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17 de Junho (sábado) Fire House Subs

15:30 – Ok. Estou no meu momento de folga, que vai durar mais ou menos uns cinco minutinhos ou até que algum cliente apareça. Sei que estava toda animada pra trabalhar, mas agora, colocando a “mão na massa”, é que eu vejo o quanto é duro ter que lavar louça, esfregar o piso da lanchonete com um esfregão e ficar boa parte do tempo em pé, atendendo as pessoas. Sério, já estou morrendo de dor nas pernas! Acho que nem vou sentia-las quando chegar em casa. Mas é o preço a pagar se eu quiser dar o fora desse país né? Puff! Quem eu penso que estou enganando? Estou pagando caro até demais! Isso aqui é quase trabalho escravo! Ei, Deus! Se você é brasileiro como dizem, porque está dificultando tanto a minha vida? Qual é, somos conterrâneos, não somos? Que tal uma “aliviada” de vez em quando hein? Hein? 15:31 – Ótimo! Zoey e a Megan estão entrando neste exato segundo na lanchonete. *Gracias, Dios! Ahora estoy seguro que usted es Argentino! 16:00- Como desgraça pouca é bobagem, a Norah estava atendendo outro cliente, a Dulce tinha ido no estoque arrumar os engradados de refrigerante e o Héctor saído pra fazer alguma coisa pro senhor Alcazar. Resultado: sobrou pra pobre coitada aqui ter que enfrentar os dois dragões louros! Engraçado é que nos contos de fadas isso é função dos príncipes, não das princesas! Se bem que, pensando melhor agora, eu não faço nem um pouco o tipo “Real”. Meu pai até dizia que eu era a princesinha dele, mas ele também me prometia que sempre estaria por perto pra me proteger, e olha no que deu: não nos falamos há meses, cai de “páraquedas” nessa terra estranha, e ainda tenho que enfrentar uma dupla cuspidora de fogo logo no meu segundo dia no emprego. NINGUÉM MERECE! Até que no início a Megan estava toda boazinha comigo. Pediu um Veggie Delite dizendo “por favor” e tudo, como se não me conhecesse, mas foi só eu começar a montar o tal sanduíche vegetariano, pro veneno também começar a escorrer de sua boquinha toda lambuzada de gloss pink. “Theo mandar eu vir aqui pedir desculpa” ela disse no seu deprimente português ‘uga-uga’. Tentei não rir, afinal, eu também não era a rainha da concordância na língua dela. “Ele achar que foi má cum você.” “Cum”? Que “cum” é esse gente? Isso é Português? Ou é a linguagem da selva: ”Mim Tarzan, você anta!” Ah, deixa pra lá. Se concentra nos ingredientes do sanduba, Babi. Se concentra... “But você não merecer. “ela continuou “É Zoey quem ele gostar. Você ser diversão ele.”


Vem cá, essa garota nunca foi apresentada a conjugação de verbos não é? Preposições então, nem pergunto... Dessa vez foi a Zoey que resolveu falar, só que na sua própria língua: “ Look! Stay away from him, your brazilian bitch! I’m serious, stay away from Theo or I’ll kick your butt! O-ho-ho. Esperaí! Eu era uma negação em inglês, mas a Ana já tinha me explicado o sentido de “bitch”. E não é nada legal tá! Quem era aquela garota pra me insultar daquele jeito? Ahhhh... Foi subindo uma raiva em mim, mas uma raiva tão grande, que no momento em que eu estava colocando a mostarda no sanduíche, não me contive e intencionalmente espremi o pote quase todo no vestidinho rosa dela. Em solidariedade a amiga, a Megan gritou: “ What the hell are you doing?” e aí eu despejei o resto na roupa dela também. O que foi engraçadíssimo, pois a nojenta fez a cara de choque mais hilária do mundo: uma junção inacreditável de olhar assassino com boca aberta de boneca inflável. É claro que as duas fizeram o maior escândalo e quiseram falar com o gerente, ou quem quer que fosse o encarregado ali, (obviamente pra pedir minha ‘cabeça’), mas quando o senhor Alcazar veio da salinha que ele faz de escritório, a Norah assumiu o papel do meu anjo da guarda, e disse em espanhol (sim! Graças a Deus ela é bilíngüe!) que o pote de mostarda estava entupido desde ontem, e por isso explodiu bem em cima das meninas (Valeu Norah!). A Zoey e a Megan –que não entenderam nada do que a Norah disse- ainda tentaram protestar, pedindo pra que eu fosse demitida, mas meu chefe se desculpou com elas dizendo que pagaria a conta da lavanderia e elas ganhariam um vale pra comerem de graça ali por um mês. As duas nojentas claro que não aceitaram, e saíram revoltadas do Firehouse Subs soltando fogo pelas ventas. Quanto a mim... Bem, graças a Deus não fui demitida. Só que pelo visto não estou muito em alta com o senhor Alcazar. Ele me deu um sermão sério sobre como atender clientes (quase chorei) e me fez prometer que acidentes como esse não vão acontecer de novo, caso contrário estou fora daqui antes mesmo que consiga dizer a palavra “perdón”. Ah, tá como se eu conseguisse pronunciar isso rápido... Oh, e antes que eu me esqueça, acabei de decidir uma coisa muito importante. Haja o que houver eu NÃO posso e NÃO vou me apaixonar pelo Théo. Sei que não se manda no coração, mas vou tentar evitar a qualquer custo me aproximar dele, não só pra não ter que aguentar crises de raiva como essa da Zoey e da Megan de novo, mas também porque eu estou firme na decisão de voltar pro Brasil, logo ter qualquer coisa com o Théo com certeza só iria confundir a minha cabeça e atrapalhar tudo. E além do mais, eu acho que ele nem está tããããão a fim de mim assim. A Mari exagerou um pouco nas conclusões. O garoto só está sendo simpático, como ele é com todo mundo pelo visto. Se bem que a Ana disse que ele me mandou aquelas flores... Mas será que foi o Théo mesmo? Ele nunca comentou nada! Se quisesse mesmo me conquistar ele com certeza teria insinuado. Não acho que ele é daqueles tipos de garotos tímidos que morrem de medo de levar um fora... Ah, quer saber? É melhor eu esquecer isso e ir trabalhar. Ainda tenho um bando de coisas pra fazer e quero tentar recuperar os pontinhos que eu perdi com o senhor Alcazar depois do “incidente” com a mostarda voadora. Então, mãos à obra!


[em off] Nossa, como eu realmente queria ser igual àquelas princesas dos contos de fadas agora. Não pelo lance do príncipe encantado, mas pelo fato de que é só elas chamarem e um bando de animaizinhos bonitinhos aparece pra ajudar nas tarefas de limpeza. Infelizmente os únicos animaizinhos que eu tive contato hoje foram dois guaxinins malandros que entraram pela porta dos fundos e roubaram um bocado de pão da despensa. Que momento mágico...

18 de Junho – domingo Firehouse Subs

13:40- Ninguém vai acreditar no que aconteceu hoje. Estou até escrevendo com caneta vermelha, pra combinar com o drama pelo qual a gente passou há algumas horas atrás. Parecia cena de filme! Um furgão todo preto, com vidro fumê estacionou em frente à lanchonete, e um grupo de caras usando camisas pretas e rádios na cintura saíram dele. Não dei tanta bola pra isso, até porque achei que deviam ser mais um bando de clientes estranhos como tantos outros que vêem aqui, mas de repente um dos homens se virou, e então deu pra ver o que estava escrito nas costas de sua camisa, era Police ICE. O Héctor quase teve um treco quando eu comentei isso e correu pra se esconder, pois ele estava vivendo ilegalmente no país há mais de seis anos e, segundo ele, aqueles caras eram nada mais nada menos do que oficiais do departamento de imigração à caça de imigrantes ilegais! Caramba! O Héctor não conseguiu encontrar nenhum lugar bom para se esconder depois de ficar um tempão igual a uma barata tonta, indo de um lado pro outro desesperado, e acabou, acredite ou não, entrando num freezer enorme que tem aqui. Esse ato de loucura dele até me fez ficar com um pouco de medinho, mas achei que não tinha com o que me preocupar, afinal o meu Visto ainda era válido, certo? ERRADO! A Norah atacou de anjo da guarda novamente e me lembrou que pessoas como eu, que tinham Visto de turista, não podiam trabalhar no país, mesmo que fossem adolescentes em empregos temporários de verão. E, que se os oficias da imigração descobrissem isso, talvez eu fosse deportada, pois de acordo com o pensamento deles, eu estava tirando o emprego de um americano! Ai minha Nossa Senhora das adolescentes desesperadas, o que eu ia fazer então? Gritar socorro e sair correndo? Não. Graças a um milagre dos céus a Norah tinha uma idéia melhor (cara, independente do crime que ela cometeu devo muito a ela). Falou pra eu ir de forma sorrateira ao banheiro, tirar o uniforme e depois me sentar em alguma mesa da lanchonete, pra fingir que era uma simples cliente. E foi exatamente isso que fiz. No momento que voltei do banheiro, os policiais já estavam dentro da loja falando com a Norah. Sentei em uma cadeira, bem no fundo da lanchonete e fiquei lá, com o coração na mão, esperando que aquilo tudo acabasse. De repente um daqueles homens pousou sua atenção na minha mesa e seu olhar demorou em mim muito mais


do que o normal. Parecendo até um cão que tinha farejado alguma coisa, ele deixou o colega conversando com a Norah e começou a vir na minha direção. Engoli seco. Não consegui pensar em mais nada enquanto ele se aproximava, a não ser na minha mãe, nos meus irmãos e, tenho que admitir, no Théo também. Por mais que eu odiasse viver nos Estados Unidos e quisesse ir embora desse país, preferia que fosse com um mínimo de decência e não expulsa como uma criminosa. Mas infelizmente, ao que tudo indicava, era isso que ia acontecer. Não sei se a Norah percebeu que o cara havia ficado intrigado comigo ou se só queria reforçar pra ele que eu era uma cliente, mas ela rapidamente pegou um sanduíche (que era pra ser jogado fora, pois tinha caído no chão) e me serviu dizendo: “Here is your Chiken & Bacon Ranch, miss. I hope you enjoy it.” Pelo menos aquele teatro todo dela valeu de alguma coisa. Ainda me encarando, o oficial passou direto por mim e foi checar o banheiro, pra ver se algum “ilegal” estava escondido lá. Não achou ninguém, óbvio, e muito menos no resto da loja, então tanto ele quanto os outros caras da imigração se deram por satisfeitos e acabaram indo embora. Nisso nós ouvimos um barulho enorme vindo do freezer e só aí lembramos de que o pobre Héctor estava escondido lá dentro. A Norah correu pra abrir a porta, com medo de que ele pudesse morrer de hipotermia, mas nosso colega saiu ileso (ainda que tremendo de frio) e foi correndo pro estacionamento tomar sol igual a um lagartinho. É verdade que agora tudo parece muito engraçado, a gente até apelidou o Héctor de “Popsicle” (picolé em inglês), mas na hora foi um verdadeiro susto. Pra ser sincera, eu ainda estou meio tensa. Tudo que eu mais queria era ir pra casa. Aqui ou no Brasil, tanto faz, nesse momento só estou precisando me sentir segura e protegida. É pedir demais depois de ter sofrido o risco de ser expulsa dos Estados Unidos? Ai, acho que eu preciso de um abraço... ou terapia! 20:45 (casa de Tia Vivian)- Vini me pegou na lanchonete e, ao me deixar em casa, foi voando pra começar o turno dele no Mcdonald’s. A Ana resolveu ir ao cinema com a Britt e a Carol, e o resto da família foi pra vigília da igreja com tia Vivian. Eles vão ficar lá à noite toda e só voltarão de manhã. Mamãe queria por que queria que eu fosse também. Ela ficou meio preocupada em me deixar em casa sozinha, mas como eu disse que estava exausta (sem falar estressada pelo lance dos oficiais da imigração, só que isso não contei a ela) e tia Vivian garantiu que a nossa vizinhança era super segura, mamãe acabou cedendo e me deixou ficar. Admito que é meio assustador estar sozinha aqui, ainda mais em uma casa que não tem muros. Estou sentada na sala, com a Lola ao meu lado, assistindo ao Fantástico pela Globo Internacional, mas qualquer barulhinho que ouço dou um pulo... Ahhhhhhhhhhh! Como esse!!!!!!! Ufa. Calma Babi! Só estão tocando a campainha. Vou atender... Não. Esperai. E se for o Jason daquele filme? Sabe, máscara de ski, serra elétrica, sede de sangue e vingança... Ou um cara com máscara do pânico? Ou pior, aquele bonequinho dos Jogos Mortais


montado num triciclo querendo me seqüestrar e colocar num jogo torturante pra que eu possa reavaliar minha vida e ver o quanto ela é boa? Ah, tá. Como se esfregar chão e ainda por cima num país estranho fosse muito bom! Ain! A campainha de novo! Calma Babi, lembra do lema do Padre Quevedo: “Isso non ecziste. Non ecziste!”

20:46- Só por precaução olhei pela janela pra ver quem era e adivinhe? É o Théo!!!!! Ai meu pai! O que é que esse doido está fazendo aqui?! E eu? O que é que eu faço? Não dá pra atender a porta vestida desse jeito, só de camisola! E além do mais, eu prometi a mim mesma que ia ficar longe dele. Será que é melhor eu deixar ele tocar a campainha até se convencer de que não tem ninguém em casa e ir embora? Ô dúvida cruel... 20:47- Din-Don. Din-Don. E a campainha irritante continua. Está difícil de ignorar.... Ah, quer saber? Que se dane a camisola e tudo mais! Vou atender sim! 20:54- É incrível como quando ele está por perto não consigo pensar em nada ruim. Nem na saudade do Brasil e muito menos na bronca que minha mãe me daria se soubesse que eu estive sozinha com um garoto em casa. Eu só penso o quanto o Théo é legal e o quanto é bom estar com ele, e aí faço coisas malucas como essa última: aceitar um convite pra sair a essa hora da noite, numa cidade desconhecida, e ainda por cima sem a permissão da minha mãe! Quero dizer, assim que ele perguntou se eu queria dar uma volta eu rejeitei o convite, mas o Théo se apoiou no batente da porta me brindando com aquele perfume maravilhoso dele, e ainda por cima todo arrumadinho com essa camisa de listras (tipo de rúgbi, sabe?), que foi só ele insistir mais uma vez pra eu acabar aceitando. E agora o Théo está lá na sala, esperando por mim, enquanto vê o resultado da última rodada do Campeonato Brasileiro no Fantástico, e eu troco de roupa aqui no quarto de hóspedes. Ou pelo menos tento, porque eu cheguei à conclusão de que não tenho nada decente pra vestir! Ainda bem que eu estou firme no meu propósito de não ter nada com o Théo, senão já teria pirado com a tremenda falta de opções de roupas decentes no meu closet! Sei que não posso botar todo meu plano de fuga a perder por causa de um simples garoto e não vou! Até bolei um mantra pra repetir mentalmente e garantir que eu não faça nenhuma besteira hoje a noite: “OMMMM, Não se apaixone, Babi. Não se apaixone. OMMMMM”. Vamos ver se funciona... 21:07- Esperai! Eu acabei de passar o brilho labial da Alice? Eu NUNCA passo brilho labial! Sempre achei muito melequento. Pra que eu estou fazendo isso? Vou tirar essa coisa toda agora!


21:08- Passei o brilho de novo... Por razões óbvias de que eu não quero sair igual a uma ogra pelas ruas de Orlando. Só isso... Só isso MESMO! Humm... Será que dá tempo de fazer uma escova básica no cabelo? 21:17- Deixei um recado na geladeira pro povo da casa avisando que eu sai com um amigo. Espero que ninguém dê por falta de mim...

19 de Junho Casa de tia Vivian Madrugada

12:19 -Foi uma noite ótima! Tirando algumas coisas que aconteceram. Mas quando é que tudo é perfeito pra mim? Nunca né?! Bem, apesar do meu cansaço, sair de casa de vez em quando é muito bom! Ainda mais com uma companhia tão maravilhosa e um destino melhor ainda: o Théo me levou em um parque de diversões! Ok, não era nada do tipo Disney, mas eu não posso dizer que não me diverti no “Magical Midway”. Na verdade foi tudo meio que uma surpresa pra mim. O Théo não me disse que nós íamos a um parque nem nada. Só quando a gente estava na Rua Internacional Drive e eu perguntei o que eram aquelas duas torres enormes e com luzes coloridas que eu estava vendo pela janela do carro, é que ele resolveu me contar que era ali o nosso destino final. Na verdade, já estava tudo meio que planejado, tanto que em vez de comprar os tíquetes na bilheteria, o Théo me deu uma pulseirinha VIP do parque ainda no estacionamento mesmo. Ah, e sabe o que eram aquelas duas torres metálicas que eu falei? Um brinquedo super-radical chamado “Estilingue” em português. Por quê? Bem, eu vou te dizer o porquê: as pessoas eram simplesmente catapultadas pro céu numa velocidade absurda! No começo o Théo ficou todo animadinho pra ir, mas eu falei pra ele que, por causa do meu medo de altura, eu ia passar longe daquele brinquedo, e então ele acabou desistindo da idéia. Infelizmente esse brinquedo não era o único radical do mini parque, e o pior é que alguns deles parecem inofensivos a princípio. Como um tal de StarFlyer, uma espécie de carrossel de balanços. O Théo me levou pra fila do brinquedo e eu, como ainda não tinha visto o jeito como ele funcionava, fui toda inocente e saltitante pra lá. Somente quando a gente estava subindo as escadas que levavam a plataforma do StarFlyer, é que a criatura resolve me contar que a estrutura daquele carrossel com balanços subia e ficava girando a nada menos que 60 metros de altura! Ahhhhhhh. Ele estava maluco ou o quê? Eu sou cardíaca, para com isso! Na hora eu tentei fugir, mas o Théo me agarrou e me arrastou sem qualquer piedade até me colocar sentada no balanço do brinquedo. Quase morri do coração quando o Carrossel começou a subir e girar lá em cima, a praticamente quatro andares de altura. Por um tempo gritei apavorada, achando que a correntinha fina que segurava os balanços ia se partir a qualquer momento. Pensei também que ia vomitar, desmaiar, “fazer a passagem”, mas logo depois comecei a gostar um pouco daquilo.


Não sei se pelo fato do Théo ter segurado minha mão bem forte ou se pela vista incrível que Orlando tinha de lá de cima. Segundo o Théo, dava até pra ver os parques do Universal Studios ao longe. Sei, com você agarradinho ao meu lado eu vou prestar muita atenção nisso... O triste é que, justamente no momento em que eu estava realmente começando a me divertir, o nosso tempo no brinquedo acabou, e a fila dele agora parecia quatro vezes maior do que antes, então não deu pra ir de novo. Depois disso o Théo me levou pra andar de Kart, o que foi um verdadeiro desastre, quero dizer, EU fui um verdadeiro desastre! Ele até tentou me dar uns toques antes sobre a pista, onde era bom pra ultrapassar e tal, mas eu já sabia que aquilo não ia dar certo. Não era boa nem naquele jogo de vídeo game, o Mário Kart (sempre perdia de forma humilhante pro Dani que ainda nem tem a coordenação motora totalmente desenvolvida!) quanto mais numa corrida ao vivo e à cores. O Théo é que parecia bem empolgado na hora da largada, ele olhava pra mim e erguia as sobrancelhas conforme acelerava ao máximo o Kart. Foi engraçado e ficou mais do que na cara que ele gosta mesmo de velocidade. E sabe o que mais? O Théo ar-ra-sou na corrida! Apesar de termos largado em último, ele ultrapassou todas as outras pessoas e ainda deu duas voltas de vantagem em mim! Antes que ele sugerisse outra corrida pra me permitir uma revanche, pedi pra irmos nos carrinhos bate-bate, onde eu não precisava demonstrar a falta de minhas habilidades automobilísticas e ficar me preocupando em desviar das paredes, muros e tudo mais sólido o suficiente pra fazer um belo estrago no meu rostinho. Ainda andamos em alguns brinquedos bem legais depois disso e, quando a fome apertou, comemos uma pizza superpicante de pepperoni num restaurante do parque mesmo (acho que esses americanos não conhecem outro tempero além de pimenta!). O Fliperama do Magical Midway foi nosso destino seguinte, já que joguinhos Arcade combinavam muito mais com barrigas cheias do que atrações radicais. Havia todos os brinquedos que você possa imaginar naquele lugar, desde os típicos jogos de dança (que eu nem me atrevi, pois sou toda descoordenada) até um de Luta de Box, onde os controles eram luvas de verdade. Ao andarmos mais um pouco pelo salão, decidindo em qual jogo iríamos brincar primeiro, demos de cara com o Kevin e mais um bando de garotos fortões, jogando numa daquelas máquinas que tem cestinhas de basquete e um monte de bolas pra você arremessar nelas. Théo e eu nos dirigimos até eles, e então eu fui apresentada ao grupo e finalmente ao “famoso” Kevin, já que graças ao “banho” de piscina na casa dele, nós não tivemos essa oportunidade. O Kevin foi simpático comigo, na medida do possível, (já deu pra perceber que esse americanos são meio frios quando conhecem gente nova) e até disse que eu parecia com a Dakota Fanning. Pode?! Eu, a Dakota Fanning?! Oh-ho-ho, chamem um oftalmologista, tem mais alguém com problemas de visão aqui! A conversa com o Kevin acabou não demorando muito porque, quando eu avisei discretamente ao Théo que já estava quase na hora do meu toque de recolher à la Cinderela (mesmo minha mãe não estando em casa, preferi não abusar), ele disse que ainda precisava fazer uma coisa comigo, antes da gente ir embora. E então me puxou pra uma cabine, muito parecida com aquelas que a gente tira fotos 3X4 no Brasil, dizendo que nós tínhamos que ter uma lembrança daquela noite.


Como o espaço dentro da cabine era minúsculo, eu falei pro Théo sentar no meu colo (até porque eu não ia sentar no dele nem por um decreto!), e aí ele pegou o RayBan do bolso e o colocou no rosto porque, segundo ele, garotos tem que fazer cara de mau na foto pra impor respeito. Eu ri e o chamei de bobo, mas ele ficou com o RayBan assim mesmo, e então nós começamos a fazer poses pras fotos. Primeiro, Théo e eu demos língua na direção da câmera, na segunda eu fiz biquinho e ele abaixou os óculos, lançando aquele olhar de playboyzinho conquistador por cima deles. Na terceira, eu puxei as bochechas dele, o fazendo dar um sorriso forçado e finalmente, na última, nós estávamos rindo tanto por eu ter feito careta e fingir ser vesga, que não deu nem tempo de fazermos pose alguma. Quando saímos da cabine e fomos ver o resultado das fotos, eu simplesmente me O-D-I-E-I em todas elas. O Théo tinha ficado um gato, (dã, que novidade!) já eu... Afe! Em algumas parecia que eu tinha um nariz enorme, em outras que o meu rosto era todo irregular. Um verdadeiro horror! O Théo até disse que adorou as fotos, e que eu era louca por achar que eu tinha ficado estranha nelas, mas esse discursinho dele não colou nem um pouco, e eu o obriguei a voltar à cabine pra tirarmos outras. Dessa vez ele decidiu que não iria colocar o Ray-Ban e deixou aqueles olhos azuis maravilhosos dele á mostra. Nas primeiras poses, tentei não me mexer muito e usei o único ângulo em que eu não parecia uma ogra: o bom e velho perfil. Na última foto, no entanto, eu esqueci completamente da minha busca pela pose perfeita e sem querer fiquei encarando o Théo. Ele se ajeitou no meu colo, passou o braço por trás do meu pescoço e retribuiu o olhar sorrindo. Eu nunca tinha visto os olhos dele tão de perto e tudo que queria era mergulhar naquelas enormes piscinas que eles pareciam. O mantra que eu tinha bolado em casa desapareceu da minha cabeça como fumaça, no momento em que o Théo começou a se aproximar bem devagarzinho do meu rosto. Oi? Mantra? Que mantra? Meu coração acelerou. AI MEU DEUS! Será que ele ia me beijar? Será MESMO que ele ia me beijar? Vai saber... Bem na hora em que os nossos narizes estavam quase se tocando.... Tchan-tchan-tchan-tchan... O “infeliz” do Kevin colocou a cabeça dentro da cabine, disse “Cheese!” pra câmera e depois saiu correndo as gargalhadas. O Théo me largou lá, e disparou na mesma hora atrás dele, xingando algo em inglês (pelo menos, pelo tom era o que parecia), e quando alcançou o Kevin, quase na porta de saída do Fliperama por onde ele tentava fugir, deu uma chave-de-pescoço no garoto. Eu realmente pensei que o Théo fosse matar o amigo, mas no final de tudo, os dois já estavam -pasme- gargalhando, e então percebi que a lutinha deles não passava daquelas brincadeiras brutas e idiotas de meninos. Puff! Só podiam ser garotos mesmo! Imaturos aqui e em qualquer lugar do planeta... Quanto às fotos, eu realmente preferi as últimas que nós tiramos - mesmo com o cabeção loiro do Kevin-quebrador-de-clima aparecendo em uma delas- por isso o Théo ficou com as primeiras, enquanto que eu guardei as outras de lembrança. Como já estava meio que em cima do meu horário, nos despedimos dos amigos dele para irmos embora. E é aí que a noite até então perfeita, se torna não tão perfeita assim. No meio do caminho pra casa, o Théo inventou de tomar um Sundae no McDonald’s, dizendo que ia dar uma parada rapidinha num 24 horas que tem na Rua Hiawasse e eu, sem saber quem estava lá, concordei. Afinal, apesar de quase estar


estourando o meu horário limite pra voltar pra casa, que mal ia fazer gastar uns minutinhos a mais tomando um inocente Sundae? Vai vendo... Então, nós paramos no estacionamento do dito McDonalds e, quando o Théo e eu entramos na lanchonete, rindo a beça porque tínhamos visto um cara a pé no DriveThrough (não estou brincando. Esse povo daqui é meio doido!) tive a maior surpresa da noite ao me deparar com meu primo Vini, bem atrás do balcão. Puuuuutz! Tanto McDonald’s nessa terra do Fast Food e nós paramos logo no que ele trabalha? É, alguém lá em cima não gosta mesmo de mim! Meu primo estava apoiado no balcão, segurando o queixo, com aquela roupa feiosa de atendente e uma cara que era a pura mistura de tédio e sono, mas minha presença pareceu ter despertado ele como se tivesse levado um beliscão. “Bárbara?! O que é que você está fazendo aqui a essa hora da noite?” “Dei uma saidinha rápida com... er... um amigo...” eu disse morrendo de vergonha e culpa. Nesse momento o Théo chegou por trás de mim. A expressão de surpresa do Vini deu lugar a duas sobrancelhas cerradas e uma cara de poucos amigos. As pontas das orelhas dele ficaram avermelhadas, não sei se por raiva ou vergonha. “Vocês se conhecem?” o Théo perguntou, aproximando do balcão enquanto apontava de mim pro Vini. Eu respondi que sim, expliquei que nós éramos primos, e tive que encarar o olhar gelado do Vinícius pra ele. “Por favor, que eles não se reconheçam! Por favor, que eles NÃO se reconheçam! “era tudo que eu conseguia pensar. “Cara, você me lembra muito alguém” o Vini disse... Putz! E ele dispara o relógio da bomba! “Você também não me é estranho. Será que a gente já se viu antes?” o Théo rebateu. Iniciando contagem regressiva: 5... “Quem sabe... Você está há muito tempo em Orlando?” 4... “Na verdade eu sou daqui, mas por causa da minha família brasileira eu fico seis meses em Orlando e os outros seis passo no Brasil.” 3... “Entendi... em que escola você estudou?” 2... “Agora eu estou na Olympia High, mas fiz o secundário quase todo na Gotha Middle.” 1... “O seu sobrenome, por um acaso, é Medina?” 0... “É. Como você sabe?” BUMMMMMMMMMMMMMM! “Estudei com você na Gotha Middle” o Vini falou num tom calmo. Mas hein? Cadê a briga? Cadê o ranger de dentes? Cadê a raiva mortal que a Ana disse que o Vini sentia pelo Théo? O que é que está acontecendo aqui afinal?


“Sério? Engraçado eu não lembrar de você” o Théo disse “Mas também, eu nunca fui muito bom pra gravar fisionomias. Qual é o seu nome mesmo? Victor, não é?” Por sorte não deu tempo do Vini responder. A supervisora dele (que era americana, mas falava espanhol) apareceu do nada e o mandou parar de conversar e voltar ao trabalho. O Théo pediu dois Sundaes de chocolate pra ele e, assim que os pegamos, eu me despedi do Vini garantindo que ia pra casa e segui direto pro estacionamento arrastando o Théo desesperadamente pelo braço. Lá, ele parou de repente, olhando de forma estranha pro Sundae que ainda não tinha dado uma única colherada sequer. “O seu primo não vai nem um pouco com a minha cara.” “Porque você está dizendo isso?” perguntei nervosa, achando que ele tinha reconhecido o Vini. “Eu acho que o vi cuspindo no meu Sundae.” “Nãããão! Ele não faria isso... “eu disse com total certeza, indo em direção ao carro do Théo. “Ah, é? Então porque além da calda e dos M&Ms tem ranho também cobrindo o meu?” o Théo questionou, me mostrando o copo de sorvete. ECA! QUE NOJO! É, agora não tenho dúvida que o Vini tinha reconhecido ele. Meio chateado o Théo jogou o Sundae no lixo e eu tentei contornar a situação oferecendo um pouco do meu. “Pelo menos o cara caprichou na sua vez” ele disse rindo, enquanto saboreava uma colherada que eu tinha dado a ele na boca. Mas depois disso, o sorriso do Théo se apagou e ele ficou só olhando fixo pra mim. “Você se sujou um pouco com a calda” ele disse apontando pro meu rosto. Antes que eu pudesse pensar em pegar o guardanapo que tinha no bolso, o Théo se aproximou de mim, segurou meu queixo, e começou a limpar o cantinho da minha boca com o polegar. Meu coração deu saltos. “Sabia que eu estava errado quando te chamei de Cinderela, naquela noite em que te levei pra casa, depois do Ale House?” “Estava?” eu respondi franzindo a testa. “Ahã. Diferente dela o seu encanto não acaba meia-noite.” ele disse olhando profundamente nos meus olhos. Fiquei mais derretida que o meu próprio Sundae e meu rosto começou a queimar. De todas as coisas que achei que poderiam acontecer naquele momento, meu celular tocar não era uma delas. Mas advinha? Foi isso mesmo que aconteceu. Argh! Eu o tirei rapidinho do bolso de trás da calça, e reconheci o número do Vini no visor. Automaticamente olhei pro McDonald’s, e vi que ele estava encostado na vidraça sibilando: “Vai pra casa ou eu ligo pra sua mãe!” Eu revirei os olhos, xinguei meio mundo silenciosamente, e disse pro Théo que a gente precisava ir embora logo, antes que o meu primo me dedurasse, porque eu não tinha pedido permissão pra sair. Ao chegar na frente da casa de tia Vivian, levei um susto enorme. As luzes da sala estavam acesas agora, e eu tinha deixado elas desligadas quando sai, o que era um claro sinal de que alguém tinha chegado. Pensando ser minha mãe, entrei em pânico e nem me despedi direito do Théo. Ele ficou me pedindo pra esperar, mas eu não ouvi mais nada. Agradeci pela noite ótima e sai correndo do carro, morrendo de medo de


quem eu ia encontrar. Será que o Vini tinha me delatado? Ah, aquele traíra sem coração! Já dentro de casa, apesar da luz acesa, não havia sinal de ninguém na sala. Fui até meu quarto, o de tia Vivian, mas pro meu alívio minha família não tinha voltado da vigília ainda. Ufa! Tive a idéia de procurar no quarto da Ana e aí , ao ver minha prima deitada na cama dela, já no quinto ou sexto sono, é que o mistério se solucionou. Então vim pra aqui pro meu quarto, bem quietinha e já vou dormir. Isso se eu conseguir parar de pensar no Théo... Mas também, ficar vendo e revendo as fotos que a gente tirou no parque não ajuda nem um pouco. 01:02- Nossa, quem será que está me mandando uma mensagem de texto a essa hora? A Mari ainda não tem meu número. 01:03- Claro! Só podia ser ele... Pena que o torpedo veio cortado. <Sugestão de música: You give me somethingJames Morrinson.

“Cause u give me smthing That makes m scared alright This could be nothing But I’m willing to give it a try Plz give me smthing” p.s.: desculpe pela sms de madrugada, sei q eh tarde mas eh q n consigo dormir e nem parar de pensar em> Pensar em que? Em como a noite foi boa ou será que era em mim?????? Meu Deeeeeeeeeeeus, que tortura! Malditos burocratas das telecomunicações e seus caracteres contados! Será que eles não sabem que três letrinhas a mais podem salvar a vida de uma pessoa?

19 de Junho (Segunda-Feira) Estacionamento do Firehouse Subs

11:37- Depois de acordar a Ana me crivou de perguntas. Ela tinha visto o bilhete na geladeira quando chegou do cinema, e queria saber a qualquer custo quem era o tal


amigo com quem eu sai, embora ela tivesse dito que já tinha uma certa ideia... Tentei mudar de assunto, perguntando como foi o filme e inventando um monte de coisas pra desviar a atenção dela, mas a Ana não era nada boba, e ficou me encarando de braços cruzados com aquela cara de “desembucha, Babi” que ela tem feito muito ultimamente. Percebi que não tinha escolha, então puxei minha prima pro quarto (não queria correr o risco de que mamãe ouvisse) e comecei a contar: “Fui num parque de diversões com o Théo” eu disse sem muita animação, pra disfarçar. Na verdade eu estou empolgada até agora, de chegar a dar pulinhos! Acho que estou realmente começando a ficar balançada por ele, mas também quem não ficaria? “A date hã?” minha prima disse com aquele sorrisinho malandro. Sério, eu odeio esse “portuglês” da minha prima. Eu fico perdidaça! “Ana, pra começo de conversa eu nem sei o que é isso, tá.” eu disse em minha defesa, embora eu sentisse que o que quer que “ date” fosse, com certeza era algo que eu não iria querer ouvir. “Aqui quando duas pessoas estão naquela fase da paquera eles tem um encontro, ‘date’, pra se conhecerem melhor.” ela explicou toda didática. Eu garanti que não teve date nenhum, mas a Ana ficou me pentelhando pra saber se rolou beijo. Disse que não (quem dera!) e aí, como já tinha praticamente falado sobre tudo mesmo, contei do “acontecimento” no McDonald’s. Quero dizer, quando o Vini deu de cara com o Théo e não fez absolutamente nada. Ao ouvir isso, os olhos da Ana se arregalaram, como se ela tivesse acabado de se entalar com uma bala Soft. “Tem certeza que o meu irmão reconheceu ele?” minha prima perguntou, ainda sem acreditar. “Total.” eu garanti. “Foi como eu te disse, o Vini chegou a perguntar o nome do Théo e quando ele respondeu, ficou tudo numa boa. Quero dizer, exceto pelo Sundae com ranho. Mas pelo o que você tinha dito, eu esperava no mínimo um nível 5 de destruição quando os dois se encontrassem, e não um estalinho de festa junina, como foi.” “Hummm. Não sei não, Babi. Isso está muito esquisito. Não é a cara do Vini deixar uma coisa dessa passar em branco. Ainda mais quando isso envolve o cara que ele mais detesta”. minha prima afirmou. Nós ainda ficamos sentadas na cama um tempinho, meio pensativas, tentando achar uma explicação pra reação civilizada (e anormal) do Vini, mas já estava quase em cima da minha hora de ir pro trabalho, então eu fui tomar meu banho. O Vini, que acordou quando eu sai do banheiro (isso já lá pelas onze da manhã) estranhamente não trocou uma palavra sequer comigo enquanto me levava pro Firehouse Subs. Foi só no momento em que eu me despedi dele em frente a lanchonete, que o meu primo segurou o meu braço me impedindo de sair do carro e falou comigo. Na verdade “falar” é maneira de dizer, ele simplesmente me interrogou! “De onde você conhece o Medina, Bárbara? Ele é o tal cara do avião que a tia Val comentou? E o que você estava fazendo com ele ontem, aquela hora da noite? Vocês estão saindo juntos por um acaso?” o Vini disparou a queima roupa, sem nem ao menos respirar.


Eu fui tão pega de surpresa por todas aquelas perguntas que não sabia por onde começar as explicações. Gaguejei, fiquei nervosa, me encolhi toda no banco e só disse o básico. Tipo: sim, ele era o cara do avião e não, nós não estávamos saindo juntos. Aquela noite foi um evento isolado e só. A expressão do Vini relaxou ao ouvir isso, mas ele não parecia totalmente satisfeito. “É melhor mesmo que você não esteja ficando amiga desse cretino. Você não sabe a sacanagem que ele fez comigo...” meu primo disse começando a se irritar de novo. A verdade é que eu sabia muito bem o que tinha acontecido, a versão oficial da coisa toda, só não ia falar isso pro Vini naquele momento, pra não deixá-lo ainda mais revoltado. “... mas esse gringo metido a brasileiro vai me pagar um dia. Ah, se vai! No McDonald’s eu tive que me controlar, por causa daquela gerente chata quê só quer um motivo pra me por no olho da rua, mas espera só esse cara cruzar o meu caminho de novo por aí. Vai voltar pra casa com um monte de dentes a menos!” ele ameaçou batendo no volante com força. Nem parecia aquele Vini calmo e caladão que foi nos pegar no aeroporto de Orlando. Eu sacudi a cabeça mostrando que tinha entendido o recado – Ok, nada de Théo!e, me despedindo do meu primo, entrei correndo na lanchonete com a desculpa de que tinha combinado com o senhor Alcazar de “pegar” no trabalho mais cedo. Na verdade ainda faltavam dez minutos pro meu turno começar, então fiquei conversando com a Norah sobre o dilema “Théo e Vini”. O que ela fez ontem por mim, me ajudando a despistar os caras da imigração, acabou aproximando bastante a gente. Até descobri que o crime que ela cometeu não foi tão grave assim. Quero dizer, vender remédios sem receita é errado (apesar de muitos balconistas de farmácias lá no Brasil fazerem isso como se fosse a coisa mais normal do mundo) e você pode prejudicar a saúde de muitas pessoas fazendo isso, mas pelo menos a Norah não era uma louca psicopata que retalha os outros pra comer com bacon matou ninguém como eu tinha pensado, e está pagando direitinho o que deve a sociedade. Ela disse em espanhol que, nessa briga entre o Théo e o Vini, eu deveria seguir o que meu coração queria, se era continuar amiga do Théo ou preservar minha relação familiar com meu primo. E que independente da escolha que eu fizesse, ia haver uma perda de qualquer jeito. Agora só cabia a mim decidir qual seria. Filósofa essa Norah, hein! 15:53- O dia hoje no Firehouse Subs está sendo “pauleira”. Milhares de turistas de toda a parte do mundo já apareceram por aqui. Sem falar que teve banheiro entupido, pilhas de louças pra lavar, chão pra varrer... Eu pensei seriamente em processar meu chefe por trabalho escravo infantil e desistir desse emprego sugador de vida. Só não fiz isso porque lembrei que o salário daqui vai ser meu passaporte pra dar o fora de Orlando, então continuei fazendo o serviçinho sujo... Literalmente! 16:27- Ih! Meu celular! O ícone da mensagem está piscando... 16:28

< Sugestão do dia: There she goes


– The La’s (ms acho q vc vai preferir a versao do ‘Sixpence None The Ritcher’) There she goes There she goes again Racing through my brain And I just can’t contain the Feelings that remain. Theo> A Norah traduziu a letra da música como eu pedi e ainda disse que aquilo não era apenas uma sugestão musical, mas uma mensagem sutil do Théo, revelando que ele não consegue parar de pensar em mim. Eu falei pra Norah que ela estava doida, vendo coisa onde não tinha e fui cortar mais cebolas pra colocar na bandeja de ingredientes... Só que eu fiz isso cantando! Aí eu finalmente me toquei que eu podia tentar esconder de todo mundo, mas não pra mim mesma o óbvio daquela situação. Eu já estava completamente apaixonada pelo Théo. Tinha todos os sintomas: perda do juízo (alôôu, sair no meio da noite sem dizer nada pra minha mãe!), achar o mundo uma maravilha (cortar cebolas sorrindo lhe diz alguma coisa?) sorrir de forma abobada o tempo todo (idem ao parêntese anterior!). Só tem um problema nisso tudo: a minha ideia de voltar pro Brasil. Tudo bem que se o Théo só estiver querendo curtir comigo, não vai ser o fim do mundo pra ele se eu for embora. Mas e se ele não estiver? E se ele realmente tiver se apaixonado por mim? Brincar com o coração dos outros não é justo. Sem falar no meu coração! Será que eu vou ter coragem de deixar o Théo aqui, virar as costas e ir embora pra nunca mais voltar? Não sei se eu conseguiria viver sem aqueles olhos zuis piscina, sem aquelas pintinhas charmosas, sem aquele sorriso... Meu coração fica até apertado só de pensar na abstinência forçada de Théo. Por outro lado, eu não me adaptei nem um pouco a Orlando e ainda morro de saudade de Estrela e do Brasil. Não sei se conseguiria ficar aqui só pelo Théo. É pedir demais de mim. Mas acho que o melhor a fazer nesse instante é ir trabalhar. Depois eu penso sobre isso. Não vou conseguir resolver nada agora mesmo.

21 de Junho (Quarta-feira)


Firehouse Subs- Início oficial do verão!

14:19- Estou escrevendo sentada num cantinho entre o fogão e a geladeira. É difícil ter um tempo livre pra isso, o que por um lado é bom, pois eu não fico pensando o tempo todo no Théo. Ontem não deu pra escrever uma única linha aqui porque sempre tinha um cli... Argh! Nem bem falei e um cliente já está me chamando de novo. Vou lá ver o que ele quer. Espero que esse não ria do meu inglês e nem seja mal educado como a família de americanos que eu atendi mais cedo. Já me basta a bolha enorme que eu ganhei por ter encostado o pulso sem querer no forno escaldante quando fui esquentar os pães. 14:31 – Pronto. Voltei. Então, continuando... Eu não tenho descanso nesse lugar porque de minuto a minuto sempre aparece um cliente pra mim. Puuuutz! Como agora... Acabou de estacionar uma van cheia de turistas brasileiros aqui na frente! Dá pra ver que eles estão numa excursão pra Disney pelas camisas amarelas iguaiszinhas escrito: “Turminha da tia Carla no mundo mágico do Mickey”. O bizarro é que a maioria da “turminha da tia Carla” é composta por um bando de marmanjos! Alguns com a pança maior do que a do meu tio Oscar. Sério, deu vergonha alheia agora desse povo vestido com essa camisa da cor do Piu-Piu e ostentando um slogan tão ridículo. Melhor eu atender esses pobres coitados logo. Ainda não decidi nada sobre ficar aqui em Orlando ou não, então até o momento Brasil me espera e, pelas minhas contas, ainda faltam _______ dólares pra eu poder comprar minha passagem. Portanto, mãos a obra! Gorjetas são bem vindas, pessoal da “turminha da tia Carla”! 18:50 (No estacionamento do Firehouse Subs)- Meu reino por uma cama agora! Juro. Parece até que eu vim da guerra! Não consigo nem me mexer direito de tanto que trabalhei, mas vi uma coisa muito estranha hoje, e quero registrar aqui, antes que eu me esqueça e o Vini chegue pra me levar em casa. No momento em que o bando de brasileiros sedentos por gordura foi embora, o Héctor não colocou na caixa registradora o dinheiro que ele recebeu como pagamento pelos dois sanduíches que um dos fregueses tinha comprado. Eu não falei isso com ninguém, nem com a Norah, e aparentemente o Héctor não percebeu o que o vi fazendo. Estou em dúvida se conto ou não pro senhor Alcazar. Não gosto de bancar a dedo-duro nem nada. Se bem que, pensando bem agora, talvez o que eu vi tenha sido só o Héctor botando a gorjeta dele no bolso. Pode ser, não pode? É. Eu devo ter me confundido mesmo. O Héctor nunca iria desviar dinheiro da lanchonete. Pelo o que me contou num dia desses, ele sofreu muito pra chegar até aqui nos Estados Unidos. Além de pagar um dinheiro absurdo pra um “coyote” atravessar ele na fronteira do México, também


passou fome, sede, quase levou um tiro de uma patrulha americana e ainda andou uma noite inteira no deserto do Texas, tendo que esfregar alho esmagado de hora em hora no tênis pra espantar as cobras... Ele não iria correr o risco de estragar o seu sonho americano, sendo deportado por causa de míseros $10. Duvido muito.

22 de Junho ( Quinta-feira) Casa de tia Vivian

22:42- Imagine que o seu corpo não tem nem mais um pingo de energia, e você não consegue nem ficar de pé porque todas as partes dele doem. Imagine que os seus pés estão tão doloridos e que, mesmo você usando tênis o tempo todo, eles estão formigando e cheios de bolhas. Imaginou? Prazer, esse bagaço sou eu depois de mais um dia no “Tronco”, digo, Firehouse Subs. E pra piorar ainda mais a situação, o cheiro do desinfetante que a Norah passou no chão da lanchonete meio que atacou a minha asma. O Vini até veio todo atencioso, sentou ao meu lado no sofá e ficou brincando com o meu cabelo, enquanto eu assistia a TV, mas tudo que ele queria era perguntar se eu estava a fim de ir a uma festa junina num condomínio lá pelas bandas da Metro West, onde uns amigos brasileiros dele moram. Apesar de estar morrendo de vontade de ir, pois eu amo festas Juninas, disse que preferia ficar em casa com a Ana e as amigas dela, que iam fazer uma maratona de


filmes. O Vini ficou meio desapontado, mas acabou indo aproveitar a folga do McDonald’s na tal festa Junina junto com a Alice e o Dani (vestidos de camisa xadrez e tudo) enquanto mamãe e tia Vivian saíram pra ir fazer compras no Wal-Mart. Nem bem o carro deles virou a rua, o pai da Britt despejou ela, mais a Carol, a Jenn e a Luana no nosso quintal. A Ana foi correndo fazer pipoca de microondas e me pediu pra ir ligando o DVD e abrir a porta pra elas. Mesmo com o meu inglês péssimo, cumprimentei a Jenn e a Britt e ofereci a elas um pouco do brigadeiro que tinha feito. As duas acharam meio nojento, não só por estar na panela ainda, mas também pela consistência (garotas frescas!), já a Carol estava de dieta, mesmo sendo óbvio que ela não precisava emagrecer nenhuma grama (melhor, assim sobrava mais negrinho pra mim e pra Luana!). A lista de DVDs que as meninas tinham trazido começava com “Encantada”, depois passava por “Diário de uma paixão”, “Moulin Rouge” e terminava com o clássico das comédias românticas “Dez coisas que eu odeio em você”. Uma seleção que eu gostei muito, por sinal, apesar de ter que assistir em inglês. A Ana saiu da cozinha com duas bacias enormes de pipoca e, depois de voltar pra pegar refrigerante pra todo mundo, deu play no DVD onde “Encantada” já estava esperando pra começar. Menos de meia hora de filme tinha passado quando a campainha tocou quebrando a nossa concentração. A Ana disse que não estava esperando por mais ninguém, mas eu resolvi despregar a bunda do sofá e fui atender, achando que fosse o nosso primo Mark. O Vini disse que talvez ele viesse pra pegar um CD de instalação do Windows porque o computador dele deu pau. Mas ao invés dos olhos verdes do meu primo americano, eu dei de cara com duas piscinas azuis enormes. Não acreditei. Era o Théo! Na minha porta! Aparecendo de novo de surpresa! Sabe aquilo que dizem que você tem que dar um passo pra trás pra observar uma obra de arte? Foi o que eu fiz. E não só pelo susto de ver o Théo ali, assim, do nada. Mas também porque ele estava lindo, usando uma camisa preta escrita “Just do It” em branco e um boné da mesma cor virado pra trás. E o cheiro do perfume dele então... Ai, ai. Fiquei imaginando como eu conseguiria ficar longe de tudo aquilo. “Cheguei num momento ruim?” ele perguntou olhando pro bando de meninas empoleiradas no sofá. Eu respondi que não, e aí uma vozinha de criança gritou atrás dele: “Look, brother! A cat!” Era a Bibi, a irmãzinha dele, arrastando a Lola praticamente pelo rabo. Assim que me viu, ela largou a pobre da gata e veio correndo me dar um beijo estalado na bochecha e um abraço apertado. Nisso a Ana apareceu na porta perguntando se o Théo queria enfrentar uma sessão de filmes água com açúcar, incluindo “Dez coisas que eu odeio em você”. Ele recusou a oferta, dizendo que já tinha visto esse filme 36 vezes por causa das irmãs, e aí falou que só tinha passado mesmo pra dar uma palavrinha rápida comigo. Eu o convidei pra entrar, não fazendo idéia do que ele poderia querer e, antes de irmos pro quintal dos fundos, lembrei de pegar a panela de negrinho que a Luana estava quase detonando. A Bibi preferiu ficar vendo “Encantada” com as meninas e assim que o Théo e eu nos sentamos na mesa de piquenique, a Ana fechou a cortina da porta de vidro da sala, por causa das bisbilhoteiras da Britt e da Carol que não


paravam de olhar na nossa direção. A noite estava bem fresca agora, em comparação à sucursal do inferno que Orlando parecia de dia. “Sério mesmo? Você viu ‘Dez coisas que eu odeio em você’ 36 vezes?!” eu perguntei dando uma colherada na panela de negrinho enquanto me sentava em cima da mesa de piquenique. “Bem... Na verdade, só uma. As outras 35 eu dormi.” ele respondeu rindo. “E qual foi o veredito sobre essa única?” “Oh, o Heathe Ledger estava muito mais gato em The Dark Knight” ele respondeu balançando a cabeça e fazendo graça. Não tive como não rir, apesar de ter que confessar que eu morri de medo desse filme. O Heath tinha conseguido a façanha de interpretar dignamente o Coringa mais psicopata e assustador de todos os filmes do Batman. “Então. A que devo a visita ilustre?” perguntei de brincadeira, pegando mais uma colher cheia de negrinho da panela. O Théo riu e sentou ao meu lado em cima da mesa de piquenique, me brindando mais ainda com seu perfume maravilhoso. O ar agora parecia entra mais devagar nos meus pulmões. “Que tal você me oferecer um pouco disso aí antes?” ele perguntou apontando pra panela. Morri de vergonha pela minha falta de educação e estendi a colher de negrinho pra ele perguntando se queria. Rá. Macaco gosta de banana? “De verdade Théo, porque você veio?” eu perguntei tentando parecer séria. Esconder o meu sorriso por estar ao lado dele era realmente difícil. “Por isso” ele disse devolvendo a colher pra panela de brigadeiro e tirando um envelope branco do bolso pra passar pra mim. Ao abrir vi que era um convite lindo de casamento, onde os noivos se chamavam Paige Medina e Dennis Reid. “É o casamento da minha tia mais nova e eu queria muito que você fosse” ele explicou. “Mas Théo, da sua família eu só conheço a Bibi e a Megan!” eu respondi espantada. “Ué, vai conhecer o resto na festa.” ele disse erguendo os ombros, como se estivesse falando a coisa mais normal do mundo. Tipo, ahã claro. Ir ao casamento da sua tia americana que eu nunca vi na vida não tem nada demais! “Será que a palavra ‘impulsivo’ faz algum sentido pra você?” Ele riu. “Hummm... Não. Mas minha irmã mais velha vive dizendo que é o meu nome do meio. E então? Qual é a resposta?” “Vou pensar.” eu disse ainda não acreditando no que aquele maluco estava fazendo. “Ah, e esse é o convite da Ana” ele disse estendendo outro pra mim. “Da Ana?”. Devo ter ficado tão perplexa que o meu tom denunciou. “É um favor pra um amigo que quer muito encontrar com ela de novo.” “Que amigo?” “Isso já é segredo” ele respondeu dando mais uma colherada no brigadeiro. Será que era o Kevin? Mas também que outro amigo poderia ser? “Hummm. Isso tem gosto de Brasil.” o Théo disse saboreando o doce. “Se eu soubesse que o meu negrinho ia fazer tanto sucesso tinha preparado uma panela maior” eu brinquei dando uma acotoveladinha no Théo.


“Negrinho?” ele rebateu me olhando estranho. “É assim que a gente chama brigadeiro no Sul.” “Mas nós não estamos no Sul e eu não tenho um dicionário de ‘gauchês’ a mão aqui. Então será que dá pra gente falar do jeito padrão brasileiro, por favor?” “E se eu não quiser?” “Então eu vou ter que te obrigar.” ele disse pegando um dedo cheio de brigadeiro da panela e lambuzando a pontinha do meu nariz. Eu fiz cara de indignada e me limpei no mesmo instante. Depois enfiei também o dedo na panela de brigadeiro pra revidar. “Que atrevimento!” eu disse sujando a bochecha dele e comecei a rir. O Théo passou a mão no rosto, lambeu o brigadeiro que tinha ficado nela e pegou mais um pouco pra tentar me sujar. Eu o segurei pelos punhos e fiquei tentando impedir ser lambuzada de chocolate de novo. Mas era óbvio que eu ia perder logologo aquela briga, testosterona sempre vence estrógeno nessas horas. Por isso abaixei minha cabeça e a enterrei no peito do Théo, tentando esconder o meu rosto. De cara senti o seu perfume gostoso entranhar nas minhas narinas. O boné dele acabou caindo e nós ficamos nessa brincadeirinha infantil durante um bom tempo, até que o Théo desistiu de fazer força. Quando eu levantei o rosto pra perguntar se ele tinha se rendido, percebi que nós dois estávamos muito próximos um do outro e ele agora olhava diretamente nos meus olhos. Fiquei vermelha e desviei o olhar rapidinho pras pintinhas no pescoço dele. Elas eram tão fofas que eu sorri. “O que foi?” “Suas pintas” eu respondi sentindo uma coisa no peito, achando que o meu coração fosse parar. “Ah, nem fala nisso! Eu odeio elas. Pareço até uma onça pintada.” “Eu acho elas lindas!” “Não. Você é que é linda!” ele disse parecendo sincero. E aí chegou mais perto de mim. “Posso ter fazer uma pergunta?” Eu fiz que sim com a cabeça. “Você colocou alguma poção do amor nesse brigadeiro, não colocou?” Ainda em silêncio eu neguei com a cabeça. “Então como é que eu vou justificar o que vou fazer agora?” ele perguntou e nisso segurou meu rosto delicadamente com a mão que não estava suja de brigadeiro e foi chegando mais perto da minha boca. E aí ele me beijou............. Rá! Pegadinha! Não. Infelizmente não foi isso que aconteceu. Na hora em que a gente estava quase se beijando, eu ouvi um chiado fino saindo do meu peito. A falta de ar veio com força total também pra completar o quadro. Só faltei gritar um palavrão (na verdade não tinha força pulmonar pra isso naquele momento, mas era o que eu queria fazer). Pelo visto tudo o que eu tinha sentido: dificuldade de respirar, aperto no peito, não eram só sintomas de paixão. Eu estava tendo uma crise de asma bem ali e o Théo, coitado, sem querer colaborou ainda mais pra isso. “Seu... (respira) ...perfume!” eu disse abafada. “O quê? É 212 Man...” ele respondeu.


“Tenho... (respira) asma.... (respira) não... (respira) posso... (respira) ...perfume.” Agora eu estava tentando engolir enormes golfadas de ar entre as palavras. “Babi, os seus lábios estão ficando roxos!” ele gritou. Nunca o tinha visto tão assustado. E nem sei como consegui dizer que precisava da minha “bombinha”, mas de alguma forma o Théo entendeu e foi correndo perguntar a Ana onde ela estava. Quando os dois apareceram no quintal, seguidos pelas meninas logo atrás, minha prima me deu o inalador e eu na mesma hora o coloquei na boca e ativei a válvula. O alívio veio rápido. Minutos depois eu já estava bem melhor, só sentindo um pouquinho de aperto no peito. O chiado pelo menos tinha parado. O Théo ainda parecia preocupado e não encarou muito bem eu ter pedido pra ele ficar longe de mim, por causa do perfume. Achou melhor ir embora e assim que pegou a Bibi no colo (ela tinha adormecido vendo ‘Encantada’) eu o acompanhei até o carro. “Fica bem tá?” ele disse e fez menção de que ia me dar um beijo na bochecha, mas eu recuei com medo de acontecer todo o lance da crise de novo. “Foi mal. Prometo que não vou usar mais perfume quando estiver com você.” Ele garantiu dando um passo pra trás. “Não. Quê isso! Eu é que tenho que pedir desculpas por ser esse poço de problemas.” “Pra mim você é perfeita do jeito que é, Babi. Eu não mudaria nem um milímetro sequer em você.” ele disse me fazendo suspirar. Claro que minha vontade na hora era pular no pescoço do Théo e dar um beijo nele de tirar o fôlego. Não fiz isso por causa da Bibi, que estava no colo dele, e do fato de que eu já estava mais do que sem fôlego por causa da asma. Malditos brônquios inflamados! Assim que ele foi embora eu entrei em casa e parei pra ver qual era o filme que as meninas estavam assistindo. “Diário de uma paixão” tinha acabado de começar. Fiquei olhando pros atores velhinhos e imaginando se eu iria encontrar alguém especial que ficaria comigo a vida toda. Sabe, me dar xaropinho na boca quando eu estivesse velhinha, ler meu diário todos os dias caso eu tivesse algum lapso de memória igual a vovó do filme... Fiquei tão pensativa que a Ana virou pra mim e perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim e fui pro meu quarto. No corredor ouvi meu celular apitar e eu sabia que tinha um torpedo me esperando. Corri pra ver. <Sugestão do dia: (Já q ainda stou c gosto de Brasil na boca) Ivete Sangalo e Saulo Fernandes- Não precisa Mudar.

Não precisa mudar Vou me adaptar ao seu jeito Seus costumes, seus defeitos Seus ciúmes, suas caras. Pra que mudá-las? >


Quase chorei. Como o Théo conseguia ser tão fofo? Tão compreensivo? Por incrível que pareça, isso me deixou triste. E se o Théo fosse o garoto da minha vida e eu desperdiçasse a chance de ficar com ele por causa dessa idéia de voltar pro Brasil? A Ana entrou no quarto bem no meio desses meus pensamentos malucos e sentou ao meu lado na cama. Ela sabia que eu não estava bem e perguntou se eu queria conversar, eu deitei no colo dela e desabafei. “Ana, quando é que a gente sabe que o cara que a gente gosta é o garoto certo? “Oh, God! Sei lá, prima. Garotos não usam crachá de ‘príncipe encantado á espera’. Acho que só com o tempo a gente descobre isso. Ou talvez nunca descubra, mas o importante é tentar, mesmo que a gente tenha que ir beijando sapos pelo caminho. Alguns nem são tão ruins assim.” ela disse rindo. Eu ri também e aproveitei meu momento de bom humor pra ir pegar o convite dela que tinha esquecido em cima da mesa de piquenique. Minha prima pulou de alegria e foi correndo contar pras garotas. Depois disso mamãe chegou das compras com tia Vivian e eu fiquei meio encrencada quando ela encontrou o boné do Théo caído no quintal. Não tinha como mentir e dizer que era do Vini, pois tia Vivian devia conhecer o guarda-roupa dele todo, então acabei falando a verdade. Ou parte dela, afinal eu disse que o Théo tinha vindo aqui, por que me viu na frente de casa e me reconheceu. Tá, tudo bem. Não só omiti a história do convite, como inventei uma mentira das brabas. Fazer o quê? Mamãe pareceu engolir e ficou muito feliz que eu tenha reencontrado o Théo. Acha que nós vamos acabar nos tornando grandes amigos. Ah se ela soubesse...

quando a cinderela mora ao lado 17-22  

caps 17 a 22 de junho

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