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Torres del paine

O lugar mais

bonito do mundo?

Controvérsias existem e sempre existirão, mas, em qualquer lista das maravilhas do planeta, haverá um espaço reservado para Torres del Paine, na Patagônia chilena. Você vai saber porquê texto Geraldo silveira | fotos ricardo rollo

O incrível Lago Pehoé, com o Maciço del Paine e seus picos nevados, ao fundo. Um dos cartões postais do parque nacional de Torres del Paine

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agunas e lagos de água azul esverdeada, flora e fauna intrigantes, estepes, surpreendentes cachoeiras, montanhas nevadas, a mais de 3 mil metros de altura, picos de formas insólitas como estiletes afrontando o céu, glaciares com crescentes tons de azul. Em algumas poucas horas, estes diferentes cenários desfilaram à sua frente. Você para, olha mais um pouco e pensa alto: “É o lugar mais bonito do mundo”. E esteja certo de que não exagerou, seja essa sua primeira viagem ou mais uma entre as que você Vegetação típica da Patagônia, que resiste ao frio e ao vento forte e constante. Há também escolheu a dedo para desvendar as belezas do planeta. lagos, glaciares e paisagens insuperáveis, A edição de maio da Lonely Planet inglesa, matriz da nossa, como a do bar do Hotel Las Torres, no estampa na capa dupla uma foto panorâmica de Torres del Paine, coração do parque na Patagônia chilena, em toda a sua pujança. Embora não faça parte da reportagem “Os lugares mais bonitos do mundo”, ela rivaliza com as escolhidas pelos fotógrafos da revista, colocando-se em pé de igualdade com Petra, na Jordânia, com a região da Provença, na França, com a cidade italiana de Florença e com as ilhas Lewis e Harris, na costa ocidental da Escócia. Mas, para você, que acabou de chegar do fim do mundo, e continua arrebatado por imagens que teimam em ficar na memória, a disputa não faz sentido. Você sentiu-se um privilegiado por desfrutar de uma das regiões mais belas e preservadas do planeta.

reserva mundial da biosfera, o parque é um santuário respeitado pelos visitantes Com 242 mil hectares, o Parque Nacional Torres del Paine foi criado em 1959, em uma área anteriormente ocupada por fazendas de criação de ovelhas. Está a 125 km de Puerto Natales, uma cidade-dormitório que cresceu com a fama do parque, e a 360 km de Punta Arenas, cidade mais austral do Chile e única dotada de aeroporto internacional, capaz de receber visitantes do mundo inteiro. Declarado Reserva Mundial de Biosfera pela Unesco, em 1978, o parque fica na Província de Última Esperança, sugestivo nome, como a lembrar que o título conferido tornou o lugar intocável - original como todo o planeta deve ter sido um dia -, um dos raros que assim sobrevivem hoje. O conceito de santuário existe na prática. Os visitantes, que acampam nos refúgios existentes nos 250 quilômetros de trilhas da região, jovens europeus em sua maioria, carregam todos os detritos que produzem na jornada. Seria impossível para os guarda-parques vigiar tão extensa área, mas os trekkers costumam cooperar e praticamente nenhuma sujeira é encontrada ao longo do parque. Em compensação, o vento forte e constante pode ser um perigo para o surgimento de queimadas, como a de fevereiro de 2005, que começou na Laguna Sur, destruiu 11 mil hectares e durou todo um mês. E tudo por causa de um campista tcheco que cozinhava no local e acidentalmente provocou o incêndio, que se alastrou de maneira terrível. Por isso, há placas indicando onde é permitido fazer fogo. 42

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Oito lagos marcam as diferentes áreas do parque – o Del Toro é o maior deles -, cujas paisagens mudam de acordo com a altitude, que atinge os 3.050 metros no Paine Grande. Outros picos fascinantes são a Torre Sul, com 2.800 m, e o Cuerno Principal, 200 metros abaixo. E esse desfile de montanhas nevadas e picos desafiadores formam o impressionante Maciço del Paine, um quadrilátero de 400 quilômetros quadrados. O gelo está na origem dessa que é a mais jovem cordilheira do mundo – apenas 12 milhões de anos contra os 60 milhões dos Andes. Uma espetacular explosão dos subterrâneos da Terra gerou o maciço, que só ficou visível depois que a crosta de mil metros de gelo se liquefez, revelando então os vales e lagos de estranhas cores, e abrindo caminho para o surgimento das torres e dos cuernos, que hipnotizam viajantes do mundo inteiro. Em crescimento

Quem entra pela Guardería Laguna Amarga, de águas esverdeadas, começa a ter uma ideia do que o espera, principalmente se o tempo ajudar. Flamingos Acima, as famosas torres que dão nome ao observam de longe, quietos, a passagem dos carros. Guanacos, primos das lhamas, e parque. À esquerda, ao alto, o Salto Grande e nhandus, parentes dos avestruzes, espiam o movimento, enquanto os condores seu eterno arco-íris. A criação de ovelhas parecem vigiar tudo, bem do alto. Difícil mesmo será encontrar os pumas, que só descem à ainda domina região, enquanto os gaúchos (pronuncia-se gáuchos) noite para caçar. Mas o crepúsculo pode trazer um céu de cores vibrantes e nuvens com mostram suas habilidades com os vocação de desenho animado, criando formas inusitadas, enquanto as noites claras vão reunir cavalos. Sô no Hotel Las Torres há a maior concentração de estrelas que você já viu na vida. 130 para delícia dos hóspedes. A impressão não será diferente se a chegada ocorrer por outras das quatro entradas. A principal fica na boca do Lago del Toro, onde está a sede da Conaf (Corporação Nacional Florestal), que administra o parque, mas a de maior movimento é a do Lago Sarmiento, a mais próxima de Puerto Natales, de onde chegam os ônibus de excursão. Quem escolheu um dos quatro hotéis do parque – ou um dos três nos limites – vêm de carro próprio ou em vans dos anfitriões, que os recebem em Punta Arenas, na alta temporada. Para superar as mais de cinco horas de viagem, nada como a parada para almoço na Estância Cerro Negro, pertencente ao Hotel Las Torres. Uma ótima oportunidade para experimentar a cozinha regional e ver de perto o trabalho dos cães pastores e dos gaúchos que cuidam do rebanho de cinco mil ovelhas. Se a opção for por Puerto Natales, há excursões diárias para o parque, que podem ser compradas nas agências locais. A entrada custa 30 dólares e vale por três dias. E para os mochileiros em busca deste paraíso do trekking, há

PICOS DESAFIADORES, A MAIS DE 3 MIL METROS, E OITO LAGOS MOLDARAM UM VISUAL único 44

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A Suíça de Guilherme Tell Ele é suíço, tem alma de brasileiro e Torres del Paine passou a fazer parte de sua vida, desde que sua filha mais velha instalou-se na vizinha Puerto Natales, há seis anos. Rolf Burgermeister, ou simplemente Bugi, como ele gosta de ser chamado, vem todos os anos ao Chile para visitá-la e aos netos Leon, de 3 anos, e Manuel, de três meses, filhos de Sandra e Max Salas, atual governador da província de Última Esperanza. Tem orgulho do restaurante da filha – “faz a melhor pizza da Patagônia” – e encanta-se com o parque nacional. “Para um suíço, Torres del Paine não deveria ser nada de muito especial, não é? Errado! O que é tão especial não é o que esta lá, mas o que falta. Felizmente, faltam os hotéis em todo canto, os teleféricos e os trenzinhos subindo cada colina. Faltam as casas particulares que impedem o acesso à praia dos lagos, faltam as placas de “camping proibido”. O parque me parece a Suíça do tempo do Guilherme Tell, quer dizer, de 700 anos atrás, mas com guanacos, flamingos e condores de sobra”, compara. Se a ligação com as coisas chilenas é recente, o Brasil não lhe sai da cabeça. E, principalmente, do coração. “Quando ouvi ‘Leãozinho’, aquela canção do Caetano Veloso, lembrei do meu netinho e chorei”, conta, emocionado, Bugi. Todo esse amor começou em 1958, quando deixou a Suíça, aos 22 anos, para vir trabalhar em uma fábrica de relógios em São Paulo. Passou seis anos no Brasil, aprendeu português, a gostar do Santos de Pelé e a considerar-se brasileiro. Em 1976, trouxe a então namorada Brigitte ao Rio de Janeiro. Ela adorou a cidade e o país, razão mais do que suficiente para que ele a pedisse em casamento. Aos pés do Cristo Redentor. Da união, nasceram Sandra, 33 bons refúgios e campings dentro da anos, e Manuela, 31, que o fizeram se fixar na Suíça, onde trabalhou na IBM até se aposentar, em 1994. Em Bollingen, cidade de 6 mil habitantes em que vive, perto da capital Berna, não perdeu em nenhum momento reserva, funcionando de setembro a abril. o contato com as coisas do Brasil. De 1985 até três anos atrás, passou a visitar e dar apoio a presas O fato é: a procura aumenta e a estrutura brasileiras, detidas como “mulas” (que levam as drogas dos traficantes), em Hildebank, a 20 minutos melhora. Puerto Natales beneficiou-se do de sua casa. Foi a forma que encontrou para ajudar as prisioneiras, todas muito jovens e solitárias, e crescimento de visitantes e ampliou, quantitativa melhorar o seu português, já enferrujado. e qualitativamente, a sua rede hoteleira, uma vez O ténis foi outro elo com o Brasil. Ele não perdia o torneio profissional de Gstaad e acabou que os estabelecimentos do parque não comportam o fazendo amizade com os brasileiros que, nos anos 80, iam lá jogar, como João Soares, Marcos Hocevar e Carlos Kirmayr, entre outros. Agora, no final de julho, voltou à cidade, desta número de interessados em se hospedar lá. O aumento vez para torcer por Thomas Belucci, o brasileiro melhor colocado no ranking mundial. de visitantes tem sido de 10% ao ano, o que representou “Lá estava eu na arquibancada, bandeira brasileira na mão, apoiando o Thomas. E mais de 120 mil turistas em 2009. justamente contra um suíço (Marcos Chiudinelli, tenista local que eliminou Belucci),” diverte-se Bugi. Dentro do parque Aos 74 anos, tem vindo com frequência ao Brasil. Nos últimos dois anos, A experiência pioneira em hospedagem foi da Hostería deu cursos na Escola Suíço-Brasileira, em São Paulo, sobre gerenciamento de empresas, “Não queria mais trabalhar, mas quando chega o convite e Pehoé, situada em uma ilhota dentro do lago que lhe dá nome, em dizem que é no Brasil, não resisto”, diz. 1959. Deu tão certo que outros três estabelecimentos vieram lhe

fazer companhia. O mais sofisticado é o Explora, com suas grandes janelas em forma de painéis, permitindo ao hóspede apreciar a Os guanacos, parentes das lhamas, estão paisagem de qualquer parte do hotel. Em contrapartida, a Hostería Lago espalhados por todo o parque. E o glaciar Grey, com sua localização privilegiada, perto do glaciar, é ponto de saída Grey, com seus 270 quilômetros para quem faz o cruzeiro pelas geleiras. quadrados de exensão, tem paredes de até 40 metros de altura. Já o Hotel Las Torres, o único privado, está no coração do parque, defronte às famosas torres. No último ano chegou a receber 10 mil hóspedes, sendo que a ocupação dos seus 84 quartos atingiu 85% na alta temporada, quando coloca em ação 150 funcionários. Na divisa, estão o novíssimo Patagonia Camp e o Hotel Río Serrano. O primeiro inova, com seus 18 yurts – imitação de tendas das tribos nômades mongóis. Na verdade,

Há boa oferta de hotéis no parque. para os que querem caminhar, refúgios e campings são pequenos edifícios, armados sobre grandes pedaços de madeira, com janelas de vidro arredondadas e a possibilidade de desfrutar uma visão completa das incríveis noites patagônicas. O segundo, mais tradicional, tem quartos confortáveis e um atendimento de primeira. Os mais jovens vão ao parque em busca de trilhas e aventura, e por isso preferem os refúgios, não só pelos preços mais palatáveis, mas principalmente pelo ambiente e camaradagem que se forma ao longo da estadia. As noites são bem animadas, com os andarilhos se reunindo para contar as proezas do dia. O Fantástico Sur tem três deles. O principal, também próximo às torres, tem mais de 60 quartos com beliches e pode alojar até seis pessoas em cada um. O responsável é Josian Yaksic, de 29 anos, presidente do diretório do Hotel Las Torres e do refúgio, outro jovem executivo do clã croata estabelecido na região. “Eles servem como base para a caminhada. Os trekkers podem sair daqui, fazer uma parada para descanso em outro e até ficar num camping se quiserem”, explica. Os refúgios têm estrutura completa, com restaurantes simples, mas que oferecem inclusive comida vegetariana (US$ 15 dólares por refeição). 46

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As torres croatas Antonio Kusanovic Jercic tinha apenas 15 anos quando desembarcou na gelada Punta Arenas, em 1905. Ele fazia parte de uma nova leva de croatas que vinha tentar a sorte na Patagônia, atraída por benesses do governo chileno, preocupado com a escassa ocupação da região magalhânica. A adaptação dos imigrantes foi surpreendente. Nove anos depois, já eram dois mil, cifra que representava 10% da população do extremo sul do Chile. A influência da colônia cresceu e consolidou-se ao longo dos anos, ao ponto de, atualmente, metade da população da cidade de 160 mil habitantes ser de origem croata. O pioneiro Jercic saiu-se bem e seus passos foram seguidos pelo filho, também Antonio, nascido em 1926. Ele tornou-se um criador de gado de sucesso e, nos fins dos anos 1970, comprou a Estância Cerro Paine, no coração do parque nacional. Até 1900, a região era desconhecida e desabitada. A ocupação começou nos anos 20, e um francês registrou o terreno que ficava defronte às torres. Nos anos 60, ele o vendeu a Juan Radic, também de origem croata, que acabou repassando-o a Antonio Kusanovic Senkovic, em 1979. A ideia era expandir a criação de animais, aproveitando a extensão e as boas condições da propriedade. E até 1992, só os novilhos, cavalos e alguns poucos trabalhadores podiam desfrutar a beleza daquela parte do parque nacional. Foi nessa época que o turismo chegou à região, ainda que de forma incipiente. Eram alpinistas, que procuravam a estância para alugar cavalos para transporte de equipamento, trekkers ou amantes da natureza, atraídos ao local pela incrível paisagem. Nesse ano, Antonio e a mulher Amor Eliana Marusic tiveram um estalo: já que a cada dia mais gente Os sete campings espalhados pelo chegava querendo hospedar-se e comer, por que então não construir uma pousada? Nascia a Hosteria parque praticam preços ainda melhores, Las Torres, com nove habitações e um pequeno restaurante. embora exijam mais desprendimento dos Não é preciso muito esforço para adivinhar que o negócio prosperou. Em 1995, já eram 30 quartos caminhantes, sendo possível alugar barraca e e muito potencial para crescer, o que acabou ocorrendo, mesmo com a morte de “don” Antonio, saco de dormir no próprio lugar ou em Puerto dois anos depois. Amor tomou a liderança do empreendimento e, ao lado dos quatro filhos – Liliana, Mauricio, Jose Antonio e Vesna -, transformou a pequena hosteria num hotel elegante Natales, onde o custo é mais baixo. De qualquer de montanha, de 84 quartos, distribuído em cinco edifícios, com restaurante, bar e uma maneira, se a estadia planejada for longa, fique vista que não tem preço. “Somos o único hotel privado dentro do parque. Os outros três – preparado para desembolsar um bom dinheiro. Explora, Pehoe e Gray – ganharam concessões de 20 anos do governo”, conta o jovem Há uma infinidade de circuitos no parque dentro dos Maurício Kusanovic Olate, 27 anos, neto do criador e gerente comercial. O Las Torres 250 km de trilhas demarcadas. Inclusive dá para montar o recebe uma média anual de 10 mil hóspedes, a maioria na faixa dos 40 a 60 anos, próprio percurso, de acordo com seu interesse, tempo notadamente europeus, com predominância de ingleses, alemães, franceses, italianos e espanhóis. “Eles respondem por 60% da ocupação, cabendo 20% disponível ou condição física, desde que se respeitem as aos norte-americanos e 15% aos latino-americanos. Destes últimos, o Brasil sinalizações da Conaf. E, por mais duro que seja o trajeto é o que mais turistas manda ao parque, mas não na quantidade que escolhido, uma coisa é certa: o visual vai sempre valer o esforço. desejaríamos”, diz Maurício, de olho no promissor mercado brasileiro.

As trilhas preferidas

A recomendação básica da Conaf é que os trekkers evitem O Hotel Las Torres, como diz o nome, caminhadas solitárias, o que não é difícil, especialmente no verão, está aos pés dos famosos picos. A quando muitos grupos saem dos refúgios e campings em busca de prazer e paisagem, de qualquer ángulo, é desafio. Os mais experientes, ansiosos por poder tocar nos pontos mais altos deslumbrante. Conforto e bom atendimento são marcas do das torres, precisam estar em grupo e pagar uma taxa à administração, que varia estabelecimento, administrado de acordo com o número de pessoas. por uma família croata Ao longo dos anos, três percursos acabaram se tornando os mais procurados, pois preenchem os anseios e expectativas da grande maioria dos praticantes. Para quem vai ficar apenas um dia, o Circuito Base Las Torres é o ideal, embora sua dificuldade seja média-alta. Ele pode começar na Guardería Laguna Amarga ou no Hotel Las Torres, de onde se caminha quatro horas, em aclive, até chegar aos pés dos famosos picos, onde há um mirante e um lago de águas transparentes que refletem toda a imponência dos símbolosmor do parque. O trajeto mais famoso é o Circuito W, de 50 km e dificuldade média, que pode ser cumprido em três ou quatro dias, dependendo do ritmo da caminhada e das condições climáticas. Geralmente o ponto de partida e chegada é o Hotel Las Torres ou o Camping Refúgio Lago Pehoé, mas pode variar para locais que formem um percurso na forma de um W. No meio da letra, está o Valle del Francés, para muitos considerado o lugar com a paisagem mais espetacular do parque. Estando nele não é exagero perder o fôlego, literalmente, com o visual de lagos, glaciares e dos Cuernos del Paine. O mais longo, que consiste na volta completa em torno das torres e dos cuernos, é o Circuito Cordilheira Paine ou, simplesmente, Circuito O. A saída e chegada podem ser na Laguna Amarga ou no Lago Pehoé, mas o percurso deve ser feito em sentido horário e costuma exigir de uma semana a dez dias dos trekkers. Em média, serão percorridos 93 km, em altitudes que podem chegar a 1.400 metros. No caminho, as recompensas: orquídeas, animais nativos, rios, vales, bosques, lagos e blocos milenares de gelo.

o parque, com seus 250 km de trilhas demarcadas, é o paraíso dos trekkers 48

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Parada para o lanche em um dos campings. Ao longe, os cuernos, chifres de granito, que parecem estiletes. O zorro gris, primo da raposa, pode ser encontrado com facilidade, principalmente nas proximidades do Lago Grey, de onde partem os pequenos cruzeiros

Se o preparo e a disposição não forem os mesmos dos jovens ou dos praticantes experientes, há passeios bem mais sossegados, que esquadrinham todo o parque, e que vão arrancar exclamações tão entusiasmadas quanto a dos intrépidos caminhantes. Dá para escolher roteiros diferentes por uma semana, sem que a monotonia passe por perto. O Hotel Las Torres, por exemplo, tem 19 trilhas mistas, feitas a cavalo, a pé, de carro e de catamarã. Para quem tem apenas um dia, o melhor é o que sai da entrada da Laguna Amarga e segue para o Lago Grey, percorrendo quase 100 quilômetros, a maior parte em carro. Há várias paradas para observação, para tirar milhares de fotos, espantar-se com as diferentes paisagens até não se conter e usar todos os clichês conhecidos sobre as “maravilhas da natureza intocada”. Desta vez, mais do que justificados. Nessa altura, você já se deslumbrou com as torres, surpreendeu-se com o Salto Grande e seus arco-íris – e pensar que a queda d’água está condenada pela erosão -, não acreditou na beleza do Lago Pehoé, com suas águas límpidas e esverdeadas, e admirou comovido os Cuernos, os enormes chifres de granito que dominam a paisagem. A parte final do programa, o passeio pelo Lago e Glaciar Grey, é irrepreensível. O pequeno catamarã parte da hosteria, onde os zorros gris, misto de cachorro e raposa, aparecem com frequência, como a dar boas vindas aos visitantes. O glaciar, uma imensa geleira de 270 quilômetros quadrados, no noroeste do parque, é uma ponta ao sul do gigantesco Campo de Gelo Patagônico Sul, a terceira maior reserva de água doce

o glaciar grey recua 85 metros todo ano e pode provocar nova tragédia ambiental do planeta, do qual fazem parte o Glaciar Perito Moreno, na Argentina, e o Glaciar Pio XI, no vizinho Parque Bernardo O’Higgins. O preocupante é que, a cada ano, o Grey recua de 80 a 85 metros, e o espetáculo fascinante do desprendimento dos blocos pode virar tragédia ambiental a longo prazo. Partindo do lago, que ganhou esse nome pela cor cinza do calcário e dos sedimentos que se acumulam no fundo, até à primeira formação de gelo leva-se uma hora. Blocos imensos começam a aparecer amiúde, driblados pelo navio, que para a cerca de 200 metros do glaciar. A primeira visão, de arrepiar, são de paredes pontiagudas, de até 30 metros de altura. Depois, por mais de uma hora, há um desfile de formas inusitadas, com o surgimento de novos paredões, cavernas e túneis, em tons de azul que vão do quase branco ao mais escuro. Três horas depois, fim do passeio. Hora de voltar, trocar impressões com os companheiros de viagem, passar em revista tudo o que viu e chegar à singela conclusão: “Estive no lugar mais bonito do mundo”. LP 50

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