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les commediens tropicales D E Z anos lamparina luminosa 2016

arrancar a relva para que o verde permaneรงa


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sumário

Apresentação

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Histórico

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DEZ anos revisitados

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Concílio da Destruição texto na íntegra

p.

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apresentação


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arrancar a relva para que o verde permaneça

A Cia. Les Commediens Tropicales tem três inícios [e meio]: o primeiro em 2003, dentro curso de artes cênicas da Unicamp, quando da montagem/experimento Galvez Imperador do Acre, a partir do livro homônimo de Márcio Souza. Mesmo livro que nos emprestou (sem volta) o nome do grupo, já que nos périplos do anti-herói Galvez, dentro do romance de folhetim, até uma companhia de ópera foi refundada por um tal maestro François Blangis, com o curioso nome Les Commediens Tropicales (com grafia errada em francês), misturando marinheiros brasileiros, que por acaso tocavam alguns instrumentos musicais, com cocottes e uma prima donna francesas (remanescentes de doenças tropicales após passagem em uma cadeia no Pará). Em 2005 estreamos na capital paulista, na Sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo, a versão definitiva do Galvez Imperador do Acre, com encenação de Marcio Aurelio, espetáculo de formatura e traslado de Campinas para São Paulo, estabelecendo o nosso segundo início, fora das fronteiras acadêmicas. Em 2006 realizamos nossa primeira criação na “capitar”, não mais alunos – artistas – não mais os mesmos (como sempre). A estreia de CHALAÇA a peça é nosso meio início!


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2005 Galvez Imperador do Acre

2006 CHALAÇA a peça

2007 A Última Quimera

2009 2º d.pedro 2º Somos de Feitos espetáculo da Cia. De Feitos, cuja direção é assinada pela Cia. LCT

2010 O Pato Selvagem

2011 (ver[ ]ter) intervenção

2012 Concílio da Destruição

2014

E com esse “meio” e a partir dele realizamos dez obras cênicas, entre espetáculos teatrais, intervenções em espaços públicos e uma direção do próprio grupo. Em 2015, comemorando dez anos de criações na cidade de São Paulo, revisitando nosso repertório (graças à Lei de Fomento ao Teatro) a partir do CHALAÇA a peça, decidimos nos desfazer de grande parte das nossas peças, doar figurinos, cenários e adereços para marcar nosso terceiro início. Arrancar a relva para que o verde permaneça, como diria Heiner Müller. Esse livro é parte desse novo início [e do verde que permanece]. Nas páginas próximas estão imagens desses trabalhos, das apresentações, dos ensaios e encontros. Uma memória que é também uma obra. Fotos. Que também são obras. Átimos do que vivemos, das pessoas que cruzamos, das experiências que teimaram e teimam em ficar. Uma fresta para um olhar de relance. Peças abandonadas assim, em fotos, vídeos e na imortalidade dos ecos. [Há também uma dramaturgia completa. Concílio da Destruição, escrita por Carlos Canhameiro, está aqui na íntegra]. São muitos nomes que engendram esses dez anos. Não iremos elenca-los. Não só porque não seríamos justos e possivelmente deixaríamos de fora alguém ou algumas pes-

uní-v oco s

soas mas, porque também é no conjunto das forças (dos que

intervenção

passaram, dos que ficaram e dos que virão) que conseguimos

2015 GUERRA sem batalha ou agora e por um tempo muito longo não haverá mais vencedores neste mundo apenas vencidos

2016 MAUSER de garagem

sustentar durante todo esse tempo de criações múltiplas um nome tão ruim de uma companhia de teatro. Seus olhos nessas páginas são parte do nome que nos completa.

Evoé.


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Esse livro ĂŠ dedicado a Marcio Aurelio.


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histรณrico -


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2004 Galvez Imperador do Acre

Ensaio Depto. de Artes CĂŞnicas UNICAMP (da esq. para dir.) Camila Ivo Fabricio Licursi Davi Vale Marina Baeder Heidi Monezzi Fabio Basile Carlos Canhameiro JoĂŁo Martins Paula Mirhan

fotografia: arquivo LCT


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2005 Apresentação

CH AL AÇA a peça

Porto Alegre em Cena Tetembua Dandara

fotografia: Porto Alegre em Cena


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2007 A Última Quimera

Estreia SESC Paulista (da esq. para dir.) Jonas Golfeto Weber Fonseca Paula Mirhan Daniel Gonzalez Débora Monteiro Carlos Canhameiro Michele Navarro Mariza Junqueira

(da esq. para dir.) Daniel Gonzalez Jonas Golfeto Weber Fonseca Carlos Canhameiro Mariza Junqueira Débora Monteiro Paula Mirhan

fotografia: Will Mazzola


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2009 Ensaio

2º d.pedro 2º

Teatro Sérgio Cardoso (da esq. para dir.) Carlos Canhameiro Daniel Gonzalez Michele Navarro Jonas Golfeto

fotografia: arquivo LCT


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2009 2º d.pedro 2º

Processo de pesquisa Petrópolis - RJ (da esq. para dir.) Michele Navarro Daniel Gonzalez Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon.

fotografia: arquivo LCT


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2009 Ensaio

O Pato Selvagem

Cine Dom JosĂŠ Daniel Gonzalez

(da esq. para dir.) Jonas Golfeto Daniel Gonzalez Carlos Canhameiro Michele Navarro Paula Mirhan Weber Fonseca

fotografia: arquivo LCT


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2009 Somos De Feitos

Ensaio Teatro Sérgio Cardoso esquerda

(da esq. para dir.) Denise Cruz Leandro Ivo Kika Bruno Giscard Luccas direita

Giscard Luccas

fotografias: arquivo LCT


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fotografias: Pedro Hurpia


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2011 (ver[ ]ter)

Apresentação Centro Cultural São Paulo esquerda superior

Daniel Gonzalez esquerda inferior

(da esq. para dir.) Tetembua Dandara Carlos Canhameiro Michele Navarro Nina Giovelli (deitada) Weber Fonseca Paula Mirhan Daniel Gonzalez

direita

(da esq. para direita) Weber Fonseca Carlos Canhameiro Tetembua Dandara


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2012 Evento

Colรณquio sobre Teatro Per formativo

Oficina Cultural Oswald de Andrade

Tetembua Dandara

fotografia: Paula Serra


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2012 Colรณquio sobre Teatro Per formativo

Evento Oficina Cultural Oswald de Andrade (da esq. para dir.) Tomรกs Decina Paula Mirhan Weber Fonseca Michele Navarro Rui Barossi Pedro Cameron Carolina Bianchi Tetembua Dandara

fotografia: arquivo LCT


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2012 Ensaio fotográfico

Concílio da Destruição

Cine Dom José Daniel Gonzalez

fotografia: Christian Piana


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2012 Concílio da Destruição

Ensaio fotográfico Cine Dom José Daniel Gonzalez Paula Mirhan

fotografia: Christian Piana


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fotografia: Mariana Chama


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2014 Laboratório permanente de plágio: Quem não sabe mais quem é, o que é e onde está precisa se mexer

Apresentação Oficina Cultural Oswald de Andrade esquerda

(da esq. para dir.) Michele Navarro Paula Mirhan Tetembua Dandara Daniel Gonzalez direita

(da esq. para dir.) Tetembua Dandara Carlos Canhameiro Daniel Gonzalez Michele Navarro Paula Mirhan Rodrigo Bianchini

fotografia: Mariana Chama


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2013 Ensaio

Laboratรณrio permanente de plรกgio: Petrรณleo

Oficina Cultural Oswald de Andrade (da esq. para dir.) Daniel Gonzalez Rodrigo Bianchini

fotografia: arquivo LCT


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2013 Laboratório permanente de plágio: Corra como um coelho

Ensaio Cine Dom José (da esq. para dir.) Tetembua Dandara Michele Navarro Paula Mirhan

fotografia: arquivo LCT


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2014 Apresentação

uní-v oco s

Centro Cultural São Paulo (da esq. para dir.) Tetembua Dandara Michele Navarro Daniel Gonzalez Rodrigo Bianchini Paula Mirhan Carlos Canhameiro

fotografias (páginas 26 e 27): Mariana Chama


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2014 uní-v oco s

Apresentação Centro Cultural São Paulo (da esq. para dir.) Tetembua Dandara Michele Navarro Daniel Gonzalez Rodrigo Bianchini Paula Mirhan


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2015 Apresentação Centro Cultural São Paulo

GUERRA sem batalha ou agora e por um tempo muito lo ngo não haverá mais vencedores apenas vencidos

Beto Spoleder

fotografia: Guilherme Marques Dias


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2015 GUERRA sem batalha ou agora e por um tempo muito longo não haverá mais vencedores apenas vencidos

Apresentação Centro Cultural São Paulo Carlos Canhameiro

fotografia: Guilherme Marques Dias


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DEZ anos revisitados

fotografias de Mariana Chama

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CH AL Aร‡A a peรงa


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A Ăšltima Quimera


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2ยบ d.pedro 2ยบ


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O Pato Selvagem


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(ver[ ]ter) Ă deriva


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Concílio da Destruição


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unĂ­-v oco s


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GUERRA sem batalha ou agora e por um tempo muito longo nĂŁo haverĂĄ mais vencedores neste mundo apenas vencidos + M AUSER de garagem


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destruições CHALAÇA a peça estreia 17 de junho de 2006 morte 22 de novembro de 2015 140 apresentações A Última Quimera estreia 03 de agosto de 2007 morte 19 de dezembro de 2015

68 apresentações

2º d.pedro 2º estreia 06 de março de 2009 morte 08 de novembro de 2015

70 apresentações

O Pato Selvagem estreia 09 de janeiro de 2010 morte 06 de dezembro de 2015

37 apresentações

A intervenção uní-v oco s foi criada especialmente para a programação “O imaginário nos 50 anos do Golpe” a convite do Centro Cultural São Paulo, onde realizou três apresentações.

As peças (ver[ ]ter), Concílio da Destruição e MAUSER de garagem encontram-se vivas.

A peça GUERRA sem batalha encontra-se em estado grave.


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concĂ­lio da

-

de Carlos Canhameiro


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-des -tru -i ção


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A tudo que destruí na esperança de criar.


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MILITAR Não é a obra que me preocupa, são os seus cria-

dores. Não é o que essa obra diz, se é que diz alguma coisa. São as memórias que nunca se apagarão dela e que desgraçarão nossas gerações futuras. São eles, senhoras e senhores, os artistas, que serão lembrados; não os desenhos violentados por tintas e colagens das mais variadas técnicas. Não estaremos escolhendo uma obra de arte que nos diga em todo o futuro próximo o quão belo foram os nossos dias, o quão esperançosas foram as nossas lutas, o quão sublime foram as nossas conquistas. Não, nada disso será escrito sobre essa obra, uma das cinco últimas que teremos de todo o nosso passado. Estaremos escolhendo o ódio, a desobediência, a insubordinação e a imoralidade. Ninguém olhará para esse quadro e mergulhará em suas entranhas querendo entender a si próprio além das pinceladas ali expostas. Senhores, o que teremos serão sempre olhos lembrando que esses artistas foram revolucionários, lutaram uma guerra digna, desafiaram o poder vigente para fazer valer suas individualidades. O direito de liberdade. É isso que pregarão os críticos, os estudiosos, os acadêmicos ou qualquer outro que tenha lido sobre os artistas e não sobre a obra. Ao escolher esse quadro como a Quinta Obra de nosso país estaremos dizendo a todos os nossos - nosso povo, antepassados, parentes, amigos e aos próximos: a nossa descendência direta ou indireta - que as marcas que guardamos da nossa história e da nossa arte não elevam o homem, não o arrancam de sua inexplicável existência e o colocam em contato com o sublime, com o intangível e consigo mesmo. As marcas que guardamos são a do homem


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e a da mulher desligados de sua pátria e de sua família, que zombam daqueles que acreditam na vida como força coletiva. Pessoas que pregam a violência, a dor, o sofrimento e a repulsa para conquistar uma suposta liberdade. Não podemos escolher uma obra que não seja significativa per si e sim porque seus autores foram eleitos mártires por uma parcela desgarrada da ordem e da moral vigentes. Senhoras e senhores, este quadro nos envergonhará e será essa vergonha que teremos que carregar do nosso passado. Que tenhamos o direito de lembrarmo-nos como homens e mulheres que procuraram o sublime e não o sangue escorrido no passado.

sobre o equilíbrio que faz a hu manidade cair

Os que se rebelavam eram caçados e mortos, como determinavam os manuais revolucionários. As rebeldes emprenhadas eram mantidas em celas desconhecidas e após o parto eram mortas ainda com as pernas ou barrigas abertas. A faca que separava o filho da mãe também separava a mãe do filho.

(cela de uma cadeia militar desconhecida)

GRÁVIDA Minha bolsa estourou. É o aviso do anjo da morte.

Meu filho é a minha condenação. OUTRA GRÁVIDA É ele que ainda te mantém viva. Não fosse

assim você já estaria dividindo a mesma vala com o pai. GRÁVIDA Seria um destino melhor, nunca tive o sonho de ser

uma chocadeira. Carregar uma cria que nunca verei crescer. Ser mãe é ver crescer. Parir é coisa de animal. As contrações começaram, é a minha sentença de morte. OUTRA GRÁVIDA Chame-os. GRÁVIDA Nunca. Não quero ver esses dejetos humanos colo-

cando as mãos no meu filho.


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OUTRA GRÁVIDA Ele não será mais seu. É o destino de toda

mãe. GRÁVIDA Então, que nasça aqui, no meio dessa imundície.

Quero poder olhar para meu filho pelo menos uma vez. OUTRA GRÁVIDA Você sabe que eles não aceitam isso. E des-

contam em nós. Você não pode ter seu filho aqui. Mantenha essas pernas fechadas e grite por eles. Já nos basta o nosso sofrimento e os nossos ventres carregados de futuros homens e mulheres que nunca iremos conhecer. A fome, a sujeira, a sede, a falta de carinho, a pele calcinada, o cabelo sem cor, os lábios rachados, os peitos murchos e o ventre pesado já são suficientes. Não queremos o peso dos cassetetes em nossos pés, o mijo em nossos rostos e os nossos cus arrombados por todos aqueles paus de homens sem cara, toda essa desgraça só para que você possa abraçar seu filho antes de morrer. GUARDAS. GRÁVIDA Malditas. Vocês são como eles. OUTRA GRÁVIDA Você também, que prefere nos fazer mal por

seus caprichos de mãe. De mãe não, de animal que carrega a cria que nunca vai conhecer. E mesmo que conheça, sua morte está com hora marcada como a de todas nós. GUARDAS. GUARDA A gritaria acabou. Sua bolsa estourou e você não

nos chamou. Seu parto será com anestesia geral. GRÁVIDA Abri minha perna enquanto o guarda abria a porta

da cela. Fiz força para que meu filho se livrasse de mim antes que o guarda o fizesse. Vi a cabeça do meu filho rasgando minha carne enquanto minha merda escorria por minhas pernas. Era um prenúncio e o guarda deu a anestesia geral com seu cassetete, como prometido. Ainda consegui guardar na memória o rosto do meu filho com sangue ou meu sangue escorrendo sobre meus olhos e mais nada.


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GUARDA Carreguem ela até a sala de parto e segurem a

cabeça da criança. Rezem para que nasça com vida ou vocês receberão visitas hoje à noite. OUTRA GRÁVIDA Com vida ou sem vida vocês virão porque

suas mulheres não podem dar aquilo que vocês tanto querem: um cu que faça vocês se sentirem mais próximos da merda… Seus merdas.

(sala de uma

Naquele tempo a natureza humana não concebia que uma mãe

casa militar

pudesse assim ser chamada sem um rebento que a justificas-

desconhecida)

se. Entretanto, a mãe natureza também possuía seus caprichos e algumas crias poderiam dar a outra mulher aquilo que a mãe verdadeira nunca seria: uma mãe verdadeira.

ESPOSA Nossos vizinhos vão ter outro filho. MILITAR Eles procriam feito animais. É um depois do outro.

Esse é o quinto, não é? ESPOSA Sexto. Ela gosta de ser mãe e eles sempre quiseram

uma família grande. Ela disse que esse será o último. MILITAR Elas sempre dizem. ESPOSA Quero um filho. Um ao menos. Não quero uma dúzia.

Uma ninhada. Quero um filho. MILITAR Nós já tentamos. ESPOSA Não o suficiente. MILITAR E é você quem decide o que é suficiente? ESPOSA Quero ser chamada de mãe. Não me interessa como.

Preciso. É o meu destino.


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MILITAR Então é melhor conversar com quem fez o seu

destino. Já tentamos de tudo nesses últimos cinco anos. Seu destino parece não ver em você uma mãe. ESPOSA Talvez no meu destino você não seja o pai. MILITAR Pouco sei se o que fiz em seguida se deu porque sou

um militar treinado e acostumado a dar ordens e não receber objeções ou afrontas. Ou porque sou homem e ela a minha esposa e o amor incondicional que juramos ter um pelo outro me isentaria da culpa. Ou porque a minha virilidade e a minha capacidade de procriação foram postas à prova.

[um tapa forte o suficiente para que ela não chore e ainda assim sofra com a dor]

ESPOSA Me traga um filho, não me importa de que barriga.

Não me importa de que crença. Não me importa de que pai. Me traga um filho, da minha cor, para que ele possa me chamar de mãe e eu chamá-lo de filho. Para que eu possa dizer que você, além de homem, é pai. MILITAR E como saberemos que a cria de outra não irá seguir

os passos da sua mãe verdadeira. A mãe que a pariu? ESPOSA Parir é coisa de animal, mãe é quem vê crescer. MILITAR O que não entendo é onde o pai entra nessa

trajetória. ESPOSA O pai é quem deve trazê-lo para casa.


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sobre como os pretextos nunca se repetem

Os países não dispunham de mais espaço, fosse real ou virtual. A população havia superado sua capacidade criativa e superlotado casas, carros, museus, escolas e computadores com suas obras. Estudar havia se tornado um exercício insuportável. O

(reunião dos

caos apontava no horizonte quando os homens conseguiram

delegados do

se defender. Era preciso destruir para se ter o direito de criar.

concílio da destruição) DELEGADO A pressão é tremenda. Precisamos decidir hoje se

o quadro Humanidade Rota será a quinta obra que representará o nosso país. Eu disse hoje. FILHO Exato, senhor delegado. Dois dos nossos delegados já

foram substituídos desde o início desse processo. Senhora e senhores, nós aceitamos essa incumbência, agora nós temos que arcar com ela. DELEGADO Não se trata mais de um quadro. Não se trata

mais de discutir nossa memória artística, nosso legado criativo. Essa escolha já não interessa mais. Não é a Quinta Obra que faz com que a população e os políticos estejam de olho em nós. O que importa é: iremos absolver os artistas que fizeram o quadro Humanidade Rota? Iremos deixá-los como exemplo, não eles exatamente, sim o que fizeram, o que pensaram, como conduziram suas vidas, ou seremos o juízo final condenando-os ao esquecimento absoluto? FILHO Nosso foco deve ser o quadro, a obra em si. Seu valor

como arte, como vanguarda, como representatividade de um momento histórico de nosso país. Sim, histórico, sem entretanto nos preocuparmos com a moral, ou a ética, ou a conduta social de seus feitores. DELEGADO Como? FILHO Como o quê, senhor delegado?


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DELEGADO Diga-me, senhor advogado, como iremos jul-

gar essa obra sem pensarmos no casal que a fez? Sem nos lembrarmos de suas histórias, da força destemida com que enfrentaram um governo que nos cegava em tudo. FILHO Um governo legitimado pelo povo, senhor delegado.

Não estavam lá por um golpe de estado. Ao contrário, os governantes foram conduzidos, literalmente, pelos ombros da população deste país, senhor delegado. DELEGADO Esses mesmos ombros pagaram a duras penas

essa prova cega de confiança. DELEGADO Não se dá um fardo ao povo maior do que o povo

pode carregar. DELEGADO Então, a balança do governo, ou de deus, precisa

passar por uma inspeção urgentemente. DELEGADO O quadro é desprezível como obra de arte, isso foi

apontado por inúmeros críticos em nosso país e no exterior. Se os artistas que o fizeram não fossem ligados ao radicalismo e à rebeldia contra o nosso governo não estaríamos aqui perdendo tempo nessa discussão. FILHO O parecer dos críticos já consta nesse processo des-

de o começo e sabemos o quanto eles nos confundiram. Nos atrapalharam mais do que ajudaram. DELEGADO Nem todos eram ruins. DELEGADO Senhor delegado, há casos em que os críticos me-

nosprezam a obra baseados em questões de higiene pessoal dos artistas. DELEGADO Ela nem ao menos aparava os pelos das axilas. DELEGADO Não é o que nos interessa. DELEGADO De certa forma, é sim. Já foi dito e é por isso que

ainda estamos aqui. Não é o quadro o nosso interesse mais.


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São seus criadores. Creio até que pouco importa os criadores, o que importa hoje, senhores delegados, é se vamos compactuar com um casal revolucionário ou apagá-los de vez da nossa história. DELEGADO Eles ou o quadro que fizeram? DELEGADO Estamos nos repetindo mais uma vez e mais uma

vez proponho votação direta para a decisão e que o futuro esqueça a nossa incompetência. Os que são favoráveis que o quadro, Humanidade Rota, seja eleito a Quinta Obra levantem uma de suas mãos. DELEGADO Não podemos decidir assim, senhor delegado, pre-

cisamos chegar a um consenso. DELEGADO Não haverá consenso, senhor delegado. Isso já

está claro há meses. O que tememos? Que o governo nos execute caso decidamos pela Humanidade Rota? FILHO Não irei tolerar esse tipo de insinuação nesta reunião,

senhor delegado. Por favor. O governo já repetiu inúmeras vezes que irá acatar nossa decisão, seja ela qual for, sem qualquer questionamento. DELEGADO Nós sabemos que isso não é verdade. DELEGADO Vivemos em tempos de paz, senhor delegado. FILHO Nós sempre vivemos. DELEGADO Diga isso ao casal de artistas que fez esse quadro.

Ele morto pisoteado pelos coturnos militares e ela mantida viva até parir um filho que nunca viu. FILHO Chega, senhores delegados, isso é especulação e não

existem provas sobre essas histórias. São quase fábulas… DELEGADO Sim, que sua mãe jamais contou para você dormir. DELEGADO Eu tenho recebido ligações com ameaças.


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DELEGADO São do M1545. FILHO Senhores, vamos encerrar essas especulações. DELEGADO Votemos. Levantem suas malditas mãos e tenham

coragem de enfrentar a condenação ou não de quem já está morto. FILHO Não é necessário, senhor delegado. Abaixe sua mão.

Isso daqui não é um amigo secreto. Nós já sabemos o voto de cada um aqui, exceto o meu. Não precisamos nos repetir porque não chegaremos a um consenso, senhor delegado. Façamos um recesso de duas horas, por favor, quando voltarmos anuncio o meu voto.

No tal processo democrático alguns eram escolhidos por outros alguns que escolhiam por todos o bem comum. Acreditava-se na representatividade de alguns sobre muitos e sempre se duvidava quando outros alguns eram contra os muitos de

sobre a ar te das motivações reais

alguém, como em todo processo democrático. (reunião do movimento1545 contra o concílio JOVEM Não podemos aceitar que nosso passado seja apagado

dessa forma. Alguns senhores decidem que devemos destruir tudo o que criamos, tudo o que é importante… JOVEM Basta. Nosso movimento foi criado há quase um ano

para lutar justamente contra o Concílio da Destruição. As bases já foram estabelecidas, o nosso manifesto está escrito e foi aceito por todos e todas. Estamos conectados a todos os demais movimentos no mundo inteiro que lutam pelas mesmas causas que as nossas. Não precisamos nos repetir e sermos óbvios em todos os encontros. Entendo sua revolta, meu jovem, é a mesma de todos nós, agora, repeti-la em altos brados nos faz apenas perder tempo.

da destruição)


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ADULTO De acordo. O Concílio da Destruição foi aceito por

mais de sessenta e cinco por cento da população dos países livres ou seja, a luta está praticamente perdida mas é o tipo de luta que gostamos de lutar! Estamos inclusive sequestrando algumas obras de arte, mas a segurança está cada vez mais dura e quando todos escolherem suas cinco obras de arte, essas que sequestramos virarão sabe o quê? Objeto de fetiche para especuladores do mercado negro e colecionadores inveterados. Elas não servirão para mais nada. JOVEM Não podemos ser tão pessimistas. ADULTO Não é uma questão de pessimismo. JOVEM A obra precisa falar por si só. ADULTO Coloque o melhor violinista do mundo tocando numa

estação de metrô e outro violinista medíocre que saiba pouco mais do que quinze músicas e veremos quantas moedas cada um terá no final. JOVEM Então lutamos contra o quê? ADULTO A essa altura da disputa esse tipo de… Lutamos

contra a imposição de um ideal. Não nos interessam as obras de arte, elas são o veículo que temos para denunciar esse sistema totalitário e repressor. Esse é o papel da obra de arte, meu jovem. JOVEM Algumas obras não podem simplesmente ser apagadas

de nossas memórias de um dia para o outro. Lutamos também pela perpetuação delas. ADULTO Qual delas? As que você conhece e gosta ou as que

nos ensinaram ser boas e admiráveis? JOVEM Algumas delas são inquestionáveis em suas formas,

seus conteúdos… JOVEM E ainda assim a França não salvou a La Joconde.


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VELHO Oras, porque eles sabem que ela está imortalizada. Já

faz parte do DNA humano. Os franceses querem deixar para o futuro a memória de um passado pouco conhecido por todos. Não sei se estão tão errados assim. JOVEM O quadro não é deles. O artista é italiano… ADULTO Pouco nos interessa os franceses e sua Gioconda.

Eles acataram a decisão do Concílio da Destruição… VELHO E eles são um dos países que tem mais a perder. JOVEM Todos estamos perdendo. Ninguém está perdendo

mais ou menos nessa história. VELHO Nós estamos, porque nem ao menos conseguimos ele-

ger as nossas cinco obras. ADULTO Quanto mais demorarmos, melhor. Ganhamos tempo

para mostrar a todos a face real do nosso governo. JOVEM Somos o único país que pediu prorrogação do prazo… ADULTO Exatamente… Porque eles tiveram que nos ouvir. Nós

os obrigamos a isso. E será desse modo que conseguiremos desmascarar todos esses homens embebidos em sua própria soberba. A escolha da Quinta Obra será o fim para eles. JOVEM Vocês sabem que eles não aceitarão a Humanidade

Rota como a quinta obra. ADULTO Foda-se. Não nos interessa o quadro. O que interes-

sa é que a população está atenta novamente. Os cadáveres estão novamente exalando seus pútridos odores e irão pintar outro quadro, com vermes, que irão comer esse sistema mais deteriorado que os próprios pintores. É essa, camaradas, a nossa verdadeira luta. A arte serve-nos de arma para ferir mortalmente esses senhores que acreditam estar acima do bem e do mal. A arte tem por fim uma utilidade prática.


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JOVEM Esses senhores também passarão e as cinco obras

não; sempre estarão lá, nos lembrando o quê e quem éramos. ADULTO Criaremos outras, meu jovem, somos bons nisso. A

humanidade pode ser rota mas sabe fabricar sua arte mesmo durante as piores destruições. VELHO O que importa é: o que faremos agora? A escolha defi-

nitiva será amanhã. JOVEM Podemos organizar mais uma manifestação em frente

ao Fórum Central. Proibir os delegados de entrar. JOVEM A polícia nos esmagará em segundos. JOVEM Ótimo. A imprensa mostrará tudo. A população ficará

do nosso lado. ADULTO Tolo. A imprensa é deles. VELHO Nem toda. Escrevo no meu blog. ADULTO Bem, a que não é, pouco poder tem. Somos nós

mesmos quem a mantemos e nós mesmos quem a lemos. JOVEM Se a Humanidade Rota não for eleita a quinta obra

nosso movimento sofrerá uma derrota terrível. ADULTO Duas vezes tolo. A Humanidade Rota já ganhou,

mesmo que não seja eleita essa merda de quinta obra. Nós precisamos ganhar tempo, precisamos retardar ainda mais esse processo. Esse é o nosso objetivo. Por exemplo, o primeiro quadro indicado pelos delegados… JOVEM AFlorSemente. ADULTO Obrigado, camarada. Esse quadro, para que a gente

ganhe mais tempo, poderia sofrer um atentado… Com esse nome, poderia desaparecer da face da terra. Alguém aqui se dispõe a fazer isso?


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Os reis nus foram denunciados pelos infantes terríveis e a população estupefata com sua própria vergonha condenou à forca, os infantes. Os reis estavam nus mas ninguém tinha o

sobre a missão dos valores

direito de denunciá-los. Hoje, o quadro pode estar em branco e todos irão pagar o preço que os Reis Nus mandarem.

(escritório de uma grande casa de leilões)

JOVEM CORRETOR Estamos fodidos. ANALISTA É esse seu palavreado o que mais me incomoda. JOVEM CORRETOR Os nossos leilões estão parados, não

temos nenhuma merda de data em vista… Ou seja, estamos fodidos. ANALISTA Qual a pressa, o mundo gira sempre na mesma ve-

locidade. Ainda temos alguns dias antes do resultado mundial. JOVEM CORRETOR Antes da desgraça do caralho grande se

concretizar de fato. ANALISTA Quem te ensinou a falar? JOVEM CORRETOR O mesmo filho da puta que me ensinou a

comerciar. Porra, o nosso negócio a ponto de perder a lógica de sua existência e você preocupado com a porra do meu arcabouço de vernáculos. MULHER DE NEGÓCIOS É grande a probabilidade de termos

dois impressionistas a salvo na região sul. ANALISTA Perfeito. Impressionistas são quase sempre os

recordistas. JOVEM CORRETOR Perfeito? Vamos viver de um ou dois im-

pressionistas? Faremos um leilão a cada dois anos? É isso? Isso é o futuro com gonorreia.


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MULHER DE NEGÓCIOS Já existe a cura para a gonorreia. E

sabemos muito bem como iremos continuar nossos negócios: como sempre fizemos. ANALISTA Não é nossa primeira crise… E se o mundo seguir

seu curso, não será a última. JOVEM CORRETOR Idiotas. Ingênuos de merda. Não consigo

imaginar como essa casa sobreviveu à estupidez de vocês. ANALISTA Chega. JOVEM CORRETOR Chega? Chega das suas asneiras de mer-

da, das suas artimanhas falsas… Até uma prostituta sabe fingir melhor do que você e ainda cobra mais barato. Não me venha com essa calma de monge punheteiro quando você sabe que o seu cu está na reta. Eu te conheço, você será o primeiro a cagar de medo quando nossos investidores sentarem aqui nessa mesa. MULHER DE NEGÓCIOS Basta. JOVEM CORRETOR Desculpe senhorita perfeita. MULHER DE NEGÓCIOS Você não aprendeu nada. JOVEM CORRETOR Eu faço negócios. É só isso que sei fazer.

Negócios. Pode ser um quadro, uma fotografia, uma parede pichada, uma cadeira onde o rei das bucetas do mundo sentou, ou até mesmo sua calcinha menstruada, caso você fosse alguma estrela e não uma vagabundazinha na menopausa que estudou economia. Aprendi tudo o que é possível sobre fazer qualquer merda valer milhões. ANALISTA O mundo sempre terá merdas para você negociar. JOVEM CORRETOR Até um macaco com ebola sabe disso.

É uma questão de valores. MULHER DE NEGÓCIOS Dê o valor que você quiser. Há um

novo artista em cada esquina do mundo esperando ser descoberto… Ou negociado.


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INVESTIDOR Dois terços do meu investimento pessoal são em

obras de arte e objetos de arte decorativa. Quando o Concílio da Destruição disser que as minhas preciosidades não poderão mais existir, eu me pergunto o que farei? AGENTE O Conselho Internacional ainda discute o ressarci-

mento financeiro das obras… INVESTIDOR Acaso citei que quero um ressarcimento finan-

ceiro das minhas obras? AGENTE Não senhor, entretanto, é a medida razoável nesta

situação. INVESTIDOR Não existe uma medida razoável para uma situ-

ação inédita. AGENTE Evidente senhor, entretanto, é necessário discutir um

valor… INVESTIDOR Valor? Uma cifra para uma obra de arte? É isso

que você está me dizendo? AGENTE Exatamente senhor. A discussão no Conselho In-

ternacional, mediante conversas adiantadas com as casas de leilões, trata dos valores de cada obra, de acordo com as negociações… INVESTIDOR Compreendo sua boa vontade em explicar-me

tudo, entretanto, não me trate como um neófito nesse ramo. O último quadro negociado antes do anúncio do Concílio da Destruição chegou próximo dos 105 milhões. AGENTE Cento e quatro milhões e trezentos mil… INVESTIDOR Como eu estou dizendo, o mesmo artista do

quadro de 105 milhões assinou 13.500 telas, 100 mil gravuras, 34 mil ilustrações em livros e 300 esculturas, ao longo dos seus mais de 80 anos de carreira. Você é capaz de fazer os cálculos.


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JOVEM CORRETOR Não se trata do valor, caralho. Muito me-

nos de lançar novos artistas. O mundo sabe como essa merda toda funciona e nossos investidores também. MULHER DE NEGÓCIOS Então, o que te preocupa? JOVEM CORRETOR O que me preocupa, caralho? O que me

preocupa e deveria preocupar todos vocês, bando de filhos da puta… Vocês só podem estar me fodendo… Não pode ser… O cérebro de vocês deve estar com cancro. ANALISTA Não preciso ouvir isso. JOVEM CORRETOR Precisa. Precisa sim, seu leproso do ca-

ralho. Vocês são uns românticos de merda… Que caralho. Lembram da Lei Seca? É claro que lembram, seus infelizes da porra. Pensem no hoje, no agora, no que a arte vai virar… Jesus Cristo do caralho torto, pensem um pouco. MULHER DE NEGÓCIOS Qual o grande problema? Os investi-

dores serão ressarcidos, o Conselho Internacional já deu sinal positivo sobre isso. Estamos sendo consultados para ajustar uma tabela razoável de valores. As obras serão destruídas e um ano depois teremos novos artistas com novas obras e novos negócios serão realizados como se nada, NADA, tivesse acontecido. JOVEM CORRETOR Claro, eu devia estar fodendo meu próprio

cu com uma serra elétrica quando não pensei nisso. ANALISTA Os investidores não estão felizes com o Concílio da

Destruição, lá isso é verdade. MULHER DE NEGÓCIOS Eles nunca foram felizes e ainda as-

sim sempre aumentaram os lances. ANALISTA De qualquer maneira existe uma certa corrida pe-

las obras dos artistas vivos. MULHER DE NEGÓCIOS Só prova que os negócios continuarão

como antes.


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JOVEM CORRETOR Puta que me pariu. Se eu colocasse vocês

dois a leilão conseguiria um lance de merda de cachorro sarnento. O Concílio da Destruição irá foder com tudo. INVESTIDOR Não somos a caricatura medíocre pintada pela

ala pobre do mundo, diga isso ao Conselho Internacional. AGENTE Não pensamos assim. INVESTIDOR Você tem razão. O Conselho Internacional não

pensa. É como todos os demais, nos veem como uma classe de privilegiados, hábeis negociantes que enxergam nas obras de arte mais uma oportunidade de fazer de dinheiro. DINHEIRO. Não somos só dinheiro. Que simples explicação, não? Nós, ricos, não temos interesse na arte, nada disso, só queremos fazer dela mais um negócio. É patético. AGENTE Não pensamos assim. INVESTIDOR Pensam. Todos sabemos. Sua insistência em di-

zer o contrário torna ainda mais evidente essa ideia. Vou dar-te um conselho… E de graça. Não contrarie um rico, afinal, você não sabe o que ele pode fazer com você. Um dos meus quadros, se vendido hoje, pode comprar toda a sua família, talvez todo o vilarejo de onde você tenha saído. Que apavorante, não? Meu quadro pode destruir toda a sua infância e o seu futuro. O Conselho Internacional nos teme e por isso acredita que iremos nos acalmar com mais dinheiro. AGENTE Não pensamos assim. INVESTIDOR Pensam. Pensam que somos como hienas. Como

porcos. Nos alimentem daquilo que mais queremos: DINHEIRO, e então deixaremos tudo em ordem. IDIOTA. Diga ao Conselho Internacional que não precisamos de mais dinheiro. Sabemos fazer isso melhor do que ninguém. AGENTE Podemos repensar outras formas de ressarcimento

pelas obras que serão destruídas.


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INVESTIDOR O que, por exemplo? Terras? Petróleo? Ações,

papeis, títulos, pornografia, preciosidades, joias? AGENTE Por exemplo. INVESTIDOR Você já olhou uma caricatura de perto? AGENTE Sim, senhor. INVESTIDOR Não creio que tenha visto uma. Não creio que

conheça uma. E quando vir não creio que vá observar os detalhes. Como a maioria, você vai achar que um caricaturista tem qualidade apenas por ampliar o detalhe gritante de um rosto. Imbecil. Um grande caricaturista não desenha só um enorme nariz num rosto conhecido. Está lá o rosto inteiro. Rimos do nariz porque isso é mais fácil. Porque isso nos conforta. Porque isso nos simplifica e a tudo em volta. Não queremos saber do resto. Vocês, do Conselho Internacional, preferem esquecer o rosto que carrega o enorme nariz. AGENTE O senhor não precisa se preocupar, as caricaturas

não foram consideradas obras de arte pelo Concílio da Destruição. O seu acervo está seguro. JOVEM CORRETOR Não teremos segurança nem um caralho

de um fio de merda de credibilidade. O Concílio da Destruição irá foder com o prazer da negociação. Será que vocês não conseguem entender essa buceta malcheirosa? MULHER DE NEGÓCIOS Lave a buceta, assim como sua boca,

e teremos algo limpo de novo. Você está subestimando os homens e seus desejos. ANALISTA Em pouco tempo os leilões serão novamente man-

chetes nos jornais do mundo. Os críticos irão indicar os novos gênios das artes e suas obras passarão por nós. JOVEM CORRETOR Em quanto tempo, caralho? Quanto tempo

para que nossos negócios voltem ao patamar que temos agora? Agora não, porra, porque agora estamos mais fodidos que travesti na cadeia.


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MULHER DE NEGÓCIOS Não temos o poder da clarividência.

Aposto que dentro de um ou dois anos, no máximo. JOVEM CORRETOR Aposta o quê? As pregas do seu cu semi-

virgem? É isso? ANALISTA Nós temos esse tempo. JOVEM CORRETOR Temos? Como? Você não consegue ter

uma ereção por mais de quinze minutos e quer me dizer que tem o controle do tempo? MULHER DE NEGÓCIOS Sua preocupação é excessiva. JOVEM CORRETOR Excessiva é o caralho… Excessiva é o meu

caralho. Quem irá investir em arte depois que chegamos à conclusão que ela pode ou deve ou sei lá que merda de verbo usar… Que a bosta de um quadro que antes valia milhões agora pode ser destruído? Como se a arte fosse um negócio efêmero? MULHER DE NEGÓCIOS Os milhões podem ser ressarcidos. E

sempre houve o risco. JOVEM CORRETOR Quantas vezes tenho que repetir: NÃO É O

DINHEIRO, CARALHO. É o FETICHE. O desejo de ter, comprar, negociar, bater recordes… Eu sou bom pra caralho. Isso estará arruinado como um pedófilo solto no jardim da infância. Escuta a merda que eu vou falar. Será mais fácil voltarmos aos cassinos do que conseguirmos fazer dinheiro com arte novamente. ANALISTA Sinto lhe dizer que a humanidade irá decepcioná-

-lo. Os velhos fetiches sempre estão na moda. MULHER DE NEGÓCIOS Acaso as prostitutas deixaram de

trabalhar? INVESTIDOR Eu aguardo os valores que serão anunciados

pelo Conselho Internacional para então decidir como irei proceder.


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AGENTE Ainda estamos em processo de tabulação, entretanto,

os valores serão divulgados até o final da semana. INVESTIDOR Imagino que os grandes escritórios de advocacia

estejam babando. AGENTE Sabemos que existirão muitos processos que irão

questionar os valores que iremos anunciar. INVESTIDOR Não podemos condenar os lobos por sentirem o

cheiro de sangue e carne fresca. AGENTE Por essa razão que estamos tentando um acordo ra-

zoável com os colecionadores… INVESTIDOR Colecionadores? Enfim somos reconhecidos

como tal. Até então não passávamos de ricaços de merda querendo apenas ampliar nossas fortunas. AGENTE Nunca pensamos desse modo. INVESTIDOR Não vou discutir esse ponto com você. Leve o

meu recado ao Conselho Internacional. Que todos saibam o mal que o Concílio da Destruição está fazendo a humanidade e como nós, ricos desalmados, somos os maiores responsáveis pela preservação de milhares de obras de arte até hoje. Que fique bem claro que a humanidade só veio a conhecer muito da arte produzida nos quatro cantos do mundo porque nós, os podres de rico, pagamos e preservamos essas obras. AGENTE Esse débito é impagável, sabemos disso. Ainda

assim, existe sempre uma quantia, simbólica ou não, que demonstrará essa gratidão. INVESTIDOR São raras as coisas que me impressionam hoje

em dia. A sua incapacidade, simbólica ou não, de entender a situação é uma delas. O Concílio da Destruição não está condenando somente os mais belos frutos das gerações passadas, está condenando o prazer maior do homem: se emocionar diante de uma obra de arte.


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AGENTE Novos homens e mulheres se emocionarão com as

novas obras. E os colecionadores terão, novamente, um papel crucial nesse futuro breve. INVESTIDOR Óbvio. Somos nós, os ricos de merda, quem

mostramos para o mundo os gênios das artes. E essa missão o Concílio da Destruição não conseguirá nos tirar. AGENTE Estamos seguros que não.

Após a perpetuação da democracia e a cultura da liberdade individual, todos os homens e mulheres podiam criar o quê e como quisessem. Com o tempo, a escassez da novidade e a genialidade em extinção eterna, todos os homens e mulheres

sobre criadores e criaturas e criaturas criadoras

podiam lutar por suas criações mesmo que nunca tivessem criado nada.

(departamento de direitos autorais e controle de plágio)

FUNCIONÁRIO Eles já formam fila antes de abrirmos as por-

tas. Carregam pastas nas mãos, objetos, quadros, máquinas fotográficas, computadores. Hoje eu vi um senhor que estava com uma árvore nas costas. Parecia uma pitangueira, ainda nova. São milhares de processos. OUTRO FUNCIONÁRIO É assim há tempos. E só está pio-

rando. Quase não temos mais espaço para armazenar tanta reclamação. Abriram as portas, vejamos o que nossos artistas têm a oferecer. HOMEM É a quinta vez que venho até esse departamento. FUNCIONÁRIO Reincidências é no segundo andar, escada à

direita. Próximo. IDOSO Esse autor escreveu um livro sobre a minha vida

sem sequer citar a fonte ou meu nome ou, sei lá, me pedir autorização.


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FUNCIONÁRIO O senhor pode provar? IDOSO É claro, basta eu te contar minha vida e depois você

ler o livro. FUNCIONÁRIO Eu adoraria, caso não estivesse trabalhando.

O senhor precisa apresentar provas de que o autor conhece sua vida e sua história, que teve contato com o senhor ou com alguém próximo e fez uso desses eventos no livro mencionado. Atente ainda para o detalhe: é o senhor quem terá de provar que os eventos citados no livro aconteceram de fato com o senhor. IDOSO É mais fácil escrever um livro. FUNCIONÁRIO Pois então escreva, pode ser uma respos-

ta ao autor. A riqueza de detalhes será um ponto forte para o senhor que conhece melhor sua história do que qualquer outro. Em comparação, a vantagem é toda sua. Só não se esqueça de registrar o livro quando estiver pronto. Próximo. Ah, senhor! Se o livro que escrever ficar parecido com o do outro autor, ele poderá processá-lo por plágio. Tome cuidado. Próximo OUTRO FUNCIONÁRIO Se eles lessem o regulamento que está

fixado na porta de entrada, metade abandonaria a fila. FUNCIONÁRIO Não sei qual o ultraje maior: contarem sua

história de vida ou simplesmente ignorarem. MULHER A letra desta música é minha. OUTRO FUNCIONÁRIO A senhora pode provar? MULHER Claro, fui eu quem a escrevi. OUTRO FUNCIONÁRIO No nosso banco de dado consta a can-

tora como autora da letra. Como pode provar que é sua? Tem algum registro anterior, uma gravação, um impresso datado, registros nos departamentos legais?


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MULHER A música está na minha cabeça. OUTRO FUNCIONÁRIO A senhora tem alguma outra

evidência? MULHER Eu cantava essa música para meus filhos dormirem. OUTRO FUNCIONÁRIO Bonito. Vou explicar direitinho para

a senhora. Os filhos da senhora são parte interessada neste processo, não podemos usá-los como testemunhas. Próximo. FUNCIONÁRIO Não tardará o dia em que nossos cérebros

terão cópias de segurança nos computadores pessoais. OUTRO FUNCIONÁRIO O homem com a árvore nas costas. HOMEM COM ÁRVORE NAS COSTAS Sou vítima de um plágio. FUNCIONÁRIO Qual a obra? HOMEM COM ÁRVORE NAS COSTAS Eu mesmo. FUNCIONÁRIO Seja mais claro. HOMEM COM ÁRVORE NAS COSTAS Me usaram num

espetáculo. FUNCIONÁRIO O senhor participou desse espetáculo? Traba-

lhou com os artistas? HOMEM COM ÁRVORE NAS COSTAS Um dia uma jovem estava

passeando pela vizinhança onde moro. Na região leste, entre a ponte e a enorme caixa d’água. Ela tirava fotos de tudo e não demorou para que eu me tornasse alvo de sua objetiva. Um dedo rápido, frenético, como se quisesse colocar tudo o que via dentro daquela caixinha. Na época apenas resmunguei, falei uns palavrões encardidos, imagino que ela não os conhecesse, e virei as costas. Claro, ela continuou rápida no gatilho e pude ouvir o disparar de mais umas trinta fotos enquanto me afastava.


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FUNCIONÁRIO Senhor, a sessão de direito de imagens é no

subsolo, descendo a escada à direita. HOMEM COM ÁRVORE NAS COSTAS Você não está entenden-

do. Ela não publicou as fotos. Não colocou numa galeria ou coisa que o valha. Não saiu no jornal ou em qualquer maldito canto deste planeta. FUNCIONÁRIO Não tratamos de assédio neste departamento,

podemos indicar… HOMEM COM ÁRVORE NAS COSTAS Ela colocou uma árvore

nas costas e fez uma cena dentro de um espetáculo. FUNCIONÁRIO O senhor tem como provar isso? HOMEM COM ÁRVORE NAS COSTAS Aqui está o cartaz do es-

petáculo. E aqui os vídeos… FUNCIONÁRIO O senhor mesmo quem gravou? HOMEM COM ÁRVORE NAS COSTAS Sim, claro. Precisava das

provas. FUNCIONÁRIO Imagino que o senhor saiba que pode ser pro-

cessado por isso. Preencha esses formulários naquela mesa e daremos entrada no processo contra a fotógrafa. OUTRO FUNCIONÁRIO A senhora não pode processar um

autor morto alegando que ele escreveu um livro baseado na história de vida da senhora. Quando ele escreveu o livro a senhora nem havia nascido. VELHA SENHORA Ele sempre alegou ser vidente. FUNCIONÁRIO Ele fez um documentário sobre sua vida. O

senhor deu a autorização. Temos os papéis assinados. O documentário está dentro da lei. HOMEM DOCUMENTADO Ele pode estar dentro da lei, dentro

de onde ele quiser. Não permitirei que esse trabalho venha a público como está, exijo modificações.


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FUNCIONÁRIO O senhor terá que preencher um formulário

indicando quais partes precisam ser alteradas e os motivos dessas mudanças. Em quê o documentarista alterou a verdade ou a realidade. HOMEM DOCUMENTADO O senhor não está entendendo… Esse

é o problema, ele não alterou. OUTRO FUNCIONÁRIO Não é possível usar essa pintura em

seu filme. O senhor não pode cantar essa música no show. FUNCIONÁRIO A obra hoje é livre, mas a tradução é passível

de cobranças de direitos. O autor não permitiu a utilização de suas coreografias. OUTRO FUNCIONÁRIO O senhor precisa provar que essa obra

de arte foi feita pelo senhor para que possamos registrar a obra como uma obra feita pelo senhor. Como o senhor irá fazer isso é problema do senhor. Só então volte com essa prova para que possamos registrar essa obra do senhor. FUNCIONÁRIO É preciso pagar. OUTRO FUNCIONÁRIO Próximo. FUNCIONÁRIO Senhor, existem quinhentos e vinte e sete pro-

cessos sobre esse assunto. Todos os reclamantes alegam ser o modelo do quadro O Homem Invisível. OUTRO FUNCIONÁRIO É uma música de domínio público, não

há o que fazer. O senhor deveria dar-se por feliz com tanta gente cantando sua música. FUNCIONÁRIO Gastronomia não é neste departamento. OUTRO FUNCIONÁRIO O senhor não pode registrar o seu

gato como obra de arte. Mesmo que tenha pintado e aparado os pelos dele. Tire uma foto ou grave um vídeo ou pinte um quadro e então registre como obra. FUNCIONÁRIO Desculpe, esse livro já foi escrito.


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OUTRO FUNCIONÁRIO Segundo o processo, o senhor não

pode publicar a biografia dessa personagem. AUTOR Mas trata-se de uma personagem fictícia. OUTRO FUNCIONÁRIO Senhor, o criador da personagem, Fic-

tícia, certo, não autorizou uma biografia dela. AUTOR É tudo ficcional. OUTRO FUNCIONÁRIO Ainda assim, é preciso de uma outra

autorização para essa ficcional. FUNCIONÁRIO Segundo análise, setenta por cento da sua

música constitui plágio de uma canção coreana dos anos 20, não pode ser registrada. OUTRO FUNCIONÁRIO Não podemos registrar seu autoretrato

porque apresenta oitenta por cento de semelhança com um autoretrato de um pintor dinamarquês. FUNCIONÁRIO Por que insistem tanto em criar? OUTRO FUNCIONÁRIO Não é a criação, é o registro! HOMEM HUMILHADO Você não pode imaginar a tristeza, a

vergonha. Sim, vergonha, é essa a palavra, não posso usar outra. O senhor já criou alguma coisa? Imagino que não… Claro que um funcionário público pode ser um artista, longe de mim ter tal juízo sobre os homens, eles podem fazer o que bem querem, não é assim? É que o senhor não tem uma… Como posso dizer? Uma aura, sabe? Aura de artista… O senhor não me parece que esteja… Se o senhor soubesse como é terrível… O senhor tem filhos? Porque os filhos podem ser uma analogia perfeita: o prazer e o trabalho que eles dão… Desde o primeiro momento, o senhor sabe do que estou falando, não sabe? Criar os filhos, desde antes do nascimento. Claro, não é preciso ser um artista para criar um filho, qualquer um pode fazer isso, não é nada demais. Quer dizer, até é, se pensarmos na probabilidade de nascermos, entre mi-


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lhões de planetas, milhares de seres humanos, espermatozoides, aquela coisa toda… Nascer, melhor, ser concebido, sair do nada, da estatística imensurável para virar um número palpável… Se pensarmos assim, nascer até que é algo demais… Mas qualquer um pode nascer, não é mesmo? Realmente não é preciso ser artista para criar um filho. Mas dá trabalho, o senhor não concorda? Dá muito trabalho. Tem o prazer também, a satisfação, sei lá, pequenas coisas, o dia dos pais, um abraço no domingo, essas bobagens, mas que dão uma satisfação danada. Nisso os filhos se parecem com criar uma música, então, se o senhor tem filhos, pode imaginar um pouco a minha situação. Você labuta, trabalha, lapida, busca, se esforça por uma nota perfeita, não que as notas não sejam perfeitas, apenas precisamos encaixar a perfeição delas dentro da nossa imperfeição e ainda assim soarem perfeitas, entende? Demora, é uma luta constante. Ela aparece em sonho. Às vezes um pedaço da letra, às vezes vem em forma de cor, sabor, cheiro. Você se esforça, chora, desiste, rejeita o acorde simples, a letra fácil, o coração bate forte, você mostra um pouco para um amigo, que desdenha, outro se empolga e te empolga. Acontecem deslizes, uma preguiça inesperada, uma surpresa. E são tantas coisas até a bendita ficar pronta. Pronta não, porque nunca fica. Mas tem uma hora que a gente entende que o mundo tem que levá-la nos braços, ou nas costas… Ou até mesmo pisar em cima, que seja, mas ela tem que sair de você e ser também dos outros. No fundo ela já era desde o início, porque você começa um pouco assim, sabendo que são os outros a sua própria música. E aí ela se solta e pronto. Está lá: linda. E as pessoas ouvem. E você é também as pessoas. E o esforço, o trabalho, as noites insones, a dúvida… Tudo vem à tona quando a música é tocada… Quando alguém ouve. Quando alguém canta. São seus filhos… Seus. Então aparece um filho de uma ronca e fuça, pega sua música e coloca num filme qualquer, no meio de uma cena escrota, feia, que a humanidade não precisa ver para se entender melhor, nem


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para lembrar… São seus filhos colocados no meio da merda para lembrá-los que eles também cagam. Que eles também são merda. Imagine isso, seus filhos afundados na merda, entre porcos, ornitorrincos e avestruzes… Sem mais, nem por onde, nem porquê. Quer dizer, tem um porquê sim: PORQUE É LEGAL. É isso. Seu trabalho pode ser colocado junto à merda, porque alguém diz: é legal. É a MINHA MÚSICA. São os MEUS FILHOS. Eu sei… Eu sei… Eu só quero processar esse artistazinho de merda, que não deve passar de um funcionariozinho de merda, que ligou seu computadorzinho de merda e se sentiu no direito de merda de fazer um videozinho de merda e colocar minha música como fundo. Você me compreende? FUNCIONÁRIO Não tenho filhos senhor, já fui músico, ainda

componho quando dá. Para dar seguimento ao processo, por favor preencha esse formulário e aguarde naquela fila.

sobre o sagrado direito de profanar

Não farás para ti ídolos, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, nem embaixo, na terra, nem do que existe nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles, nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento. Castigo a culpa dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam, mas uso de misericórdia

(sacristia de uma grande

por mil gerações para com os que me amam e guardam meus mandamentos.

igreja cristã) JOVEM ECLESIÁSTICO Não estamos sujeitos às regras dos

homens, repetiam os idólatras. Quando o próprio verbo encarnado já havia nos ensinado sobre os pertences de César e os pertences dos céus. Não incorramos nas mesmas leviandades. Amados, já estamos em novos tempos e negá-los pode ser tão imperdoável quanto pecar contra o Espírito. O nosso Deus foi, é, e sempre será, porque assim nos ensinaram, assim aprendemos, assim sentimos, assim explicamos e assim


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também deixamos de explicar. Isso porque os caminhos do sagrado não são perscrutados por todas as vontades humanas. Nosso Deus não está sujeito às regras dos homens, isso sim, podemos repetir. Podemos afirmar sem qualquer receio de leviandade, porque não sabemos como Deus pensa, age, respira. Não sabemos, amados. Não sabemos se Deus respira. Não sabemos como é a vida para o nosso Deus vivo. Não sabemos se Deus sonha. Quais seriam os sonhos de Deus? Somos o sonho de Deus? Não temos respostas. Não temos sequer algum lampejo de resposta. É por isso, meus amados, que não devemos nos preocupar com o Concílio da Destruição. Meu coração de homem irá lamentar quando tão raras e magistrais obras de arte forem eliminadas da face da terra, porque assim é o coração do homem. Não é assim o coração de Deus. A briga que nossa Igreja quer comprar com os homens não trará qualquer benefício. Nós, filhos do pai celeste, sabemos que viemos do pó e esse será o nosso destino. O destino da nossa carne, amados. Olhem para si e admitam, para o bem de sua própria liberdade, que esse corpo deixará de existir, sua pele, seus músculos, seus olhos. Tudo, amados, deixará de existir quando o tempo for cobrado por Deus. Não podemos controlar nosso destino comum. Por que, então, não aceitamos a perenidade das criações dos homens? A casa onde nasci não existe mais e não por isso deixo de existir. Não li os livros perdidos sobre a comédia e nem por isso não aprendi a rir. Somos sabedoria em processo e o que julgamos conhecer hoje, a todo o momento sofre ataques constantes dos estudiosos. Amanhã, nosso conhecimento pode não existir mais. Deixemos o Concílio da Destruição levar as imagens de Deus porque Deus continuará uma imagem viva para todo homem e mulher temente a Ele. VELHO ECLESIÁSTICO Que aborrecimento. Por que não usa

essa eloquência com os fiéis da sua paróquia? MADRE SUPERIORA É o papel da juventude…


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VELHO ECLESIÁSTICO Aos infernos com o papel da juventu-

de. Nem nosso salvador poderia ser tão inocente e cristão. Escute, meu jovem irmão, esse seu sermão genérico, aprendido em qualquer seminário, não nos serve de nada. MADRE SUPERIORA A fé desabrochando exala fragrâncias que

cativam a alma. VELHO ECLESIÁSTICO Quero saber quais são as fragrâncias

da merda de Deus. Não é isso, meu jovem? Não sabemos se Deus respira, sonha, age. Também não sabemos da merda de Deus. Imagem e semelhança, não é? A minha merda, manchada de sangue por uma maldita hemorroida filha da minha vida prostrado numa cadeira, é igual à merda de Deus? MADRE SUPERIORA É o suficiente. VELHO ECLESIÁSTICO Não é não. Esses seminários de hoje

ensinam tudo muito rápido. Estão adequados aos novos tempos. Posso me tornar um ministro de Deus sem sair de casa. Tempos contemporâneos. Não pequemos contra o Espírito. Também não pequemos contra a carne, meu jovem. Nunca suportei revolucionariozinhos de botequim como também nunca suportei sermõezinhos emocionados e vazios. O que você sabe da realidade das nossas ações? Porque as ações de Deus são inquestionáveis, são incalculáveis, são inacessíveis. Disso todos sabemos. Agora, como você acha que conseguimos pagar nossas contas? O vaso sanitário onde você defeca toda a manhã, não foi Deus quem colocou ele lá. O papel higiênico que limpa o seu cu, que não sabemos se é semelhante ou não ao cu de Deus, saiu do bolso de alguém. Ria disso agora, já que você aprendeu. MADRE SUPERIORA Já sabemos o impacto do Concílio da

Destruição em nossas contas? ECLESIÁSTICO Ainda não temos os dados concretos, mas o

prejuízo será grande.


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JOVEM ECLESIÁSTICO Meu Deus suprirá todas as vossas ne-

cessidades segundo as suas riquezas… VELHO ECLESIÁSTICO Cale-se, pelo amor do seu Deus. MADRE SUPERIORA Agora não, meu jovem. Conserve a bele-

za da sua fé para suas orações privadas. ECLESIÁSTICO O Conselho Internacional ainda não tem um

valor aproximado sobre nossas obras. VELHO ECLESIÁSTICO Temos que impedir o Concílio da Des-

truição de seguir adiante. JOVEM ECLESIÁSTICO Não podemos, essa é a vontade dos

homens. VELHO ECLESIÁSTICO Sou homem também. A minha vontade

deve valer. MADRE SUPERIORA Oremos para que nossas vontades sejam

ouvidas por Deus. JOVEM ECLESIÁSTICO Amém. VELHO ECLESIÁSTICO Não me tome por homem sem fé, Ma-

dre, mas se oração alterasse a vontade de Deus sobre os homens… Não preciso terminar esse pensamento. Não podemos aceitar que preciosidades artísticas, feitas visivelmente por inspirações divinas, sejam destruídas, eliminadas do mundo. JOVEM ECLESIÁSTICO Tudo pertence a Deus… VELHO ECLESIÁSTICO Então Deus, em breve, perderá muitos

dos seus pertences. MADRE SUPERIORA Não podemos continuar nessa discussão.

O Concílio da Destruição já se mostrou-se irredutível aos nossos clamores. ECLESIÁSTICO E às nossas ameaças.


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VELHO ECLESIÁSTICO Os prejuízos serão incalculáveis. JOVEM ECLESIÁSTICO Não há nada que aconteça em terra

sem a vontade de nosso Pai. VELHO ECLESIÁSTICO Explique isso aos judeus e às bruxas. ECLESIÁSTICO Nossos advogados estão a postos para recusar

as primeiras ofertas do Conselho Internacional. Estou cuidando disso pessoalmente. MADRE SUPERIORA Ganharemos tempo, mas não fugiremos

do inevitável. VELHO ECLESIÁSTICO Devemos clamar pela ação dos cristãos

de todo o mundo. ECLESIÁSTICO O Concílio da Destruição tem forte apoio da

população, especialmente dentre os que se dizem cristãos. VELHO ECLESIÁSTICO Imbecis. Dizem amar a Deus, Jesus

Cristo, a virgem Maria e o Espírito Santo e não são capazes de lutar pela Igreja que criou tudo isso. JOVEM ECLESIÁSTICO Bem-aventurados os pacíficos, porque

eles serão chamados filhos… MADRE SUPERIORA Sim, criança, nós conhecemos esse livro

também. ECLESIÁSTICO E é justamente por ele que devemos nos

acalmar. VELHO ECLESIÁSTICO Diabos. MADRE SUPERIORA Nossa Santidade usou todo o poder que

tem para salvar a Bíblia do Concílio da Destruição. ECLESIÁSTICO Caso contrário, se nenhum dos países esco-

lhesse as Escrituras Sagradas entre suas obras… VELHO ECLESIÁSTICO Eu sei… Eu sei… Mas a Bíblia não


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pertence a nenhum autor, a nenhum país… A Bíblia não é um romance… É uma obra de arte, mas de uma arte superior. MADRE SUPERIORA Foi exatamente esse o argumento de

Nossa Santidade, e a palavra de Deus foi salva. ECLESIÁSTICO E é consenso que devemos dar-nos por satis-

feitos nessa batalha. VELHO ECLESIÁSTICO As obras de Deus deveriam ser todas

intocadas. JOVEM ECLESIÁSTICO Não seu preocupe, irmão, o mundo

continuará a salvo. Porque Deus ama o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. VELHO ECLESIÁSTICO Nós sabemos o que os homens fizeram

com o filho de Deus.

Porque um dia a voz de deus foi a voz do povo e como ambos se criaram suas vozes eram a mesma e estavam sempre tortas ainda que escritas em linhas retas. No caderno de caligrafia dos novos tempos não havia espaço para os deuses, quiçá para seu dono: o povo. Que não sabia o que escrever ou falar.

PESQUISA O senhor escolhe qual obra do nosso passado? SENHOR Chapeuzinho Vermelho. PESQUISA Essa não é uma obra escrita por um artista nosso.

Em respostas espontâneas, as estatísticas mostram que setenta e oito por cento da população escolhe a Bíblia Sagrada como uma das obras a serem preservadas pelo Concílio da Destruição. Onze por cento não sabe. Sete por cento prefere a fábula da Cigarra e da Formiga. Dois por cento o filme La-

sobre as escolhas da maioria


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goa Azul. Os outros dois por cento são divididos em inúmeras obras. Foram entrevistadas 8745 pessoas entre os dias dois e oito deste mês. PESQUISA O senhor, por favor. É uma pesquisa rápida, por

favor. Sobre o Concílio da Destruição. SENHOR Sobre o quê? PESQUISA O Concílio da Destruição. A escolha das cinco

obras de arte do nosso passado… Como o senhor pode não saber do que se trata? SENHOR Isso é uma pergunta da pesquisa? PESQUISA Não. Quer dizer, pode ser. SENHOR Eu irei ganhar algum brinde? PESQUISA Não.

Menos de dois por cento dos entrevistados conseguiram listar cinco obras, entretanto, nenhum dos entrevistados conseguiu citar cinco obras feitas por artistas do nosso país, mesmo entre vivos e mortos. PESQUISA A senhora pode citar cinco obras criadas por nos-

sos artistas já falecidos que deveriam ser preservadas para sempre? SENHORA Para sempre? PESQUISA Bem, não para sempre, mas que deveriam ser es-

colhidas pelo Concílio da Destruição. SENHORA Qualquer uma. PESQUISA Certo, mas a senhora não tem preferência por

nenhuma? SENHORA Achei que fosse tudo a mesma coisa.


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Entre os artistas também não há consenso. Apesar da grande maioria, setenta e dois por cento, apoiar o Concílio da Destruição, nenhuma obra consegue mais de três por cento de preferência. ARTISTA É um equívoco. Um grande equívoco. Não sabere-

mos mais por onde começar. OUTRO ARTISTA Pensar em viver num mundo sem os filmes

de Cariccello ou as poesias de Todavrenetto. Nem sei mesmo se poderei continuar sendo um artista. Inúmeros entrevistados citaram cinco músicas do mesmo cantor ou apenas um autor e toda a sua obra literária. Uma grande parcela não conseguiu entender a pesquisa. SENHOR Aquele programa de TV que passa às quintas. PESQUISA Programas de TV não entram no Concílio da

Destruição. SENHOR É mesmo? Por quê? PESQUISA São classificados como entretenimento ou

publicidade. SENHOR Ah, então melhor assim.

sobre a natureza dos acasos A natureza dos cães é coçar a pulga que lhes perturba as orelhas para que possam dela se livrar sem maiores consequências, exceto o prazer da própria coceira. Já a natureza dos homens é ver a coceira dos cães e enveredar por uma busca precisa pela pulga, localizá-la, matá-la entre as unhas e impressionar-se com o sangue que nela havia.


106

Havia um cão que sempre fora bem tratado não lhe faltavam carinho sustento ou limpeza Sua rotina era a rotina dos cães asseados bem alimentados e sem déficits de atenção Suas ações eram as ações preconizadas pelos ditames dos cães passadios alinhados e afagados e tudo correspondia à ordem daqueles que detinham o poder sobre o cão amimado nutrido e luzidio para chamá-lo de seu cachorro ou seu cão ou seu animal de estimação ou alguns casos extremos em que os donos confundem as castas e chegam mesmo a intitulá-lo seu amigo Aquele cão amigo ou não retribuía aos donos aquilo que os donos esperavam dele se poderia indagar se o cão o fazia porque assim tinha que ser ou porque assim lhe ensinaram a ser ou porque assim é a natureza dos cães extremosos fulgentes e sustentados em verdade ainda se pode indagar entretanto o caso em questão do cão em questão é que não se sabe quando nem como nem porquê e é possível acrescentar o nem por onde nem para quê o tal cão visitou um lugar fora dos lugares determinados e reconhecidos por seus donos Mais uma vez se poderia indagar se o lugar supracitado era fora ou dentro do próprio cão levando em consideração a ideia estapafúrdia de que os cães podem sim encontrar dentro de si lugares que desconhecem e mais uma vez em verdade ainda se pode indagar O passeio se assim pode ser chamado dentro ou fora do cão mencionado resultou em uma visita inesperada uma pulga atrás da orelha. À pulga ocorreu o que era peculiar à sua natureza picar e sugar Ao cão não lhe restou outra saída senão coçar Aos donos não surgiu apenas a necessidade de livrar o cão da pulga inconveniente também era preciso saber onde o cão havia andado e/ou de onde a pulga teria vindo Em casos extremos que espécie de pulga era e quanto de sangue já havia sido sorvido E assim deu-se porque assim é a natureza dos homens especular escrutinar perscrutar cientificizar historicizar ficcionar advogar compreender julgar o cão a pulga o caminho e o encontro Ao cão coube o banho o remédio o afago e o


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sermão À pulga a morte entre as unhas o ventre rasgado pelo sangue Aos donos um novo excesso de cuidados coleira cerca e olhares. [Cabe aos artistas e/ou público revelar/descobrir como o Filho descobre que seus pais verdadeiros são os autores da obra Humanidade Rota. Essa pulga nunca me incomodou]

Em algum instante da vida o criador cobra a cria. Talvez porque cria que a própria cria seria como ele ou, por outro lado, porque cria que a cria tivesse alguma crença naquele que a

sobre nossos pais

criou. À cria resta ou a descrença, ou ser a cria desgarrada, ou crer no criador. (sala de espera do fórum geral) MILITAR Eu te criei. FILHO Você matou os meus pais. MILITAR Está enganado. Terrivelmente enganado. FILHO Por que vocês nunca me contaram? MILITAR Não faça perguntas tolas, meu filho. FILHO Irei declarar a Humanidade Rota como nossa quinta

obra. MILITAR Você pode fazer isso, mas não fará. Não tente a vin-

gança do jeito mais torpe… Seu senso de justiça… FILHO Senso de justiça? Como pode sua boca proferir tão

docemente aquilo que sempre provou do modo mais amargo? Senso de justiça? Meu senso de justiça? Como pode haver qualquer senso, bom senso, equilíbrio… Como pode haver qualquer JUSTIÇA nessa situação? MILITAR Apesar de saber que a ira é natural em certos casos,

esperava um pouco mais de moderação em você, meu filho.


108

FILHO Teu? MILITAR Nos te criamos, por favor, não nos esqueçamos

disso. FILHO Você matou meus pais. MILITAR Não tolerarei mais essas acusações… FILHO Não posso mais fazer parte dessa comissão. MILITAR Não só pode como fará até o final. RECEPCIONISTA Senhor, com licença. O café que pediu. FILHO Não quero mais. MILITAR Ele quer sim. RECEPCIONISTA Como quiser. Lá fora o povo se aglomera

curioso sobre a decisão da quinta obra. Gritam entusiasmados, chegam mesmo a se excitarem. E se excitam de tal maneira que se agridem, os contrários e os favoráveis à escolha que sequer foi feita. Eu, por exemplo, não tenho preferência. A polícia está com duas vezes mais soldados do que o previsto porque soube que haveria manifestações mais violentas. Disseram que um rapaz foi espancado porque vestia uma camisa estampada com a Humanidade Rota. A polícia disse que a situação está sob controle, entretanto enviou mais dois batalhões para a Praça do Futuro. FILHO Preciso de água também. RECEPCIONISTA Como quiser, senhor. MILITAR Beba seu café. FILHO Quantas ordens irá me dar. MILITAR Falo como pai. FILHO Como pai?


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MILITAR Seus progenitores quebraram as leis, as mesmas

que eles ajudaram a criar. Seus progenitores não se importaram com você, compreende isso. Mesmo grávida, ela e ele preferiram confrontar o Governo, um Governo eleito pelo POVO, em sua maioria. Uma MAIORIA escolheu um Governo que fosse excessivamente duro com os imorais, os travestidos, os arruaceiros, os libertinos. Um POVO cansado da esbórnia na Câmara dos Deputados, da corrupção que roubava dele, o POVO, quantias inimagináveis de dinheiro. E TODA essa corja, essa podridão rastejante saía ilesa, imune. O POVO nos escolheu para um BASTA e nós demos. FILHO Matando-os… MILITAR Numa casa infestada de baratas você não pede edu-

cadamente que elas saiam. FILHO O que eles fizeram? MILITAR Como assim, o que eles fizeram? Você está nesse

processo há meses e leu tudo sobre o que seus progenitores fizeram… Não tente vê-los como seus pais porque eles não foram. FILHO Estou aqui para escolher uma obra. MILITAR TOLICE. Você sabe que é muito mais que uma obra. FILHO Eles morreram porque queriam uma liberdade diferen-

te da que esse país oferecia. MILITAR Duas vezes TOLICE. Eles poderiam ter ido embora,

viver em outros países. Eles escolheram ficar e tentaram desestabilizar a ordem que o POVO aprovava. O POVO queria e aprovava a condução mais dura contra os meliantes. FILHO Eles eram artistas. MILITAR Sim, eram, e podiam criar o quê e como quisessem.

Mas não era isso o que queriam, não era a arte que eles al-


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mejavam. Eles queriam a revolução, esse germe maldito que nunca morre. Eles nunca foram censurados em suas obras, exceto pelo próprio jugo popular e dos críticos especializados. Tanto que é um quadro deles que está em discussão agora. Mas a liberdade de sua arte era insuficiente. Eles queriam mais… FILHO E morreram por isso. MILITAR Morreram porque desobedeceram nossas leis. E não

podemos chancelar a conduta que esses artistas tiveram. RECEPCIONISTA Sua água, senhor. Os outros delegados pedi-

ram para informar que já se passaram duas horas. FILHO Avise-os que necessito mais quinze minutos. MILITAR Tome o tempo que for preciso desde que não passe

de hoje a decisão. RECEPCIONISTA Darei o recado. O efetivo policial é ainda

maior do que o imaginado. Ladrões se aproveitam da situação e efetuam saques em bairros longínquos. Talvez a minha televisão seja roubada e eu não consiga assistir ao filme de hoje à noite. Em breve toda a humanidade se verá livre de milhares de filmes. Amanhã serão lançados noventa e cinco novos filmes no mundo. Essa é a média diária. Li numa revista que fica na recepção. Lá fora há cinco cineastas, cada um filmando sua versão do Concílio da Destruição. Talvez eu assista na televisão daqui a alguns meses. Se eu ainda tiver uma. FILHO Diga a eles mais quinze minutos. RECEPCIONISTA Como quiser, senhor. MILITAR Qual era sua escolha antes de descobrir que eles

foram seus progenitores? FILHO Não importa. MILITAR É justamente o que mais importa. Era a decisão cor-


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reta porque estava isenta dessa pessoalidade, desse vínculo, desse drama particular. FILHO Meus pais são brutalmente mortos por lutarem por

uma liberdade diferente da que era oferecida e o senhor chama isso de drama particular? MILITAR A liberdade oferecida era referendada pelo POVO. E,

sim, é um drama particular, em nada está ligado à grandiosidade desse Concílio. Aqui você representa seu país e não os seus progenitores ou os seus pais. FILHO Entretanto o senhor quer influenciar a minha decisão. MILITAR Eu posso? FILHO Não sei… Tudo agora me influencia. Todo o antes tam-

bém. Desde o começo nutro uma fantasia com esse quadro, com esses artistas. Eles me provocam e me repulsam na mesma intensidade. MILITAR Consegue ver o problema, então. Não podemos per-

mitir que essa desordem seja reverenciada, nem agora nem em nosso futuro. FILHO Por quê? Se ela me faz parecer vivo?

[Militar desfere um tapa de costa de mão no rosto do filho]

MILITAR Isso também o faz sentir vivo. Podemos usar como

prática, não podemos? Devemos? FILHO Seus métodos sempre me assustam. MILITAR O que te assusta é muito mais do que os meus

métodos, são as explicações que você não consegue ter. Não podemos permitir que toda pessoa que vive nesse país se sinta no direito de querer buscar explicações para tudo e a qualquer custo.


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FILHO Acredita mesmo que um quadro terá esse poder? MILITAR Prefiro sempre matar o mal antes que o cordeiro

comece a uivar. RECEPCIONISTA Com licença, preciso falar com o senhor. MILITAR Fale. RECEPCIONISTA O diretor da rede estatal quer saber exata-

mente a hora do anúncio final das cinco obras escolhidas.

Filho Não podemos atrasar a programação diária… E temos ainda os patrocinadores. MILITAR Diga a ele que a decisão será dada em uma hora a

contar de agora, exatamente. RECEPCIONISTA Direi a ele, senhor. Os jornais falam em

centenas de milhares. A polícia diz dezenas de milhares. Em uma hora todas as obras de artes criadas em nosso país cujos artistas estejam mortos serão condenadas à destruição. Nunca mais poderão ser vistas, reproduzidas ou mencionadas. Somente cinco obras lembrarão o nosso passado. Li numa revista que fica na recepção que em vinte e cinco anos o mundo produzirá o dobro das obras que serão destruídas. Quantos anos será que ainda viverei? MILITAR Você tem cinco minutos. Só tenho mais uma coisa a

dizer: escolha a obra que havia escolhido antes de saber que esses arruaceiros eram seus progenitores. FILHO Como quiser.


113

Houve um tempo em que a produção de conhecimento era automaticamente sua própria destruição. Depois, os homens perceberam que a destruição era mais prazerosa que a produção de qualquer conhecimento e desfrutaram até o fim dos dias o prazer de conhecer a destruição da produção.

Um integrante do M1545 danificou seriamente a obra Humanidade Rota. JOVEM REVOLUCIONÁRIO Não existe movimento nenhum.

Agi sozinho. Não estava mais suportando toda a discussão em volta de um quadro. Cinco obras idiotas que não mudariam em nada a nossa vida. Só de uns branquelos filhos da puta que passam o dia bebendo a melhor bebida e fazendo da arte um negócio como qualquer outro. MILITAR Não tínhamos problemas com a segurança. Todo o

processo foi aberto e claro desde o princípio, como é a característica desse governo. Permitimos a entrada do cidadão comum na plenária porque era interesse dele também a decisão em voga. O que aconteceu depois não era previsto por ninguém. O jovem revolucionário foi levado preso com várias queimaduras pelo corpo. REPÓRTER O episódio final da épica escolha da Quinta Obra

não poderia ter sido mais dramático. RECEPCIONISTA Eu fiquei desconfiada desde que vi o rapaz

sentado na tribuna popular. Estava tão sereno. Olhar para o nada. Quer dizer, para o nada é modo de dizer, ele olhava para as obras que estavam expostas como se conseguisse atravessá-las. Quando o embaixador do Concílio estava para dizer qual seria a nossa Quinta Obra, o rapaz levantou, rasgou a camisa, tinha alguma coisa presa no peito dele, uma bolsa

sobre as novas histórias


114

plástica, não sei direito, estava presa com esparadrapos. Ele gritou alguma coisa, não me lembro, não consegui entender, puxou a bolsa do peito, pude ver seus pelos presos no esparadrapo, a bolsa rasgou um pouco, vazou um líquido fedido por todo lado e ele conseguiu acertar um quadro. Não sei qual, acho que era aquele que estavam na dúvida. Começou a sair uma fumaça do quadro. Um cheiro de queimado. O rapaz começou a gritar de dor, ele estava todo vermelho. Então não vi mais nada. A ação foi atribuída ao Movimento1545, que nega. DELEGADO É um horror. Esse rapaz poderia ter nos ferido

gravemente. Esse governo não nos deu a segurança necessária para um evento de tal importância. REPÓRTER O quadro Humanidade Rota foi quase inteira-

mente destruído. Especialistas afirmam que será impossível recuperá-lo. SEGURANÇA Nós tínhamos detectores de metal. Revistamos

bolsas, mochilas, sacolas. E essas deveriam ficar no guardavolumes. Como poderíamos imaginar um ataque como esse? Agimos rapidamente e alguns de nossos homens se feriram com o ácido usado pelo terrorista. INVESTIDOR É melhor o governo adiar mais uma vez a deci-

são da Quinta Obra. O clero, em nota, pediu cautela por parte dos oficiais ao tratar do jovem rapaz ferido no atentado à Humanidade Rota. Quarenta e cinco manifestantes foram presos sob a alegação de serem coautores da ação terrorista. ADULTO Aquele quadro era uma merda, melhor que desapa-

reça para sempre. CRÍTICO É bem provável que se os artistas ainda estivessem

vivos, eles dissessem que a obra foi finalizada hoje, com a ação do jovem revolucionário.


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O governo não quer adiar a decisão da Quinta Obra. Movimentos contra o Concílio da Destruição se solidarizaram com a ação atribuída ao M1545. REPÓRTER Em nota atribuída ao M1545, eles negam qualquer

participação na ação terrorista. Dizem ainda que o governo está associando o nome do M1545 ao atentado de hoje à tarde numa tentativa frustrada de colocar a população contra eles. MULHER Olha, eu sempre soube que o Movimento mil e algu-

ma coisa era a favor da escolha do quadro que foi destruído. Nenhum delegado pediu para sair do Concílio da Destruição e, ao que tudo indica, teremos uma definição ainda hoje. MILITAR O Concílio da Destruição terá seu fim hoje. Lamen-

tamos a trágica eliminação do quadro Humanidade Rota, entretanto, todos nós sabemos, inclusive nowssos delegados, que nosso país tem inúmeras outras obras que poderão fazer parte das cinco escolhidas. Não temos com o que nos preocupar. A plenária foi esvaziada. A decisão do Concílio da Destruição será divulgada ao vivo pela televisão. JOVEM Ele destruiu o quadro errado. Ele destruiu o quadro

errado. Aquele imbecil. FILHO Não foi simples a decisão e, apesar do incidente de

hoje à tarde, nós, os delegados nomeados para fazer parte do Concílio da Destruição, resolvemos manter a decisão apurada antes do atentado. Escolhemos a Humanidade Rota como a Quinta Obra a representar o nosso país. Não uma reprodução e sim como ela se apresenta agora. REPÓRTER O jovem que cometeu o atentado contra a Huma-

nidade Rota faleceu agora pouco em decorrência das graves queimaduras.


116

Fim da Destruição


117

OBSERVAÇÃO

Esta obra não foi escolhida pelo Concílio da Destruição de seu país.


118

G A LV E Z O I M P E R A D O R D O A C R E

Monteiro, Mariza Junqueira, Paula Mirhan,

Encenação Marcio Aurelio. Baseado no romance

Weber Fonseca. Provocação Cênica Georgette

homônimo de Márcio Souza. Adaptação Carlos

Fadel, Verônica Fabrini. Videocenografia Jonas

Canhameiro. Elenco Ana Carolina Godoy, Ana

Golfeto. Cenógrafo José Valdir. Figurinista Bia

Paula Perche, Camila Ivo, Carlos Canhameiro,

Szvat, Isadora Giuntini. Músico / Sonoplasta

Davi Valle, Fabio Basile, Fabrício Licursi, Felipe

Allen Ferraudo. Iluminação Marcio Aurelio.

Chagas, Gustavo Xella, Heidi Monezzi, João

Produção Carlos Canhameiro.

Martins, Luciana Gabriel, Marcelo Pinta, Mariana Goulart, Marina Baeder, Paula Mirhan e Sandro

SOMOS DE FEITOS - espetáculo fruto da

Masai. Iluminação Marcio Aurelio. Figurinos

etapa intitulada [TUTORIAL] do projeto

Marcio Aurelio, Heidi Monezzi e Marina Baeder.

Virtualizadores da História, da Cia. Les

Cenário Márcio Aurelio e Cia. Les Commediens

Commediens Tropicales, contemplado

Tropicales. Música e Sonoplastia Allen Ferraudo

pela Lei de Fomento ao Teatro para a

e Rafael Vanazzi. Preparação Corporal

Cidade de São Paulo

Gracia Navarro e Lara Rodrigues. Preparação

Dramaturgia Carlos Canhameiro. Direção Cia.

Vocal Melissa Maranhão. Produção Carlos

Les Commediens Tropicales. Elenco Denise

Canhameiro.

Cruz, Giscard Luccas, Kika Bruno, Leandro Ivo, Lígia Helena, Priscila Cunha. Cenário e Figurino

CHALAÇA a peça - prêmio estímulo

Eder Lopes e Cia. De Feitos. Iluminação Daniel

Flávio Rangel

Gonzalez. Música Criação Coletiva. Produção

Encenação Marcio Aurelio. Autor Inspirado

Carlos Canhameiro e Cia. De Feitos.

no livro O Chalaça de José Roberto Torero. Adaptação Cia. Les Commediens Tropicales.

2 º D. P E D R O 2 º - p r o j e t o c o n t e m p l a d o

Texto Final Carlos Canhameiro. Atores Carlos

pela Lei de Fomento ao Teatro para a

Canhameiro, Daniel Gonzalez, Michele Navarro,

cidade de São Paulo

Paula Mirhan, Debora Monteiro, Fabio Basile,

Dramaturgia Carlos Canhameiro Atores Carlos

João Martins, Gustavo Xella, Eden Vianna Godoy.

Canhameiro, Daniel Gonzalez, Jonas Golfeto,

Cenógrafo e Figurinista Daniela Elias, Gabriel

Michele Navarro. Trilha e Música ao vivo Allen

Braga. Músico / Sonoplasta Allen Ferraudo.

Ferraudo. Cenógrafo José Valdir. Figurinista

Iluminação Marcio Aurelio. Produção Carlos

Grasiele Sousa. Iluminação Daniel Gonzalez.

Canhameiro.

Vídeos Aleph Cinema e Cia. Les Commediens Tropicales. Programação PD Ricardo Palmieri.

A Ú LT I M A Q U I M E R A

Consultoria Histórica Isabel Lustosa, Rodrigo

Autor Inspirado no livro homônimo de Ana

Touso, Fernando Nunes, José António Pasta.

Miranda. Adaptação Carlos Canhameiro. Atores

Produção Carlos Canhameiro.

Carlos Canhameiro, Daniel Gonzalez, Débora


119

O P A T O S E LV A G E M - p r ê m i o F u n a r t e d e

(VER[ ]TER) À DERIVA

Teatro Myriam Muniz

Atores Carlos Canhameiro, Daniel Gonzalez,

Texto Henrik Ibsen. Tradução e Adaptação Cia

Michele Navarro, Paula Mirhan, Tetembua

Les Commediens Tropicales. Texto Final Carlos

Dandara, Rodrigo Bianchini, Paula Carrara.

Canhameiro. Encenação Cia Les Commediens

Músicos ao vivo À Deriva. Figurino Mônica

Tropicales. Atores Carlos Canhameiro, Daniel

Zaher. Produção AnaCris Medina.

Gonzalez, Jonas Golfeto, Michele Navarro, Paula Mirhan, Weber Fonseca. Cenografia José Valdir,

COLÓQUIO SOBRE TEATRO

Ricardo Palmieri. Figurinos Juliana Roso.

PERFORM ATIVO - prêmio Funar te de

Iluminação Daniel Gonzalez. Vídeo Mapping

Teatro Myriam Muniz

Intlab.cc. VideoArt, Espaço Líquido e Cia. Les

Produção Cia Les Commediens Tropicales.

Commediens Tropicales. Pensamento Corporal

Participantes Cia Les Commediens Tropicales,

Tica Lemos. Assistência Geral Tetembua

Tablado de Arruar, Cia. dos Outros, Cia. Damas

Dandara. Produtor Carlos Canhameiro.

em trânsito e os Bucaneiros, Eleonora Fabião, Julio Dojcsar, Lucas Bambozzi, Kil Abreu,

(VER[ ]TER) - projeto contemplado pela

Rubens Velloso, Rubia Reame, Paula Carrara,

Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade

Wilson Julião, Giscard Luccas e Nina Giovelli.

de São Paulo

Produção Carlos Canhameiro e Tetembua

Encenação Cia. Les Commediens Tropicales

Dandara.

e artistas convidados: Andréia Yonashiro, Coletivo Bruto, Georgette Fadel, Tica Lemos.

CONCÍLIO DA DESTRUIÇÃO - Programa

Atores Carlos Canhameiro, Daniel Gonzalez,

de Ação a Cultura - Secretaria de

Michele Navarro, Paula Mirhan, Tetembua

Estado da Cultura

Dandara, Weber Fonseca. Músicos ao vivo

Encenação Cia. Les Commediens Tropicales.

Claudio Faria, Rui Barossi. Trilha sonora Cia.

Provocação Cênica Coletivo Bruto – Paulo

Les Commediens Tropicales, Rui Barossi e

Barcellos e Wilson Julião. Texto Carlos

Claudio Faria. Assessoria de imagem Mônica

Canhameiro. Atores Carlos Canhameiro, Daniel

Zaher. Street wear Elska. Cenografia

Gonzalez, Paula Mirhan, Rodrigo Bianchini, Rui

José Valdir Albuquerque. Iluminação Daniel

Barossi, Tetembua Dandara. Concepção sonora

Gonzalez. Vídeo e projeções Aleph cinema e

e música ao vivo Rui Barossi. Iluminação

Cia. Les Commediens Tropicales. Pensamento

Daniel Gonzalez Cenário José Valdir. Figurino

corporal Tica Lemos, Andreia Yonashiro,

Carol Ihitz. Vídeo Carlos Canhameiro. História

Juliana Moraes. Produção Carlos Canhameiro e

em quadrinhos Eduardo Cole. Desenho

Tetembua Dandara.

Nicholas Maia. Produção Carlos Canhameiro e Tetembua Dandara.


120

L ABORATORIO PERM ANENTE DE PL ÁGIO

a partir da peça Mauser e do livro Guerra Sem

- projeto contemplado pela Lei de

Batalha, de Heiner Müller. Iluminação Daniel

Fomento ao Teatro para

Gonzalez. Figurinos Júlia Polý. Cenários

a cidade de São Paulo

Instalações Julio Dojcsar, Rubens Velloso e

Peças plagiadas Corra como um coelho - Cia

Cia Les Commediens Tropicales. Colaboração

dos Outros, Petróleo - Clayton Mariano e

Maria Tendlau, Christine Rohrig, Paula

Alexandre Dal Farra, QUEM NÃO SABE MAIS

Carrara e Cássio Pires. Pensamento Corporal

QUEM É, O QUE É E ONDE ESTÁ, PRECISA

Carolina Callegaro. Pensamento Vocal Wagner

SE MEXER - Cia São Jorge de Variedades.

Barbosa. Fotos Christian Piana. Videos

Produção AnaCris Medina.

Carlos Canhameiro. Design Gráfico Renan Marcondes. Auxiliares Técnicos Cauê Gouveia

UNÍ-V OCO S Cia Les Commediens

e Lui Seixas. Cenotécnica Matias Arce e

Tropicales e Quarteto a Deriva.

Marcelo Comparini. Produção AnaCris Medina.

Intervenção criada especialmente para a p r o g r a m a çã o “ O i m a g i n á r i o n o s 5 0

MAUSER de garagem - projeto

anos do Golpe” a convite do Centro

contemplado pela Lei de Fomento ao

C u l t u r a l S ã o P a u l o .

Teatro para a Cidade de São Paulo

Elenco Carlos Canhameiro, Daniel Gonzalez,

Dramaturgia a partir da peça MAUSER de

Michele Navarro, Paula Mirhan, Tetembua

Heiner Müller. Tradução Eduardo Socha.

Dandara, Rodrigo Bianchini, Beto Spoleder,

Adaptação Carlos Canhameiro. Cenário

Guilherme Marques, Daniel Muller, Rui Barossi.

Cia. LCT e quarteto à deriva. Atores Carlos

Produção AnaCris Medina. Técnica Lui Seixas,

Canhameiro, Daniel Gonzalez, Michele Navarro,

Cauê Gouveia.

Paula Mirhan, Rodrigo Bianchini, Tetembua Dandara. Músicos Beto Sporleder, Daniel

G U E R R A S E M B ATA L H A o u a g o r a e p o r

Muller, Guilherme Marques, Rui Barossi.

um tempo muito longo não haverá

Pensamento corporal Carolina Callegaro.

mais vencedores neste mundo apenas

Pensamento vocal e percepção musical

vencidos - projeto contemplado pela

Wagner Barbosa. Iluminação Daniel Gonzalez.

Lei de Fomento ao Teatro para a cidade

Figurinos Julia Polý. Produção AnaCris

de São Paulo

Medina.

Encenação Cia Les Commediens Tropicales. Elenco Beto Sporleder, Carlos Canhameiro, Daniel Gonzalez, Daniel Muller, Guilherme Marques, Michele Navarro, Paula Mirhan, Rodrigo Bianchini, Rui Barossi, Tetembua Dandara. Dramaturgia Carlos Canhameiro,


121 Catalogação na fonte Bibliotecária Janaina Ramos – CRB-8/9166

C736

Les commediens tropicales dez anos: arrancar a relva para que o verde permaneça / Cia Les Commediens Tropicales – São Bernardo do Campo: Lamparina Luminosa, 2016. 120 p.; 17 x 24 cm ISBN 978-85-64107-21-2

1. Teatro brasileiro. 2. Cia Les Commediens Tropicales. 3. Biografia. 4. Fotografias. I. Les Commediens Tropicales II. Título. CDD 792.0981

Índice para catálogo sistemático I. Teatro brasileiro : Cia Les Commediens Tropicales : Biografia

Christian Piana e Michele Navarro Renan Marcondes

coorde nação e ditorial proj e to gráfico e diagramação

Marina Tranjan

rev isão de concílio

da destruição www.lamparinaluminosa.com +55 11 4127 0866 +55 11 98531 9222

lamparina luminosa


122

Livro impresso em papel Alta Alvura 120g/m2 (miolo) e Cartão L2 250g/m2 (capa) nas fontes Verdana e Roboto pela gráfica Colorsystem.

junho de 2016

ISBN 978-85-64107-21-2

Creative Commons by, nc, sa

realização

Livro realizado com apoio do 27º Programa de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. tiragem: 1000 unidades distribuição gratuita


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Profile for Cia Les Commediens Tropicales

les commediens tropicales D E Z anos - arrancar a relva para que o verde permaneça  

Livro contendo fotos dos espetáculos da Cia. LCT em comemoração aos 10 anos de atividade (2015) e texto na íntegra da peça Concílio da Destr...

les commediens tropicales D E Z anos - arrancar a relva para que o verde permaneça  

Livro contendo fotos dos espetáculos da Cia. LCT em comemoração aos 10 anos de atividade (2015) e texto na íntegra da peça Concílio da Destr...

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