaticamente idealista, criativo, inteligente, com capacidade de trabalho, com coragem para seguir os seus sonhos e com um nível de resiliência suficiente, para «dar a volta» aos revezes com que inevitavelmente se deparará.

um razoável número de consultores competentes no terreno. Por outro lado, os meios académicos, científicos, tecnológicos e empresariais, têm demonstrado uma maior atenção e interesse nesta matéria. Os Bancos, as Sociedades de Garantia Mútua, as empresas de Capital de Risco, estão também a acompanhar estas iniciativas. Finalmente, convém notar que as diferentes instituições estatais, sobretudo as mais próximas da actividade empresarial, da inovação e do empreendedorismo, têm feito um bom esforço na informação técnica e na divulgação dos apoios comunitários e nacionais existentes nesta matéria. Então como se poderá responder à questão? Penso que uma abordagem aceitável será deixar um conjunto de pistas, para reflexão, baseadas em modelos conhecidos, consensuais, empíricos e sem elevadas pretensões “normativas” ou metodológicas: Identificação da oportunidade - A oportunidade não pode estar apenas na nossa mente, mas no mercado. Os “negócios” devem ser pensados para satisfação de necessidades reais. Prova de Conceito – Esta fase deve merecer a máxima atenção e rigor. Servirá para reduzir os riscos associados à valia e utilidade(s) de novos produtos ou serviços, permitindo, à priori, que somente os que tenham viabilidade se concretizem de facto. Perfil do Empreendedor – O empreendedorismo não é assumidamente democrático. Não é empreendedor quem quer. É preciso ter perfil, ou seja um conjunto de características específicas fundamentais para o sucesso. Eis algumas mais comuns: dinamismo, criatividade, resiliência, determinação, iniciativa, capacidade de correr riscos, capacidade de liderança, conhecimento dos mercados e das tecnologias, capacidade de gestão efectiva ou potencial... Sendo quase impossível ter as qualidades todas, é preciso ter a competência e sensibilidade para ir ao “mercado” procurar as competências em falta, trazendo-as para a “empresa” ou utilizando o outsourcing. Financiamento - Adequar as formas e os montantes de financiamento às características do negócio e aos seus estágios de crescimento. A abordagem ao Capital de Risco, normalmente faz mais sentido na fase Startup do que na fase de Conceito, onde efectivamente o risco é muito elevado. Propriedade Industrial - A utilização do registo das marcas, logótipos, patentes, modelos de utilidade e desenhos, deverá ser encarada como uma forma de “salvaguardar” o empreendedor de situações de cópia ilegal ou utilização abusiva do resultado da sua investigação. Apoio técnico, logístico e financeiro à Inovação – O usufruto dos incentivos públicos de apoio à inovação e ao empreendedorismo, o apoio técnico e logístico das entidades científicas, académicas e tecnológicas existentes, a adopção de estratégias relacionadas com modelos de inovação aberta (recurso a parceiros situados fora das fronteiras organizacionais do empreendedor), são recursos à disposição dos empreendedores mais consistentes. Capacidade Comercial – Um dos pontos que considero mais críticos para o sucesso dos jovens empreendedores. Muito mais do que criar uma empresa, os empreendedores (tecnológicos) precisam de criar um mercado, interagindo com ele de forma competente e resoluta. Num estudo, referente a 2006/2007, da Prof. Aurora Teixeira da Fac. Economia da Universidade do Porto (UP), mencionava-se que a propensão para o empreendedorismo, entre os 3761 finalistas dos 62 cursos das 14 faculdades da UP, era da ordem dos 27%. Esta percentagem estava ao mesmo nível das obtidas na Alemanha e França e aquém das obtidas na Áustria (36%) e nos EUA (50%). Um elemento surpresa deste estudo, era o potencial empreendedor relativamente

>>>> Onde encontrar pois, estes «inimigos» do “status quo”? Genericamente, dentro de cada um de nós e/ou nas oportunidades de aprendizagem que surgem no dia-a-dia. Mais especificamente, nas “oficinas”, incubadoras e centros tecnológicos, ligados a Universidades, Politécnicos, Escolas Profissionais, Associações Empresariais, Autarquias, Empresas... Podemos ainda induzir o seu aparecimento, como prova a experiência de Kakinada conduzida por McClelland nos Estados Unidos, México e Índia. Numa fase mais avançada, também podemos encontrar estes empreendedores já no mercado, com umbilicalidade e graus de sucesso variáveis. Estes últimos, já têm a sua “força motriz” nos negócios e não na beleza das ideias promissoras. Como se poderá perscrutar o sucesso, da transformação de uma ideia inovadora num projecto empresarial viável? A resposta não é individual, nem fácil. Há guias, bem elaborados, para a Inovação e o Empreendedorismo. Há modelos interessantes para a elaboração do Plano de Negócios. Há também

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robótica

Não se deve dar muita comida ao gato  

Autor: Jorge Oliveira; Revista: robótica nº82

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