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REINALDO ASSIS PELLIZZARO

Co n t o s do M o rri n h o da Preg u i รงa

-Edipel-


4@. Edição – 2.012 (Especial para o B log do Pellizzaro)

Reinaldo Assis Pellizzaro PELLIZZARO, Reinaldo Assis.

Contos do Morrinho da Preguiça

3ª. ed. Balneário Camboriú:Edipel ( ditora Pellizzaro), 2012

Trabalho de autoria própria, com direitos autorais reservados ao autor. Proibida a reprodução meio eletrônico e mecânico, inclusive através de processos xerográficos, de fotocópia e de gravação, sem expressa permissão do autor ( Lei nr. 5.988, de 14.12.73).

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Co n t o s do M o rri n h o da Preg u i รงa

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...para Capinzal, a minha terra natal!

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Co n t o s do M o rri n h o da Preg u i รงa

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Índice_____________________ Nota do autor..............................13 O Vinuto e o Massimino..............31 Queremoscsss Luzchzzz.............47

Tombazon, esperto comerciante enganado pelo Cola Chata e pelo Mindú..................................59 Quem está dormindo não mata ninguém......................................73

Nha Julia, a certeza de que Deus

sempre esteve entre os humildes.93

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A Ponte Pênsil e a lição de Seu Berto..........................................103 Nosso Casamenteiro Cine Far-

roupilha.....................................115 A assombração da corrente do cachorro ....................................135 A revolução que não aconteceu e a defesa da cidade...................142

Pósfácio.....................................152

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NOTA DO AUTOR

As

vezes me surpreendo, imaginando andar pelas ruas de Capinzal; a minha cidade natal! Mentalmente, caminho pela rua XV de Novembro, nua de calçamento, pisando descalço na terra batida, molhada pela chuva. Percorro na saudade, a antiga rua comprida ladeada por casas de madeira, sulcada pelas chapas de ferro das rodas dos pesados carretões, que desenhando linhas paralelas, a transformava numa estreita e longa folha de papel, onde nossos pés, iam escrevendo nossas próprias historias, no caminhar alegre e travesso por sobre a lama batida.

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Para quem subia, a rua era de acentuado aclive; já aqueles que desciam, podiam caminhar até seu término, na Estrada de Ferro, e depois, no cristalino Rio do Peixe. Antes de encontrar os trilhos de ferro, pelo lado da direita, corriam as águas límpidas do Rio Capinzal, - cuja ponte ainda não fora construída -, dobrando-se á esquerda, ia-se á Estação Ferroviária, ladeada e cercada por simétricas pilhas de taboas, trazidas das serrarias da região, para serem transportadas pelos vagões plataforma da Rede Ferroviária Federal. No aglomerado de casas, na sua grande maioria de madeira, viviam cerca de 1.000 habitantes, que se dedicavam ao cultivo da terra, e alguns poucos a comercialização, de madeira serrada, milho, alfafa, e outros produtos agrícolas. 9


A energia elétrica era gerada por uma usina hidráulica, copiosamente servida pelas águas transparentes do Rio do Peixe, precariamente represado na parte mais pedregosa A usina abrigava um engenhoso mecanismo, ainda rudimentar, que conseguia gerar uma luz trêfega; todavia, suficiente para iluminar a dependência principal das casas, excelente para os padrões daquela época- cuja iluminação artificial, mal se via, nas ruas sempre ás escuras, estas sim, iluminadas pela lua cheia. Para movimentar a turbina hidráulica da usina, foi construído um muro de pedras, armado em concreto, que cortava o Rio do Peixe; exatamente onde iniciava então Villa de Capinzal; havia ali, uma pequena elevação, de gramado verdejante, de onde se podia visualizar a queda das 10


águas sobre o açude, onde lampejavam os lambaris no seu esforço instintivo, para subir o turbilhão transparente das águas borbulhantes. O espetáculo maravilhoso podia ser assistido da pequena elevação, que se constituía no mais aprazível e enternecido ponto de encontro dos moradores da villa, nosso querido e terno: Morrinho da Preguiça ! Daquele mirante natural, de mágico visual, olhando-se para um lado por sobre a estrada de ferro, se podia ver a Rua XV de Novembro, em toda sua extensão, a Igreja Matriz, o Colégio da Irmãs, até a Estação Ferroviária com sua imponente Caixa D´Água de Ferro, e os trilhos da via ferroviária. Olhando-se para o outro lado descortinava-se o imponente límpido

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e belo Rio do Peixe, onde as águas cristalinas despencavam em queda livre por sobre o muro do açude, caindo num travesseiro de espumas flutuantes, onde fervilhavam cardumes de lambaris que cintilavam refletindo os raios do sol do meio dia, como prata faiscante, sobre nadando na brancura da espuma. O tempo e o vento paravam naquele promontório revestido de grama verdejante, num convite permanente ao descanso e a meditação; ali sem censura se podia contar e ouvir as histórias que certamente retratavam com fidelidade a vida simples, feliz e descompromissada, das pessoas extraordinárias, premiadas pelo destino, para viver naquele lugar fantástico, os mais belos momentos de suas vidas. 12


Vamos confidenciar para a história

Contos do Morrinho da Preguiça, que o tempo, não os

conseguiu apagar...lembrando que embora se tenham com verídicos os fatos relatados, substituímos o nome das pessoas, cuja lembrança todavia, envolvemos em sincero sentimento de carinhosa admiração e respeito. Cumprindo um dever de gratidão, á Capinzal, minha terra natal, deixamos que os personagens incrivelmente fantásticos, de um tempo mágico, conduzam o relato, na companhia de todos aqueles que me honrarem com sua leitura retornando juntos, pelos singulares caminhos, que eles e como nós conhecemos como ninguém... Por derradeiro desejamos afirmar que estas como outras tantas histórias,

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- nós como todos aqueles que tiveram a ventura de viver em um lugar tão belo como Capinzal -, por certo serão guardadas bem no fundo coração, pois como já disse alguém de entendia disso, ali não poderão ser queimadas ou destruídas e nós as carregaremos para onde o destino nos fizer seguir, mesmo que sejam por diferentes caminhos... Reinaldo Assis Pellizzaro

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Co n t o s do M o rri n h o da Preg u i รงa

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A manhã, era de estudos e para cumprir tarefas, mas após o almoço degustado ás pressas, era no Morrinho da Preguiça

que

nos

reuníamos para ouvir as mais intrigantes histórias.... 16


O V inu t o e o M a s s imino. . .

Figuras lendárias, bebiam a não mais poder, o primeiro carinhosamente era chamado BOLA SETE, gago de nascença, e o segundo BOLA BRANCA surdo-mudo, ambos inteligentes; entre tantas, registramos três histórias incríveis que se contavam a respeito deles...

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Era preciso ver o nosso saudoso

Barzinho, um contador de histórias vocacionado, cujo dom de imitação fazia os personagens ganhar vida, e com sua mímica engraçada, todos riam, especialmente ao imitar nosso VINUTO, de cor escura1; era escuro? -Escuro como os olhos de Nossa Senhora; dizia, bravo, quando tentavam bolir com ele por causa da cor de sua pele, e era tão carinhosamente tratado pela população, que de repente todos nos identificávamos um pouco com ele. Gago desde nascido, vivia num casebre, próximo da Igreja Matriz, em companhia do seu fiel amigo - Sempre que alguém tentava fazer graça com Vinuto sobre a cor da sua pele, ele não tinha dúvidas e dizia com um imenso sorriso que punha á mostra seus impecáveis dentes brancos como marfim: - É, é, é pre, pretata sim, co, como os o, olhos de Nossa Senhora. (É incrível, mas quando pronunciava o nomes dos Santos da Igreja, nunca gaguejava...) 18 1


MASSIMINO,

que era branco, surdo e mudo, mas inseparáveis na vida boa de dolce far niente, e beber a mais não poder. Pois na narração hilariante do Barzinho, o VINUTO, numa manhã em que o dia mal amanhecia, passava pela frente da Igreja Matriz, com uma apetitosa garrafa de cachaça branquinha, de fazer coroa na boca do copo... Nesse momento foi flagrado pelo Pároco - Frei Tito -, que abria a igreja para a missa matinal, e de pronto falou para o Vinuto: - O que é isso que você está

levando Vinuto?

Ao que o VINUTO, respondeu sem tempo para esconder a garrafa: - Po, po, pois é u, u, uma ga, ga, garrafa de pi, pi, pinga seu Pa, padre... 19


O bondoso clérigo cioso de sua missão de salvar as almas, tentou pregar o primeiro sermão da manhã, na esperança de levar mais uma alma para o bom caminho, e foi aconselhando o etílico vocacionado: - Mas Vinuto, meu filho, veja quanto mal a bebida faz. Logo de manhã você já está se preparando para beber, não faça isso, é tão feio, meu filho. A bebida faz tanto mal, você não deve beber, derrame o liquido da garrafa...meu filho. Encurralado o Vinuto, nem pensou duas vezes e logo foi redargüindo o Padre: - Ma, ma, mais se, se, seu Vi, vi, vigário a ca, ca, cachaça na, não é só, só, só mi, minha, me, me, metade é, é, do, do, Ma, ma, Massimino2. 2

Vinuto era de cor escura, e gago; enquanto que o Massimino era surdo e mudo, ambos da mesma idade, apareceram juntos na vila, 20


O bom pároco, diante da resposta, ainda argumentou, na esperança de ser ouvido pelo VINUTO, que segurava a garrafa, com todo o cuidado, descansando no antebraço direito, segurado com a mão esquerda, junto ao peito como quem protege algo muito precioso: - Mas então veja meu filho, se a metade do liquido é do Massimino, jogue fora a sua metade que Deus já vai ficar satisfeito, com sua obediência... Essa era uma proposta terrivelmente inaceitável, já pensou o VINUTO, ter que jogar fora metade do liquido da garrafa, - nem pensar...- , mesmo que fosse em louvor a Deus. Nesse instante o Barzinho, já estava de pé no meio da roda, bem no moravam numa casinha localizada nos fundos da Igreja Matriz, ainda em construção, vivendo da caridade do povo...

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alto do Morrinho da Preguiça; e nós com os olhos grudados nele, aguardávamos o epílogo da encenação... O padre de um lado olhando fixo no VINUTO, que a sua frente segurava da garrafa com as duas mãos, pensando como se esquivaria da exigência do Padre, para jogar metade da cachaça fora, sem cometer pecado. O Barzinho, numa mímica perfeita da figura do VINUTO, segurava a garrafa imaginária, que estava ali na nossa frente, olhava para o Padre de cima para baixo, e ao mesmo tempo para o chão como quem marca o caminho para fugir em retirada, e lascou com a voz arrastada, mas sem muito gaguejar: - Ma, ma, mais se, seu Padre, e, eu não posso jogar a me, metade ca, ca, cachaça fora...PO, PORQUE A MI, MINHA PARTE TÁ, TÁ, EM BAIXO E A DO MA, MA, MASSIMINO É, É, QUE, QUE TÁ. TÁ EM CIMA!... 22


2 A incrível história da nota de cinco pila... Naquele momento, já se formara

um grande circulo ao redor do nosso contador de estórias, que começava a contar outra passagem deliciosa de que fora protagonista o nosso VINUTO...E daí...

A guisa de gozação, o expertinho do CHICO , presenteou o Vinuto, com uma cédula , no valor de cinco pila3, que para chasquear do pobre, havia rasgado duas notas, sendo uma no valor de cinco e outra de um, colando 3

A cédula, representada por dinheiro de papel moeda, de C INCO CRUZEIROS, era conhecida popularmente por PILA, assim uma cédula de CINCO CRUZEIROS, era popularmente conhecida como CINCO PILA...

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as duas partes entregou ao VINUTO com o valor maior nota, á vista, dizendo: - Vou te dar esta nota cinco pila VINUTO, que é p’ra você tomar umas pingas... O VINUTO, pegou a cédula, agradeceu, e ao invés de ir direto para a bodega4, como estava na hora do inicio da Missa vespertina, seguiu rumo a Igreja Matriz. Terminada a missa, o VINUTO, dirigiu-se muito contente para a bodega, e para a alegria da roda dos gozadores de plantão, entrou, deu uma olhada ao redor como se cumprimentasse os presentes, e foi dizendo: -Se, se, seu Beltra, Beltramini,

me, me, me, dá um, um, li, li, litro 4

Bodega, era o nome de pequenas casas comerciais que se dedicavam a venda de bebidas alcoólicas, especialmente cachaça que era conhecida como pinga. 24


de, de pinga (pinga, era a única palavra que pronunciava sem gaguejar...). O proprietário do estabelecimento comercial que já sabia da história, da metade da cédula de cinco cruzeiros colada a outra metade de um cruzeiro, foi logo dizendo: - Tudo bem, posso te vender um litro de pinga, mas custa cinco cruzeiros. Ao que o VINUTO, redargüiu: - E, e, eu se, sei, ma, mas po,

pode de, de, deixar, po, po qua, quatro, e, e cin, cin, cinqüenta?

Certo que pobre VINUTO, somente tinha a nota de cinco e de nenhum valor, disse: - Claro, que posso, você me paga cinco e eu te dou cinqüenta centavos de troco...e já olhava para a turma, rindo do Vinuto... 25


Qual não foi a surpresa quando o VINUTO, tirou do bolso, quatro cruzeiros e cinqüenta centavos em moedas, colocando sobre o balcão, pegando o litro de pinga foi logo dizendo: - Po, pois, Ga, ganhei, u, uma

no, nota de, de cin. cinco, do, do, me, meu, ami, amigo CHI, CHI, CHICO, aí, e, bo, bo, botei, no, no, sa, saco de es, esmolas, na, na mis, missa, e, e pe, peguei, qua, qua, quatro e, e, cin, cin, cinqüenta de, de tro, troco. Vo, vou avi, avi, avisar o Pa, padre TI, TITO, pro, pro, CH, CHICO, ace, acertar, co, com ê, ele... E o VINUTO seguiu seu caminho sem sequer olhar para trás para ver a cara da tacho, com que o CHICO e os gozadores de plantão ficaram, e voltou para casa para beber a pinga com seu amigo MASSIMINO, ao qual por certo, 26


contou a história, numa linguagem que somente eles entendiam, eis que um era gago e o outro surdo-mudo, e que por certo riram a mais não poder...

3 A prova da amizade. eterna... Contava-se no nosso Morrinho da

Preguiça, como verdadeiro, o fato de que o MASSIMINO morreu e no velório, o corpo foi colocado sobre uma mesa, numa pequena sala cedida por um amigo, igualmente pobre. No velório o nosso VINUTO, inconsolado lamentava a perda irreparável, permanecendo de pé, oitavado ao lado do corpo do amigo falecido. 27


Mas como sói acontecer em tais eventos, não faltou a marvada da pinga...para ajudar a suportar a tristeza. Todos os presentes, beberam a mais não poder e da conversa em voz baixa, passaram a falar alto, e finalmente a algazarra tornou-se infernal, riam e contavam causos engraçados, esquecidos do finado. Até que de repente o VINUTO, não agüentou mais o desrespeito pelo coitado do morto, e de pé ao lado do corpo do amigo, gritou... -CA, CALA A BO,BOCA PU, PUTADA I,I,ISSO A, AQUI NA, NÃO È FE..FESTA, RE...RESPEITE ME...MEU AMIGO MA,MAXIMINO, TRO, TROPA DE FI,FI,FIA DA PU..PUT...!

Foi como se o VINUTO, mandasse todo mundo brigar, pois com cara cheia 28


de pinga, todos se sentiram ofendidos, e já se formou um tumulto e a briga generalizou-se incontrolavelmente. Soco, empurrão, bofetada, cadeirada, palavrão, gritaria, e o velório virou uma brigaceira infernal...até que o corpo do falecido MASSIMINO, foi derrubado da mesa, em que era velado; e a peleia cessou de repetente...quando todos ficaram imóveis, meio no escuro, viram uma cena de curar bebedeira; o defunto que era branco virou preto, pois não é, que o VINUTO, deitou na mesa, cruzou os braços no peito, e se fazendo de morto, dizia...

-Me,meu cum,cumpadre MA,. MASSIMINO, na,não vai, far,fartá e fa,fazê fi,fiasco no,no vê,velório dele, se,se ele não ta,tá eu to,tô!

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E o Barzinho, ia saindo do meio da roda, sob estrondosa e uníssona gargalhada de todos o presentes. Não importava que tivéssemos uma repetição de narrativas, eis que, ontologicamente, tinha sempre sabor de novidade; cá para nós, já tínhamos ouvido a mesma história muitas vezes e cada vez, mais engraçada... O trem direto, já havia passado e era hora de voltarmos ao trabalho. O Morrinho da Preguiça, ficava a nossa espera, para o meio dia seguinte, quando nos encontraríamos ali, para ouvir mais um relato, era quase certo que seria protagonizado pelo Barzinho, o contador da história; mas também podia ser qualquer outro... Sim, porque a magia da comunicação não era privilégio de ninguém, mas sim do nosso MORRINHO DA PREGUIÇA! 30


Queremoschsss, Luzchsss...

Mesmo que a cidade, vivesse ás escuras, não poderia um “ queimadinho de sol” vindo do litoral, comandar uma passeata á casa do dono da Usina geradora de energia elétrica, e exigir, que as ruas e casas fossem iluminadas...

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Os

dias corriam tranquilos em nossa pacata Capinzal; nas conversas do Morrinho da Preguiça inobstante regulares, eram inexoravelmente repetidas as mesmas histórias e gozação envolvendo, ora um, ora outro; até que um dia... A cidade começava a progredir, e o Governo do Estado resolveu, instalar na rua principal uma Repartição Pública, e consequentemente viria de fora, um Funcionário Público, coisa rara, pois na cidade não havia ninguém com tamanha qualificação. Para Capinzal, se constituía em grande progresso e tornou-se o assunto do dia, era só em que se falava. O misterioso Funcionário Público era esperado pelo trem misto, na verdade, eram três, os horários de 32


passagem dos trens, cujo atraso mediava entre 1 até 10 horas regularmente, tracionados por máquinas á vapor, as famosas Maria Fumaça, que se queixava resfolegando...poca força, muito peso, poca força, muito peso... A rotina dos trens se repetia, as 7 horas da manhã sentido sul-norte o trem de carga, o Cargueiro; ao meio dia também no sentido sul-norte; o Direto, este, de passageiros, e á noite 19 horas o Misto, do norte para o sul, que transportava mercadorias e pessoas... Pois foi no Misto, por volta das 23 horas, na escuridão da cidade mal iluminada que chegou o Funcionário Público Estadual, um jovem jogador de futebol, queimado pelo sol das belas praias de sua cidade natal. Sua chegada foi logo para o registro da turma do Morrinho da Preguiça: - Ei, turma viram quem 33


chegou ontem pelo Misto? O funcionário público de fala esquisita, que anda se gabando que joga bem futebol. Parece que já vai treinar no Arabutã, hoje de tarde. E foi o que aconteceu, a cidade afinal tinha uma novidade; e de fato o recém chegado, era bom de bola mesmo; e acabou conquistando a população que era apaixonada pelo Arabutã, único time, que precisava...e como precisava de um reforço, pois há muito tempo não saia vitorioso de um só jogo... Como Funcionário Público, o neófito tinha status de autoridade, jogava futebol como poucos, marcava até gol de “bicicleta”- coisa que todo mundo achava que não era possível fazer -, solteirão, tornou-se o melhor partido das redondezas; não demorou muito para ser convidado a fazer parte 34


do elenco de teatro da cidade...como galã é claro... Em pouco tempo, estava o recém chegado, estrelando uma peça vista por toda a população, intitulada “O Cancioneiro da Lua”. Nosso charmoso Galã, dominava a cena de abertura, vestindo um flamante pijama de cetim azul celeste, semeado por estrelas de lantejoulas vermelhas, sentado sobre uma LUA MINGUANTE, - de papelão, recoberto com papel crepom cor de rosa...dedilhando um violão e cantando uma suave melodia apaixonada, com a voz melodiosamente tremida ,imitando o cantor Francisco Alves - que fazia grande sucesso á época... -. Como as apresentações eram a noite, e o nosso artista, que havia até então residido no litoral , onde as ruas eram bem iluminadas, não demorou muito, em criticar as precárias 35


condições de fornecimento da energia elétrica na cidade. Para os padrões sisudos de nossa sociedade não pegava bem a postura atrevida daquela pseuda autoridade, mas nem precisa dizer que as moçoilas, se derretiam atraídas pela fala esquisita, do moreninho da lua minguante, até que...bem, foi logo, se apaixonar pela filha do Intendente de Quarteirão, neta do dono da usina geradora da energia que sofregamente iluminava a cidade. Vejamos as diferenças.... ...de um lado uma família de italianos que como fundadores da cidade, edificaram bem no centro da povoação uma belíssima casa de alvenaria. encimada pela data da construção em granito “1.930”; família rica, capitaneada pelo patriarca a quem mais de meia centena de capinzalenses chamava carinhosa e solenemente de 36


VOVÔ , proprietário da usina de luz, do moinho, da loja e de ferraria, responsável pela edificação da Igreja Matriz, e da Ponte Pênsil, que ligava Capinzal e Ouro, as duas cidades irmãs;...de outro lado, um ilustre desconhecido, forasteiro, jogador de futebol, de pele queimada de sol; artista e bom jogador de futebol, mas de fala esquisita, que tinha o tupete de reclamar da escuridão das ruas, e ainda por cima namorar a neta do patriarca e filha do Intendente de Quarteirão... A palavra audácia, era por demais singela para qualificar a atitude do contestador; pois, não é que, á noite uma pequena multidão, se deteve bem debaixo da janela da casa do VOVÔ. Na escuridão divisavam-se vultos levando velas acesas na mão, gritando palavra de ordem exigindo luz, liderada naturalmente pelo forasteiro.

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É verdade que era escuro e não se podia sequer reconhecer o rosto dos integrantes da passeata, mas VOVÔ, que assistiu a cena de protesto de sua janela, no outro dia não teve dúvidas, reuniu o clã, e disse ter identificado um dos mais exaltados, verberando indignado:

Era, ele sim, o Funcionário Público, recém chegado, jogador de futebol, e artista de teatro que namora a minha neta... -

Essa era a conversa, que dominou por muitos dias os altos papos do Morrinho da Preguiça, onde se comentava que... O VOVÔ, que para gáudio de todos, assimilou construtivamente a crítica e graças a sua capacidade realizadora resolveu o problema, melhorou as condições da iluminação pública e a geração de energia elétrica. 38


Mas o que intrigava, a turma do Morrinho da Preguiça, era como VOVÔ, havia reconhecido o forasteiro no escuro... Até que um dos integrantes da roda, num rasgo de genialidade, concluiu: - Mas é claro gente! o Vovô,

não enxerga bem, mas escuta muito bem... e todos estávamos no escuro, gritando queremos luz!

A diferença era que enquanto que nós que moramos aqui gritávamos:- Queremoos luuiz!, - Queremoos luuiz! O funcionário publico de voz esquisita gritava: 39


- Queremoschss! luzchss! - Queremoschss! luzchss ! Nem é preciso dizer que como tudo na nossa querida Capinzal, o Funcionário Público casou com neta do proprietário da Usina, sob as bênçãos do VOVÔ, tiveram muitos filhos e foram felizes...

-Que saudade Doin, do nosso futebol, que agora deves estar jogando no campo eterno do céu, junto a Deus... Até um dia, companheiro!(NA) 40


Tomb a z on, e s p e r t o

c ome r c ia nt e e ng a na d o p e lo C ol a h a t a e p e lo M ind ú . . .

COLA CHATA, era um conhecido e esperto operário que limpava e cavava poços nos quais dizia encontrar alianças de fino ouro...que na verdade eram confeccionadas utilizando canos de bronze; o grande desafio era vendê-las para o mais esperto comerciante da região SEU TOMBAZON; já o MINDÚ, era um desocupado gozador, que passando-se por operário, conseguiu a façanha inédita de receber salário de SEU TOMBAZON, sem trabalhar, vejamos como aconteceu... 41


1 A s a lia nç a s d e ou r o d o p is t ã o d e f or d e c o... Eis

que alguém lembrou da história do COLA CHATA; uma figura incrível que viveu por muitos anos em Capinzal, trabalhando na limpeza e escavação de poços de água potável. Sendo costume naqueles tempos, os casais - noivos e casados -, quando brigavam jogar suas alianças, num poço. O esperto COLA CHATA, sabendo dessa tradição, não tinha dúvidas, 42


valendo-se de um pistão de “fordeco”5 , serrava dois anéis, que recebiam cuidadoso polimento, transformandose em um belo par de alianças,... sem valor comercial. O golpe das alianças era aplicado, e as vitimas por falso pudor, ou até mesmo, por temor de serem expostas ao ridículo, jamais denunciavam ás autoridades a atitude inescrupulosa do cavador de poços. Mas como todo espertalhão COLA CHATA, tinha uma cisma, que não escondia de ninguém: - Um dia vou, vender um par de alianças de pistão de fordeco para o TOMBAZOM, que é o mais astuto e rico comerciante da região, depois posso morrer sossegado... Mas quando COLA CHATA chegou a cidade, vindo não se sabe de onde, TOMBAZOM, já tinha construído seu 5

. Antigamente os automóveis, da marca FORD eram denominados FORDECO..

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palacete, e o poço, perfurado na rocha, já havia sido concluído. Somente restava esperar, até o dia em que tal poço necessitasse de uma limpeza; daí porque COLA CHATA, ofereceu seus serviços a um precinho para lá, de camarada. Por um preço de pechincha, é claro que TOMBAZOM, não perdeu a oportunidade e contratou o COLA CHATA, para limpar o poço. Preparando um belo par de alianças, feitas com duas arruelas serradas do pistão de fordeco, o COLA CHATA, deu inicio aos trabalhos, logo bem cedinho. Á tarde quando TOMBAZOM, veio fiscalizar o andamento do trabalho, deparou com um paninho bem limpo na borda do poço, onde reluziam duas belíssimas alianças. 44


Os olhos do comerciante encheram-se de brilho e cobiça, e foi logo trazendo o pano com as jóias para mais perto do nariz, agora armado com um adequado óculos de grau. Gritou para o COLA CHATA, que ao avistá-lo havia descido rapidamente para o fundo do poço: - OOH! COLA CHATA, por acaso

encontrou alguma coisa de valor no meu poço? E de lá do fundo veio a resposta:

- Pois né, que dei sorte e

encontrei um par de alianças, que deve ter sido jogada por uma casal “briguento”, seu TOMBAZOM.

O esperto comerciante já sabia da historia dos casais que brigavam e jogavam as alianças no poço, e não teve dúvida: 45


- Mas se você encontrou no meu poço, as alianças me pertencem COLA CHATA. Daí para frente foi um puxa p’ra lá, puxa p’ra cá, até que acertaram que o COLA CHATA, receberia metade do valor das alianças, já que as mesmas foram encontradas no poço de propriedade do TOMBAZOM. Acertado o preço das reluzentes “jóias”, COLA CHATA, recebeu o que foi combinado pelo serviço de limpeza, acrescido de uma boa quantia de dinheiro recebido, em pagamento das falsas alianças ( metade do valor, é claro... ) Nem precisa dizer-se que tão logo constatado pelo TOMBAZOM, que fora vítima de estelionato, ao contrário das outras pessoas que foram enganadas, deu queixa ás autoridades, e andou procurando COLA CHATA, 46


prometendo,“acabar com a raça

dele”...

O fato é que a história era sempre lembrada no Morrinho da Preguiça, sendo totalmente desconhecido o paradeiro do COLA CHATA, que sumiu da cidade, indo aplicar seu golpe em outra cidade, deixando seu nome registrado na história, como uma das duas únicas pessoas que conseguiram enganar SEU TOMBAZOM; sim, porque o autor de tamanha façanha foi também, um tal MINDÚ...

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2 M ind ú , o p e d r e ir o, q u e nã o e r a . . . Outra, história envolvendo

TOMBAZON, que marcava presença nas rodas de conversa do nosso Morrinho da Preguiça, tinha como personagem um operário, conhecido por MINDÚ. Quando o TOMBAZON, construiu seu palacete, muitos pedreiros foram contratados. Sempre que podia seu TOMBAZON, dava uma incerta, na obra para verificar se todos estavam trabalhando, como desejava. Pode-se imaginar a correria, quando sua figura austera, - dizem que 48


nunca esboçou qualquer sorriso durante a vida inteira, sempre com uma cara fechada, olhando firme na linha do horizonte, para onde marchava sempre como um vencedor. Aparecia sem avisar, no local de trabalho, onde todos tinham a obrigação de trabalhar com afinco, e se orgulhava em fazer-se respeitado, digamos, temido por seus empregados... Naquela tarde, flagrara, não menos que três empregados -pelo menos todos tinham aparência de pedreiros vestindo-se, como tal-, envolvidos numa conversa animada. Entre os andaimes, por detrás de uma meia-parede, inteirou-se da conversa fiada, sobre futebol, mulheres, e outras banalidades indesejáveis. Na verdade, dois operários conversavam enquanto um assentava 49


tijolos, mas outro, estava simplesmente sentado batendo papo. O que estava sentado, era o MINDU, um tremendo gozador, boa vida, compadre dos outros dois pedreiros, e ali estava jogando conversa fora. Seu TOMBAZON, foi tomado de furor, cujos gritos fez tremer a construção, e imediatamente, convocou o MINDU que estava sentado conversando, dizendo aos berros: -Vadio comigo não trabalha, pode receber os dias trabalhados e dar o fora daqui; quantos dias de serviço você tem? Respondeu o MINDÚ, simulando uma voz trêmula: - Ci, cinco dias... Louco de raiva, seu TOMBAZON, que fazia contas de cabeça como ninguém, calculou o quanto devia, 50


tirou o dinheiro do bolso, e entregou ao MINDU, não sem antes passar a maior carraspana , para que servisse de exemplo para os demais empregados. Depois de ver o MINDÚ, desaparecer, voltou-se para os demais empregados que estavam com os olhos arregalados pela cena que viam, e disse-lhes:

- Viram o que acontece, quem não trabalha, vai para p’ro olho da rua, na hora! Um dos operários, o mais idoso atreveu-se a dizer:

- Pois é, seu Tombazon, o moço que estava conversando deve ter ficado muito contente, porque recebeu sem trabalhar, pois nunca trabalhou aqui; né que nem era seu empregado!...

51


Assim nosso MINDÚ, passou a integrar a história de nossa cidade, como uma das duas pessoas que conseguiram a incrível façanha de enganar nosso arquemilionário e esperto TOMBAZON.6 Todo mundo comentava que o MINDU, tinha sujado a roupa com cal e cimento, se preparando para fazer aquela proeza. Nunca se soube, se tal situação foi mesmo de caso pensado, porque o figura, jamais foi visto pelas redondezas, pois seu TOMBAZON, esbravejava: - SE EU ENCONTRAR O MINDU, VOU TIRAR O COURO, DAQUELE VAGABUNDO!...

6

O nome com que denominamos essa lendária figura é fictício, inobstante se tenha como verídicas ambos os fatos, e figura do rico comerciante, merecer de nossa parte todo o respeito, saudosa e carinhosa admiração. 52


Q u e m e s t á d or mind o, nã o ma t a nin g u é m. . .

O GRAVATA, apareceu sem saber-se de onde, e tampouco quem era, porque não portava documentos, e acabou metendo-se na maior enrascada, vejamos porque história como foi registrada nos “anais” do Morrinho da Preguiça...

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A história

corria de boca em boca, e alguém que estava na roda resolveu contá-la dizendo que era meio “comprida” mas valia a pena escutar, e já que o Morrinho da Preguiça, era para isso mesmo, concordamos ouvi-la... O narrador improvisado lembrava de Capinzal7 quando não passava de um pequeno povoado, e dizia8 : “ Não havia lugar mais aprazível para se morar. Casas humildes enfileiradas ao longo da rua principal, despida de calçamento, pedregosa e um pouco íngreme.

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Capinzal, é uma bela cidade encravada nas montanhas, á margem direita do RIO DO PEIXE, na confluência com o RIO CAPINZAL, que lhe serve como pequeno afluente... 8

Obs.: Para nossa alegria antes de editarmos este livro, oferecemos uma cópia deste conto, para CAIXA DE ASSISENCIA DOS ADVOGADOS, concorrendo num concurso em nível estadual, e tivemos o prazer de saber que este trabalho será publicado, em edição especial juntamente com outros colegas advogados contistas. 54


Descendo ladeira abaixo, terminava na estrada de ferro, que margeava o Rio do Peixe. Os habitantes - não se contava mais do que 1.000 almas -, não dispunham de energia elétrica, a água era retirada de fontes submersas alcançadas por poços escavados na terra e rocha. Aliás pela mesma corda que subiam os baldes com água, descia a cesta de carne e alimentos perecíveis que exigiam menor temperatura para conservação. Mais um dia principiava morno e calmo, como de resto era o ambiente do cotidiano de todos os que tinham a ventura de habitar a pacifica “Villa de Capinzal”. Registre-se que não existiam Bancos, e a moeda circulante se contava em Mil Reis, cujas cédulas de tamanho descomunal e patacões de prata passavam de mão-em-mão. 55


Somente uns poucos mais astutos, conseguiam amealhar um mínimo a mais que a grande maioria. O trem, com passagens irregulares pela manhã e tarde, se constituía na única opção de transporte e até mesmo de comunicação com outras localidades paradigmas, eis que assemelhadas em tudo e por tudo. A vida corria lerda, e na pequena saleta da Delegacia de Policia, um emigrante de italiano madrugava, de cuia de chimarrão e chaleira de água quente á mão; sentando á frente de uma pequena escrivaninha, onde se espalhavam papéis em desordem e alguns sebentos, amarelados pelo tempo. A casa na verdade era de moradia, construída em dois pavimentos: o primeiro de tijolos de barro cozido, vermelhos e de tamanho avantajado, e 56


fora do comum; o segundo piso, era de madeira serrada em tábuas mata juntadas; os dois pavimentos eram ligados por uma escada de tijolos, aos fundos. Na pequena saleta funcionava a Intendência de Policia, e o seu titular respeitado por todos os habitantes como autoridade policial era Inspetor de Quarteirão, nome herdado do império português, encontrado nas Ordenações do Reino ao tempo do Brasil Colônia. AS AUTORIDADES LOCAIS

Na localidade, distante muitos quilômetros da sede do Município, duas autoridades eram responsáveis pela boa convivência popular, o Pároco, que cuidava das coisas de Deus e o Inspetor de quarteirão que cuidava das coisas dos homens.

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Do primeiro pouco se sabia, eis que, como anacoreta, vivia enclausurado na Casa Paroquial, mas do segundo, o italiano Toni, era um homem austero, que cumpria e exigia de todos o cumprimento de seus deveres, dele se falava muito, bem ou mal, dependendo sempre do lado em se estava...dentro ou a margem da lei! O CRIME

Aquele dia seria marcado por acontecimento inusitado, que quebrando a rotina de todos, jamais seria esquecido. Aninha, a filha caçula de Seu Vitório, dono da venda9 da ponte – como era conhecida a modesta loja que servia a população, localizada na cabeceira da ponte do pequeno rio que cortava a vila -, como acontecia 9

Venda era uma pequena casa de comercio, que sendo a única da vila, ali eram comercializados os produtos produzidos na região e onde as pessoas compravam os alimentos básicos, açúcar, sal, café, etc. 58


todas as manhãs, acordara bem antes do sol nascer, para cumprir a primeira tarefa daquela sexta feira, ou seja, ir a casa de Seu Beltramini, buscar leite, para o café. A pequena Aninha, com a alegria e a vitalidade de seus 11 anos de idade, andava rápido, cantarolando um canto que aprendera na Igreja, pois fazia parte do pequeno coral de cantores que animava as missas aos domingos. Passando por um lugar ermo num mato ralo de capoeira, onde onde a estradinha de roça se estreitava fazendo uma curva, foi surpreendida por um desconhecido, que deixou seu corpinho despido, numa poça de sangue, violentada e assinada cruelmente. Um trabalhador cedo seguia pelo rumo a sua roça, corpo sem vida;

humilde, que mui mesmo caminho deparou com o deixando cair a 59


enxada que levava ás costas, correu pela rua principal gritando: -Mataram a Aninha! Mataram a Aninha! despertando todos os habitantes do vilarejo, que aturdidos acorreram ao local. O CRIMINOSO

Quem foi, quem não foi, todos se questionavam, quem poderia cometer um crime tão bárbaro!...De repente a suspeita convergiu unânime: - Só pode ter sido o Gravata! Somente poderia ser aquele capeta amaldiçoado! Não restava a menor dúvida, foi o andarilho10, que há poucos chegara a vila , vindo pela estrada de ferro, não se sabe de onde, não portando documentos, era um ninguém...pior era um assassino estuprador de crianças. 10

Andarilho, pessoas paupérrimas, que sem quaisquer documentos caminhavam pelas estradas, chegando ás vilas pedindo comida...

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Seu Vitório, muito religioso e caridoso, acolhera o estranho, que parecia meio louco, embora trabalhasse, cumprindo pequenas tarefas braçais na sua pequena casa de comercio. Como mantinha sempre um pano velho no pescoço dizendo ser uma gravata, todos caçoavam dele chamando-o de GRAVATA. Tratava-se de fato de uma pessoa esquisita, meio engraçada era verdade, pois fazia todos rir com seus trejeitos e palhaçadas, especialmente quando alguém á guisa de gozação, lhe pagava um martelinho de pinga 11. O álcool o excitava e imediatamente começava a dançar e 11

MARTELINHO de pinga, pequeno copo próprio para servir cachaça, também conhecida por pinga, muito usado no interior, que tomado num só gole, identifica o assíduo bebedor, e que sendo forte o liquido, dá uma verdadeira martelada no fígado...

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fazer mil trejeitos e palhaçadas juntado curiosos e gozadores ao seu redor, que divertindo-se riam, a não mais poder. Aliás naquela vila, sempre tinha um palhaço, desaparecia ou morria um, logo aparecia outro... Mas agora era serio. O Gravata havia estuprado e assassinado um anjo inocente, era preciso fazer justiça, e todos a sua maneira, já o haviam julgado e condenado e gritavam:Vamos linchar o maledeto do Gravata! Lincha! Lincha!... Somente o Intendente de Quarteirão, pedia calma, parecendo não ter tanta certeza de que o Gravata era o assassino. A FUGA

É que o pobre diabo, acossado pela turba enfurecida, correu mato a 62


dentro; nisso ele era melhor que todos, e em louca disparada desapareceu no meio da selva, e ninguém conseguiu alcança-lo. O vilarejo transformou e a agitação era infernal, o ódio tomou conta de todos os moradores; no velório na casa de comercio, outra não era a conversa, senão a execução sumária do Gravata assassino, que continuava sendo procurado por um grupo de homens armados e dispostos a encontra-lo, embrenhados na mata densa. Em meio a lágrimas de dor, a inocente vítima foi conduzida ao Campo Santo, e o Gravata não foi encontrado, fugindo pela mesma estrada de ferro, que um dia malsinadamente chegara á vila... O crime feriu profundamente o sentimento de todos os habitantes da pacata e aturdida Capinzal. 63


Fracassadas as tentativas para localizar o assassino, a população passou a cobrar da autoridade policial o cumprimento do seu dever de localizar e punir o estuprador. A pequena sala da Intendência Policial, tornou-se local de acirradas admoestações, diariamente ali se dirigiam inúmeros moradores, para exigir a elucidação do bárbaro crime. -Queremos justiça! Queremos justiça! Gritavam uma noite dezenas de pessoas, numa procissão á luz de velas, que se deteve por algum tempo á porta da Intendência Policial, e seguiu barulhenta indo até a Igreja Matriz, onde não faltou o sermão do Pároco, criticando a inércia e o despreparo do Intendente de Policia. Havia quem jurasse que foi o Pároco quem organizou o séqüito belicoso contra o Intendente... 64


Na verdade a modesta autoridade policial tinha um assassino certo, e alguns insuspeitáveis, suspeitos...o assassino certo era o Gravata, que sumiu no meio do mato, já os insuspeitáveis suspeitos eram quatro pinguçus12, que no dia em que a menina foi assassinada, estiveram bebendo e jogando quatrilho, a noite toda na casa comercial de Seu Vitório. Mas Deus nos livre, nenhum deles poderia ter cometido tamanha barbaridade, pois um deles era o Seu Vitório, pai da vítima; o outro seu tio Melquiades, um velho octogenário; o terceiro, era o Seu Desidério, fabriqueiro13 da igreja; e o terceiro, um tal Francisco que era empregado de Seu Desidério, e até meio enteado deste, que gozava de grande estima e 12

PINGÚÇU, eram pessoas dadas a bebedeiras nos finais de semana, quando se reunião para jogar quatrilho e beber vinho a mais não poder... 13

Fabriqueiro, pessoa respeitável da comunidade encarregada de promover as festas religiosas, auxiliando diretamente o Padre Vigário. 65


consideração na comunidade, pois era exímio “tocador de violão”, encarregado de ensaiar o coro da igreja, e até mesmo servia como coroinha, servido as missas de domingo. Lançar suspeitas sobre os tradicionais moradores do lugar, era coisa que nem passava pela cabeça das pessoas, muito menos por parte do Pároco, que criticava abertamente a teimosia do Intendente de Quarteirão, que demonstrava não acreditar que o Gravata seria o autor da atrocidade. OS SUSPEITOS

Feitas da “diligencias“, constatouse que no dia do assassinato, mal amanhecera o dia, Melquíades e Seu Desidério, duros de trago, saíram juntos da venda, seguindo pelo mesmo caminho eis que são vizinhos de porta.

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Seu Vitório, o mais bêbado de todos, mal conseguira chegar ao seu quarto, para desabar sobre a cama. Não foi difícil ao solitário e esperto Intendente de Quarteirão, chegar, por exclusão, ao suspeito número um, ou seja, Francisco. Usando da persuasão coativa, tão utilizada naquelas paragens, com ajuda de alguns moradores mais dispostos da localidade, pegaram Francisco; que foi “levado aos costumes”14, depois de uma “prensa daquelas”15, qual não foi a surpresa de todos ao ser obtida a confissão pelo acusado. A CONFISSÃO

A revelação foi aterradora, aos prantos o assassino que se dizia arrependido, atribuía a maldita da 14

Levar aos costumes, significa submeter o acusado a um rigoroso interrogatório. 15 Idem, nota supra.

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cachaça a bestialidade:

causa

de

tamanha

-Naquela noite -confessou- bebi demais e o diabo tomou conta de mim; só pode ter acontecido isso, para que eu pudesse ter coragem para fazer uma barbaridade daquelas, quero pagar pelo crime que cometi, eu sou o culpado, eu estuprei e matei a menina, eu matei a pobrezinha da Aninha; que Deus me perdoe! Gritava aos prantos. Somente o bom senso e a experiência de vida do Intendente de Quarteirão, evitou o linchamento do assassino confesso, que no lombo do cavalo da Intendência, foi levado, sob escolta policial, para a sede do município, distante 60 quilômetros, onde foi trancafiado até o julgamento condenatório. 68


Soube-se anos mais tarde que o pobre e injustiçado Gravata, teria chegado ferido numa vila distante, onde acabou morrendo como indigente, sem que jamais tenha sabido ao acerto porque foi perseguido e sem dar oportunidade a turba enfurecida de desculpar-se pelo terrível erro cometido... Todos se equivocaram, todos não pois o astuto Intendente de Quarteirão, que na madrugada daquela sexta feira, deixara seu chimarrão, dirigindo-se ao ranchinho onde o Gravata dormia, instou-o a fugir, evitando assim o linchamento. Quando indagavam ao Intendende de Quarteirão, como pode ter tanta certeza de que o crime não fora cometido pelo Gravata, dizia com a voz calma de quem realmente sabia das coisas... 69


- POIS É SIMPLES! QUEM ESTÁ DORMINDO NA HORA DO CRIME NÃO PODE MATAR NINGUÉM...” A “VAIA” DO FIM DA HISTÓRIA

Quando o nosso narrador improvisado, aliás, um dos mais idosos e respeitáveis freqüentadores do Morrinho da Preguiça, acabou de contar a história e recebeu uma sonora “vaia”, não porque não fosse boa, mas porque era comprida demais, roubandonos tempo precioso de dolce far niente...

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Nh a J u lia , e a c e r t e z a d e q u e D e u s s e mp r e e s t e v e e nt r e os h u mild e s

NHA JULIA, vestia roupas esfarrapas, era sempre encontrada bêbada a cada fim do dia, dormia as vezes nas valetas das ruas, alimentava-se de migalhas de comida, mas tinha um imenso coração...DEUS era a sua palavra predileta... 71


A idade de N

HA JULIA,

ninguém jamais conseguiu saber, pois ela nunca portou documentos; mas os moradores mais antigos da vila, juravam que contava mais que cem anos de vida...e que vida, meu Deus! Magra, quase esquelética, vestia sempre roupas rotas de cor preta, assim como era sua pele, e era uma figura popular a quem todos devotavam muito carinho: - Não,

sinhô, não precisa ter pena de mim, porque eu bebo e não morro,...é que DEUS tá sempre comigo, meu fio.

Dizia, sempre que alguém de alguma forma demonstrava-se 72


penalizado com sua situação de permanente abandono e franciscana

pobreza.

Todos a chamavam de NHA JULIA, e ninguém lhe negava um prato de comida, e ao que se saiba, também não lhe era negado uns trocados1, para comprar na sua pinga1 na bodega do Vendramini; até porque divertia a todos com sua, dança amalucada e um jeito gozado de falar. Na verdade tinha um sotaque1 da gente do norte do País, o que leva a concluir que deve ter vindo de muito longe, talvez até mesmo da Bahia. A criançada se alegrava, com a trejeitos divertidos da NHA JULIA dançava, pulava , parecia uma menina de 10 anos de idade, sempre rindo deixando a mostra uma carreira de dentes bancos numa demonstração visível de que DEUS de quem ela não cansava de falar, dotou-a de uma 73


dentição, sadia de deixar qualquer bom dentista de boca aberta. Era definitivamente uma figura terna, meiga e doce, que o destino não havia poupado, submetendo-a a uma vida duríssima cuja saúde de ferro, por certo não era proporcionada pelos restos de comida com que se alimentava, mas pela danada da cachaça, que sorvia como se fosse água pura. As vezes era encontrada num casebre localizado próximo ao Frigorífico da Ouro, onde convivia com uma família, todos na mais completa miséria. Quando NHA JULIA, recebia algum alimento, antes da noite e se possível ao meio dia, sempre voltava para junto daquela família humilde, para onde levava as espórtulas recebidas de pessoas caridosas: - DEUS, é pai

bom mesmo, deu p’ra mim e deu 74


p’ra nois esta comida...vamo comê meus fios... Era pouco, por certo, quase nada, mas distribuída por mãos generosas, e por um coração imenso de bondade, cujo brilho transparecia no sorriso alegre emoldurado por um semblante sofrido e por dentes brancos como pérolas, cultivadas nas profundezas do mar azul.

- DEUS, te ajude meu fio...era a

moeda com que sempre pagava qualquer gesto de bondade, que recebia; DEUS, é pai...- DEUS é tão bão meu fio...parece que ainda hoje, NHA JULIA16 , perambula pelas nossas ruas, tal é a ternura com que a temos viva em nossa lembrança.

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Hoje posso confessar, que a NHA JULÍA, aos meus olhos de criança sempre foi UMA SANTA DO CÉU, PROFANIZADA PELO VÍCIO DA CACHAÇA. Na verdade, era assim que eu via, e que se constitui num segredo bem guardado, porque se falasse isso em minha casa, receberia uma carraspana monumental... 75


Contava-se sobre ela histórias incrivelmente belas, mas que mais me tocava, era contada pela nossa mãe, sempre que desejava nos exortar a tratar bem nossa NHA JULIA ; dizia então mamãe, que um dia um moleque17, jogou uma pedra na NHA JULIA causando-lhe um pequeno ferimento e uma das pernas, e ela foi procurar o pároco da cidade, e entregando-lhe a pedra disse: Óhia, Frei Tito, o que, que um guri te mandô para você usá p´ra fazê a Igreja18 . Se na verdade o bondoso Padre usou a pedra para a edificar a igreja, ninguém sabe, mas certamente segurando a pedra em sua mão, agradeceu a Deus por existirem no mundo pessoas generosas e boas como aquela.

17

Moleque, menino dado a fazer travessuras e maldade infantis.. No fundo, no fundo, sabíamos que o fato era de domínio universal, mas quem sabe, se não foi realmente nossa NHA JULIA, que deu origem a tão belo exemplo de amor e bondade? 18

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NHA JULIA, não era uma mulher

maltrapilha e andrajosa, bêbada e inconveniente; para todos nós era apenas a NHA JULIA, a negra boa, que nos fazia rir, vivendo a vida a seu jeito...era feliz?? Certamente que feita a avaliação pelas péssima condição existencial, vivendo da caridade pública, alcoolizada, dormindo ao relento, o desconforto físico, causava-lhe dor e sofrimento, portanto materialmente não podia ser feliz; todavia a julgar pelo seu relacionamento carinhoso, seu sorriso sempre iluminado, aberto e acolhedor, e acima de tudo por sua repetitiva invocação do nome de DEUS, não há como se deixar de reconhecer que era uma pessoa iluminada e FELIZ. Sob a evocação de sua lembrança lembramos a história universal e do imperador Fernando II, que sempre ao sair de seu palácio era abordado, pelo caminho, 77


por uma legião de pobres e a todos procurava socorrer. Andando certa vez, a caça, parou numa pequena choupana e logo se aproximaram muitos pedintes, entre os quais alguns enfermos, sujos andrajosos, que encheram a pequena morada. Um criado do imperador mostrou-se receoso de que lhe houvesse perigo de contágio, tendo-lhe o monarca respondido mui alegre:

- Não pode faltar DEUS, onde estão os pobres.

Até mesmo São Francisco de Assis, a quem foi perguntado, qual a maior virtude que podia nos aproximar de DEUS, respondeu sem hesitar: - ”A pobreza

meus irmãos. Ficai sabendo que a pobreza é, por excelência, o caminho da salvação, pois a vida da humildade é a raiz da perfeição. Os seus frutos estão ocultos, é verdade, mas são numerosos”.

Estou certo que esta é a grande lição que a NHA JULIA, deixa para todos nós, ninguém é por demais pobre, que não tenha alguma coisa 78


para dar, e sempre que tivermos a humildade de nos aproximar dos pobres e dos necessitados, socorrendo-os, recebemos deles o que mais necessitamos e o que de mais precioso eles possuem: a presen莽a e

a miseric贸rdia de DEUS!

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A p ont e p ê ns il e a me mor á v e l l iç ã o d e S e u B e r t o.. .

SEU BERTO, era um lavrador humilde mas dotado de personalidade invejável, e transitando com sua charrete, através do símbolo das cidades de Capinzal e Ouro, - A PONTE PENSIL - , protagonizou um fato que serve de exemplo para todos nós...

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O

vaivém nas ruas das duas cidades clonadas pela geografia, que as fez nascer gêmeas ás margens do Rio do Peixe, Ouro e Capinzal, era monótono. Alguns veículos modelo Ano 46 ou até do último modelo 49, circulavam pelas ruas de terra, competindo nos cruzamentos com cavaleiros, carretões e charretes. A ligação umbilical entre as cidades irmãs, era a bela e utilíssima PONTE PENSIL. O límpido Rio do Peixe, desde seu nascimento nas encostas ao norte do território catarinense, não tinha suas margens interligadas, ainda por uma obra tão arrojada; era única, ímpar na sua concepção arquitetônica, a 81


primeira PONTE PENSIL, a unir as duas margens do rio. Registra a história, que o extraordinário Padre Michelizza, tão empreendedor quanto pregador da palavra de Deus, compadecido com o sofrimento das pessoas, que perigosamente se aventuravam na travessia obrigatória do Rio do Peixe, em canoas improvisadas, tomou a iniciativa de construir uma ponte interligando Capinzal e Ouro. Uniu seu talento a genialidade de José Zortéa, que em sua marcenaria, fez uma maqueta, da ponte idealizada, e com ajuda comunidade deram inicio a obra. Corria o ano de 1928, e os recursos técnicos e financeiros eram absolutamente nenhum. De alguma forma adquiriram os resistentes cabos de aço, que serviam á sustentação dos Bondinhos de acesso ao Pão de Açúcar no Rio de Janeiro; 82


tratava-se de material perfeitamente aproveitável, eis que a troca era feita preventivamente por questão de segurança. Eram cabos de aço de primeira qualidade, cujo transporte foi feito através da ferrovia que ligava o Rio Grande do Sul ao norte do País. Com tecnologia e mão de obra, local, uma plêiade de capinzalenses e ourenses, deram inicio a obra, construindo grandes pilares, um em cada margem do Rio do Peixe, usando uma composição de pedra, areia e cimento. Para receber o estrado de madeira, que servia como pista para o tráfego, a estrutura de ciclope bifurcava-se em dois pilares que se elevavam por mais 30 metros, para se unirem ao alto numa viga de sustentação de quatro roldanas de ferro, que serviam de berço para os grossos cabos de aço, 83


fixados em uma e na outra margem do rio, em sapatas de concreto em número de quatro, sendo dois na parte superior das pilastras e dois sob o piso de madeira, interligados por ferros que prendiam os cabos inferiores aos superiores, formando assim uma estrutura de ferro única enrodilhada e compacta. A lastro de madeirame da pista que media 4 metros. de largura, estendiase por 250 metros, com caibros de madeira de lei, na medida de 3x6, fixados nos cabos de sustentação por braçadeiras e parafusos. De inicio a travessia era destinada a pedestres, cavaleiros e carroças, todavia com o passar dos anos, foi adaptada para a travessia de automóveis e caminhões. Tratando-se de uma via de passagem restrita de veículos e carroças, quando um deles iniciava a 84


travessia imediatamente o outro aguardava sua vez; era uma forma costumeira de conduta, que todos aceitavam com urbanidade, denotando a índole dócil e pacifica de todos os moradores das cidades irmãs. Mesmo quando o caminhão da Comercial Baretta, ou da Indústria Ouro, - os únicos existentes na época -, efetuavam a travessia, os pedestres que se encontravam sobre a ponte, apenas se encostavam na tela lateral, ouvindo aquele BREEEEÉÉÉÉ’, infernal, e a carroceria do pesado veículo passava rente o peito das pessoas... Por mais inacreditável que possa parecer, para nós que acostumamos a conviver com nossa PONTE PENSIL, era prazeroso esperar o momento em que um caminhão iniciava a travessia, para corremos para o meio da ponte, e ficarmos encostados na tela lateral, ouvindo o trepidar dos pneus sobre o 85


madeirame do assoalho, cuja curvatura se invertia, abaixando na flexão proporcionada pelo deslocamento dos cabos de aço nas roldanas de ferro. Loucura?...não, apenas uma forma alegre de viver num tempo onde as coisas aconteciam naturalmente, as pessoas eram boas e felizes; pois, pasmem todos, nunca se soube de um acidente por atropelamento no vaivém de nossa PONTE PENSIL. Mas voltemos ao SEU BERTO, que morando na então Villa OURO, mais precisamente na SIAP, ás margens do Rio do Peixe, diariamente conduzia sua charrete, para levar leite, frutas e verduras que vendia em Capinzal. Certo dia depois de aguardar pacientemente, a passagem de alguns cavaleiros, certificando-se que pelo outro lado da ponte, não vinha ninguém, iniciou a travessia com sua charrete... Pois bem, quando já 86


passava o ponto que marcava o meio da ponte, no lado da Villa de OURO, eis que uma flamante limouzine, iniciou a travessia... O automóvel de ultimo tipo, ocupava toda a largura de passagem, e surgiu o impasse, nem a charrete e tampouco o automóvel podiam se mover. O motorista do veículo, com placas da cidade de origem, (todo mundo afirmava que era de Concórdia, uma próspera cidade próxima), parou sobre a ponte, e o motorista vestido de forma a identificar seu ocupante como um rico empresário, foi logo dizendo:-

Então você, não está vendo, que eu tenho que atravessar a ponte? Vai tirando essa carroça daí, senão eu passo em cima de vocês dois!... Era certo que o prepotente mal educado, se referia aos dois...o burro que puxava a charrete e o seu condutor! 87


Seu BERTO, com a paciência que Deus premia as pessoas boas e humildes ainda ponderou: - Mas seu

moço, é costume aqui que quando um veículo, entra na boca da ponte de um lado, o outro fica aguardando, porque como o amigo vê, não dá p’ra passagem de dois carros, então como o meu burro não dá ré, e eu já estou do meio para o fim da ponte o amigo, vorta, e nois passamo os dois sem probrema.

A história que passou de boca em boca, e a que ficou registrada, como verdade, é que, o figurão, em tom de discurso de eleição foi logo descascando:- Eu não vou dar ré,

coisa nenhuma, e se você não tirar essa coisa a ponte, eu vou passar por cima.

Seu BERTO, era daqueles que embora vivendo na boa paz, jamais se separava do seu facão, feito no 88


capricho na Ferraria do Segalin, e que carregava sempre na charrete e com ele na mão, cortando o ar como sabão, foi dizendo:- Pois agora é você que

vai respeitar nosso costume, e vai dando ré, se não quisé virá bife, seu merd... .

Não é preciso dizer que, o figurão deu de ré, a passagem foi desobstruída, e a PONTE PENSIL, testemunhou a grande lição, dada pelo Seu BERTO:- Um homem humilde

na sua razão, faz do prepotente, o mais submisso varão...ou ainda como,

terminava

a

história

no

MORRINHO DA PREGUIÇA...- O Seu Berto de facão, deu no ricaço um, baita corridão...

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Nos s o c a s a me nt e ir o C ine e

Te a t r o F a r r ou p ilh a . . .

Nosso Cine e Taetro Farroupilha, ligando o antigo ao moderno, chegou a modernizar-se recebendo tela oval, projetores modernos, o assoalho foi inclinado, e as cadeiras da Cimo, individuais e com encosto, dona Regina Spadini, cuja lembrança por sua bondade nos é extremamente saudosa, já não vendia mais os bilhetes de ingresso, e numa noite tragicamente lembrada pelos Capinzalenses Ourenses, , um incêndio destruiu o casarão, e a riqueza imensa de pinturas e recordações somente permaneceu na memória e no coração e na saudade de todos nós.

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Ela era sem duvida uma jovem

adorável, com o coração disponível para amar, pulsando aos 18 anos de idade. O pai talvez, por se julgar um abastado empresário, não permitia que se aproximassem da filha, que desejava ver casada com alguém dotado de igual ou maior fortuna que a sua. Nem sequer podia imaginar que furtivamente se encontrasse com um jovem que não tinha dinheiro e nem qualidades para antever-se um futuro medianamente promissor, nem mesmo como remediado empresário: o filho do Toni! Mas no escurinho do cinema, ninguém policiava ninguém, a filha do magnata e o filho do Tóni, se 91


encontravam nos matinês19 Farroupilha.

do Cine

O cinema pertencia a Família Spadini; cujo patriarca Leonardo Spadini, dotado de tino empresarial impulsionava já naquela época uma indústria de torrefação, moagem de café e fabricação de sabão e sabonete; homem de notável cultura lia bons livros a possuía invejável biblioteca; o que sem dúvida o levou a construir o Cine e Teatro Farroupilha, para projeção de filmes e apresentações teatrais, eis que o cinema, assim como o teatro, era como ainda é, fonte cultural. Afinal, quem não se recorda nos seus mínimos detalhes do primeiro cinema construído numa vila ás margens do Rio do Peixe, nosso 19

Nos domingos á tarde era realizada uma sessão para a juventude, sendo fechadas as janelas, o ambiente ficava as escuras, e a projeção que por certo iluminava tenuamente o ambiente era cortada por paradas para trocar o rolo de filmes, e o escuro era total, proporcionando ambiente ideal para os mais apaixonados afagos e beijos...longe das vistas doa pais é claro... 92


imponente e Farroupilha.

querido

Cine

Teatro

A denominação dada nos idos de 1930, foi inspirada na refrega libertária que teve como palco o vizinho Estado do Rio Grande do Sul, onde por certo, participaram tantos e tantos catarinenses e brasileiros. O imenso casarão foi construído totalmente com madeira de pinho araucária, possivelmente serrado na própria Villa de Capinzal. Estava edificado na confluência da Rua XV de Novembro e Don Vicente Gramazzio, num declive que fazia com que soleira da porta principal do primeiro piso coincidisse com o nível da rua XV de Novembro, erguendo-se sobre um piso de subsolo onde funcionava a Fabrica de Sabão, e o andar superior assobradado, acomodava o amplo salão do cinema. 93


O grande casarão, dominava a rua principal, coberto de zinco, com janelas que se abriam ao longo de todas as paredes, no primeiro e no segundo piso, vedadas as superiores por ventarolas maciças, que eram fechadas impedindo a entrada de qualquer claridade. As paredes externas eram protegidas por taboas largas cujo comprimento sem emendas, cobriam a distancia do primeiro ao segundo piso no caixarío da platibanda junto ao telhado, o que comprovava comprimento descomunal das árvores de araucárias de onde foram serradas. Entrava-se na imponente Casa de Espetáculos, por uma generosa e larga porta que, abria para a rua XV, servida por ampla escadaria de madeira nobre, talvez imbuía, igualmente retirada da mata local. 94


Ao pé da escada, logo na entrada, ficava uma pequena balaustrada de madeira, ali Dona Regina Spadini, vendia os bilhetes de ingresso, ao tempo em doava gratuitamente, a ternura de um semblante acolhedor, e um sorriso de boas vindas, marcado pelo carisma que Deus premia os filhos que mais ama. No primeiro lance de subida a uns vinte degraus acima da soleira da porta, havia um patamar assoalhado, que recebia um segundo lance de escada de igual numero de degraus. Neste patamar que ao mesmo tempo servia de descanso, unia-se o segundo lance de degraus que convergia abruptamente para a direita, de forma a não ocupar espaço no amplo salão a que dava acesso. Na parede interna, exatamente recepcionando aos que subiam a escada, um artista da mais rara 95


sensibilidade, pintou a mais encantadora fina e artística figura de um ENCANTADOR DE PASSARINHOS. Ainda hoje está impresso em nossa memória, a magia daquela figura humana, sentada á sombra de uma árvore cujo tronco servia-lhe de encosto; tratava-se de uma figura singular, de semblante alegre e feliz, segurava nos lábio uma longa clarineta dourada ( flauta mágica! ), comprimindo com os dedos de ambas as mãos os orifícios das notas musicais do gracioso instrumento musical. A figura do flautista se projetava da direita de quem subia para a esquerda a partir do inicio da parede, de forma que os ramos da árvore cuja copada não alcançava o teto, era inteiramente tomada por passarinhos... pequeninos e belos passarinhos de todas as cores e dos mais belos matizes. 96


Alguns deles, como que encantados pela música do flautista esvoaçavam sobre seu instrumento musical, e até mesmo no alto de seu chapéu de ponta alta, que lembrava uma grande chapéu de abas largas e afunilado. Na entrada de nosso Cine Farroupilha o gênio artístico, possivelmente do mesmo pintor desconhecido, reproduziu um pedacinho do paraíso fazendo encontrar-se o ser humano, a música, as árvores e as aves do céu numa sinfonia mágica, cuja imagem é indescritível.20 Sem dúvida era um espetáculo, mágico, sem igual, e durante tantos anos por mais que tenhamos nos esforçado, jamais encontramos reprodução de beleza e encantamento longevamente semelhante... 20

Obs: Por mais que nos tenhamos nos esforçado não conseguimos passar a imagem do quadro para nossos artistas contemporâneos, á guisa de obter-se uma reprodução fidedigna, como sempre foi nosso desejo 97


O SALÃO DO CINE FARROUPILHA

Na parte superior abria-se um amplo salão, dividido nos fundos, logo no alto da escada, por uma sala sem janelas, todas revestida por flandres de ferro, que a protegia contra o fogo, pois ali estava instalada uma antiga máquina de projeção de filmes. A máquina de fabricação estrangeira, recebia uma bobina de filmes, banco e preto, que girando em seu interior, fazia um barulho imenso, enquanto que seus quadros de fotografias seriadas eram passados por um raio de luz intermitente gerada pela queima de carvão ativado, que gerava no interior do ambiente um calor insuportável. O calor gerado pela queima do carvão, era amenizado por um respirador de metal que ligava o teto 98


da sala forrada de lata, ao alto da cobertura do prédio; de qualquer maneira somente o operador nosso paciente Biavatti, tinha acesso a sala de projeção, cuja imagem dos filmes finalmente eram projetados por uma pequenina abertura cuja luminosidade se projetava até encontrar uma tela plana, na parede da frente do salão onde se sentava o publico. Pelos lados da sala de projeção instalavam-se as famílias mais abastadas, em camarotes reservados, protegidos por cancelos, sustentados por pequenas colunatas trabalhadas em madeira nobre em que foram artisticamente torneadas. A frente separado por um pequeno corredor, eram colocados em fileiras cadeiras de palha, onde sentava-se o público; primeiro separadas, mais tarde pregadas umas as outras por duas ripas guias, o que desde logo denota-se que os antigos 99


freqüentadores portavam-se mais educação...

com

No teto, haviam pinturas fantásticas, e sobre o palco, quatro cavalos, brancos atrelados a uma biga romana, conduzida por um hercúleo soldado, com reluzentes vestimentas de guerra, segurando os pares de rédeas com a mão esquerda; ao tempo em que com a mão direita timbrava um imenso chicote, cujo tento21 ameaçador estalava no dorso de dois fogosos e indóceis cavalos brancos. Tudo o que se possa descrever, não será mais que uma pálida e pouco inteligível imagem das pinturas emolduradas pelas paredes internas do salão do Cine Farroupilha. Quem acompanhou a história de Capinzal, sabe da importância dessa 21

.O chicote era composto por uma cabo de madeira no qual estava fixado uma imensa tira de couro cru, que estalava no ar, e tangia os animais causando-lhes dores ao tocar o couro na sua parte lombar, esse couro cru era conhecido como TENTO... 100


vetusta e bela casa de espetáculos, que primeiramente somente aos sábados reunia a população adulta para uma sessão vespertina, e aos domingos á tarde para a as crianças e jovens. Os filmes eram anunciados, através de um “cartaz falante” que, vestia duas placas com grandes fotografias com cenas do filme de um lado, e o nome do filme escrito em letras garrafais do outro; assim desfilava pela rua XV, gritando a plenos pulmões na embocadura de um longo funil de lata, que aumentava o volume da voz, rouca e forte do anunciante. Lembro com terna saudade, que descalço, corria pela rua XV de Novembro inteira, acompanhando o ruidoso anunciante, e olhando as fotografias do filme... Quando não tinha dinheiro para pagar o ingresso, as fotografias passavam pela minha mente, e eu 101


criava um roteiro imaginário...lembro que sempre pedia aos meus amigos, para descrever o filme que não pude assistir...e ficava feliz, convencido de que o, meu roteiro próprio imaginário, era melhor... A maneira de conseguir uns trocados para comprar ingresso, era saber com antecedência qual o filme do domingo á tarde: se era de bangbang, eu entrava sorrateiramente na marcenaria do Vovô Zortéa, exatamente quando ele dormia, após o almoço, ligava a serra-fita e fabricava, uma porção de revolveres de madeira, para vender para meus amigos...já, se o filme era de Tarzan, entrava no mato que tínhamos no fundo do terreno de nossa casa, e calmamente fazia alguns arcos e flechas, usando o barbante do correio da Tia Maria...e as espadas! Bem, estas não tinha jeito, entrava na marcenaria do Vovô Zortéa, e fazia muitas espadas num piscar de olhos, depois era só vender 102


para meus amigos, e o dinheiro para pagar a entrada e o pacotinho de amendoim torrado ou pipoca estava garantido...è claro, sempre reservava armas para mim...que tempo bom, meu Deus! Aos domingos, quando o filme era de bang-bang, saiamos correndo do cinema e íamos direto para a construção da Igreja, brincar de “camoy-aí”, armados com revolveres de madeira. Se o filme era de espadachim, terminava a projeção e nos corríamos para a beira do rio, bater espadas, com nossas espadas de madeira; já quando o filme era de TARZAN, não tinha sol e nem chuva que impedisse, nos corríamos para a chácara do seu Macarini, trepar nas arvores e balançar nos cipós, comer ariticum, pitanga, guavirova, e até viludinho, afinal era a nossa selva particular... Lembro que impecavelmente

as casas faxinadas 103

eram aos


sábados, e a comida especial do domingo era preparada com esmero, e todos acorriam para ver o anunciador noticiar o filme da noite, somente visto pelas pessoas adultas e casais de namoro firme. A projeção do filme, era dividido em varias partes, num tempo que mediava entre trinta minutos de projeção cada uma, num total de duas horas, e os intervalos, usado para comentários sobre o enredo do próprio filme, tinha a duração de quinze minutos, o bastante para desenrolar uma fita e enrolar a outra...nisso o Biavatti era, muito bom mesmo, pois graças a sua habilidade o intervalo não passava de 10 minutos. O intervalo era uma festa, todos levantam da cadeira de palha, formavam-se pequenos grupos, contavam-se piadas, o vendedor de pipoca e amendoim, vendia todos os pacotes que leva em pequenas 104


bandejas de madeira. Se era de dia as janelas eram abertas para refrescar e iluminar o salão, e a noite por permanecerem abertas as janelas, formavam-se os grupos defronte a elas, e até mesmo para acenar para os parentes e conhecidos que na frescura da noite levavam cadeiras para se sentar formando uma pequena platéia, no meio da rua, na esquina das ruas XV e Dom Vicente Gramazzio, assistindo pela janela o filme...ou o que dava para ver do filme... Aos sábados a noite depois da missa vespertina e da limpeza das casas, ir ao cinema fazia parte da vida e dos costumes dos capinzalenses e ourenses...que vida boa, meu Deus! O EDÍLICO ESCURINHO DO CINE FARROUPILHA

Tudo iniciava por um encontro de olhares na Missa da Igreja Matriz, pois 105


ali as moçoilas resplandeciam usando seus melhores vestidos, bem penteadas e discretamente maquiladas. Os mais sortudos, podiam até trocar uma poucas palavras num descuido dos pais, protegidos por uma das imensas colunas defronte a igreja, eram poucas e decisivas palavras: -Você vai ao cinema hoje á

tarde? Eu te espero na escada, tá?

Se não era amizade, podia saber que o encontro acontecia, sob o olhar feliz e sorridente do Encantador de Passarinhos...os dois trocavam um olhar a jovem entrava no salão do cinema, enquanto que o pretendente esperava apagar a luz, e depois a acostumar a vista com o escuro, - porque no inicio ficava tão escuro que nem dava para caminhar . Como a jovem já combinara com suas amigas e deixara uma cadeira 106


reservada ao seu lado, o candidato a namorado se sentava, e nervoso, iniciava o dialogo: -Tudo bem? Puxa

pensava que Você não viesse, posso segurar a sua mão?

Era mais um encontro, que o escurinho do Cine Farroupilha transformava num casamento com final feliz... O número de casamentos que o escurinho do Cine farroupilha tornou-se cúmplice; somente Deus sabe a conta... Uma coisa é verdade a filha do magnata e do Tóni, integram esta deliciosa e feliz estatística, pois namorando, primeiramente ás escondidas no escurinho do cinema, aprenderam a se amar, terna e profundamente, e casando-se construíram juntos um lar feliz, abençoado por filhos maravilhosos e uma existência plena de felicidade.22 22

Nosso Cine Farroupilha, mais tarde chagou a modernizar-se recebendo tela oval, projetores modernos, o assoalho foi inclinado, e as cadeiras da Cimo, eras individuais e com encosto, 107


dona Regina Spadini, cuja lembrança por sua bondade nos é extremamente saudosa, já não vendia mais os bilhetes de ingresso, e numa noite tragicamente lembrada pelos Capinzalenses e Ourenses, , um incêndio destruiu o casarão, e a riqueza imensa de pinturas e recordações somente permaneceu na memória no coração e na saudade de todos nós. 108


A a s s omb r a ç ã o d a c or r e nt e d o c a c h or r o ...

O Compadre morava, pelos lados do Frigorífico da Ouro, e na escuridão da noite na volta para casa veja o que aconteceu...

109


Se havia um local onde ninguém

tinha coragem de passar á noite, era defronte ao Colégio Velho das Irmãs, abandonado por mais de 10 anos; e todos juravam ter visto assombração naquele lugar... É incrível que se possa afirmar ser mal assombrado, um histórico casarão de madeira, construído no alto do morro, bem próximo da Igreja Matriz, que sempre fora habitado por religiosas...mas era o que se falava! Naquele local, por longos anos fervilhava a vida, onde era ministrado o ensino de primeiro e segundo grau a todos os jovens de Capinzal e Ouro. Quem não lembra da Dona Olímpia, ministrando aulas com uma vara na mão, e do Seu Edu, que quando, por indisciplina, éramos chamados no gabinete do Diretor, nos 110


castigava, fazendo ajoelhar em grãos de milho, com os braços abertos, segurando dois livros em cada mão...É para vocês aprenderem a se comportar bem na aula, dizia, com razão. Nuca se soube bem porque, mas o colégio, foi desativado, e o imenso casarão mergulhou na mais profunda escuridão e silêncio. Era uma construção imensa, toda edificada em madeira de pinheiro araucária, centenas de janelas envidraçadas, colocadas de par em par, abriam para o vale do Rio do Peixe, cuja paisagem dominava. Educandário de excelente nível de ensino, dirigido pelas Irmãs da Congregação de Maria Imaculada, mais tarde foi demolido e em seu lugar edificado um moderno edifício em alvenaria, onde está instalado o atual Colégio Mater Dolorum. 111


Todavia nos idos de 1950, meu compadre então, jovem freqüentador do Morrinho da Preguiça, morava com o Avô, no lado sul da cidade, nas imediações do Frigorífico. Todas as noites, com a mãos enfiadas nos bolsos, o compadre, voltava para casa, cortando a escuridão, assobiando, desafinado e estridentemente, o último sucesso do saudoso Agostinho dos Santos. As ruas escuras não impediam que os jovens saíssem á noite, para um bom “bate-papo”, debaixo da marquise do Edifício Sanalma, ou quando tinha lua cheia no MORINNHO DA PREGUIÇA. Ao retornar para suas casas, pelas ruas sem iluminação, o assobio forte e estridente, tinha pelo menos duas finalidades: Informava a possíveis, e raríssimos transeuntes, que por ali caminhava uma pessoa, evitando 112


assim possível colisão; e ainda especialmente, para dar coragem, aos caminhantes, porque se o caminho era conhecido a ponto de se poder percorrer no escuro, podia muito bem aparecer uma “visagem”, e o assobio por certo afugentaria... A VERSÃO DOS GOZADORES DO MORRINHO DA PREGUIÇA...

Mas a conversa na roda do Morrinho da Preguiça, era que o compadre, subiu o morro do Colégio, passando pelo colégio mal assombrado, assobiando como um passarinho e medroso como era, nem olhou para o lado, em direcao do imenso casarão. Malsinadamente, mais à frente tinha que passar por um matagal cercado, por uma extensa taipa de pedras.

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Para dar coragem , bem na entrada do mato, o compadre, costumava chamar pelo cachorro que o Gigi mantinha preso a uma corrente, bem a margem do caminho, já que morava ali, e mantinha o feroz cão de guarda, que atendia pelo nome Branco. Próximo ao local onde saibia estar o Branco, o compadre assobiava com toda a força, a pelnos pumões: - Fuiiii, fuiiii, Branco, Branco, vem Branco, vem Branco... Fuiiii, fuiiii!.. . Costumeiramente o Branco, latia fazendo eco no mato, e o compadre armado com uma pedra na mão, apressava o passo, até a casa de seu Avô, onde morava, distante, cerca de 1.000 metros. Era tão conhecido do cachorro, que quando o medo apertava soltava o bicho da corrente, que o escoltava até sua casa, percorrendo a rua escura, pelo meio do mato. 114


Mas numa bendita noite o Branco, escapou com corrente e tudo, e o Compadre, tremendo de medo, chamou em vão pelo seu cão de guarda...que não veio! Sem outra alternativa, juntou todo a ar dos pulmões e lascou um assobio, de espantar fantasma, e iniciou a travessia do mato pela rua escura; pois tinha que voltar para casa no escuro mesmo... Mal começou a andar, e ouviu ser arrastada uma corrente, atrás da taipa de pedra entre o mato e a rua. Pelo amor de Deus, lembrou o compadre, todo mundo diz, que o lugar é mal assombrado, e que o Diabo se manifesta pelo ruído de corrente; pensou: É hoje que eu vou

ver o Capeta, com a corrente de arrasto! 115


Tremendo como vara verde, o compadre, dava um passo e a corrente fazia barulho no mato, o compadre parava e o barulho da corrente cessava...só podia ser “visagem”, a escuridão era total, e o medo fazia o coração do compadre sair pela boca... O compadre não teve dúvida, reuniu toda a força que tinha, e desandou a correr estrada a fora, na escuridão da noite, e a corrente atrás da taipa, acompanhando e fazendo uma barulheira danada... Chegou esbaforido, na casa, já sem fôlego, e gritou: ME ACUDA GENTE,

QUE O DIABO ESTÁ CORRENDO ATRAS DE MIM, ARRASTANDO A CORRENTE ATRÁS DA TAIPA! ME ACUDAM, PELO AMOR DE DEUS!

O Avô do compadre, acordou com a gritaria, e de cirolão, abriu a porta, e acendendo a luz do pátio, deparou com o compadre que chegava, numa corrida maluca. 116


O coitado do Branco, corria atrás do compadre arrastando a corrente, preso á coleira, igualmente assustado sem entender o que estava acontecendo. O Avô, foi logo gritando: - QUE DIABO QUE NADA, É O

BRANCO, QUE ESTAVA CORRENDO ATRAS DA TAIPA, ARRASTANDO A CORRENTE, SEU PIÁ DE MERD...

Sinceramente até hoje não sei como é que a turma do Morrinho da Preguiça, soube dessa história... mas quando era contada, o compadre não se controlava e mandava todo mundo “p’ra ponte que se partiu”...

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A r e v olu ç ã o q u e nã o a c ont e c e u , e a d e f e s a d a c id a d e . . .

A Rádio Farroupilha, foi tomada pelos revolucionários, que anunciava que do Rio Grande do Sul, partiam os revolucionários de trem para São Paulo, e Capinzal, era parada obrigatória, precisava ser protegida a cidade, o placo da usina tinha um plano, cramentaro, octidente, te peguei frésco, tiruraus, deu boa e digamos, acabaram encontrando a solução...

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Revolução, revolução, era só o

que se falava nos idos de 1964, e a Radio Farroupilha, foi tomada pelos revolucionários, que anunciavam um deslocamento para São Paulo.

Embarcariam forças militares, no trem em Porto Alegre, seguindo via ferroviária até a Capital Paulista, e Capinzal, seria ponto de parada do comboio militar. Todos os planos foram discutidos, havia um polonês que entendia de energia elétrica, pois, ao que se sabia era um ex-combatente, e estava trabalhando na usina elétrica, que propunha, cortar os trilhos do leito ferroviário e engatar dois fios de alta tensão, nos trilhos, para energisar a linha até Marcelino Ramos...

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Mas que plano mais louco; foi a coisa mais burra e absurda que já se ouviu, diziam os manda-chuvas da cidade, reunidos defronte ao prédio do Cinema, onde funcionava os Correios e Telégrafos23. A coisa estava feia mesmo, e os chefes políticos estavam preocupados: - Os homens de farda, vem de trem, seja do sul para o norte ou do norte para sul, nos vamos ter que nos proteger, diziam assustados.24

23

Como era costume sempre que um acontecimento despertasse interesse comunitário, as pessoas mais influente se reuniam, defronte ao cinema onde funcionava a Agência dos Correios, para dialogar e tomar as decisões de interesse da população, eram conhecidos como “Mada Chuva”, ou seja, pessoas com poder de decisão coletiva. 24 No ano de 1964, João Goulart, mantinha-se no poder a duras penas, e Leonel Brizola, na Capital Gaúcha, organizava uma força revolucionária que partindo da Capital Gaúcha de trem, lutaria por sua manutenção no poder, o que efetivamente não aconteceu, dada a renúncia de João Goulart. 120


A SOLUÇÃO ENCONTRADA

A proposta do polaco da usina25, para ligar um fio de alta tensão, nos trilhos era coisa de simio, nem foi considerada...mas alguma coisa precisava ser feita. Afinal de que lado estamos? De repente lembrou alguém de perguntar...todos pensaram e pensaram, para chegar a uma sabia conclusão; não estamos do lado de ninguém, eles são brancos e que se entendam. Isto é briga de cachorro grande, não vamos nos meter, afinal são todos brasileiros iguais a nós, e a revolução não é nossa...

25

A história que se contava é que essa pessoa conhecida como POLACO, teria se oferecido para ligar os fios de energia aos trilhos para impedir o avanço dos revolucionários, o que foi recebido como um “brincadeira de mais gosto”... 121


E as horas iam passando, e a Rádio Farroupilha, não parava de anunciar que “Se tirarem meu parente do Governo, vai feder, chifre queimado, as tropas estão embarcando para São Paulo...”

As lideranças de Capinzal e Ouro, ainda, se mantinham reunidas defronte ao Correio, era preciso encontrar uma solução, e um madeireiro experiente, dizia:- Cramentaro26, na revolução de trinta, nos esperamos o Getulio Vargas, que foi muito aplaudido, e até deixou um lenço vermelho, que deu um nó p’ra mim, que eu guardo até hoje, vamos fazer a mesma coisa agora... Entretanto um industrial, o mais exaltado reagia:- Otcidente27, não vamos bater palma para soldado nenhum, vamos é 26

Cramentaro, era a expressão usada por um próspero madeireiro, que por longos anos viveu em Capinzal, deixando registrado na história seu nome, como homem íntegro e operoso, um verdadeiro CAPITÃO DA INDÚSTRIA. 27 Octidente, era a expressão usada por outro ourense/capinzalense, ilustre que foi um dos mais brilhantes empresários de nossa região, fundou e dirigiu as industrias reunidas ouro por muitos anos. 122


deixar a estação de trem vazia, e ninguém sai de casa, e ele vão pensar que abandonamos a cidade, porque não sabemos se vão nos considerar amigos ou inimigos... viu come é a coisa, octidente... Nosso amigo Miro28 alfaiate, opinava: Tiruraus, pôra...comigo não tem conversa, se vierem vão se lascar na cangebrina, pôra, vamos tacar lenha neles, tiruraus pôra. E o nosso amigo Cesca29, não deixava por menos: - Se chegarem 28

MIRO ALFAITE, era uma figura muito querida, não havia uma reunião de bar, que não estivesse presente com suas brincadeiras, e o termo TIRURAUS, levando-se a mão direita espalmada a baixo da cintura, era o gesto característico, que acompanhada da palavra “PÔRA”, significava uma gozação completa sobre qualquer assunto.... 29 Cesca, era um personagem único, de feição austera e brava, tinha um coração enorme e era muito querido por todos, VASACAINO APAIXONADO, era proprietário de um lote contíguo ao campo de futebol, e quando a turma do Arabutã, treinava, ela soltava um cachorrinho, que era uma fera, e furava a dentadas as bolas que caiam no seu pátio...até que um belo dia o tal cachorro amanheceu morto, dizem que engoliu uma bola do Arabutã...mas a história das ervilhas é que ele tinha uma bela plantação de ervilhas, no terreno ao lado de sua casa, e uma bela noite o MINDÚ, resolveu roubar uma ervilhas. Sendo flagrado no meio das ervilhas, não teve dúvidas baixou as calças, e simulou que estava cagand...e o Seu Cesca, chegou gritando, TE PEGUEI, FRÉÉSCO, cagand...nas minhas ervilhas...mais uma deliciosa história que somente o Morrinho da Preguiça podia inspirar... 123


querendo mandar na cidade, vou dizer p’ra eles, TE PEGUEI FRÉÉSCO, CAGAND...NAS MINHAS ERVILHAS, FRÉÉSCO...

Enquanto o amigo TCHE30, que era o rei dos otimistas, antecipou o que falaria:- Quando chegarem vou dizer MAS ENTÃO DEU BOA, TCHE. Deixaram a família no Rio Grande, viajaram dois dias de trem, passando frio e fome , vão brigar com os paulistas, a troco de nada e aqui também não temos nada de comida p’ra vocês comer. . MAS ENTÃO DEU BOA, NÉ TCHE?!... Finalmente alguém de bom senso, demonstrando porque era respeitado por sua liderança, deu a solução:

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TCHE, era um carpinteiro bonachão, muito estimado por todos, sempre que lhe contavam algo, fosse alegre ou triste, ia logo dizendo:- MAS ENTÃO DEU BOA, né tche! Contam que um belo dia estava trabalhando e tendo morrido sua esposa, um amigo foi levar a triste noticia: -COMPADRE TCHE, lamento muito mas tenho que lhe contar que tua mulher acaba de morrer. TCHE, então chorando disse: É DURO DE GUENTAR MAS DEU BOA, Né tche... 124


- Digamos 31, que primeiro vamos aguardar o trem chegar, para vermos se são os gaúchos ou os paulistas; aí então vamos nos aliar com quem chegar primeiro, porque quando os primeiros revolucionários passarem por aqui, significa que os segundos não passarão mais, porque a briga vai ser feia...digamos que, afinal são todos brasileiros, e nos não temos inimigos. Graças a Deus, não fedeu cifre queimado, porque não houve revolução, mas a história ficou registrada nos anais do MORRINHO DA PREGUIÇA; para nós, todos sendo brasileiros, os aliados eram os primeiros que chegassem...

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DIGAMOS, era a expressão usada por uma pessoa muito querida em Capinzal/Ouro, que exerceu cargos importantes como verdadeiro líder. Honrado e de conduta exemplar, sua vida será sempre lembrada como exemplo a ser seguido por todos nós. 125


PÓS FÁCIO Nesta terceira edição, adicionamos algumas histórias, e registros menos localizados, para dar ao livro sentido de generalização e universalidade. Na verdade tudo se relaciona com nossa cidade de Capinzal, onde tais fatos ocorreram. Fazemos esta observação, esperando que nossa mensagem contribua para perenizar momentos felizes de um tempo bom que jamais esqueceremos...

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Livro Contos