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Ascensores com história

O Elevador de Santa Justa António Vasconcelos Engenheiro Especialista em Transportes e Vias de Comunicação (OE)

O Elevador de Santa Justa é um dos

perior ligado por um passadiço metálico

ex libris de Lisboa e uma das atrações

horizontal e coberto, ao Largo do Carmo.

mais visitadas da capital. Foi inaugurado

Este passadiço é sustentado por um pilar

em 1902, com tração a vapor e mais

intermédio, situado na Rua do Carmo, que

tarde em 1907 foi renovado com tração

foi revestido em betão em 1946, em virtu-

elétrica. Desde 2002 está classificado

de do seu mau estado de conservação. É

como Monumento Nacional.

de notar que este passadiço passa mesmo ao lado das ruínas do antigo Convento do Carmo, destruído pelo terramoto de 1755.

O elevador de Santa Justa é um dos ex li-

Felizmente este elevador não foi afetado

bris de Lisboa e uma das atrações mais vi-

pelo Incêndio do Chiado, em 1998, apesar da

O elevador de Santa Justa foi a sua última

sitadas da capital, com mais de um milhão

sua proximidade com os imóveis afetados.

obra e, sem dúvida, a sua obra-prima. Mais

de passageiros por ano, a maioria turistas

Dado o seu grande interesse patrimonial,

tarde seguiu para as ex-colónias portugue-

estrangeiros. Foi inaugurado a 10 de julho

como obra-prima da Arquitetura do Ferro,

sas de África, tendo estado em S. Tomé e

de 1902, com tração a vapor e mais tarde

foi classificado como Monumento Nacional

Príncipe (1907), Guiné (1908 a 1911) e Mo-

a 6 de novembro 1907 foi renovado com

em fevereiro de 2002.

çambique (1911 a 1914), onde realizou outro

de Santa Justa é constituído por dois ele-

A sua construção deve-se a Raoul Mesnier

em 1914, com 66 anos de idade.

vadores totalmente independentes, cada

de Ponsard, ilustre engenheiro e inventor

um dos quais com a sua própria máquina

portuense de origem francesa, nascido em

que movimenta a correspondente cabina

1849, que para esse efeito fundou em 1899

nominado Elevador do Carmo, é uma obra

de madeira envernizada com capacidade

a Companhia do Elevador do Carmo e que

monumental, não só pelo sistema mecâ-

para 25 pessoas na subida e 20 na desci-

tomou posse definitiva da Companhia Car-

nico que o torna particularmente interes-

da.1 Cada um dos elevadores move-se no

ris em 1973. Raoul Mesnier tinha iniciado a

sante do ponto de vista da engenharia, mas

interior de duas torres metálicas justapos-

sua carreira de construtor de funiculares e

também pelo desenho da estrutura metá-

tas com 45 m de altura. A sua estrutura

elevadores em todo o nosso país, em 1882

lica, com ornamentação neogótica, cons-

desenvolve-se em sete andares no interior

com o Elevador do Bom Jesus do Monte em

truída pela empresa portuguesa Cardoso e

das quais circulam as duas cabinas e res-

Braga, em Lisboa com os da Lavra (1884),

D´Argent.

petivos contrapesos.

Gloria (1885) e Bica (1892), o da Nazaré

tração elétrica. Na realidade o elevador

Atualmente o elevador de Santa Justa é o único sistema público de transporte vertical coletivo da cidade de Lisboa. Liga as escadinhas de Santa Justa, (junto à Rua do Ouro) ao largo do Carmo, sendo o piso su1

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Esta diferença de carga útil deve-se ao facto de com o sistema de tração existente ser mais fácil controlar o sistema na subida do que na descida. O sistema é mais estável na subida e é mais fácil controlar a velocidade assim como a frenagem. Na subida o peso dos passageiros está a contrapor-se ao sentido do movimento e na descida esse mesmo peso está a ajudar ao movimento. O peso a ajudar no sentido descendente confere mais instabilidade ao sistema, razão pela qual o peso permitido na descida seja inferior ao da subida. Com os sistemas modernos de controlo não existem estas preocupações.

elevare

tipo de obras, tendo falecido em Inhanbane

O elevador de Santa Justa, inicialmente de-

(1889) e outros que entretanto foram de-

A solução de acionamento adotada, bem

molidos ou desativados.

como o sistema de cabos de tração de cada


Ascensores com história sa inglesa R. Waygood & CO Ltd of London. Refira-se a grande novidade deste sistema, pois somente 18 anos antes tinha entrado em serviço, em Nova Iorque, o primeiro elevador de tração elétrica. Para além do piso superior, que dá acesso ao passadiço metálico, este elevador tem ainda um miradouro no topo da estrutura, a 45 m de altura, com acesso por duas estreitas escadas de caracol, (uma para subir e outra para descer), de onde se avista um deslumbrante panorama sobre Lisboa, nomeadamente a Praça do Rossio, a Baixa Pombalina, o Castelo de S. Jorge e o estuário do Tejo. Outrora existiu neste lugar uma esplanada com um Café, mas foi abandonada dados os problemas de logística que esta esplanada apresentava (alimentação de água, esgotos, transporte de alimentos, entre outros). Horários de funcionamento do elevador: ›

inverno: 7:00 – 22:00

verão: 7:00 – 23:00

Horário de acesso ao miradouro: ›

8:30 – 20:30

SUGESTÕES DE LEITURA ›

“Livro da Carris” editado pela Companhia Carris de Ferro de Lisboa em 1993, José Lagrange e António Alçada Baptista;

"Pequena história dos elevadores", documento da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, 1994, Eng.o António Sande e Castro;

"The Tramways of Portugal", editado pela Light Rail Transit Association em 1995, B. R. King and J. H. Price;

"A decoração do elevador de Santa Justa na obra do Engenheiro Raul Mesnier de Ponsard". Tese de Mestrado em História de Arte da Universidade Lusíada, 1997, Maria Helena Delgado;

"O Homem dos Elevadores", Jornal Público 2 de maio 1999, José Lopes Cordeiro;

"Elevadores, Ascensores e Funiculares de Portugal", editado pelos CTT em 2010, Jaime Fragoso de Almeida.

O autor agradece as informações cedidas pelo Eng.o António Martins Marques, Diretor da Companhia Carris de Ferro de Lisboa. As fotos são do autor, devidamente autorizadas pela mesma empresa.

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elevare

O elevador de Santa Justa  

Autor: António Vasconcelos; Revista: Elevare nº1

O elevador de Santa Justa  

Autor: António Vasconcelos; Revista: Elevare nº1

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