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Qualidade, segurança e ambiente

Ecodesign na indústria – a abordagem de uma produção limpa Porque produzir produtos "limpos" e porque comprar produtos "limpos" 1.a Parte Carlos Alberto Alves Responsável pela Inovação, Design e Desenvolvimento Extruplás

A corrida desenfreada a que se assiste hoje,

mais baixo for o consumo, mais baixa será

em todos os setores da sociedade, empur-

a fatura.

ra-nos, inevitavelmente, para um caminho que leva ao abismo, a menos que tomemos

Esta pequena publicação pretende apenas

as necessárias medidas para contrariar

servir como uma ferramenta para chamar

este rumo.

a atenção de todos para a situação que temos vindo a criar, bem como deixar, apesar de tudo, uma palavra de esperança e de

Em regra, o crescimento que impomos a

confiança.

nós próprios e à sociedade em que estamos inseridos obriga-nos a bater recordes todos

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O POTENCIAL DO DESIGN

os dias e, da mesma forma, a tirar de nós e géticas são maiores, numa altura em que as

O ecodesign tornou-se popular aquando da

reservas são cada vez menores e em que

divulgação do Relatório de Brundtland, em

As notícias que vêm até nós, dos mais va-

os preços iniciaram, já há alguns anos, uma

1987. Nessa altura tornou-se muito mais

riados setores da nossa sociedade, são elas

escala difícil de prever.

conhecido e popularizado o Conceito de

dos recursos o máximo rendimento.

Desenvolvimento Sustentado, tendo esse

mesmas um indicador sério desta realidade. Alvim Tofller no seu livro “O Choque

No entanto deve ser dito que esta tarefa,

relatório feito também recomendações

do Futuro” evidencia a situação em que as

apesar de difícil, não é impossível de levar

para uma nova abordagem para o design e

pessoas estão, hoje, confrontadas com as

a bom porto. Se cada um de nós contribuir

a produção, sendo estabelecidos os princí-

constantes e, cada vez mais rápidas, mu-

com um pouco de esforço, coletivamente a

pios para “um sistema de produção que res-

danças a que temos de fazer frente.

situação melhoraria consideravelmente.

peite uma base ecológica e um sistema tec-

Mas a verdade é que o novo paradigma da

Reduzir a quantidade de energia que utili-

sociedade talvez já não sejam as pessoas,

zamos, optando por aparelhos energetica-

mas antes o ambiente e a sustentabilidade

mente mais eficientes e mais económicos e

A atenção particular ao design é justifica-

do mesmo.

por serviços que consumam menos ener-

da pelo facto de cerca de 80% dos custos

gia, assegurando-nos de que não esbanja-

económicos e ambientais dos produtos se-

mos este legado é a nossa obrigação.

rem cometidos na fase final do estágio do

nológico que procure continuamente novas

Os nossos filhos e os filhos dos nossos fi-

soluções”.

design, ou seja, antes da produção começar.

lhos terão que enfrentar muitos desafios e eles serão tanto maiores quanto menor

Certamente a mudança de comportamento

Assim integrar considerações relativas à

for a nossa contribuição para atenuar este

levará a que se consuma menos e esta con-

sustentabilidade no design é uma forma de

estádio de evolução em que nos encontra-

vicção tem sentido, tanto para a sociedade

tirar daí benefícios potenciais para a pesqui-

mos. Cada vez mais as necessidades ener-

como para as empresas. Até porque quanto

sa dos produtos.

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Qualidade, segurança e ambiente Para que o design seja eficaz devem ser le-

levadas em conta no final do desenvolvi-

são, provavelmente, a chave para a mu-

vadas em conta considerações ecológicas

mento do produto, quando já não há gran-

dança necessária para a sustentabilidade.

e sociais nos estágios iniciais da conceção

de margem para eventuais melhorias. Uti-

dos produtos e no seu desenvolvimento

lizar o design como um complemento que

Tudo isto faz com que a agenda para a

minimizando, dessa forma, a necessidade

traz apenas alguns benefícios, assim como

sustentabilidade em geral, e para o design

dos efeitos de ações de remediação nos

a influência dos designers sobre a natureza

em particular, tenha de ser estabelecida

e o caráter da ideia do design, tem uma im-

de uma forma radical com a participação

portância mínima.

do poder político, económico, das políticas

primeiros estágios da cadeia.

adotadas e com a necessária comunicação.

O papel do designer Assim como os outros profissionais en-

O objetivo atual das atividades de design

contraram formas de ganhar a sua vida

O desenvolvimento sustentável e as suas

A escala da mudança necessária

numa cultura de sustentabilidade, também

considerações, de ordem económica e am-

Os amigos da Terra exigem uma redução

os designers têm a mesma necessidade e

biental, têm implicações profundas quer

maciça nos níveis atuais de produção e

fazem o mesmo, criando novas práticas.

para a natureza do design e para o papel

consumo, de forma a dar azo a uma me-

O poder dos designers está na conceção,

do designer. Até aqui a resposta mais co-

lhor gestão dos recursos. Foi estabeleci-

no design e no planeamento, primeiro ge-

mum dos designers para os problemas

do um número determinado de alvos para

rando ideias e depois dando corpo a essas

da sustentabilidade tem sido centrada em

a redução do consumo de recursos em al-

ideias, transformando-as em produtos.

melhorar o perfil ambiental (que é dife-

guns países, com base nos níveis de 1990,

rente do perfil da sustentabilidade) de um

e considerando a inevitabilidade do esgo-

Os designers não são um grupo simples e

produto corrente ou, mais normalmente,

tamento desses recursos (como pode ser

coerente, partilhando ideias e concordan-

de um processo corrente. Enquanto mui-

visto na publicação o “Design e os REEEs”).

do sobre o que constituem as boas práti-

ta investigação esteja a ser levada a cabo

cas. Existem alguns conflitos inerentes

sobre o desenvolvimento de metodologias

nos círculos do design, entre designers

(tais como a gestão do ciclo de vida) para

ecologistas, por um lado, que estão a ter

refinar os sistemas existentes faz-se, en-

uma abordagem radical do design e do de-

tretanto, do modelo industrial existente o

senvolvimento como uma nova forma de

ponto de partida para as melhorias am-

valores, estratégias e produtos, e aqueles

bientais.

Se deixarmos uma lâmpada de 100 W acesa durante uma hora todos os dias, o seu consumo de energia será de 36,5 kWh por ano. Como há cerca de 75 milhões de adolescentes na Europa, se todos apagarmos uma lâmpada

que desenvolvem os seus esforços nos recursos intensivos para o desenvolvimento

A magnitude requerida pela mudança para

e marketing dos produtos ambientalmente

a sustentabilidade é tão significante que

irresponsáveis.

não pode ser conseguida apenas por pequenas melhorias e incrementos da nossa

durante uma hora, todos os dias poupar-se-ão 36,5 x 75 milhões = 2738 milhões de kWh de energia. Com isso impediremos que se libertem 1,37 milhões de toneladas de carbono para a atmosfera

O sucesso da implementação do design

abordagem atual. É esta abordagem que,

para a sustentabilidade requer um desig-

de muitas formas, constitui o primeiro

ner informado. A falta de informação ou a

obstáculo. Por essa razão, os pequenos

falta da sua divulgação em várias línguas

melhoramentos a esta abordagem não

conduz a que os designers e o seu treino

são de forma a produzir as mudanças ne-

tenham que ser redefinidos de forma a in-

cessárias para a sustentabilidade. É antes

A Tabela a seguir dá uma ideia dos valores

cluir as considerações ambientais com su-

a “abordagem atual” que, em muitos casos,

relativos médios para os quais se espera

cesso. Com efeito é necessária uma ênfase

constitui o primeiro obstáculo. Por isso pe-

poder vir a reduzir os consumos destes

nova sobre o contexto externo dos ele-

quenos melhoramentos nessa abordagem

mesmos recursos.

– a quantidade produzida por uma pequena central elétrica (150 MWe).

mentos do design, através da qual todos os aspetos do produto, a sua fabricação, o

Tabela 1. Previsão dos valores relativos médios da redução do consumo.

seu uso, a sua deposição, os seus meios, Objetivo da redução para 2010

Objetivo da redução para 2050

Energia

30%

88%

Uso da terra

7%

27%

Madeira

65%

73%

Água

15%

15%

projeto, e o seu potencial para trazer me-

Alumínio

22%

88%

lhorias para a sustentabilidade. É comum

Aço

21%

83%

Cimento

18%

72%

as suas consequências ambientais e o seu significado cultural sejam examinados. Com o derrube destas barreiras, os designers são introduzidos no processo de desenvolvimento do produto, influenciando grandemente o seu controlo ao longo do

que as considerações do design, tal como as questões da sustentabilidade, sejam

elevare

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Qualidade, segurança e ambiente Os quatro tipos de inovação A escala da redução dos recursos e dos impactos ambientais (entre 15% e 100%) que os “Amigos da Terra” sugerem ser necessária é também suportada por alguns outros autores. Ehrlich e Ehrlich (1990), por exemplo, consideram o impacto ambiental dependente de um número de fatores, entre eles a dimensão do volume da população e a eficácia das tecnologias ambientais disponíveis. Eles sustentam que, de forma a manter os impactos ambientais nos níveis atuais, é previsível que a redução do impacto desejado para os próximos 40 anos, um período no qual a população passará para o dobro, se situe entre um fa-

Gráfico 1. Influência do ecodesign nas reduções dos impactos ambientais.

tor 4 e um fator 20. Na prática isto significa que, para conter os níveis de poluição bem

DE PRODUTOS PARA SERVIÇOS

cia dos recursos - a energia e os materiais

como o aumento do consumo, o impacto

Preparar a mudança do consumo de pro-

entrados bem como os impactos ambien-

ambiental dos produtos e serviços deve

dutos para a utilização de serviços é um

tais associados têm potencial para serem

ser reduzido em 95%, ou seja, um vigési-

dos objetivos do pensamento do design

reduzidos a um mínimo.

mo dos níveis atuais.

para a sustentabilidade. Esta mudança requer a reorganização da forma como os

Enquanto muitos produtos são baseados

O conceito de “Redução Fator 20”, iniciado

produtos são distribuídos e usados e tem

na combinação de materiais ou produtos

pelos peritos em população Paul e Anne

grandes implicações, tanto nos produto-

de qualquer espécie, nos serviços, os ma-

Ehrlich, tem vindo a ser adaptado, sendo

res como nos consumidores. Uma estra-

teriais não são propriedade e, de alguma

a adaptação mais notável a de Ezio Man-

tégia que está adjacente a este conceito

forma, não são visíveis para o consumidor.

zini (1994) e, mais recentemente, através

é a partilha de produtos que satisfaz as

do popular “Factor Four” (Von Weizs Cker,

mesmas necessidades com poucas unida-

No entanto, como é hábito na cultura oci-

Lovins and Lovins, 1998), para ilustrar a

des e intensifica o uso do produto. Existem

dental, ser dono ou proprietário do mate-

enormidade da tarefa que os profissionais

muitos exemplos de partilha de produtos,

rial é um símbolo de saúde ou de diferen-

de design têm pela frente.

tais como as lavandarias em zonas muito

ciação social. Os materiais têm vindo a ser

povoadas ou em áreas urbanas, ou outros

aceites como forma de satisfazer as ne-

Alguns autores sugerem que o ecodesign,

esquemas como a lavagem automóvel,

cessidades psicológicas. Contra este con-

através dos incrementos de melhoria nos

que são exemplos usados para expressar

texto, a falta de materiais representados

processos e produtos, pode trazer redu-

um “bom” e eficiente design.

nos serviços ou no consumo dá aos consumidores, de alguma maneira, um prestígio

ções nos impactos até um fator de quatro (ver no diagrama). Para que se consiga um

O design dos serviços

dúbio. No entanto é o prestígio e os ele-

fator de redução 20 nos impactos, eles

Os serviços são baseados na visão de que

vados níveis de atratividade cultural das

argumentam que é necessária uma nova

os produtos são meros instrumentos ou

soluções alternativas tais como os servi-

e radical conceitualização da oferta e da

meios para satisfazer as necessidades ou

ços, que são largamente aceites como um

procura.

funções de que o consumidor precisa. Isto

imperativo para uma transição suave para

significa que os componentes materiais do

um mais sustentável sistema de produção

Isto envolve uma troca entre a otimização

produto são mais utilizados do que consu-

e consumo.

do produto e a inovação funcional, vista

midos pelo utilizador, através de um ser-

sob uma perspetiva centrada no nível do

viço ou acordo de leasing. Os benefícios

sistema em vez de centrada no produto,

ambientais da venda destas utilidades ou

As lâmpadas fluorescentes compac-

permitindo alargar as ineficiências ineren-

os resultados, mais do que os produtos,

tas consomem um quinto da energia

tes ao sistema de produção considerado.

advêm dos diferentes papéis desempenha-

das lâmpadas tradicionais e duram

dos pelos materiais, nos dois esquemas

oito vezes mais. São mais caras mas,

possíveis de lucro. Na venda de produtos,

na prática, poupa-se dinheiro com a

o lucro é maximizado através da venda de

sua eficiência. Incentivem o seu uso na

mais materiais. Na venda de serviços, o lu-

escola, no emprego e em casa levem a

cro é maximizado ao servir mais pessoas e

família e os amigos a experimentarem

com menos materiais. Assim, o sucesso fi-

e a fazerem a mudança!

Uma lâmpada de halogénio de 500 W utilizada durante uma hora e meia consome, por ano, mais do que um forno e liberta, por ano, 10,8 kg de CO2.

nanceiro de um serviço assenta na eficiên-

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Qualidade, segurança e ambiente conceito de equidade intergeracional inerente ao desenvolvimento sustentável. Em contraste, o design ecológico ou o ecodesign não se manifestam na dimensão tempo. O design sustentável é também um sistema centrado no foco do produto, onde assentam o “verde” e o ecodesign. HISTÓRIA Enquanto o design para a sustentabilidade tem sido considerado com uma importância particular nos nossos tempos, ele não é, no entanto, um fenómeno exclusivamente dos tempos modernos ou recentes. Esta ideia é já muito antiga tendo sido feitas as primeiras referências a este problema nos trabalhos de alguns estudiosos nos anos 30, muito embora alguns deles nem sequer Gráfico 2. Pirâmide dos fatores que aumentam potencial para prevenção dos impactos.

fossem designers.

Quadro 1. Fatores de diferenciação dos termos.

No entanto, a evolução das ideias no campo do design para a sustentabilidade é paralela

Foco

Foco no Foco

no produto sistema simples Design ecológico Ecodesign

o

Abordagem do ciclo de vida

Constrangimentos

Componente

da sustentabilidade tempo

aos movimentos ambientalistas. No ambientalismo, os anos 70 foram um período de muita atenção dada à sustentabilidade, relacionada com o crescimento económico

o

e o desenvolvimento e com as suas implio

cações ambientais. Em termos de ambiente

o

e design com responsabilidade social, este Design para a sustentabilidade

o

o

o

o

período foi caraterizado por preocupações mais do que por consequências, nos países industrializados e em vias de desenvolvimento, por parte dos mercados livres em

ciclo de vida tal como o ecodesign faz, mas

desenvolvimento económico, e acompa-

coloca a ênfase nas questões adicionais de

nhou as atitudes materialistas e os estilos

O que significa?

inclusão social e nas considerações éticas,

de vida da época.

Existem muitos termos e definições rela-

necessárias para atingir o desenvolvimento

cionados com a área da sustentabilidade e

sustentável.

DEFINIÇÕES

Esta questão é mais visível na abordagem do design e ambiente de Victor Papanek que

o design. Existem alguns termos que, fre-

inclui elementos de valor ambiental, neces-

quentemente, são considerados sinónimos e entre os quais vários autores delineiam

Apagar as luzes é uma boa maneira de

sidade e equidade. No seu texto, publicado

diferenças subtis.

começar a economizar recursos e dinhei-

em Londres em 1972, “Design for the Real

ro, mas há muitas outras maneiras de

World”, chocou o design convencional esta-

“Green design” ou “conceção ecológica”, por

contribuir para poupar a energia do pla-

belecido com a sua condenação que cata-

exemplo, limita-se a pegar num proble-

neta para o futuro. Por exemplo tomar

logou como um design superficial e virado

ma ambiental ou num elemento do ciclo

duches rápidos em vez de banhos de-

para um uso minimalista dos produtos.

de vida, enquanto o ecodesign ou o “design

morados também contribui para poupar

para o ambiente” e o “design do ciclo de vida”

energia e água. Não se esqueça de que,

pretendem reduzir as questões ambientais

cada vez que você mergulha na banheira,

ao longo de todo o ciclo de vida. Da mes-

acelera o aquecimento do planeta.

ma forma, o design ecológico deduz todo o

Um automóvel de grande cilindrada que faça cerca de 20 000 km por ano, na cidade, emite 2 toneladas de CO2. Por cada litro de combustível queima-

mesmo sistema de abordagem e é mais comum ser encontrado nos estudos de arqui-

Uma maior distinção entre os termos é sua

tetura. Em contraste, o design para a sus-

relação tempo-escala. O design sustentável

tentabilidade, alternativamente chamado

tem uma componente de longa duração

design de produtos sustentáveis, favorece o

altamente proeminente, em linha com o

do são libertados para a atmosfera 2,5 kg de CO2.

Continuação no próximo número.

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Ecodesign na indústria – a abordagem de uma produção limpa Porque produzir produtos "limpos" e porqu  

Autor: Carlos Alberto Alves; Revista: elevare nº8

Ecodesign na indústria – a abordagem de uma produção limpa Porque produzir produtos "limpos" e porqu  

Autor: Carlos Alberto Alves; Revista: elevare nº8

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