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Artigo Técnico

Paulo A. Serrano1, C. Pereira Cabrita2 1 Engenheiro Electromecânico (UBI) Mestrando em Sistemas de Controlo e Manutenção Industrial (UBI) Coordenador da Engenharia de Processos (Sodecia da Guarda, S.A.) serrano_pocas@hotmail.com 2 Professor Catedrático Departamento de Engenharia Electromecânica (UBI) Presidente do Conselho Científico e Tecnológico (Parque de Ciência e Tecnologia da Covilhã – Parkurbis) cabrita@ubi.pt

Aplicação de Metodologias de Manutenção de Fiabilidade Pró-Activa a uma empresa multinacional do sector automóvel RESUMO Este artigo descreve, em linhas gerais, algumas das práticas e filosofias de manutenção industrial mais recentes, como são os casos da Manutenção de Fiabilidade Pró-Activa e da Fiabilidade Centrada no Operador, e que consubstanciam as metodologias que têm vindo a ser adoptadas por uma empresa multinacional do sector automóvel, sediada na cidade da Guarda. Descrevem-se igualmente essas metodologias, assim como o contexto operacional em que são utilizadas, com a finalidade de se alterarem as formas tradicionais de funcionamento para novas atitudes, onde a agregação ao Departamento de Produção representa um dos objectivos principais, no sentido da responsabilização dos operadores na execução de tarefas primárias de manutenção, conseguindo-se assim optimizar a eficiência dos activos, devido ao aumento da produtividade e da redução de custos. Saliente-se que, à semelhança de outros artigos que se têm vindo a publicar nesta prestigiada revista, numa co-autoria entre orientador e orientandos de mestrado da Universidade da Beira Interior, este trabalho representa mais um caso de sucesso do estabelecimento de sinergias entre Universidade e Indústria.

1. INTRODUÇÃO Na prática industrial, os dois grandes modelos de manutenção que, por assim dizer, correspondem aos dois pilares desta actividade cada vez mais estratégica para os sectores produtivo e de exploração de equipamentos, são a Manutenção Produtiva Total TPM e a Manutenção Centrada na Fiabilidade RCM. A TPM caracteriza-se pelo envolvimento e participação de todos os recursos humanos nos objectivos e actividades produtivas, obrigando ao estabelecimento de programas de manutenção preventiva que cubram o ciclo de vida dos equipamentos, e a promoção da execução de operações de manutenção por parte dos operadores dos próprios equipamentos, sendo o objectivo fundamental a maximização da disponibilidade dos equipamentos de produção, através da meta “zero avarias” [1,2,3]. Relativamente à RCM, incentiva e promove a utilização de políticas de manutenção que se fundamentam não só no conhecimento exaustivo das funções dos equipamentos, no contexto em que operam, mas também no conhecimento profundo de todos os seus tipos de falhas e avarias e suas consequências previsíveis, sendo dado um relevo especial às falhas ocultas, na medida em que poderão ser catastróficas a curto prazo [1,4,5,6]. Com a finalidade de se promover eficazmente a migração da manutenção correctiva, que é reactiva e funcional, para uma política de manutenção pró-activa, baseada na fiabilidade e que se encontre plenamente integrada na actividade global da unidade fabril, têm vindo a ser desenvolvidas outras

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filosofias, baseadas naqueles grandes modelos, todavia mais aligeiradas e vocacionadas para as especificidades próprias de cada empresa, como sucede com a Fiabilidade de Implementação Rápida, a Manutenção Centrada na Fiabilidade Simplificada, a Manutenção Baseada no Risco, a Manutenção de Fiabilidade Pró-Activa, e a Fiabilidade Centrada no Operador [7,8,9]. Atendendo a que as metodologias de manutenção que têm vindo a ser adoptadas na empresa industrial objecto deste estudo, se baseiam nestas duas últimas filosofias, descrevemo-las seguidamente de uma forma sintética, salientando ao mesmo tempo que a sua criação, desenvolvimento, e aperfeiçoamento, se devem inteiramente à empresa SKF Reliability Systems [7,8].

2. MANUTENÇÃO DE FIABILIDADE PRÓ-ACTIVA Tem como objectivo a identificação das falhas e a consequente adopção de todos os processos necessários para que não voltem a verificar-se, consistindo a sua base não só no desenvolvimento de um método sistemático de avaliação da produtividade dos activos, mas também na implementação de acções correctivas de forma a reduzir os custos do ciclo de vida dos equipamentos. Enquanto que os procedimentos inerentes a uma política de manutenção preditiva tradicional, isto é, preventiva condicionada, formam um círculo de manutenção sustentada, a manutenção de fiabilidade pró-


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i) Índice de Efectivos de Pessoal ,(3 =

HIHFWLYR GH SHVVRDO GH PDQXWHQomR  HIHFWLYR GH SHVVRDO GH SURGXomR

j) Índice de Trabalho Subcontratado ,76 =

KRUDV GH WUDEDOKR VXEFRQWUDW DGR  KRUDV WRWDLV GH PDQXWHQomR

Saliente-se que a meta atingida para o OEE situa-se em 85 %, o que é excelente, mostrando-se no quadro 3 os valores dos restantes índices de desempenho, que confirmam o sucesso das novas metodologias e atitudes. Ao analisarem-se esses valores, constata-se que há um aumento das actividades de manutenção preventiva, e uma redução do trabalho subcontratado, na medida em que as novas metodologias privilegiam a manutenção preventiva e preditiva, evitando assim que surjam falhas complexas, a serem resolvidas por técnicos especializados exteriores à empresa. Como complemento, e devido à optimização da eficiência dos activos, tem havido uma redução dos recursos humanos assim como dos custos afectos à Função Manutenção [10]. Valores [%] Indicadores

2005

2006

2007

2008

ITE

0

0

0

0

ITA

60

48

55

47

IVP

15,48

1,83

1,35

1,20

IQS

18

44

58

63

IEP

5

5

4

3

ITS

25

8

10

6

Quadro 3 . Indicadores de desempenho da Função Manutenção.

métodos de produção; — Desenvolvimento de um módulo de software, de manutenção, para fazer parte do sistema integrado de gestão da unidade fabril; — Desenvolvimento de um modelo de análise e avaliação do desempenho dos recursos humanos afectos à manutenção; — Desenvolvimento de todo o planeamento da manutenção, com ênfase na formação contínua dos recursos humanos; — Estabelecimento de sinergias entre a Função Manutenção e as Funções Produção e Qualidade, com a finalidade da integração plena destas funções no desenvolvimento de um projecto de Sistema de Gestão Total (TMS – Total Management System). Como resultado destas práticas pró-activas, podem-se enumerar as seguintes vantagens [10]: — Formação contínua de todos os técnicos, nas diversas áreas de manutenção e operação; — Elevada flexibilidade na organização e planeamento dos recursos humanos afectos à manutenção; — Elevada motivação destes recursos humanos, sobretudo dos mais jovens; — Maior rapidez e eficiência nas acções esporádicas de manutenção correctiva; — Maior sensibilidade para a detecção de anomalias por parte dos operadores dos equipamentos; — Consolidação da partilha de tarefas e conhecimentos com a equipa de Engenharia, estando os técnicos da manutenção integrados na melhoria contínua de processos, indicadores, segurança e ergonomia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] Carlos Varela Pinto, Organização e Gestão da Manutenção. Edições Monitor, Lisboa, 2002. [2] Tery Wireman, Total Productive Maintenance. Industrial Press, New York, 2004. [3] Carlos Cabrita, TPM – Manutenção Produtiva Total. Teoria, Métodos, Indicadores de Desempenho. Edição do autor, Universidade da Beira Interior, Covilhã, 2004.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

[4] John Moubray, Reliability-Centered Maintenance. Industrial Press, New York, 1997. [5] Rui Assis, Apoio à Decisão em Gestão da Manutenção. Fiabilidade e Manutenibilidade. Edições

As metodologias adoptadas têm como objectivo a eliminação máxima de falhas, com a finalidade de se obterem níveis mais elevados de produtividade, de se reduzirem os custos, de se elevar o nível de qualidade, e foi pensado e elaborado para ser eficiente no planeamento, na flexibilização, e no aumento dos níveis de conhecimentos técnicos dos recursos humanos afectos à manutenção, sendo também um suporte para a manutenção autónoma. Seguidamente, descrevem-se as diversas etapas da sua implementação, suportadas pelo próprio software integrado de gestão da empresa [10]:

Técnicas Lidel, Lisboa, 2004. [6] Carlos Cabrita, RCM – Manutenção Centrada na Fiabilidade. Teoria, Métodos, Indicadores de

Desempenho, Exercícios Práticos. Edição do autor, Universidade da Beira Interior, Covilhã, 2007. [7] SKF Reliability Systems, O Guia para a Optimização da Eficiência dos Activos e Melhoria dos

Resultados. Publicação 5160 PT, 2005. [8] http://www.skf.com. [9] Carlos Cabrita, Manutenção Industrial. Novas Filosofias e Práticas. Edição do autor, Universidade da Beira Interior, Covilhã, 2006. [10] Paulo Serrano, Manutenção de Fiabilidade Pró-Activa: Aplicação a uma Empresa Multinacional do

Sector Automóvel. Dissertação de Mestrado em Sistemas de Controlo e Manutenção Industrial,

— Desenvolvimento de uma metodologia de cálculo e de análise dos custos directos e indirectos, com base nas disponibilidades dos equipamentos; — Conjugação das diversas políticas de manutenção, em função das especificidades inerentes aos vários processos produtivos; — Optimização do modelo de gestão e organização, tornando a Função Manutenção activa, dinâmica, lucrativa, de modo a adaptar-se aos

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Universidade da Beira Interior, Covilhã, 2008. [11] Carlos Silva, Carlos Cabrita, João Matias, Proactive Reliability Maintenance: A Case Study

concerning Maintenance Service Costs. Artigo aceite para publicação na revista internacional Journal of Quality in Maintenance Engineering, Julho de 2008. [12] Joel Levitt, Complete Guide to Predictive and Preventive Maintenance. Industrial Press, New York, 2001.

Aplicação de metodologias de manutenção de fiabilidade pró-activa a uma empresa multinacional do sec  

Autor: Paulo A. Serrano, C. Pereira Cabrita; Revista: Manutenção nº98 e 99

Aplicação de metodologias de manutenção de fiabilidade pró-activa a uma empresa multinacional do sec  

Autor: Paulo A. Serrano, C. Pereira Cabrita; Revista: Manutenção nº98 e 99