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COLUNA SOCIEDADE PORTUGUESA DE ROBÓTICA

Inovação Aberta para a Internet das Coisas

O período de crise que ainda decorre veio demonstrar claramente que vivemos num mundo cada vez mais globalizado. As perturbações ocorridas num ponto propagam-se quase instantaneamente a todos os outros, por mais fisicamente distantes que se encontrem. As interconexões existentes na grande teia económica mundial em que vivemos hoje, levam a que o despoletar de uma crise financeira num mercado específico se transforme rapidamente numa crise global, afectando não apenas as instituições financeiras mas verdadeiramente a economia real. As tecnologias de informação e de comunicação, a Internet e os restantes media, contribuem igualmente para que a globalização seja cada vez mais efectiva e decisivamente influente no nosso dia-a-dia. A economia mundial deixou de se sustentar numa corda entre os Estados Unidos e a Europa, para se tornar numa grande teia, em que são cada vez mais os países com força para iniciar perturbações, positivas ou negativas, que se farão sentir por todo o lado. As ideias são cada vez mais a matéria-prima a partir das quais se sustenta o crescimento. Elas levam à inovação em novos produtos, processos ou serviços, e estão na base de novos modelos de negócio como o World Sourcing que quase todas as grandes multinacionais começam a utilizar hoje em dia. A ideia é procurar por todo o mundo, através das mais variadas culturas e geografias, não só matérias-primas e componentes ou infraestruturas logísticas e de produção, mas também inovação e talento! Adquirir cada uma delas nos locais onde estejam mais disponíveis e vender o que a partir delas for produzido, onde quer que os mercados mais rentáveis se situem. Este conceito de World Sourcing funciona hoje como catalisador para a criação de uma nova Rota da Seda Digital, que moldará decisivamente o futuro de uma economia “Global 2.0”. Esta nova economia Global 2.0, em que estamos agora a entrar, será uma rede económica global única, sustentada numa moderna Rota da Seda Digital, totalmente interligada, instantânea, interdependente e infinita na sua implicação com o crescimento, prosperidade e inclusão mundiais. Em vez de ser construída com os fios

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robótica

produzidos por um insecto, será baseada em cabos de fibra óptica. Em vez de uma única corda ou fila de animais de carga, ligando o Oriente ao Ocidente, a Rota da Seda Digital será uma teia de interconexões, sem princípio nem fim, mas estendendo-se a todo o lado. Em vez de pacotes de mercadorias movimentar-se-ão pacotes de dados codificando ideias e informação. As diferenças são importantes quando passamos de uma corda para uma rede pois quando alguém puxa de um lado o efeito não se sente apenas no outro extremo da corda, mas sim em todos os pontos cobertos pela teia. A diferença é também muito importante quando se substituem os pacotes de mercadorias pelas ideias. Na verdade, as ideias são o capital do século XXI e, ao contrário do que acontece com matérias-primas como a seda, o cobre, o chá ou o petróleo, nenhuma nação terá alguma vez o monopólio das ideias. Uma analogia quase perfeita pode fazer-se com os processos de sensing & communication, centrais para uma disciplina como a Robótica. Na verdade, em vez de cadeias lineares de aquisição de dados, com um sensor ligado a um transmissor que faz chegar a informação a um concentrador/controlador por um caminho único, unidireccional ou bidireccional, mas sempre ponto a ponto, que, uma vez quebrado, compromete imediatamente o processo (com as limitações óbvias que esta arquitectura tem, por exemplo de alcance, em especial quando se trata de comunicações sem fios) passamos hoje, cada vez mais, a basear os processos em redes de sensores sem fios (mesh networks), através dos quais cada sensing node consegue fazer chegar os seus dados a um controlador por vários caminhos alternativos, escolhendo o caminho mais curto/eficiente em cada momento, com uma capacidade de alcance muito maior (teoricamente infinita). Por outro lado, a padronização dos protocolos de comunicação com uma rápida evolução para o IP (tal como na ciência e nos negócios o inglês é a linguagem universal) e a capacidade crescente de computação miniaturizada, o que leva a que cada sensing node tenha também desde logo alguma capacidade de decisão local, torna hoje cada vez mais uma realidade

José Basílio Simões CEO da ISA - Intelligent Sensing Anywhere Professor do Dept. de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra jbasilio@fis.uc.pt

a Internet of the Things, na qual caminhamos para um mundo em que todas as coisas terão o seu IP address e poderão comunicar (transmitir dados, receber comandos, lançar alarmes…) com qualquer outra. No campo da Inovação e da Investigação e Desenvolvimento de novos produtos, o World Sourcing está intimamente ligado com o conceito de Inovação Aberta, paradigma apresentado em 2003 por Henry Chesbrough, Professor da Universidade de Berkeley (Open Innovation: Researching a New Paradigm, http://www.openinnovation.net/Book/NewParadigm/, publicado em livro em 2006 pela Oxford University Press). A Inovação Aberta sustenta-se no facto de, na aldeia global em que vivemos, com informações, conhecimentos, saber e competências cada vez mais distribuídas, mas simultaneamente mais acessíveis, uma organização de sucesso não mais pode confiar e utilizar apenas os seus recursos internos. Ao invés, terá de assentar o seu desenvolvimento na busca contínua e global de novas fontes de inovação que, através de processos

Inovação aberta para a internet das coisas  

Autor: José Basílio Simões; Revista: robótica nº78

Inovação aberta para a internet das coisas  

Autor: José Basílio Simões; Revista: robótica nº78

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