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OUT2015


Enchanté, Paris!

DIVERSIDADE

de linguagens Por Gilberto de Abreu Desde o início a ideia era apresentar ao público parisiense um painel da arte contemporânea brasileira que passasse ao largo de uma representação folclórica, e naif. A capital europeia da arte, rica em tradição, produção e vivência de arte teria, assim, a oportunidade de conectar-se com uma produção liberta de uma roupagem exótica, tropical. O conjunto de obras reunidas no projeto batizado Enchanté, Paris! era favorável a isso. Plural por excelência, reunia pintura, escultura, desenho, fotograa, objeto, instalação. Tão diverso quanto este acervo era o background dos expositores. Diante de artistas tão díspares, linguagens tão particulares e poéticas tão singulares coube a mim, enquanto curador, garantir a cada um dos expositores a melhor visualização de sua obra. E isso não se resume apenas à vizinhança com os demais. Era preciso pensar nas circunstâncias com o que público francês conviveria com todos. Este meu primeiro projeto curatorial internacional era, na verdade, algo bem maior. Já que teríamos – curador, produtores e artistas – não apenas uma, mas três oportunidades de visibilidade naquele que pode ser considerado um dos mais exigentes mercados da arte. Assim, o que já me parecia um enorme desao – ocupar os 2 mil metros quadrados do Le Chêne, um espaço de criação alternativa situado em Villejuif, no subúrbio de Paris –, tornou-se algo sem precedentes, visto que havíamos conquistado dois novos sítios: a galeria de arte Jed Voras e o Instituto Cultural Alter Brasilis. Dar ouvidos à intuição é – sempre foi, para mim – uma estratégia de atuação. Por este motivo pensava não no que exibir, mas no(s) porquê(s) de estarmos propondo uma exposição. Especular sobre cada lugar e suas potencialidades expositivas permitiu-me redesenhar um mapa mental cujo esboço foi traçado à distância, ainda no Brasil. Ao desembarcar em Paris, acompanhado dos mais de 50 objetos de arte reunidos para a(s) mostra(s), e após visitar os diferentes espaços, passei a investigar as oportunidades oferecidas por cada um deles em acomodar trabalhos em suportes e dimensões tão variadas. Cabe a ressalva de que a este acervo agregamos ainda trabalhos de cinco outros artistas, brasileiros e franceses, vinculados tanto à galeria que nos acolheu quanto à plataforma ArtMaZone, responsável pela intermediação com os espaços acolhedores. A Galeria Jed Voras, cuja vocação para a abstração geométrica é incontestável, nos trouxe o desao em dialogar com um site specic do jovem artista francês Brice Maré, presente no elenco da galeria e da plataforma digital criada por Nina Sales


Admirador da produção do pintor niteroiense Rafael Vicente, Brice manifestou o desejo de realizar um trabalho que conversasse com o dele: um conjunto de nove pinturas em pequenos formatos, derivada da série apresentada em março, em sua primeira individual em Paris. Tendo em vista a arquitetura da galeria, e a proximidade conceitual com a obra de Maré e Vicente, Rudi Sgarbi foi agregado ao duo, tendo a oportunidade de realizar, in loco, um trabalho de caráter instalativo, e em perfeita sintonia com as linhas e planos existentes na produção de seus pares. Na passagem deste primeiro ambiente para o segundo – onde foram expostos desenhos de Rodrigo Rodrigues e fotograas de Cláudia Perpétuo e Christiana Guinle – instalamos um mural de Ivar Rocha: uma releitura do mesmo trabalho apresentado pelo artista em sua exposição individual no Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Rocha, que virá a ser o próximo artista do programa de residência artística da ArtMaZone em Paris, foi incorporado ao coletivo por realizar um trabalho que os parisienses já estão acostumados a ver espalhados pelas ruas de Paris: lambe-lambes. O mural de Rocha – composto ainda de um par de cassetetes policiais dispostos na forma de cruz – aludia não apenas à paisagem urbana, e ao que se pode extrair dela, como também à repressão/censura, e a uma situação iminente de perigo. Lê-se nele, repetidas vezes, a palavra incêndio. O segundo espaço propriamente dito reuniu, em duas quatro paredes, três desenhos em médios formatos de Rodrigo Rodrigues. O artista, que assim como Sgarbi este presente na itinerância por Paris, acolheu de peito aberto a sugestão curatorial de extrapolar o limite bidimensional, realizando a partir do trabalho inscrito um outro, de cunho instalativo. Na parede vizinha, uma série de oito fotograas em preto e branco de Cláudia Perpétuo nos permitiria contemplar as marcas do tempo nas mãos de uma personagem que, segundo a artista, fora uma das mulheres mais vaidosas a quem teve a chance de conhecer. Eram também sobre a vaidade feminina os ensaios fotográcos da carioca Christiana Guinle e da francesa Iris dela Roca, um nome em ascensão na cena parisiense. Lançando mão de aplicativos de manipulação de imagem por celular, Guinle, que é atriz e prima do célebre pintor Jorge Guinle, dedica-se à (re)criação da imagem feminina através do acúmulo, da superposição, do empilhamento de referências. Sua obra tem como suporte o metacrilato, um material asséptico, e que em muito se assemelha às telas de celulares e tablets. Dela foram expostas duas imagens em médios formatos. Iris dela Roca, por sua vez, participou da coletiva com um único objeto fotográco, proveniente de uma residência no Rio de Janeiro. A pequena caixa de luz, ligeiramente azulada, era uma janela para o Rio de Janeiro. Um pixel para a paisagem underground carioca, povoada por travestis, transexuais, e por homens em busca de novas aventuras sexuais. Duas outras séries – desenhos de Mariane Monteiro e fotograas de Julio Perestrelo – enriqueceram o debate acerca da gura humana e, por que não, da imprevisibilidade existente nas relações entre os indivíduos. Pequenas em formato, grandes em suas visões de mundo. Quase a totalidade dos trabalhos selecionados para a Jed Voras - exceto as peças de Guinle, Roca e Vicente – foram produções em preto e branco, algo que não aconteceu por acaso. Foi sim, um segundo norte curatorial: uma tentativa de desassociar a produção em questão da explosão de cores a que o Brasil costuma atrelar-se.


O primeiro, talvez, seja essa nossa condição em tentarmos nos enquadrar no contexto das grandes cidades, de nosso próprio país, e de qualquer lugar do mundo. Não por acaso foi esse o o condutor de nossa intervenção efêmera no Instituto Cultural Alter Brasilis. Dedicado à promoção da arte e da cultura brasileira em Paris, o Alter Brasilis realiza uma série de atividades devotadas ao ensino da língua portuguesa falada no Brasil. Nesse caso em particular, selecionamos um grupo de trabalhos que poderiam, por si, suscitar conversas entre o público presente. Uma exposição de caráter pop-up conciliou pinturas de Cândida Boechat, Jansen Vichi e Roberta Dacosta foram dispostas no mesmo ambiente que acolheu esculturas de Rodrigo Saramago e Objetos de Renata Sgarbi. Compuseram esse ambiente uma série de livros sobre arte contemporânea brasileira, consultados antes, durante e depois de uma mesa de debates sobre o mercado de arte parisiense e a possibilidade de inserção de artistas brasileiros naquele contexto. Coroando o dia, Rodrigo Rodrigues realizaria um workshop de desenho aberto a pessoas de todas as idades, incluindo crianças. Um dos vetores claramente identicáveis no conjunto de obras que constituem Enchanté, Paris! é a diversidade. E foi este o viés adotado para a ocupação realizada no Le Chêne, um espaço que acolhe, de modo orgânico e democrático, jovens artistas de toda a Europa, seja para a realização de workshops, residências e exposições. Capaz de acolher até 10 mil pessoas num único nal de semana. O Le Chêne pode reunir, de uma só vez, quase a totalidade das obras enviadas pelos artistas. Cada expositor participou, em média, com cinco trabalhos. Longe de oferecer uma leitura denitiva sobre cada autor, a montagem permitiu, no entanto, que o público pudesse imergir na poética de cada um. Dispostos lado a lado em toda a extensão do prédio – cuja fundação leva a assinatura de ninguém menos que Eiffel, o mesmo da Torre – os trabalhos dialogavam entre si, entre seus pares, com os objetos em ferro produzidos no próprio Le Chêne, e mais importante, com o público presente. Nesse contexto, as esculturas em ferro de Rodrigo Saramago despertaram grande interesse por dialogarem diretamente com os materiais comumente ali trabalhados. Por outro lado, os objetos em papel de Renata Sgarbi ofereciam um contraponto à rigidez do metal, intrigando a todos com sua aparência orgânica. Pela qualidade técnica e gurativa, tanto as pinturas de Cândida Boechat quanto as de Jansen Vichi permitiram aos parisienses reconhecer nelas a potência plástica dos grandes artistas, sem desviar o interesse dos novos nomes, como no caso de Roberta Dacosta e Tahis DZ, cuja produção pictórica encontra-se em total sintonia com a da jovem cena parisiense. Completaram o elenco Christiana Guinle, Rodrigo Rodrigues, Julio Perestrelo e Rudi Sgarbi, que ndou por ocupar uma pequena sala, congurada como exposição individual. Ao término dessa nossa passagem por Paris, fomos agraciados com a chancela do Centro Nacional de Artes Plásticas daquela cidade que reconheceu, publicamente, nossos esforços em promover diálogos sobre a arte contemporânea e, mais que isso, por aproximar a produção brasileira do contexto parisiense. O que para nós era motivo de satisfação tornou-se, por m, motivo de orgulho. Enchanté, Paris! deixa de ser um projeto visionário para gurar no calendário ocial das artes visuais em Paris. Que venham novos desaos, novos espaços, novos artistas, novos públicos e novas conquistas. Gilberto de Abreu é editor do site Supergiba Arte Contemporânea - www.supergiba.com.


Por Bruno Perpétuo SACI - Soluções em Arte Colaborativa Independente - é uma plataforma especializada em estrategias de visibilidade artística através de um tripé de atuação: o colaborativismo, a hiperconectividade e a globalização. Quando falamos especializada podemos parecer arrogantes ao armar isso de uma iniciativa tão recente, anal, atuamos apenas desde novembro passado, quando proporcionamos a 5 artistas iniciantes seu primeiro contato com a comunidade artística internacional, com um mercado desenvolvido e com a interlocução e fortalecimento de suas próprias redes de contatos. Lá se vão 11 meses e a SACI! já esteve em 7 cidades espalhadas pelo mundo, fazendo empreitadas que reuniram mais de 20 artistas e com inserção substancial desse número em uma nova realidade dentro de suas carreiras. Já são mais de 30 artistas esperando seu momento de poder fazer parte de uma empreitada encabeçada pela SACI!, e já sabemos que tanto o formato de negócios quanto os artistas revelados agradaram em cheio aos olhos e às mentes de colecionadores de arte, investidores e empreendedores criativos. A SACI! sabe que a economia criativa é um dos desaos do nosso tempo e crê que apenas a forma colaborativa pode ser a opção viável para vários artistas que buscam seu espaço de forma independente, se alinhando com comunidades artísticas que tenham pensamentos similares, incrementando redes de contatos antes dispersas e fazendo assim que a arte seja uma verdadeira ferramenta de revolução, não apenas a que ela já propicia por si só, mas provando que um mundo novo precisa de um novo modelo - hiperconectado, global, colaborativo e viável. Por isso, especializada, sim. Anal, um novo modelo, navegando novos mares, com marujos inexperientes, sendo elogiados em cada porto que atracamos, em 11 meses descobrimos que ainda existem mares nunca dantes navegados.

Por Nina Sales ArtMaZone é um organismo de ações artísticas, inédito e alternativo, dedicado às artes visuais brasileiras e aberto a toda manifestação da produção atual no Brasil e fora. Desejamos promover a visibilidade dos artistas, dos jovens criadores, assim como a convergência de todas as expressões. Nossa estrutura, fundada em 2012, tem sede em Paris e possui representantes no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nós administramos uma plataforma digital que apresenta um panorama da produção brasileira atual. Esse espaço pioneiro é aberto e se apoia sobre o princípio da colaboração desenvolvido a partir de uma rede de artistas, pesquisadores, curadores, estudantes. Além da produção brasileira, coletamos e divulgamos informações sobre atualidade do mundo da arte, suas múltiplas expressões, seus meios de produção, seu mercado, suas modalidades de exposição e de circulação. Nossa plataforma digital não possui ns lucrativos e, em nenhum caso, A observação dessa dinâmica da arte contemporânea é acompanhada por pesquisas curatoriais feitas por nossa equipe composta de agentes culturais, prossionais do mundo da arte e da comunicação. ArtMaZone concebe e realiza eventos artísticas: Curadoria, Programas de Residências, Ocinas/Palestras.


Rudi Sgarbi


Ivar Rocha


Brice MarĂŠ


Rafael Vicente


Mariane Monteiro


Claudia PerpĂŠtuo


Christiana Guinle Iris Della Roca


Rodrigo Rodrigues


Julio Perestrello


Jansen Vichy


Jansen Vichy Candida Boechat


Tahis DZ

Rodrigo Saramago Jansen Vichy

C창ndida Boechat


Roberta Dacosta Tahis DZ + Rudi Sgarbi + Renata Sgarbi

Rodrigo Saramago


Ivar Rocha


Julio Perestrello


Rodrigo Rodrigues - Workshop


Rodrigo Rodrigues Christiana Guinle


Jansen Vichy


Rodrigo Rodrigues

Tahis DZ Jansen Vichy


Julio Perestrello


Renata Sgarbi


Roberta Dacosta


Roberta Dacosta

Rudi Sgarbi


Rudi Sgarbi


Tahis DZ


Renata Sgarbi


Rodrigo Saramago


Cândida Boechat

Cláudia Perpétuo

Rodrigo Saramago


Cláudia Perpétuo


Ficha Técnica

Curadoria: Gilberto de Abreu Produção: Artmazone Realização: SACI Coordenação: Nina Sales Fotograa: Gilberto de Abreu, Cláudia Perpétuo, Rose Joubrel Divulgação: Gilberto de Abreu, ArtMaZone e SACI Artistas: Brice Maré, Candida Boechat, Christiana Guinle, Claudia Perpétuo, Iris Della Roca, Ivar Rocha, Jansen Vichy, Julio Perestrello, Mariane Monteiro, Rafael Vicente, Renata Sgarbi, Roberta Dacosta, Rodrigo Rodrigues, Rodrigo Saramago, Rudi Sgarbi, Tahis DZ. Agradecimentos: Ana Paula Soares, Andreia Gomes Durão, Carolina Lepeé, Leandro Amora, Marcelo Bittencourt e Raphael Ocampo.


Enchanté Paris!  

Collective Exhibition - Paris 2014