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Luís Andrade Ferreira Prof. Associado c/ Agregação, DEMEGI/FEUP lferreir@fe.up.pt

Artigo Técnico

Uma Reflexão sobre a Organização da Manutenção INTRODUÇÃO A organização de um serviço de manutenção deve responder às necessidades da empresa definidas através da estratégia de manutenção entretanto seleccionada para o parque de equipamentos a manter. Essa definição estratégica tem naturalmente a ver com a resposta fundamentada às questões tradicionais da manutenção[1]: • Que e quanta informação deve ser recolhida e analisada para cada sistema em análise? Haverá informação “descartável” ou mesmo desnecessária? • O quê e quem? Isto é, quais as tarefas que devem ser efectuadas no interior da empresa ou que devem ser sub-contratadas? Esta questão aparece ligada às tendências verificadas nos últimos tempos na gestão das empresas, com o intuito de dirigir estas para o seu “core business”, o que leva muitas vezes a uma re-engenharia dos processos e a um “downsizing” importante de quadros das empresas. Há neste caso um cada vez maior recurso à contratação externa de prestação de serviços (“outsourcing”). • Qual a influência que a manutenção deve ter na selecção e na instalação de novos sistemas produtivos ou equipamentos? A análise dos LCC (“Life-cycle Costs”) de equipamentos anteriores, assim como o seu desempenho técnico, é relevante? Muito, pouco?

de Vida (“Life Cycle Cost” – LCC) dos equipamentos produtivos. O LCC inclui todos os custos que sejam considerados como possíveis. Cada caso de estudo deve ser analisado, tendo em vista as suas particularidades. A sequência de análise pode ser a apresentada na Figura 1.

Necessariamente, as estratégias a adoptar terão como intenção melhorar o “output” global das empresas e estarão relacionadas com a análise LCC feita aos equipamentos em questão. Fundamental para o desenvolvimento de uma estrutura organizacional é a consideração das capacidades e atitudes dos meios humanos envolvidos e a criação de uma rede de actividades em que cada um possa desempenhar com êxito as tarefas que lhe estão atribuídas. Só assim será possível implementar verdadeiramente a estratégia seleccionada (RCM, TPM, Terotecnologia,...), pois só assim as pessoas se sentirão motivadas para desempenhar as suas tarefas. Se estas não estiverem de acordo com as capacidades dos executantes, então estes tenderão rapidamente a sentirem-se desmotivados e a estrutura não responderá às necessidades de manutenção da empresa. A abordagem à estruturação do trabalho de manutenção, com uma correcta distribuição das cargas de trabalho e das competências, é fundamental para o sucesso de uma organização da manutenção e da estratégia adoptada.

ABORDAGEM LCC – METODOLOGIA DE ANÁLISE Antes de iniciarmos a abordar a temática da Organização da Manutenção, é conveniente realçarmos a importância económica desta actividade, normalmente inserida na Gestão de operações das organizações. A melhor forma de o fazer será verificar o peso que a Manutenção tem no Custo de Ciclo

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Figura 1 . O processo de realização do LCC


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A capacidade de resposta a situações inesperadas é fundamental para a sobrevivência das empresas. Como foi dito, nem tudo podo ser previsto, logo existe e existirá sempre risco envolvido nas actividades humanas. A capacidade de manter as consequências das situações imprevistas a um nível mínimo demonstra a capacidade de intervenção de um serviço de manutenção. Acresce ainda, que face a situações de emergência, um serviço de manutenção não deve descurar a sua actividade normal, deixando-a descontrolar-se ao centrar toda a sua atenção numa actividade não regular. Tal pode levar à existência de outras situações imprevistas. Como se pode ver, a actividade da manutenção é essencial para a diminuição das situações de risco das empresas. Em primeiro lugar mantendo as instalações e os equipamentos em condições funcionais em que a probabilidade de ocorrência de situações perigosas seja baixa. Em segundo lugar, quando essas situações existem, minimizando as consequências das situações imprevistas.

NORMALIZAÇÃO E REGULAMENTAÇÃO

CONCLUSÃO Pretendeu-se neste documento fazer uma reflexão sobre diferentes pontos, considerados relevantes para uma organização da manutenção. A organização da manutenção deve reflectir os interesses globais da empresa, maximizando os “outputs” dos equipamentos a custos controlados. Não existe um sistema generalizável a todas as organizações. Terá o gestor da manutenção, em cada situação e com os meios de que dispõe interna e externamente, de optar pelas soluções que lhe pareçam mais razoáveis, face aos objectivos que pretende atingir no âmbito da empresa. Chama-se a atenção para a necessidade de flexibilização dos meios disponíveis, que deverão ser capazes de responderem a situações imprevistas, sempre que estas se possam dar.

NOTA FINAL Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do Projecto PRIME - Medida 3.1B – Projectos Mobilizadores para o Desenvolvimento Tecnológico: SITEM Sistema Integrado de Engenharia e Gestão da Manutenção de Instalações e Equipamentos Industriais.

Como será de esperar, a organização da manutenção deverá respeitar a legislação vigente relativa a: • • • •

Legislação do laboral Higiene e segurança no trabalho Protecção do ambiente Contratação de serviços externos

Como não existe em Portugal, tanto quanto é do nosso conhecimento, legislação própria para a manutenção, terá que ser adoptada a legislação geral existente, repartida por diferentes códigos e leis. Face à natureza da manutenção e à dispersão da legislação, é de prever o recurso a técnicos da área jurídica para a compreensão e aplicação dessa regulamentação. Note-se que existem equipamentos, como as caldeiras ou os elevadores, que são objecto de regulamentação particular. Há que preparar as intervenções pela entidade responsável atempadamente, já que um equipamento não certificado corre o risco de não estar coberto pelas seguradoras. Terá que se ter em atenção a normalização existente, não só a portuguesa (praticamente inexistente), mas sobretudo a europeia para o sector. Esta normalização tem vindo a ser desenvolvida no âmbito do CEN. As normas em Portugal podem ter ou não carácter vinculativo. Tal depende da legislação que lhe for aplicada. No entanto, sempre que seja possível, devemse aplicar procedimentos normalizados.

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REFERÊNCIAS [1] SITEM/FEUP 007/SP/02 (2004), Estratégias de Manutenção [2] Pinto, C. (1999), Organização e Gestão da Manutenção, ed. Monitor, Lisboa [3] Smith, A. (1983), Structure of Work Groups , The Industrial Society, Leeds [4] Fougerousse, S., Germain, J. (1992), Pratique de la Maintenance Industrielle par le Coût Global, AFNOR, Paris [5] Higgins, L., Mobley,K (2001), Maintenance Engineering Handbook, 6th ed., Sections 1, 2 and 3, MacGraw-Hill Standard Handbooks, New York

Uma reflexão sobre a organização da Manutenção  

Autor: Luís Andrade Ferreira; Revista: Manutenção nº93

Uma reflexão sobre a organização da Manutenção  

Autor: Luís Andrade Ferreira; Revista: Manutenção nº93

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