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FRANCISCO BASÍLIO SANTOS PEDRO

SE...

VIANA DO CASTELO ——


Título Se… Edição CHI – Centro Holístico Internacional Capa Desenho de Francisco Basílio Santos Pedro Texto Francisco Basílio Santos Pedro (e outros autores a ele ligados ou por ele citados) Selecção, compilação e composição dos textos Lucília Composição final Aparecida Helena Garcia e Lucília Ilustração Francisco Basílio Santos Pedro Selecção de imagens Aparecida Helena Garcia e Lucília Imagem Acervo Arranjo gráfico Gráfica Casa dos Rapazes Impressão Gráfica Casa dos Rapazes Depósito Legal 245623/06 Data e Local de Edição Julho 2006, Viana do Castelo Tiragem 750 ——


DEDICATÓRIA

A todos os que conheceram e amaram o Francisco Pedro, em especial a seus pais Odete e Francisco, seus tios Felisbela e José Luís e sua mulher Denise.

A todos os que lerem este livro e nele encontrarem motivos de reflexão. Finalmente, e sobretudo, a ti, Francisco Pedro, que através dos teus escritos e imagens, nos abriste teu coração e desvendaste tua alma.

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PRÓLOGO

Pretendo atingir aqueles confins que me levem para o ar, para um dia acenar e voar livremente ao encontro do meu destino. Não sei, só sei que pretendo … Como atingir não sei. Falai, por favor falai… Francisco Pedro

Não me sentiria confortável fazendo desta abertura algo formal. Surpreendo-me engravidando deste ser, apossando dentro de mim este mágico momento de descoberta. Saber-te vivo, latente, presente nos teus legados, nas tuas mágicas palavras, nos teus traços bailarinos. Bailado cósmico, onde passeias num ir e vir brincando com o tempo, voando ligeiro ou detendo-te para apreciar sua acção sobre as pedras. Pedra… Pedro, Pedro… Pedra. O que o vento retirou de ti? Raspou a superfície ou tocou mais fundo? Resistiu ou entregou-se para que fosse moldado como matéria escultural? Pedra… Pedro. Que resistências ofereceste? Pedro… Pedra. Deixaste esculpir-te com asas e lançaste-te ao vento? Aconchego a tua memória, como mãe parceira da dor da tua mãe real. Teu espírito não se acondiciona, está solto, liberto do cordão… do fio, planando noutros universos já antes visitados. Não quiseste permanecer no seio, alimentando-te das agruras desta vida? Para se ter esta, é necessário disciplina, criar vínculos, traçar metas… estar. Estar era tudo que não querias… tinhas de seguir, no vôo das gaivotas. Retida está tua passagem, marcada com letras e formas, registo certo de que por aqui estiveste. Tantas foram as seduções, os apelos do mundo para que aqui permanecesses. O mundo desejou-te, mas fizeste pouco caso dele quando percebeste que aceitar seu convite seria uma forma de prisão que não desejavas. Qual foi o apelo que te faltou? Qual foi a palavra não dita, que te faria aquietar e criar lodos, musgos e tornares-te enfim parte deste espaço? ——


Que mãos fortes segurariam este menino pássaro? Não se achou a palavra perfeita, o gesto perfeito que faria com que o pouso se fizesse seguro. Penso no intermédio… onde teu ponto repousou por segundos e reteve tua essência e vimos perder-te na distância…ficando nós aqui… recém paridos nesta tua melodia… enquanto voas por espaços além… Aparecida Helena Garcia*

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Artista plástica brasileira, natural de Machado, Minas Gerais, exercendo actualmente a função de Directora Geral do CHI- Centro Holístico Internacional, com sede em Viana do Castelo.

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UMA VIDA

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PARTE I


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À criança Pequenina

Olho teus retratos Feitos num passado já distante! Recordo a mão pequenina Que me agarrava e beliscava A minha face. Um pé rabiscava no ar arabescos Que pincelaram a parede Do teu quarto tão distante! Um urso com seu laçarote Vermelho Pousado em atitude atrevida Como quem desafia a mão pequenina que o agarra Ansioso de brincar ao faz de conta Sorri-te. A um canto um triciclo Descansa E nas paredes que tiveram Vida Caem penduradas aguarelas Que tuas mãos pequeninas Pincelaram. Olhavas assustado Pois a luz já se foi Mas tu sabias que o sono Te esperava E que a minha mão Te segurava Enquanto dormias.

Teus olhinhos se cerravam. O silêncio caía na tarde morna Que se esvaía Uma mosca zumbia em teu redor Mas tu dormitavas E sorrias. Sonhos doirados povoavam Tua mente de criança. Anões, fadas, gigantes Passeavam em teu redor E tu estendias as mãozinhas E por fim abrias teus olhos. O tempo foi passando! Já não são pezinhos de criança Que pisam esse chão! E hoje o chão calcado pelo Teu presente Não consegue apagar as Marcas deixadas pelo tempo Que tudo muda…

30.05.1985

Odete Santos*

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Mãe de Francisco Pedro

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Projecto para uma vida I Vejo-me pequeno, no berço, amamentado por minha mãe Sinto o vigor da matéria provindo de seu corpo Banho-me na evolução daquela permanente delícia … não só o alimento, mas o amor pela matéria… Sinto provir de seu corpo, minha vida Ondas de loucura entrelaçadas Que vão permitindo a minha precoce realização como animal Dou os primeiros passos e sei Que a terra que piso evolui, não só por mim Mas que essa é a força universal … a manutenção de todos os corpos e de tudo o que é vivo II (Os primeiros passos são a descoberta) Encontrei, depois de um belo madrugar … deixando o berço, partindo pela aventura… O sol, bonita bola parecida com meus brinquedos… Quanta estranheza não lhe encontrei ao sentir A fogosidade animalesca; e o calor de si provindo … fiquei, lembro-me, tímido perante esse novo elemento no meu alfabeto do conhecimento Explicaram-me depois, como se explica a qualquer criança, Que era o sol que eu via Que era ele que me dava luz, calor, vida … numa palavra, mais tarde me disseram - “energia”. Porém, ainda circulava em meu sangue Sangue de minha mãe… … alimento matéria! … não lhe vi outra coisa senão beleza… III … da primeira descoberta à última sensação… Muitos anos se passaram, embora numa errante e rápida procura… E hoje, incrédulo, penso na sensação última, a que mais me comove… … e acho-a tão parecida à primeira descoberta… — 14 —


Quão pura não é hoje em mim essa sensação - o amor Vejo minha Bem-Amada, aparecendo no horizonte, manhãzinha… … e vejo que a volto a descobrir na sua jovial fogosidade… Tento atirar-me a seus braços, para num pranto de felicidade Me fundir eternamente no seu corpo… Da primeira descoberta à última sensação, sinto que em nada de novo me envolvo Mas vejo o sol, aparecendo para mais um dia… Numa qualquer manhã de minha vida E não sei se és tu minha Bem amada, se o astro… … não sei se me lance nos teus braços; ou se me funda no calor que de ti provém… Mas a última não é a última Porque o tempo é o Senhor máximo, mesmo do alheio, no amor E assim, cada vez mais que te descubro Uma última sensação me toca … e o meu entregar à tua imagem é final! Penso, porém, que é tão difícil conseguir chegar ao sol para nele me fundir Quanto difícil é conseguir o teu amor, bem amada! E vejo-me condicionado à distância que separa a terra do astro luz … para conseguir atingir o teu tão distante amor… IV Se descobrir, conhecer, é ser Os meus átomos estão prontos a sofrer a metamorfose (Amanhã vem o futuro, galopando apressadamente…) Os anos são rápidos e não vejo a hora De estar inserido no meu verdadeiro ser De poder exteriorizar os meus verdadeiros conhecimentos… … as minhas novas descobertas… Aprendi que ser, não é ser no seu sentido Mas que é todo um enlaçado de reacções sociais Produtos irracionais das morais convencionais dos homens (Sistema Social...) Prefiro pensar nas minhas primeiras descobertas de criança E assistir à sua equitatividade com o meu presente que decorre Apenas saber, de fundo, ou descobrir novamente Que amo, que sinto e que sou homem! — 15 —


Faro, 24.05.84 Querido filho Atinges no próximo dia 29, terça.feira, 22 anos de idade. Aceita muitos beijos e fortes abraços de votos de saúde e felicidade. Peço à Providência Cósmica que te ajude a consolidar pensamentos e temperamento fortes, lógicos e saudáveis. Não cultives o abulismo nem os impulsos puramente instintivos. Cultiva sim a força de vontade, a luta sadia pelo “eu quero”, a luta pela sã alegria de viver. Lê todas as noites ao deitar, em surdina e monotonamente o “IF” (“Se”) do Rudyard Kipling, que tens emoldurado no teu quarto, e verás que te faz bem.

Aguenta mais um abraço muito amigo do pai,

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Francisco Pedro*

Excerto de uma carta do pai para o Francisco.

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Guerreiros do Rio, 25.10.91 E quando as nuvens decidem tocar a cor, e, no entardecer, tornam tristes e cinzentas as vidas envolventes? Aqueles montes, aquela água... o verde intenso, tornam-se nesse cinzento estranho que transporta o frio, pelo rio, vindo do mar. Quem torna eternas as coisas? (Quero substituir esse cinzento) Ver, na paleta das cores, a emoção dos semi-tons a serem, a tornarem-se nessa balança com sentido de peso e orientação, bússula de um caminho com Norte. Estados de alma de pôr-do-sol... certezas interiores que buscam apenas imagens no meu envolvente e me ajudam a traduzir o que sinto.

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ENTRE O SONHO E A REALIDADE

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PARTE II


Por algo que passa e perpassa... ... a centelha desta vida... a pequena procura ao encontro da verdade.

A espiritualidade de cada ser está relacionada directamente com a capacidade que temos para sonhar. É aí que sinto necessidade de montar uma linha definitiva e rigorosa para a vida. Ultrapasso os limites do razoável… e sonho! Sonho tanto, que as palavras, os gestos, as simples ideias fazem parte de uma meta, do fim… desse desejo que se começa a delinear tão perfeitamente. Acho que aqui se estabelece um limite para a loucura – ponto final para todas as vontades, todos os desejos… Perigo! Escuridão! Pássaros negros esvoaçando no cenário, ervas daninhas crescendo no meio do trigo e do tempo. … passar de estados de espírito como se fosse uma brincadeira! Brincar com os sonhos. Brincar com a realidade que se vai montando no dia a dia … será este um final? (Estabelecer ordens dentro dos parâmetros do aceitável, torná-las regras de actuação, rebater sempre dentro destes limites e não transbordar) Num sentido, explicar ao mundo como funciona a minha visão. Pegar nas mãos das pessoas e leválas por esses sonhos… tão definidos por vezes, que só pelo livre arbítrio dos factos tomam forma e se reencontram em estádios simples de prazer. Plenitude apenas pela acomodação de um gesto ou uma ordem que a personagem dá. As imagens estão cheias desse individual abstracto e indefinido…por isso estão suspensas apenas pelas teias dos verbos e das palavras… sem sentido, e que são ditas apenas pelo facto de o serem!… (adjectivos loucos e substantivos irascíveis)… palavras algo estranhas, mas que fazem parte do discurso da imagem. São essas as palavras pelas quais não posso atingir os factos, no entanto há pequenos momentos de luz que aparecem nelas imagens e que dão energia e justificam a atitude que toma forma pela simples existência de imagens e substância que as tornam factuais! Esses sentimentos, substantivos e adjectivos que se confundem na tentativa da identificação da ideia global. Essa sim… … a real! — 20 —


IDENTIDADE

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Uma pergunta inocente... Contam a uma criança: - Sabes para onde foram os teus avós, a tua mãe? - O corpo foi enterrado, ali no chão do cemitério e a alma de cada um deles foi para o céu. - O mesmo se passará um dia contigo quando fores já muito velhote. O teu corpo vai para ali para o chão para ao pé da tua mãe e a tua alma para o céu. (Pergunta inocentemente a criança:) - E “eu”? Para onde vou...???*

Consciência orgânica Como consigo escrever este conto, nem o sei. Assustado pelo que vejo e no entanto redimido pelo acontecimento. Foi numa das mais calmas noites da minha vida que tomei conhecimento que meu corpo estava vivo. Sim, mas com uma vida diferente da que todos temos presença. O luar calmo e luminoso fez entrar em meu quarto a presença dos seus raios, enquanto podia ouvir em todos os cantos… mesmo lá fora, o silêncio retorcido da grande acalmia. Entrei então numa espécie de sonho em que perdi a consciência de todos os elementos que me rodeavam, para ir lentamente entrando no conhecimento do meu próprio corpo: lembro-me de acordar repentinamente e encontrar-me no coração… não sei em que forma… mas estava presente…e vi a árdua tarefa dos habitantes internos. O meio de transporte que utilizavam era dos práticos que vira até hoje, com uma espécie de placas impermeáveis, as moléculas transportavam-se pelo sangue até aos mais recônditos sítios. Sim, por mero acaso encontrei bichas, essencialmente para o cérebro… a zona mais populosa do organismo. Era difícil acreditar no que via… era afinal um outro mundo. Sim, as moléculas também falam, e tive o prazer de escutar este diálogo: – Senhor X fez sair agora um decreto em que põe em andamento o início do estágio para moléculas de intestinos. Sabes, embora seja uma profissão aborrecida, tem as suas vantagens… e além disso, ficamos com a equivalência a molécula de pulmões, a melhor profissão! – Sim, eu até gostava de trabalhar nos brônquios para conhecer muitas moléculas…por vezes entram seres tão estranhos, e engraçados, que falam outras línguas, vêm de outros mundos…é estupendo. Maldita foi a minha sorte, e… oh! Por tudo o que possa imaginar! Perdi-me no meu corpo. Estava numas paredes esponjosas, onde enterrava os pés, ao mesmo tempo que sentia algo a sugar-me incansavelmente. Dei-me então a conhecer a algumas moléculas que por mim passavam… espantaram-se, analisaram-me

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Fonte não citada na transcrição feita pelo Francisco Pedro.

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ponto a ponto… e notei algo de um brilho maquiavélico a crescer-lhes nos olhos. Senti-me repentinamente aprisionado… Usaram de vidência e desmaiei. Quando voltei à consciência orgânica estava rodeado por milhões de moléculas, que hasteavam bandeiras e proferiam incessantemente reivindicações… consegui ouvir algumas, tais como… “Fora com o piri-piri e com as correntes de ar”… “Não queremos moléculas do tabaco”… “Fora com as invasoras”…“Estamos unidas contra a cárie… exigimos a anulação imediata das moléculas do álcool”. Fiquei atordoado com o espectáculo…compreendi nessa altura que devia, talvez para meu próprio bem, satisfazer estas reivindicações… algo me dizia que não conseguia voltar ao meu mundo. Sem concordar com elas… infelicidade mesquinha, prisioneiro do meu próprio corpo. De repente, uma molécula que me pareceu a porta-voz… acenou um braço e o silêncio instaurou-se… falou abertamente na minha direcção: – Olha, tu que és portador deste organismo onde vivemos, irás assinar as 20 condições que te impomos, para que sigas liberto… assim viveremos melhor… pelo contrário faremos greve e contrairás uma doença incurável... (...) Com um aceno de cabeça concordei… e a alegria instaurou-se entre as moléculas… Fizeram-me rapidamente assinar o contracto… – Agora vai! Vai depressa porque já necessitamos de alimento! Vai em paz, e nunca mais te esqueças que cá estamos, e que vives por nossa causa. Peguei calmamente na minha placa impermeável e lancei-me na corrente…comecei a ver tudo a fervilhar à minha volta…senti um enorme peso na cabeça… e de repente acordei… Lá estava a lua no confim do céu eternamente a olhar-me e a penetrar calmamente em meu quarto… o silêncio era ainda o dom máximo desta noite, o espectro do meu reino das moléculas não mais me largou, e pelo tempo fora senti dores que não eram mais senão pequenas greves, reivindicações…a que acedia cegamente. Desde esse dia tomei consciência que “eu”, era só o meu pensamento…meu corpo era substancialmente um objecto do qual eu cuidava como sendo uma profissão… já não seria o velho organismo, a velha concepção orgânica… era uma sociedade que vivia dentro de mim...

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EPÍGRAFE Eu não sou eu Nem sou ou outro Sou qualquer coisa de intermédio Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o outro “Epígrafe”, de Mário de Sá Carneiro, (ilustração de Francisco Pedro )

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Caminho infinito do ser que sou O individualismo exacerbado é a condição exemplar de uma geração que cresce numa sociedade em que cada um é reenviado a si. E cada um sabe que este “si” é bem pouco. Envolvido contudo numa rede complexa de relações que fazem do indivíduo uma dispersão atomista, ele vive dilacerado entre o infinitamente grande (o Universo) e o infinitamente pequeno (o seu eu).

Sou um peso inerte Cuja balança não mede Porque estou no limite da vida Daqueles sonhos que tomam conta Do coração e dos rins Estados fisiológicos ilógicos Almas estranhas de momentos sem nexo Algo se transforma … e sou eu Um corpo sem forma Uma alma sem sentido À espera do riacho que conduz ao rio Rio que vai dar ao mar Mar da minha memória, sem músculos Para vencer os obstáculos do percurso Caminho infinito do ser que sou Quando apenas sonho com o prazer de ser. Algo está errado… Algo se transforma sem razão … será o meu ser? … será o meu envolvimento! … almas estranhas com poderes difusos E eu estou aqui. A Lua está impada hoje Cheia de memórias e de vida Algo me transmite o limite do sonho Vejo anjos a voar e ninfas a nadar Sinto os meus pés inertes porque não sei o que piso O ar eleva-me… a água transborda-me O fogo consome-me como flechas rápidas de um arco que se estende O sentido é confuso… a direcção a mesma de sempre! Mais uma vez, anjos da memória que se perdem no caminho Percursos indiferentes de passos que procuram Constantemente o fim lógico … Algo está mal Algo se revolve quando grito! (Ai! Quem sou???) — 25 —

“A Juventude na sociedade pós-moderna” (António Guerreiro – J.L.)


Reflexão

Aveiro, 20.04.82 Nas posteriores e antecedentes palavras, o lugar comum vistoso é simbólico e torna-s essencial. Somos nós, afinal, bocados de um todo convergindo para um futuro nada agradável muito pouco perceptível em relação a evolução. Quantos bocados nossos não vagueiam à toa pelo país. Procurando frutos para a sobrevivência. Escapa-nos o sabor melancólico da existência, atribulados vamos correndo e perdendo anos, sem saber por vezes onde ficaram. Por mim, de Faro a Portimão, a Lisboa, Aveiro ou Porto... cirandando um pouco pelo pequeno território: sempre no faz de conta de já ser um homem. Porém, activo, sinto-me estranho a estas deslocações... quem sou no sítio onde estou? Não teria deixado parte do meu coração na minha terra? Não teria dado algo demais, noutro qualquer conflituoso sítio deste país? É um facto que o sol e a lua são sempre os mesmos. Não sinto no entanto aquele estimulante abraço das noites vivas. (Em que a lua, calada, evolui sorrateiramente, descobrindo os corações que se vão amando à sua luz) O vento é o mesmo, com seu timbre secular. Os dias iguais são. As palavras não são as mesmas; vibrando, esqueço-me que existe a leitura e a impressão. Porém, para quem são essas atribuladas frases? Essas paisagens e essas mensagens tão duras, tão radicais e negativistas? Para quem é a compreensão da minha existência? É um estado reflectivo. Sou hoje a mudança plena, ou o resultado do que me vem acontecendo. O amanhã não é desconhecido, não! O nosso ser prevê as possibilidades e sabe de antemão que o conhecido não é improvável no amanhã. Quem sabe então qual a hora de novamente nos tocar... aquele grande amor, ou de voltarmos às trevas da amargura... Só um instante então, reflectindo, que me faz recordar a minha ascendência. E creio, que ela é a minha salvadora. Estar perante mim próprio é acto mais do que habitual. É normal, qualquer ser humano se questionar acerca da existência, da essência...acerca de tudo. E é tão confrangedor quando notamos que nada podemos atingir nestas questões profanas... agimos pela magia dedutiva... e sentimo-nos tão sós, fazendo apenas parte desta tão aflitiva e conflituosa matéria. — 26 —


RAÍZES

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Mundo do Sul Oeiras, 07.02.82 Estou tão longe, mas venho sentindo O leve estar, a simples cor De minha terra… Mundo do sul Onde o frio ausente convida os corações Quentes a se amarem Os pinhais e a primaveril aurora constante As amendoeiras em flor… Lá! … das quentes águas mediterrânicas um pouco Mas o vasto horizonte Atlântico …(berços de sonhos do Infante)… o largo mar, cativam neles a ventura (Espírito que coabita com as nossas raízes) Estamos sós e vimos dizendo “Terra a nós; sangue nosso” Aquela tão estranha terra que por vezes Arrancada de um grito Se abre ao mar……abruptamente As rochas soerguendo-se aos céus tomando banho nas cores do esvair do ocaso… … ou à aurora, com o orvalho Esse sangue novo Nosso, da terra e das plantas Que bendiz o novo dia Com o sol, nascendo do outro lado Mostrando sua fogosidade juvenil (Embaraçando os mais simples corações…) Levando o homem A acreditar que a natureza é um presente qualquer, estranho que se evidencia … mostrando sem querer a simplicidade da sua nobre existência! — 28 —


Guerreiros do Rio

A caminhada calma pelos ermos mais escondidos de Algarb. O vôo na história de um mar que resolve incessantemente fustigar aquelas praias. E o calor… o tempo recôndito e determinado na altura, num só instante. Aquele ar que penetra como uma alma dentro de nós. O sabor é a semelhança, nos dias e no perpassar de todos os possíveis sentimentos que estas terras permitem. O fúnebre aparecimento da noite, escapa ao dom da existência… tudo é negro, mas as velas iluminam a aldeia… esse sabor semelhante ao dia… e a própria vivência, labuta, na continuidade dos afazeres. A memória da sequência de actos que envolvem o ser mais débil. Uma longa palmeira a sobressair daquele lençol branco de portas… o posto da guarda fiscal, no cimo do monte, com duas janelas a olharem incansavelmente para o pequeno povoado que a seus pés se desenvolve. O rústico e o enclave do transporte a burro ou a cavalo, e a faina piscatória no lendário Guadiana, defensor das hordas romanas que há séculos pisaram estas terras. O bom-dia campestre, o cacarejar das galinhas que esvoaçam livremente pela aldeia… e aqueles velhos trôpegos que acariciam, de manhã à noite, suas rugas e seus cajados, tudo temperado com a conversa de grupo, com a conversa que os leva à infância ou às críticas da nova geração… o horror à máquina incompreendida. Este é o panorama, a imagem de uma pequena aldeia Algarvia – Guerreiros do Rio.

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Porta do Mar-Cidade Velha. Faro Distingo o azul… (… vida; luz) … da pedra provem uma radiação mórbida (verde radioactivo) e as tonalidades desenham um rosto esquecido… pula além, num campo de visão delineado pela porta e pelo arco, já não percebo o horizonte, que o crepúsculo confunde… De repente sinto-me parte de dois estados. Por um lado sou terra e vida, embora poucas vezes a realidade mo indique… por outro sou água e ar, mar e céu, precisamente neste pequeno espaço de tempo… (o momento em que o crepúsculo confunde as duas matérias, em que não existe um limite mas um fluir de azuis, reunidos numa dispersão casual!) (O crepúsculo é o limite entre a vida e a Morte.) Depois de me ter possuído nas suas visões, depois de me ter feito recordar tantos rostos esquecidos, subitamente o Demónio larga-me… e agora, livre transponho, pela porta do Mar, o Castelo da antiga cidade. Uma espiral desenvolve-se e embebe-me o corpo com uma fragrância que percorre aromas do alecrim às rosas… faz-me fluido e pousa-me no presente… passa a linha dos comboios mesmo à minha frente; vejo uma ridícula placa, o chão empedrado, os bombeiros, ao fundo à direita com a sua empena faz de conta onde simulam a vã tentativa de roubar ao Demónio ígneo as vidas já intoxicadas pela flama possuidora… Vejo para lá da placa, uma ponte finita, feita de betão e ladeada de inúmeros barcos multicores. A ria, neste momento está vazia e salpica o azul geral com sapais de cores já mortas… do extremo da ponte consigo prever a língua de areia que se estende a Quarteira; vejo ao fundo Albufeira… muito distante há uma rocha abrupta para o mar… é Sagres … e num infinito possível vejo o outro lado do oceano onde as naus partidas dali chegaram muito antes que a minha visão o atingisse. O marulhar desperta-me levemente desta sonolência para imediatamente me maravilhar o espírito… ali, as ondas formadas pela leve brisa que se levantara conversavam comigo acerca de um distante mar… e comparei esta voz silenciosa com o vigor dos gritos e mandos do mar feroz rebentando cargas da sua energia nas praias desertas e receosas perante a força desse elemento… … de repente pressenti que o marulhar é um sentido, um alfabeto, uma linguagem que eu não entendo, o ruído de um Deus (… uma energia vasta que contém todas as aventuras da matéria…) … e que conta quando se espraia a sua onda, a história

… de tudo o que tem história…

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Adeus Algarve, terra mãe...!!! Aveiro,19.05.82 Tudo o que agora me envolve é escuro. (um ruído mecânico provém do exterior) … do meu quarto vejo mais um entardecer já pobre em luz. (Não me apetece ver o entardecer…) Levanto-me de meu lugar e distingo a eterna simbiose Contrastes-verde-prédios-cinzentos-sol-pôr O ritmo das ondas está distante… Meus braços estendem-se mas não o atingem Procuro em vão soerguer-me nas pontas dos pés para ver o mar… … mas apenas pressinto, deste novo ângulo, o cinzento e os prédios a formarem um horizonte quadriculado e promíscuo de fumo… Tento em vão atingir o meu Algarve As doces trevas do silêncio nocturno, deambulando p’las praias … o marulhar, que é o caminho das coisas infinitas! E o sol, nos dias tão quentes e abrasivos. Gesticulo de dor ao pensar no natural beijo que me foi ofertado por aquela terra… … quando pari o meu sorriso de despedida! (Adeus Algarve, terra mãe…!)

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ANCESTRALIDADE

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Meu avô agricultor... meu outro avô, marinheiro... A terra negou-me a existência, quando me virei para ela E nela encontrei a salvação! Mas a terra!... A terra de hoje Nada é, em comparação à terra dos nossos ancestrais. A lavoura, a labuta de sol a sol (Os meios, as técnicas, a máquina...) Liricamente encarei a predisposição como uma necessidade de retorno Às minhas origens mais próximas... (Meu avô agricultor...) Mas no meio do meu lirismo, passou-me um leve cheiro a ... maresia (Meu outro avô, marinheiro...) E o mundo abrira-se, terra por terra... A África caiu, foi engolida a Austrália E as Américas sucumbiram... A península, essa já a conhecia Nem o pinheiro Serrat, mediterrânico, nem Pedro Casaldaglia sabem... ... que a península, essa velha, é vendida foi vendida pela história. E hoje nada é! O poder da terra, dera-nos o mundo! O poder da máquina o roubou!

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O Infante Lisboa, 20.03.82 É ancestral o domínio do sol sobre mim Já “Guerreiros” e meus velhotes avós Terras quentes, cheias de sangue Já minha terra, Algarve E o sol como a temperatura Ambos consequentes no nosso estar A vasta monotonia que toca os corações Convidando-os a amar pelo fresco da noite Enquanto dia, o mar bate e rebate E as gentes, ao sol, patinho da água Aproveitando os salpicos... Das ondas que se vão espraiando Embora a água seja de um azul quente... ... enquanto à beira-mar Os amores se prezam, unicamente Pela nostálgica visão Do bem amado suado Escorrendo o significado dessa terra P’la cabeça, apenas as idéias Porque a acção é custosa Nesses dias quentes Mover um dedo É pedir algo a certo estar O estar próprio das almas, perante o calor E o mar Pensativo e irrequieto Sóbrio perante a água, banhando-se Ao longo do dia dos dias Destas terras viu o Infante o mundo Veria o horizonte mudo Tentando descobrir-lhe o segredo Mudo, ele também Perante os elementos — 35 —


Estranhos e distintos Desenvolvendo-se à sua vista De Sagres, Barlavento De onde sopram os ventos Que por essa altura Despertaram a vivacidade nos homens Tirando-os da modorra E mostrando-lhes Os segredos do horizonte Porque por vezes O mar é negro, vida negra (Sol cinzento, mar bravo, terra feia, vento constante) E tudo é tão escuro por vezes Que chego a me encontrar negro Sem a vida me tocar Não a deixes chegar Espera Então, um dia Aparece a hora propícia Para ires ter com o mar E ajudares a desenrolar a tua onda ... espraiando-se por uma praia de areia de oiro... Onde vai contando tua história... (porém, ínfima perante a dos elementos...)

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RASGOS DE JUVENTUDE

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Outono intempestivo Las rosas son fuente de mi vida Sus odores Cantan de mim Tudo que lo sé *

O Outono entrou este ano, intempestivo – sinto-lhe a força na alma – molha os campos com lágrimas de dádivas… salpica-me o corpo de ternura quando me toca, gélido! Faz hoje um ano – todos os dias são precedentes um, dois anos, vários séculos – que pensava acerca de um mar… precisamente aquele mar que separa os continentes – o velho onde eu me encontrava, e o outro, o continente Americano onde tu vivias por essas alturas… sentava-me à beira das ondas e escutava o marulhar, tentando pressentir alguma mensagem que tivesses enviado… Agora não é o mar, é uma distância de terra e de espírito que te distancia de mim (desculpa estar sempre a fazer “drama”, mas esta foi a melhor forma que encontrei de me sentir na vida; gosto de ser nostalgia, tradição, boémia, grito e loucura, e por nada deste mundo deixo estes rasgos de juventude…)

Vermelhas rosas do meu ser Vermelhas rosas do meu ser, cores ébrias e sonantes Foi tarde, descendo, e vi Que estava correndo. Galopando na história No tempo que a eternidade leva a chegar… Subi ao monte para sentir a luz Arcos discordantes de cores múltiplas A matéria degradando-se a meus olhos Abruptos monstros de pedra caindo Em blocos ávidos de sangue Em energia, desfazendo-se, pelo mar… Centelhas de um nada, corrosivo e irreal Pombas de meu espírito, voláteis Grutas de meus sonhos; satânicas

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Fonte não citada na transcrição feita pelo Francisco Pedro.

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(Como animal Desfiz rochas, feliz, alucinado Pelo som da natureza correndo…) (…piu, piu; bloc; cabloc; shshhhh!) Erros de meu estado me provocam Agora que estou sentado e vejo Espelhado na lisa areia molhada, o astro Encenando a última peça, dançando Com um coral de gaivotas acompanhando O horizonte; fim que eu vejo Está lúcido demais; as cores… Vítreos se tornam meus olhos… Levanto-me E sinto toda a energia que me envolve Se acumulou na minha presença E elevar-se com meu ombro… Sinto-me erecto e observo A estranha mutação que se gera no ambiente Noite prevista; o cinzento negro As últimas gaivotas esvoaçando Nos desenhos gastos das nuvens, irradiadas Por algum estranho gerador de matéria Que agora acumula suas condições, ganha energias Pelas trevas, enfrentando O mordaz vampiro virulento (Satanás, onde te escondes?) (E agora, de minha posição Que sinto o dever e pressinto minha paixão) Compreendo porque pelo menos sou homem E não qualquer outro bocado de matéria Escondo meu pensamento; não mo roubem Procuro a ideia, algures; apenas sei Que também irradio qualquer outra forma de energia [sou natura!... Tenho a minha forma a cumprir Sou novo e velho, gasto, num pequeno ciclo (Procuro a razão… quem a encontra? Procuro o perdão apaixonado para desculpar Tantos milhões de homens que podiam esvoaçar Alegres e impetuosos, saudando a Santa Mãe. — 39 —


Levai-me ao crístico antro, Senhor.. angustia-me a paixão!!!... Perdido esvoacei entre duas rosas que me ofereceram E vi folhas escritas e gastas, por um tempo passado Decorrido no espaço que cada pétala demorou a cair As palavras são tons. Como a música ficam numa leve recordação planante… Por vezes corrosiva e rápida Tão rápida como o tempo que leva uma águia a nascer Declaro a minha paixão… Devoto, estranho a minha ausência, mas creio Que os anjos que me acompanham, me levarão ao calvário E no ponto de encontro das forças conduzidas pelas linhas que estruturam uma pirâmide Serei reconduzido ao meu corpo … inerte, desmaiado, começo por invocar o perdão e prossigo, lamentando as tristezas e a dor…

(Sei cantar também. Hinos de minh’alma… Enérgicos e frenéticos cânticos de minha vida)

Nevrótico, encosto-me à mesa e empurro um prato de barro para o ouvir estilhaçar. Cacos desnecessários por sons inaudíveis e chatos Apetecia-me ouvir trovejar, ou ribombar um monstro de pedra em qualquer falésia Apetece-me caminhar nu no meio das pessoas, gritar Invocar Satanás para apaziguar os espíritos alucinados e reconvertê-los Nos mordazes paranoides da loucura Satânica (Ah! E relampejo eu também Chamas que saem do meu corpo, urros de sangue Baldes de fogo derramados num chão prolífero) Elias está entre nós Ele é tudo o que nós somos e o que nos rodeia e separa de todas as coisas Nós estamos no seu divino seio Contemplando inertes suas amarguras (E agora vejo um fluxo contínuo irradiando na vertical, no sentido do Universo …levai-me ao crístico antro Senhor… … angustia-me a paixão…!!!...) — 40 —


CULTURA VERSUS CIVILIZAÇÃO

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Uma longa e profícua viagem... Em estado de cultura uma raça produz mais do que consome Em estado de civilização consome mais do que produz Cultura, substantiva ao homem / domínio do ser Civilização, adjectiva ao homem / domínio do ter *

Oeiras, 17.09.84 Pai Tenho reflectido sobre a minha longa viagem, e agora, passados já uns dias sinto-me mais apto a descrever todas as coisas. De 8 de Agosto a 3 de Setembro atravessei 9 países (com o nosso, 10) e estive mais demoradamente em 3, mas essencialmente na Grécia. Fomos Faro-Nice no Sud Express, mudamos em Hendaye para um comboio que atravessava a Riviera Francesa. Contactámos de lá com o Luis e como eles se iam demorar mais do que inicialmente tinham previsto, combinamos encontrarmo-nos na Gare de Austerlitz em Paris daí a 5 dias. Para ir para Atenas era mais directo por Paris do que por baixo, onde tínhamos que mudar cerca de 6 vezes de comboio. Entretanto fomos para Paris, estivemos lá um dia. Fui ver uma parte do Louvre que não tinha visto e o Museu de Holografia no Centro Les Malles. Ainda tive tempo e fui ver duas maravilhosas exposições no Centro Georges Pompidou – Chagall e De Kooning. Na madrugada do outro dia fomos para Amsterdão; Atravessámos a Bélgica – Roterdão – Haia – Amsterdão. Fiquei maravilhado com aquela cidade. Cheia de canais, e repleta de um manto histórico bem preservado – um sítio limpo, acolhedor, cheio de pessoas a andarem de bicicleta, cheio de zonas verdes. É, no entanto, em Amsterdão que se encontra talvez a pior espécie de bandidagem (excluindo Londres, que ainda é pior); andei sempre agarrado à minha carteira... *

Fonte não citada na transcrição feita pelo Francisco Pedro

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Voltámos para Paris para nos encontrarmos com o resto da malta. Depois apanhámos um comboio para Colónia, na Alemanha, que dava ligação ao “Hellas Express”- um comboio que vem de Dortmund directamente para Atenas. Ainda tive tempo em Colónia de ver a Catedral. Esta viagem durou dois dias e meio... atravessámos a Alemanha, junto ao Reno, a Áustria e depois acompanhámos o Danúbio até Belgrado, entrámos na Grécia por Tessalónia (Salónica) rumo a Atenas. Para mim foi a pior viagem, tivemos que dormir numa das noites nos corredores do comboio, porque só levávamos reserva de lugar até Zagreb. A chegada à Grécia foi como que um renascer, mas que depressa se dissipou. Atenas é uma cidade nova, nota-se perfeitamente que a política de construção é deitar abaixo o velho para construir o novo... Só a “Paka”, que é a zona mais característica, é que está preservada, mas nitidamente apenas com fins turísticos. Aliás, os Gregos continentais são um povo frio. Apenas a Acrópole destoa deste conjunto, lá no alto, majestosa, parecendo evocar eternamente os Deuses. De resto, todos os outros templos estão caídos e não passam de montes de pedras sobrepostas. Chegam a pôr uma cerca à volta do sítio que “antigamente era um templo” e onde apenas restam escassos vestígios, botam uma bilheteira à porta e cobram 200 dracmas... Estivemos só dois dias em Atenas, fomos logo para as ilhas. Com eles estive em Naxos, Rodos e Patmos; quando me vim embora, já sozinho, ainda estive em Santorin, Naxos, Rodos e Pharos. Onde estive mais tempo foi em Patmos, pertencente às ilhas Espórades, no mar Egeu, a cerca de 300 milhas do Porto Pireu e de Istambul. As ilhas são um autêntico paraíso terrestre, o povo é acolhedor e amável, são todas semeadas de capelas solitárias. Predomina o branco por todo o lado e, uma coisa como até hoje não tinha experimentado senão lá em Guerreiros, mas de uma forma diferente – há uma fragrância de campo que entra pelas narinas e acaba por enlevar todo o corpo. Digo mesmo, o espírito... e é este estado de alma que nos permite deleitar em plenitude no todo do ambiente. Havia um calor constante quase insuportável, mas o mar quase parado (as marés têm uma amplitude de cerca de 20 cm) convidava constantemente ao banho. A água era um espelho que reflectia nitidamente o fundo... para lhe explicar tudo isto só com os slides que tirei, que ficaram óptimos. À vinda ainda estive outro dia em Atenas e fui depois ver o estreito de Corintos e visitar Patras. Voltei para Atenas e apanhei um comboio directamente para Veneza. Atravessei outra vez a Jugoslávia e entrei em Itália por Triestre. Fiquei dois dias em Veneza, e, tal como Amsterdão e as ilhas Gregas, não tenho palavras para explicar o que se sente quando se está lá, mesmo no sítio. Veneza tem as suas parecenças com Amsterdão, com a diferença de que ali as casas dão directamente para o canal.Visitei o palácio de S.Marcos, que é uma autêntica maravilha, e perdi-me pelos imensos canais e pelos inúmeros sotoportegos que repentinamente davam para a água. Vi “bandos” de gôndolas a atravessarem calma e silenciosamente aquelas estranhas ruas (insólitas). Depois vim por Milão, onde ainda estive um dia. Já é uma cidade completamente diferente e nitidamente um grande centro industrial. Pela aparência histórica deu-me a sensação de ter sido uma das grandes capitais do fascismo instaurado pelo Duce. A cidade está repleta de construções do estilo fascista (Modernismo Italiano) e mesmo grande parte dos monumentos, se não o são, estão envolvidos por enquadramentos deste estilo. Estive cerca de duas horas em frente do Duomo, a Catedral e construção mais linda que até hoje vi. Teve comparticipação de arquitectos como Leonardo da Vinci, Boronini e muitos outros. De Milão fui para Bordéus, para apanhar o Sud-Express, sentido Lisboa. Foi uma óptima viagem, que me deixou o espírito muito calmo e uma vontade mais sã e mais forte. Receba um abraço forte e muitos beijos do filho F.Pedro — 43 —


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Faro, 05.10.84 Querido filho Recebi, há quase uma semana, a tua carta relatando o longo circuito Lisboa-Atenas e regresso. Fiquei contente do teu relato e das ilações que tirei dos teus contactos com as culturas e civilizações da nossa velha e actual Europa. Se tudo viste com os sentidos frescos e dialogantes, armazenaste uma pagela de cultura que te valorizará “per seculum”. Andava já eu arreliado com o vazio, dia a dia, da caixa do correio. Só, solitário como o leão velho, cansado da vida, as tuas notícias vieram dar-me um pouco de ânimo. Se fosses um pouco mais comunicativo comigo (mas é preciso que esse sentimento saia do coração), eu acharia os dias que se vão sucedendo mais leves.

*** ... A leitura das tuas notícias fez-me viajar “in mente”, por todos os locais que percorreste: O vale do rio Garonne, Bordéus, das zonas agro-vinículas mais ricas da doce França... Cote d’Azur - Nice - centro de turismo, batota, requinte dos mais sofisticados do mundo. Paris, a cidade da luz, a capital da actual cultura mundial, brilhante de espírito e imunda no seu basfond. A sua boémia artística e intelectual. Amsterdão, das 70 ilhas, dos seus canais, cheia de nobreza na sua personalidade e antiguidade, excapital da Liga Hanseática e também actual campeã do deboche europeu. Sabes que Amsterdão é a cidade do mundo com as fechaduras (das portas) mais artísticas da Terra? Colónia, cidade das mais nobres da Alemanha, arrasada pelos ataques aéreos na segunda guerra mundial, com a sua catedral gótica colossal (os americanos têm uma cópia integral). Cidade industrial e laboriosa. Vale do Reno com os castelos mais belos do mundo à sua beira. O Danúbio histórico, inspirador dos maiores génios musicais do século passado, cruzamento de civilizações e objecto de cobiça do centro europeu. Pena foi não teres tirado um a dois dias para percorreres um pouco de Viena, capital da música clássica, com seus monumentais palácios, ex-capital do Império Austro-Húngaro, esfrangalhado pelo tratado de Versalhes (1.ª guerra mundial). Atenas - a mãe espiritual da actual cultura européia. A velha Atenas da Acrópole que foi palco de grandes filósofos ainda hoje estudados e não ultrapassados, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro e tantos outros. A Atenas do século de Péricles, do Parténon, da escultura (Fídias e tantos outros), da pintura (Apeles), das matemáticas e geometria (Pitágoras, Euclides, etc.) Se quando estiveste no Parténon, fechasses os olhos e tivesses uma visão do que aí se passava há 3.000 anos, estarias rodeado de extraordinários cérebros que ainda hoje iluminam o mundo. Pena é, segundo dizes, que a floresta de cimento do nosso século seja o escalracho mortífero que está a invadir e a tirar a personalidade da gloriosa, monumental e velha Atenas. As ilhas gregas do mar Jónio, paradisíacas, monumentais como a velha Grécia, cheias de história, de beleza, de rastos monumentais jônicos e também dóricos. Trieste, ponto de cruzamento de raças – romanos, húngaros, croatas, eslavos, latinos, otomanos. — 45 —


Veneza, a “Venezia Julia” da antiga Roma. Cidade dos mil canais e dos cardumes de gôndolas. Uma das belas cidades do país da Arte. Flor brilhante do Renascimento. Catedral de S.Marcos. Palácio dos Doges: Palácios e igrejas imortais. A magestática pérola do Adriático. Milão - a capital industrial da Itália. A sua opulenta Catedral, pérola da sensibilidade escultórica dos grandes artistas do Renascimento. O “Scalla de Milano” é o melhor e mais belo Teatro de Ópera do mundo. ETC. O comboio pára. Santa Apolónia. Fim de citação.

*** Depois do regresso ao ponto de partida, e de dormir uns sonos bem dormidos, é chegado o momento de, em relaxe, recapitular e segurar na memória e armazenar no subconsciente todo o teu “corrido” e as emoções, sensibilidades (positivas e negativas) e cultura adquiridas. Jogar para o lixo todos os aspectos negativos e deixar em armazém o que é válido, belo, cultural, civilizado. Não queiras ser velho aos 30 anos, pois há jovens (raros) com 80 anos. A mente é mestre tecelão, o arquitecto, o projectista, o escultor e o músico e também o canalha, o bandido, o farrapo humano. Conforme a sementeira que for lançada no subconsciente assim será a colheita obtida. À puridade te lanço votos de que efectues sempre BOAS SEMENTEIRAS mentais. Vem agora a talhe de foice, fazer uma curta retrospectiva da vida. Não fossem os tios – José Luis e Felisbela – como teria decorrido a tua vida até agora? Muito diferente certamente. Em consciência e amizade deves-lhes muito. Espero que, por sempre, sejas incapaz de lhes mostrar uma pinga de ingratidão.

*** Esses exames, como vão decorrendo? Com as tuas capacidades será uma prova de desleixo seres mal sucedido. Tens que perder a cobardia de enfrentar os esforços. Vida é luta, esforço, é ter o prazer de enfrentar e vencer as dificuldades. Habitua-te a semear no subconsciente sentimentos de beleza, de ambições válidas, de vontades de realizar e um belo dia o consciente surgir-te-á com um espírito de imaginação criadora belo e radioso. Lê muito, coisas válidas. E, assim, virás a colher valores morais, estéticos, sociais, etc. e sentir-te-ás um homem realizado e que se vai realizando. A vida não é estática (parada), mas sim dinâmica (movimento). Sê um homem dinâmico. Beijos e um abraço cordial do pai Francisco Pedro

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ATRAVÉS DA ARTE

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Faro, 06.11.85 Querido filho, Aqui, deste nosso buraco solitário, estou a escrever-te, a conversar contigo, em monólogo, moendo e remoendo experiências passadas e presentes e sonhando com um futuro, para ti, brilhante e valoroso de que te possas orgulhar e que nos dará, aos tios e a mim, uma jóia de felicidade e de recompensa pelo amor, amizade, apoio e pelo desvelo que te temos dedicado. Não és um infantil. Não és um adolescente. És um ADULTO com todos os direitos e obrigações inerentes. Na vida nada se alcança sem sacrifício e sem luta e mesmo assim se tropeça por vezes com o sabor amargo da derrota, mas o bom lutador não desiste e acaba vencendo... Sabes que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”. Não existiriam se não tivessem sido começadas. Mas foram mesmo e hoje são marcos milenários da história da humanidade a revelar o valor dos homens com “H” grande, dos eruditos aos filósofos, dos cientistas aos artistas. Dos preguiçosos e ociosos não há resquícios deles. Qual a opção? Nas nossas vidas nada concluiremos sem o ter iniciado. Tens actualmente um emprego e um farol a alcançar. O emprego é o de estudante de arquitectura (de que tanto gostas) e o farol é o diploma do Curso de Arquitectura.

ACREDITO EM TI! NO FIM DO ANO LECTIVO FAREMOS UMA ALEGRE FESTINHA. Beijos e um abração do teu pai Francisco Pedro

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“Impulso” e “Imagem” O artista - disse Bosch - é um fenômeno raro; e este monstro, por seu turno, experimenta e aprecia a arte como contemplador, antes de fazê-lo como criador. E.S.B.A.L, 17.02.86 Estou numa hora morta da manhã, sentado ao pé de uma janela de onde se vê o pátio em que os estudantes de Pintura e Escultura trabalham. Há umas árvores que criam sombras e recantos; e eles pousam aí os martelos, as pedras, as paletas… Ao meu lado, ao fundo, está uma televisão ligada a passar constantemente filmes de cinema de animação. Sim, recordo-me das vagas tentativas de teorizar a arquitectura num espaço mais vasto da Arte… Dão-se as aproximações, revelam-se de outra forma as imagens, de maneira a que exista um constante diálogo entre as várias partes. A música não é tocada num espaço supostamente ideal? A dança não se sublima pela geometria que cria num palco (espaço plano horizontal limitado)? Quantas vezes eu sonhei provir da tela todos aqueles estranhos cubos e cones que se enlaçam. Estigmatizar a minha percepção e atingir os pontos mágicos que se situam na confluência das linhas de força próprios do espaço contido (características). Quando atravesso a panóplia sentimental que traduz a imagem, deixo erguer-se o muro das questões. Deponho-lhe princípios, objectivos, pensamentos… e por vezes o lápis solta-se inevitavelmente da minha mão para se deixar conduzir pelas ondas constantes que meu cérebro emite (… componho as relações de transmissão directa, para me aperceber dos resultados) … e quantas vezes esse meu outro “eu” não deu com espaços ideais, verdadeiros, ao completar toda a realidade com os inevitáveis pressupostos técnicos (Quando pinto uma imagem coordeno-a em função do espaço, da cor, do traço do pincel, etc.). — 49 —


O artista estabelece uma relação directa entre “impulso” e “imagem”, onde por si os pressupostos perdem fundamentos ao se tornarem num espaço aberto e receptivo a todo o tipo de leitura (Se A lê a minha imagem como a expressão de um grito, isso não implica que B leia o mesmo – pode apreender por exemplo a revelação da loucura.) Quais são aqui os mecanismos que possuo para definir a minha orientação? Praticamente nenhuns… tenho que me entregar à minha própria sedução. E depois estabelecer o primeiro tipo de contacto (a amostragem, a exposição). Aí resta-me esperar pelas diversas relações que o público estabelece com a minha imagem, e só aí então é que eu posso definir o vasto campo interpretativo onde a situo eficazmente. Quer dizer, à priori nada me resta senão constituir em mim o diálogo abstracto que me dá o poder de impor um gesto, um traço, uma cor, um espaço… depois, esperar que o tempo faça o resto…. Uma imagem é um alfabeto que relaciona técnica, traço, cor, mensagem de uma forma específica e que traduz uma visão, um estado de alma... sempre viva, sempre observativo, e que no fundo apenas interpreta os rumores de uma frase contada pelo poder descritivo de cada autor. Descrição, no sentido de revelar todas as emoções de uma forma original e que transporta cada um para o seu mais íntimo – sentindo por si aquilo que é representado pela imagem (...oh! tantas interpretações... uma, por cada alma que observa; uma, por cada espírito que pressente a magia escondida por trás dessas imagens). Estendo uma linha paralela ao terreno e percorro as sinuosas lamentações da terra... pressinto-a, e nesse acto passo a ser mais ao possuir outra parte da totalidade. As imagens que destaco surgem pela revelação de todos esses bocados que lentamente fui descobrindo e reduzindo...(como é estranho por vezes sentir que uma imagem me clarifica os pensamentos, mas que reconheço não poder traduzir em mais nenhuma linguagem.) É o sol, o murmúrio do vento, o eléctrico relâmpago... as águas e o amor que revelo quando sinto verterem em mim os néctares essenciais para o meu sonho...são todas essas energias cósmicas que penetram e interrogam continuamente... numa linha curva, sem tempo!

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O Visível e o Invisível Trinta raios convergem no cubo da roda e dessa parte, na qual não há nada depende a utilidade da roda. Molda-se a argila em forma de vasos e precisamente pelo espaço onde não há argila, é que os podemos utilizar como vasos. Abrimos portas e janelas nas paredes de uma casa. E por esses espaços vazios podemos utilizá-la. Assim, pois, de um lado tiramos benefício da existência. De outro, da não existência.

(Lao-Tsé, 550 A.C.)

Oeiras, 19.07.85 Cada vez sinto mais a barreira característica de todas as coisas; chego à conclusão que “ser” é saber ultrapassar todas as dificuldades, activar as experiências fortuitas, buscar o imaginário e construí-lo aqui, pedra sobre pedra numa cadência idêntica ao tempo. (...) Reconheço que o meu mal é ser demasiado poético! Essencialmente na arquitectura, onde a poesia na maioria das vezes é apenas um lastro perdido, roubando e transformando espaços. Isto é, na construção a poesia está directamente oposta à economia. Em termos poéticos ao analisar um espaço em bruto que me é dado a edificar, tento assumir as condicionantes do lugar e posteriormente dar vida muito própria a esse sítio. Criar uma poesia com uma métrica determinada e reconhecível. No fundo é um meio de arte, a arte de “viver” num espaço que nos é oferecido a habitar. Assim, uma sala, um quarto, as comunicações, as paredes, as pinturas são tudo pequenos elementos constituintes. Fazem o todo organizado; necessitam de uma perfeita definição para se integrarem na ordem que de repente sobressai do anterior caos. E não é só o visível, mas também o invisível que determinam aqui a superioridade da forma sobre todas as outras condicionantes. Em poucas palavras posso dizer que “o espaço surge pela forma do homem, porque a ele é dirigido”. Como um espelho reflector que devolve as emoções e recordações de cada ser!

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Trabalho de Arquitectura de interiores (Instalação baseada numa transposição poética tendo como base um poema de Mário de Sá Carneiro “Epígrafe”) MEMÓRIA DESCRITIVA

Ao pensar numa cadeira de Arquitectura de interiores, prevejo como base operativa, o ensinamento e a pesquisa metodológica, assim como a assimilação e a caracterização de um determinado espaço através da sua decoração. Os objectos que ocupam um espaço arquitectónico são, na maior parte das vezes, objectos que são determinados por uma dada função e cumpre-lhes a eles perante o homem dar vida e realidade ao espaço onde se encontram. Assim, numa sala, um maple, para além de participar numa melodia de interacção entre todos os outros elementos, que ocupam esses espaço – pela sua cor, forma, posição e função, é ainda ou quase uma figura poética que coordena essa música que se usufrui ao penetrar nesse dado espaço. E não são só os objectos, mas também a envolvência das cores, a proporção do espaço onde eles se inserem, a relação entre eles com outras divisões, a luz que é controlada de forma a participar nessa orquestração onde ainda cabe o mundo dos sons. Uma decoração pode ainda estar intimamente ligada e ser feita de um determinado tipo de música, por exemplo, na medida em que um homem que habita esse espaço o conforma decorativamente, por exemplo, à música erudita.

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São todos esses factores que se conjugam e perfazem um campo que podemos definir como Arquitectura de interiores. Mas para além das noções vitais e básicas que aqui são expressas, a nossa cadeira foi algo mais que a simples aprendizagem catedrática e formalizante desses princípios. O professor procurou criar no ambiente das aulas o discurso entre as várias artes e os vários caminhos possíveis de aculturação e tomada de conhecimentos e consciências. Já não somos só o homem que faz móveis e foi ao espaço, o nosso mito sobreleva-se a outras esferas de entendimento humano, e a nossa obrigação agora é refazer, com consciência, a lógica cultural, refazer metodicamente e repensar todos os padrões de acção que nos levam a produzir outras estéticas, outras artes. Devemos então enquadrar-nos num mundo onde as bases de acção estão realmente no passado, mas devemos viver este presente de uma forma tal que todos os conhecimentos que adquirimos sejam as bases de um discurso simbólico e vivo que representará a passagem efectiva para o mais próximo futuro onde continuamente estamos a operar novas e diversificadas questões e a desenvolver criativamente a nossa história. Com base nestes pensamentos, não me limitei a procurar decorar um espaço típico de uma moradia, como um quarto, por exemplo. Pensei num espaço em bruto, onde pudesse derramar uma poesia... Há já longo tempo que me preocupo em fazer transposições poéticas de autores portugueses para Banda Desenhada, sinto que já agarrei algumas ferramentas essenciais, para esta operatividade, e dentro do contexto das várias poesias que transcrevi surge-me como a mais directa e interessante para trabalhar neste espaço a pequena poesia “Epígrafe” de Mário de Sá Carneiro. “Eu não sou eu / Nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio / pilar da ponte de tédio / que vai de mim / para o outro”. Todo o drama que envolve a vida do poeta, assim como a sua estranha forma de ser aliadas ao surrealismo destes versos, fizeram realizar dentro de mim a concepção e ordenamento deste espaço que apresento. Assim, através da dualidade fotográfica de um rosto que procurei que transmitisse a maior profundidade interior através do seu olhar, fotografias uma em positivo outra em negativo apostas frente a frente em dois lados opostos de uma sala, defini o princípio do poema e tentei dar-lhe seguimento com a aposição de um fio que une as duas imagens, significando a relação que existe entre uma e outra, fio que sustenta uma coluna que representa o “pilar” elemento formal de caracterização do poema no respectivo verso. O resto da coluna que se encontra suspensa está apoiada no chão e serve como elemento centralizador e ordenativo da posição dos objetos no espaço ao estar colocada no chão numa posição centralizadora, definindo a localização intermédia da coluna que está sustida. Proponho assim este trabalho para a cadeira de Arquitectura de interiores, pensando não estar a quebrar o rigor do que uma cadeira como esta pode representar, utilizando um poema para decorar um espaço. — 53 —


Introdução a dois projectos de arquitectura 1. ELADOSONHO (Projeto para uma gelataria) (Intróito) Servir às papilas, é invocar constantemente o olhar e o tacto, e a mistura de outras sensações como o húmido trincar sonoro de alguma especialidade. Num gelado, em cone ou em taça (ou em prato) concorre primeiro a paleta do pintor que unta de cores o refulgente branco (do gelado limão). E é importante nesta altura chamar nomes às cores como, p.ex., o branco limão – que não é amarelo mas eternamente branco – o castanho café etc. Desce depois outra musa ao coração dessa criação, arranja-lhe flores, ou bolachas, ornatos ora inúteis ora apetecíveis, e molda esse todo com sábias mãos transformando o objecto de forma a ser útil ao gosto e à vista. Ainda antes de tudo isto, é importante o envolvimento, o sítio e o calor… a música deve acompanhar lentamente em ritmos balanceados de sugestão tropical. Deve convidar ao constante enlace com a justificação de todo esse espaço (não se limitar a comer um sorvete, mas usufruir as qualidades que lhe propõem depois de decidir “apreciar” um sorvete e todos os pequenos pormenores inerentes ou propostos – ao gosto, ao tacto, ao olhar, à frescura, ao passar alegremente o tempo…) Não queria falar mais do objecto, mas surge-me ainda na mente o invólucro e imagino a soma do elemento surpresa ao propor sorvetes embalados que se descobrem apenas ao retirar o conteúdo (que poderá estar integral ou parcialmente contido). Invade-me saborear a frescura desse gelado, retirando aqui e acolá pequenos bocados que vão escorrendo lentamente pela garganta (… e um Gin! bem fresco…) … trinco a bolacha repleta de branco azedo e os meus dentes recordam a comida estável para logo em seguida lavar com lânguidos gestos da língua a boca, retirando outros bocados, ora de chocolate ora de morango … essencialmente a sensação de transpor a porta de Eladosonho é perder a minha inibição de consumidor atento, deixar-me levar pelos prodígios que me propõem, sem medo de que algum espaço meu seja invadido pela incerteza ou pelo descontentamento. Isto é, antes de mais, acreditar, depois, entregar-me sem obstáculos ao consumo. — 54 —


2. URBÁRABE (aglomerado de habitações - em prédio -, de arquitectura com conotações “ukxarabe” *

A sonoridade da palavra apoia um forte contexto gráfico; sinto a melancolia do calor constante, do eterno sul, invade-me o branco das casas, vibrante; espalhando nas searas o brilho do fogoso Hélio, mantendo os interiores frescos e protegidos. Como um desenho na areia, afastando por gestos e sulcando uma superfície plana de maneira a criar uma perfeita estrutura entre ideia – canal – mensagem/forma (aqui os referentes são dois: urbe e árabe ), surgem-me as letras gesticuladas de forma errante. Assim como o branco surge imperfeito pela textura por vezes sobrecarregada de cal, e aparece formando sombras; assim se conotam as letras entre si desenhando a palavra, retomando o sentido do “imperfeito” com a intenção de transbordar imediatamente na “ideia”, apercebendo-a em perfeição. Eis a essencial função de qualquer símbolo ou nome: comunicar imediatamente ao leitor a informação básica relativa ao referente – neste caso um prédio de habitação e comércio situado na zona nascente de Quarteira, que pela imagem procura conotações com a arquitectura de influência árabe. O sítio, o Verão, o calor são outros elementos de referência. Na soma destes pensamentos é sempre o fogo que supera todos os outros princípios (o branco reflecteo, o preto consome-o) e, instalando-me no abrasivo calor desse Algarve, perto das cigarras e usufruindo as fragrâncias de inúmeras ervas e da terra quente exalando um perfume de vida… pego num papel e com o azul do mar por contraste desenho num árabe ridículo o nome imposto – é sem dúvida o gesto lânguido e suado que escreve, esse tal imperfeito que resolve de imediato a mensagem. O crescente é essencial para o contexto que tratamos. É a adoração pela lua e também pela noite que é quente… A ideia que me foi indicada e que, ao que parece, surgiu a duas pessoas ao mesmo tempo, é a minha chave para prosseguir na dissecação dessa imagem. (Estaremos nós já envolvidos por algo superior ao invocarmos o crescente?... as relações herméticas entre divino e representação surgem aos homens por luzes que são guias, faróis constantes que iluminam a nossa paixão). *

de Ukxunuba – posterior Orsonoba - com a relação Ukxunubostálgica (de ukxunuba+nostalgia = sentimento que me invade fora de ukxunuba – Cineticum, Algarve).

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... O envolvimento intrépido Há mais uma lua cheia esta noite! Cheia e vibrante... perturbada e evocando os recantos místicos de cada ser que se lhe entrega! O suão instala-se na minh’alma, oiço as cigarras, vejo o branco reluzente das casas e deixome levar por este Verão que consome o Sul. Num piscar de alma, reacendo estímulos vazios do meu ser; banho-me nesse oceano de lendas e de história, mas calmo e agora quente também. (... é nesse instante térmico intermédio que me vejo interpretando um jogo mágico nas formas...) Sim, vejo-as retornar num contexto diferente, mas com a mesma força criadora que as gerou e que as tornou simbólicas. Para mim, retornar a essas imagens é como fazer uma leitura que se sucede em páginas infinitas, reescritas e que retornam em espiral cíclica e sem limites de tempo. ... reparo num fluxo diferente que percorre as conexões entre corpo e alma; sou outro... diviso a centelha essencial!!! (... energias latentes que me fazem voltar a um invólucro especial, plasmas criativos que constituem o meu paraíso...).

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DEPOIS DA PARTILHA... A AUSÊNCIA E A SAUDADE

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E.S.B.A.L, 22.01.84 Um longo muro de pedra, envelhecido... (... e um sonante grito, no meio da escuridão Psi, alma, génio, bocados frustrados de mim Soltos; errantes por entre diáfanos sonhos (... nem ser, nem não ser...) Uma embriagante preguiça de luto, sobrepõe-se A idéia concorre em mim; e construo-a! (Sinto-me abstracto enquanto não denuncio a idéia!) ... aquelas mais fortes, mas também mais vagas... ... aquelas que ganham consistência ao entrarem no universo verbal das imagens constituídas e reais. No Verbo de cada cor, de cada traço Na gramática visual do sensualismo... (... corpos vãos; curvaturas acariciadas por mãos escondidas... seios, ancas, sexos! (Sem dúvida) Errante perpétuo, esmago a minha realidade conceptual Nada é vivo, nem existe, é tudo uma reconstrução...

Talvez isto seja... (não sei)...o outro lado do espelho!

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Oeiras 28.03.84 Pai Espero que esteja dentro da melhor saúde! A sua cabeça parece que não tem estado óptima, mas eu tenho impressão que isso se deve muito à inactividade do pai. O quintal é um hobby soberbo, mas a mãe terra custa a dar-nos proveito e o essencial para cuidar dela é muito carinho e paciência. Carinho não duvido que o pai o dê e talvez demais (... o necessário) mas a segunda qualidade não é talvez a mais indicada para o pai a procurar. Paciência, criou o pai durante todos os seus anos de vida, agora, devia desfrutar algo um pouco diferente, como que uma procura de pressa, característica que é talvez inerente, na sua essência, aos mais jovens. Mas agora que desfruta de todo o tempo possível, não seria bom lutar por coisas que lhe trouxessem uma felicidade e um gosto mais rápidos? Não sei, estou para aqui a falar e não conheço uma coisa (... da qual chego a ter receio...) e penso que o pai está a cair muito nela – cansaço da vida. E é normal que consequentemente surja o stress e a angústia, e eles são como um vício, quanto mais caímos neles, mais vontade perdemos pelas coisas. Falo assim, porque ultimamente tenho-me sentido atacado por uma estranha monotonia e por um desprezar muito grande dos meus mais altos valores. Sinto um querer profundo por muitas coisas – pela minha vida, pela arquitectura, pelas pinturas e desenhos que vão enchendo os meus outros tempos; mas tenho entrado numa mecanização do viver, e caí na certeza de que isso não é válido. Não sei, mas comparo tudo isto, por exemplo, ao amor. Quando o atingimos, no casamento, ele torna-se diário e ao fim de certos anos, já não é amor, mas uma amizade muito profunda que liga dois seres. O prazer profundo da novidade desapareceu... mas será mesmo que as coisas são sempre assim? Não teremos nós cá dentro uma capacidade desconhecida de evoluirmos constantemente, sem nos cansarmos, e tornarmos um hábito aquelas coisas mais queridas e que nos dão um maior prazer? Acredito que sim (... e, pelo menos, o princípio para superarmos todas as amarguras é acreditar. Num sentido religioso, é como ter fé, crer numa coisa desconhecida e que à partida é inatingível. A minha vida está a mudar muito, pai. Devido a esta depressão em que me tenho encontrado, necessitei de recorrer a um médico. Por um lado, é estranho, porque é uma pessoa que não me conhece, e o processo de entrada dentro de mim é muito moroso. O próprio médico diz que eu sou uma pessoa difícil de atingir, que esta minha calma exterior é apenas um pretexto inconsciente para me controlar, e apenas deitar cá para fora aquilo que o “outro” Pedro quer, aquilo que acho conveniente e normalmente (socialmente também) aceitável relatar acerca do meu mundo. Mas, então, e o verdadeiro Pedro? Onde reside ele no meio da complexidade da minha personalidade? Sinceramente não o sei, pai, mas sinto hoje um reencontro muito grande com a minha finalidade, sinto que começa a correr dentro de mim uma vontade superior a todos os desgostos, o que me leva a andar mais alegre e realmente a vestir-me com as roupas que sou, isto é, a entrar dentro de mim e a sê-lo, verdadeiramente e sem subterfúgios, mesmo que isso implique por vezes reações contrárias por parte das pessoas que me envolvem. Mas creio que todos se sentirão melhor se eu for realmente verdadeiro, do que deixar transparecer aquilo que seria por bem deixar transparecer. Não sei se me faço entender, e tudo isto é banal estar a ser escrito; o conversar é muito mais positivo, aqui, ficam lacunas... mas sei que depois poderei bater um papo mais longo e sugestivo, de forma a eu poder acreditar que o pai me ouviu e compreendeu. — 61 —


Sinto que estou num impasse que tenho que resolver. Mas não quero também cair no hábito de recorrer ao médico, estou agora num tratamento em que vou lá todas as segundas; assim que me sentir com capacidade para deixar a psicanálise, faço-o, porque pelo menos já me começa a surgir a vontade de gritar bem alto e a bom som, para mim, aquilo que devo ser. Eu não vou aí abaixo nas férias da Páscoa, quero recompor o meu estado de espírito ao máximo, e se ai fosse, sei que me deixava levar pela boémia e pelo gozo de todos aqueles, como eu que estamos a estudar, procuramos quando aí chegamos. Não sei, se calhar vou passar aí uma semana para a Beira Alta, para aquela quinta onde já estive. Mas de qualquer forma gostava de estar com o pai. Espero que venha até cá passar uns dias para darmos umas voltas. Com um voto muito grande de que o pai rapidamente dê uma volta a 360º na sua cabeça, despeço-me esperando por notícias suas. Muitos beijos afectuosos e um abraço enorme do seu filho F. Pedro Faro, 04.04.84 Querido filho Pois, meu filho, recebi 2ª feira última a tua carta datada de 28 de Março. Neste dia, à tarde, fui até S. Marcos da Serra com o amigo Palminha e a esposa e regressámos ontem à noite. Lá bebemos medronho do autêntico com o coronel Silva (ex-presidente da Câmara de Faro) e deambulámos pelas faldas da Serra de Monchique, por entre matas de sobreiros e medronheiros. Gostei e meditei bastante a respeito do que me relatas. Sinto-te numa crise de personalidade que te abate, mas também induzo dos teus escritos que estás a entrar no diagnóstico da situação, que é a entrada na estrada da solução da crise. Já descobriste os dois Pedro’s – o negativo e o positivo – e, agora, com conhecimento de causa vais ferozmente cultivar todo o prazer que não dê em desprazer. Estás já com idade e cultura para, em todos os pontos de vista e em todos os sentidos deduzires a tese e a antítese das questões a resolver. A seguir, decidir. Depois, cumprir a decisão com força de vontade (dentes cerrados), com amor (coração), com imaginação (criatividade), com fé cósmica (somos átomos do universo desconhecido). Sabes que ao escalpelizares um pouco a minha vida – na tua carta – me meteste num beco? De facto estou numa encruzilhada, ao sair do beco, do “cansaço da vida”. Que fazer? Careço muito de contactar, dialogar com pessoas sensatas e amigas. Careço de receber cartas tuas a descreveres as tuas vitórias e os teus revezes, os teus sonhos e as crueldades da vida. Preciso entrar em luta de morte com o ócio – não fazer como a Preguiça que morreu à sede por não voltar a cabeça para o lado onde passava uma nascente. Hoje passei uma manhã boa, das 9 às 11.30, a tratar do quintal. A água de sabão dos vizinhos fez-me perder um pouco o gosto de tratar do quintal, mas acabei por me decidir a fazer umas plantações, dentro do — 62 —


possível. Plantei hoje mais uma roseira, ficamos assim com 7 roseiras (5 rosa-preto; 2 rosa-pálido). A figueira vingou três figos de S. João, mas já secaram, para Agosto teremos figos da 2ª camada e para o ano tenho que ir vender figos à praça... A nespereira está enfezada com as águas de sabão e o pessegueiro para o ano já dá fruta. A amendoeira que semeámos o ano passado estará, dentro de um mês, em condições de enxertar de albricoqueiro e de ameixieira. Os alhos estão com um palmo de altura, as cebolas com palmo e meio; as alfaces daqui a um mês começarão a ir parar aos pratos da tia Almerinda. Os coentros, a salsa e os poejos estão em forte, os alhos porros e as acelgas brancas estão atrasadas. Saudades para todos. Um abração do pai Francisco Pedro Faro, 19.12.85 Querido filho Do Café Paris, solitário e meditabundo, vou conversar um pouco contigo. Dias há que me levanto cheio de medos, ansiedades e angústias. Outros com um pouco de prazer de viver. Hoje estou com misturas de um e de outro estado de alma. Misturas dos dois. Os estados pessimistas arrasam-me, destroem-me. Quando medito em patifarias, mentiras, bandalhices, más companhias, canso-me da vida e acho-me por cá a mais. A patifaria gera a mentira, a mentira gera a cobardia e falta de sentido de luta pela vida. Sinto-me envergonhado quando me mentem. Mentem-me porquê e para quê? Será que tenho aspecto de pobre de espírito? Será que quem me mente se considera um ser superior perante o palerma (sincero) a que enfiou o barrete? Fico muito triste ao analisar temas destes e pergunto: e o mentiroso, que proveito espiritual ou prático tirou dessas falsidades? Tornou-se génio ou traste? Fico-me a meditar. Para os fora de lei (lei natural e lei moral), a Primavera não tem flores e o Outono não tem frutos, são indivíduos de vidas secas. Porém, outras vezes sinto toda a beleza cósmica do Universo, a poesia e o perfume das flores, a natureza morta de Inverno, o renascer da natureza na Primavera, a maturidade do Verão, o parto abundante da natureza no Outono. Penso no caminho da Humanidade, do “homo sapiens”, desde o alvorecer do pensamento até aos nossos dias. Penso nas cidades suspensas da Babilónia, nas Pirâmides do Egipto, no século de Péricles, na pujança do Império Romano, na escuridão da Idade Média, nas Catedrais Góticas, no esplendor da Renascença, no absolutismo dos Reis europeus, nas incursões das descobertas dos Caminhos marítimos para as Áfricas, Américas e Ásias, nas lutas sociais, na Revolução Francesa, nos Napoleões, na Revolução Industrial, no holocausto das guerras mundiais, nas idas à lua, viagens cósmicas, no computador, etc.... E penso que esta longa caminhada, a diferença entre o nada existente no alvorecer da humanidade e a explosão do conhecimento que hoje se verifica, resultou do esforço, da luta, da persistência dos grandes homens, dos filósofos aos cientistas, dos escritores aos artistas, dos poetas aos industriais. Foram estes os grandes construtores do mundo. Não os pessimistas, nem os derrotados. E depois deste borboletear de idéias, penso em ti. — 63 —


Vim de Oeiras contente de ti. Senti-te com vontade de passares a ser um homem activo, com vontade de trabalhar, com vontade de cumprir, com vontade de vencer. Não percas de vista o farol que está a guiar-te e serás um HOMEM. Beijos e abraços fortes do teu pai Francisco Pedro Faro, 07.06.86 Querido filho A tua carta de 4 deste mês sensibilizou-me muito. Positivamente. Calou profundamente no meu coração a abertura de conversas e confissões válidas, lógicas e coerentes que me expões. Faz-te imenso bem abrires-te comigo, e com todos os que te querem BEM, e àqueles que te amam também lhes dás uns perfumes de satisfação. Precisamos sempre de ir conversando, manter o diálogo aberto e fraternal em continuidade. Nunca meter a cabeça na carapaça como a tartaruga. Estou muito contente por me aperceber que estás a emergir para a Vida, assumindo anseios, esperanças, gosto de lutar, previsões e planejamento do futuro. ISSO É VIDA. É “PRÓ-NATURA” E NÃO “CONTRA-NATURA”. Não te atormentes mais com o passado. O passado morreu. Tens à tua frente o presente e o futuro, que têm que ser construídos por ti com o teu corpo e a tua alma, e, assim procedendo, todos os que te querem bem te ajudarão. Corta todas as raízes do mal e despreza-as. Atira-as de uma vez para sempre para o lixo. Ainda és um jovem. Tens à tua frente todo um futuro que te espera. Com trabalho, com lutas, com derrotas e vitórias. A natureza, a vida, a arte, as flores, a música, a arquitectura, a pintura, a poesia, o trajecto da humanidade desde os tempos da pedra lascada, a ciência, a informática, o renascer da vida em todas as primaveras, são motivos de criatividade que jamais se esgotarão. Tens muitas capacidades dentro de ti e isso traz-te muitas responsabilidades. Desenvolve a criatividade. É um imperativo categórico. A Natureza será tua madrasta se não devolveres as potencialidades com que te dotou. Será tua doce mãe se seguires o fluido magnético com que te presenteou. Sabes que um quilo de ferro magnetizado atrai vinte quilos de ferro não magnetizado? Porém, se se desmagnetizar, nem um grama atrai. Tu estavas a desmagnetizar-te aceleradamente. Bem hajas. Trabalha, ocupa-te, preocupa-te, mas não deixes o espírito da imaginação parar, manda todos os bons pensamentos e idéias para o subconsciente e tudo isto florirá um dia no consciente, no objectivo, na criação, na realização de coisas belas. Estou entusiasmadíssimo com a “Introdução à teoria da relatividade”. Está escrito com muita clareza e sentido pedagógico. Pairavam-me – na generalidade – uma série de confusões que agora vou desfazendo. Valeu por bem empregado o tempo e a nossa ida à Feira do Livro. — 64 —


Esta manhã fui até ao quintal e devorei dois belos figos lampos, madurinhos, da nossa figueira. Para a segunda camada, lá para Agosto, já tem vingados para cima de cento e meio. Nos alvoreceres de Agosto teremos boas oportunidades de nos regalarmos com belos figos, à roda da nossa figueira. As roseiras estão lindíssimas, poéticas. Já colhi as cebolas, à roda de 12 quilos. Já ofereci às parentas Joanas. Hoje vou visitar a prima Fernanda e a tia Catarina, levo-lhes acelgas, hortelã, espinafres, cebolas e um “bouquet” de rosas vermelhas. As nossas gentes de Olhão vão indo com a normalidade do costume. Lá para 5.ª ou 6.ª feira vou vê-los e levar-lhes meia arroba de cebolas e novidades do nosso quintal. Abraços para todos e para ti, com beijos paternais Francisco Pedro

Faro, 15.07.86 Querido filho A tua carta trouxe-me uma quentura de satisfação que há muito eu não sentia no meu coração. Começo, com alegria, a ver-te renascer como homem. Com os pés no chão e o espírito de imaginação a voar em céus abertos, luminosos, transparentes, criativos e cristalinos. Quando vieres de férias logo bateremos uns diálogos, sinceros, construtivos e esclarecedores, sobre o passado, o presente e o futuro. Sem pressas. Saudades para todos. Um beijo e abraços fortes do teu pai Francisco Pedro

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20. 02.89

PAI ...Tu foste! (Na errância da minha alma perdura o desgosto) Irei sentir-te como um sinal que me dá luz e vida! Sei que esta distância confusa Nada representa na percepção do mundo Que nós tínhamos! A minha irreverência A tua calma e experiência Fizeram-nos viver Essas estrelas longínquas Onde repousa o segredo Esse, que agora descobriste E também é nosso No meio dessa grande noite que agora vives Não te esqueças de murmurar as respostas... Sim... eu sei! No meio das minhas recordações, Tu irás aparecer como um anjo anunciador, E vais-me revelar Todos esses segredos confusos Para que eu possa tecer uma malha evolutiva Na minha existência Será assim, que ao som das águas do Guadiana e daquele calor nocturno tão forte... ... eu te irei dedicar o novo sentido dos meus astros... (... a nova constelação que me identifica) Vou esperar um sinal, nessa noite estrelada de sonhos e recordações Quero rever-te, no seio da natureza que te gerou! — 66 —


LINHAS DA AMARGURA

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Uma luz ainda escondida... 20.06.84 (Um enorme bando de insectos devora a planície...) o amarelo do trigo é envolvido por manchas cinzentas, que de repente o apagam... ... no momento nada me ocorreu...!!! Senti apenas desprezo pelos insectos e pintei de azul aqueles bocados de cor que faltavam... ... assim, pelo menos, o céu ficou maior... (sinto alguém a chamar-me...) E num ápice transcorro a distância que me separa do corpo... ... (corro em diversos espasmos pelas 7 essências)... ... assim, de novo, estou aqui tacteando a minha carne, escrevendo estas linhas de amargura... Sim, no fundo dói-me saber que permaneço perdido; sei que no limiar da minha vida está uma luz, ainda escondida... mas merdas que se passam à minha volta não a deixam transparecer... tapo o foco de energia, e não me transmuto. Digamos, estou dividido em três fases. A primeira fase reside numa espécie de vida concreta, onde se desenvolve o mundano da minha existência. A segunda, é um estádio intermédio entre essa vida concreta e a terceira fase... esta não a conheço; e, estupidamente, guardo em mim o seu âmago, tapo-o mas, mesmo assim, ele emite força suficiente para alimentar uma necessidade de revolta. Não posso ser um nem o outro, terei que me resignar a viver nesta vida abstracta?... de vez em quando fugindo de mim, deixando o corpo, algures; outras vezes vivendo nesta completa alegoria que é a fatalidade de “ser”!, de estar resumido a uma peça social, no seio de um sistema que reconheço vagamente, mas me preocupa porque não vejo nele possibilidade de recuperação – está podre pelas bases... não me entendo dentro dele... às tantas não sei quem sou, e perco-me, transformo-me sucessivamente em vários papéis e desempenho-os frente ao mundo.

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Constante irrealidade Estive relendo textos e bocados de pensamentos que tinha escrito... sinto em todos uma grande melancolia que não evolui; pelo contrário fecha-se num ciclo onde a tristeza, a solidão e a morte se vão enredando de estranhas e complexas formas. Falo muitas vezes de mim; essencialmente situando-me em algum elemento natural (como uma nuvem, ou no marulhar) e descrevo agonias, paixões... É constante a irrealidade que me domina! Vejo que, para além de não “conhecer” as regras da vida, não me conheço a mim. Comecei por traçar uma personalidade que fosse capaz de montar um espaço cénico entre mim e o mundo. Entretanto fui criando um mundo místico no meu interior que só muito especialmente fui comunicando. Reconheço que a queda é lógica; o cansaço de tal atitude era de esperar! Entro em declínio acelerado e perco a “forma” de me relacionar com as coisas mais simples. As mais complexas existem dentro de mim na maior letargia possível não me dando possibilidade de controlar os efeitos. Os mais próximos (a família) são-me queridos, mas estou distante deles na mesma proporção em que estou distante de mim. Com a Escola passa-se o mesmo, e em termos afectivos também – penetro em paixões exuberantes quase exclusivamente para sentir o seu efeito, no fundo o espaço concreto (o amor) não se realiza na essência dessa relação. Chego à conclusão que no fundo tenho que dedicar-me a várias tarefas para me repor no estado normal. Primeiro tenho que restabelecer as relações concretas com uma série de coisas que me rodeiam – para isso é necessário ter um objectivo; só assim esse caminho pode ter significado. Depois tenho que passar à acção de forma a efectivar esses preceitos e poder assim dizer que “vivo” no seio deste complexo sistema que é a sociedade, embora o meu imaginário me transporte constantemente para outro nível de compreensão das coisas. Tenho consciência que o “segundo” lado é o mais importante e o que alimenta uma estranha, mas bonita chama no meu íntimo – quantas vezes não lhe senti o calor ao exprimi-lo através do desenho ou da pintura. Esse é o meu alfabeto essencial, o primeiro dentro do qual sinto que posso comunicar.

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Noite solitária Campo, 15.07.87 A noite aqui desce densa e rumorosa! Há espécies infinitas de silêncio rodeando este lugar… o verde, o calor da terra, completam na minha alma este distúrbio jazente… Sim, no meio da calma, pressinto uma brecha que me vai abrindo o coração. E é nesta noite solitária que vejo o céu cheio de caminhos… cheio de viajantes procurando cada um a sua verdade, nesse labirinto infinito de perguntas e respostas que é a existência. Já sei distingui-la, entre aquilo que vejo e aquilo que sinto. Mas esses focos confusos do meu eu não conseguem estabilizar nos pontos ideais; evoluem pelos limbos fictícios das palavras… e logo de seguida perdem a estrutura e morrem. Porque há algo que me impede de renascer? (…tantas flores que me rodeiam… … esta paixão que resultou e é agora calma… porque tudo isso não me sobrecarrega de energia e me relança?)

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A VOZ DO AMOR

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A Ilha Patmos, 23.08.84 ... vivo estranhos sonhos, que teimam em interpor pessoas distantes. Há um chamamento constante ao outro estado... apetece-me pôr uma carta no mar, ao encontro de uma ilha... (talvez a que aqui está em frente, aquel’outra além... não sei!!!....) ... um coração banhado por um veio de sangue inteligente, que esteja também só, perdido entre as duas coisas que estamos habituados a ser... essa ilha que procuro há longos anos. Bato asas e estou voando de ilha em ilha. Uma série de pássaros acompanha-me, e sinto uma voz calada, mas pulsante, algures... Para a ouvir sei que não basta escolher acertadamente o local onde devo pousar. Tem que jorrar um fluxo qualquer de uma desconhecida energia para me dar luz. Só assim, rodeados de mar, eu e essa ilha poderemos entrar no outro reino... (... um outro sítio!Um outro estado...) ... mas sei que és tu a ilha (... Tenho em mim a certeza, ainda mais: os pássaros dizem-mo!) Continuo a esvoaçar, atravesso nuvens, e aquela voz permanece muda; olho em vão para os salpicos de terra semeados no imenso mar... à espera de um grito de alerta. ... aquela lá ao fundo (Naxos) não deve ser, mas também a vou olhar... ... esperar...! — 72 —


Palácios de cristal que não se vêem Jan.87 A palavra Magia perdida... Por dez mil anos percorreu As estrelas, sonhos originais Voltou numa noite de lua cheia Errante Entoando o canto primeiro (do primeiro amor) ...sonhos reais De um tempo sempre novo Palácios de cristal que não se vêm ...sentem-se No murmúrio do mar, Na voz que diz (...amo-te)

A essência que transforma... Oeiras, 20.01.88 Nesta estrada, de instintos cruzados, decifro uma luta constante por um anelo com a vida. Os momentos, no meio da sua fugacidade, apenas iluminam com cheiros, palavras, sensações, aqueles bocados que consideramos os bons instantes da nossa rota do conhecimento. Que conceito mais abstracto pode definir o sentido desta vida? Que outro interesse existirá senão a reciclagem da nossa forma, ao longo da existência, no tempo? Esses farrapos que revelam acções, conceitos, realidades, têm necessariamente uma justificação... nem que seja o acaso a dar-lhes estrutura; porque seguidamente concretiza-se o passado, a história... e o dado fica recuperável apenas na memória, e nas palavras que lhe são escritas. A essência que transforma esse dado numa luz, evolui em nós como um fantasma da nossa realidade. A materialização dessa essência só é provocada quando a “forma” em si se justifica como único caminho viável para o infinito (... o conhecimento cósmico que nos induz nos fluxos alquímicos da sabedoria...) ... transpor essas estrelas que observo, nesta areia molhada onde repousa meu corpo. Invocar uma direcção e um ritmo aos meus espaços... (sim, era o que eu mais queria!) ... entrelaçar sentidos em relações tais, que a palavra seja subjugada pela alma; que esta seja, assim, o âmago desse revelar tão bonito que só surge com o amor... — 73 —


A constelação do teu nome 21.11.83 (Queres ser minha dama?) (Queres ser minha amada?) (… Namorar?) … Juvenil flor atormentada. Estás num trono que é meu! E dilaceras todas as coisas em teu redor! Porquê? Porque és minha amada! … e porque choro por ti! Bem alto, antevejo nas estrelas A constelação do teu nome… … e nesta minha morada de solidão Fabrico os beijos, carícias Com matéria de ar, como nos sonhos… … e as imagens sobem para as nuvens Ascendem num ritmo frenético, encantado … Dão a conhecer o meu nome e esta minha paixão (Lua; tão escondida, enquadrada nos inúmeros planetas e estrelas… conta-me! Tu, que ouviste meu grito Acaso não ouviste o grito dela? … não te apercebeste do pedido que proveio daquele coração? Sim… eu sei! Não me contas, e eu alimento a desilusão Porquê? Porque não posso saber se ela me ama? Olho-te, estás parada no céu… (Tudo parou por um instante) e todos os corpos celestes me olharam de súbito! … corei, a esconder-me por baixo de uma amendoeira. No mesmo instante um branco mar de flores surgiu Nos campos… (Na noite deste meu divagar, enquanto tu, Lua, me continuas a olhar… Perplexa, assim como todos os outros!... assustados) — 74 —


Assim me expus, inevitavelmente, a contar meu ardor… E as imagens e os gritos, que pensei e dei… não foram os mesmos … não me atrevi a relatar a paixão; inibido, por todos aqueles olhos que sentia provir dos três cantos do universo… (Vi quão pequeno era em tão grande sentir…) Não havia lugar no infinito para a materialização desse sonho! Tentava elucidar minhas ideias… (sempre no mesmo instante…) … assustado perante a assembleia de astros que sempre me olhava! (… ao fundo surgiu a amada, correndo no horizonte … encontrou-me e olhou para o céu tentando compreender a razão de tudo aquilo) O sol apareceu impondo o seu céu ao vago céu da noite... …sempre parados todos os corpos celestes se esvaíram, com seu olhar … mas agora, contente e sorrindo… … a amada dormia, no seu leito, enquanto eu, perplexo, os olhava … clamando pela tristeza, pelo ardor… que me queria deixar agora, quando o amor finalmente surgira (Não, vai-te donzela, deixa-me…) Quero conquistar-te, mas não te quero Desejo-te, mas não te posso possuir. … preferia a eterna ingratidão, para assim me poder dedicar ao amor… … purificar-me, e atingir a ascensão, em ti, no que tu és… … no que eu sempre desejei…/namorada!).

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A esquina 23.01.82 Perscruto a esquina à espera Do teu vir (E o teu chegar não vem) Esperando fico, sentado (Lendo ou escrevendo, escondendo) A fúria do amor que provém Da esquina por onde devias vir Provir o teu chegar (Tua figura cantante e estranha pelo chegar) Chegar ao cume de tudo aquilo que ainda não foi atingido E bradar depois a vitória, não ao vento Mas à esquina que se esquiva E não tem, não antecede O passo que poderias ter dado para eu te ver. Por fim vens (e a esquina não é nada, como a minha presença tão visível) . Tudo é por fim um aglomerado Duas paredes que estão entre mim e o meu sonho (Preferia que não viesses) Para deitar as culpas às rosas, a todas as flores Por não serem nem cheirarem Àquilo que tu cheiras depois de exprimir A tristeza, o cansaço, no teu bailado (Põe as mãos à tua frente, calmas, distantes) Põe-lhes o pensamento na ponta dos dedos Sente o meu devir ao olhar para a esquina… … como duas pombas vamos sorrir à culpa das rosas… E vamos ambos pousar Nesses teus braços com tuas mãos distantes. Vamos unir a precedência de tudo o que nos é desconhecido … e a esquina passa assim a ser um cubo de vidro sem valor… (Apenas o tacto que possuis na ponta dos teus dedos Que agora contêm teu pensamento Sentem a distância que separa O meu coração que está no meio Daquele corpo que antecede essa esquina). — 76 —


Correndo à procura do ouro Aveiro, 05.05.82 Tudo isto é grande ilusão e tu bem Amada és o seu título arrogante Quanta falsidade, quanta necessidade tenho Da tua brancura jovial, para tocar meu negro desígnio … contemplando-o com o amor… Depois disto, recuso-me a aceitar a resignação do calor de outros braços que não os teus. As sílabas do teu nome, que venho trauteando numa canção São estar habitual e conhecido por todos os objectos que me rodeiam … todos os dias entro neste quarto (com copos de recordações cheios de um líquido estranho, oleoso que se vai derramando pelas sílabas do teu nome) Quero furtar a tua alma a quem a tiver Para partirmos os dois, apenas contemplando nossos rostos Para as portas do impossível inimaginável... … para sermos parte do amor que consome meu branco e o transforma em negro. Levantaremos as cores e vamos segredar Ao arco-íris um gracejo Olhando para o sol, e ingénuos (nus) correndo à procura Do ouro, pelas cores Sentindo as nuvens tão calmas e tão altas Tão distintos cirros por onde passa o nosso arco-íris Montanhas de brancura em suspensão Aos pulos, correndo, do magenta ao cyan Pelo amarelo ao violeta… Seremos o vermelho distante do amarelo; aquele Mais escuro, na sombra … o sereno violeta quando as rosas começarem a cair na estação outonal… Vamos prosseguindo, com o sol rindo por detrás, nesse arco-íris À procura do ouro, tesouro escondido no seu improfanável Fim.

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Invocação - Meu lamento é agora como uma pomba branca cansada de voar Tu És o estado de revelação de minh’alma, e quando os pássaros cantam Ressoam paixões dentro de mim que vão enformando Uma paisagem de sonhos Não sei aonde estás, mas o momento que te dedico Este, em que imploro a tua ajuda Por estas palavras e imagens que perseguem a minha inspiração E que afinal são tuas (Estou triste nesta noite na solidão deste lamento) Hoje não há lua Mas procuro no céu a constelação do Teu nome Há estrelas pequenas… planetas com vida Cometas siderando todo o espaço infinito que vejo

… Para lá... noutra dimensão … sei que estás tu amor… E hoje invoco-te!!

Pronuncio compassadamente, com a alma, a forma etérea que te recorda Assim, junto a teu nome enforma-se a imagem de uma musa Que necessito alcançar… Não sei realmente se te estou vendo… Se é a sedução do cosmos que me transborda Sei apenas que é através da inspiração que compreendo o inexplicável Pressinto que tu continuas escondida por detrás de algum astro … e eu imagino-te como a tal pomba…. Levando por entre todos estes mundos a revelação Daquilo que tu imaginas ser a tua verdade… Invoco-te Implorando por um bocado dos teus céus (Ramifico-me como as árvores para descobrir a energia própria Que me fará penetrar em ti) Porque não és só Namorada, és também mundos que eu pretendo ser! — 78 —


Sedução do meu desejo Soa o vento como penumbra de um limite de cor O ar, hilariante, brinca com as sombras do céu As gaivotas voam pelo espaço milimétrico do som Entre os vários gemidos, aparecem ovos E nascem novas gaivotas para sobrevoarem O longínquo distante que separa A metamorfose das ideias que nos levam ao voo Voamos e não sabemos porquê Caímos das nuvens como gotas de água E vamos alimentar o solo com a nossa morte O sangue torna-se seiva, e o meu coração Uma alma inerte que jaz no seio do mundo Tento ainda, sendo parte desta matéria Idealizar um sonho que me faça partir Para o fim daquilo que procuro. Estou são Mas as envolvências iludem-me. Estragam-me Se quiser transformar as ideias, sinto-me a perdê-las Por isso não lhes toco… apenas olho para onde me levam Pressinto o sabor e o perfume desse caminho Quero comentar o que vejo, mas estou só Por acaso o meu lado esquerdo do corpo diz sim A minha mão escreve e a minha cabeça idiota pensa. Quadrados e hipotenusas sem nexo que se encontram Triângulos e círculos concêntricos que me levam ao nada. E se eu pintar um Deus? (Com que cores e materiais…???). Talvez com ébano benzido pelo cosmos Ferramentas feitas por Tor o Grande Guerreiro das lendas Nórdicas Vernizes do mais puro sangue arbóreo que envolvem Esse martírio a que chamamos revelação O Deus das nossa perguntas… por fim Tingido de cores supérfluas que o embelezam Revelam uma luz vinda das profundezas do normal Encontram percursos luminosos que não conduzem a lado algum. — 79 —


Nesse momento pergunto-me Onde está o quadrado Com as orientações do Ar / Terra / Água / Fogo? Descubro que no limiar dos meus pensamentos aparece um som de uma certa nostalgia, a contar-me histórias desses quadrados… desses triângulos. Houve uma linha que me disse que não tinha sentido Por isso se sentia recta e uniforme… Sensível e estável como aqueles momentos Onde tu sobrevives agora como passado esquecido. Uma recta não tem princípio nem fim O que ficou no longe passou à memória Agora quero voltar a sentir o orgasmo químico Da adrenalina que eu produzo pela sedução do meu desejo Masturbar o feto da minha existência Ver, através dos mamilos da minha amada O evacuar célere do leite materno que se vai Entre uma estrela e outra… Quando nos amamos…

Duas linhas cor de rosa Duas linhas cor-de-rosa Uma curva, outra finita... (linhas sem fim...) (Traço duas linhas no papel; diferentes) Traço duas linhas no céu; diferentes (... e o infinito as iguala!) São dois fins, dois passados, que se reúnem e dão luz... A um entendimento precoce... as coisas surgem! Mas a verdadeira resposta permanece nas trevas... (Adoro, então, a lua) Invoco nela a minha paixão... Segredo-lhe o nome da amada, e em comunhão Atingimos o êxtase no âmago do amor... (Inadvertidamente esqueço-me da verdade!... vagueio!). — 80 —


... de amor em amor, de lua em lua... Hoje, estás cheia, parece quereres rebentar (... para contar ao universo todos os teus segredos) ... mas a eterna monotonia dos astros precede-te mesmo sem o quereres!! ... e nada revelas... Ali continuas, entre os prédios, a dialogar com todos os segredos, sozinha, porém... ... e vejo a bem-amada atravessando a rua. Esgueirando-se numa dança frenética entre os carros e as pessoas... ... aproximou as ancas provocantes e beijou-me – olá! Quanto do teu leito eu não queria, quantos beijos sonho nesses teus lábios rosa... ... e vais, por entre a multidão, dançando o teu ser ...não sei! Parecia-me Milton, talvez Edu; o que importa, é que o ritmo é o da amada ... é ela, que vai ao som das minhas notas tristes fugindo, do meu amor... É sem dúvida a musa, e tu Lua já o sabias. Esse era o teu segredo, em ti. No fundo, existe a permanência do meu sentir; estou abraçado ao meu futuro, chorando... não sabendo se te devo amar, se me devia encontrar na solidão...

... e é essa que me abraça agora! Imploro-lhe! E a ti! E à lua! Que me amem!

... (mas procuro esquecer, fumar um charro e não olhar para ti. Por entre os prédios... vejo as lojas atulhadas de trapos e brinquedos, luzes atravessando cenários, pessoas... e a amada, que ainda surge lá ao fundo, saltitando... bebo um pastis e recordo em vão os sonhos contigo... namorada). — 81 —


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DE ENTRE MUITAS, UMA SÓ!

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Sonhos infinitos Há algo que nos faz transportar Para sonhos infinitos com cor Espaços que têm sentido Como o rumo dos cometas Que sideram o espaço naquele sentido Infinito como o cosmos Bocadinhos de alma que transportamos Para o nosso quarto quando amamos Beijinhos simples de alma sem dor Lençóis lavados pelos orgasmos simples Do amor que produzimos Quando estamos juntos... 05.09.97

Quero-te para sempre... em ti e comigo... de tal forma que a interferência dos nossos corações, o amplexo que é nosso, provoque um estímulo transbordante que signifique para nós os dois a realização de aspirações contidas indefinidamente no nosso íntimo.

Para além dos sentimentos Ser-te é como retornar e reviver Perder-te é como fugir irradiantemente pela luz e tornar-me no tal átomo centelha de espírito que nos transforma e sobreleva além dos sentimentos.

Mas eu não quero perder o coração Quero esgotar primeiro o corpo físico contigo E depois levar-te para as brumas do infinito. (…onde calamos as almas e eu te dou beijinhos…) — 85 —


Cascatas de vida Faro, 26. 5. 99 P´ra ti Sonho agora com momentos lúcidos e imagens bonitas que invadem a memória como rios de águas contínuas, que descem em cascatas de vida…

… Serão momentos? … Será realidade?

Quero converter esta ideia numa junção de pensamentos que traduzam, ao fim de tudo, o que sentimos! Agora… penso nas tuas maminhas longe como os quilómetros que nos separam (… tão longe…) És minha e quero-te assim Bocado infame do meu desejo Que constitui a memória perfeita Do hiato que prevalece entre nós Sim… há um sonho Tendências simples de sentimentos Algo que se passa… Vem uma nuvem, e o vento perpassa Leva-a para o Sul O Sul distante… longínquo O destino definido pelo percurso Das estrelas que realizam o caminho Perpétuo…. Entre uns espaços e outros Entre uma memória e o destino Sou eu e amo-te Continuamente… como a vida das estrelas

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Fluxos criativos Algures, entre as mudanças de ciclos vitais, pressinto um riacho que emana uma voz cálida de torrentes íngremes e cristalinas... ... sei que não é só água, mas uma mistura de essências que provêm do teu corpo num fluido contínuo de prazer. Essa porta, esse afluente, derrama-se no universo com um grito também contínuo, mas de dor, parindo ininterruptamente os fluxos criativos que conduzem à vida. É como se no interior do espasmo de amor estivesse um universo cheio de estrelas, onde os nossos corpos não existiam, onde apenas flutuavam os plasmas numa união agonizante e criadora; fornecendo a pontos vitais dos úteros emanadores a energia necessária para a consumação do Verbo. Como que uma união trans-energética através dos meandros cósmicos, que reflectisse numa só convergência toda a sabedoria e toda a verdade; provocando a ascensão automática desses pontos de retenção, fazendo-os evoluir através dos sucessivos dispostos numa ordem labiríntica que conduzem à luz primordial.

Um toque que permanece Guerreiros do Rio, 98 Lembras-te do tecto do nosso quarto Em Guerreiros do Rio? (Estou a olhar para ele) Lembro-me das noites de amor Que aqui passamos juntos! As plantas estão lindas E o teu toque permanece Estás aqui viva comigo Como uma melodia bonita Neste espaço tão solitário Onde neste momento apenas vejo Imagens confusas e sonhos dispersos (E as tuas maminhas!!!)

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Uma carta de amor “Transcrição de uma carta tua de Abril de 1987” Olá amor! Estou morta de saudades e amanhã cedo telefonote para ouvir a tua voz fofinha de que senti tanta falta hoje. Estou ansiosa que passe depressa o próximo turno, para poder ir aí dar-te miminhos e muita força. Gostava tanto de poder dar-te um bebé agora… Vi no outro dia dois gémeos tão lindos… Comecei a sonhar… Mas logo vem a voz da razão e a consciência leva-me a ter calma pois não existem ainda as condições para podermos pôr neste mundo um ser tão importante para nós. Será mesmo uma menina? Dou comigo a pensar nela, mas tenho que começar a ver que também pode ser um menino. Oh fofinho! Queria tanto fazer fofuras contigo agora… Morro de saudades, imagino-te aqui com toda a tua meiguice que me faz ficar tão calminha e com o coração cheio…. (.....) Amo-te tanto, tanto, tanto! Beijinhos amor… vou dormir e sonhar contigo, sim? Muitos milhões infinitos de beijinhos no teu corpinho doce Denise

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A tenda Fuelhim/Fev 98 (Juntos e para sempre, somos a lava e o fogo para que seja fácil; fazermos aquilo que temos a fazer….) Unirmos os corpos em osmose cósmica E perdermos os sentidos quando nos amamos Hospitais que nos recebem Com fármacos ilógicos de sentidos sem fim Injecções que trespassam tudo o que somos Um orgasmo lindo e estelar Quando te dou aqueles beijinhos sentidos Bocados de nossas almas que voam Como o gavião à procura de comida Carnes que põem questões De sobrevivência, quando somos Os outros pássaros no céu Azul que nos transporta para o irradiante cosmos Onde representamos cenas da vida Numa tenda azul e vermelha, com bandeiras ao cimo (… e o palhaço voa com as suas asas de vento! Transportando o sorriso do sol com ele As gaivotas voam por detrás, e o cenário fica composto A tenda voa também Num movimento estático e confuso…. As estacas perdem-se e o solo perde a definição) Dentro daquela tenda, estamos os dois. Tu e Eu Imaginas o que estamos lá fazendo dentro? (filhotes de nossas almas, beijinhos infinitos)

…há prados lá no fundo, de um verde exuberante… nuvens velozes e vejo um bando de crianças ensaiando o primeiro voo. Evoluindo como o vento, no céu, em gracejos precoces… balbuciando já as primeiras palavras também… — 89 —


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O BONITO CHORO DA MINHA TRISTEZA

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Perfume silvestre... com odor a tamarinhas Montes Clérigos, 1979 Tocava teus seios com minhas mãos, como que acariciando pétalas de uma rosa que acabara de desabrochar, reconhecendo o novo dia, saudando-o com boas novas. O teu corpo vinha-se confundindo com o meu e em êxtase, as nossas mentes deliravam… (o dia lá fora era o mesmo! Não havia evolução)… Aquela calma, o simples esvoaçar de uma borboleta; a areia, ainda gélida da passada noite; tudo, tudo se confundia no meu cérebro… Era como se não existisse tenda, e no meio natural, te abraçasse eternamente para te acordar aos vivas de um novo dia! Agora, localizava-me materialmente e via o fruto de todo esse meu bem-estar… dormias como um cordeiro aconchegado no leito materno, e antes de mais… eras tu! O bonito choro de minha tristeza… (namorada!) Um ramo de flores e folhas e abetos; lindos… ainda retocados de orvalho. Verdes montes a confundirem-se em castanhos secos; todo o conjunto, a exalar um perfume silvestre que me faz lembrar aqueles dias em Montes Clérigos… aquele odor de tamarinhas, e aquele abrasador verão, que me traz, da memória a este momento, a tua presença. E estranhamente, recordo a separação…

Ouro gasto, velho... Lisboa, 03.83 (Ouro gasto, velho…) … vai o amor, pobre, cantando… “Não vou, não vou mais Falar. Beijar. Tocar. … seios escondidos … peles suaves e quentes de uma paixão impossível” Vai gasto o ouro Sonhando com Ela Enquanto eu vou pensando… (contemplando apaixonado) … com ardor, os céus, quando vejo A constelação do teu Nome Na minha morada em solidão… — 92 —


Rosas com alma Quinta Saúde, 12.02.98 O Oceano é o céu Reflectido Na memória do tempo No intervalo simples Dos espaços loucos Que procuramos nos cantos (Nos quatro cantos) (Daquele mundo incompreensível) E naqueles momentos Que são horas simples Do coração que é meu Beijos estranhos de lábios confusos Que se juntam Ao exprimir o silêncio do beijo (Beijos silenciosos de amor) Carinhos infinitos da alma Que transporta o vício do sonho Onde penso em ti como um luar brilhante De uma noite perdida Entre mim e aquilo que tu és Um espaço simples transformado Em rosas com alma Almas que são minhas (…Tuas…)

Perdido na flor do cosmos

… E o resto?......

Ilha de Faro, Fev.98 Perco-me na flor do cosmos Torno-me na semente … Que vai brotar… Nas lágrimas dos teus olhos Nesta separação… … Que é nossa! — 93 —


Minha solidão está contigo 04.09.97 São 1h 20m da manhã e a minha solidão está contigo… não consigo penetrar no esquecimento, e sei que a noite vai ser longa!! Trevas insensatas de um estado de alma que nada condiz conosco. Amor, somos dois corpos à procura de uma estabilidade abstracta. Dois seres que se vão relacionando nas equações dos momentos espontâneos das reações. Partir pratos, partir sentimentos, partir a alma … e o resto Onde cabe a pergunta: “Que partiste tu em mim? Que parti eu em ti?”) Os nossos bocados físicos estão em uníssono. São constituintes, e já fazem parte de uma osmose não só química, mas superior; ao nível das estabilidades etéricas (do éter) que confundem o coração de tal forma que o equilíbrio se desvanece nas incertezas mundanas da tal reactividade espontânea. Só assim compreendo as tuas reações!!! Labuta, luta, cansaço, desejo, necessidade… previsão e antagonismo!!!... Qual a diferenciação que nós vamos produzir? …. Vamos ser dois seres em estado de agressividade? …. Dois homens? Duas mulheres? Ou dois seres antagónicos e funcionais? (… por hoje fecho o meu sonho … vou dormir e pensar em ti como aquela rosa cósmica que floresceu das brumas e quis dizer ao mundo: – Olá, estou aqui. — 94 —


Castelos desmoronados 05.09.97 – 3h 3m Como previa, as elaborações do pensamento não me deixam dormir. Há um estado de alma que prevalece em mim, a tal certeza em que as abstracções constituem as ideias e o sonho do qual tu és parte infinita, porque realizas um canal de vibrações que me incomodam, e explicam a réplica de Cristo na terra, onde deixamos de ser matéria (átomos conformantes) para nos tornarmos no Todo (uníssono com Deus). (Creio assim num só Deus… Pai..!!! Filho..!!! Espírito Santo..!!!..) (… Amén..) Assim como os descrentes (os vendilhões) foram expulsos do Templo, por Cristo, também os fluxos mundanos são motivos para provocar arbítrios interiores por vezes desconexos. É assim que a história do Pedro e do Lobo se conforma. Ela realiza o estado de lucidez do antagonismo a que chegámos! Seremos “o Um” ou seremos “o Outro”? Qual destes vértices corresponde ao verbo que nós queremos comparar, quando nos agredimos verbal ou fisicamente, um ao outro? Estamos à espera de uma resposta! Mas vamos respondendo sem sentido… são-nos atiradas pérolas, mas reagimos tal como os porcos, aos quais elas foram atiradas!!! Depois deste pressentimento, é engraçado… oiço a sirene da polícia e o sino da Igreja a marcar as 4h da manhã. (vejo o armário despido de perfumes… nem quero pensar na solidão do hall de entrada, de onde tu levaste todas as nossas recordações de vida…) O Átila ressona e mais uma vez vou dedicar-te um sonho: “No mundo das nuvens, era uma vez um puto que tinha a mania de fazer castelos com os flocos de água que se desmembravam daquelas montanhas enormes de algodão. Um dia, cansado de fazer castelos, começou a criar batalhas imaginárias, entre os maus e os bons, entre os sitiados e os atacantes!!! O imaginário criou um ponto térmico de uma temperatura tal que os castelos se desmoronaram em pingo de lágrimas; todo o sonho se desvaneceu… e o puto ficou a aprender a andar, porque o tamanho dos seus sonhos, dos seus castelos, era idêntico a um Oceano infinito.” (um beijo nas maminhas…)

(xi coração).

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Carta final Principio hoje a retenção do sentimento final. Pretendo constituir com o texto, a descrição última da consagração da tristeza que envolve o meu pesar por não te ter, como mulher, a meu lado. Outrora nos longínquos espaços do Paraíso, representaste Eva… Numa tua outra reencarnação, foste talvez uma das 7 musas de Júpiter; inspiravas os cânticos mais nobres e profundos… … foste talvez uma Valquíria; e com tua incansável nobreza, em teus braços carregaste os restos mortais dos Vikings mortos em batalhas… Taciturnos, todos os homens que te vieram encontrando Todos aqueles a quem revelaste tua bondade Ficaram marcados pelo estigma da seta de Cupido Sentiram um amor profano, alheio a todas as coisas naturais E quantas vezes, ao esboçares hoje a mendicidade, não me vem aos olhos uma lágrima de perdão. Sinto vontade de abraçar o mundo e de enlouquecer de alegria para que todos me sigam. Sinto vontade de representar uma força titânica, e de a conduzir por meus passos, ao bem. Peço e dou perdão às questões que precedem os teus actos, as tuas vontades, minha Bem-Amada. Em nome de todas as coisas que ainda são bonitas. E em teu nome… Desfaço e condimento o meu corpo à medida da tua necessidade… para que num devir último, me funda no que tu és, e pelo tempo vençamos os obstáculos de cor, de dor, de força que se impuseram à nossa ordem. Ordem de tudo o que foi único e se ama.

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ESTADOS DE ALMA

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Haverá algo mais? Sabe-se que neste momento alguém sofre. Sabe-se… que muita gente sofre… As estrelas murmurantes ensinam-me o hino da glória. Repito os astros e a luz, como minha parte… … além; volto a recobrar os sentidos para visionar outro espaço, um algo infinito que se sobrepõe a todas as coisas… … (haverá algo mais?...) Pergunto se alguém me ouve, e sinto-me estranhamente só com minhas palavras… o mundo corre louco, apaixonado pelas superficialidades que os enlevam… sou uma borracha com que me apago e cumpro os dias como um ciclo que tenho obrigação de correr… estou! Sim, que mais? (Apetece-me apertar contra o coração qualquer outra coisa…que me encha o peito e sôfrego de paixão me faça ver aquelas coisas bonitas que ainda existem.)

O tudo estava belo essa noite... M.Clérigos Deixo escorrer as últimas lágrimas e fico perante meu corpo seco… aqui, sozinho, construo a tua face com rosas imaginárias que roubo a todos os meus sonhos. Vítimas da liberdade total da compreensão lúcida e fria dos estigmas da matéria … olhamos para o vento, para o mar… de uma praia, de cima de um promontório… Surjo esvoaçando da tal nuvem, perco o meu perpétuo nudismo e vou contigo sentir tudo … (apenas sentir!) Toldamos o espírito com o belo, vencemos a gravidade terrestre e… não importa o tempo… vamos brincar naquele imenso manto de relva que se estende ao infinito. Vamos fazer amor, unindo os dois corpos e esperando pela virginal fecundação da terra, que, tomandonos no seu seio, nos vai restabelecer nos ciclos eternos fazendo renascer as nossas forças talvez num enorme bloco de xisto que por força da erosão cai e se deixa lamber… Surgir pelo secular Oceano … ou talvez nos transformemos em pólen precioso de alguma flor que se deixa levar pelo ímpeto do vento que o carrega para algures… — 98 —


“Suspirava… e uma leve sonolência fazia-me surgir à consciência dos factos que me envolviam…

… (o tudo estava belo essa noite!)…

embora na areia molhada, meu corpo foi lentamente perdendo energias e sem saber como… evadi-me da terra para percorrer a história de todas as estrelas…

… adormeci…”

A indefinível natureza do ser Faro,16.01.84 “Apetecia-me olhá-lo, e dizer suavemente seu nome. Acariciar a penugem que já crescia - (queria ser homem) - e deitá-lo num leito imenso de alegria... ... banhar-me nos sonhos quentes; entregar-me ao seu sangue, num fluxo contínuo, permanente... (queria estar para ele, como os galhos para as árvores... não! Queria ser apenas uma folha sua; transparente, absorvendo a luz que o alimenta) ... só distingo teu corpo vão, na neblina do meu pensamento; descubro que estou só... e nesta manhã verto lágrimas perdidas – que tornam meu quarto num mar... (vasto, triste). Sinto-me branca como a neve, gélida. Estendo meus braços à sua brancura e envolvo os montes, a terra. Desço às árvores e aos povoados... cerco de Inverno as gentes... ... (e aqueço-me com elas nas lágrimas da amargura...) Brotam cinzas, e o vermelho é flamejante... tocame as faces! O crepitar dialoga incessantemente, a água cai... Dentro da minha branca solidão, fecho os olhos e tento de novo dormir... meu sonho é sempre aquela parede onde, encostada, te dei o primeiro beijo, te amei pela primeira vez... A noite em que a lua, célere, clamou por ti e me roubou por fim a teu sonho. (Vejo-te daqui; bonita; com teu ar de perpétua tristeza). — 99 —


...a parede, muda, cega, flameja o incessante coração. Sem dúvida, é esse o “amor”, escondido no interior daquela branca superfície... A aparição da personalidade ambígua, é propositada! É estranho, rever este texto e sentir-me projectado numa duplicidade – estado masculino (homem), estado feminino (mulher) – é bom embeber-me num corpo diferente, num sentir que não é apropriado à minha realidade. A mulher, esse mundo!!!... Quantas vezes não procurei encarnar naquele ser que mais amo, numa... amplitude universal; não só especificamente em ti ou em outro alguém feminino... ser, o ente feminino máximo, estudar suas entranhas...para por fim poder ascender àquele estado de alma mais bonito... O sentimento mais vago, mas também o mais vasto... o amor! Sabes, é uma presença constante em mim, a necessidade de amar, de ser amado. Por desígnios desta vida que concorre por mim, tenho caído e sofrido de formas muito ingénuas. Mas não me perturbo... sinto que reside na ingenuidade uma das formas mais bonitas de o atingir. Lembras-te?... quando me entreguei a ti, “todo”, e num repente vi cair o pano, encerrou a peça e só consegui chorar... e, inadvertidamente, escapou-me a verdadeira realidade do que se passava cá dentro...sei lá! Queria andar contigo, namorar... ... mas no fundo, preferia ver-te à minha frente e receber todas essas emanações tão bonitas que consegues extroverter. (Talvez não o saibas)... foi triste, sim, mas esses são os factos da tal realidade fria... (Como conseguir superar isso?) Depois da consolidação dos sentimentos, depois do cérebro se mover nos seus processos lógicos, repenso-te e sabes o que acho? Continuo a amar-te, tanto ou mais loucamente ainda, a idéia platónica é sem dúvida maravilhosa. (... mas não te perturbes, que “isto” não existe. Permanece no meu interior e prometo que não irá sair!) Como tu dizes, quero-te como verdadeira amiga, sem subterfúgios, sem vergonhas. Sem esconder nada que momentaneamente sai de mim perante a tua presença. Dar-te mil beijinhos de ternura... tudo! Mas, no fim, não serão estas particularidades o “amor”? Tenho a certeza que sim, é essa convivência aberta aliada a um máximo de compreensão que faz os humanos amarem-se.

Entre o ontem e o hoje Porto,16.04.82 Ser solitário, compreendo hoje (e, invisível nas ruas, pensando Acerca de mim, das pessoas... Que se vão erguendo, constantemente... (Multidões avassaladoras, e o medo...) ... Vem tão sozinho o silêncio que me acompanha... Da boca sai um ar apenas, do pensamento Sonhos, vagos no meio daquelas ruas... (... Avenida dos Aliados acima, abaixo...) — 100 —


Vou sabendo Que o estar só não é uma virtude Mas uma profunda tristeza Que ajuda meu coração a sentir-se ... pequeno perante o tudo... (E a boca não se abre... ... só o estar social que me leva em frente! Sou apenas mais um Que calcorreia a invicta cidade ... nos mesmos momentos, como sempre... Porque continuo mesmo sem falar (Parece-me então que a vida é um pequeno nada... Que é apenas um momento que perdura... ... entre o ontem e o hoje...)

Neste inverno esquecido Cascais, 09.01.84 Neste inverno esquecido, levo a minha solidão a passear...(a entrada do Tejo hoje está calmíssima, o sol, forte, levantou-se com alegria para aquecer os espíritos mundanos. Sinto que é só mais um dia, em que vou adiando a minha resposta ao cosmos. Este céu azul, tão surdo perante as confidências; a água, tão surda no seu imutável destino... espraiando-se languidamente na areia salpicada de barcos e pescadores... As casas que vejo estão cheias de história...arcos, sacadas, vitrais, azulejos antigos...e surge-me a idéia da primeira pedra. Como teria sido? Quando? ... o seu fundamento construtivo, o pilar nu e desprovido de sentido que na medida do tempo vai ganhando força e condição para poder desempenhar a atribulada tarefa de suportar o encadeado de forças que sobre si cai... e há quanto tempo ali estarão escondidos esses guerreiros silenciosos, que do fundo da sua sombra justificam e eternizam estilos, modas, conceitos... Ocorre-me perguntar qual o seu princípio, mas quero deixar as saturadas racionalizações, deixar de me converter na verdade imediata, para procurar... Será em vão que tento distinguir uma linha, uma conduta justificada à minha posição, no meio do mundo, no seio desta sociedade, Portugal ano de 1984. Para já deixo de parte a minha integração lógica dentro de costumes, tradições... daí se alimenta minha seiva, já mistificada pela série de culturas com que me tenho contraposto. Se o quiser assinalar, antes grito por minha terra mãe, para num esplendoroso mar de amendoeiras em flor subjugar o tenaz ruído da cigarra que vem com a primavera... ou olho o mar e em deslumbramento me entrego de alma àquele espírito que sinto evocado na “minha” natureza! — 101 —


Quem sou? Um bocado de matéria complexa que ganhou vida e se enformou, deslizando hoje na contemplação permanente de tudo aquilo que justifica necessidade de compreensão. Leio as regras escritas no papel, mas sinto o meu encontro em regras superiores, onde o homem não chega, não determina. Leis que permanecem imunes à vontade, porque são superiores, provindo de uma ordem cosmológica onde reside a profunda verdade da vida, em si, enquanto compreendida como espaço de tempo necessário ao conhecimento e não como um ciclo temporário de permanência material na face da terra.

Espelhos de minh’alma 02.04.84 O sol já está distante (Não sei porque falo do sol, hoje, que há nuvens no céu...) Uma brisa afaga-me o espírito, a proximidade do mar faz-me evocar a libertação... Volvidos estes anos, olho-me e sinto que estou perdido (Quão vaga a realidade do conhecimento!) As coisas, agora, parece, são perpétuas, embora tenha que reconhecer a necessidade de percorrê-las de novo intimamente. Mas amedronto-me ao pensar que sou outra vez criança. Leio versos e prosas escritas debaixo de um outro estado... quem era eu nessa altura? Caíram 100 tijolos de louça, e em vão busco refazer os cacos... surgem labirintos de ideias e o ar que vou respirando é agora minha aliança como o tudo (... choro... sim, lacrimejo na minha tristeza...) Espera-me um novo mundo... (e agora?) Fica tudo contido em palavras. As coisas significam... ao mesmo tempo espelhos de minh’alma reflectem diamantes lapidados, surgem, e em dor consigo parir todos esses meus frutos. (Conto-os, e parece-me faltarem sempre alguns... Sei-os perdidos nas minhas entranhas Blocos puros, ainda por trabalhar... Meu corpo tenta expeli-los para a vida Agonizo... e um uivo dilacera-me a carne (...é estranho...sinto-me tão humano!) — 102 —


ODE À AMIZADE

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Este meu amigo, amigo este, o meu... 26.09.97 Para o meu amigo Pedro, do Pedro Reis Este meu amigo Amigo este, o meu Embriagado pela dor Embriagado pela tristeza Embriagado pelos sentidos Embriagado pelo amor. Amigo este que é meu. Isso é certo, e eu o sei de certeza. Meu amigo que busca o negativo que imprimiu a sua fotografia. Da sua alma Do seu ser Da sua sensibilidade. E anda perdido por ruas e vielas Embriagado pelo álcool do seu descontentamento. – Amigo meu não te percas por aí – Meu amigo o teu caminho está aqui Onde há compreensão e carinho Onde há um coração, um cantinho Onde há um planetário onde projectar os teus sonhos. Onde podes abrir o caminho para a tua alma Para os teus projectos projectados Onde podes chorar os teus sofrimentos Mostrar a tua sã loucura de assim conseguires amar assim. E não temeres a censura da estupidez dos homens que não sabem amar E onde podes encontrar descanso... Descanso para a exaustão de gritar aos surdos d’alma, coração e espírito. Onde podes sorrir sem temor... Sem temor de partilhar a tua mais profunda dor Sem rodeios sem meias mentiras... junta-te a mim no canto do mundo e sente esta amizade. Uma amizade onde a solidão tem o calor dum grande amor. — 104 —


A amizade é assim... 29.05.87 Transcrição de uma dedicatória que o Luís Frasco escreveu num livro de Banda Desenhada, do Milo Manara, que me ofereceu:

Para o Pedro Lembro-me do perfume que cheiro Cá dentro, quando te sei invisível Ao pé de mim

A amizade é assim, não sai Nem com a distância….

Aquele abração Luis Frasco

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No fundo, só quero dar amor... Agosto, 86 Tenho conseguido, em certos aspectos, mostrar às pessoas de quem mais gosto que essa amizade que quero estar sempre construindo é razão suficiente para exigir sempre de mim a quantidade de calma adequada a cada situação. No fundo só quero dar amor para me poder encher também de paixão... Há tempo que a não reconheço! Já não acreditava poder sentir esta dose tão grande de ingenuidade e de loucura.... É tão novo por um lado, tão desejado, mas tão inibido no interior que o não queria perceber... — 106 —


ENTRE O NADA E O INFINITO

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Lista inconcretizável Há longos anos, sem dúvida me recordo, … fiz uma lista de todas as estrelas que via no céu… (era ainda criança, na minha plena ingenuidade…) … aprendi assim, que o número das coisas não era restrito aos 5 dedos da minha mão Que eram precisos muitos dedos, muitas mãos… … que aprendi a contar, imaginando-os… Mas por vezes via mais estrelas no céu… … apressadamente ia registar na minha lista a sua posição e um nome procurado entre meus sonhos … por longos dias fui continuando minha tarefa… E até hoje, de vez em quando, ainda vou registando, por brincadeira… … novas estrelas na minha lista! Em dias conflituosos, tristes, quantas vezes não olhei o céu e o senti tão nu … quantas vezes eu olhei para ele, e pensei para além do que minha visão atinge, quantos milhões de outras estrelas não existem em ti? … taciturno caminhava para minha escrivaninha, e registava nessas noites milhões de estrelas na longa lista… Hoje, depois da memória fresca Olho para a lista A lista inconcretizável E sinto a mística tristeza de pequenez universal … perante outros elementos tão reais, embora inatingíveis

No meio da vastidão branca que me envolve... Os lilases confrontam-se, explodindo em branco…e é assim que a luta termina, absorvida em cor total! A paisagem não é assim mais forma para entender, não há dimensão, e as coisas desaparecem como um raio estelar, partindo para deixar o vazio, o nada. Depois da deformação, apaziguados os elementos que já não são. Procuro-me! Onde estou no meio do nada? No meio da vastidão branca que me envolve… parece o céu dos crentes! Parece-me o retorno, onde não há ausência de luz e pelo contrário, onde reside tudo aquilo que ilumina e é iluminado. E nesta ausência, clamo por minhas musas, invoco a minha paixão… mas ressoa uma batida oca, que pressinto divagar por mim! Ao tentar falar, minhas palavras gastam-se e emudeço tornando-me imutável, já não sou o caminho para as questões… não vejo o meu corpo, confundido com o branco. Não o sinto; nem já o sou. — 108 —


Surge-me a necessidade primeira e no meio da minha confusão fixo um ponto, um pequeno átomo (EnSof? Um Aleph? Um princípio?) que também é branco…e inesperadamente surge-me uma massa vermelha, esvaída pela totalidade da outra cor; e fala-me. Conta-me as cidades e as muralhas edificadas para defender os povos do Demónio, cita-me os bens da fé e incompreensivelmente repreende-me por tentar esquecer o todo e conseguir vê-la, a si, massa disforme e inconcordante. E diz-me que ela é um meio e não o fim. Que é uma ponte de passagem, e que se eu quisesse poderia, do meu estádio de energia, prever todas as outras cores; e depois… poderia começar a modelar os tons intermédios, poderia imaginar as sombras, e então retornava porque fecharia o círculo e antevendo a dimensão estaria de novo na existência. Pediu-me para fechar os olhos e sentir o branco… despediu-se porque me disse ainda, que me era possível esquecê-la e compreender a inexistência, o nada… que assim visto representa o uno, o Universo!!!

Alma errante Desce na noite líquida Um espasmo frio que viola O útero universal, fecundando O vazio que o assola … o nada Brotam estrelas, paridas pelo infinito Soam vozes e gritos, espíritos da noite… (essa que permanece no meu medo!) Voam sagradas criaturas insondáveis… A minha alma prossegue, (errante)… e no negro vazio procura os princípios… Tu! Alma também insondável!... Traz-me bênçãos dos Deuses Imacula a minha voz para que eu fale com os pássaros… deixa-me gerar, uno o filho do homem Recolhe-te em mim e beija-me… …fecunda-me com os espasmos universais que fazem parte de ti…!!!... (… deixa-me, por fim, isolado no meu corpo e faz-me retornar ao seio orgânico…) — 109 —


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Atingir o infinito pelo nada Oeiras, 18.07.85 No sereno desta noite que decorre enquanto escuto os ruídos longínquos do ritmo, apercebo-me que há um sibilar constante que me indica a fonte. O ponto, onde tudo deixa de ser nada para se definir e tomar a forma da existência (… por mais rápida que seja). Há os momentos imediatos, que surgem e apenas emitem uma ténue energia; não deixam rastos, esperanças, recordações… Há os momentos reveladores, que surgem e constroem. Perpetuando actos, coisas, criando a essência da história. … e entre os dois rumos do nada muitos outros se interpõem, e na verdade o que mais me preocupa é aperceber-me que a minha consciência é limitada a um espaço muito curto no seio de toda a vastidão universal. Fico sem perceber inclusivamente a dimensão deste nada, deste vazio que me ocupa tão intensamente o espírito… olho esse céu, acima de todos os ruídos e pressinto que essa dimensão sonora inteligível vem do espaço exterior… não consigo localizar de que ponto… … tenho a sensação de que não existe um ponto, mas uma infinidade deles, conjugados de tal forma que perfazem o universo no sentido do espaço e no sentido do tempo… assim esse nada cósmico, já não existe para mim… de repente, no nada extenso que eu observava, abre-se uma miríade de formas e energias que preenchem o vazio (Pergunto-me) – Onde reside agora o nada? Olho para mim e para a série de objectos – canetas, cigarros, cassetes, etc. –, e começo a registar um conjunto de coisas questionando a sua essência – a cor do maço de cigarros e a sua ergonomia paralelamente à sua finalidade. A apresentação das características técnicas da cassete, uma perfeita informação regada de extremo design adaptável a um mercado muito exigente nesse sentido! A colecção de caixas de fósforos (a que tenho na mão é a n.º 6!)… … cansado de olhar todos os cantos, fecho as pálpebras e vejo dentro de mim a imagem do anterior universo apenas cheio de nada. Encontro a vaguear somente alguns objectos, aqueles que são mais semelhantes ao meu espírito – algum bom livro, alguma melodia; e algumas telas, criações minhas carregadas de indefinição que soluçam indescritivelmente neste nada quase absoluto! … atingir o infinito pelo nada é tarefa quase impossível… não sei!!... nem sei se vale continuar tentando, por mais que eu queira, quando morrer sou transformado em energia e reaproveitado, uma parte pela mãe terra alimentando seus vegetais, outra parte evola-se no ar e desagrega-se nas correntes cósmicas… Talvez no fundo siga uma pista, conseguir em vida dar consistência suficiente a essa matéria indefinível para que, no dia final, ela forme um todo e não se desagregue, criando assim, para si, um espaço definido no universo, com a diferença de não existir no tempo… de “não ser”, portanto (… digo: não é uma realidade) …talvez o ruído que eu oiço. — 111 —


“Entresons” .... (entre+sons) A minha semente está presa, algures, entre o som de uma flauta e uma harpa... Perdeu-se, entre uma estrela e outra... 07.03.82 Para entender um gesto, uma palavra, são necessários mil conceitos, visuais, gráficos... Para me reconhecer tenho que retornar, analisar, segundo a segundo a obra feita. A obra quase sem sentido que ao ser construída, constantemente se desmorona. O jogo, também sem sentido, desses actos, das palavras, que fazem parte daquele viver nocturno onde a lua se esconde sem prazer. Nesses momentos o meu corpo tenta evaporar-se e, num ápice sem sentido, transformo o meu ser em não ser. Nego que exista algum eixo construtivo à minha volta e torno, retorno, a ser aquele ser imundo sem sentido... (... lágrimas sem perdão, despejadas pelos corredores das perguntas... das respostas sem nexo, dos sins e dos nãos que nada explicam, nada dizem.... apenas demonstram uma fúria latente que se não expande nem irradia ...) ... mas por Deus, qual é a tecla, o som? Qual é o movimento ou a cor

... que a ti te chamam e me transformam naquele anjo reluzente que transporta luz e paixão?

Quero atingir Deus! … entro hoje na nostalgia do Outono… (agora, as folhas mortas enchem a planície de cores tristes… aproximase a noite e descem grandes massas de nuvens da serra, o breu rapidamente se instala e agora é o rei.) Dentro deste cenário cíclico, repouso a minha “forma”… … quero atingir Deus! … mas as formas de O atingir são tão vastas… Perco-me no meu pensamento, enquanto percorro o labirinto das perguntas… passo fugazmente por transmutações de alma e não consigo perceber a resposta. Continuo vagueando em corpo e alma, buscando nas esquinas das ruas; nas sombras das cores concretas; nos traços mais amplos; nas composições mais abstractas, o sonho verdadeiro que me há-de transportar para uma esfera mais lógica… … onde por fim só o conhecimento das sensações mais Belas seja o único conhecimento válido… (chorar perante um Mondrian, ou aquecer as mãos no ambiente de um quadro de Gaughin…) — 112 —


A qualidade última 25.02.83 O sereno vento transporta o temporal... o dia está nu, cinzento. As árvores em percalço tentam abranger em vão o ar, ramificando-se toscas, na paisagem... Está um dia triste; ando só na rua, tentando explicar-me o porquê, a razão. Para nós, é a fórmula fundamental, para outro, a regra...e ainda para outros, a fé. Crer, palavra difícil; acreditar num expoente superior onde se pretende situar o núcleo, o conhecimento máximo e divino. Como que um todo incluído; contido por extremidades indefiníveis... um Aleph! Em mim, a natureza sublima-se... evado-me estranhamente perante a fogosidade dos elementos em transformação; enformo-me no tudo após a minha contemplação, e deixo-me passear pelos fluidos que a seiva transporta nas plantas, corro pelas sedentas extremidades das copas das árvores... viajo pelo impossível, tentando aperceber-me da sombra que se esconde eternamente por detrás deste tudo; o segredo... o profano segredo. As imagens captam e representam os elementos essenciais; há um alfabeto próprio que os define... acho que são signos, insuflados de significação e explicação... e só vejo uma forma de descobrir, de decifrar estes hieróglifos que a natureza, que o tudo, que o universal assumem. Partindo pelo intuito e instintivo para a expressividade própria das capacidades humanas... pela música, pela dança, pela criação de imagens, pela alegoria... pela Arte assumida no seu máximo. A natureza é o expoente máximo da Arte; o porquê reside nela, porque também reside no todo inexplicável... não consigo definir a “qualidade” última, não consigo categorizá-la, porque quando subo na hierarquia explicativa e chego à fronteira, sinto que um ciclo mais perpetua a minha procura... sou inexplicavelmente transportado para o princípio e começo de novo... que o ritmo cíclico das coisas é eterno, e que a minha dor, a tristeza que precede a minha procura, também eterna, só porque realmente não consigo entender a razão... (ainda não a descobri)... (porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa).

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No caminho das coisas infinitas e puras Oeiras, 03.06.88 O vento, inebriante, percorre os esconderijos do meu espírito como uma onda que perpassa e absorve toda a essência desses restos que ainda sou. Não sei em que estado se materializa essa energia perdida... não sei se a consegui ensinar a ascender a esses outros níveis de alma que tanto procuro. Sou o um e o outro... bocados desconhecidos que vagueiam entre todas estas hipóteses que vou pondo à existência. É no fundo da minha mente, à noite e por sob um manto de estrelas, que consigo encontrar o anelo real entre a vida e o imaginário... são sempre esses elementos (... o vento, a noite, a lua, as estrelas) que me ensinam a retornar e a pressentir que há um Deus por trás dessas imaginações, desses quadros que representam não só algo indescritível de outra forma, mas também a centelha desse caminho divino que nos ensina a ascender a outras esferas da compreensão, dos sentimentos! E afinal é na simplicidade desses momentos que Deus se revela e de repente dá luz e restabelece os circuitos do pensamento. Difuso, ele circula sem nexo, mas na rota certa... no caminho das coisas infinitas e puras.

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o princípiO ORIGINAL

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O “princípio” que nos pode fazer chegar mais longe (Há momentos estranhos na vida dos seres) Quão descritível é o princípio original... embora todas as coisas estejam por ele definidas e organizadas, a sua potência abstracta é superior ao Homem e a todos os seus sentidos – a harmonia, a proporção (... da arquitectura, da música, da escultura, do teatro) não podem ser definidos na sua essência última. Mas, “os caminhos divinos são imensos” e dão a mão a este ser consciente da sua existência, oferecendo-lhe possibilidades e meios para ascender um pouco na hierarquia dessa “essência”. Na Arquitectura temos a escala e a proporção, na Música o ritmo e a melodia, no Teatro a estruturação (dos momentos e dos espaços – ex: há cenas onde a voz, ou luz tomam importância básica para demonstrarem a superioridade dessa cena (espaço) em relação às outras); e falo de qualidades que no fundo pertencem a todas as Artes em uníssono. Mas tudo isto (embora muito) me parece tão pouco em relação ao espaço incomensurável do que existe e do que não existe, e do divino que abraça todas estas coisas – vejo a imagem dos zigurates, subindo numa estranha melodia de andares e de cores até um infinito possível situado talvez nas entranhas de um ser que representa o “estado total” e que possivelmente se encontra fora de todas as nossas possibilidades de percepção... É isso, indefinir originalmente o que sentimos, talvez seja uma via para ascendermos na compreensão de todas estas coisas. Definir um acto é algo mais radicado na linguagem e na mente daqueles que raciocinam em relação a tudo para poderem atingir a percepção de um mundo completamente estruturado e “respondido”, é como dizer que pretendem afirmar que tudo é conhecido e tudo se pode explicar pela razão. Quanto à linguagem, apercebo-me logo do seu carácter extremamente vago e da sua grande limitação em termos expressivos. Não fora os grandes poetas e homens de letras, muito ser humano ainda hoje não conseguiria compreender a razão de muitas coisas. Os grandes livros ajudaram a criar grandes nações e civilizações; as palavras de alguns homens servem de exemplo durante séculos e determinam características na formação dos seres. E isto resulta de um ciclo que encontra o seu significado no social - desde tempos imemoriais que os “homens de sabedoria”, em conjunto, vão erguendo os seus laços de união com o povo de forma a poder elevar a um grau superior o “todo” espiritual que está compreendido na junção dessas pessoas. Como que a tentativa de estabelecer uma plataforma “acima” da anterior em termos de “gnose”; ou seja, o aumentar da matéria universal em nós, e o bocado recíproco nosso que se expande nesse mesmo universo. No entanto tudo isto está contido no campo da “comunicação humana”; e este campo não abrange só a linguagem, mas também a imagem, o som, o gesto... Ora, se há coisas que não são “comunicáveis” (que não podem tomar o aspecto de potência expressiva), estou desde já a pôr de lado a universalidade da linguagem para me fazer entender o “mundo” no seu hiato original. Quanto às “pessoas” que anteriormente defini, nem quero preocupar-me em perceber os porquês da sua forma de pensamento. No fundo, essas pessoas baseiam-se numa realidade que se verifica na “comunicação” de si para si, e quando essa relação não existe, aquilo que se pretende entender também não existe... penso por exemplo em Miguel Ângelo e nas suas obras. Todo o seu ser possuía uma potência criativa divina, e portanto representava... não estaria ela em essência já definida? Essa posterior inclusão na manta de retalhos que é a Terra, de obras de escultura, pintura e arquitectura insuperáveis, foi afinal a — 116 —


“demonstração” do carácter divino que residia nele e que foi revelado, mas que também existe em todos os seres embora latente na maior parte deles. Pensando assim, não preciso da “realidade” (... de olhar para uma das suas esculturas) para compreender que certos estados que perpassam por mim são verdadeiros; existem, senão na nossa dimensão, numa outra qualquer, mas mais do que tudo isto, são setas que chegam e se enterram na carne e indicam, dão sentido, mostram vias possíveis de orientação. É só mais um passo para pensar numa grande seta constituída por átomos de uma qualquer substância gasosa, invisível, que percorrendo os continentes e ilhas do nosso planeta atravesse espiritualmente todos os seres inteligentes que nele existam e que assim, com a sua grandeza, demonstre a “qualidade” e orientação do nosso ser para algo de superior, de maior “beleza”. No decorrer destas minhas palavras já me esqueci lá para trás dos “racionalistas”, e volto a eles, só para me lembrar que toda uma divagação como esta é coisa impossível para esta forma de pensar. Retornando ao princípio vejo já que esta forma de pensar a Arquitectura, a Música, a Escultura são coisas perfeitamente definíveis, compreendidas e explicadas. Porém, tenho consciência que a luta constante do homem é a “compreensão e o conhecimento” principalmente daquilo que é mais abstracto e que a possibilidade de divulgação dessas coisas está na descodificação dos fenómenos em imagens, palavras, gestos e grupos de gestos, e nas diversas relações que elas podem tomar (servem de exemplo as leis da física que tanto se exprimem melhor por uma equação como por um gesto). No entanto o que ponho em causa não é a questão da “racionalidade” do todo mas a forma do “princípio” que nos pode fazer chegar mais longe. E essa não é de certeza uma via racional...

A lista profana do saber Aveiro, 03.06.82

Vejo-me num espelho, oblíquo. As faces mostram-se, e dão-me a entender a sofreguidão com que tenho vivido. Por minha companhia, a idólatra que é dona de meu amor. (mas tudo em pensamento, tudo em sonhos) Sinto que estou à beira de uma falésia que me conduz ao Inferno. Estou consumindo minhas capacidades, para mais reconhecer que sou doente e enfermo de espaços vazios no meu caminho. O Saber, e toda a viscosidade que faz parte do discorrer das palavras (das transmissões do saber perfeito). Quanta incúria, porém… (todos são naquele pequeno vaso o que a terra nunca seria lá contida.) Seria prolífera e dela — 117 —


proviria a vida, assim, contidos no vaso, todos aqueles que através da dialética perfuram a natureza, nada produzem, nada fazem, especulando apenas e transmitindo essas especulações como conhecimento … (Saber perfeito). Ah! E tudo o que não é nada comprovativo e idealizado. E tudo o que não está à vista daqueles que comodamente se instalam na matéria… Ah! Tudo o que realmente desapareceu e tornou a encontrar vida por ordem de superiores energias do cosmos! … tudo o que finalmente não é estranho na lista profana do Saber.

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eis o meu momento

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Ressoam as palavras... Revoltam-se conceitos Morrer sem deixar rasto. Morrer no meio das coisas vivas. Eis o meu momento... Lento refaço as formas...

... não queria sofrer! ... gostava de passar lentamente de carne a energia

Carregar mercadorias siderais e olhar para o mundo Como uma bola ineficaz. Apetece-me pintar com as cores da tristeza, do Outono... Os cinzentos malévolos, o vermelho do diabo... (... e relendo meu pensamento, sinto, quão gastas as palavras morte e tristeza...) Deixar os meus entes perplexos, arrasados. Deixar o caminho da vida feito para homens com o velho “H” trôpego e grande. Homem de palavras feitas, ser digno, bom, pai, boa abelha nesta complexa colmeia. Ressoam as palavras, revoltam-se conceitos... ... e eu na mesma! Passo por tudo isto como se me fosse estranho divagar nesta realidade. Não, não é este o meu mundo; os meus verdes, a minha alma são diferentes, e pergunto – Porque não posso ser assim?

Viagem profunda na noite Oeiras, 03.04.93 …fui lentamente fechando as minhas portas interiores. Deixei de pintar, de desenhar De me propor a sentir o mundo de uma forma diferente da real… … fechei a poesia em mim… e por fim chegou o dia em que tentei fechar a porta do Verbo… tentei deixar de ser! (resultou um viajar profundo na noite e uns dias no hospital a sentir a diferença entre “estar cá” e “não estar” completamente diferente da porta que eu queria fechar, que era a da existência…) Estou afinal a falar de experiências extremamente próprias, que não tenho o direito de transmitir… ou as vivemos ou então não as devemos conhecer, pois o nosso continuum, a nossa linha de conhecimento vital e essencial não passa por lá… são experiências más!) Mais do que nunca sei que tenho que cumprir qualquer coisa de especial cá em cima da terra. Enquanto não o conseguir existirão forças contrárias a impelir-me sempre no sentido da sobrevivência, para cumprir essa estranha tarefa de decompor o real em imagens para poder comunicar certos estados do sentir indefiníveis por palavras ou sons ou movimentos… — 120 —


pereGrinação interior

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Rumo ao Norte Oeiras, 01.05.93 Em rumo para o Norte deixei hoje Faro. Deixei lá uma sensação de partida e um estranho estar (… mais para o razoável…) de que realmente posso agora dar um sentido definitivo para a minha estranha cruzada terrena. O corpo, neste momento não o sinto. É apenas um fardo onde resguardo incertezas, lágrimas, dores, receios e outros sentimentos, mas todos fora do contexto geral, é como um caixote de lixo para onde se atiram os restos… Sinto apenas um estar aflitivo e receoso, acima deste meu corpo. É como um adeus longínquo, onde deixo ao teu lado (amor) apenas resquícios daquele ser que retornará! … deixo por fim esse lodo estranho e furibundo de incertezas para criar! Sim… criar! … por fim essa lua longínqua por debaixo do penedo aparecendo rastejante, faz com que apareça a luz… e com o magnífico sistema de rotação dos astros perante o universo, ela aparece por fim… … opada e gigante!! Lua cheia Cheia de quê?... (precisamente desses bocados que tenho que ir buscar para que a minha poesia funcione. Estratos… bocados de ritmos, projectos de imagens…) Ela vai prosseguindo! Deixando o penedo para trás… (Já se afastou o suficiente para ter passado 1 hora) É precisamente o hiato que me separa entre o ser e o não ser… espaço de tempo de decisão em que a vida toma novo rumo, novo sentido… (sejam quais forem as consequências que essas atitudes provoquem à minha volta) É essa transferência que eu transporto para o Norte. Como sentido de peregrinação na linha indirecta de San’tiago… … Deixar os restos de pele que ainda se me agarram a este corpo despido de desejos Refrescar-me nas águas abençoadas desse Deus tão estranho?! que nos deixa banhar em águas sujas e turvas… mas ofereço-me agora a essa lua cheia que nasceu no penedo e assim avançou já 4 horas nesta noite quase de insónia… só porque os astros estão atentos, e neste momento eles andam tão certos que não posso duvidar das suas intenções!! Espero apenas o momento de relação correcta entre os vários astros influentes para poder mandar esse pedido cósmico pelo universo… (… apenas peço o dom da imagem! — 122 —


poder repetir o meu sentimento não pelo gesto mas pelo desenho… … de outra forma, é como dizer que para mim é muito mais fácil transmitir e comunicar através da imagem, do que pela palavra, escrita ou falada…) Lanço outra espécie de grito à noite e fico à espera de um eco perdido… uma ressonância de fluxos que me invadam, e me lancem no sonho…

Alma esfarrapada anexa a um corpo caminhante... (Estou a caminho do Norte, com qualquer coisa como uma alma esfarrapada anexa a um corpo caminhante…) … sei apenas que tenho que activar o relógio da memória e lutar por alguma coisa que justifique esta minha atitude perante o mundo! Neste momento apenas tenho a certeza de que o que vou fazer e produzir a partir de agora só poderá ser qualquer produção dentro das artes e vou planificar movimentos e aquisição de conhecimentos e poder que me permitam sobreviver dentro da imagética social, produzindo apenas aquilo que sinto (pressinto) ser a luz representativa dessa complexa estrutura que a cultura é (como produto social). Talvez o adquirir apoio generalizado da sociedade seja uma maneira adequada de atingir espaço na “história” e conquistar hiatos extremamente simples na consciência profunda dos acontecimentos populares. Tudo isto no fundo, não será apenas pretender ser compreendido?...

Da Idade Média... ao mosteiro onde me encontro Acabo de vir, em sonhos provocados pela leitura, das profundidades da Idade Média… fui prosseguindo (e, parece-me, vi!) através da história até chegar à 1.ª pedra do mosteiro* onde me encontro. Esta congregação só fez 100 anos em 1992. A longa história que eu li é acerca do mosteiro antigo, localizado lá ao fundo. O que foi extraordinário nesta leitura é que do ponto onde me encontro pude ir localizando visualmente os sítios onde todo esse encadeado de acontecimentos se passou. As duas primeiras (e únicas) casas senhoriais, os vários casais (quintas), propriedade que rendiam tributo à casa, e por fim o velho 1.º mosteiro. Todo o filme se passa dentro de um cenário extremamente típico destas zonas; esta pequena dispersão de construções desenvolve-se num baixo entre dois montes, onde se forma então um extenso plano que só muito à frente começa a descer para o vale do Ave. Estou sentado num banco granítico trocando com ele calorias de forma a aquecê-lo para eu próprio me manter quente… mas ele vence; a tarde também já desce e a luz cai para o *

Mosteiro de Singeverga

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vale; cresce uma neblina que dá agora uma outra relação visual entre os elementos da paisagem… as Formas mais indefinidas estão no último plano e são (pressinto-o agora) árvores majestosas que vejo recortando os montes lá num alto não muito distante… o que provoca na minha visão uma sensação de grandiosidade dos elementos… ou pequenez do meu corpo. Mas a neblina vai teimando em apagar cada vez mais a visibilidade (a existência perceptível) de todas as árvores, de todas as casa, caminhos, latadas… e o mundo! A teimosia deste banco venceu-me, conseguiu estabelecer no meu sistema térmico a inversão… passou a ser ele a transmitir-me as características da sua forma e essência, fiquei com a parte inferior do corpo gélida. Tudo isto, o desaparecimento da paisagem, os sintomas de frio, as vozes da pedra… são sinais para me ir embora. Olho o tempo e fico parvo, não dei por cerca de duas horas passarem… vou-me embora, mas contente com estes momentos… é estranho como Deus fala através das coisas, constantemente tenta comunicar conosco… e a nossa predisposição muitas vezes tem a luz e não quer ouvir! É extremamente positivo para mim estar no meio da comunidade e tentar fazer parte dela nestes dias que cá passo... só assim poderei compreender mais profundamente (enquanto o meu espírito se vai reestruturando) o porquê e qual a razão da abnegação dos homens ao tornarem-se servos e apóstolos de Deus e de Cristo, sendo padres e despojando-se de todos os bens terrenos para aqui viverem na eterna solidão da Sua presença e companhia. Aqui, antevejo os mais infinitos caminhos possíveis para a existência. Só é necessário saber filtrá-los o mais metódica e conscientemente possível para que esses conhecimentos nos sirvam de lição e nos ensinem a viver e a escutar o nosso espírito e o nosso corpo, de forma a conduzir o melhor possível os nossos actos e regrar os nossos sentimentos para viver em paz e o melhor possível com o mundo.

Cântico de oração aos ciclos naturais da vida Singeverga, 10.05.93 Envolve-me uma imensa natureza enriquecida pela vida dos povos… casitas que preenchem a paisagem e constituem núcleos vitais de emanação da realidade; misturam-se árvores e vinhedos em latada, crescendo pelos montes e constituindo as referências visuais da distância. Sim, os campos estendem-se até ao longínquo como terras acariciadas por uma mão gigante, e mesmo ao pé de mim nasce um encadeado de ladeiras que surgem da encosta mais próxima. Parece-me que estou entre o cume, que desci lá dos altos, de uma suposta nuvem passante, para me acolher agora no baixo destes montes. Mas estou numa situação privilegiada… mesmo ao pé de mim descem caminhos que conduzem ao vale; estou no princípio dos pontos intermédios, onde diviso todo o movimento das gentes e a constante presença desses verdes magníficos deste Minho. Apetece-me estabelecer uma ordem, uma hierarquia de densidades na paisagem, para ainda melhor me localizar no meu ponto de dispersão. E como é fácil… é só sentir dentro da essência desta natureza envolvente o além e o mais próximo, e com toda a naturalidade, interiormente cria-se a ordem que justifica o sentir de todas — 124 —


estas coisas. Como uma luz existente e interior que me invade e me abre os olhos… deixam de estar turvos para me embriagarem de nostalgia e serenidade. Passo a sentir o mundo como um intérprete do todo. As ideias provêm com toda a naturalidade desses espaços e, parece-me, enriquecidas pelo vento e pelas fragrâncias que este transporta. É através delas que localizo quase perfeitamente os sítios e os identifico. Quase que estabeleço um mapa de odores apoiado pela visão das coisas. E esse mapa é como uma carta da minha alma onde identifico os pontos vitais de emanação das possíveis forças que contenho interiormente. Sei que é extremamente cedo estabelecer em mim uma ordem que me permita arrumar e catalogar estas sensações e dar-lhes uma razão. Mas como é estranho sentir a limpidez lúcida que me invade; não é como um desproteger total do espírito, para retornar a um espaço interior esquecido e posto de lado. É a luz da manhã com o cântico dos pássaros; é toda esta ordem monástica onde me insiro que me restabelecem para a continuidade dos dias. A vida, sinto-o, não é só um prazer a seguir… é uma dádiva divina e linda que tenho que aproveitar com a maior humildade… para assim ascender às esferas mais próprias e mais verdadeiras de uma existência terrena gratificante. Ontem anoiteceu lentamente, e, com espanto meu fui recebido no meu quarto por uma invasão de cânticos de pássaros. Parecia-me que não só do exterior, mas também do interior (meu interior, ou interiorização do espaço do mosteiro) provinham esses sons maravilhosos, e penso, agradecido a luz de um dia que passava… era como um cântico desinteressado de oração aos ciclos naturais da vida. A ordem interior é muito rígida, mas ajuda a estruturar a alma. Os tempos livres são inteiramente meus e de introspecção, mas os momentos comuns são também de alegria e de restauração da sociabilidade que existe em nós, e para isso existe a regra! E é no seio dessa confraternização que nos encontramos; são esses momentos que nos ajudam a compreender e a restituir ao nosso interior a paz das certezas que nos invadem durante os momentos de retiro. É no meio da humildade destes padres que eu subentendo a divindade, a entrega total e despretensiosa a um ideal nobre. Um sentido de vida que não pode ser descrito… uma envolvência que atinge linear e directamente o coração, para o acalmar e assim, no caminho indirecto, refazer os espaços de alma imperfeitos.

O fervor que as coisas mudas contêm Singeverga, 11.05.93 Passeando no meio destas construções de granito, casas de aspecto eterno, como que adormecidas pelo tempo e cujas raízes se abastecem da terra viva e fresca que emana destes sítios; vou dar ao labirinto do meu interior e naquela cartografia que ontem descobri, irradiou mais uma luz… as distâncias também podem ser estabelecidas e compreendidas através dos sons. Foi um cuco que me despertou… de repente descobri que no meio da mata que estava entre mim e o vale cantava esse pássaro, e consegui visualmente definir — 125 —


uma área muito pequena de probabilidades de localização dessa ave. Depois passei ao resto do cenário e descobri que a cada momento visual correspondia também um grupo de sons que eu podia harmonizar no meu interior para encontrar a conexão correcta, o encadeado perfeito que pudesse servir para identificar, como um alfabeto, estas distâncias. … de repente olhei para um serpenteado de degraus que corria mesmo ao meu lado, e as pedras pareceram-me vivas. Pareceu-me que dentro do imutável aspecto visual das mesmas existia um segredo, um conto, uma história qualquer que estava apenas presa pela incapacidade de comunicar connosco, seres vivos, que temos os nossos códigos de interpretação acerca do mundo! São os cheiros, é o tacto, a imagem, os sons que a vida nos oferece… tudo isto e muito mais são os canais possíveis que temos para compreender o mundo e as “coisas”. Mas, e se no fundo existisse um código próprio dessas “coisas” que a natureza criou mas não têm vida, para comunicarem ou, afinal, revelarem esses segredos nelas contidos? Fiquei triste por sentir que essas pedras falavam mas eu não as podia compreender, e vi nelas a ansiedade de revelarem, de exporem continuamente as suas mágoas, os seus sacrifícios! Voltei à minha cartografia visual e sonora e guardei no coração este fervor que as coisas mudas contêm. Ao mesmo tempo fiquei cheio interiormente, agradeci à natureza a limpidez e lucidez de visão que me deu ao olhar para elas. Quero resguardar-me ainda de caminhos possíveis a tomar para não me perder… não quero cair na cilada constante dos pensamentos rápidos. É como o vinho, preciso maturar essas ideias ao ponto de as despir de todos os enganos e mentiras que possam conter. Fazer como o vento faz às pedras ao longo do tempo – passa por elas e vai-lhes roubando lentamente matéria… parece querer despi-las para mostrar o coração nelas contido, essa tal impressão que senti ao descobrir, no seu mutismo, a vontade de revelação de algo que não entendo. Num processo contrário correm os pensamentos, as ideias; por isso, creio, é necessário proceder também ao contrário. É preciso correr atrás do verdadeiro princípio de qualquer luz, qualquer idea! Temos que reconstruir o momento de alma que nos revelou esse pensamento. Nessa nudez parece viver a pulsação correcta dos procedimentos. Como um guia espiritual de indicação dos caminhos a percorrer. Uma lufada de vento e um portão magnífico recortado por trepadeiras, que me surgiu de repente ao dobrar uma curva, fez-me pensar em ti, Tio. Como tens vivido, e o que tens sofrido por mim, desde o momento em que eu me conheço… Mereces um espaço nas altas esferas da compreensão humana… o pouco que posso fazer, passa pela reconstituição absoluta de uma personalidade firme e forte… o mesmo que o meu pai sempre pretendeu ao longo da vida para mim. Acredito que todas as forças, que através destes poços de espiritualidade que me vão surgindo ao caminhar, possam concretizar as certezas que me irão levar à luz verdadeira… ao verdadeiro eu que terei que pôr cá fora no mundo, exposto à luz e às vicissitudes da vida.

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A imutabilidade da pedra O que escuta as minhas palavras e as põe em prática, compará-lo-ei ao varão prudente que construiu a sua casa sobre pedra; vieram as torrentes, sopraram os ventos e embateram contra essa casa, mas ela não caiu, porque estava fundada sobre pedra. (Mt 7, 24-25). Estive lendo o prólogo da “Regra de S. Bento”. Deparei com uma passagem do evangelho que, no seu conteúdo, embate numa relação directa com as sensações que ontem tive ao olhar para aquelas pedras de granito, talhadas e enformadas... (crescendo numa escadaria complicada e num emaranhado de muros de suporte e levadas... ... misturando-se ainda à pedra das casas, formando um todo; quase apreendo que uma qualquer ferramenta desceu e talhou de uma vez todo esse conjunto) ... e senti que elas queriam explodir, que continham qualquer tipo de essência que queriam revelar, mas não podiam... devido aos nossos códigos de captação e emanação de conhecimentos (quase que me proponho a sentir esse alfabeto, essa estrutura! Para poder um dia, ao pintar a vida das pedras, desenhar e caracterizar o seu conteúdo, a sua essência... para poder revelar ao mundo; ser apenas o canal difusor, retransmissor, dos sentimentos tão vastos que esse mundo infinito e silencioso das coisas sem vida contêm. A imutabilidade da pedra é incrível. Parece que a história se grava nela com um peso proporcional ao seu tamanho... (não ficamos assustados perante um penedo abrupto?... Não brincamos com pequenitas pedras para preencher o tempo?) ... mas ao mesmo tempo fixa-se em momentos específicos e aí parece transbordar de significados por representar qualquer coisa, qualquer sentido. – Uma pedra que guardamos como lembrança de um sítio ou de um momento. – Uma pedra onde gravamos o nosso nome, e o nome dela, a bem-amada. – Uma pedra que preenche a paisagem, num rochedo monolítico de pedra contínua que desce até ao mar, tendo apenas como fundo o azul do céu. Sim, nestes momentos as pedras revelam sentidos bem específicos, seja por conteúdo ou por significação. Por conteúdo, as pedras que constituem efectivamente uma paisagem, dominando-a. Sendo o elo mais importante da imagem quando nós ao apreciarmos a fixamos no nosso interior da memória. Por significação, aquelas que o homem, através do seu espírito cognitivo aperfeiçoa à sua maneira, dando-lhes utilizações específicas ou significados sensitivos (lembrança de um espaço de tempo – dia, hora ou momento; ou representa marcos de atitudes ou sentimentos que vamos realizando ao longo da vida). Passam-me ainda pela cabeça as inúmeras relações que ainda posso estabelecer ao pensar acerca das pedras que o homem talha e reduz à sua função (a pedra de uma casa, a ponta de sílex do primitivo). Mas não quero passar ainda para esse campo. Quero apenas, e ainda, perceber primeiro a pedra natural tal como ela se apresenta na natureza (num determinado local e enquadramento e num momento específico; seja o momento instantâneo de uma imagem gravada no interior, ou o momento eterno da presença imediata). — 127 —


Tema para a prisão de um anjo Da vastidão dos espaços celestes, surgem torrentes de água, luz, sangue e sémen... Brotam das rosas e das camélias As fragrâncias cósmicas Que esses elementos transportam Criam E na vida que fazem surgir, revelam Os segredos da noite constante universal (Na escuridão, fazem crescer do nada um encadeado de pulsões que harmonizam através do movimento celeste, os ritmos de cheiros, sons e visões que nascem no seu seio) Dentro da forma, prendo um anjo Da sua sabedoria, alimento a terra Que se conjuga e dispersa Em átomos infinitos de paixão Para retornar, recair Na amálgama de matéria sem nexo Que vive e se transforma indefinidamente Em qualquer recanto desse espaço (No meio dessas inúmeras estrelas que diviso) Transformando-me num ponto Que localizo matematicamente através da triangulação Entre o movimento dos cometas E a presença estática dos planetas (Deixo de ser um ente) Para passar a ser uma entidade.

Singeverga, 12.05.93 Estive a olhar para o quadro e sinto necessidade de estabelecer uma relação tríptica entre as imagens. Daí o aparecimento da representação do triângulo no céu e a sublimação do anjo através dele.

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Angústia

Vida

Morte

3

Dor

Acção

Sublimação

1

Mágoa

Revelação

Osmose

Tristeza

Um

Dois

Três

2

1

1

1

Três chamas / Três actos / Três momentos

Limbo (vida em potência)

Continuidade (tempo físico) — 129 —

Descontinuidade (tempo contínuo eterno)


Carta ao meu psiquiatra Singeverga, 13.05.93 Acordei hoje de um sonho muito complexo. Não sei o que se passa, ou o que me resta de espaços negros dentro de mim. Quando cá cheguei pareceu-me que foi a água (uma torrente límpida e inesgotável...) que tomou conta de mim e me lavou das maiores imperfeições existentes. Mas há outras, agarradas como lapas às rochas, que teimam em perdurar e em viver, alimentando-se da minha alma num processo de troca, em que dou e nada recebo. São espaços infectos que só com muita força e meditação conseguirei excluir e mandar embora, dando-lhes um qualquer destino subjectivo para que nunca mais me incomodem. Esta noite, no meio do limbo do sono, na complexidade de pensamentos extremamente vivos e quase reais, vivi um enquadramento de cenas que me ficaram absolutamente retidas na memória embora lhes falte algum nexo estrutural como vivência ou conto. Antes de o tentar descrever por palavras quero referir, que esse sonho teve sem dúvida muito a ver com as conversas que tenho mantido com o Padre Bento.Tenho tentado ocupar os espaços de tempo que vivo com ele de uma forma cristã, tentando perceber como se recebe Deus em nós despidos de todas as fraquezas, para O recebermos em plenitude dentro de nós. As minhas questões são normalmente mais profundas das que o simples leigo costuma pôr (disse-me o Monge), de forma que as nossas conversas acabam sempre por cair no campo de uma Teologia mais profunda. (Não lhe falo de mim, pois o meu monge confessor é o padre Luís). Ontem estivemos falando acerca do Marianismo; da época de Maria mãe de Jesus, reflectindo um pouco acerca das leituras do almoço em que se falava do milagre de Fátima e das celebrações a 13 de Maio (hoje). Revelou-me o padre que a adoração no feminino fazia parte de todas as religiões do mundo, embora com diferenciações de credo. Mas referiu que altas meditações teológicas de monges estudiosos da liturgia lhes tinham indicado que os milagres de Maria no mundo (Lourdes, Fátima e Guadalupe) serviam para pôr, sem rodeios, à prova os verdadeiros fiéis de Deus, porque Ela disse: “Amai a Jesus! Só assim encontrareis o caminho para Ele.”. Dentro da universalidade de Maria, disse-me o padre, o exemplo da fé islâmica - “Fahtma” foi a filha do profeta que pôs à prova e revelou a fé corânica como mensageira de Alá. Em latim, ou português corrente, a transcrição é “Fátima”. Disse-me ainda que a grande base de reflexão do Papa, ao vir em peregrinação ao santuário de Fátima, foi precisamente a análise do devir de Maria no mundo e da sua universalidade. Para que eu não me confundisse em paixões interiores explicou-me as nuances e distâncias de fé que existiam na imagem de uma e outra Fátima. Os muçulmanos têm ainda outro preceito derivado das revelações de “Fathma”, as suas ordens são como a palavra sagrada do seu Deus, pois ela é o canal privilegiado de comunicação com os homens. Assim, como a Igreja ocidental, no exercício monástico, recebe a palavra do Abade como palavra de Deus e a respeita; assim os muçulmanos escutam as ordens de Alá através dos seus profetas - canais específicos de audição e revelação do Livro sagrado. A grande diferença abismal reside no fanatismo islâmico, coisa inexistente na fé cristã. — 130 —


Depois deste enquadramento, vou tentar descrever esse sonho: “Corria a noite e eu estava acompanhado não sei a que propósito nem porquê, de um ocidental islamizado que nesse momento de companhia era meu amigo. Percorríamos ruas estranhas de casa altas e frias iluminadas pela lua e pelas estrelas; deambulávamos sem fim nem princípio... a certa altura da nossa conversa, ele revela-me que estava cumprindo uma Fatha (uma ordem) e que esperava apenas sinais para encontrar um sítio onde lhe tinham deixado a mensagem. Nesse sítio teria que aniquilar quem lá estivesse presente, fosse quem fosse. Penso agora que essas palavras não me surtiram efeito, pois devia ter pensado que ao acompanhá-lo poderia ser um alvo perfeito para os seus fins quando encontrasse essa revelação. Sei apenas que continuámos a deambular até que os corpos se cansaram e resolvemos recolhermo-nos numa casa enorme de uma só divisão e desabitada. O interior desse espaço era iluminado por dois grandes vãos de janelas, despidos de qualquer folha de vidro ou madeira, lembro-me que o ar corria livremente entre o espaço exterior e o interior. As paredes estavam todas carcomidas e cheias de escritos, graffitis complexos que reuniam uma miríade de credos, desde o judeu ao muçulmano. Ao fundo, repousava uma imagem já muito gasta da última Ceia de Cristo, pendurada à pressa nessa parede. Recolhíamo-nos dentro dos pequenos cobertores que transportávamos connosco, quando o meu companheiro, por isso o estar a incomodar, se levantou e foi retirar o quadro da parede para o pôr no chão com a imagem para baixo. Foi aí então que reparámos ambos que um grande graffiti escrito nessa parede, agora se completava e formava uma única palavra. Estava escrita em árabe, mas de forma a ele perceber, redigida em português: “Al-Fatha”. Ambos sentimos nesse momento que ali estava a mensagem pela qual o meu companheiro esperava. Senti que o seu corpo e espírito se encheram de calma, devido a, por fim, ter encontrado o seu objectivo, e o alvo indicado pela mensagem seria sem dúvida eu. Fiquei assustado interiormente e comecei a pensar qual a forma que ele iria utilizar para me aniquilar. Ainda por cima estava próximo o sono... e ele queria tomar conta de mim... entorpecia-me e eu lutava, no sentido de encontrar uma resposta adequada para me salvar da sentença desse destino. Ao percorrer os vários caminhos possíveis, não encontrei qualquer saída... mal eu adormecesse assinava a minha morte. Ainda em sonho, a única saída que encontrei foi acordar. Sim, de repente acordei e dei por mim com o coração inibido e sôfrego... batendo tresloucadamente!” Era noite ainda (5h.30m) e ouvi barulhos de movimento no interior do mosteiro. Esta santa gente estava acordando e dando as boas-vindas e graças a um novo dia. Não sei o que se passou, mas acredito que as forças que aqui se contêm neste sítio não me permitiram cair nos desígnios desse outro Deus... pegaram em mim e deram-me a única solução possível para o meu sonho... despertaram-me das más ideias e acordaram-me...

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Ordem e Regra Singeverga,14.05.93 Falar de regras e falar de significado é falar da mesma coisa; e, se olharmos para todas as realizações da Humanidade, seguindo os registos disponíveis em todo o mundo, verificamos que o denominador comum é sempre a introdução de uma espécie de ordem. Se isto representa uma necessidade básica de ordem na esfera da mente humana, e se a mente humana, no fim de contas, não passa de uma parte do universo, quiçá a necessidade exista porque há algum tipo de ordem no universo e o universo não é um caos. “Mito e significado”- Claude Lévi-Strauss A Ordem e a regra na composição das actividades humanas diárias, permite que fisiologicamente o corpo se adapte a esse conceito hoje abstracto, que é o tempo. Passamos a “sentir” o tempo, e somos capazes de elaborar mentalmente a ideia de espaço de tempo preciso quando fixamos um momento. Isto é, não podemos dar a precisão nem do segundo, nem da hora (por vezes, e dependendo do grau de educação que o corpo tem em relação à percepeção do tempo)... mas podemos estabelecer um intervalo de tempo mais ou menos preciso em relação ao momento do dia em que nos encontramos. Já o dia, o mês, o ano, são códigos interpretativos oriundos do nosso sistema cultural, que pretendem estabelecer um código e uma ordem na abstracção do conceito “tempo”. Quando falo de tempo, estou objectivando uma série de dados interiores e sociais que provêm da minha cultura (decerto que um oriental, pela localização geográfica, ou um índio, pela diferença de cultura, têm noções diferentes de mim acerca do “tempo”, na medida em que o estruturam, condicionalmente em relação a um sítio e a um espaço de tempo, onde a soma de conhecimentos de um determinado povo, raça ou tribo, tem uma característica bem específica, constituindo a “História” e concretizando-a continuamente segundo uma determinada forma. A história está cheia de homens que se apresentaram como vindos de Deus, quer como Deuses, quer como portadores de mensagens Divinas - Buda, Maomé, Confúcio, Cristo, Lao-Tsé e milhares de outros até ao último que em nossos dias tentou uma nova religião. Cada um deles tem o direito a ser ouvido e considerado. Mas assim como precisamos de uma régua externa e independente das coisas que hão-de ser medidas, assim também há-de haver provas permanentes ao alcance de todos os homens, de todas as civilizações e idades, que nos podem justificar a sua pretensão. Estas provas são de duas espécies: Razão e História. Razão, porque é comum a todos, mesmo aos sem-fé; história porque todos vivem dentro dela e devem saber alguma coisa acerca dela. “Vida de Cristo” – Fulton S.Sheen — 132 —


O sexto dia Singeverga,15.05.93 São cinco horas da tarde, os portões começaram a fechar-se. Lentamente o círculo de muros envolvente vai cerrando as membranas para acolher a comunidade no seu interior. Protegidos do mundo exterior e pela fé em Cristo vão diminuindo o reduto até chegar a noite. A seguir fechar-se-ão as portas do edifício. Por volta do fim de Vigílias, o irmão porteiro cerrará por fim as portas dos corredores, que contêm, já nas suas alas, os monges interiorizados nas suas celas. Cerca das 10h, todos eles fecharão os olhos e embora dispersos por compartimentos, realizam interiormente cada um uma récita a Deus de forma a constituírem um todo, para que durante o sono o mosteiro se eleve no ar e representativamente fique fora do alcance de qualquer mal... (pois é durante o sono que os anjos de Satã descem à planura da terra para seduzir os homens). Faz seis longos dias hoje, que cá estou. A monotonia e a paz de espírito tomaram conta de mim... como um bébé ao ser embalado no sono. Os três primeiros dias são de exaltação... de tomada de consciência e conhecimento; de absorção da vida monástica. O quarto dia é para atingir a nudez.... alcançar a limpeza e purificação completa através da entrega total. O quinto dia é o da contemplação... o sexto começa a ser o dia do verdadeiro caminho para o nosso interior. Começo a necessitar de me confrontar com as realidades do mundo exterior para acreditar naquilo que encontrei dentro de mim. Vejo com ansiedade o momento de total confronto com a vida, tal como ela é na sua verdade existencial. Pergunto-me, com um certo receio já, qual o fim exacto, o resultado lógico, de toda esta interiorização espiritual. Espero, agora, apenas o momento!.

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como vejo o mundo

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Heroísmo encomendado...patriotismo arrogante... ... Aquilo que considero verdadeiramente valioso na engrenagem da humanidade não é o Estado, mas sim o indivíduo criador e emotivo; a personalidade: só ela é capaz de criar aquilo que é nobre e sublime, enquanto o povo em si permanece embotado no pensar e frígido no sentir. E vem a propósito referir-me ao mais equívoco produto do espírito gregário dos últimos cento e cinquenta anos - o militarismo. É uma espécie de nódoa nas grandes realizações da civilização moderna. Heroísmo encomendado, violência recomendada, patriotismo arrogante, tornam vil e abominável qualquer guerra de agressão. Por minha parte preferia ser fuzilado a tomar parte numa luta desse tipo. Apesar de tudo penso tão bem da humanidade que sinceramente creio que um dia o bom senso dos povos o eliminará da lista dos flagelos inevitáveis e inelutáveis. O que há de mais belo na nossa vida é o sentimento do mistério. É este o sentimento fundamental que se detém junto ao berço da verdadeira arte e da ciência. Quem nunca o experimentou nem sabe já admirar-se ou espantar-se não é nada...

Einstein- “Como vejo o mundo”

Nas linhas da frente... Encenando, brincando... Com coisas sérias da vida... Estás hoje cansado da batalha, ó herói! Da série - “A realidade do acontecimento num despertar do envolvimento” (Abril 80) A minha floresta ancestral retrocede às recordações mais antigas que têm cem anos ou pouco mais. Tudo aconteceu num tempo em que ainda não vivia. Recordo Gaston Bachelard e nele as minhas convicções, as mesmas, como em milhares de outros homens; mas hoje, aqui ficam minhas recordações ancestrais que remontam à I Guerra Mundial de 19141918. Nas linhas da frente como 1º cabo, velhote hoje, vigoroso na altura; me recordo desta voz sibilante levada pela empolgante aventura do conto ao som do estalar da madeira molhada a arder na lareira, lá no campo. Naquele campo por trás do nascer do sol, beira-Guadiana; onde hoje já velhote, devastado pelos ventos e quentes terras, meu avô, lavrador de herança e tradição me leva de mão dada pela linha de combate e por aquelas infectas valas que proliferavam....e na linha de combate. — 136 —


No ano de 1914, Portugueses, Ingleses, Franceses, Americanos, Polacos e muitos outros povos se voltaram contra a irrefutável tentativa de poderio do Kaiser alemão. Desencadeou-se o que viria a ser a 1ª Grande Guerra Mundial. Entre esses milhares de homens... incontáveis... mortos e por morrer, encontrava-se o meu avô, homem de pouca cultura, roubado aos seus campos, ao seu trabalho. De uma enxada num campo de um canto algarvio, lhe encontrou uma metamorfose e se viu de metralhadora na mão num canto do fim do mundo, longínquo desconhecido do seu entendimento. E me recordo daquele momento inevitável em que lhe vinha uma lágrima ao olho e me contava: “Certa vez, fazia muito frio, estava eu de comando numa patrulha do batalhão da frente, e estava com os outros a tentar aquecer as mãos nas mantas, a esfregar muito... já era tardinha, o sol já quase desaparecera... até que um soldado me chamou: -Meu cabo! Meu cabo! Está ali um alemão a subir a vala!!! Entre nós e os alemães havia o campo de ninguém, que nem era nem duns nem doutros...fui espreitar pelo periscópio... porque não nos podíamos mostrar senão apanhávamos logo uma chuva de balas que não era brincadeira... e lá vi um alemão enrolado numa manta sentado com o corpo em cima da vala. Eu não sabia, ia lá o homem fazer uma investida ou cobrir algum ataque? Puxei da metralhadora, levantei-me com muito cuidado e disparei uns tiros. Vi depois pelo periscópio que o tinha morto; vi umas mãos a aparecerem de dentro da vala a buscarem o corpo e lá o levaram... ( a seguir vinha aquela lágrima cheia de tristeza e resignação...). E se aquele homem tinha família? O desgraçado só queria apanhar um bocadinho de sol, estava muito frio; e eu matei-o” E revolveu, revolveu, e hoje, 61 anos depois ainda não se esquece desse passo; nem com a recordação de milhares de homens, colegas de combate; dezenas de portugueses que morreram a seus pés...ainda hoje se lembra daquele homem que matou. Veio a derrota dos aliados na batalha de La Lis, e foi feito prisioneiro de guerra dos alemães. Ostenta hoje, velhote, agarrado à sua bengala, o orgulho de pertencer à velha guarda dos Combatentes. E ali, naquela terreola longíngua, à noitinha, os dois juntos à lareira; deixamos a noite correr. Lá fora a chuva cai, troveja e relampeja... mas nossas almas estão absortas nesses ditados de experiência daquela miserável guerra...

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Corpos jazentes Lisboa, 22.10.82 (Missing) Todos disseram numa só voz: ele não está lá!?! Sim, no meio daqueles milhões de corpos jazentes Não reside um, que será o meu? Que faço aqui vivo, no meio dos mortos? Meu corpo reluz; ou como o deles está possuído pela cor letal? Funestos assombros me envolveram E com um rápido olhar, senti que também não estava só. Mas como poderiam esses corpos falar; … e a minha razão? (… ouvia um gemer profundo e longínquo, mas não distingui, se era eu, querendo ouvir presença; ou alguém semi-morto rogando nos últimos farrapos de vida, por um pouco de água… ao menos uma música… não fosse morrer naquele silêncio que também de mim se apoderara…) Gritei e falei por algum tempo – … João; Pedro, Tiago, Simão… Alguém está vivo? Alguém me acompanha?... Sim, o eterno suporte desvanecera-se Ali estava eu, na razão, na consciência Sentindo a ponte de passagem Estruturas tão complicadas como a degradação dos corpos… um sistema hexagonal evolui para o horizonte, e depois infinitamente para o universo… Uma só voz… vinda das cores, ou do sol … da lua, do cosmos… (Liberdade)… um agonizante ruído do coração da matéria… Do outro lado podia supor, Satanás irónico cantarolando: Ah! Ah! E só ficaram as armas Ah! Ah! E os políticos Não há! Não há! Mais ninguém vivo… Ah! Ah! — 138 —


Post – scriptum > suicídio comum

As ondas, o marulhar; são o ruído de um Deus Uma energia máxima que contém todas as aventuras da matéria E que contam ao espraiar-se A história... ...de tudo o que tem história A meus pés chega a onda que em seu ruído, transportava os últimos rumores da guerra... Agora... minha própria onda já veio... Mortalmente atingido pelo futuro, espraiou-se... E contou minha história... Agora, só mesmo os astros sabem de mim. Em qualquer recanto, em qualquer confim do espaço... — 139 —


Estrangeiro em meu país Aveiro, 25.04.82 Logo este tempo a incomodar-me solenemente... São ventos, rajadas e outros problemas Muitos problemas de consciência andam a pairar Por cima das cabeças, tentando atingir o espírito Hoje li, reli e voltei a ler O sabor pequenino que me incomoda veemente... Saber-te a ti tão distante Lembrando o perfume, que é tão real Que de teu corpo emanas Vi e senti, A profunda realidade que me consome constantemente... Vi Leiria, vi a Figueira... (Cheguei enfim à terra dos moliceiros) Porém tão parecidas me lembraram Como Grândola ou Alcácer Extenuado chegando Cheirando o leve odor da doca de Faro. O sonho foi breve Num instante “oubi” dizer Meia dúzia de tretas de tretas Que de Algarvio não eram

Eram, se bem me lembro então, palavras de discórdia... Me mandando para casa ... (Não profanes esta terra, estrangeiro!)

Repousando um pouco e observando a pestilenta ria Aveiro, 14.04.82 Estando na era da discórdia Quem pensa, quem sabe Qual o destino final destas águas Limito-me a parasitar como transeunte e a consumir — 140 —


O estrume que desagua no mar … as pobres aves, tão sãs, vão procurando aflitas … tentando descobrir espinhas no estrume… – Peixe da ria sabe a homem (confessa-me uma gaivota) – Sabe a óleo e a urina! Oiço então, outra gaivota, que calmamente poisara em meus joelhos: (– Vai tentando imaginar como será o amanhã de todas as águas da nossa terra! … e talvez, nesse amanhã distante, eu te leve lá cima comigo. Para veres que o mar já não é tão bonito e alegre…!!!)

Nesta minha nau invisível e infinita Porto, 22.09.82 (Tonel - Zambujeira) De repente, folgada Irrompeu a água, do céu Numa silenciosa tarde de verão Onde estávamos, perdidos no tempo Sós, nus e crianças. … rochas trémulas caindo em súbitas derrocadas (Lúcifer sorrindo aos elementos…) Ah! E o poder estranho e vítreo Da água que nos cercava até um horizonte… Das lágrimas sôfregas e ininterruptas, ofertadas (…não p’la consciência… nem eram realidade!!!) Por um qualquer Deus, escondido Entre o tempo que demovam a cair essas gotas E o momento em que subitamente me encontravam E saudavam molhando, meu rosto triste moribundo Subi e vi, que o sol despontava, vencia De vez todos os obstáculos vivos que permaneciam Mutáveis à sua medida a algo a que vinha chamando Minha visão, minha compreensão Sorri e vi que estava cercado por imensas rochas. Informes e estáticas vinham-me acordando Quentes e mudas, amparando meu corpo contra si Como se de amor se tratasse… Dividíamos nossos corações entre peitos apertados! — 141 —


Fúteis consumiam-me E os rebentos não tardaram a nascer Perplexo, revejo dois olhos Que subitamente me encorajam a olhar na mesma direcção Entre duas gigantes rochas, evoluíam dóceis As cores do arco-íris… (… por fundo um negro céu cinzento…) O sol, como resultado Convidava agora a entender a sequência cíclica Dos movimentos siderais que o envolviam … as nuvens, esguias e esbranquiçadas, deixavam antever aquela laranja evoluindo em magenta Desaparecendo nos celestiais azuis Um simples espelho, e a eternidade O mar que, simples e modesto, Encontrava suas próprias luzes e a noite então Vinha contando fábulas de estranhos heróis derrotados A escuridão estelar tão difusa que depressa amanheceu Um porão carregado de nuvens e trovões, fechado E eu, ali tão só também e fechado Nesta minha nau invisível e infinita Com o mar, céu e a terra num todo tão pequeno Inconstante e irreverente que vou conhecendo Caio por fim num cenário imenso de luzes Todas incolores, que não existem … apenas vêm evoluindo por meu ombro… E vou contando, como sou, para me saber (Humilde, ou profeta de mim) (Agora estou num cume, imenso…) Tenho apenas tempo para gastar Tenho apenas o sol para variar Escondido nas minhas nuvens Tão alto estou que vejo Vós, profanos sábios, relendo Revendo as leis da pedra filosofal Nos contínuos desenganos tão baixos que estais — 142 —


Vejo lírios e pombas brancas Esvoaçando pelos telhados nobres … pretas e então, bailando tardiamente por entre as chaminés que anteviam com seu fumo … as lareiras, os jantares… (Tenho frio agora… Ao longe percebo as montanhas, escuras Agora não seria o descanso… Arcano das nuvens, destemido Batalhei ao lado de tufões e ciclones Enfureci por vezes a terra, quente Lutei contra ela e sua grande magnificência … mas agora, apenas tenho frio … vou descansar o tempo que demora um raio A atingir o culminar da próxima tempestade) Um dia, vagueando por vastos cirros (… manhã ainda, quando o ar estava gélido e os peixes das lagoas, vítreos e em espasmos se libertavam de seu gelo e voavam Criando um mar de nostalgia com seus ruídos…) … encontrei numa de suas lagoas Um estranho objecto obsoleto e carimbado, numerado (…anzol, n.º 6, fábrica tal, etc…) Olhei em meu redor e vi que o sol estava vermelho As gaivotas esvoaçavam preocupadas procurando fugir a um algo invisível A água das lagoas, as nuvens tornaram-se cinzentas Um bizarro monstro evoluiu subitamente e sugou Todo aquele mar de vida em mim…

(Depois desse ciclone, tornei-me água de um rio Vivo com os peixes de guelras E por cima de mim andam os detritos óleos e diluentes, húmus… … vou andando, dentro em pouco estarei no mar, e daí voltarei para o meu reino, nas nuvens arcano dos estados.) — 143 —


Mar Era um velho mar... Povoado de rainhas brancas...(lá naquela velha terra!) Distante... ... distante... ... muito distante... Que um dia explodiu! ... esse mar... e essa terra... — 144 —


ficando só poeira cósmica a guerra, essa maldita que abismou a existência (poeira, simples poeira...) Vencemos Diria algum americano ou soviético, se resistisse... (... de que lhe serviria?...) na medida em que agora, o espaço ou o tempo nada importa ... Esse resistente afundou-se no universo... ... (já não havia terra para pousar)... — 145 —


Quem nos ajuda?

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Solidão cósmica Aveiro, 22.04.82 Escuto um uivo provindo da terra. Só vejo mesmo o horizonte, mar e ar... Assombrou-me repentinamente ouvir aquelas vozes!!! Cantando de dor em uníssono... Eram os homens, concordei) ... e de meu barco vi partirem para o espaço... (num frenesi louco, numa procura de salvação) ... todos os homens, mulheres, crianças e velhos que na terra existiam!!! Senti-me de repente desamparado, sem nenhum semelhante para me acompanhar! Senti-me estranhamente sozinho em cima do planeta ... senti mesmo a nossa solidão cósmica!!! ... os dois, eu e a terra, perdidos nesta imensidão do Universo! Mas de repente, uma estranha bola eu vi, evoluindo no horizonte... Era o sol, já dormitando, que lentamente desaparecia ... deixando seu rasto de tão ténues cores... Mais uma vez olhei o ar e o mar... Depois olhei para tudo; para o ar, o mar e para mim... ... vi a terra e a lua, que já aparecia bem definida no céu! Senti novamente a nossa solidão... E vi que o meu destino era a eternidade!

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Massa informe que caminha (Tudo se resume num segredo) Rodeio a minha vida sem a ver…pressinto um estágio, uma ponte de passagem. Mas vejo que ao fundo não se ergue outro mundo… desenvolve-se a paisagem elaborada. O cimento e o ferro e o verso de todas estas coisas. As folhas escritas emanando ordens, e as coisas são as mesmas embora as leis e as reformas… …(só vejo uma gaivota no rio; a água está tépida do sangue derramado… houve uma batalha algures; mas são passados anos, só o sangue, o sofrimento perduram nos fluidos interiores da memória)… Vejo ao meu lado que a ciência progride; sinto os físicos no discurso da matéria; vejo-os todos lançando os domínios do possível para o profano… (vão atingindo o impossível à medida da sua evolução constante). Vão sendo os anjos revolucionários e arcaicos, que por vezes visitam os infernos e seus ensinamentos! O negro da noite é paralelo a tudo isto. Mas há um envolvimento acariciante que precede a descoberta… é o íntimo do infra-humano superando a barreira… (somos nós!) … e todos os outros, que não são cientistas ou poetas, sangram os males do mundo. São eles, a massa informe que caminha, o povo! E todas as gentes, estas e outras e o Eu. São apenas gentes, frente a uma labuta diversificada… não consigo distinguir o todo sem me aperceber que é necessário construir um favo elaborado, por onde corram em fluxo radiante todas as almas constituintes. (… mas dizer isto às gentes!!!!...)

Anões da sociedade Vício, vicissitude, opus, necessidade... Certa vez tentei juntar dois homens num galinheiro. Não sei, tempos depois, cheguei à conclusão que a sensação que usufruíam era igual àquela sensação de caminhar na penumbra num campo enorme, vazio. Com a cidade ao longe, e a vencer, ainda, uma longa caminhada no meio daquele frio que descera à planície. E por cima da cidade, que a essa hora já luzia, levantava-se a lua… rainha da noite, prateada, num fulgor metálico… … é a imagem de Faro, à noite, ao nascer da lua, visto da ilha. E foi essa sensação de angústia, de pequenez e frio… gélido. E esses homens sentiram o mesmo. Embora enclausurados… a conversão de conceitos deu-se. Em vez de um mês de férias no campo, na praia… uns escassos momentos, presos num recipiente metálico envolvente… O galinheiro, afinal, não passou de uma simples praia, onde não existia luz, água ou qualquer outro bem… nem tecto para dormir, nem sombra… e no meio natural, esses dois homens enclausurados! Sem o conhecimento… — 148 —


e o instinto de sobrevivência que antes fora educado para os bens materiais, agora… de nada servia. E os homens morreram! Porque eram homens da cidade… que aos domingos viam a bola, a televisão, ou iam passear a família aos arredores…ou ainda, iam ao cinema, à praia, ao centro comercial, à rua, à casa do vizinho, ao café, à praça, às compras… ao trabalho… num rotineiro dia-a-dia. Esses anões da sociedade, que dizem viver em grupo, essa gente que se obriga à comunidade, sem a compreender… arrasta-se. É levada pelo acontecimento, pelo desenvolvimento, que se passou, afinal, à sua volta… por sua causa. E esses pobres anões que se viram nessa praia e aí morreram! Para deixar viva a certeza de que o homem da cidade não compreende a vida! Não a entende no seu domínio! Não compreende a existência!

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Planeta das gaivotas – Tau! Como surgiste? – De aonde? Sou um ser! Óptimo, e vivo, na consequência daquele tempo que não existe. Vivo, na oportunidade do alimento… do meu esforço… de levantar voo e interminavelmente bater as asas… para observar! A terra que lá de cima é maravilhosa! – Quem és? – Sou uma gaivota que nasceu em sua terra… terra de todos, igual e necessária! Ponto, talvez final… que foi princípio das nossas vidas. Sem subterfúgios! Sem outros mundos!... ou outros afazeres, senão a sobrevivência. – Como? Com sobrevivência? – Simples facto da razão de existirmos. Para tal somos… gaivotas. Como tu serás homem! – Encontras então diferença entre nós? – Não. Não encontro, porque afinal a base está na sobrevivência e na alma, que conduz o teu corpo nas acções… mais leves… aí não existe diferença. – Sobrevivência, existência! – Sim, homem, procura conjugá-las e vês que mais não necessitas…porque a vida é isso. Não lhe ponhas nada mais em cima, não procures maravilhas nem resignação. Procura entender o acontecimento, lutando apenas para que teu corpo viva, não tentes engendrar planos… porque se tentares apanhar um coelho com uma armadilha, em vez de com as mãos… acabarás, anos mais tarde, por descobrir ouro e petróleo, a máquina e o mercado, o prazer material, o café, o carro, o bolo, a escada, o quarto, a cama, o móvel, as pulseiras… tudo o que hoje vês, quando olhas à tua volta! Não… tenta apanhar o coelho com as mãos, corre como ele, ou, se não conseguires, adquire a falsidade necessária… porque é imprescindível correres… sobreviveres. Assim, acaba por não ser falsidade… acaba por vencer o mais hábil, acaba por morrer o que não consegue sobreviver… assim, é a condição, embora não te devas refugiar na tua inabilidade. Porque verás! És capaz de realizar coisas que nem sonhas… pela sobrevivência, sem saberes como, conseguirás correr como o coelho. Porque tu, homem, embora estejas condicionado à terra, és o ser mais perfeito que nela existe. – Sobrevivência, condição para a existência! – Olha uma gaivota a voar… longínquo… perpétuo! Pega numa pequena flor… e depois olha para um grande pinheiro… aconchega essa pétalas na tua mão… observa então a grande árvore, lá bem na copa, levemente a dançar… com o vento! Imagina um pôr-do-sol numa praia… o marulhar… e tu, aconchegado num manto... bem quente… Imagina um laço a unir-se e gradualmente modificando a cor, para se transformar num aperto de mão. Imagina amizade… E por fim… imagina que tens tudo isso, podes chegar lá!... Está à tua mão…faltar-te-á a vontade… mas basta quereres e sentirás a beleza da existência. Tudo afinal se transforma na unidade, para em conjunto lhe chamares vida… tudo o que te envolve é útil, soberbo! Esquece o ódio! Porque afinal não existe! — 150 —


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O pássaro da sabedoria Depois do calor abundante da vida…quando o espírito não sobe mais… O pássaro da sabedoria sobrevoa o meu lugar Sedento, eu estendo-lhe o braço E dou-lhe a beber os meus olhos… Agora vou ver mais… muito mais…

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cAminhos para o oculto

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OS TRÊS CAMINHOS 15.09.84 Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico, extremamente perigoso, em todos os sentidos. O caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama “caminho alquímico”, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Fernando Pessoa

IGNIS NATURA RENOVATUR INTEGRA INRI A Natureza é renovada pelo fogo – Um fogo que destruirá um mundo dominado pelo mal. – O fogo místico interior – O fogo das experiências alquímicas

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O suposto caminho alquímico A metamorfose ideal ainda não me atacou. O suposto caminho alquímico, ainda é apenas uma aventura de sonho que vagueia no limbo das decisões e da vontade. (O mundo sem vontade... Eu, sem vontade) ... faltando aquele passo motivador que emprega a maior soma de energias possíveis e que realiza, simplesmente porque a vontade o determina. É como sonhar, e depois a nossa essência constituinte enforma-se numa gestação contínua, parindo depois a realidade e a efectivação desse sonho. Que faço hoje? Numa folha de papel vou derramar uma série de signos com um sentido específico, que vão mostrar uma concepção, uma idéia. Mas como transportar um sentido tão etéreo a um alfabeto de formas, substancialmente deduzidas pela sua capacidade de emoção e leitura. O candeeiro ilumina as faces dos esquiços... procuro nessa luz, um raio que me diga como os deva desenhar. A caneta repousa, apenas pego no lápis, numa imprecisão de gestos que me fazem acumular as dúvidas. (Não, não sinto nem a forma nem espaço suficientemente elaborados. Ao longo de horas reparo que uma pequena aranha produz uma teia entre a 0,5 e um livro... percebo que se escoou o tempo! Desfiz as teias interiores que criavam essa nebulosidade tão esquisita... cortei com gumes afiados essas nuvens de memória, que apenas teimavam infringir-me uma cadeia de morte, que são esses esquemas de penitência que o nosso espírito tende a montar perante a vida. Pego nas réguas e monto volumes supostos no ar; com gestos precisos desenho um cubo, e torno hermético esse espaço. Dou-lhe uma configuração sentimental, e enfio a minha alma no seu interior. Posiciona-a no ponto de confluência de todas as diagonais, no centro do volume, para daí poder operar conscientemente todas as acções que esse espaço tem necessidade de resolver. Sempre iluminado pelo candeeiro, concentro as minha forças nos objectos primários de representação - aqueles que pela sua estrutura materializam o desenho. Consigo facilmente, deste meu ponto essencial, dominar o peso das réguas; traço, no imaginário, uniões, arrastamentos de linhas, perpendicularidades... consigo de um momento para o outro converter essa imagens em invólucros precisos de espaços que pretendia criar... (e como eles são tão moldáveis a partir do momento que lhe pegamos com a alma...) Depois de experimentar calmamente o modo de operação do sistema em que me envolvo, dou um último relance de olhos aos vértices do espaço e com uma cadência precisa percorro as arestas conformantes... sinto-me enfim contido... (... agora, calmamente, porque já não estou em união com o tempo, vou explodindo os meus limites em forma de energia, para poder suportar essa longa noite universal estrelada, que me espera...).

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o senhor do vento

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Sr. do Vento... tão volátil... palpitante Faro,1980 “Na primeira palavra. Falo de um homem… talvez de mim! Recordo em vão o suor do trigo… o sangue que alimenta os legumes… a seiva das árvores… … e tudo isto se congela no meu pensamento, num conflito precoce… O gesto do vento, o pulsar da mãe-terra, o calor do teu ventre… E a infinita paixão criativa que faz brotar seres de outros seres. Agora dedico-me a ti, Sr. do Vento… Tão volátil… palpitante… (… as tuas vísceras segregam um murmúrio que oiço provir das florestas). … perpassar em mim, sem tempo… (Serás a aparência da discórdia? Ou foi apenas a pétala do doce malmequer que tu abraçaste e levaste para sul??... … Sr. do Vento quão volátil és… Vens, desapareces… e as crianças gritam contigo. Ouves o peito delas bradando?... como que um grito provindo de uma chaga… e as lágrimas que elas deitam… A floresta repousa, espera de novo a tua chegada (como a antevisão de uma orquestra em que o maestro é o vento e os actuantes as árvores, e a forma musical a acção de um sobre as características do outro). … virás?... por que altura? Não és sazonal, é apenas a preguiça que te invade que te vai sugerindo uma rota… desapareces e fica a incógnita… (… a labuta dos campos, os pássaros pairando no ar, o calor invadem a tua inexistência… … virás?)

quão volátil és…

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O silêncio e a calma As coisas mais agradáveis que conheço são a calma e o silêncio

(Millet)

Porto, 16.04.82 Entrando pela serra … estive hoje observando uns velhos moinhos … que, calmos, dirigiam uma orquestra imperceptível. … Convidando-me sempre a senti-los (o trigo que moem, dando pão… … o Sr. do Vento abraçou-me então, levemente… Acariciando-me… … e continuaram, semi-mudos, cantarolando qualquer cantiga nortenha… Foi então, no fim da tarde, que o sol, pondo-se por detrás deles… … os presenteou com o silêncio eterno da noite…) Foi apenas mais um dia, calmo aparente, porém…

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o apressado presente eterno

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A relatividade do tempo A relatividade do tempo amedronta-me... confundo-me ao imaginar as diversas equações que determinam a duração da vida dos seres vivos... (uns vivem segundos, outros permanecem séculos...)

Contador universal Lisboa,13.04.82 Carregamos o fardo do tempo ... e vamos, tristemente, observando os rumores do vento! Fazendo rodar o destino ... que segundo a segundo nos vai resumindo... E amanhã olhamos para hoje ... contando as voltas, os segundos... Que o vento, perpassando, vai depositando Num contador universal!

Olho para a vida e penso Luzes incolores que evoluem por meus olhos E o sangue, acariciando-me as veias por dentro, beijando o coração… O ar é o meu alívio, a minha sofreguidão Que vou aspirando, como parte de um algo inexistente E quando o vazio enche o ar Olho para a vida e penso nos caminhos que com ela poderia ter corrido. Penso em tudo o que poderíamos os dois fazer juntos. Sinto também que no ar está o meu passado e o apressado presente eterno. Que o futuro, agora, faz parte de mim e do tudo que existe. — 162 —


HÁ SEMPRE UMA HISTÓRIA PARA CONTAR

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Solitário na minha percepção 10.06.03 Visto daqui o meu horizonte visível retém luzes tremulas de casitas distantes. As estrelas não cabem no céu e o torpor da noite ressaca o ímpeto ígneo do astro rei no dia passado. Sei que voam algumas aves obscuras em sentidos diversos... e quero entregar-lhes os meus sonhos, as minhas emoções, para perguntarem ao céu a minha razão de viver. Ressinto todas as apostas da minha vida na lotaria da fatalidade... recebi alguns prêmios e o fim não o percebo. Estou confuso mas entrego todo o meu ser e a minha história aos desígnios desconhecidos da distância que me separa de cada estrela que toco. Vou contando o tempo passado entre uma viagem e outra. Cada momento, é uma pérola do colar que dá volta ao universo, e que conta com a energia dele, para se suster na imponderabilidade do vácuo que toma lugar dentro de mim. Solitário na minha percepção, vou agora chorar um pouco as lágrimas doridas dessa minha história por pensar.

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A magnificação dos símbolos oferecidos pela natureza 24.07.97 As rochas e o tempo são fenómenos que pertencem aos nossos estados bióticos, enquanto acontecimentos reais interferentes na nossa fisiologia orgânica. Existem, porém, dentro da percepção individual, vários estados de entendimento individual, vários estádios de entendimento da realidade. O mágico e o espiritual, no homem, sempre o transportaram para a magnificação dos símbolos oferecidos pela natureza, de forma a criarem rituais que o tempo transformou em tradição (dolmens, menires, gigantes de Páscoa, estelas de pedra...) Estes actos de trabalhar a pedra, tão ancestrais, de repente são vivificados no espírito de qualquer homem que esteja predisposto a receber em si a mensagem da pedra. Mas as pedras de que vou falar não fazem parte daqueles monolitos onde o escultor descobre e trabalha as formas de uma maneira genial. Não! Vou contar uma história... “Um dia , senti no marulhar das ondas, a voz dos Deuses Percebi que cada onda contava uma história! ... Acolá espraiou-se a onda que contava o Genesis ... A meus pés chegou a água que transportava os rumores da guerra... De repente apercebi-me! A onda que contava a minha história... espraiara-se!!! Faço agora parte do Universo No meio do meu sofrimento evadi-me... E sou um bocado desta rocha que me envolve Uma tulipa ou um plátano ...ou um bago de tamarinha que me alimentou.... No meio daquela praia onde a terra parece ecoar Como a voz desses Deuses Que falam pelo ribombar ininterrupto das ondas!

(Praia da Amoreira 85)

Descobri que esse gigante de pedra situado a norte dessa praia, deitava, pelo efeito da erosão, lágrimas de xisto que o tempo foi amontoando nas falhas geológicas do promontório. Pelo seu choro decidi descobrir a força da matéria e através dela conformar e exprimir os meus sonhos como que partindo do cimo daquelas rochas para o infinito... ... onde acho que vou ser compreendido!

(... Boa viagem...) — 165 —


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o império intermediário do adeus

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Divino planar Aqueles patos, meu Deus... lá voam incansavelmente por cima dos lagos.Como enormes deuses, em formação, percorrem os espaços. Meu Deus, como é divino aquele planar, aquela séria compilação de movimentos, aquela sonhadora ave que por vezes leva desespero, ora leva tristezas... por vezes subterfúgios das suas mentalidades. Aqui me encontro, onde penso levar os sonhos para as portas da morte. Sem já nada para apaziguar o meu espírito, onde realmente posso totalizar o meu ser. Sim, depois de levar alguns anos a misturar água e terra; depois de me sepultar, talvez possa encontrar o caminho do raciocínio terráqueo. Porque hoje ... hoje nada sei do que sou ou poderei vir a concretizar, apenas encontro a solução da existência-existir. Nada mais complexo que tentar ultrapassar estes limites; nada que permita sofrimento ou tristeza, porque estes limites não permitem lamúrias... acariciam simplesmente as dunas da introspecção e levam-nos num sonho duradouro e infinito; enfim, a morte. Olhai aquela cruz, simbolizada pelo martírio... representa aquele que sofreu por estes patos, neste local. Que local? Quinta do Marcelo, chapais da ria... aquelas inofensivas alturas de terra que albergam centenas e centenas desta espécie voadora... um simples corte de silêncio... e pronto, toda aquela calma monótona daquelas superfícies aquáticas se enche de patos. Começam por esboçar um leve receio, e de repente, planam na água, atingem velocidade e lá vão eles por aquele céu, já fora dos perigos terrestres... quais perigos? Eu? Não, aves ingénuas, não vos farei mal; apenas vim cortejar os vossos domínios crente nos vossos corpos, que atiçam o meu olhar no desejo de ser uma de vós. Conseguireis isso? Será mesmo que poderei encarnar numa posterior vida numa forma aerodinâmica como a vossa? Para que possa voar, para que possa sonhar? Se assim é, e se todas vós foram simples humanos como eu, então desejo morrer e encontrar o paralelo dessa vossa equação. Pretendo atingir aqueles confins que me levem para o ar para um dia acenar e voar livremente ao encontro do meu destino. Talvez em Marte, talvez em Júpiter...ou em Andrómeda, ou num Quasar; não sei, só sei que pretendo...como atingir não sei. Falai...por favor falai... — 168 —


Seppuku Do horizonte infinito surgem as tréguas que pacificam o mundo, o simples acto de morrer (Seppuku) possui um poder activo que nos torna Deus, na medida em que controlamos o instante da morte, que é divino. As flores da cerejeira e o seu cair são sinónimos de um novo ciclo, de uma nova vida...a morte é portanto o ressuscitar de uma nova aurora!

Se ao menos pudéssemos cair... Como as flores da cerejeira... Tão puras e luminosas...

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A ausência da própria ausência Só aquele que vive no império intermediário do adeus, que persiste em ficar na margem do rio, na penumbra, longe da nascente e longe da foz, só esse tem uma visão da morte, está ligado à morte, está ao serviço da morte. Hermann Broch – “A morte de Vírgílio”

O profundo optimismo que possibilita todo o suicídio consiste em pensar-se que a morte pode fazer sentido, mesmo que apenas enquanto fim, mesmo que tão somente enquanto acto que nos liberta das coisas; ora a verdade é que, com a morte, são as coisas que se livram de nós – e de um modo tão absoluto que não há nele lugar sequer para a idéia de fim. De facto só se pode conceber o fim como fim de nós para os outros, só quem ainda vive pode julgar do fim; ter a noção do fim, tirar consequências do fim. A morte não é um lugar é a ausência da própria ausência. Pensar em morrer é operar uma transferência de alma (como sabe o cristianismo) mas eu sonho com um gesto que consiga um dia matar-me “por antecipação”, dar a minha alma em espectáculo como corpo. A posição da porta que H. Broch define na frase que citei de início como o lugar da penumbra é a única que permite efectuar essa antecipação porque, não se situando num percurso, é uma “visão”, um “estar ao serviço”, ou seja, é uma aproximação indirecta da morte que passa por um abismo aberto no texto, na tela, no gesto, na dança ou no canto – ou na vida) um abismo de significação que deixa entrever o outro lado afirmação frenética (no que o termo tem de frémito de horror) do corpo contra a alma. É essa a vertigem mortal do discurso e do balbuciar: assemelha-se, por vezes, à mais ignóbil das astúcias da Morte - as melhoras exuberantes que sentem, antes do fim, os doentes condenados.

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Entregar a minha vida aos cuidados de Deus, é acreditar profundamente que vou conseguir ser uma nova pessoa integralmente diferente do que era, não esquecendo nunca o que fui; entregando as minhas piores demências e insanidades ao poder de uma força desconhecida que me vai mostrando o caminho mais sério para ter a lucidez constante dos erros que não posso voltar a cometer. Acredito que vou conseguir! Neste momento para mim Deus é um caminho preenchido de informações úteis a percorrer, sem limitações de forma e sentimentos que vão sendo a “chave descoberta” para abrir o meu coração ao mundo e a mim mesmo, no sentido directo de atingir o fim que eu pretendo para finalmente renascer. O cuidado de Deus é a revelação que Ele me dá das soluções possíveis a praticar em relação à Fé e esperança que eu depositei Nele, acreditando sempre que o resultado a atingir, seja positivo ou negativo, é a resposta correcta à minha dúvida.

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sinto-me a dizer adeus... talvez o último...

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À porta repousa o silêncio... Out.81 Os rios gelam, como as lágrimas … que com um som metálico vão caindo neste tempo À porta repousa o silêncio … cá dentro, em mim, impera o medo… (Alguém bate… Quem é? Ninguém responde… Descanso; é o silêncio que toca Quer entrar (Quer companhia) E com ele penso…é hoje o dia! Faz anos, que só Acompanho as árvores, os pássaros … também aquela montanha além Que vejo de minha janela … E sinto o pesar consciente, do meu pecado natural! Não sou astro nem gente Apenas um pedaço de uma nau naufragada Viajando, por outros distantes mares desconhecidos … sem gente, sem velas, sem nada (Por isso é um resumido pedaço… não é uma nau!) Agora que a bruma se interpôs-se e nada vejo Nada sinto, nada sou … Já nem escuto o silêncio… Sinto-me a dizer adeus… talvez o último O fim da história de mais um pedaço de entre pedaços… … o fim de uma nau desabitada, que vagueava sem rumo… Uma, por de entre tantas outras com que me cruzo (Sou a nau? Sou um pedaço afinal?) Nada sou talvez. Agora que o fim chegou As árvores levantam-se… o chão, húmido, suspira E eu, de matéria humana a mineral — 174 —


… um passo que levo, um instante Que me faz subir às copas de todas as árvores que daqui vejo. De matéria em matéria me transformo Agora já não sou um, nem todos… creio que Atingi o tudo!

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vôo para a liberdade...

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Rumo à verdadeira morada... A teosofia ensina que a morte não existe, pois cada homem que vive na terra do céu desceu e, se à vida vem, é apenas para voltar de novo à verdadeira morada de onde temporariamente se afastou. in “Semanário”- Fernando Pessoa

12.07.82 Encontrei no chão uma pequena andorinha doente... ainda bébé, descera inesperadamente do ninho... Esperava ela agora o momento final; a entrada na vasta e longa noite da eternidade... Adoptei-a sabendo que errava... (no outro dia seu corpo acordou inerte... olhei para a janela entreaberta e senti que finalmente ela conseguira voar...! )

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ÍNDICE DEDICATÓRIA................................................................................................................................................................................. 3 PRÓLOGO ...................................................................................................................................................................................... 5

PARTE I UMA VIDA ....................................................................................................................................................................................... 8

PARTE II IDENTIDADE . ............................................................................................................................................................................... 18 RAÍZES ......................................................................................................................................................................................... 26 ANCESTRALIDADE . .................................................................................................................................................................... 32 RASGOS DE JUVENTUDE .......................................................................................................................................................... 36 CULTURA VERSUS CIVILIZAÇÃO............................................................................................................................................... 40 ATRAVÉS DA ARTE ..................................................................................................................................................................... 46 DEPOIS DA PARTILHA...A AUSÊNCIA E A SAUDADE .............................................................................................................. 58 LINHAS DE AMARGURA ............................................................................................................................................................. 66 A VOZ DO AMOR ......................................................................................................................................................................... 70 DE ENTRE MUITAS, UMA SÓ! .................................................................................................................................................... 82 O BONITO CHORO DA MINHA TRISTEZA ................................................................................................................................. 90 ESTADOS DE ALMA .................................................................................................................................................................... 96 ODE À AMIZADE ........................................................................................................................................................................ 102 ENTRE O NADA E O INFINITO . ................................................................................................................................................ 106 O PRINCÍPIO ORIGINAL ............................................................................................................................................................ 114 EIS O MEU MOMENTO .............................................................................................................................................................. 118 PEREGRINAÇÃO INTERIOR ..................................................................................................................................................... 120 COMO VEJO O MUNDO ............................................................................................................................................................ 134 CAMINHOS PARA O OCULTO .................................................................................................................................................. 152 O SENHOR DO VENTO ............................................................................................................................................................. 156 O APRESSADO ETERNO PRESENTE . .................................................................................................................................... 160 HÁ SEMPRE UMA HISTÓRIA PARA CONTAR ......................................................................................................................... 162 O IMPÉRIO INTERMEDIÁRIO DO ADEUS ................................................................................................................................ 166 SINTO-ME A DIZER ADEUS... TALVEZ O ÚLTIMO ... .............................................................................................................. 172 VÔO PARA A LIBERDADE . ....................................................................................................................................................... 176 — 181 —


CHI - Centro Holístico Internacional Rua da Bandeira, 103 - 2.º 4900-560 Viana do Castelo Telef. 258 825 292 email: chi_pt@hotmail.com www.chi.com.pt — 182 —


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Se...