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Artigo Técnico

C. Pereira Cabrita Professor Catedrático Departamento de Engenharia Electromecânica (UBI) Presidente do Conselho Científico e Tecnológico (Parque de Ciência e Tecnologia da Covilhã – Parkurbis) cabrita@ubi.pt Universidade da Beira Interior Departamento de Engenharia Electromecânica Edifício 1 das Engenharias 6201-001 Covilhã

Manutenção Industrial Seis Sigma RESUMO Na sequência dos trabalhos anteriores que temos vindo a publicar nesta revista de referência, relativos às filosofias Produção Magra, Seis Sigma, Sigma Magra, Manutenção Magra e Six Sigma Business Scorecard, propõe-se neste artigo a adopção das metodologias associadas à Produção Magra e à Seis Sigma, conjugadas com as práticas da Six Sigma Business Scorecard, com o objectivo de se criar uma estrutura de Manutenção Seis Sigma, no sentido de se poder avaliar o desempenho das actividades de manutenção com base nos níveis sigma. Atendendo à sua importância, apresentam-se previamente, de uma forma detalhada e exemplificativa, os conceitos e definições associados aos parâmetros Defeitos Por Unidade (DPU), Defeitos Por Oportunidade (DPO) e Defeitos Por Milhão de Oportunidades (DPM), característicos da Seis Sigma.

1. INTRODUÇÃO A filosofia Seis Sigma é uma prática fortemente disciplinada, de melhoria contínua, para ser aplicada em processos, produtos e serviços, com o objectivo de reduzir falhas e custos de produção. A sua ideia base consiste em que, se se conseguir avaliar quantas falhas ou defeitos se têm num determinado processo industrial, ou quantos erros se cometem em organizações de prestação de serviços ou na gestão estratégica global das empresas, então, de uma forma sistemática, conseguem-se discernir os procedimentos a adoptar para se eliminar essas falhas e atingir-se a meta “zero defeitos” ou “zero erros”, sendo a prevenção conseguida através da utilização de ferramentas estatísticas [1,2,3,4]. Em termos probabilísticos, quando aplicada à indústria, representa uma metodologia que assegura de uma forma quase perfeita os processos produtivos, impondo uma taxa máxima de produtos defeituosos de 3,4 por milhão (3,4 DPM – Defeitos Por Milhão). A Seis Sigma pode igualmente ser aplicada de forma global às organizações, com a finalidade de se avaliar e melhorar continuamente o seu desempenho no que respeita às mais valias conseguidas, como sucede com a filosofia Six Sigma Business Scorecard, proposta por Praveen Gupta [4], onde são tidos em consideração diversos parâmetros indicadores do desempenho económico e financeiro. Seguindo esta linha de pensamento, no sentido de se aproveitar as metodologias associadas à filosofia Seis Sigma sugere-se, de uma forma detalhada, a sua aplicação à Função Manutenção, utilizando as métricas daquela filosofia e os indicadores de desempenho técnicos e financeiros relativos a esta Função.

contínuo, onde a média μ de ocorrência desses acontecimentos é conhecida. Esta distribuição é bastante importante não só para a determinação da probabilidade da ocorrência de defeitos em produtos fabricados, mas também em manutenção industrial para o cálculo e para o conhecimento da probabilidade de se verificarem falhas nos equipamentos ou rupturas de stocks de materiais de manutenção. Por conseguinte, deve estar incluída nas ferramentas probabilísticas e estatísticas associadas aos departamentos de qualidade, de produção, e de manutenção, sendo obrigatório, como se torna evidente, que os responsáveis e os técnicos superiores desses departamentos dominem perfeitamente a sua aplicação, para que as metodologias associadas às filosofias Magra e Seis Sigma possam ser correctamente utilizadas. A distribuição de Poisson é caracterizada pela seguinte expressão [3]:

sendo P (x) a probabilidade de ocorrência de um acontecimento x, P a média aritmética de ocorrências desse acontecimento, e e = 2,718282 (base dos logaritmos naturais, ou constante de Neper). A média, a variância V2, e o desvio padrão V encontram-se relacionados da seguinte maneira:

2. CONCEITOS E DEFINIÇÕES DE DPU, DPO E DPM 2.1. Distribuição de Poisson A distribuição discreta de Poisson encontra-se relacionada com a probabilidade da ocorrência de um determinado número de acontecimentos num dado intervalo de tempo ou num processo

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Exemplo prático: num dado processo produtivo, onde se constata que a média diária de fabricação de produtos com defeito é de 2,25 produtos não conformes, calcular a probabilidade da ocorrência de 2, de 4 e de 6 produtos com defeito num determinado dia. Tem-se então:


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tuando-se as correspondentes equivalências, como se discrimina de uma forma detalhada em [2]:

Por outro lado, e ainda para o exemplo do Quadro 3, para se ter um nível Seis Sigma igual a 6, dever-se-á ter DPU = 0,0000272 e IDM = 99,9973, ou seja, praticamente igual a 100, e, consequentemente, uma manutenção, como se viu, com uma estrutura de funcionamento isenta de erros de desempenho.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quadro 3 – Exemplo numérico prático de determinação do nível Seis Sigma para a filosofia Manutenção Seis Sigma.

Como se constata não só através das expressões deduzidas mas também dos valores expostos no Quadro 3, exemplificativo, se todos os cinco indicadores escolhidos cumprissem rigorosamente os objectivos previamente definidos, os índices de desempenho parciais D seriam todos iguais à unidade, tendo-se então IDM = 100 e n DPU = 0, ou seja, ter-se-iam zero defeitos por milhão, o que significa que a manutenção teria conseguido atingir o objectivo “zero falhas” para a sua organização e eficiência. É importante realçar que, se tal sucedesse, essa meta de “zero falhas” diria respeito à eficiência da sua organização e não a “zero falhas” no funcionamento de todos os equipamentos – note-se que se pode, de facto, ter zero DPM na estrutura Seis Sigma, independentemente da disponibilidade operacional e da taxa de falhas serem ou não iguais, respectivamente, a 100 % e a zero. Ou seja, por exemplo se a disponibilidade operacional previamente definida for igual a 98 % e a alcançada para o período temporal em análise atingir igualmente o mesmo valor, o respectivo indicador será D = 98/98 = 1, podendo-se ou não ter 1 zero DPM para a estrutura organizativa da Função Manutenção, apesar da disponibilidade ser igual a 98 % e não a 100 %. Por conseguinte, uma vertente diz respeito a “zero falhas” no desempenho da estrutura organizativa da Função Manutenção, enquanto que a outra vertente de “zero falhas” se refere a ter-se os equipamentos completamente isentos de intervenções de manutenção e de quaisquer falhas ou avarias, isto é, com uma disponibilidade de 100 % e uma taxa de falhas nula o que, na realidade, é praticamente impossível.

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Independentemente do criticismo associado à filosofia Seis Sigma, que tivemos ocasião de discriminar nos dois trabalhos anteriores [1,2], e que se refere essencialmente ao modo como se deve utilizar a distribuição normal de probabilidades, e um pouco às designações atribuídas aos especialistas dos vários escalões hierárquicos de implementação, sem dúvida que esta filosofia representa uma metodologia bastante poderosa que permite, através das métricas utilizadas, avaliar o desempenho das organizações assim como de determinados sectores da sua estrutura de funcionamento, como sucede com a manutenção industrial. Com esta nossa proposta de adopção da Seis Sigma como filosofia avaliadora do desempenho funcional da estrutura associada à Função Manutenção, expondo igualmente de forma detalhada o modo de implementação e a sequência de cálculo dos respectivos indicadores e níveis sigma, concluímos assim esta série de três trabalhos relativos às novas práticas e filosofias de gestão e de manutenção, e que, esperamos, possam ser úteis a todos os colegas que, na sua actividade profissional, desempenhem funções ligadas às actividades de manutenção industrial. Pela nossa parte, e no âmbito de várias dissertações de mestrado em Engenharia Electrotécnica, Electromecânica, e em Engenharia e Gestão Industrial, da Universidade da Beira Interior, que se encontram a decorrer sob a nossa coordenação, estas novas filosofias e práticas estão a ser estudadas e implementadas, no sector da manutenção, em associação com as empresas industriais onde os próprios alunos se encontram inseridos e a desempenhar funções de direcção nesta nobre área. Para terminar, lanço encarecidamente um desafio a todos os colegas que exercem funções na área da Manutenção Industrial, para que publiquem os seus trabalhos com carácter de regularidade nesta revista de referência, para que possamos transformar as suas páginas num verdadeiro veículo de benchmarking, da maior utilidade para todos nós.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] C. Pereira Cabrita, “Filosofias Produção Magra, Seis Sigma, Sigma Magra e a Importância da Manutenção Industrial”. Revista Manutenção, 2009. [2] C. Pereira Cabrita, “Contribuição para o Entendimento das Bases Probabilísticas e Estatísticas da Filosofia Seis Sigma. Caracterização da Six Sigma Business Scorecard”. Revista Manutenção, 2009. [3] Issa Baas, “Six Sigma Statistics with Excel and Minitab”. McGrawHill, New York, 2007. [4] Praveen Gupta, “Six Sigma Business Scorecard. Ensuring Performance for Profit”. McGraw Hill, New York, 2004. [5] C. Varela Pinto, “Organização e Gestão da Manutenção”. Edições Monitor, Lisboa, 2003.

Manutenção industrial seis sigma  

Autor: C. Pereira Cabrita; Revista: Manutenção nº102

Manutenção industrial seis sigma  

Autor: C. Pereira Cabrita; Revista: Manutenção nº102

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