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Voyeur X Protagonista por Rodrigo Ferrari

Começo este texto deixando um ponto claro: teço os comentários a seguir sobre sexo e sexualidade na qualidade de usuário (razoavelmente assíduo), não como especialista ou estudioso do assunto (até porque, precisaria de uma formação que não possuo). Não tenho embasamento teórico, portanto, além das aulas de biologia num longínquo primeiro grau, lá pela década de 90. Mas tenho a vivência real. O sexo real, aliás, é o grande motivo de estarmos aqui. Cada humano que habita o planeta foi gerado por um encontro sexual. Arrisco dizer que trata-se do ato social mais antigo do mundo. O sexo já estava no planeta muito antes do homo sapiens surgir. Não, não foi invenção nossa. Desconfio que não seríamos tão criativos assim a ponto de estabelecer um hábito tão duradouro, ou com consequências tão fantásticas. O que não nos impede, claro, de recriar o ato à nossa maneira. Agregar elementos, desenvolver fantasias, buscar maneiras diferentes de concretizar o desejo que praticamente nasce com cada um. Confesse... Você também tem suas fantasias. Relacionadas a pessoas, situações, partes do corpo, cremes, massagens, acessórios. Dou meu voto de confiança para qualquer prática, desde que haja consentimento dos dois (ou três, ou quatro, ou cinco etc etc) envolvidos. Poucos teriam coragem de expor tudo aquilo que imaginam. Mentalizar situações, aliás, é o único terreno no qual tudo é liberado - até o que é proibido. E quando você acha que já viu de tudo, que conhece tudo, alguém surge com uma ideia nova. Há poucos anos, fui surpreendido por uma categoria de filmes pornô até então desconhecida para mim: o POV (Point Of View – Ponto de Vista). A ideia é bem simples: um dos atores é também o cinegrafista e mantém a câmera na altura do próprio rosto, filmando tudo do seu ponto de vista. Talvez eles tenham remuneração dupla (o que seria justo, pois acumulam essas duas funções: ator e cameraman). As filmagens também têm pouca edição, ou seja, menos cortes. O que faz disso uma categoria distinta dentro desse universo? Bem, melhor do que eu tentar explicar é você achar um filme desses e assistir, de preferência em uma tela de boa resolução. Com um pouco de entrega, de permitir-se embarcar na fantasia, você vai se sentir protagonista do filme. E é nesse ‘entregar-se’ que reside a melhor parte do sexo. Fazê-lo sem amarras, sem pensar nos próprios preconceitos, sem ter receio de parecer pervertido ou ridículo (ou ambos). Todos temos um desejo (ou muitos) guardadinho num baú dentro da própria mente que nos leva a lugares exóticos e situações que não ousamos revelar. O que dizer das que envolvem pessoas com as quais não poderíamos jamais ousar uma tentativa mais direta? Alguém do trabalho? Da vizinhança? Comprometido? E as celebridades? Quantas delas passearam pelas nossas fantasias durante a masturbação? Quando vazam as sextapes de artistas,


minha reação é sempre bradar “Nossa, que absurdo ter sua intimidade exposta desse jeito! Coitado, não deveriam explorar assim a privacidade alheia. Mas... Cadê o link, mesmo?”. Essa minha hipocrisia rege o comportamento de tantas pessoas. É impressionante como ainda, com o perdão do clichê, em pleno século 21 o ato real do sexo ainda seja tabu. Não defendo, obviamente, que seja banalizado ao ponto de ser exposto pelas ruas, mas, sim, admitir que ele existe e é tão natural quanto respirar. Quer fazer um teste interessante? Pergunte numa roda de amigos (com um certo grau de proximidade, claro) quem se masturba. Prepare-se para ver sorrisos amarelos e constrangidos, além de ouvir respostas como “não preciso, sou casado”. Como se a masturbação fosse vergonhosa, algo reservado apenas a quem não tem outra opção. Quer ir além? Pergunte sobre relacionamentos abertos. Ou ménage a trois. Raras são as pessoas que confessariam gostar da ideia de fazer parte de alguma dessas experiências. Ou do voyeurismo; afinal, assistir é uma forma de participar. Ao que chegamos ao tema de Carnalidade. Imagens registradas e posteriormente convertidas em arte mostrando um ato sexual real. Os modelos não fizeram sexo apenas entre si; ao concordarem em expor sua intimidade, ainda que anônima, admitiram a participação do expectador como personagem daquele momento eternizado. Quem seriam? Será que conhecemos? Reconheceríamos algum dos dois na rua? E a questão mais pertinente: nos permitiriam assisti-los ao vivo, interagir durante uma nova conjunção de corpos? Essa provocação, no sentido de despertar emoções, revolta ou simplesmente vontade, segue válida e pelo visto assim será por muitas décadas ainda, enquanto a carne manifestar desejo.


Ata Desata

por Ualison Moreira A carne deseja, a cabeça condena e os olhos, como que vedados numa escuridão intensa, cobiçam contornos de corpos perfeitos. os lábios buscam o gozo em poros não explorados. a língua consome a maciez bruta do prazer

luz turva, desejo latente e carne fácil a culpa que condena

na loucura do sexo fácil reage na tolerância da culpa. O falo estúpido que consome a brandura enquanto o pudor condena a carne um ata e desata sem fim a vontade que duela com o dolo e a estupidez da fraqueza humana. a satisfação plena da carne na negação do pudor

explosão tremor

cobrança impiedosa do bem na satisfação do mal.


Meu Sexo. Minha ReligiĂŁo// My Sex. My Religion


O Beijo Em Vermelho// The Kiss In Red


Confia em Mim// Trust in Me


Lambe// Lick


Eu Gosto Duro// I Like It Hard


Me Toque// Touch Me


O Pêlo

por Carlos Smith

O pêlo pede O pêlo pela a pele O pêlo roça O pêlo pede a pele O pêlo engasga O pêlo basta O pêlo gruda O pêlo... Passa.


Te Amo Mesmo Assim// I Love You Just The Same


As Cores do Sexo// The Colors of Sex


Homens Em Chamas// Men On Fire


Pegue-me Por Trรกs// Take Me From Behind


Sinta Meu Cheiro// Feel My Scent


Você é Mau e Me Machuca. Não Pare// You’re Bad And You Hurt Me. Don’t Stop


Me Fode Forte// Fuck Me Hard


Quanto Mais Fundo Eu Vou// The Deeper I Go


Tenho VocĂŞ Sobre A Minha Pele// I Got You Over My Skin


Em Paz// In Peace


Verbos Conjugados por Marcelo Polloni

Seus talentos eram apenas meros pretextos, disfarces para todos os pecados, em seus atos de libertação. Pensavam ser a própria esfinge que, altiva e soberana em sua história, decifrava cautelosamente os mistérios de todos os que passam por seu olhar. Tantos olhares de prazer pueril, efêmero, cujo gosto não se prolonga por mais de um átimo em lembranças futuras e imprecisas. Rostos que não voltam mais. Descobriam que não apenas produziam o paraíso, sentiam-no cotidiano em suas liberdades individuais. Do passado não traduzido em verbos conjugados, que ficaram presos ao coração, por timidez estúpida, medo e pelo presente de ser quem eram, derramavam-se na volúpia dos que lhe valiam por essência. O calor escorria pelas paredes. A perdição corria pelo sangue quente de suas veias. Transpiravam libido pela pele. Latentes desejos para serem saciados em outro corpo. Cena da vida real consumada ardentemente no vapor daquele momento, sem a fantasia do amor idealizado, sem a praia com o pôr-do-sol perfeito, sem aquele céu tombado em nuances e tons alaranjados. Tudo é só uma questão de cenário. Enredo inventado em desejo transpirado, não vivido da fantasia de um belo cenário que nunca acontece. Viviam no extremo da realização da carne. Ele estava lá com sua camiseta regata, ombro tatuado a mostra. Suas têmporas marcadas por um suave grisalho indicavam que tinha mais que trinta anos. A noite já estava plena. Na surpresa de suas brancas roupas, olhares, a certa distância, se encontraram em portas paralelas. Eram sorrisos discretos e um clima de atrevimento no ar. Paraíso em sensações de troca e de vontade. Desejos. Tinham uma ventania em seus corpos que, sem explicação, simplesmente surgia como a fagulha que fez o big-bang, transformando-se como o universo. Não tinham direção. Traziam o doce perfume da essência vermelha do gosto de desejo. Marcas formadas de inspiração promíscua. Juntos, se roçando, rentes, sentindo o perfume de tentação. Intensamente suas bocas se encontraram em beijos quentes em meio a mãos atrevidas que passavam por entre suas coxas. Tensão. Um momento para esquecer-se do mundo. Aqueles lábios eram um convite ao imprevisível e, seus olhos, em brilhante verde, faziam da sedução seu convite ao pecado. Boca envolta em uma barba por fazer, rosto másculo, forte. Excesso de cheiros e sentidos. Aos poucos aquele braço de pelos macios estava onde o gozo chamava. Fixavam o olhar, seduziam-se, conquistavam-se, tocavam-se e, lentamente, sem qualquer palavra, escorregavam seus lábios por corpos desnudos.


Palavras que marcam a pele com o doce veneno de uma rubra paixão desenfreada. Em carne vermelha, viva, pulsante, o toque vai além da matéria. Luxuria glorificada em frases sussurradas no arrepio das sensações. O gosto pelo peso do prazer, do ritmo das mãos fortes, viris, sobre as costas, descendo, subindo, acariciando e provocando sensações. Euforia, tensão, eram dois, mas era um único corpo celebrando a intensidade da vida. Ritual profano, animal, cujos sentidos são mais fortes que qualquer razão. Subia pelo meio das pernas a boca de língua carinhosa em lábios carnudos, dentes afiados a mordiscar sua posse neste fugaz momento de entrega imediata. Era o demônio vermelho. Feitiço ou fetiche, muitas vezes retraído e escondido na mente, manifestava-se agora diante da presença forte do desejo. Fascínio e luxúria, proibido para muitos, trancados em suas limitações individuais. Não conhecem este estado de graça pulsante. Deleite pervertido, libertino, libertário. A realidade devora todo o cotidiano como instinto de sobrevivência selvagem, diante da fome de vida. Sentar à margem de nossos preconceitos e analisar os fatos provoca uma revolução silenciosa no conjunto dos prazeres cotidianos que devem ser saciados para que não nos devorem aos poucos pela intersecção com a realidade. Um brinde a fantasia, ao fetiche, ao prazer, ao desejo. Para além da escuridão dos preconceitos, um brinde liberdade de serem únicos em essência. Será amor? A dúvida nunca vem antes, só vem depois de consumado ato de libido ao que vem pelos cantos obscuros do desejo. Saíram daquela ventania para pescar sonhos onde o infinito de seus olhares não mais conseguia enxergar pensamentos. Restaram palavras, imagens e sensações de um futuro imaginário, sempre presente. Tentaram traduzir aquele momento por cada passo que davam no aumentar da distância de seus corpos. Ficou a lembrança nos grãos da areia do tempo, como a memória infinita de todas as tentações. Sente na pele, queima, arde, paira no corpo, divinal, renasce. Eles eram um muito de nós. E somos um muito deles. Escondidos na imaginação.


Carnali(dade// ty) Concepção Fotografia Projeto Gráfico Arte Final por

Chris, The Red Textos por

Chris, The Red Rodrigo Ferrari Ualison Moreira Marcelo Polloni Carlos Smith Agradecimentos aos dois amigos que toparam participar deste projeto e serem fotografados em um momento tão carnal e afetuoso.


Carnalidade por Chris, The Red  
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