Page 1

Editorial

Como penso ser conhecido de todos, o Ensino em geral e o Ensino Superior em particular encontram-se mais uma vez a sofrer modificações importantes. Quiçá, modificações estas mais importantes do que nunca, já que envolvem uma mudança de estrutura. Pretende-se uma configuração nova da organização das instituições, radicalmente diferente da existente e que tinha as suas bases históricas num desenvolvimento continuado e sucessivo ao longo de séculos. Não temos dúvida que evoluir é necessário, que toda a Sociedade está em movimento e que as instituições de ensino têm necessariamente de evoluir, para constituir fontes de conhecimento de todo um país. Importa saber para onde vamos e quais os modelos necessários para que todos possam lucrar dessa evolução. As maiores modificações estruturais aparecem no Ensino Superior, com a possibilidade de serem criados modelos novos de governação das Universidades e, possivelmente, dos Institutos Politécnicos, baseados numa visão mais “privada” em que as opiniões da sociedade civil sejam determinantes. Modelos estes ainda em experimentação noutros pises europeus mais desenvolvidos, mas com larga tradição nos Estados Unidos da América. Face à inexistente experiência destes modelos de organização no nosso país e face a uma tradição anterior, que reflecte bem a capacidade de intervenção nacional nestes domínios, naturalmente surgem questões ainda muito longe de estar respondidas sobre o caminho a seguir. Poder-se-á questionar da necessidade de transformar instituições, cujo financiamento terá sempre de passar pelo suporte financeiro do Estado, em fundações do foro privado, em que os curadores serão sempre nomeados pelo próprio Estado. Valerá a pena? Não bastaria mudar a legislação actual, criando condições para a intervenção directa desse mesmo Estado, que no fim é quem paga a factura? E no meio disto tudo: onde pára a qualidade de ensino? As instituições portuguesas de ensino superior, quando avaliadas internacionalmente, têm-se saído razoavelmente bem na sua maioria. Então em que é que estas modificações vão alterar essa qualidade e melhorar o desempenho profissional dos Portugueses? Por fim, para nosso bem, mas também para nosso mal, assistimos a uma terceirização acentuada e rápida da nossa economia. Outros países (veja-se a nossa vizinha Espanha) têm resistido a essa tentação, mantendo uma percentagem importante do PIB ligado aos processos produtivos industriais, suportados pelos novos serviços entretanto criados. Se a opção cá em Portugal é a de baixar

‘2 · MANUTENÇÃO

Luís Andrade Ferreira

Director

a contribuição dos sectores primário e secundário, vamos prestar serviços a quem? Aos turistas? É naturalmente insuficiente. Vamos exportar serviços? A quem o vamos fazer e em que condições vamos competir com parceiros que estão normalmente ligados a uma base industrial sólida? Tudo isto tem a ver com o nosso Ensino. Infelizmente tem-se ao longo do tempo vindo a perder a capacidade de realização de novos produtos nas áreas industriais, o que leva muitas empresas a desistir de produzir em Portugal. A mão de obra afinal tem cada vez menos preparação técnica e, sobretudo, científica. E é muito mais barata nos países do terceiro mundo! Para equilibrarmos as nossas contas como país temos que exportar. Logo se olharmos para países que são grandes exportadores (Alemanha, Japão, Dinamarca,…) e os tomarmos como bons exemplos, deparámo-nos com situações diversas das nossas. Apesar destes países se queixarem da falta de Engenheiros, apostam fortemente no desenvolvimento industrial suportado por Universidades bem financiadas e com altos níveis de exigência e por sistemas científicos de apoio estruturados de acordo com as necessidades previsíveis para o futuro. O problema em Portugal, em nossa opinião, é que Ciência não é Cultura! Gastam-se milhões em Arte, temos museus de categoria internacional. Mas não podemos competir com Parques de Ciência como são “La Villette”, em Paris, ou todos os museus dedicados às diferentes ciências que uma capital como Londres possui. Quando é que lá chegaremos?

Editorial  

Autor: Luís Andrade Ferreira; Revista: Manutenção nº93

Editorial  

Autor: Luís Andrade Ferreira; Revista: Manutenção nº93

Advertisement