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Diversidade e Multiculturalismo na Saúde: Uma Questão de Educação e Cidadania num Mundo Globalizado Diversity and Multiculturalism in the Health: A Question of Education And Citizenship in a World Globalized Maria Rosa dos Santos Pereira Silvestre Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa. Portugal Resumo O papel dos agentes educativos (enfermeiros, médicos, psicólogos e educadores de infância) na área da saúde é fundamental na aquisição e partilha de determinadas capacidades que promovam a educação, através de programas de intervenção, nomeadamente em áreas prioritárias relacionadas com a saúde, tais como estilos e qualidade de vida das populações, apostando por um lado, na edificação e solidificação de valores de cidadania e, por outro lado, na inclusão social quando essas populações são migrantes numa sociedade multicêntrica, cada vez mais, globalizada como a nossa, construída num quadro de conflitualidade próprio das denominadas democracias modernas, onde se assiste, muitas vezes, a processos crescentes de exclusão social inerentes à própria globalização. A presente pesquisa teve por objectivo a análise das vivências diárias de três enfermeiros de três centros de saúde do país (Porto, Coimbra e Faro), através de investigações teóricas e empíricas em contexto comunitário, onde se incluem também registos informais (tipo entrevistas) face à diversidade das famílias multiculturais que aí recorrem. Essas vivências apontam para alguns factores, entre eles, a barreira linguística, que afectam as práticas educativas dos enfermeiros nos contextos comunitários onde trabalham, confirmando que o maior desafio que se lhes coloca passa por fazer das famílias multiculturais aliados importantes nas questões da educação e da cidadania em contextos de saúde.

Palavras-Chaves:

Cidadania;

Educação

para

a

Saúde;

Globalização;

Migrações;

Multiculturalismo.

Abstract The ROLE of the educational agents (nurses, medical, psychologists and educators of infancy) in the area of health is fundamental in the acquisition and sharing of determined capacities that


promote the education, through programs of intervention, namely in priority areas related to health, such as styles and quality of life of the populations. It defends the building and the consolidation of values of citizenship and, at the same time, the social inclusion of those populations when they are migrating to a multicenter society, more and more globalized as ours is today. It is built in a frame of a proper problematic named as modern democracies, where we many times watch the growing process of inherent social exclusion to globalization. To present research had for objective the analysis of the daily experiences of three nurses of three of health centers of the country (OPorto, Coimbra and Faro), through empirical and theoretical inquiries in communal context, where informal registers are also included (interviews) considering the diversity of the multicultural families that use the health centers. Those experiences focus on some factors, namely, the linguistic barrier, that affect the educational practices of the nurses in the communal contexts where they work, confirming that the greatest challenge they face is to make multicultural families important allies in the questions of education and citizenship in contexts of health.

Keywords: Citizenship; Education for the Health; Globalization; Migrations; Multiculturalism.

Introdução

O progresso da ciência, bem como as mudanças socio-económicas que se têm feito sentir nos últimos anos, tem levado a uma valorização crescente da enfermagem em Portugal, quer como ciência quer como profissão. Nesta perspectiva, a formação realizada pelos enfermeiros no contexto da prática (centros de saúde e hospitais), tem sido reconhecida e denominada de acções de educação para a saúde ou simplesmente educação para a saúde, sendo refutadas como intervenções autónomas dos enfermeiros, pertencendo a num contexto mais amplo do qual fazem parte todas as intervenções dos enfermeiros (REPE1, 1996). Ao longo da história o conceito de educação para a saúde foi sofrendo alterações na percepção dos indivíduos e dos próprios enfermeiros. Inicialmente foi percepcionada como uma actividade prescritiva, autoritária, estereotipada e com características tecnocráticas, referenciadas como educação sanitária. Alguns autores, entre eles, Wood (1926), citado por Navarro (1999) teriam


definido a educação para a saúde como soma de experiências e impressões que influenciam favoravelmente os hábitos, atitudes e conhecimentos relacionados com a saúde do indivíduo e comunidade. Este conceito de educação para a saúde foi ultrapassado, sendo considerado por vários autores como insuficiente ou até inaceitável, porque poderia manipular os indivíduos e ignorava a diversificidade dos contextos que são geradores de determinadas atitudes ou comportamentos. A educação para a saúde, segundo Poulizac (1984) citado por Navarro (1999), não deveria ser entendida como a vulgarização do conhecimento médico, nem como um subproduto da publicidade, mas sim um impulso à participação efectiva da autogestão da saúde no contexto das identidade quotidianas e face aos desafios do nosso tempo. A partir da década de 80, a educação para a saúde, passa a ser reconhecida como um processo baseado em regras científicas que utiliza oportunidades educacionais programadas por forma a capacitar os indivíduos, agindo isoladamente, ou em conjunto, para tomarem decisões fundamentais sobre assuntos relacionados com a saúde (OMS, 1990). Nesta abordagem está implícito um processo educativo que fomenta o desenvolvimento do indivíduo, que o acompanha e orienta para a apropriação de estilos de vida saudáveis e lhe facilita a tomada de decisões conscientes. Sabemos que este processo educativo promove as relações entre os indivíduos de uma comunidade, a partir da consciência de que o indivíduo é um ser activo nesse processo e como tal um ser participante e responsável. Os actuais conceitos de educação para a saúde diferenciam-se dos clássicos nos seguintes aspectos: - a inclusão do meio ambiente, pelos factores ambientais e sociais que engloba; - a participação do individuo ou então de um grupo; - a intervenção em grupos específicos (tais como grupos de risco considerados mais vulneráveis a situações de doença, tais como grávidas, crianças, idosos, com pessoas infectadas pelo HIV, toxicodependentes);


- a intervenção dos profissionais de saúde em famílias multiculturais2, revelando a importância dos aspectos culturais na aplicação das boas práticas na educação para a saúde; - a integração do planeamento e da avaliação das acções formativas e/ou programas de educação para a saúde como elementos imprescindíveis. É pois no contexto comunitário que surgem os agentes de educação para a saúde (profissionais da saúde: médicos, enfermeiros, educadores de infância, professores do ensino básico e secundário, …), ou seja, técnicos que contribuem para a promoção da saúde, tendo como finalidade que os indivíduos e/ou grupos de risco adoptem condutas positivas face à saúde (estilos de vida saudáveis), afastando assim o perigo da doença. A presente pesquisa teve por objectivo a análise das vivências diárias dos enfermeiros, face à diversidade das famílias multiculturais, na sociedade dita globalizada, onde valores de cidadania e educação são postos em causa, no dia-a-dia das populações em causa. Educação e Cidadania: duas faces da mesma moeda Será que educar para a saúde é educar para a cidadania? A educação para a saúde continua sendo primordial na nossa sociedade, embora ultimamente tenha sido descurada. Contudo os responsáveis pela saúde e pela educação neste pais deveriam reflectir que uma sociedade não pode ser saudável a nível global, se não estiver bem educada acerca dos factores de risco que podem influenciar o aparecimento de determinadas doenças com a finalidade de as combater e atingir assim uma cidadania plena e consequentemente saudável. Cada cidadão deveria estar informado acerca desses riscos de maneira a visar a promoção da sua saúde e a prevenção da doença, que são os objectivos essenciais da educação para a saúde. Contudo a cultura da promoção da saúde não está muito enraizada na sociedade portuguesa, de modo que os comportamentos de risco são, frequentemente, adoptados em Portugal. Para tal, contribui a mentalidade dos portugueses como também a forte influência (na maioria das vezes disfarçada) dos media pelos grupos de pressão económica e financeira assim como a falta de organização das autoridades oficiais de


saúde. Faltam programas e planos estratégicos de âmbito nacional que possam promover a saúde, prevenindo as doenças. Os cidadãos portugueses ainda estão pouco (e mal) informados sobre as doenças e os comportamentos de risco que os podem conduzir ao sofrimento e à morte. No Ano Europeu do Diálogo Intercultural A Europa, da qual fazemos parte integrante, é cada vez mais um espaço de diversidade cultural. Para esse facto contribuíram o alargamento, a livre circulação de trabalhadores e a globalização. Esta noção de que existe, cada vez mais, diversidade a nível cultural no nosso espaço mundial originou a que neste ano ocorresse um acontecimento conhecido como o Ano Europeu do Diálogo Intercultural3. O que se entende por Ano Europeu do Diálogo Intercultural? O Ano do Diálogo Intercultural é uma iniciativa que decorre em Portugal, com o objectivo dos cidadãos participarem activamente nos eventos propostos em Portugal e na Europa, a fim da sua consciencialização (tanto racional como emocional) de que o diálogo intercultural constitui uma maneira de apaziguar receios ou medos face ao desconhecido e de tecer redes para a aproximação no respeito e na aceitação mútua. Esta iniciativa integra-se em três objectivos, dando mais significado ao papel da identidade e cidadania europeia, na promoção da diversidade cultural e diálogo intercultural e na promoção da cultura como elemento catalisador nas relações internacionais. Torna-se óbvio que este importante evento também pretende contribuir para a tomada de consciência pelos educadores, incluindo os de saúde, que a educação se deve realizar em todas as famílias, independentemente da sua cultura e língua materna. Discussão: Educação para a Saúde e Famílias Multiculturais A educação, especialmente a educação para a saúde, vem sendo reconduzida ao longo dos tempos, no sentido de ampliar a sua margem de manobra nos serviços e outras unidades de saúde. Pode ser definida como uma área que estabelece um campo de práticas que acontecem no nível das relações sociais, normalmente estruturadas pelos


profissionais da saúde, entre si, com as instituições e com os utentes dessas instituições, no desenvolvimento quotidiano das suas actividades. Por outro lado, na sociedade global 4 em que vivemos (Giddens, 2000), onde são mais que evidentes as transformações pelas quais passam as diversas instituições humanas, nas suas relações sociais, económicas, políticas, educativas, morais e religiosas, os enfermeiros percepcionam, cada vez mais, a existência de famílias multiculturais5 (compostas por vários povos: cigano, ucraniano, hindu, muçulmano, brasileiro, …), às quais é difícil responder convenientemente, devido a inúmeros factores (entre eles a barreira linguística, a ausência de comunicabilidade, os hábitos de vida, a cultura, entre outros). Perante a existência destas famílias multiculturais, alguns enfermeiros que trabalham num contexto comunitário questionam-se no seu dia-a-dia: Como educar para a saúde as famílias multiculturais? A única resposta plausível é a colaboração entre as partes interessadas. Estas famílias necessitam de ser informadas e, por conseguinte, “cuidadas”, através da educação, tendo a noção de que educar também é cuidar. Foi com esta finalidade que um grupo de enfermeiros decidiu fazer uma pesquisa, no Centro de Saúde onde trabalhavam, com uma amostra de 3 enfermeiros (amostra intencional: enfermeiros especialistas em saúde comunitária, com mais de 3 anos de serviço, experientes em formação direccionada para a educação para a saúde e interessados neste trabalho), seguindo o método qualitativo para analisar as entrevistas e outros documentos (numa breve análise de conteúdo). Resultados: Factores que afectam as práticas educativas De acordo com os registos informais das vivências dos 3 enfermeiros, que coincidem com as análises efectuadas a revistas de investigação (teóricas e empíricas) em contexto comunitário, os factores que afectam as práticas educativas nos contextos comunitários tiveram a ver com: a barreira linguística entre educadores e educandos, a ausência de comunicabilidade devida a essa barreira e a outros factores, entre eles, a falta de disponibilidade dessas famílias para as acções educativas (para não faltar ao emprego, na maioria das vezes, precário, ou para ficar com crianças mais pequenas por serem famílias numerosas) por residirem longe dos centros de saúde que lhes pertencem


e não possuírem transporte próprio ou adequado, os hábitos de vida, a cultura, entre outros.

Notas

1

REPE – Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros (Decreto-Lei n.º

161/96 de 04 de Setembro). A publicação do REPE iniciou um novo ciclo na profissão de enfermagem que aponta claramente para princípios de actuação que encontram o seu fundamento numa moral de cooperação e respeito mútuos, baseada na igualdade, na reciprocidade, nas relações humanas e no acordo ou contratos sociais. 2

Famílias Multiculturais – são famílias que possuem a sua identidade cultural

fazendo parte de um grupo cultural que pode ser local, regional ou estrangeiro. Cada grupo pode dar uma significação diferente a eventos vividos em determinado âmbito, consoante a sua cultura. 3

Disponível em: http://www.acidi.gov.pt/. Página on-line cedida em 17/08/2008.

4

Globalização, numa perspectiva da era moderna, de acordo com Giddens (1992): “

(...) pode, assim, ser definida como a intensificação das relações sociais de escala mundial, relações que ligam localidades distantes de tal maneira que as ocorrências locais são moldadas por acontecimentos que se dão a muitos quilómetros de distância e vice-versa” (p.50) 5

Estas famílias são, por vezes, denominadas de famílias transculturais pelos

enfermeiros, se tivermos em conta a teoria de LEININGER (1985), quando declara: que na enfermagem transcultural "o cuidado é o domínio central e o único para o corpo de conhecimentos e prática na Enfermagem, e uma investigação sistematizada do cuidado poderá avançar a disciplina de Enfermagem e em último caso, promover melhores cuidados de enfermagem para a população".

Referências Bibliográficas


Abreu, W. C. P. (1998) – Identidades, formação e trabalho: da formatividade à configuração identitária dos enfermeiros. Tese de Doutoramento. Lisboa: Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa; Costa, F.J.P.S. (1997). As práticas de educação para a saúde nos cuidados de saúde primários. Trabalho apresentado para concurso e Provas Públicas para acesso à categoria de Professor-Adjunto da Carreira de pessoal docente do Instituto Superior Politécnico. Porto; Giddens, A.(1992). As consequências da modernidade. (1ª ed.). Oeiras: Celta Editora; Giddens, A.(2000). O Mundo na era da globalização. Lisboa: Editoral Presença; Leininger, M.(1985). Transcultural Nursing : Concepts, Theories, Research and Practice (Documento policopiado); Navarro, F. (1999). Educar para a saúde ou para a vida?: conceitos e fundamentos para novas práticas - José Precioso, Floriano Viseu, Luís Dourado, Maria Teresa Vilaça, Renato Henriques e Teresa Lacerda (org.). Educação para a Saúde, 12-32. Braga: Instituto de Educação e Psicologia.Universidade do Minho; Organização Mundial da Saúde (1990). WHO child care facility schedule. Genebra, Organização Mundial da Saúde, (documento inédito WHO/MNH/PSF/90.3); Rodrigues, M.; Pereira, A.; Barroso, T.(2005). Educação para a Saúde. Edições Formasau: Coimbra; Sousa, L. (1997). Multiculturalidade e Educação, Profedições, Porto. Nota sobre a Autora Silvestre, Maria Rosa dos Santos Pereira. Enfermeira, Formadora, Docente, Doutoranda na Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências e Tecnologia. Endereço electrónico: rosa.silvestre@fct.unl.pt


DIVERSIDADE E MULTICULTURALISMO NA SAÚDE: UMA