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COLUNA EMPREENDER E INOVAR EM PORTUGAL

O CORRECTO EMPREENDEDORISMO A crise que nos afecta, obviamente muito negativa, tem também alguns aspectos positivos. Por um lado os que a ela sobrevivem saem mais fortes e eficientes, por outro lado cria novas oportunidades e incentiva à inovação e ao empreendorismo em alguns tipos de empresas e pessoas. Tal como nas pessoas, existem dois tipos de empresas inovadoras e empreendedoras: as que o são naturalmente e as que o são por necessidade. No primeiro tipo referido, geralmente a inovação e o empreendorismo “está-lhes no sangue” e com algum apoio e formação (por vezes nem isso precisam) criam facilmente negócios e casos de sucesso. O segundo tipo referido só o é porque existe uma crise que levou a que, por exemplo, perdessem o emprego ou as encomendas à sua empresa baixassem drasticamente. Este facto obriga à procura de novas oportunidades, de novos negócios, de novos produtos, de novos mercados, entre outros, ou seja, gera inovação e empreendorismo. Neste caso o sucesso não é garantido, mesmo com muito apoio, formação e esforço. Se a semente e a atitude correcta não estiver lá, não é por “decreto” ou “à força de acções de formação” que se garante uma atitude e capacidade de inovação e empreendedorismo. Para muitos, no entanto, existe aqui uma oportunidade que devidamente aproveitada pode gerar muita inovação e potenciar competências e capacidades que de outra forma não se desenvolveriam. Geralmente, certas empresas, enquanto têm a sua carteira de encomendas cheia, não se preocupam em inovar, olham apenas para o dia-a-dia e para a produção imediata. Neste período de menos pressão de encomendas e trabalho, surge algum tempo livre para uma necessária reflexão e inovação, olhando-se para a concorrência imediata, mas acima de tudo olhando para o futuro e para as necessidades do mercado daqui a alguns anos. Só desta forma poderemos ser competitivos, inovando e prevendo as mudanças em curso em diferentes sectores. No entanto, frequentemente confundem-se pessoas visionárias com empreendedores. Não é exactamente a mesma coisa, o empreendedor tem uma série de hábitos e capacidades que fazem com que seus negócios não sejam somente boas ideias, mas também empreendimentos de sucesso. Entre os principais hábitos e capacidades estão a organização metódica, o planeamento, a focagem, o compromisso, a responsabilidade e capacidade de ver oportunidades onde geralmente as pessoas só vêem problemas. Por outro lado o empreendedor tem a sensibilidade de identificar os pontos fracos e tentar corrigi-los, sejam ou não nele próprio, procurando de seguida parceiros que possam colmatar essas deficiências. Aqui as instituições do ensino superior, do sistema científico e tecnológico nacional têm o seu papel preponderante. Interessantes ideias sobre estes temas podem ser encontradas em blogs e páginas da internet como por exemplo em http:// pt-br.wordpress.com/tag/empreendedorismo/, de onde veio a inspiração para algumas das ideias expostas. Focando-me agora mais na área da engenharia e da robótica, a inovação, embora também possa assentar em modelos de negócio, marketing, gestão, entre outros, geralmente não resulta num negócio de sucesso se não tivermos alguma base tecnológica de valor acrescentado na sua génese. Por muito boa que seja a gestão, o modelo de negócio, por muito empreendedor que se seja, se o produto ou ideia não for tecnologicamente excelente e diferenciadora, ou seja se não tiver engenharia e tecnologia de excelência, nunca terá sucesso. Por outro lado é necessário que as equipas sejam equilibradas onde se possam misturar pessoas geniais na tecnologia com outras que conseguem potenciar e difundir nos mercados, as inovações tecnológicas desenvolvidas. Isto tudo na devida proporção. Não se pode ter um número exagerado de gestores em comparação com os engenheiros/inventores, por

muito bons que sejam, em torno de cada ideia/produto que é gerado. Este parece-me um mal que tem ocorrido não só em Portugal mas também em todo o mundo. A este propósito não resisto a divulgar uma anedota que tem circulado na internet. Traduzindo de um modo resumido, é algo do género: Uma empresa americana e outra japonesa decidem realizar uma corrida de barco a remos envolvendo os seus funcionários. Ambos se empenham afincadamente e treinam com vigor para atingirem o seu pico de desempenho. No grande dia a empresa japonesa ganhou por larga margem. A empresa americana resolve investigar o motivo da sua derrota e nomeia uma comissão de gestores executivos para investigarem o problema. A sua conclusão foi de que o problema estava em que a equipa japonesa tinha oito remadores e um timoneiro enquanto a equipa americana tinha um remador e oito timoneiros. O Steering Committee da empresa imediatamente contratou uma firma do consultadoria para estudar a estrutura de gestão da equipa. Depois de milhões de dólares gastos, e passado algum tempo, a empresa de consultadoria conclui que se tinha demasiadas pessoas ao leme e pouco poder de remo. A estrutura da equipa deveria ser alterada para se ter quatro gestores do leme, três gestores do sistema associado ao lem,e e um gestor do pessoal do leme assim como um novo sistema de monitorização do desempenho do remador que o incentive a trabalhar mais arduamente, implementando a estratégia “Seis Sigma” com o objectivo de melhorar o seu desempenho. No ano seguinte a equipa americana perdeu por uma distância ainda maior. A empresa despediu de seguida o remador por mau desempenho, vendeu todos os remos e canoas, cancelou todos os investimentos num novo equipamento, parou o desenvolvimento de uma nova canoa, atribuindo prémios de alto desempenho à empresa de consultadoria e distribuiu o dinheiro economizado como bónus aos executivos seniores. Esta anedota é uma caricatura de como não se deve fazer gestão da inovação e dos exageros de algumas situações que vemos por esse mundo fora. Para terminar este artigo de opinião, um aspecto mais social: o empreendorismo e a inovação são, sem dúvida, o motor do progresso e desenvolvimento económico de um país, mas não deixemos que tomem uma faceta egoísta e individualista, cujo único objectivo seja a obtenção do sucesso financeiro quer em termos individuais quer em termos de empresa. Tenho visto demasiados casos de pessoas que ficam obcecadas e que não olham depois a meios para garantir o sucesso da sua “ideia empreendedora”. O empreendimento e o investimento mais seguro da nossa vida é a família, os amigos e, para quem tem a sorte de ser Professor, os seus alunos.

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António Paulo Moreira amoreira@fe.up.pt

Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores - Automação e Controlo e Sistemas de Produção Industrial

O correcto empreendedorismo  
O correcto empreendedorismo  

Autor: António Paulo Moreira; Revista: robótica nº79

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