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COLUNA EMPREENDER E INOVAR EM PORTUGAL

Empreender e Inovar em Portugal Empreender e inovar é algo que é nato nos Portugueses, que lhes está no sangue. O dia a dia do tuga é assim mesmo, desde que se levanta até que se deita, isto é, quando se deita, se o 2.º ou 3.º emprego assim o permitir. Se há povo em que estas duas palavras dizem muito, é o nosso povo. Passo a explicar. Há uma palavra no nosso dicionário, que não existe, por exemplo, no dicionário Inglês, e muito possivelmente, nos dicionários dos povos nórdicos: “desenrascar”. Desenrascar é o acto mais básico que nós tugas temos, de inovar e empreender. É por aqui que tudo começa, e que vai passando de geração em geração, de pai para filho. Mas graças a esta passagem de testemunho, temos hoje uma das mais avançadas civilizações do mundo. Não estou a ser irónico, e infelizmente, só nós tugas não percebemos isso. Quando alguns o percebem, sentem-se sufocados e zarpam em busca de um país onde são valorizados, onde as suas ideias fazem a diferença. É por essa razão que temos Portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo, e muitas vezes em posições de grande destaque nas instituições a que pertencem. Algo de errado se passou à 500 anos atrás. Não sei se foi enguiço, bruxedo, mau olhado, ou mesmo culpa nossa, mas o facto é que, de donos de meio mundo, passamos hoje em dia a inquilinos desse mesmo meio mundo. Talvez tenhamos cometido algum pecado capital, quando os nossos Reis de então, não valorizaram as capacidades empreendedoras de Cristovão Colombo, deixando que fosse a coroa Espanhola a oferecer o seu patrocínio. Se calhar, as raízes deste “desenvestimento” em capital próprio, tenha nascido dessa altura. O que é certo é que cinco séculos depois, ainda andamos a acreditar que o que é estrangeiro é que é bom. Engraçado, é ter que repetir a alguém, que realmente o que está a ver foi criado em Portugal, e por Portugueses. Ouço sempre a mesma resposta: “Não posso crer ...”. Pois creiam caros tugas, empreendedores e inovadores, somos NÓS. De imaginação, somos extremamente férteis, muito mais do que os nossos amigos Europeus. E falo por experiência própria. É por isso que temos tantas leis, tanta burocracia, pois essa imaginação pode dar para os dois lados. E dizemos à força toda, que os Brasileiros tem uma enorme imaginação. Pois, afinal donde veio essa imaginação, senão da sua raiz, desta pequena nação à beira mar plantada. Valeu-lhes muito, claro, da desintoxicação obtida pela distância que os separava da sufocante coroa Portuguesa, génese deste desacreditar nos feitos e capacidades dos Portugueses. Senão, veja-se África, as ex-colónias, Angola nas décadas de 50, 60 e 70 por exemplo, onde a distância fez florescer a capacidade de inovar e empreender, com a criação duma metrópole avant-garde, pensada de raiz, evoluída. É por isso que digo a todos os tugas, saiam de Portugal, seis meses, um ano, talvez um pouco mais, pois é a única forma de dar valor ao que temos por cá, à nossa comida, aos nossos costumes, às enormes capacidades do nosso povo, e vendo que afinal, lá fora não se faz melhor, que afinal somos uma Nação e pêras, que afinal o tuga é inovador e empreendedor. Ideias não nos faltam. Falta-nos sim, acreditar que essas ideias são válidas, são boas, e que devem ser valorizadas. É necessário arriscar, é necessário investir. Por vezes pode correr mal, mas o empreendedor é aquele que não desiste de uma ideia, por mais que ela custe a pegar. É preciso acabar com o enguiço, e acreditar que afinal somos capazes. Vivi seis anos em Inglaterra, país que pertence ao G8, considerado por muitos como um marco exemplar de uma sociedade avançada, como um exemplo a seguir. Desenganem-se aqueles que assim o pensam, pois em muitos aspectos, nós somos muito melhores. E todos aqueles que

se aperceberam disso, a Portugal voltaram, tal como eu. Dos que ficam, são do tipo de emigrantes que lá fora sujeita-se a tudo, mas que em Portugal, “parece mal ter um emprego daqueles”. A eterna amargura do tuga que vive para as aparências, e que depois em época balnear, aparece por cá com vistosas viaturas, por vezes alugadas. Há, no entanto, diferenças com o nosso país, que devo reconhecer serem mais bem tratadas lá fora. A mais marcante de todas, e influenciadora do funcionamento de toda a Nação, pilar principal de qualquer sociedade, é o Sistema de Justiça. Nada mais funciona se não houver sentido de Justiça, da Educação às Finanças, da Economia à Saúde. Tudo pára, nada funciona, pois a sensação de impunidade reina, o caos instala-se, a anarquia prevalece, a autoridade deixa de existir. “É cada um por si”. É aqui que temos que parar para pensar, e reflectir na famosa frase de Luís de Camões: “o fraco Rei faz fraca a forte gente”. Afinal o problema da Nação não está na falta de inovação, na falta de empreendorismo dos Portugueses. O problema está na mais importante das Instituições da nossa sociedade, o Sistema de Justiça, e parece-me ser aí onde falta inovação. Será por falta de ideias, será por falta de vontade, creio que nunca se saberá na realidade. É chegada a altura de empreender, de mudar alguma coisa para que o sistema funcione. Já há muito tempo que acredito, que a informática pode resolver os males da Nação. O computador não mente, não se corrompe, é rápido, pragmático, sem segundas intenções e não se confunde, desde que bem programado. Nós tugas temos demonstrado que nesta área somos inovadores, não só pela qualidade das nossas aplicações informáticas, como pelo sucesso nas exportações e clientes no estrangeiro satisfeitos com os nossos produtos, sempre

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robótica

Gil Lopes Departamento de Electrónica Industrial da Universidade do Minho gil@dei.uminho.pt

na vanguarda. Tem-se investido imenso nesta área na máquina estatal, e bons frutos estão agora a ser colhidos com isso. Será que é essa mesma informática que falta no Sistema de Justiça, ou retirar o sistema de avaliação dos professores e colocá-lo nos juízes? Com um Sistema de Justiça funcional, todo o resto entrará nos seus eixos, e Portugal, estará a um passo de inovar em outras áreas onde o investimento, começa a ser imperativo: a Automação e a Robótica. Mas desta vez, feita em casa. Chega de pensar que o que vem do estrangeiro é melhor. Há capital humano e intelectual de enorme valor em Portugal, e nem sequer estou a falar de Lisboa. Procurem, pois apesar de pequeno, por vezes estabelecemos as fronteiras muito junto à capital. Da Galiza ao Algarve, tudo isto é o nosso belo Portugal, cheio de gente do extremo interior até ao litoral, com enormes capacidades empreendedoras, com vontade de inovar, nas mais diversas áreas, afim de melhorarmos o nosso tecido empresarial, de aumentarmos a qualidade dos nossos produtos, de os produzir com menor preço de custo, mais rápidos e consistentes. Só utilizando sistemas automatizados ou robotizados será possível concorrer com os demais países. Basta seguir os bons exemplos dos melhores países nesta prática. Copiar pelos melhores não é feio, desde que seja feito em Portugal.

Empreender e inovar em Portugal  
Empreender e inovar em Portugal  

Autor: Gil Lopes; Revista: robótica nº78

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