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Tatuagens

Chico Moura

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TATUAGENS na ica r ĂŠ Am

chicomoura@gmail.com


Copyright© Chico Moura 2007 Capa: Pintura de Romero Britto

Chico Moura

Editoração eletrônica: Tavane Reichert Machado

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Revisão: Maria Tereza de Queiroz Piacentini Chico Moura Tel: (305) 303-5665 e-mail: chicomoura@gmail.com P.O. Box 545802 Surfiside, FL - 33154 - USA Printed in Brazil 2007 Editora Nova Prova


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“A palavra nĂŁo foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizerâ€?. (Graciliano Ramos em entrevista no ano de 1948)


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Agradecimentos: José Sales, Marcelo Netto, Tony Samour, Rosália Galdi, Orlando Moreira, Edilberto Mendes, Elmo Almeida Costa, Silvio Anspach, Tavane Machado, Elizeth Gonçalves, Arnaldo de Barros e principalmente à minha revisora Maria Tereza de Queiroz Piacentini


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Sumário

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A tatuagem na cela O olho e a tatuagem Bilu A tatuagem da morte A cicatriz na carne Os heróis da guerra A tatuagem da loucura Newark A prisão Trabalhos e mais trabalhos Goldie Kein Benito Romero Atitude De volta ao Brasil A segunda volta ao Brasil Ferry Street João Gilberto e Jota Alves Marcos Cardoso dos Santos A segunda volta ao Brasil A tatuagem baiana Jornal, a maior tatuagem A lei da vantagem A venda do carro A terceira mudança par os states Cachorro vira-lata O catatônico O Banco East 65 street Starlight Na rua 46 a marca da presença brasileira


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John Lennon Amigos Jackson Hole Martini Sophisticated Ladies Roberto e Lotte Brasileiros em Manhattan TV Globo João Resende Lembranças do Brasil As pesacrias Primeiro Torneio de futebol A Tatuagem do aborto Em Miami Rosalia Galdi Monark Travel A segunda separação Paracuru, a terceira volta ao Brasil O tiro Cuecas ao vento A quarta volta aos states Al Sousa Gilberto Manzano Pintado Pablito Little big man Play House Halloween Brazil Review Florida Review Fevereiro de 85 A temporada em Orlando O terceiro casamento março de 86 abril de 86 Flavius Ferrari Julho de 86 Agosto de 86 Setembro de 86 Roberto Bechtinger Outubro de 86 Rogaciano Leite O Sonho de Trabalhar em Jornal


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Novembro de 86 Dezembro de 86 1987 Romero Britto Outubro de 87 1988 Made in Brazil Ainda em 88 Cadela amamenta criança no Brasil Separação Depoimentos de Rosália Galdi Janeiro de 1989 New York Portugal Paulo Rollo O Ego Ainda 1989 ABAV 1989 Titto Santos Namoros e mais namoros A última vez que vi La Barros Entrevistando os Rolling Stones Gerson Delano Aecio Ramos 1990 Os brasileiros do norte Cinco anos de jornal El Capitan Navio Escola Brasil em Miami Ainda em 1990 Circulação Festa da Independência A chave da cidade e o livro de Zico Professor Cauby 1991 Primeiro Programa de Tv em português Ainda em 1991 Carlos Borges Adão Meireles Tânia Leite Antonio Carlos da Silva A venda do jornal Rodrigo Soares

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Final de 91 A nova sede do jornal A quarta esposa Rio Times, o terceiro jornal American Times, o quarto jornal Churrascarias O primeiro programa de rádio de Orlando A saída de orlando Programa de Rádio em Miami Brazilian Sun, o quinto jornal Exodum Bananus 1997 Japão Coréia 1998 Julho de 1999 Luso Brasileiro o sexto jornal O caso do quadro Os dedos coçam, a cabeça viaja


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Tatuagens na América

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A trajetória de um imigrante brasileiro nos Estados Unidos narra uma história de vida ou uma vida de histórias? Na verdade, ambas se encontram no livro de Chico Moura. À medida que avança, página a página, envolvendo-se com a narrativa, o leitor quase esquece que o livro não é ficção, mas sim um relato autobiográfico, apresentado cronologicamente, de 1972 a 2004. Que vida interessante tem o Chico! Chama a atenção como ele lida bem com a instabilidade. É quase como se ele precisasse dela, como se uma vida muito estável o aborrecesse. Segundo o que ele próprio me disse, a culpa é da tal da endorfina – droga natural do ser humano, que proporciona um enorme prazer. E parece que o escritor a sente quando tudo está quase explodindo! Aí ele se concentra e resolve o que tem para resolver. E é nesse vai-e-vem que se vão criando as tatuagens de Chico. Entre Brasil (Salvador, Rio, Ceará) e Estados Unidos (New Jersey, Miami, New York), passando por Portugal (Lisboa), Chico compartilha conosco importantes episódios que marcam sua pele, seu espírito, seu coração. Chico Moura foi limpador de peixe, descarregador de caminhão, lavador de pratos, entregador de pizza, de móveis, aparador de solda, polidor de metais, de caixa de som, de botões, food runner (fazia sanduíches), recepcionista de hotel, entrevistador/repórter, fez programas de rádio, de televisão, foi guia turístico, motorista de táxi, analista de crédito internacional, jornalista... e o mais curioso: não exatamente nessa ordem! Talvez seja esse seu ecletismo uma das coisas que faz do autor deste livro alguém especial, uma pessoa com quem você tem vontade de conversar. Sem conhecê-lo, foi o que senti ao terminar de ler o livro. E, seguindo um impulso – como fez Chico tantas vezes –, lhe escrevi um e-mail dividindo parte da minha emoção. O resultado? Convite para escrever este prefácio! É... parece que se deixar levar por impulsos pode


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ser bem interessante. Foi o que se passou com Chico inúmeras vezes... ou ele não teria encontrado as pessoas interessantes que conheceu, não teria ido aos lugares onde esteve, não seria o ser humano fascinante que é. O livro também constitui um registro histórico importante, tanto pela narrativa quanto pelas fotos que apresenta. Hoje as novelas retratam o american dream. Nos anos 70, Chico Moura teve coragem de partir para a América e nos conta um pouco da história desses brasileiros que foram à luta e fizeram a vida nos Estados Unidos. Pode-se saber quem passou por lá, quem ficou, quem voltou, e mesmo quais foram os encontros e reencontros que aconteceram. As primeiras comunidades brasileiras, os restaurantes brasileiros de ontem e de hoje, os eventos culturais e sociais que reuniam o pessoal, sem falar da importante contribuição dos primeiros jornais para os seus compatriotas, que os deixavam a par das novas empresas fundadas por brasileiros, da chegada de brasileiros notáveis, da realização de torneios esportivos, festivais (como o de cinema) e feiras (como a do livro)... Para além do que já foi registrado no Brazil Review, Florida Review, Brazilian Sun – alguns dos periódicos criados por Chico Moura –, neste livro os acontecimentos ganham a grandeza de nos serem contados por alguém que participou de cada um efetivamente. E, ao nos fazer pensar sobre a vida e seus caminhos, a leitura acaba nos deixando marcas também! O avanço da ciência já nos permite voltar atrás e tirar uma tatuagem feita em outros tempos e que hoje já não signifique muito. Mas as tatuagens de Chico não são assim. E muito menos perdem seu significado. Estas ficam na alma. Para sempre. Dulce de Queiroz Piacentini


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O ano: 1973. Final da guerra do Vietnam. Em New York as camisetas estampavam: He lied [Ele mentiu]. Embora reeleito em novembro de 72, Nixon tentou encobrir o escândalo de Watergate (em 73), mas as camisetas (um dia antes dos jornais) estampavam em letras garrafais: HE LIED! Nunca imaginei que a velocidade do silk screen no Village fosse maior do que as gráficas de jornais. Em março de 1973 as últimas tropas americanas deixavam o Vietnam. O agente laranja – napalm – destruindo enormes áreas em Saigon. Os veteranos drogados invadiam os bares nas ruas de Paterson, New Jersey. A cela com 20 camas do tipo beliche era ocupada por 15 prisioneiros que aguardavam julgamento: sete americanos (três negros e quatro brancos), um europeu (gay), eu e seis porto-riquenhos que, como num mantra, não paravam de cantar “Maria, Morena Maria Morena, Morena Maria”. A princípio pensei se tratar de um plágio da música de Dorival Caymmi: Marina, Morena Marina, Você se Pintou... Com o tempo fui descobrindo que eram mensagens que eles enviavam para a tal Maria. Maria mañana tu vas a traer el paquete, Maria Morena, Morena Maria, mañana a las três de la tarde. Maria Morena. Enquanto cantavam, um deles sobe numa escada humana pelas paredes da cela número 32 do Passaic County Jail (Penitenciária do Condado de Passaic) até chegar a uma pequena janela e canta mais alto para que a Maria traga logo a encomenda. Amanhã, às três horas da tarde. Os 15 prisioneiros esperavam julgamento por tempo indeterminado: um Grand Jury decidiria o famoso Guilty – Not Guilty, para em seguida o juiz determinar quanto tempo cada um teria de cumprir. Se o crime fosse mais grave, haveria a transferência para uma penitenciária federal ou de segurança máxima. Em sua maioria, os crimes nos Estados Unidos são afiançáveis, excetuando-se os cometidos contra a segurança nacional, a vida do Presidente e outros. No meu caso, com um bail de 30 dólares (dez por cento do crime) tudo estaria resolvido.


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Passaic County Jail, no Estado de New Jersey, a prisão onde começaram as TATUAGENS.

Como não o tinha, lá estava eu no meio de assassinos, ladrões, pederastas e drogados. Os três negros quase não se falavam. Conversavam com os olhos. Os brancos americanos permaneciam deitados. O europeu já era meu conhecido. Foi companheiro de cela no distrito que me deteve as primeiras 24 horas. Era um travesti todo maquiado, com enormes unhas e dentes postiços. Não sabia se era russo, búlgaro ou tcheco. O pouco que falava mostrava aquele sotaque que, para nós brasileiros, distingue dos europeus. Tinha umas mãos enormes. O salto alto e a cabeleira aumentavam ainda mais os seus dois metros de altura. Parecia o protagonista de um filme de terror, personagem de um pesadelo. — E aí, hermano? Cual fue tu bronca? — perguntou um porto-riquenho. Eu, com cara de cearense, passava muito bem como porto-riquenho e daí o primeiro respeito. —Tuvo un problema con un auto. — Robó carro nuevo o viejo? —Nuevo. Como nos filmes, aprendi que bandido tinha que falar pouco. — Donde puedo dormir? — Puede coger qualquiera de estas camas — e apontou para os beliches. Escolhi a parte de cima de um beliche. Embaixo, um americano louro dormia. Com o tempo fui descobrindo que ele era o mais temido e respeitado. Não era forte nem fraco. Simpático, sempre inventava um jogo novo. Foi ele quem ensinou nos meus 26 anos de idade a jogar o pôquer de sete cartas. No Brasil eu só conhecia aquele tradicional de cinco cartas. Pelo respeito, deveria ser veterano de guerra. Tudo indicava que havia matado mais gente do que todos os outros juntos.


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Voltei dez anos de minha vida e lembrei do Michael Karfunkelstein. Ele morava em frente à minha casa em Ipanema, no Rio de Janeiro. Lá nos reuníamos para as primeiras partidas de pôquer. Lembrei do italiano Maurício Di Pietro, tranqüilo, ganhando todas, quando de repente o Celso Vieira Lima vai ao banheiro e volta com um produto alemão, recém-chegado no Brasil, para depilar cabelos. Gaby, a irmã de Michael, usava para os pêlos das pernas. Celso esvazia o vidro na cabeça do Maurício que fica imediatamente careca. O pôquer sumiu da casa do Michael por uns tempos, voltando anos mais tarde ao clube Umuarama, na Gávea. Sentado na beirada da cama, viajei no espaço. Ipanema era o meu bálsamo, a minha fuga. Era o único, verdadeiro momento de prazer que iria sonhar e reviver nos próximos 30 anos de Estados Unidos – hoje, nada comparado àquele Rio de Janeiro que vivi de 1948 a 1972. Qualquer nova tatuagem não iria representar mais alegria do que os anos dourados de Ipanema. O branco acordou: — Quem está aí em cima? — Sou eu. Até aquele momento, não tinha conseguido dormir. Os olhos fixos no teto me levaram de volta a Ipanema. — Eu quem? Dei um pulo da cama e me apresentei. — Nice to meet you. — Quer jogar pôquer? — Não sei jogar com sete cartas. — É fácil. Com a roda aumentando, notei que um dos negros fumava um cigarro. Eu, doido por uma guimba, disse: — Lá na minha terra, no Brasil, a gente chama este pedacinho aqui de guimba, ou de vinte. Você me dá estas vinte? — Vinte? Quaquaquaquá. E ficou me olhando. Sem tirar os olhos de mim, jogou o cigarro no chão e pisou. Eu não sabia o que fazer. A primeira confusão formada. Saí do jogo e fui para minha cama. À tarde o officer vai chamando as pessoas pelo nome: — Francisco Moura! — Yes, sir. — Twenty two dollars. Where is the list? — What list? Então aprendi que poderia comprar qualquer coisa com os 22 dólares que tinha no bolso. Na hora do famoso finger prints, após a troca de roupa, eles recolhem tudo o que se tem nos bolsos: relógio, aliança,

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cordão, chapéu... Tudo. O dinheiro é retirado da carteira e contado na frente do prisioneiro, que assina um documento atestando os valores. Com dinheiro em caixa, pedi escova de dente, pasta, papel higiênico, desodorante, sabonete e um maço de Marlboro. E ainda sobraria algum para os telefonemas. Já no dia seguinte, após pagar 20 flexões pelo jogo de pôquer perdido, estava calmamente fumando, quando o mesmo negro que se recusou a me dar as vinte pede um cigarro. — Espera um pouco. Agora estou jogando. Ao terminar, olhei para ele, joguei o resto do cigarro no chão, apaguei e voltei para minha cama. A partir daquele momento tinha que ficar de olho naquele negão. — E como foi mesmo o caso do carro? — me perguntou outro porto-riquenho. Eu tinha que inventar uma história, rápido. Entre os americanos, três eram drogados. Entraram viajando de ácido lisérgico (LSD) e riam o tempo todo. Era um riso nervoso, estranho. Eram chamados duas vezes ao dia para uma avaliação médica. Os porto-riquenhos eram todos bandidos. Cada um tinha uma história pior que a do outro. O americano louro era do tipo mafioso, respeitado. Nunca soube exatamente quantos crimes havia cometido. Sabia que era veterano de guerra, intocável. O travesti tinha sempre alguma coisa na mão para se defender. Eu pensava logo em gilete. Os grupos não se misturavam. Os negros, calados. — Eu levei um carro de Jersey City para Paterson. E eles me prenderam. Foi só. Não se interessaram muito pelo meu caso. A saudade dos filhos aumentou. O fio da navalha cortava mais uma vez. As tatuagens começavam a rasgar a alma. A dor da solidão, da incerteza. O american dream destruído. Com a dor e o sofrimento, a vergonha de estar preso, misturado com bandidos, que não tinham nada, absolutamente nada, a ver comigo.

A TATUAGEM NA CELA Ainda pensando na tristeza da alma, olhei para o canto da cela onde os porto-riquenhos, todos acocorados, faziam uma pequena fogueira. Cortaram em tiras um pedaço de jornal e num prato de alumínio misturavam as cinzas com uma tinta azul da parede. A minha curiosidade aumentou. Pulei da cama e fui ver de perto. — Puedo mirar? — Lógico, hermano. Sabe hacer un tatoo?


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— No, en realidad no sé. — Sabe dibujar? — Muy mal. Tal vez un butterfly. Estávamos vivendo a época do filme de Dustin Hoffman e Steve Mc Queen: Papillon. A borboleta tinha tudo a ver com aquele momento. Desenhei mais ou menos uma borboleta (no formato de um coração) no braço de um dos porto-riquenhos e eles deram continuidade. Dois alfinetes eram amarrados com uma linha de costura que, a cada banho na pasta azul, seguia o desenho de uma borboleta. A parede tinha uma pintura azul, depois descascada, onde a tinta era misturada às cinzas do jornal com álcool. Tudo poderia ser legalmente comprado — através do policial do dia —, a pequena garrafinha de álcool, os alfinetes, o jornal e o fósforo. A tinta da parede era o único ingrediente que não se comprava. E ali estava todo o princípio de uma tatuagem na prisão. Naquele final de ano — 1973 — pensei em escrever um livro que poderia se chamar A TATUAGEM DA ALMA. Voltei para minha cama e no tempo... Fechei os olhos e fui ao ano anterior. 30 de junho de 1972 — O avião da PanAm não estava muito cheio. De terno e gravata, eu levava no colo um filho de dois anos, superagitado, e a esposa num tubinho míni. No aeroporto Kennedy, o Odorico, namorado da minha sogra, esperava olhando o relógio. Tinha que voltar correndo para a fábrica onde trabalhava. — Vocês tiveram sorte da gente vir buscar vocês. Aqui todo mundo trabalha. Os dois não paravam de falar. Com o tempo fui encontrando na América pessoas parecidas. Pensei que os longos anos de solidão, de saudade, é que criam aquele momento de verborréia. De cara, o casal já foi logo dizendo como era o sistema. O Odorico ia falando no carro e eu fazia força para escutar. Após algum tempo me desliguei. Só prestava atenção no tamanho dos carros, nas estradas, na vegetação. Achava tudo aquilo diferente, grande, bonito. Ao chegar em Paterson, New Jersey, não reparei na pequena metade de uma casa, nem tampouco no grande armário de roupas (closet) que foi transformado em nosso quarto de dormir. O que me impressionava era o cheiro. A América tinha um cheiro diferente. O papel cheirava diferente, os produtos de limpeza, o tapete, o carro, tudo cheirava diferente. Tinha um pinheiro pendurado no espelho retrovisor que dava uma falsa impressão de limpeza. Na casa, os tapetes no banheiro eram lindos, tudo colorido. O talco para os tapetes que tirava o cheiro dos gatos. A água corria na privada em direção contrária à do Brasil. Tudo novo. Os outdoors (que depois aprendi se chamarem billboards) coloridos, o bombardeamento de cores. O Odorico acordava às 6 horas da manhã para trabalhar. No se-

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gundo dia de América, me conseguiu um emprego na mesma fábrica onde era motorista de caminhão. Fazia entrega de máquinas pesadas de inspeção de tecidos. Pela quantidade de rios, que geravam energia, Paterson, cidade criada no ano de 1790, foi a capital das fábricas de tecidos. A chamada Silk City. Depois, com a chegada de outras fontes de energia, a cidade parecia um palco de filmagens de Hollywood, com enormes armazéns desativados, vidros quebrados, carros abandonados pelas ruas. O perfeito cenário para o Robocop. A população era composta de russos, italianos e polacos. Pouquíssimos brasileiros de Ponta Grossa (PR), Pelotas/Porto Alegre (RS) ou Belém do Pará. Após a vida em Ipanema, Leblon, as tardes no Arpoador, seguidas do chopinho gelado no Bar Veloso, no Jangadeiros. Após as festas de sexta e sábado na AABB e Monte Líbano, os fins-de-semana em Búzios, os mergulhos em Angra, as festas do Higino em Teresópolis, do Quitandinha em Petrópolis, as viagens para o Jequitimar, Guarujá, as noites de orgia no apartamento dos amigos do Posto Seis, no apartamento do Leblon, os colegas da faculdade de Direito, os companheiros do trabalho no Serpro (Caniné, Vergara, Nelsinho, Ronaldo Panayotis Contopoulos, Hélio Costa), as noites de curtição na rua República do Peru (Copacabana), com Nelsinho Soares de Oliveira, Cadu, Paulinho Rangel, Cezinha, Garrincha... Em Ipanema a pulada de muro para a casa do Tom Jobim (meu vizinho), as noites com os “canalhas”– era como meu pai chamava meus amigos - Paulo Ypiranga, Leo Ferreira, Mauricinho Monjardim, Feliz Kronig, Beto e Celso Vieira Lima, Paulinho Galinha, Paulinho Morizot, Nuno Leal, Pancho, Munir Helayel, Marco Varela, Caju, Gil Paraíba, Gil Morcego, tanta gente... A lembrança do Futebol à Fantasia no último dia do ano, nas areias da praia em frente da rua Montenegro – onde o pré-requisito era estar vestido de mulher e literalmente bêbado. Após os dias ensolarados de praia no Castelinho, das grandes ondas (jacarés), depois de muitas e muitas namoradas, me vejo casado, pai de um filho, trabalhando numa fábrica como mecânico de máquinas têxteis.

O OLHO E A TATUAGEM Nos primeiros dias fui trabalhar num torno, como aparador de solda. As peças eram soldadas e passavam por uma linha de produção que eu chamava art work. Na minha cabeça, era um escultor e não um polidor. Dependia de carona. Voltava para casa com dois irmãos que, por acaso, haviam nascido em Santa Catarina. Os pais, judeus russos, emigraram para o Brasil como país de terceira categoria que, na loteria, os acolheu na época da Segunda Guerra Mundial. Meia dúzia de anos depois, a família se mudou para New Jersey. Eram dois alcoólatras que


quase sempre jogavam alguns pesados sacos no lixo. Após bater o cartão, atravessavam a rua e iam beber cerveja e vodca no bar da esquina. Eu os acompanhava com no mínimo 10 cervejas por dia. Em pouco mais de meia hora no bar, um deles saía, atravessava a rua, e do lixo recolhia o saco e o jogava na mala do carro. Durante muito tempo vi esta cena e nunca perguntei nada. Sabia que era roubo. Não havia a necessidade de perguntar. Um dia me contaram que o patrão era um filho-da-puta e que eles pensavam construir alguma coisa no Brasil. Em cada saco apuravam entre 100 e 300 dólares. Na fábrica havia um americano branco que retornara recentemente do Vietnam. Ele passava o dia varrendo a fábrica. A cada varrida, parava e sorria. Um sorriso amarelo, perdido. No braço a tatuagem de uma enorme águia com o número de um batalhão dos marines. Sempre que eu olhava para o maluco, imaginava: quantas vezes por dia ele tivera que jogar o napalm em criancinhas no Vietnam? Será que estava contaminado? Pelo menos uma coisa era certa: a mente estava completamente contaminada. Por lei, as fábricas tinham que contratar um número qualquer de veteranos de guerra. Como ele poderia ser veterano, se era tão jovem? Passava perto de mim e eu sentia a presença da loucura. A energia da guerra... Todas as vezes que ele se aproximava eu tirava a máscara e olhava meio de lado os seus movimentos. E quanto mais me olhava, mais ele ria. Um dia, veio varrendo na nossa direção. A meu lado um jovem negro americano (um dos melhores soldadores da fábrica) levanta a máscara protetora. O branco rapidamente pega num estilete – uma rebarba de solda – e o enfia no olho do negro. O sangue, misturado a um jato d’água, explodiu na minha roupa. Empurrei o louco que continuava a rir

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Passaic River, em Paterson, Estado de New Jersey, onde a energia gerada pelas cachoeiras sustentava a cidade industrial. É a segunda maior queda d'água na costa leste dos EUA (com 27 metros de altura). A primeira é Niagara Falls.

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A turma dos anos 60 (Praia de Ipanema), no Futebol à fantasia em frente à antiga Rua Monte Negro, no Rio de Janeiro. Para entrar no jogo (no dia 31 de dezembro) era necessário estar vestido de mulher e num estado etílico mais do que lamentável...

Jane dos Santos, Marcos dos Santos, João Roja (o João Louco) e Adelia, em Newark, New Jersey, no início dos anos 70.

Yaro Pribyl e Marcos dos Santos, em New York, recém-chegados de BH.

O autor em frente ao Central Park com a camisa do Flamengo.

O amigo de infância Mauricinho Monjardim (primo do diretor de TV Jaime Monjardim), em Ipanema, no Rio de Janeiro.


*** Na Silk City Textile Machinery de Paterson, aconteceu o meu batismo na América. Ali comecei a entender o porquê da grandiosidade deste país. A exploração do imigrante ilegal, salários baixos. Gente de todo o mundo buscando uma vida melhor, num país fantástico para o seu povo ou para quem o habita. Não interessa o que o governo americano faz no exterior, se domina o sistema, não interessa se usa a CIA, o FBI, os bancos ou qualquer outro órgão para espionar as riquezas ou as fraquezas de cada país. Não importa se eles infiltram sofisticados sistemas de corrupção na América Latina, se fomentam a necessidade de invadir a região amazônica para “proteger” a humanidade das drogas. Não importa se levaram as armas químicas e biológicas ao Iraque para destruir o Irã e depois deixar que a região se destrua. A ordem é fomentar a autodestruição nos países que têm potencial, antes que algum deles se iguale em suas riquezas. Importa que, para o seu povo, é o melhor país do mundo. A exploração humana existe como nos grandes impérios. É tudo parte da história. Nada mudou. As longas horas de trabalho escravo engrandecendo os cofres do país. As taxas, a participação do governo na riqueza estabelecida pelos patrões. Um verdadeiro exército de operários. Imigrantes italianos, polacos, russos, brasileiros, portugueses, cubanos, húngaros, gregos, chineses, coreanos, todos unidos em fazer o melhor nos seus trabalhos árduos. Com a chegada dos filhos, a chance de um dia ver o próprio herdeiro aproveitar-se dos benefícios, das leis, e explorar outros imigrantes ilegais e assim sucessivamente. Os filhos entram no sistema de competir, estudar muito – sempre sob pressão –, desenvolvendo fantásticas cabeças treinadas para controlar o mundo. Não importa se são movidos a cocaína, zenax, prozac, se tomam diazepan ou fumam maconha para dormir. O importante é produzir, sempre. Era como na época eu via o sistema. Um sistema que oferecia a chance

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e saí correndo com o negro para o meu carro. Não esperei a ambulância, os patrões, nada. Foi a minha primeira reação. Mais tarde aprendi que na América esses heroísmos são proibidos. Podem gerar cadeia, processos e muitos outros problemas. O negro gritava de dor, querendo olhar no espelho. Dei um soco no retrovisor mandando ele segurar as pontas: — Hold on, man, we are almost there! Chegamos ao hospital quase ao mesmo tempo em que Nick Morizzo, o dono da fábrica. Pelo olho perdido Jeff recebeu 250 mil dólares de indenização. Passados alguns dias, ainda vi umas duas ou três vezes o louco branco, rindo e andando pelas ruas de Paterson (não foi preso), com sua enorme águia tatuada no braço.

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de possuir um carro novo, com o crédito estabelecido, uma casa nova, boas escolas, excelente alimentação e vestuário. O que importa trabalhar como escravo mas a sua família ter regalias? E o sonho? E o american dream? O american dream do imigrante era a universidade e o doutorado dos filhos. Dos meus filhos. Trabalhava 10, 12 horas na Silk City Textile Machinery. Em pouco menos de um mês consegui alugar uma boa casa em Little Falls. Um lugar lindo. Ao lado de um parque, de frente para um rio. A gravidez da esposa no segundo filho já mostrava sinais de que o futuro seria de mais trabalho, de muito mais trabalho. *** Um dia recebemos a chamada de um carioca que morava na Califórnia. O nome Califórnia rimava com praia, lugar bonito, boas mulheres. No meio da ligação, Paulo César de Souza, de seu apartamento, me diz que estava com sede e que ia beber água em seu bebedouro. Dentro de casa? pensei. Como pode existir um bebedouro dentro de casa? Paulinho era amigo de meu cunhado, João Baltazar, e ficara animado com a possibilidade de voltar a viver e trabalhar em New Jersey. Chamei um conhecido da fábrica para me levar ao aeroporto. No caminho, a cada dez minutos ele olhava para o relógio. — Está com pressa? — perguntei. — Não, é porque estou computando quanto o seu amigo vai me pagar. Eu cobro 10 dólares a hora. Paulo César começou a trabalhar na mesma Silk City Textile Machinery. Antes havia sido produtor da TV Tupi, apresentou o Maurice Albert para a Dionne Warrick, produziu especiais para a televisão no Brasil e, lógico, em Paterson não agüentou muito tempo o tranco da fábrica de tecidos. *** Em qualquer lugar deste grande país pode-se cruzar com uma pessoa famosa. Com menos de três meses na nova moradia, fui ver um show do Neil Young, um cantor canadense radicado nos States. Dia seguinte, estou descendo a pequena ladeira de minha rua, levando o filho de três anos e de repente pára uma pessoa e diz: — Que menino bonito. Como é o seu nome? E foi logo pegando meu filho no colo. — O nome dele é Carlos Henrique. Nós somos brasileiros. Você mora por aqui? — Não, sou cantor. Fiz um show ontem, aqui em Little Falls.


BILU Em poucos meses aprendi a montar uma máquina. O tecido passava de um tubo para outro, que inspecionava os defeitos. Se detectasse qualquer rasura, a máquina automaticamente cortava aquele pedaço e continuava o trabalho. Em pouco tempo – dois dias – consegui montar uma inspection machine. Todos os dias o Odorico saía para fazer a entrega das inspection machines nas fábricas de tecidos. Um dia fui escalado para ajudá-lo nesta tarefa. Em Hackensack, após uma entrega, procurei um banheiro. Atravessei a fábrica e escutei um som brasileiro. Era um assovio bem afinado de um baixinho com uma vasta cabeleira, ao estilo Roberto Carlos. — Você é brasileiro? — Carioca. — Não acredito. Você é o segundo carioca que encontro por aqui. — Existem alguns. Com o tempo você vai ver. Após a troca de telefones cheguei em casa eufórico com a notícia. Havia um brasileiro na área. No domingo ele me convidou para ver um jogo de futebol americano em sua casa. Os amigos, todos americanos e cabeludos, com uma cerveja na mão. Na mesa uma montanha de maconha. No canto da sala, uma enorme quantidade de tecidos dobrados, bem empilhados. —E isto aqui? —É um outro negócio que eu tenho. Depois te falo. O Bilu era um carioca que já havia construído dois edifícios na Ilha do Governador. Ele era responsável pela linha de produção das máquinas de inspeção. A cada 200 metros de tecido cortava uns 20 para ele. Disfarçava e na hora dos breaks levava para o carro os pacotes. A camionete era fechada e tinha os vidros escuros. Nos fins de semana, saía com a namorada pelas praias de New Jersey, vendendo os tecidos para uma clientela já feita. A namorada era a perfeita companheira. Na Pennsylvania havia “fraturado” o crânio num acidente de automóvel. O Bilu repentinamente freou o seu carro, o veículo que vinha atrás bateu na traseira e ela jogou a cabeça no vidro. O médico que “por acaso” dirigia pelas imediações

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— Tão jovem? Quantos anos tem? — Vinte e seis. —Minha idade. Quase não acreditei que estava ali conversando com o Neil Young e ele com meu filho no colo.

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dava o seu veredicto, e se prontificava a levar a paciente ao hospital antes da ambulância chegar. O médico era realmente um médico. Só que, num processo que girava em torno de um milhão de dólares, o teatro era interessante para todo mundo. Bilu não afundou somente um crânio. Até a última vez que o vi, ele já tinha fraturado o crânio da namorada, a sua coluna e a bacia de outra amiga.

A TATUAGEM DA MORTE Na minha segunda viagem para fazer a entrega das máquinas fui com o Odorico para New Brunswick, em New Jersey. Era uma entrega rápida. Somente uma máquina. Mas num caminhão maior, com um trailer grande. Atracamos no bay e o operador do fork lift perguntou a outro funcionário: — Está seguro? — Sure. Entrou com a empilhadeira dentro da carroceria do caminhão, ergueu a máquina e, de ré, veio trazendo. — Você colocou o freio de mão? — Sure! repetiu. — E os calços? — Sure! — Ok! Só ouvi o barulho da espinha quebrando. O peso da máquina na empilhadeira afastou a ponte, empurrou o caminhão para frente e caiu sobre o homem, dobrando-o ao meio. Morreu ao meu lado. Mais forte do que aquilo só a roda de um bonde cortando o estômago de um garoto (ele fazia 12 anos naquele dia) em frente da minha casa em Ipanema. A espinha do operário fez um barulho único, que durante muito tempo iria me acordar nas madrugadas friorentas de New Jersey.

A CICATRIZ NA CARNE Uma grande placa de ferro tinha que ser erguida por um guindaste cheio de roldanas. Quando fui enfiar o gancho da corrente no buraco da placa, esta escorregou e cortou a cabeça do terceiro metacarpo da minha mão esquerda. Vi até o pedaço do osso exposto e não senti absolutamente nada. Parecia que estava dopado. Com uma das mãos, dirigi até o hospital.


OS HERÓIS DA GUERRA Naquela época estava para nascer meu primeiro filho americano. Nick Morizzo, o CEO [chief executive officer = presidente] da Silk City Textile Machinery, me oferece uma outra casa para morar, na cidade de Totowa, na condição de, além de trabalhar mais para ele na fábrica, ainda ter de cuidar da pintura, do lixo, da limpeza, da água, do óleo que esquentava o boiler da casa e também controlar os moradores. Era uma casa de três andares (três famílias). No primeiro morava um veterano

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Já na sala de cirurgia um gordo gay, ofegante, pediu que eu tirasse a roupa. — É necessário? O problema foi no dedo. — Por causa de infecção. Enquanto coloco o roupão verde, o gordo escorrega a mão e, suando muito, passa levemente na minha perna e bem devagar, em direção à minha virilha. Dei-lhe um empurrão e saí procurando um médico qualquer. De cara disse-lhe que não queria ser atendido por aquele faggot e que se ele não colocasse rapidamente uma outra pessoa, o hospital teria muitos problemas. Sem querer fiz uma chantagem maravilhosa. O gay foi substituído por uma loura carinhosa que só faltou tirar a roupa dentro da sala de cirurgia. Na operação (tirou um pedaço de carne do braço para enxertar no dedo), o médico exagerou nos pontos. — Por que tantos pontos? — Depois você vai me agradecer. E desculpe pelo incidente com o enfermeiro. Vamos tomar as nossas providências. Por cada ponto a companhia de seguros vai pagar 100 dólares adicionais ao seu processo. — Mas que processo? Foi um acidente. — É, mas aqui é o sistema. Se você não procurar um advogado, tem alguma coisa errada. A esta altura o Odorico, com medo da imigração e de perder o seu próprio emprego, começa a fazer pressão... — Chico, você não deve fazer isto. Eles foram muito bons para você. É difícil conseguir trabalho. — Mas e o seguro? Não existe seguro? Procurei um advogado. A primeira pergunta que me fez: — Você é legal no país? — Não. — Muito bem. Não tem problema. Vamos fazer o seu caso anyway. Vamos meter um sue (processo) na companhia. Quanto mais tempo demorasse o processo, mais dinheiro iria render.

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de guerra alcoólatra com a mulher e seis filhos. Depois descobri que ele adotava crianças para receber mais dinheiro do governo e poder beber mais. A esposa bebia tanto ou mais do que ele. Um dia, na falta de calefação, desci ao basement (porão), encontrei a cordinha que ligava a luz. A lâmpada estava queimada. Esperei um pouco e fui tateando para ver se chegava ao boiler. Alguma coisa estava errada. De repente tropeço num corpo. Saio correndo apavorado. Consegui um fósforo e voltei. Será que era um morto? Tenho que chamar a polícia. Mas e a imigração? Vai dar o maior trabalho. É melhor deixar pra lá. Quando acendi o fósforo não existia um, eram três os corpos estendidos. O medo aumentou. Acendi outro fósforo e gritei: — Hey, you!! — Shut up — disse o primeiro bêbado. Quando voltei para chamar a polícia, apareceu o bêbado do primeiro andar. Foi logo dizendo: — O meu primo não tem onde ficar e o deixei dormindo lá embaixo esta noite. — Mas não pode. Eu sou responsável pelo basement. E a calefação não está funcionando. Eu tenho um filho pequeno, minha mulher está grávida e está todo mundo morrendo de frio. — Vamos lá, eu conserto. E com muita habilidade, fez o boiler funcionar. Os bêbados continuaram dormindo como se nada tivesse acontecido. Ia nervoso para o trabalho, preocupado com a Ana grávida e o Carlinhos. Os bêbados foram embora e tudo voltou ao normal. Passadas duas semanas, fui checar de novo o boiler. Eu havia colocado um cadeado na porta. Estava quebrado. Os vagabundos tinham voltado. Fui reclamar na casa do bêbado: — Come in, Frank. — No, please come outside. — No, I can’t. I’m sick. Come in. Fui entrando em sua casa e ele todo gentil: entra, entra. Nesse momento ele salta da cama com um facão e sai atrás de mim. Comecei a correr ao redor de uma mesa. Lembrei dos meus tempos de criança, com meu pai correndo em volta da mesa para me pegar. O bêbado tinha uma bala na perna que dificultava a sua locomoção. Saí correndo para minha casa, chamei a polícia e telefonei para o Nick Morizzo, dono da casa e meu patrão. Na delegacia de polícia escutei o seguinte: — Você sabe quem é este homem? É um herói da guerra. Você que não se meta com ele ou qualquer de seus amigos. Além do mais você não é americano e nem sei se está documentado. Não perca mais o meu tempo com bullshit.


A TATUAGEM DA LOUCURA Pedi demissão da fábrica já levando as minhas primeiras cicatrizes, as primeiras tatuagens. Fui trabalhar no Two Guys, um hipermercado 100% americano. Descarregava caminhão das 9h às 6h da tarde. Dessa hora à uma da manhã, lavava pratos num restaurante elegante especializado em banquetes e festas para pessoas ricas que vinham de Manhattan e regiões vizinhas. Foi quando descobri o tal “Passover”, a festa em que os judeus comem e bebem por dez dias sem parar. Para conseguir este segundo trabalho, era obrigado a pagar 25 dólares por semana a um mineiro de Valadares que cobrava uma taxa para empregar os ilegais. Mais de 20 brasileiros trabalhavam nos diferentes turnos do restaurante. Ele, além do excelente salário de maitre, ainda faturava em cima dos ilegais. Os meses se passaram e nada de receber o dinheiro do seguro do acidente. Um dos problemas era coordenar o tempo. Como bater o cartão de ponto do Two Guys às 6h da tarde e no mesmo horário bater o outro cartão? Às 2 horas da manhã, chegava em casa morto de cansado. Às 3h, o meu filho acordava com fome. O leite estava errado. Deveria ser o Simi-

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Voltei arrasado. Não, a América não era aquilo que eu escutara. Três semanas depois, comprei dois six pack (de cerveja) e deixei na porta da casa do bêbado. Se a polícia não pode resolver, eu tenho que resolver. Na manhã seguinte após a missa de domingo, ele disse: — Frank, I wanna talk to you. Vamos tomar uma cerveja. E me levou para sua casa. — Estou numa parada com uns amigos e acho que posso te ajudar. Você só vai ficar de olho numa situação. Nós vamos levar umas coisas de uma loja de uma pessoa que não serve. É uma casa que vende madeira. O dono é um safado e nós vamos fazer uma visitinha... — Obrigado, mas não posso. Meu filho está para nascer e quase não tenho tempo. Além do mais neste tipo de trabalho não tenho muita sorte. Duas horas depois toca o telefone. As contrações começaram... Corri para o St. Joseph Hospital de Passaic e, no lobby, fiz um verso. Chorando, abracei e beijei o Dr. Ward, que não parecia muito acostumado a estes repentes latinos. Em poucos minutos, após o parto, pude levar nos braços meu filho para o berçário. Uma emoção única: dia 11 de março de 1973. Oficialmente, o último mês em que as tropas americanas deixaram o Vietnam.

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lac Ready to Feed e não o Similac Add Water. Por completa ignorância, ao adicionar água, o leite não se sustentava na barriga e ele chorava. Às 5h da manhã começava tudo de novo e às 8h estava de pé para mais um dia de trabalho. No segundo turno, todas as noites rolava uma maconha braba na cozinha. Eu trabalhava ao lado de um enorme barril de cerveja. Até então, nunca tinha visto barril tão grande. Era como uma cisterna de alumínio. E tudo à disposição – free. Às 11h da noite, já muito cansado, tomava a minha primeira cerveja. Foi quando resolvi mudar de emprego. Continuei no Two Guys de dia e, à noite, fui aprender a fazer sanduíche. Uma posição que os americanos chamam de food runner. Tinha um louro grandão que gritava todos os dias com os funcionários. Comigo era assim: — Frank, pão para hambúrguer... Frank, rye bread… White bread. Não parava de gritar um minuto. Num momento de cansaço qualquer, peguei o pão errado. Quando estava consertando o erro, ele veio gritando - sem necessidade - comigo. Pelo simples prazer de gritar e de fazer o seu show particular. Todo mundo tremia com aquele grandão, com suas camisinhas apertadas e shortinho afeminado. E aos berros: — Frank, I told you. Com uma rasteira, já no chão, peguei um facão de cozinha e encostei na sua garganta. Ele desmaiou de medo. Eu não sabia o que estava acontecendo. Nem eu acreditei que pudesse ter feito aquilo. Anos depois soube por um amigo (Johnny Marciano) que um brasileiro havia matado um americano na cozinha de um restaurante em New Smirna Beach, na Flórida. O americano o provocava todas as noites. O pobre homem não entendia inglês e um dia matou o americano com uma facada no peito. Foi preso sem direito a advogado - não havia tradutor no tribunal. O dono da lanchonete (Deli) me levantou, reanimou o gerente e me chamou no escritório. — Sei que você está nervoso, que é pai e que não dorme direito. Vou te dar dois dias de folga para descansar. Quando voltei ao trabalho, havia um carrinho de bebê, um jogo de mamadeiras, um cercadinho. Todos os funcionários se cotizaram, fizeram uma vaquinha e me deram um monte de presentes. O terror do gerente havia mudado e parou de gritar. Veio me dar a mão. Ainda trabalhei mais umas duas semanas. *** Um dia me liga do Brasil o Mauricinho Monjardim, meu amigo de infância.


*** O tempo passou, as dificuldades aumentando. A Ana pediu que eu assinasse a liberação dos meninos de volta ao Brasil. Não dava mais para agüentar. — Precisamos esperar pelo menos por este dinheiro do seguro... — Não, não dá. Isto aqui é muito ruim... — Ok, você tem razão. Com o documento assinado, ela armou a volta. Um dia fui almoçar em casa e encontro já as malas na calçada. Com a casa vazia, chorei três dias. Chamei uns amigos e doei toda a minha mobília. Não havia mais sentido morar naquela casa. Com alguma roupa, me mudei para um hotel para arrumar a cabeça. Lá conheci uma russa maravilhosa. Uma das mulheres mais bonitas que vi em toda a minha vida. Conversar com ela foi naquele momento o melhor remédio para as minhas decepções existenciais. Ela não falava nada de inglês e eu nada de russo. Parti para Newark, onde começa um novo capítulo das tatuagens que marcaram a minha primeira passagem pela América.

NEWARK Com as malas ainda no carro, fui ao Jersey Brazilians Club, o único clube de brasileiros da região. Eles tinham um time de futebol e à noi-

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— Chico, sabe quem está indo para New Jersey? A Ângela Gomes Ribeiro, lembra dela? É aquela sobrinha do Delio Jardim de Mattos, Ministro da Aeronáutica. Dá para ela ficar uns dias na tua casa? — Lógico. Nada acontecia em Little Falls. A chegada da Ângela foi de muita alegria. Dia seguinte toca a campainha. Desço a escada e quem é? O João Baltazar, irmão de minha mulher. Muita emoção para dois dias. À noite fui de carro levar o João e a Ângela para um passeio em New York. Fomos ao The Club, um restaurante com boate. Na mesa ao lado, vi uma movimentação de uns gorilas inspecionando o local. Eles se retiram e chega um casal. A princípio não reparamos direito na simpatia de Jacqueline Kennedy com o novo marido, Aristoteles Onassis. Logo após ter conhecido Neil Young, me vejo ao lado de Jacqueline e Onassis. Foi ficando tarde e eu preocupado com a esposa em casa. Após alguns drinques e um excelente jazz, deixei o casal no Village e voltei para New Jersey. Nesta única noite a Ângela engravidou e o casal voltou ao Brasil.

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te se reuniam para uma cerveja, um carteado, uma festa de casamento, batizado... Enfim, um clube. A cidade de Newark, em New Jersey, era dividida por uma linha de trem. De um lado, o centro da cidade mostrando o rastro de destruição das revoltas racistas dos anos 60. Após os incêndios e com a vitória dos negros na câmara dos vereadores e prefeitura, a cidade virou um barril de pólvora, racista. Do outro lado da linha do trem, num lugar chamado Ironbound, mais de 200 mil portugueses, alguns italianos e cubanos. No início dos anos 70, alguns negros ameaçaram cruzar o Ironbound. Foram expulsos pelos portugueses. Uma semana depois se organizaram e marcaram uma grande passeata pela Ferry Street. Mais de 10 mil portugueses de ancinho na mão, tacos de beisebol, pedaços de ferro se agruparam, formando uma muralha humana. A guerra resultou em mais um incêndio no centro da cidade. A mídia americana caiu em cima dos portugueses, chamando-os de racistas, fascistas. De nada adiantou. A força dos portugueses no local foi maior do que a própria polícia americana. Com as regiões bem definidas e respeitadas, americanos negros e portugueses brancos passaram a se aturar. Durante muitos anos uma família de cariocas do bairro do Caju dirigiu o Jersey Brazilians Club. A maior comunidade de brasileiros naquela época era constituída de paulistas de Guarulhos, seguida de paraenses, gaúchos e uns poucos mineiros. Ao entrar no clube, senti uma grande felicidade. Era como se tivesse encontrado um oásis no deserto. Fui direto ao bar. Lá comecei a falar da minha vida e a tomar cerveja. A festa começou e eu nem reparei na quantidade de gente que entrava. De repente estava lotado. Dancei, cantei, fiz novos amigos. Parecia uma criança. Conheci o Calegari, o Amin, o Carioca (maior ídolo do time), Hamilton Campos, o gaúcho Elmar, Tony goleiro bola-murcha, Rocky e Johnny Marciano, Celso Mecânico, Lima Careca (caminhão), o Bigode (já falecido), Sabé, o filho Sabezinho, Tonico, Alemão, Gilberto, Papagaio, Freitas, o Miltemar (depois Samba Show), Pardal, Lafaiete (ex-jogador do Fluminense do Rio), o Baianinho, Paschoal Pepe, Jacaré, Barrabás, Bem-Te-Vi, Piu-Piu, Piriquito, Raspinha. No final da festa, perto da escada de saída, virei para uma pessoa atrás de mim: — Olha só esta marca, perdi a unha deste dedo. — Eu quero que você se foda. Virei a outra mão e dei um soco no Raspinha. O Roberto Calegari, na época um dos mais fortes de Newark, separou a briga. E deu um fim à confusão. ***


*** Assim como os italianos, que comemoram o dia de San Genaro, os portugueses realizam a maior festa popular da região na época junina. A Ferry Street, a rua principal de Newark, ficava toda enfeitada para a procissão de São João ou São Pedro. Numa dessas festas, fui com o Sr. Joaquim e o Sr. Manoel, os novos amigos da pensão, provar os vinhos das

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Saí da festa sem amigos, cansado e sem dinheiro. Foi neste momento que, ao entrar no meu carro, alguém pergunta: — Você vai para onde? — Não tenho lugar, estou procurando um hotel. — Por que não vai para a nossa pensão, na Dona Maria Portugal? Naquele momento estabelecia com dois mineiros, Marcos dos Santos e Jaroslav Prybil, a minha mais sólida amizade daquela fase nos Estados Unidos. A pensão de Dona Maria Portugal era uma casa de uns seis quartos que abrigava portugueses e brasileiros. Eram divididos entre três ou quatro pessoas em cada quarto. O meu era dividido com o Sr. Joaquim e o Sr. Manoel. Parecia piada: Joaquim e Manoel. A cozinha era grande e comum a todos os inquilinos. Cada geladeira era dividida em espaços com o nome de cada um. Na madrugada, os assaltos, os pequenos roubos de comida e as primeiras brigas. Nesta pensão algumas tatuagens foram criadas. Os diferentes trabalhos. Além dos portugueses, do Marcos dos Santos (Magrelo) e Yaro, moravam na pensão o Pina, o Arnaldo, o Vicente, o Celsão e outros. O primeiro emprego desta nova fase foi já no dia seguinte, na fábrica de polimento do Dayson, um gaúcho que havia levado toda a família para aquela região. Trabalhava com os filhos, a mulher e o irmão. Ele havia fechado um contrato com a Ford – o primeiro sistema de terceirização que conheci – e nós políamos o anel dos faróis de carros. Por cada anel de farol polido ganhávamos três centavos de dólar. A média era de 100 a 130 faróis por hora. Ou seja, um ganho de $3 a $4 a hora. Numa média de 50 horas por semana podia-se ganhar até 200 dólares. Eu conseguia uns 140, 160 dólares por semana, o que dava muito bem para pagar os $80 de aluguel, mais os $100 de outras despesas. Em 1973, ganhando 560 dólares por mês, podia-se viver relativamente bem com $180 e guardar uns $380. Tinha já que começar a mandar o dinheiro para a esposa e os filhos, que haviam voltado para o Brasil. O trabalho era um dos mais duros e sacrificados. Pouca gente agüentava o tranco e logo desistia. A vantagem da juventude e a necessidade do dia-a-dia faziam com que eu não sentisse as dores nas mãos, a inalação do pó de ferro, a alimentação rápida, sem digestão.

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diferentes regiões de Portugal. Provamos todos. A fartura das sardinhas fritas, lula à tinta, batatas cozidas. A dança do pé, o vira, o bacalhau. Um ambiente familiar inesquecível. A cada vinho lembrava de meus pais, principalmente de minha mãe, uma apaixonada por Portugal. Como fomos a pé, voltamos caminhando e cantando pelas ruas de New Jersey. Os dois portugueses pareciam pequenos barris rolando pelas ruas. Voltamos rindo, de barriga cheia e felizes. Na porta de uma das casas, a poucos quarteirões de nossa pensão, vimos um americano drogado com uma seringa na veia pendurada, dando um beijo na boca de um italiano. O Manoel deu um murro na cabeça dos dois, dizendo: —Vamos parar com esta pouca vergonha na frente da minha casa, seus paneleiros de merda! E saiu chutando a cara deles. Quando voltamos para casa, no meio do quarteirão, mais de cinco carros fecharam a rua. Parecia que caía gente do céu, em penca. Era italiano pra todo lado. Eu me encostei numa parede e deixei que eles batessem. De taco de beisebol, cabo de guardachuva. O Joaquim se jogou debaixo de um caminhão e foi chutado por mais de 10 pessoas. O Manuel caiu e ficou encolhido apanhando muito. Na confusão consegui correr gritando, dando uma de louco, e com o barulho o pessoal da pensão ouviu o meu pedido de socorro. Os filhos de Dona Maria Portugal trabalhavam na construção. Chegaram com pá, martelos, picaretas, enxadas. Para cada italiano chegavam dois ou três portugueses e brasileiros. Foi a maior guerra na cidade de Newark daquela época. Em pouco tempo a polícia cercou as ruas, levou alguns italianos presos e, depois de muita conversa, soltaram os portugueses. Eu consegui correr para a pensão e fiquei quietinho, com gelo nos galos, sem poder respirar com suspeita de costela quebrada. Esta dor por muito tempo me acompanhou, e às pessoas que perguntavam eu dizia: — Só dói quando respiro.

A PRISÃO Uma das coisas que mais me incomodava na cela 32 do Passaic County Jail era o momento solene da privada. Ficava exposta num canto, sem qualquer privacidade. Na hora do papel higiênico era ainda pior. Eu gastava muitos papéis. No terceiro ou quarto dia não agüentei. Com a terceira pergunta do porto-riquenho sobre o roubo do carro, eu disse: — Olha aqui, o negócio é o seguinte, não sou bandido. E estou aqui por um erro. Tudo na minha vida é circunstancial. Sou casado, tenho dois filhos que viajaram para o Brasil há bem pouco tempo. Estava


dirigindo sem carteira, sem seguro e sem registro. A polícia me prendeu. Sinto muita falta da minha família e estou louco para sair daqui. Voltei para minha cama e fiz um flashback da prisão.

Jersey City, maio de 1973, o anúncio de uma das últimas partidas do Pelé. A torcida brasileira já começava a se organizar na Ferry Street, em Newark. Eu não podia deixar de ver o jogo Santos x Lazio. Entrei no campo como jornalista, mostrando uma carteira funcional do SERPRO. Estava escrito: Serviço Federal de Processamento de Dados - Sétima Unidade Regional de Operações – nada a ver com jornalismo. Para conseguir a credencial, me dirigi a um pequeno escritório improvisado num trailer ao lado do campo e disse: — Sou funcionário do governo do Brasil e, como jornalista, acompanho os times de futebol. Eles pouco se lixavam quem seria quem. Brasil, a quem importa? — Go, go, go. *** Na saída, Toninho, um paulista de Santos, me pede carona até Passaic. — Não, não posso. Passaic é longe e o carro não tá legal. Vou embora para o Brasil no mês que vem e não posso me arriscar. Meu carro já estava sem seguro, a minha carteira ainda era do Brasil. — Mas a esta hora não tem mais ônibus. Vou dormir na rua. — Ok, vamos lá. E me dirigi a Passaic. Na saída da estrada, um carro da polícia me segue. Entro à direita, ele atrás; à esquerda, igual. No meio do caminho disse para o Toninho: — Se alguma coisa me acontecer, tenta fazer uma vaquinha na Ferry Street para me tirar. Parei o carro e fui pedir uma informação ao guarda. — O sr. sabe onde é a rota 46? — Eu lhe digo depois que você me mostrar seus documentos. Fui ao meu carro e disse: — Toninho, se manda, tô ferrado. Voltei com a minha carteira e o título de propriedade do veículo. — Onde está a registration? — Ainda não tirei. — E o seguro? — Não tenho. — Estas placas não são suas também, não é?

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— É verdade. Enquanto eu conversava com o officer chegaram uns cinco carros de polícia. Depois das tradicionais algemas, me levaram preso numa espécie de camburão. O policial me prendeu sem sair de sua viatura. Nem para ver o meu carro. Já sabia, desde o primeiro momento, que eu estava ilegal. Numa espécie de Van (camburão), rodei o final da noite com um travesti enorme e dois brancos que “viajavam” de ácido lisérgico. No distrito o juiz perguntou: — Tem 30 dólares? Bail? [Fiança?] Você sai amanhã de manhã. — Não. — Tem direito a fazer uma chamada. — Alô, é a Guiomar? Preciso de 30 dólares. Tô em cana. — Não posso sair de casa. A minha sogra, Guiomar, ainda vivia com o Odorico, que estava chateado pelo caso do acidente no meu dedo. Não falou por maldade. De repente não tinha os 30 dólares ou poderia estar com medo da imigração. Fui preso numa sexta-feira à noite. Sábado e domingo, feriado. Segunda, Memorial Day, feriado – última segunda-feira de maio de 1973. Na terça consegui o telefone do advogado, na quarta pedi ao officer que ligasse para ele. Na quinta ligou e na sexta, com os 300 dólares pagos, fui liberado. Pelo acidente deveria receber uns oito mil dólares. Recebi dois mil. Procurei outro advogado para processar o primeiro. Ele riu. — Você é muito infantil. Acha que vai conseguir receber alguma coisa deste caso? Forget it! Na cela, quando o officer anunciou o meu nome para sair, todos os prisioneiros foram até a porta e me cumprimentaram: — Você é um bom homem. Siga o seu caminho. Você é uma pessoa correta. Good luck! Registrei, mais uma vez, que a verdade é a melhor mentira. E ninguém está neste mundo orgulhoso de ser bandido. No fundo, no fundo, as pessoas são boas e querem viver uma vida mais tranqüila, sem problemas. Cada um sabe de suas circunstâncias existenciais e entender estas circunstâncias é um dom divino. Existiam esperanças para um mundo melhor. *** Comprei passagem de volta ao Brasil e já ia viajar quando chega a notificação para comparecer ao Grand Jury. Cancelei a viagem, perdi a passagem (era um vôo charter da Basbrasil — leia-se Plínio, Fred Santos e Ângelo Mourão), resolvi ficar e enfrentar o julgamento. — Você tem direito a um advogado do tribunal. É grátis.


TRABALHOS E MAIS TRABALHOS De volta a Newark, consegui com o Yaro e o Marcos – já então amigos inseparáveis – um emprego que não necessitava de carro. Podia ir de ônibus para Springfield. Um lugar horrível, cheio de casas incendiadas. O dono da fábrica de polimento de caixas de som era um alemão branco de olhos azuis, que vivia com uma mulher grande, negra, de cabelo vermelho e uma monstruosa bunda. Os dois ficavam sentados na porta da pequena fábrica olhando os operários trabalhar. Eu já me sentia melhor da dor na costela e já conseguia produzir mais caixas, mais do que a média. Um dia o alemão me chamou e disse: —Gosto muito do seu trabalho. A partir de hoje você está escalado para lavar e polir o meu carro. O Cadillac branco estava sempre parado na entrada do armazém (na porta da fábrica) e muitos brasileiros já tinham passado pela “experiência” de lavar aquele carro. Quando terminei de lavar ele disse: — É melhor lavar de novo. — Tudo bem. Botei minha energia naquele carro. Agora ele vai ver como se lava um automóvel, pensei.

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— Não precisa. No meu país sou advogado. Não havia terminado a faculdade mas já me intitulava advogado. — É culpado ou inocente? — Sou culpado. Mas se o sr. me der dois minutos eu explico por que sou culpado. Jamais poderia imaginar que aquele velho juiz americano, cansado de imigrantes ilegais, iria se interessar em escutar mais uma conversa. — OK, go ahead. Tell me your story. — Eu vim para os Estados Unidos com minha mulher e um filho. O segundo nasceu aqui. Ela não quis ficar e voltou para o Brasil. O meu ticket de volta estava marcado para a semana passada. Perdi a passagem para estar aqui e dizer toda esta história para o senhor. No Brasil, as leis são diferentes e por completa ignorância eu não sabia como fazer o seguro, a placa etc. Por exemplo, lá compramos o carro com a placa do dono anterior. A melhor mentira é a verdade. Flui melhor. Convence. Quando dizemos o óbvio, o resto é fácil. — Eu vou lhe dar a pena mínima em cada caso. Pode passar no caixa e receber o seu troco. Caso encerrado. Eles me devolveram 240 dólares. Era um dia de sorte. Liguei para a Guiomar e fomos jogar bingo. Perdi.

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— Muito bem, agora pode polir. E começou a beijar a mulher. A cada beijo, pedia para polir mais. Quando acabei, ele sem nem olhar mais para o carro, me mandou polir de novo. Tirei o avental, limpei minhas mãos e disse: Good Bye. E nunca mais voltei. Nem para apanhar o cheque. No mesmo dia, um amigo me chamou para trabalhar numa outra fábrica. — Lá eles pagam muito bem. Tem seguro, excelentes benefícios e, do lugar onde você mora, dá para ir a pé. Que sorte, pensei. Agora sim posso fazer o meu pé-de-meia. O emprego era das 11 da noite às 7 da manhã. Eu ficava ajoelhado com uma proteção na perna e as duas mãos enfiadas nuns buracos, espalhando entre a cortiça (uma espécie de cortiça) os botões. De aparador de solda passei a polidor de metais, polidor de caixas de som e agora polidor de botões. Até hoje não encontrei pior trabalho que este de polidor de botões. Nem quando fui (muitos anos depois) peixeiro em Miami. Os brasileiros da pensão se reuniam à noite para falar de suas namoradas, da saudade de Betim, a cidade industrial ao lado de Belo Horizonte, das músicas, dos bailes, da família que ficou. Marcos lembrava da Maria do Carmo, e Yaro da Mariângela. Ninguém agüentava mais eles falarem das namoradas, de beijar as fotos, de fazer cartas. Era um amor platônico, avassalador. Nem o Marcos casou com a Maria do Carmo, nem o Yaro com a Mariângela. Os portugueses falavam de suas esposas que ficaram no campo esperando pelo dinheiro para comprar uma quinta. A saudade e a nostalgia entre os brasileiros eram regadas a cerveja, e entre os portugueses a vinho. Quando todos estavam bêbados era uma mistura de fado vadio com samba de roda. No quarto dos mineiros, numa época contavam-se seis pessoas dormindo - três nas camas e três no chão. O chulé era insuportável. O cheiro das botas misturado aos peidos noturnos, o ronco. Como todos bebiam, ninguém reclamava. De madrugada, os operários acordavam para fazer a sua marmita. Os portugueses levavam as suas garrafas de vinho e sempre um ou dois six pack de cerveja. O pessoal da construção era movido a cerveja. Os portugueses eram famosos na construção de meios-fios e calçadas. Nos fins-de-semana a diversão era ir a um bar de go go girl, a uma piscina pública, jogar bola no Parque dos Mosquitos ou freqüentar o Jersey Brazilians Club. O time era bom. Era o que sustentava o clube. As festas eram animadas com o clã dos cariocas do Caju, paulistas de Guarulhos, de Santos, alguns paraenses e os gaúchos. Naquela época (comparativamente) poucos mineiros viviam em Newark. Era como uma grande família ao redor da Pizzaria, um bar na Ferry Street que abrigava os papos, onde se resolviam os “papéis” de imigração, onde


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se discutia futebol. Ao lado, o proprietário comprou uma loja. Naquela época o mais famoso endereço de Newark: 112 Ferry Street. A grande maioria dos brasileiros usava o numero 112 para sua correspondência, onde a Tia cuidava de tudo. Mais tarde a Tia Zagarollo fez sociedade com o paraense Amílcar Moraes e criaram o MZ Representative. Distribuíam, pela primeira vez na história de brasileiros nos Estados Unidos, a revista Manchete e alguns jornais que chegavam através de comissários de bordo e outros turistas. A Manchete foi a primeira revista a ter uma distribuição (venda) oficial em New Jersey. E era na Tia que se resolvia o problema do Social Security. Por 50 dólares, qualquer um podia começar a trabalhar. O Tio cuidava dos brasileiros na pizzaria, e a Tia dos ilegais. O lugar era conhecido como Pizzaria. Muita gente conheceu seus futuros namorados e maridos na pizzaria. A Tia era uma mulher dinâmica, de forte personalidade. Falava rápido e resolvia tudo. A turma daquela época: o motorista de caminhão Lima, João Roja (o João Louco), Edgar Ceguinho que casou com a Ana Zagarollo (filha da Tia), Hugo Zagarollo (filho), Ailton Lima, Genesco, Zé Humberto, Fernando e Fábio Tostão, Dona Alzira Aur – mãe do Sabezinho; os já falecidos Louco Louco, Cláudio Gaúcho, Carioca, Bigode, Mário Tigrão. E ainda: Marcio Ribeiro (mais tarde se mudou para Miami), Celsão mecânico (de Guarulhos), Mauro, Nicolino, Paschoal, Johnny e Rocky Marciano, Isaac Mata Barata, Helinho Baiano, a família de Augusto Buisine (o Dino), irmão de Gina e Robertinho. Dino era bom de briga e de sono. O pai, Alcides, era dono de um salão de cabeleireiros aonde Dino sempre chegava atrasado. Media quase dois metros de altura. Era forte como um touro. A mãe, baixinha, corajosa e desbocada: “Seu filho-da-puta, se você não chegar aqui em dez minutos para trabalhar,vou te cobrir de porrada, vou te cortar o saco”. A Dona Elisa era uma mulher e tanto. Havia a família dos Lima, dos Sabé, do Amin, a família Bastos com Seu Artur, Dona Ieda, Adinha, Fernando, Olimpio (Pinho), a família Zagarollo. Tinha ainda o Lafayette que jogou no Fluminense do Rio. Um dia, quando era motorista de limusine, levou um advogado paulista ao Canadá. Lá chegando se embriagou e voltou para Newark sem o passageiro. Esqueceu completamente o que o levara ao Canadá... O pessoal de New Jersey pouco ia a New York. Só para as festas de carnaval, para as corridas de cavalos ou para algumas discotecas. Os mais importantes jogos de futebol aconteciam no Giants (time de New York) Stadium, que ironicamente ficava em New Jersey. Em New York, Carlos Watimo (General) era o Ricardo Amaral da época. Manejava umas duas ou três discotecas e ensinou muita gente a trabalhar na noite. Tinha o apelido de General porque esteve na Guerra do Vietnam como Green Baret. Em 1972, a inauguração da agência do Banco do Brasil na Quinta

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Avenida (perto da rua 46) foi um verdadeiro marco na região mais brasileira de Manhattan.

Chico Moura

GOLDIE KEIN

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Em New York, para se escutar um jogo de futebol era preciso sintonizar num radinho de pilha da Sony, em 9 bandas, a Rádio Nacional de Brasília. Na final do Campeonato Carioca, começamos a escutar o jogo, num radinho do General, na esquina da Sexta Avenida com a Rua 46. Correu um bolo esportivo, para ver quem tirava o número da camisa que faria o primeiro gol. A um dado momento, com o jogo zero a zero, cai a transmissão. Corremos para o apartamento de cobertura do General. Tinha grana rolando na parada e ninguém queria perder. No alto do prédio, voltou a funcionar. De repente, cai outra vez a transmissão e não havia jeito e maneira de saber o resultado do jogo. Quem vai ligar para o Brasil? Com as tarifas impossíveis, ninguém se atreveu. Alguém deu a idéia de ligar a cobrar para um funcionário que estava no escritório do Carlos Watimo (General) no Rio de Janeiro. Nas ligações a cobrar havia um pequeno intervalo onde se podia falar por uns 10 ou 15 segundos com o outro lado. Funcionava mais ou menos assim: — Telefonista, eu gostaria de fazer uma ligação a cobrar para o Rio de Janeiro, person to person, para Mr. Resultado do Jogo. — Hello, this is United States. It’s a collect call to Mr. Resultado do Jogo. Ainda na linha podia-se escutar do outro lado: — Um a zero para o Flamengo. Mr. Resultado do Jogo is not here. E desligava o telefone. Muito bem, mas gol de quem? Quem ganharia o bolão? A mesma história: — Operator, I would like to make a collect call to Mrs. Goldie Kein. — Aqui é dos Estados Unidos, estamos fazendo uma ligação a cobrar para a senhora Gol de Quem. — Gol do Zico, no final do segundo tempo. Mrs. Goldie Can is not here, operator. Com a ligação de graça e a informação correta, servia de muitas mensagens rápidas de lá pra cá ou daqui pra lá: — Manda outra fita daquelas do Chico Anysio. Aqui todo mundo se amarrou. Ainda tem fita do Juca Chaves, do José Vasconcelos? Ou: — Tô mandando o dinheiro das crianças na quarta pelo Fred da Basbrasil. Tá chovendo aí? Aqui tá nevando paca. Como vai o meu filho? Passou no exame? Pequenos diálogos podiam existir. Sempre explicando à telefonista que o pessoal do outro lado não entendia inglês e que, nas ligações a cobrar, era necessário traduzir o que ela estava dizendo.


Em New York, Benito Romero foi o precursor de tudo e de todos: criou o primeiro clube de viagens, a BAS (Brazilian American Society). Mais de trinta anos depois, Fred Santos declarava em Miami: “Eu trabalhei para o Benito. Foi um de meus primeiros empregos na América. Aprendi muito com ele”. Além de criar a idéia do primeiro jornal, a concepção do primeiro restaurante... Benito parecia um príncipe. Os melhores ternos, grandes mulheres. Casou com a Sara, irmã de Hispéria (prima de Assíria – mais tarde mulher de Pelé) que se casara com Jota Alves, um jornalista considerado comunista, criador com Benito do jornal The Brasilians. Jota fazia parte de uma geração que podia, em Manhattan (por lei), portar alguns cigarros de maconha. Se a polícia pegasse alguém fumando em público pagava-se uma multa de 35 dólares – como numa multa de estacionamento. Benito Romero recebeu o louro dos primeiros bailes de Carnaval do Waldorf Astoria, um hotel de luxo na Park Ave. Jota, com o seu clube de viagens, o Brazilian Promotion Center, na Rua 46, funcionava como um segundo Consulado do Brasil. A alcunha de comunista pegou após temporada que viveu na Rússia e de suas ligações com Brizola e outros políticos que passaram a viver nos Estados Unidos. Tinha em Alex um aliado para as questões políticas. Mais tarde vendeu o jornal para João de Matos. Benito criou sua própria agência de viagens (BACC) e ganhou a outra fatia do bolo brasileiro de Manhattan. Mais tarde venderia por seis mil dólares a BACC – também para João de Matos. Os músicos Do Um Romão, Hélcio Milito, Cláudio Roditi, Eumir Deodato, Hermeto Paschoal, Flora Purim, Sivuca, Airto Moreira e, lógico, João Gilberto, já eram, no início dos anos 70, os mais conhecidos da comunidade de brasileiros de New York. Hélio Gusmão morava em Newark, jogava futebol no Jersey Brazilians, foi casado com Aimee e teve um filho. Trabalhava em New York com transporte, na Falcon Delivery, ao lado de Mário Magalhães. Mais tarde, Hélio Gusmão foi trabalhar na Ary Export. Muitas vezes eu telefonava para o escritório do Hélio Gusmão aos sábados à tarde e ele atendia: — Só passei aqui para pegar uns papéis. Que nada, Hélio trabalhava até nos feriados. Virou workaholic. Trabalhando duro e com muitas oportunidades de carga para o Brasil, investiu no mercado de remessas e criou com Sérgio Vilhena a VIGO. Mais tarde, casou-se com uma modelo e ficou rico. No ano de 2003, vendeu a VIGO por muitos milhões de dólares, separou-se da modelo e foi curtir um pedaço do Brasil. O filho se mudou para Charlotte, em North Carolina. Após anos de sucesso em Miami, Sérgio Vilhena vendeu a sua UNO, acabou com as operações no Brasil, divorciou-se e foi curtir a vida.

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BENITO ROMERO

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Mário Magalhães andou um tempo sumido, mudou para Miami, fez carga para o Brasil. Com a segunda esposa (Ana) criou a Mariana Tours (Mário & Ana) separou de Ana, casou com Carla e teve um filho lindo. Mais novo do que todos os seus netos. Anos depois em Miami, com Paulo Gualano, deu continuidade aos bailes de Ina Sodré e Nelli Gonzalez, nas primeiras festas de Carnaval da cidade, e virou Mr. Carnaval. Ângelo Mourão, após sofrer um acidente no Brasil, no qual perdeu a noiva – num mergulho –, volta a New York e dá continuidade à Basbrasil, de Plínio e Fred Santos. Mais tarde, Fred mudou-se para Miami e criou a Fredson Travel. E ainda daquela época registramos o Gilton Raymundo da agência de viagens Triple R, que tinha fortes ligações com a PanAm. Em 1958, Aroldo Couto começou a trabalhar no Estado da Geórgia, no Hotel The Cluster, que ficava em Sea Island City. Seis meses depois foi para New York, uma cidade que cobrava 10 centavos o metrô ( subway), cinco dólares a diária no Hotel Century. Nos invernos de 62 a 64 começou a trabalhar em Miami ganhando um excelente salário. New York, além do Cavanhaque, Judeu e Capela, lembra o Luís Vieira, o Carlinhos Lopes (era inimigo mortal do Carlinhos), lembra o Jorge Mussi, que tinha uma agência de turismo na Rua 46, a Ivone da Casa New York, sócia do Barney, a Déa Mara, o Ary, da Ary Export, e o Faria, um chofer de táxi no ano de 1968. Aroldo faleceu em 2003.

ATITUDE Todas as vezes que eu viajava para o Brasil, Gilton Raymundo, da Triple R, fazia questão de me levar ao aeroporto. Nunca entendia tamanha gentileza, muitas vezes levando minha mala até a esteira. Anos depois, já doente, próximo à morte, me confidenciou que eu levara muita muamba para o Brasil, com as malas que ele despachava para terceiros. Fui contrabandista sem saber, sem ganhar. Durante algum tempo, Gilton morou numa bela casa em Long Island. Um dia eu estava em New Jersey e ele me convidou para uma festa. Antes de atravessar o rio, como o trânsito estava congestionado, parei o carro dois quarteirões perto do Lincoln Tunnel para tomar um drinque num bar de esquina. Do lado de fora piscava uma luz no formato de uma enorme taça de martini, em néon. Quando entrei, a música parou e todos me olharam. Parecia a cena de um filme, em que de repente o som é desligado e fica todo mundo parado. Não havia um único branco no bar. Muito naturalmente, pedi um southern comfort, uma bebida que acabara de descobrir. O barman ficou parado me olhando. Aí eu disse bem alto: —Olha aqui, eu não tenho nada a ver com esta história de branco,


“The longer I live, the more I realize the impact of attitude in life. Attitude, to me, is more important than facts. It is more important than the past, than education, than money, than circumstances, than failure, than successes, than what other people think or say or do. It is more important than appearance, giftedness or skill. It will make or break a company... a church... a home... The remarkable thing is we have a choice every day regarding the attitude we will embrace for that day. We cannot change our past... we cannot change the fact that people will act in a certain way. We cannot change the inevitable. The only thing we can do is play on the string we have, and that is our attitude... I am convinced that life is 10% what happens to me and 90% of how I react to it. And so it is with you... we are in charge of our attitudes.” Na festa do Gilton Raimundo, naquele início dos anos 70, foi também a primeira vez que vi haxixe e cocaína servidos em bandejas de prata com garçons de luva branca, supereducados. Mais de 70% da festa eram compostos de mulheres lindíssimas, todas americanas, aeromoças da PanAm. Ao entrar na casa de Gilton, pensei que fosse uma convenção da Playboy. Ele morava com dois filhos adotivos. Era educado e discreto. Tinha muita força entre as companhias aéreas. Os mineiros da pensão em Newark eram amigos do Gilton, que nunca escondeu o seu lado homossexual. Os mineiros haviam trabalhado como babás de cachorro para um amigo do Gilton, o Ronaldo Maia Flores, que tinha uma loja de flores e artigos para presentes. A agência Triple R, de Gilton Raymundo, vendia muitas passagens para os brasileiros de Manhattan. Anos mais tarde vi a loja de Ronaldo Maia no filme “The French Connection”, com Gene Hackman. Benito Romero, Gilton Raymundo, Carlinhos Lopes, Germano Barbosa, Fred Santos, Plínio e Jota Alves dividiam o bolo na venda das passagens aéreas para o Brasil. Mais tarde apareceria a BACC, de João e Chico de Matos.

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negro ou sei lá o quê. Na minha terra não existe nada disto. Sou do Brasil, nós só pensamos na boa música, boas mulheres, viver uma boa vida e curtir o amor. O nosso sangue é todo misturado e não existe esta coisa chata que vocês vivem. Se vocês têm algum problema comigo, posso sair daqui agora mesmo. O negão sorriu e me deu uma dose dupla de southern comfort e imediatamente virou um copinho de cabeça para baixo no balcão. Nos bares do norte, quando o barman vira um copo, quer dizer que você é convidado da casa – o próximo drinque é grátis. Pela primeira vez senti na América uma sensação de bem-estar, de controle sobre a minha vida. A primeira tatuagem chamada atitude. Muitos anos depois passei a entender o verdadeiro significado da palavra ATITUDE. Em inglês copiei o texto de Charles Swindoll:

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Em foto de Renato dos Anjos (cortesia jornal The Brasilians) vemos Marques, um dos primeiros alfaiates brasileiros em New York.

Jelon Vieira, um dos introdutores da Capoeira nos States (foto de Lois Greenfeld – cortesia The Brasilians).

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Em raríssima foto, a lembrança do Bar Veloso (atual Garota de Ipanema) no Rio de Janeiro, com o Dr. Claudino Lima.

Jeanette Bezerra, a primeira vedete do Brasil em New York.

Em 1972, a inauguração da agência do Banco do Brasil de New York, com a presença de Nestor Jost.


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O empresário Arnaldo de Barros e o escritor Domício Coutinho.

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A Lua de Mel de Tião Maia (à esquerda) nas Bahamas, com a esposa Maria da Gloria Carvalho (Miss Mundo) e o amigo Arnaldo de Barros.

Franz Beckenbauer e Arnaldo de Barros em New York.


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Nos anos 70, a discoteca Tropicália, do General, foi um dos lugares mais freqüentados por brasileiros. A Le Coco, uma boate francesa, concorria com a Bumba Macau, de Luisão. A discoteca Ipanema fechava o círculo brasileiro da época. E, de novo, o General, o espanhol Joaquim e Peter Martins dividiam a responsabilidade da casa. Muito ácido, haxixe, heroína, mescalina, muita maconha, pouca cocaína, intercalados por martinis, vodcas e uísques, eram as drogas consumidas aos borbotões pelos veteranos da guerra do Vietnam. O Yaponam, que chegara um ano antes de mim (1971), trabalhou na Tropicália e na discoteca Ipanema, em Manhattan. Depois, em 1975, viajou para o Brasil, casou com a Angélica e trabalhou em outra casa do General, a discoteca New York City, em Ipanema. No final do meu primeiro casamento fui com a minha irmã Ana Maria, a Ângela (última mulher do Roniquito Chevalier) e o Paulo César Caju (Nariz de Ferro) para a New York City. A casa, localizada no número 22 da Rua Visconde de Pirajá, era uma das primeiras do Brasil a mostrar música coordenada à imagem de um telão. O discotecário Vanil (valadarense) era o máximo da época. Lá pelas tantas, com a mesa aumentando, eu peço a conta e mando todo mundo sair. Como tinha acabado o meu talão, desenhei na última folha o formato de um cheque e assinei. Dobrei e coloquei no pires. Quando já estou quase na porta, um gorila me suspende por trás e me leva para outro gorila: Yaponam de Sousa – que até então eu não havia encontrado no Brasil. Na sala do General dei uma bela gargalhada, com o Ponam se responsabilizando pela conta – até o dia seguinte. O Ponam foi um dos poucos brasileiros nos Estados Unidos que acompanhou os meus quatro casamentos, desde a época do Brasil. O Augusto Buisine (Dino), anos mais tarde, já em Miami, nos lembra das pessoas que freqüentavam a Tropicália em New York: — Cansei de ver o Sivuca, Dustin Hoffman, Richie Havens, Astrud Gilberto, Al Pacino e muitos políticos americanos que não queriam aparecer nas páginas dos jornais. Em New York, cada pessoa era uma tatuagem, uma história: Jamil Degan, Luiz Gomes, Dona Emilia e João, da Cabana Carioca, Sérgio Bosi, Carlinhos Sabá, Antônio Nina, Salvador, Hélio Gusmão, Odilo Favacho (Dell), Peter Martins, Warley da Silva, Chaleur, Ademar (de Valadares), Roberto Costa (DJ), Pelé, Tim Oliveira e Beatriz, Rutênio, Fábio Machado (Rio Som), Arnaldo de Barros, Dona Berta, da Berta Brasil (irmã da Bellinha da Bella Boutique de Miami), o falecido Rodrigo da Manchete, o Lulu da Manchete, Marques (o alfaiate), Rogério 50, Aloísio Carcará, Yaponam de Souza, o Negro Arlindo, Fernando Gino, Santos, Chiquinho Marcha-à-Ré, Marinheiro e João Pereira (Parafuso). Em Newark, New Jersey, os brasileiros iam encontrando os seus


caminhos, casando e mudando. Eu precisava de muito pouco para voltar ao Brasil e reencontrar minha família.

Um verdadeiro caos. Desembarquei no Galeão Velho, numa época em que toda a família costumava ir ao aeroporto. Na ida ou na volta, sempre a mesma choradeira. O reencontro com os filhos, os amigos, meus pais. Já naquele ano de 1973 descobri que seria difícil voltar a me acostumar ao Rio de Janeiro. Resolvemos morar em Teresópolis, uma cidade mais tranqüila e perto do Rio. Ainda pensando na Silk City Textile Machinery de Paterson, tentei uma colocação na Sudamtex, a maior fábrica de tecidos da cidade. Na entrevista, um diretor me disse: — Desculpe, mas infelizmente não temos qualquer posição para você. Mas tenho um amigo que está precisando de pessoas para inaugurar uma financeira aqui na cidade. Quem sabe você poderá ser o gerente? Eu nunca havia trabalhado numa financeira. Mas o fato de ter voltado dos Estados Unidos apagava qualquer possibilidade de outro candidato. Passei no teste psicotécnico da PUC. Ficaram 10 candidatos. Na entrevista final, um dos diretores me confidenciou que eu vencera por ter morado no exterior. — Você sabe o que é uma caderneta de poupança? — Tenho uma vaga idéia. — Ótimo. É você que nós queremos. Não vamos correr o risco de empregar uma pessoa que traga vícios de outras empresas. Queremos gente nova, com a cuca fresca. Tudo isto porque eu havia morado nos Estados Unidos. Teresópolis foi uma boa temporada, embora em um ano e meio mudássemos três vezes de casa. A umidade prejudicava a saúde e os problemas de asma do Paulo Roberto, meu filho mais novo. A última casa ficava numa ladeira. O carro (sem o freio de mão) caiu no jardim do vizinho, que só voltaria dali a 15 dias. A solução foi contratar um charreteiro. Todos os dias Seu Raimundo ia me apanhar em casa de charrete. Do Alto de Teresópolis até a Várzea era uma verdadeira viagem. Na Crefisul aprendi que mais valia captar 100 cadernetas de poupança de 10 cruzeiros do que uma de 1.000 cruzeiros. Se um único cliente com saldo mil retirasse todo o seu dinheiro, a agência quebrava. Comecei a entender que, em algumas atividades comerciais, muitas vezes era mais fácil ganhar dinheiro com gente mais humilde do que com os ricos. Nesta fase de Crefisul, descia todas as sextas-feiras para o Castelo, para a reunião semanal dos gerentes. Além de conhecer os gaúchos

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DE VOLTA AO BRASIL

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Aaron Birman e Isaac Sirostki, convivi com um dos gerentes (mais tarde ator de cinema e TV), Anselmo Vasconcelos. A vida era relativamente boa, não fossem os amigos que vinham do Rio nos fins de semana e a família, que de repente aumentou e achou que eu estava rico. Os ciúmes, as primeiras brigas. Em menos de dois anos voltei para New Jersey. O sistema americano já havia entrado na minha alma. Em 1975, não conseguia mais viver fora daquela adrenalina. Não morria de amores pela América e já não me adaptava mais ao Brasil.

A SEGUNDA VOLTA AOS STATES Voltei para New Jersey com a idéia de me preparar financeiramente e depois trazer a família. Cheguei em Newark com uma mala e alguns dólares no bolso. Do aeroporto fui direto ao Restaurante Brasil, na Ferry Street. Lá encontrei um brasileiro que passava os filmes do único cinema da região. Ele me apresentou ao Dino (Augusto Buisine). — Eu já te conhecia de nome. Mas nunca pessoalmente. Tô sabendo um monte de histórias tuas. — Você pode ficar lá em casa. Tem um quarto sobrando. Para comer você pode falar aqui com a Lina, que é a dona deste restaurante. Em 1975, o Restaurante Brasil cobrava 25 dólares por semana (sete dias) pelas três refeições diárias. Era um bom preço em se tratando da grande variedade e fartura de comida. Em Newark, procurei de novo o Marcos dos Santos, que mais tarde seria meu compadre – fui padrinho de sua filha, Mônica. Ele já era supervisor da Ferro Corporation, uma fábrica de polimento de metais dirigida por um grupo italiano. Comecei a trabalhar ganhando por hora. Na parede do galpão tinha um enorme relógio e eu fazia as contas, convertendo para cruzeiro. Para descansar sempre inventava uma ida ao banheiro ou ao bebedouro. O trabalho era intermitente. Ninguém parava. Descanso só na hora do break ou do almoço de meia hora. As botas pesadas, a camisa azul-escura de mangas compridas com o nome bordado acima do bolso. Nas mãos, luvas de pano e uma de couro. No rosto, a máscara que deixava a marca da massa vermelha ou da fuligem. Nem o pano na cabeça impedia que os cabelos ficassem sempre duros, com pó de ferro. Se existisse inferno com certeza era ali. Entre outros, aquele era o melhor trabalho, o que oferecia mais overtime (hora extra) e a chance de ganhar mais. Dava para mandar algum dinheiro para o Brasil e pagar todas as contas. Dois meses depois, aluguei um quarto a dois quarteirões do trabalho. Na casa morava uma lourinha linda, que todos os dias, ao chegar da


Chico Moura (à esquerda) e Leão (irmão do Cajú de Ipanema) numa discoteca de Manhattan, no início dos anos 70.

Benito Romero e Carlos Wattimo (General) no restaurante Via Brasil de New York.

Jota Alves, o criador do jornal The Brasilians.

Jamelão e a baiana Amara Guimarães, num carnaval da Rua 46.

Um dos mais queridos brasileiros dos Estados Unidos, Adão Meirelles (já falecido).

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No Brazilian Promotion Center, a primeira bandeira brasileira, plantada na rua que mais tarde levaria o nome de Little Brazil (cortesia The Brasilians).

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Mário Garces e Fábio Machado, no início da criação da comunidade de brasileiros em Manhattan.

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O mineiro Luis Gomes, do Restaurante Via Brasil, figura tradicional entre os brasileiros de New York.

O homem de turismo Luis Carlos Serra (já falecido), Jane Zeymer Soares (jornalista mineira), Ângela Braga e Leon Margarian da Broadway Boutique (cortesia The Brasilians).

A Rainha da Noite Regine Choukron e o Fashion Designer Zeferino, nos anos dourados de New York (cortesia The Brasilians).


FERRY STREET A Ferry Street, no ano de 1975, continuava a mesma. Os portugueses cantando hinos da revolução dos Cravos e se embriagando de bagaceiras. O Iberia era o bar de maior concentração, com os operários saindo direto de seu trabalho para o momento de descontração. No chão do bar a sensação de se pisar num confortável tapete, uma mistura de cascas de camarão com cascas de amendoim. O chope cobrado a 25 centavos de dólar era pura água para aqueles barrigudos que já chegavam bêbados do trabalho. O cheiro da sardinha entrava roupa adentro. Mulher, nenhuma. Todos falavam alto e riam muito – de tudo. A fumaça dos cigarros penetrava nos pensamentos que, já embotados pelo álcool, explodiam em conversas sem fim. Na Ferry Street existiam portugueses, brasileiros e poucos cubanos. Os restaurantes, Ibéria, Tony das Canecas, Cinco Esquinas (Fininho), Roque e Rabelo e Sagres, dividiam as preferências. Os portugueses adoravam um papo e poderiam ficar de duas a três horas para tomar um simples café num bar da região. Além dos bares e restaurantes, muitas peixarias, casas de vinho, padarias, mercadinhos com produtos do além-mar e todo o comércio necessário para atender uma pequena cidade do interior. Todo mundo se conhecia. Os brasileiros, como sempre, tinham fama de vagabundos, enquanto as mulheres brasileiras eram consideradas de “acesso fácil”. Mas a rivalidade maior era sempre no futebol.

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escola, vestia um shortinho supercurto. Nas manhãs de sábado ela colocava uma cadeira de praia ao lado de minha janela e fazia topless. Rezava para chegar os fins-de-semana para acordar e olhar aqueles maravilhosos peitinhos cor-de-rosa. Todas as vezes que tentava uma aproximação chegava o irmão com um taco de beisebol para bater bola na minha outra parede. De um lado, o barulho da bola batendo no meu ouvido, do outro, uma teenager 100% wasper me provocando. Foi nessa cidade, Cranford, que tive a minha primeira experiência com a simpatia do povo americano. Quando descia a minha rua, uma americana linda passou por mim e disse: — Hi! Meu Deus, ela me deu a maior bola. Eu sou o máximo. E voltei para dar o telefone etc. A menina não entendeu nada. Era costume das pessoas se cumprimentarem, como deveria ser em todo o mundo. Eu é que não estava acostumado. Se estivesse passando na praia de Ipanema e uma maravilha daquela me desse um hi eu já pulava em cima! Que vergonha.

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JOÃO GILBERTO E JOTA ALVES

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Em New York, fui procurar trabalho com o Jota Alves, que havia criado o jornal The Brasilians. Nunca entendi por que não mudaram para The Brazilians, com z. Ele marcou comigo às cinco horas da tarde em seu escritório da 46 Street. Depois, disse que eu poderia levar um exemplar do jornal para mais tarde conversar. Marcamos às 20 horas do mesmo dia, no Café Latino-Americano. O Café ainda estava meio fechado. Mas convenci o dono a me deixar entrar e ele me deu uma mesa para esperar pelo novo amigo. No fundo do bar, Ray Armando, um percussionista porto-riquenho, ensaiava umas músicas com o violão brasileiro de ninguém mais ninguém menos do que João Gilberto. Enquanto o som rolava, lembrava do Otávio (Maravilha) Terceiro, um amigo que, em Ipanema, contava as histórias de como “criou” a ida de João Gilberto (a primeira vez) para os Estados Unidos. Otávio ia muito à nossa casa com o meu cunhado Gaúcho (Othoniel), Paulo Silvino e Fernando Lobo (pai de Edu Lobo). Fiquei tão empolgado com a lembrança do Otávio III e com aquele som maravilhoso que pedi uma cerveja. No embalo do ensaio tentei ler o jornal. Mas a música do João falava mais alto. Lá pelas 11 da noite, com três horas de atraso, o Jota aparece e pergunta o que eu achei do jornal. — Não li e não gostei. Só me interessava pela música do João. Perdi o futuro emprego e a possibilidade de começar uma nova carreira. Muitos anos depois imaginei o quanto o Jota deve ter ficado chateado com a minha resposta. Fazer jornal naquela época era como criar uma peça de artesanato sem ferramenta de trabalho. E o The Brasilians era o único jornal brasileiro dos Estados Unidos. O Al Souza (ex-funcionário da Varig e atual diretor do jornal ACHEI-USA) criara um jornal, e garante (com provas) ter sido o primeiro.

MARCOS CARDOSO DOS SANTOS Marcos dos Santos, o meu primeiro e mais forte amigo brasileiro, depois de ter me colocado na pensão de Dona Maria Portugal, de ter vivido momentos dos mais adversos na América, foi morar em Kenilworth (a 30 minutos de New York), uma cidade de pouco mais de 5.000 habitantes, mas perto da fábrica de polimento Ferro Corporation. Casou-se com a Jane, com quem teve o primeiro filho americano, Paul, em 1974. Mais tarde me chamaram para ser padrinho (em 1981) de sua filha, Mônica.


Êta dor- de- cotovelo dos diabos, Que saudade, que vontade de morrer, Que adianta encobrir as aparências Se me olhando, todo mundo vai lhe ver, Êta dor-de-cotovelo dos infernos, Desse jeito não vai dar pra lhe esperar, Qualquer dia tomo um fogo às escondidas, Choro e saio por aí, a te buscar, Êta dor, que não devolve quem se ama Êta dor, que ninguém quer dizer que tem, Disfarçada, num sorriso mentiroso, É um pedaço de saudade, de alguém. Nós (eu e o Odimar) comemorávamos o nosso aniversário no mesmo dia 4 de outubro, assim como Paulinho Galinha (de Ipanema) e o pintor Albery. Acompanhei durante muitos anos os shows do Brazilian Energy

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Os irmãos Torró, Kubu e Cacá vieram mais tarde e também fizeram história em Newark. O irmão Maurício (Lingüiça) e a mãe, Dona Maria, ficaram no Bairro de Sarandi, em Belo Horizonte. Marcos era uma pessoa muito inteligente, um homem supertrabalhador. Viveu como um dos grandes heróis brasileiros que no exterior se sacrificam para bem criar os filhos, renunciando a aventuras e ao apelo familiar deixado no Brasil. Nada era mais importante para aquele tipo de imigrante do que a nova família criada no exterior. Hoje tenho certeza de que os meus grandes heróis são aqueles que conseguiram estabelecer uma família, criar os seus alicerces morais de boa conduta, sem se deslumbrar com o consumo das drogas ou a “felicidade” material que a sociedade capitalista proporciona. Marcos foi, e ainda é, para mim um dos grandes heróis brasileiros. Um dia me chamou para acompanhá-lo ao aeroporto e receber uns amigos de BH. Eram músicos que estavam com medo de entrar no país. Fomos até o Kennedy receber o Odimar, Zizza (José Silva), Marquinhos Mourão, Reinaldo Marques (irmão do Lucinho Bizadão). Em Belo Horizonte faziam sucesso com os conjuntos Pendulum e Turbulentos. O primeiro músico do grupo, o Bandinha, já havia entrado por Miami, e então Marcos cria o Brazilian Energy, que foi durante muito tempo o melhor conjunto musical entre as comunidades de brasileiros nos Estados Unidos. De cara me identifiquei com o Odimar, que não podia me ver entrar em qualquer casa onde estivesse tocando que não cantasse uma música de Lúcio Cardim, Luís Felipe e Jamelão:

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(com o Marcos Cardoso dos Santos) por New York, Washington, Boston e Miami. O Magrão foi uma das pessoas mais incríveis que conheci nos Estados Unidos. Era uma relação espiritual, uma pessoa que dava a impressão de que sempre conheci, de quem sempre fui amigo. A palavra amigo era pequena. Era do tipo que, se às 3 horas da manhã o meu carro parasse na neve, ele saía de casa de pijama com um roupão e dirigia mais de 40 quilômetros para me ajudar. Uma vez telefonei, ele acordou, veio me socorrer e, no final, o meu carro simplesmente não dava partida porque não estava no “P” de parking. Ele, em vez de ficar com raiva, deu boas risadas – às 4 horas da manhã – e ainda me convidou para tomar uma cerveja. Amizade parecida só como a de outro mineiro em Miami, o João Pereira. Perto da cidade de Newark, em New Jersey, existia um complexo de edifícios, Ivy Hill, povoado por brasileiros mestiços e negros americanos. Lá se podia encontrar a maior comunidade de gaúchos nos Estados Unidos. De Passo Fundo, Pelotas, Santa Maria ou Porto Alegre, centenas de famílias gaúchas. São muitos os nomes de amigos que estabeleci naquela época do Ivy Hill. Normalmente, passava os fins de semana na casa do Marcos, com direito a churrasco, acompanhar o seu jogo de futebol com os italianos, jogar buraco sábado à noite, com muitas cervejas e a tradicional pizza de domingo. Aqueles encontros eram uma forma de matar a saudade de nossas famílias que ficaram no Brasil.

A SEGUNDA VOLTA AO BRASIL Seis meses depois, sem conseguir convencer mulher e filhos a viver nos Estados Unidos, voltei para o Brasil com 50 centavos no bolso. Já no Rio, ao abrir a mala, encontrei um envelope com uma “vaquinha” que o meu amigo Marcos havia feito: 75 dólares em notas de um, cinco, dez. E uma bela carta. Fiquei emocionado com aquela surpresa. Uma verdadeira fortuna. No aeroporto não tinha dinheiro nem para o carregador de malas. Ao ver minha mulher, olhei bem nos seus olhos: — Não sei o dia nem a hora, mas sei exatamente o que aconteceu... Ela começou a chorar. *** No Brasil, em menos de dez dias virei corretor de imóveis da Julio Bogoricin. Afinal, já havia sido gerente de uma financeira e poderia


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reencontrar alguns amigos interessados em comprar algum imóvel. O melhor corretor de lá me disse: — Vou te ensinar a vender imóveis. Primeiro você tem que olhar aqui neste painel, (localizado no lobby do edifício), por exemplo, vamos subir direto. Não adianta marcar entrevista. É subir direto e vender. Rodei com ele por dez dias e nada. Resolvi então ligar para o meu amigo Léo da Rocha Ferreira: — Vamos almoçar? — Vou levar um amigo que é nosso diretor aqui no IPEA. OK? No meio do almoço, falei: — Imagine, agora estou numa fase de corretor de imóveis e tenho um prédio para vender na Rua da Glória, 290. Não entendo nada deste mercado. Foi quando o diretor do IPEA disse: — Eu tenho um amigo que não agüenta mais alugar casas em Botafogo e está procurando um espaço para comprar. Dia seguinte peguei um ônibus e segui para a Transcon, uma empresa de consultoria de transportes que estava estrangulada em Botafogo. — O lugar é ótimo. É o que eu preciso, mas o preço está muito alto. — Amanhã eu volto. O espaço já é seu. Pela primeira vez aprendi que o preço não importa quando se encontra o que se está buscando. Preço é negociável. Se eu tenho o produto e o cliente quer, o resto é detalhe. Levei a venda para o meu gerente, Oscar Magtaz, e disse que havia vendido cinco andares corridos. O fechamento agora estava na mão dele, uma vez que somente ele poderia barganhar preço, trocar por títulos, ações ou fosse lá o que fosse. Em dinheiro foi mais de um milhão de dólares à vista. A maior venda do ano da Julio Bogoricin Imóveis. Com a comissão (mais de dez mil dólares) e o valor do dinheiro na época, comprei um carro zero, dei dois mil dólares para minha mãe e mobiliei o nosso apartamento em Ipanema. Durante muitos anos pensei no valor do dinheiro. A quantia não importava muito. O valor, o poder de compra, sim. Mais tarde, aprendi o que significava em inglês a palavra devaluation. Poucos dias depois passa pelo Rio o meu amigo de New Jersey, o mineiro Yaro Pribil. Convidei-o a ficar uma semana num hotel em Ipanema com tudo pago. Era (por tabela) uma forma de começar a agradecer ao Marcos dos Santos pela vaquinha feita em Newark. Dois meses depois, ganhei outra pancada de dinheiro na Julio Bogoricin e, como meu pai, pensei que era rico. Na festa de fim de ano, a empresa se reuniu no Restaurante Roda Viva, na Urca, para homenagear o corretor do ano: Chico Moura. Na cabeça volta a história do aeroporto. Com quem ela havia saído?

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Não deu para agüentar. As brigas, constantes. Após o desquite fui viver em Botafogo na casa do cineasta Ruy Polanah, um africano de Moçambique. Eu, ele e a Eliana, a cachorrinha (herança) da Leila Diniz. Naquela época todos nós dormíamos em redes (inclusive a Eliana) e consumíamos cada um, todos os dias, (no mínimo) um litro de Caninha da Roça. Conheci muita gente de teatro e de cinema naquela velha casa da Rua Dona Carlota 19 (atual Rua Muniz Barreto). Não tive a sorte de cruzar com o Chico Buarque ou o Rui Guerra... Um dia, Polanah levantou a rede para passar de uma sala para outra, escorregou e caiu com o peso do corpo em cima do nariz, que ficou na quina de uma estante. Com o pedaço de nariz pendurado, foi levado para um hospital do Humaitá por dois motociclistas que passavam pela Rua Dona Carlota. Muitos anos depois, procurei a rua: havia sumido. A casa virou restaurante, depois casa de comércio. Quase trinta anos depois vi o Ruy Polanah como pajé no filme Tainá, que assisti em companhia de minha filha no Festival de Cinema Brasileiro de Miami Beach. A cicatriz do nariz na tela me transportou para uma forte tatuagem da alma.

A TATUAGEM BAIANA Na casa de Vera Lisboa, ainda no Rio de Janeiro, olhei para o céu e disse para seu irmão, o Paulinho Maluco: — A Bahia deve estar linda. Vamos para Salvador? — Vamos! Eu nunca havia estado na Bahia. Joguei um papo qualquer no ar de que a Bahia deveria estar linda. Quando acordei (no carro), já estava no Espírito Santo. Com a roupa da viagem mais bermuda e calção, ficamos três dias hospedados em Salvador, num apartamento de um empresário, dono de óticas. A irmã do Paulinho Maluco voltou ao Rio com uma amiga e o Antônio Paulo Brandão. Eu e o Paulinho Maluco alugamos uma casa na Lagoa de Pituaçu, considerada a área mais verde de Salvador. Voltamos ao Rio, pegamos algumas coisas e num fusquinha mudamos de vez para a Bahia. A minha ex-mulher mudou-se com os filhos para Natal, no Rio Grande do Norte. A casa na beira da lagoa era linda. Tinha três quartos, um salão, uma grande cozinha e muita maconha pela vizinhança. O som alto, as bebedeiras, as brigas, as namoradas. Como um raio, o Paulinho engravidou uma socialite baiana. Um dos tios da menina construía uns carros exóticos na nossa rua. Os últimos hippies argentinos, franceses, bolivia-


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nos e americanos moravam na Lagoa de Pituaçu. Lá aprendi a gostar da música de Billie Holiday, Mercedes Soza, Joan Baez. A chegada foi marcante. Logo no primeiro dia fomos a uma discoteca no Hotel Othon. Como estávamos de tênis, o porteiro barrou a nossa entrada. Aí voamos para a piscina e os cinco (duas mulheres e três homens) mergulhamos na piscina de roupa e tudo. Saímos correndo, entramos no carro e voamos para o Farol da Barra. Ainda molhados, descobrimos o Bar Habeas Copus, de Sérgio Bezerra, que mais tarde se tornou um amigo eterno. — Eu não sei o que vai acontecer a partir desta noite, disse Sérgio. Sei que vocês vão gostar... E nos levou ao Pelourinho. Antônio Paulo Brandão, um de nossos amigos que viajaram conosco para Salvador, era uma mistura de pintor e bêbado profissional. Ainda muito jovem bebia porque achava que os pintores tinham por obrigação viver no estado etílico. Pouco tempo depois, ainda jovem, falecia de uma cirrose no Rio de Janeiro. Anos mais tarde conheci em Miami um antropólogo que, após graduação na Universidade de Indiana, fez PHD defendendo uma tese relacionada a uma tribo indígena do Amapá. Aqueles índios acreditavam que se vivessem em permanente estado etílico estariam mais próximos a Deus, num estado mais puro e verdadeiro da alma. Foi assim que Victor Fuks me convidou, em Miami, para o dia do Simat Torah, quando os judeus ortodoxos se embriagam. Brandão, pouco antes de falecer, falava muito sobre Baco ou Dionísio, o deus grego do vinho. Acreditava e vivia os textos religiosos dos indianos que citavam uma bebida especial que, ingerida, levava o homem aos deuses. A fórmula desta bebida se perdeu e mais tarde eles a substituíram por outras práticas como a ioga, meditação profunda etc. Brandão estava convencido de que os antigos egípcios também consideravam as bebidas alcoólicas como uma dádiva dos deuses, mais precisamente de Osíris, deidade ligada à agricultura e em particular ao vinho. E isto sem falar nos escritores americanos, Hemingway, William Faulkner, John Steinbeck. No Rio de Janeiro, Brandão morava num verdadeiro castelo no bairro do Horto Florestal (perto da TV Globo). Durante algum tempo andávamos numa Gulivette (moped) eu, o Brandão e a Elsie, ex-mulher do Manfredo Colasanti (pai de Arduíno), percorrendo todos os bares da zona sul do Rio. — Bebida não combina com motocicleta – dizia diariamente o cineasta Ruy Polanah. Noite seguinte no Luna Bar: — Já falei para vocês que bebida não combina com motocicleta. Na pizzaria Guanabara todos levantaram e gritaram: — BEBIDA NÃO COMBINA COM MOTOCICLETA!

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Já cansados de tantos avisos nos reunimos no apartamento da Elsie, em Laranjeiras, e combinamos de pagar a um farmacêutico que nos engessasse. No mesmo dia engessei o pescoço e a clavícula, o Brandão engessou a perna e a Elsie o braço. Além disso, enfaixou a cabeça dando uma aparência de um verdadeiro e feio acidente. No bar: — Ontem saímos do Luna às três horas da manhã e na Curva do Calombo, na Lagoa, derrapamos. Bem que vocês falaram. Dois dias depois, com a retirada do gesso, o passeio pelos mesmos bares... A noite do Pelourinho, em Salvador, foi um marco em minha vida. Depois, foi criada uma tatuagem que iria me encantar. Amanhecemos na praia do Forte com muitas namoradas. Eu principalmente, apaixonado por uma baiana de longos cabelos encaracolados e sedutores. A paixão pela namorada durou uns dois ou três dias. Mas a paixão pela Bahia foi maior.

JORNAL, A MAIOR TATUAGEM Em 1976, fui trabalhar num jornal pela primeira vez. Rogaciano Leite me levou para conhecer o JB em 1969, mas faleceu logo em seguida – o sonho só aconteceu sete anos depois na Bahia. O Jornal da Bahia, de João Falcão (inimigo mortal de Antônio Carlos Magalhães), ficava na Barroquinha, num antigo casario português. Salvador era uma réplica de Lisboa, capital de Portugal. Em 1976, no primeiro mês de trabalho no Jornal da Bahia, tive a idéia da criação de uma seção semanal, uma página sobre cada cidade do interior daquele Estado. A primeira que visitei foi a cidade de Alagoinhas, fundada em 1852, com uma população ao redor dos 100 mil habitantes. Procurei o prefeito, o diretor da escola, do hospital, o farmacêutico, um revendedor de automóveis, um médico e saí vendendo a idéia. Todos acharam o máximo, ver a sua cidade uma vez por semana num jornal de grande circulação. Vendia pequenos módulos de publicidade, com matérias em cápsulas sobre os melhoramentos da cidade e notícias sociais. Foi um sucesso. Aí, no ano de 1976, começou a minha maior tatuagem como jornalista e publicitário. O Paulinho Maluco, meu roommate, conseguiu uma reunião com o pessoal do jornal O Globo. Convenceu o diretor da sucursal (Mário Ernani) de que eu era jornalista. Com a saída do Jornal da Bahia, acabei virando gerente da sucursal do Globo em Salvador, com a criação da coluna “Bahia, Um Estado de Espírito”. Foi o primeiro trampolim para ver os filhos, que já estavam de novo morando no Rio de Janeiro. Vendia


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O músico mineiro José Silva (O Ziza), no início de sua carreira em New Jersey.

Lídia e Roberto Calegari. Calegari fez fortuna em Newark e voltou para São Paulo.

Amaral, Odimar, Marcos Cardoso dos Santos, Reinaldo (irmão do Bisadão) e Marquinhos Mourão.

Baianinho, tradicional figura de Newark, lendo um jornal brasileiro na Ferry Street.

Ângelo Mourão, outro precursor da comunidade de brasileiros em New York.

Barrabás, Kubú, Torró e Cacá no desfile da Ferry Street, em Newark.


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O eterno editor do The Brasilians, Edilberto Mendes, com a brasileira Nicole (que foi centerfold da Playboy).

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O carioca Jaime Felzem na porta de sua loja, a Brasil Som, na Rua 46 de New York.

Pelé conhecendo um dos primeiros números do jornal The Brasilians.

Marcos Cardoso dos Santos (o Magrão) com a cunhada, Marly Gouveia, em noite de festa de Newark, New Jersey.


A LEI DA VANTAGEM Um dia, o nosso office boy do jornal foi preso na Praça Portugal. O delegado me chamou: — Este moleque foi preso porque caiu no conto do paco. E vai ficar aqui guardado uns dias. — Mas doutor, ele foi vítima de uma arapuca. — Não. A lei diz que ele tentou se aproveitar de uma situação. Ele queria participar de um ganho fácil. Onde já se viu isto? Voltei para casa pensando nas palavras do delegado. Dias depois, com o office boy já solto, fui estacionar o carro próximo ao nosso escritório, na Cidade Baixa. No sinal, um mulato magro, alto, se aproximou: — Você não tem um tape deck no seu carro? — Não. Nem sei exatamente o que é isto. — Eu trabalho aqui no porto e tenho muita mercadoria barata. São produtos importados. Quer ver como funciona bem no seu carro? Por que não encosta aqui ao lado? — Ok. O baiano instalou o tal tape deck e saiu um som maravilhoso. Era rádio, toca-fita, estéreo... — E quanto custa? — É baratinho. Dois mil cruzeiros.

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muita publicidade e fazia as matérias sobre o Carnaval da Bahia, Origens da Capoeira, as Festas de Largo etc. Em Salvador vivia as batidas do bar Diolindo, os restaurantes Yemanjá, Tião Motorista e Panelinha. A praia de Arembepe, Piatã, Jardim de Alá, Pituba, a Praça Castro Alves. São tantos os momentos de alegria em Salvador, que só mesmo quem morou naquela cidade pode avaliar a felicidade de seu povo. Na sucursal do jornal conheci uma paulista – a secretária do diretor. A princípio ela me via como um perdido, que precisava de ajuda espiritual. Como uma boa cristã, me levou para a igreja. Me apaixonei. Mudei de casa e de vida. Ainda não estava divorciado (só desquitado) e já pensava em casar. Foi uma fase muito produtiva e cheia de boas recordações. Os fins de semana na praia do Forte, Morro de São Paulo, Amaralina, Itabuna, Ilhéus, Mar Grande. Conheci muita gente. Foi uma das mais religiosas fases como cristão. Aos domingos estudava a bíblia, na escola dominical da Primeira Igreja Metodista de Salvador, e à tarde fazia os “testemunhos” pelos bairros pobres da cidade. Deixei muitos amigos na Bahia, um lugar cheio de mistérios, com cheiros exóticos, cores fortes e um povo maravilhoso. E na terra do candomblé, eu marcava uma intensa tatuagem como protestante.

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— Não tenho dinheiro aqui. Se você esperar, vou ao banco e tiro. — Não tem problema. Fui ao Banco Econômico, entrei numa enorme fila e consegui sacar o dinheiro. Afinal, valia a pena. Um aparelho destes deveria custar pelo menos uns seis, sete mil cruzeiros. Já com o dinheiro na mão, o homem devolvendo diz: — Sabe, doutor, pensando bem, não posso vender por dois mil cruzeiros. O meu sócio vai me matar se descobrir que vendi tão barato. Pelo menos uns quatro mil cruzeiros. — Você está louco? Nem pensar. Combinamos dois mil e é dois mil. Peguei o dinheiro e fui para o carro. O homem voltou correndo. — Doutor, tá bem, tá bem. Pode levar pelos dois mil. Já estou ferrado mesmo. — Ok. Na mesma hora olhei para dentro da sacola. A caixa de sapatos com o rádio dentro estava intacta, com fita durex. A que ele me mostrara tinha sido rasgada. Abri e tinha uma pedra do mesmo peso do rádio. No vaivém, eles trocaram a caixa. Saí correndo e agarrei o homem pelo pescoço: — Onde está o meu dinheiro? A esta altura eu não sabia se a raiva era maior do que a força. Sei que o agarrei pelo pescoço com força. Ele me devolveu o dinheiro e eu comecei a gritar pela polícia. Em poucos segundos me veio à mente a história do office boy que caiu no conto do paco e foi preso. Depois de muita confusão, já com o meu dinheiro no bolso, dois policiais chegaram e eu falei: — Este vagabundo tentou me roubar, mas agora já está tudo bem. Que ele nunca mais faça isto. Não me roubou nada. Tá tudo certo. E fui embora. Esta história contei durante muitos anos para meus filhos e para muita gente que está sempre pensando em se aproveitar de situações fáceis. Quase sempre o feitiço vira contra o feiticeiro. Além do mais, é crime.

A VENDA DO CARRO Quando decidimos voltar aos Estados Unidos, precisava vender o meu carro. Pedi ao guardador para me ajudar. Era um Volkswagen novinho em folha, bem conservado, limpo. Eu havia comprado de um pastor da Igreja Batista do Sião, no bairro de Campo Grande. O guardador chegou eufórico: — Consegui um cliente. Vamos Lá? É aqui mesmo na Ladeira da Montanha. A Sucursal do Globo ficava na Cidade Baixa, perto da Ladeira da


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Montanha, onde estava localizada a zona de meretrício da cidade. O dono de uma das casas era casado com a sobrinha do Tenório Cavalcanti, o Homem da Capa Preta, de Caxias, no Rio de Janeiro. Ele foi logo dizendo: — Gostei do seu carro. Se conseguir chegar até Palmeira dos Índios, em Alagoas, na volta eu pago, à vista. — OK. Maravilha! Mais uma aventura. Viajar com a sobrinha do Tenório Cavalcanti vai me dar boas histórias. À noite lembrei de uma das primeiras entrevistas que o jovem jornalista Flavio Cavalcanti fazia ao vivo para a TV Tupi do Rio de Janeiro: ele foi à casa do Tenório Cavalcanti oferecendo 500 dólares para uma instituição de caridade se ele cortasse a barba - ao vivo - na televisão. Tenório concordou, mas daria 1.000 dólares (não me lembro o valor exato) à mesma instituição se ele, Flávio, se jogasse de roupa e tudo em sua piscina - ao vivo na TV. Flávio se recusou a cair na piscina e foi jogado à força pelos capangas do Tenório. Foram muitas as histórias daquele personagem... De manhã cedinho seguimos eu, ele e a esposa para Palmeira dos Índios, uma cidade localizada a 300 metros de altitude. Eu sabia poucas coisas dessa cidade: que era a terra de Tenório Cavalcanti, do meu amigo Hugo Santana, de onde o escritor Graciliano Ramos foi prefeito e da melhor maconha do Brasil. Na viagem contei ao casal uma passagem com o cantor Hugo Santana. No final dos anos 60, eu estava sentado no bar Veloso, em Ipanema, e ele passou com um garrafão de vinho na mão. — Vai pra onde com esse garrafão? — Vem comigo. Tem uma fogueira na praia com umas pessoas tocando violão. Vamos lá! Quando cheguei havia uma americana loura cantando para umas trinta pessoas: era Janis Joplin. Os meus companheiros de viagem nunca tinham ouvido falar de Janis Joplin. Do Hugo Santana, sim, filho do barbeiro da cidade de Palmeira dos Índios. — Mas e vocês, por que querem ir lá? — Nós vamos acabar com uma pessoa. Se precisar, vamos dar sumiço nela. — Vão matar alguém? — Mais ou menos. — Não me envolvam com este problema. Pelo Amor de Deus. Estou recém-casado e preciso viajar na próxima semana de volta aos Estados Unidos. — Não se preocupe. Não vamos te envolver. Só queremos o carro. — Mas por que vão fazer isto? — O meu sobrinho estudou em Belo Horizonte e aprendeu inglês. Voltou e abriu uma escola de idiomas. O diretor do MEC está pegando no pé dele e a gente vai resolver.

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Chegando em Palmeiras dos Índios, a chamada “Princesinha do Sertão”, conheci o lugar onde passaram e foram decapitados alguns dos cangaceiros de Lampião, a pracinha e a tal escola de inglês. Pedi que me deixassem na praça e se eles não voltassem a tempo eu iria para a escola e levaria o carro de volta para Salvador. O tempo passou e nada de eles voltarem. Devagar fui caminhando para a tal escola. Na porta, o suposto professor de inglês, o diretor do MEC, os sobrinhos do Tenório e tudo em paz. Graças a Deus. — Como foi? Tudo certo? — Tudo certo. O diretor é dos nossos. Vai dar tudo certo. Aliviado, voltamos por outra estrada, menos esburacada, com mais asfalto. No meio da viagem eles saíram e pediram que eu tivesse um pouco de paciência. Com certeza vamos comprar o seu carro. Mas precisamos dar uma paradinha aqui perto e pegar mais uma pessoa. A cidadezinha deveria ter umas 200 pessoas. Em uma das casas, o pai apareceu chorando e, abraçando o meu passageiro, disse: — Obrigado, Doutô, muito obrigado! E aí apareceu uma indiazinha de uns 13 ou 14 anos. Entrou no carro com aquele perfume de sabonete do interior misturado com o cheiro de óleo de cabelo. No carro escutei o seguinte: — Nós vamos te dar roupa, comida e muita diversão. Se quiser estudar, depende de você. Comida nunca vai faltar. Os olhos da indiazinha brilhavam. A história era a seguinte: após pagar roupa, comida, bebidas ou qualquer tipo de drogas, a menina tinha que pagar pela salvação, pelo “bem” que o casal fazia de tirá-la daquele buraco sem eletricidade, sem comida, sem água. Eles eram os grandes salvadores que acabavam de resgatar mais uma alma. Todo o dinheiro apurado no puteiro era de propriedade dos salvadores. Afinal, ela não morreria de fome! Aquela cena ficaria gravada por muitos anos na minha cabeça. Comprei o carro de um pastor batista e o vendi para um gigolô. Com o dinheiro do carro na mão, seguimos para New York. Eu iria receber o green card no aeroporto Kennedy e, aí, tudo seria mais fácil. Com o famoso “papel”, poderia ganhar mais.

A TERCEIRA MUDANÇA PARA OS STATES Chegamos (eu e a segunda mulher) em New Jersey, em 1978, e fomos morar em Kearny, uma pequena cidade ao lado de Newark. Alugamos a casa de um português. Com o green card, voltei para a Ferro


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Corporation, o mesmo lugar em que havia trabalhado como ilegal. Nada mudou. Só que agora tinha esposa nova e o famoso “papel”. Como o meu filho (que então já morava no Brasil) havia nascido em New Jersey em 1973, os pais estrangeiros – até o ano de 1975 – poderiam entrar com o pedido do green card. Anos mais tarde fiz uma conta e somei mais de 30 green cards que meu filho Paulo Roberto iria proporcionar. Após um mês como polidor de metais em Garwood, o telefone toca: — Chico, o que você está fazendo aí nesse fim de mundo? Venha trabalhar comigo! Quase não acreditei quando o Munir Helayel me chamou para trabalhar no terceiro maior banco americano. Cortei o cabelo, fiquei dois dias tirando a fuligem e a graxa da barba, limpei as unhas e parti para Manhattan. No teste psicotécnico fui mal. O vice-presidente do Departamento Internacional de Análise de Crédito ligou para o Departamento Pessoal e de lá, o aviso: — Infelizmente ele não está qualificado para a posição. — Quem diz se ele está qualificado ou não, sou eu. Kofi Adjei era um negro africano de um metro e meio de altura. O avô, chefe de uma tribo, mandou o neto para Londres e custeou seus estudos. Com o tempo, foi nomeado chefe do International Credit Analysis Department, do Manufacturers Hanover, na época a terceira maior instituição financeira americana. Ao entrar no banco senti a diferença logo no chão. O tapete deveria medir um palmo de altura. Da fábrica de polimento para o chão almofadado. — Quem diz se ele é ou não qualificado, sou eu. E eu digo que ele está qualificado para a posição. Estou mandando o candidato para preencher os papéis. Não era possível. Não acreditei no que estava vivendo. Isto não poderia acontecer na América. Em pouco menos de dois meses já estava empregado no MHT Co. como analista de crédito internacional. Às 9 da manhã seguia para o restaurante onde era servido o breakfast. Por mais ou menos uns 30, 50 centavos tínhamos absolutamente tudo o que se podia imaginar do melhor hotel cinco estrelas do mundo. Às 10 horas começava a trabalhar. Analisava os balanços dos bancos brasileiros, os annual reports chegavam em português e Kofi Adjei sabia que seria difícil encontrar uma pessoa com o meu background – afinal eu já havia trabalhado na Crefisul, uma financeira no Brasil que, agora, após o incêndio do edifício Joelma em São Paulo, fazia parte do Citibank, seu concorrente. Todas as vezes que ele me via no elevador ou nos corredores perguntava:

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— Há quanto tempo você chegou de viagem? — Quase dois meses. Ele adorava me perguntar isto. Caía na gargalhada. Dava-lhe prazer saber que uma pessoa sem PhD chegara do Brasil com pouco inglês e já era analista de crédito.

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*** O nosso departamento era composto de 40 pessoas, uma de cada país, dividido por regiões. A contabilidade inglesa era a mais fácil de analisar. Assim como a maioria dos países da Europa. A contabilidade americana também era bem codificada. A América do Sul era a mais complicada, sendo o Brasil uma verdadeira mágica. A cada ano se incorporavam novos itens que nunca sabíamos se eram considerados cash, se eram realmente parte do ativo. O passivo nunca batia com as regras do banco. Os computadores tinham que ser programados especialmente para a contabilidade brasileira. Cada cópia de um spread (informação codificada) era vendida pelo banco por 30 dólares. Instituições financeiras do mundo inteiro corriam para o fenômeno chamado Brasil, que pagava juros fantásticos. Lógico que eu nunca entendi de economia para discutir estes assuntos. Mas lembrei da história de um agiota cearense que pagava juros de até um por cento ao dia – em dólar – no Brasil. Quando girou 30 milhões de dólares, deu um “banho” nos clientes e sumiu. Ninguém pôde reclamar em juízo. A nossa moeda, no Brasil, não é dólar. Como mandar prendê-lo? Só contratando um assassino profissional para matá-lo. Emprestar dinheiro ao Brasil naquela época era mais ou menos igual. Os bancos davam as garantias para os empréstimos. Pagar? No dia de São Nunca! O nosso país era tão rico que podia, com qualquer garantia, brincar com qualquer número. Vinte anos depois o efeito apareceu. Na época, antes de o banco ser vendido, os representantes do MHT Co. no Brasil sabiam de tudo. Eu e o Munir nos divertíamos com as footnotes dos officers : Ontem fui na casa do banqueiro tal. Ele paquerou a mulher de um banqueiro baiano que parece estar de caso com o ministro tal. Não sabia que ele era homossexual. Acho que a tendência daquele banco mineiro é para tal caminho. Fulano de São Paulo vai quebrar... Eles sabiam de tudo. Parecia coisa de filme de espionagem. Uma vez, o Munir recebeu mais uma chamada de um head hunter para ganhar o dobro de seu salário. A oferta era para trabalhar num banco argentino. Fomos até os arquivos ver a situação financeira. O representante daquele banco na Argentina escreveu: “Acho que este banco não dura mais três meses. Gastaram alguns milhões na decoração da


CACHORRO VIRA-LATAS Mirreile era uma judia marroquina que não tirava os olhos de mim. Tinha um andar nobre, com um pescoço comprido, pernas longas e um permanente sorriso nos lábios. Irradiava sexo. Parecia uma garça, uma bailarina. Todas as vezes que me olhava eu errava nas contas, ficava nervoso. Um dia, fui até sua mesa e a convidei para almoçar.

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filial de New York. Tem um quadro na parede que vale 200 mil dólares. Alguma coisa não está batendo bem. Acho que eles vão explodir”. Dito e feito. Três meses depois o banco entrou em concordata. O maior escândalo da Argentina. Os almoços do MHT Co. eram uma verdadeira festa. No sétimo andar do elegante prédio do 350 Park Ave, por uns dois ou três dólares, comiase caviar, T-bone steak, salmão, camarões, lagostas. Era coisa de cinema. À tarde, o banco resolveu me colocar num curso de inglês para mais tarde poder fazer melhor o curso de análise de crédito. Eu saía às 15h e só voltava no dia seguinte. O curso de análise de crédito para mim foi mais difícil. Afinal, o único funcionário daquele departamento internacional que não tinha formação acadêmica era exatamente eu. Quase todos os dias, o tal do happy hour. As mulheres mais devassas do universo. A cada promoção, uma trepada. Dos dois lados. Era um trocatroca fantástico. Eu, recém-casado, não tinha qualquer apetite para pular a cerca. O máximo que fazia era freqüentar um happy hour. Aí morava o perigo. Mais do que as orgias, os happy hours tiravam a saúde. Num final de tarde contei, com o Munir, 22 doses de gin tônica (para cada um). Total: 44 doses. Ninguém em sã consciência poderia beber tanto. E nem combinava com o tipo de trabalho, que basicamente era matemática pura. Como pensar no dia seguinte? E quanto mais se bebia, mais se produzia. Vivíamos uma fase etária em que os neurônios funcionavam rápido e brilhantemente. Os mais antigos não se importavam de fumar maconha na hora do almoço. Sentados em pequenas muretas – em frente ao banco – abertamente, os mais diferentes funcionários, officers, vice-presidentes, todos fumando maconha. Um dia, a cubana Mirna Serrano me pediu para ajudá-la numa promoção. Usei todos os meus conhecimentos, todos os pistolões. Ela tinha um amigo brasileiro que por acaso era amigo dos mineiros da pensão de New Jersey, o Arnaldo Carrera. Assim como o Munir me ajudou, assim como o VP do International Credit Department, o africano Kofi Adjei, me apoiou, estava na hora de ajudar outros amigos. Mirna (que era apaixonada pelo Brasil) mais tarde foi promovida e acabou chefiando o departamento de um banco internacional na Espanha.

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— Mirreile, desculpe a minha sinceridade, mas eu não tenho sangue inglês, suíço, sueco, nem tampouco finlandês ou dinamarquês. Eu nasci numa região agreste, onde os homens são homens ou pelo menos pensam que são. Depois fui criado no Rio de Janeiro. Você sabe, o Rio é uma festa, muita dança, tem o carnaval. E uma mulher como você, se olha para um homem como eu, no Brasil, dá uma confusão danada. Sem tirar os olhos de mim, ela sentenciou: — Eu te amo! – E ficou parada olhando para mim. — Te amo porque você é um cachorro vira-latas. I love you because you are a mut! — O quê? Um cachorro vira-latas? — Não me leve a mal. Os vira-latas são mais inteligentes, nunca ficam doentes e com certeza são os melhores na cama. Quase desmaiei. Nunca, em toda a minha vida, uma mulher tão bonita havia feito uma homenagem tão maravilhosa – e sincera. Durante muito tempo, quando queria impressionar uma garota, usei esta história do cachorro vira-latas e aí a curiosidade feminina mostrava-se muito maior do que a própria verdade.

O CATATÔNICO A meu lado trabalhava um veterano de guerra. Todos diziam que ele era catatônico e nunca falava com ninguém. De manhã ele recebia uma pasta e passava o dia olhando para um ponto fixo na mesa. Na hora do almoço fechava a pasta, dava um sumiço e voltava para terminar o expediente. Por lei, as empresas americanas tinham que empregar um número de veteranos, deficientes físicos, paraplégicos. No dia de Saint Patrick, padroeiro da cidade de New York e dos irlandeses, na hora do almoço, Frank Mc Keon fecha a sua pasta e, como um robô, pára em frente à minha mesa: — Frank, do you want to have lunch with me? — Lógico, Frank. Ele ter me escolhido para almoçar foi uma glória tão grande quanto ser chamado de vira-latas. — Vamos ao restaurante do banco? – pergunto. — Não, venha comigo. Descemos de elevador, saímos do banco na Park Ave. em direção ao Racquet Club. Andamos dois ou três quarteirões. Ele calado. A minha curiosidade aumentava. Para onde será que aquele maluco estava me levando? Dizem que os catatônicos são negativos. Aonde vamos? Viramos à esquerda e entramos num bar irlandês, cheio de fumaça. — Hi, Frank! How are you? Vai a mesma de sempre? — Dois Black Labels com muito gelo. Tá bom para você?


O BANCO A Rafaela era uma porto-riquenha fogosa, grande, que adorava dar festas em sua casa. Era casada com um americano e mostrava um grande prazer em servir tequilas, rum e bebidas fortes aos homens. Depois de algum tempo saía que nem um furacão dançando e provocando todo mundo. Eu, por ser brasileiro, era sempre escolhido pela Rafaela para dançar. Eram as verdadeiras festas mela-cueca. A Muin, uma fi-

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Meu Deus, lógico que está. O Frank Mc Keon, herói da guerra do Vietnam, em perfeito estado de lucidez! A história que eu conhecia conta que um dia ele e sua patrulha caíram numa emboscada. Todos morreram, menos ele. Ficou parado e nenhuma bala o atingiu. Ao perder todos os amigos, ficou catatônico e foi considerado meio retardado, com problemas neurovegetativos. Além da pensão do exército, Frank recebia uma bela quantia para trabalhar no MHT Co. Quanto mais ele bebia mais histórias contava. De seus filhos, das mulheres que conheceu, das namoradas. Todo mundo no bar gostava dele. Tudo parecia um sonho. O mais retardado do banco, o mais negativo, era no bar o mais agradável e inteligente. No meio do papo me pergunta: — Na hora do almoço você lê muito jornal. Por quê? — Gosto de ler. Como não leio muitos livros, então compenso com estes jornais. Já trabalhei com jornal. Acho que é um hábito. — Bobagem. Daqui a 30 anos as histórias vão ser as mesmas. Só mudam os personagens. Não havia qualquer assunto que Frank não soubesse responder ou explicar. Era um verdadeiro gênio. O tempo foi passando e a gente se embriagando. E na hora do almoço. Após uns 10 ou 12 uísques, voltamos para o banco. As gravatas amassadas, o cheiro de bebida. E se alguém nos visse? Entramos correndo num elevador que estava vazio. De repente uma mão negra impediu a porta de fechar. Era Kofi Adjei. Antes de qualquer dúvida, Frank virou-se para o VP e disse: — Eu levei o Frank Moura para tomar um drinque comigo. Hoje é dia de Saint Patrick e eu sou irlandês. — Congratulations, disse Kofi. Eu prendia a respiração e olhava para o teto. Frank entrou no salão, sentou à frente de sua mesa e ali ficou sem fazer um movimento até as 5 horas, hora de ir embora. A partir daquele dia, qualquer recado que ele precisasse dar para suas filhas, qualquer favor, podia contar comigo, o seu melhor aliado no banco.

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lipina baixinha, era séria no trabalho. No entanto, bastavam uns dois copinhos para soltar as frangas. O Hernan Badillo, meu companheiro de curso, era sobrinho de um político famoso de NY. O cubano Larry Vega chamava-se Lourenço. Tinha um ar meio desligado, mas resolvia os mais delicados problemas do banco. O Departamento Internacional era, como aprendi mais tarde na Rede Globo, igual ao Senado Romano: as pessoas se odiavam e se amavam ao mesmo tempo. O carioca Munir Helayel, filho de libaneses, tinha uma boa formação acadêmica. A maioria dos officers do banco era constituída de gays enrustidos. Nenhuma lei nova na área da América Latina era aprovada sem o aval do Munir e do Larry – que não eram gays... Mais tarde, a dupla faturava em diferentes instituições mais de 100 mil dólares ao ano. Muitas lembranças de pessoas, muitas festas e muitas alegrias. O único problema era, de novo, a saudade dos filhos. O banco me dava uma semana de férias no primeiro ano e duas semanas a partir do segundo ano. O tempo de férias nos Estados Unidos é diferente do Brasil. Eu tinha de encontrar uma solução para ver as crianças com mais freqüência e ao mesmo tempo dar vazão à minha necessidade de viver as aventuras fora daquele quartel. Foi aí que pensei no Globo. Por que não criar no jornal uma espécie de Bahia, um Estado de Espírito, em New York? Comecei a telefonar (no banco as ligações eram gratuitas) para o Rio. *** Um dia recebi uma chamada de um jornalista chamado Paulo Francis que queria marcar um encontro comigo no banco. Sua mulher, Sonia Nolasco Ferreira, era correspondente do Globo em New York e ele correspondente do jornal O Estado de S. Paulo. Almoço marcado, Paulo foi de cara me perguntando: — Sabe quem vai ser o próximo head officer do Brazilian Desk? — Não sei, mas posso descobrir. Por que você quer saber? — Dependendo de quem seja, o Brasil pode tomar um caminho diferente. Liguei para o Munir perguntando se podia dar esta informação. — Lógico. Todo mundo aqui já sabe que é o fulano. — Tem certeza? — Claro, certeza absoluta.. Dia seguinte liguei para o Paulo e a partir daí ficamos amigos. Passei a admirá-lo como profissional. Um homem que se antecipava à notícia. Um verdadeiro repórter. ***


EAST 65 STREET O apartamento tinha quarto e sala, mas era incrível de pequeno. Ficava num antigo prédio onde, no subterrâneo, havia um abrigo para possíveis ataques aéreos. A banheira instalada no meio da cozinha criava o perfeito ambiente para “chamar” os amigos e contar histórias. As paredes onduladas mostravam oito, dez demãos de tinta. A janela de dois palmos estava emperrada pelo tempo, enquanto o aquecedor em forma de serpentina apitava de hora em hora expelindo uma fumaça carregada de água quente. Um dia, resolvi armar uma rede na sala. Saí de madrugada buscando cimento. Aprendi a falar reinforced concrete. Estive nas obras noturnas – New York não dorme. Finalmente consegui o cimento. Virei a noite e de manhã cedo, com uma broca, abri dois buracos enormes na parede. Com os armadores e o concreto na mão, ficou mais fácil. Estava comodamente na rede, lendo, e o Munir Helayel bate em minha casa às 11 horas da noite. Sua irmã acabara de falecer em um desastre no Rio. No caminho para a Maison de France, o ônibus desgovernou-se, ela bateu com a cabeça no balaústre central e sofreu traumatismo craniano. Uma noite triste. A noite toda, uma mistura de lembranças e muito choro. Na East 65 Street morávamos no primeiro andar. Embaixo, uma boate chamada El Condor Pasa. Na primeira semana tudo bem. A casa funcionava às quintas, sextas, sábados e domingos. De quinta para sexta e de domingo para segunda, o barulho era infernal. Quando ouvi o primeiro som de afinação de piano, coloquei um roupão e fui reclamar.

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Na hora do almoço, fui à Rua 46 para fazer uma pesquisa. Será que alguém pensaria em anunciar no Globo do Rio de Janeiro? Em menos de dez dias vendi 12 mil dólares – à vista. Com 30% de comissão, ganhei 3.600 dólares. Na segunda edição fui ao Brasil para oficializar a representação do jornal nos Estados Unidos, a criação da sucursal. A TV Globo já era representada pela Starlight Communications. Com carta do Dr. Roberto Marinho e procuração de João Roberto Marinho, voltei a New York para abrir a conta do jornal no Banco do Brasil e começar a desenvolver mais um trabalho na América. Ao terminar o curso de análise de crédito e exatamente no dia em que era promovido no banco, de analista Júnior para Sênior, pedi demissão. Levei os melhores colegas para a minha despedida no restaurante Brazilian Pavillion, que ficava pertinho do banco. Lógico que demoramos umas quase três horas comendo uma belíssima feijoada preparada pelo espanhol Joaquim Gonzalez.

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— Me desculpe, hermano. Prometo que voy a bajar el sonido. Fui para casa tranqüilo. Consegui dormir e tudo bem. Na outra semana, de quinta para sexta, o mesmo problema. O meu colchão parecia que estava dentro do piano. Desci para explicar que tinha problemas com o sono, que não era possível trabalhar como analista de crédito de um banco e ter a cabeça fresca com aquele barulhão todo. — Desculpe, hermano. Tu eres de Brasil, no? — Sí. Soy de Rio de Janeiro. — Eu fui amigo da Maysa. Viajei por toda a América Latina acompanhando-a neste piano. Neste mesmo piano que tu estás vendo. Ela foi uma mulher incrível. – E começou a cantar: Ouça, vá viver a sua vida... Lembrei do Mauricinho Monjardim, irmão de Regina e Teresa. Ele me pediu para receber uma amiga (Ângela) em nossa casa de New Jersey. O Mauricinho era primo da Maysa. Em Ipanema, a sua irmã Teresa namorava o Maurício Alberto, que nos Estados Unidos virou compositor e levou o nome de Morris Albert. Mauricinho era filho de Dona Estela e do Dr. Mauricio, que bebia no Real Astória, no Leblon. Era um de meus melhores amigos. Morava no primeiro andar da Rua Sadock de Sá, nº 10. Mais tarde morreu de excesso de sensibilidade. Lembrei do dia que saímos da casa de tio Alcebíades para o São João Batista. O pai da Maysa morava na Domingos Ferreira, em frente ao Bob’s. O tio Alcebíades era irmão da Lia Monjardim, que fez a festa de recepção para o meu primeiro casamento, com a Ana. Era muita informação no meio daquela música da Maysa. Me deu um nó na garganta quando lembrei da cena do tio Alcebíades proibindo as pessoas de abrirem o caixão da filha, a bonita Maysa Matarazzo. Mauricinho não viu o primo – Jayme Monjardim – vencer na telinha brasileira. Nem a Maysa viu. — Tudo bem, mas eu preciso dormir. Só o que preciso é de dormir. Você pode baixar o som um pouquinho? — Ok. Na semana seguinte a mesma história. Desci com muita raiva. Quando entrei no salão, ele me viu e gritou: — Luzes! Um holofote parou em mim e ele começou a tocar Garota de Ipanema, dizendo: — Señoras e Señores, este es uno de nuestros amigos de Brasil, e les pedimos unas palmas para mi amigo, Chico Mora. Saí meio sem graça. Como poderia explicar ao Lucho que a única coisa que eu queria era dormir? O tempo passou e eu fui me acostumando ao som do Lucho. Um dia, desci para tomar uma cerveja. Ele me diz: — A partir de hoje, você não vai pagar nada e pode convidar quem


STARLIGHT Ao chegar na Starlight, com carta na mão e procuração em punho, o pessoal do Rio pedia um espaço para que eu pudesse começar a trabalhar. — Aqui não tem espaço para você – disse Felipe Rodriguez. — Fica por enquanto aí pela portaria. Quando sobrar um canto a gente te acomoda. Felipe Rodriguez era um cubano que fora gerente da PanAm em Miami. Mudou-se para o Brasil e no Rio de Janeiro foi vizinho de porta de um diretor da TV Globo. Este o transferiu para ser o presidente da TV em New York. Morava em Miami na Flórida e trabalhava em Manhattan. A impressão que dava era de que a qualquer momento (sempre) poderia perder o lugar – daí a defesa, a agressão. Lógico que em pouco tempo foi encontrado um lugar para a representação do jornal na BEC (Broadcast Equipment Corporation), empresa responsável pela “carga” da Globo. A entrada para a Starlight marcou a minha vida profissional em New York. Todos os lugares em que eu entrava, as pessoas me apontavam. E nas festas me apresentavam: este é o Chico, do jornal O Globo. A vida noturna se intensificou. Se no banco eram os happy hours de uma, duas horas, no Globo eram de três, quatro horas. Passei a beber mais, a ganhar mais dinheiro, a produzir mais. Fui a muitas festas no Central Park, na casa de Laurita Mourão, no prédio do Hélio Costa, coquetéis na Missão do Brasil junto à ONU, Consulado, Brazilian Government Trade Bureau, todas as casas noturnas de Manhattan, todos os shows do Caetano, Gil, Bethânia, Tom, João Gilberto, Flora Purim, Airto, Naná Vasconcelos, Sivuca, Hermeto. As noites do Village com Paulinho Jobim, Billinho (filho de Billy Blanco), o S.O.B., o Blue Note... Andre Adler colaborou com algumas matérias, assim como Fernando Natalici, que criou anúncios. O capoeirista Loremil Machado fez um vôo sob o Arco da Washington Square e ganhou maravilhosa foto na página de turismo do jornal. Os músicos Claudinho Roditi, que eu já conhecia do Clube de Jazz e Bossa em Copacabana e depois na Ladeira da Saint Roman em Ipane-

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você quiser. Se você reclamar na prefeitura, sabe que eu tenho que fechar as portas no mesmo dia. Não faça isto comigo. Ok? — Ok. Volta e meia levava alguns amigos ao El Condor Pasa. Com a chantagem estabelecida, a mordomia era total. A minha despedida do banco começou no Brazilian Pavillion e durou muitos dias no El Condor Pasa.

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ma, o amazonense Thiago de Melo e a sua Rain Forest Band, Dom Um Romão na sua academia Black Beans, e Jamelão, que descobriu amigos no Restaurante Via Brasil, do Luizinho. O Via Brasil virou um fiel anunciante do Globo, assim como a loja Brasil Som, de Mário, Léa e Jayme Felzem, Berta Brasil, Ivo Boutique, Ary Export, Jack Mays Pharmacy, Sidney International, Braspool, Farmácia Rulane, Don Laviano, Tony’s (Pinheiro Pires), Casa Luso-Brasileira, Brasília Restaurant. Os hotéis Lenox, Remington, Wentworth, Grand Union, Aberdeen e Stanford. Em 1980 foi o início da agência BACC de João e Chico de Mattos (que já tinham experiência em turismo na Califórnia) e no dia 4 de setembro daquele ano, a matéria no Globo onde se anunciava, pela primeira vez na história, a circulação diária do primeiro jornal brasileiro nos Estados Unidos: O GLOBO EM NEW YORK PODERÁ SER ENCONTRADO DIARIAMENTE NA RIO EXCHANGE COM SASHA, NA RUA 46 NÚMERO 57 WEST. Foi uma brincadeira (sem o conhecimento do pessoal da redação) que fiz com o nascimento de Sasha, uma linda menina, filha de Eliane (cunhada do discotecário Roberto Costa), a proprietária da loja Rio Exchange . As pessoas entravam e perguntavam: — A Sasha está? Estou procurando O Globo. E a Eliane apontava para o bebê no berço. Assim foi o começo da circulação do jornal O Globo nos Estados Unidos. No dia 4 de setembro de 1980, com o nascimento de Sasha, escrevi então uma das minhas primeiras matérias:

NA RUA 46 A MARCA DA PRESENÇA BRASILEIRA Em New York, a maior concentração de brasileiros está situada na Rua 46, entre a Madison e a Oitava Avenidas. A colônia brasileira não ocupa um grande espaço, como Chinatown (bairro chinês) ou Little Italy (Pequena Itália), mas já tem sua importância na cidade. Entrando-se pela Quinta Avenida, vê-se de um lado o Brazilian Government Trade Bureau, com a bandeira do Brasil hasteada; do outro lado está a agência do Banco do Brasil. A partir daí começa-se a ouvir o português pelas ruas e, dobrando-se em direção à rua 46, tem-se a impressão de estar no Brasil. A região abriga diversos restaurantes brasileiros, mais de 20 lojas, clubes, agências de viagens, butiques, farmácias, empresas de transpor-


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te, vários jornais, empresas de limusines, cabeleireiros, lojas que vendem doces e salgados (inclusive a domicílio), bancas de jornais e discos. A presença de brasileiros na cidade tornou-se uma realidade, que se impõe a cada ano com as excursões de turistas, e fez com que algumas lojas americanas contratassem brasileiros para atender seus clientes. A “invasão” de New York por brasileiros começou por volta de 1920, com a chegada dos navios brasileiros ao Brooklyn. O Sr. Barbosa Lima, de 74 anos, radicado em New York, conta que naquela época o comércio era feito por funcionários do Lloyd Brasileiro. Depois na Broadway, em Manhattan, o Capela estabeleceu uma loja na região. Logo após surgiram o Luna, pernambucano e brincalhão; o Cavanhaque e o Judeu. Com o desenvolvimento da aviação, a colônia foi se deslocando para as proximidades dos hotéis que hospedavam os tripulantes das Aerolineas. Outro comerciante radicado na região, Mário Garcez, diz que o grande fluxo de brasileiros começou na década de 60, quando as empresas aéreas passaram a hospedar os seus funcionários no Hotel Paramount. Hoje, o comércio brasileiro se espalha por várias ruas, chegando até a 57, considerada uma das mais sofisticadas. O turista que chegar a New York ficará admirado não só com o movimento, mas sobretudo com a organização dos serviços. Descendo no Aeroporto John Kennedy, terá várias opções de transporte, contando com ônibus que saem a cada 20 minutos do International Arrivals Building. Por uma corrida de táxi até o centro da cidade pagará o correspondente a pouco mais de CR$ 1.300 – incluindo os 20% de gorjeta, dos quais a maioria dos motoristas não abre mão. A área metropolitana de New York é servida por três sistemas de metrô. Este, em certas regiões, deixa de ser subterrâneo, para se tornar elevado. A passagem custa 60 centavos (cerca de CR$ 33). O metrô é muito usado nas horas do “rush” e exige, entre outros, um cuidado: nunca tome um trem sem saber exatamente como chegar ao destino. Em New York, o turista brasileiro geralmente se hospeda nos hotéis próximos à rua 46, o que facilita não só o contato com a colônia, mas também com o comércio e as áreas de atrações como a Broadway, o Central Park, o Rockfeller Center e o Empire State Building. Fáceis de localizar, limpos, os hotéis oferecem serviços de valet, lavanderias, passa-roupas, lavagem a seco, engraxates e barbearias no “foyer”. Num hotel como o Paramount, próximo da Broadway, a diária para casal custa cerca de CR$ 2,750. Na mesma rua, há os hotéis Wentworth e Roosevelt, com preços um pouco menores. Há alguns conselhos que o turista deve seguir à risca: nunca deixar dinheiro ou jóias no quarto e sim no cofre do hotel: carregadores de bagagem e “boys” devem ser gratificados em CR$ 27,50 por mala. Nos hotéis de luxo a gorjeta nunca deverá ser inferior a CR$ 55,00.

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Embora New York seja a capital do show business, a maioria dos brasileiros que visitam a cidade não sabe como se divertir. Esta informação é de Gilton Raymundo, que há mais de 20 anos se dedica ao setor de turismo na cidade. Ele aconselha os brasileiros a planejarem bem a viagem, conciliando horários de compras e refeições e deixando um tempo exclusivo para diversões, pois em New York há muito que ver. Além disso, o turista nunca deverá confiar no tempo disponível de amigos brasileiros radicados em New York. Lá o trabalho é uma realidade e só em ocasiões excepcionais – nos fins de semana – quem trabalha, vai dormir cedo. Até o próximo dia 16, a grande atração cultural de New York é a exposição de obras de Picasso, no Museu de Arte Moderna, reunindo mais de cem obras do artista, entre pintura, escultura, desenhos, cerâmica, cenários para peças de teatro e “croquis” de moda. A mostra é de tal importância que, pela primeira vez, o museu dedica todo o seu espaço – três andares – para expor a obra de um único artista. O museu funciona das 10 h às 18 h às segundas-feiras, sextas, sábados e domingos. Na quinta-feira fica aberto até às 21 horas e na quarta-feira as visitas são exclusivamente para os sócios. A entrada pode ser comprada na hora - custa cerca de CR$ 250. Além do MAM, New York mantém uma série de outros museus, destacando-se o de História Natural, no Central Park, cujo ingresso custa cerca de CR$ 80,00. Outras visitas interessantes podem ser feitas ao Lincoln Center, às Nações Unidas, à Estátua da Liberdade e ao Observatório World Trade Center. Um endereço que o turista deve saber é o do New York Convention and Visitors Bureau. Fica na Rua 42 (East) e fornece informações em geral sobre qualquer assunto turístico, além de mapas e folhetos sobre a cidade. Entre as publicações editadas pelo Bureau consta “20 programas grátis em New York”, que apresenta uma lista de museus, edifícios modernos, galerias de arte, bairros exóticos, vistas panorâmicas e outras atrações. Para o turista interessado em “show business”, a grande atração é a região da Broadway. São cerca de 30 teatros, que apresentam peças e comédias musicais, com artistas consagrados em todo o mundo. É bastante difícil conseguir ingressos com rapidez, pois as reservas são feitas com meses de antecedência. Na área metropolitana de New York existem quase 20 mil restaurantes. Os melhores estão instalados em velhos edifícios, com fachadas modestas. Esses geralmente têm clientela fiel e nunca colocam o cardápio com os preços dos pratos na vitrine. Os “business luncheons” (almoços de negócios) constituem uma verdadeira instituição americana, movimentando os restaurantes por volta do meio-dia. A cidade já oferece pelo menos dez restaurantes com comida brasileira – incluindo feijoada às quartas-feiras e aos sábados.


Depois de conhecer Neil Young, jantar ao lado de Jacqueline e Onassis, comecei a entender que naquela região poderia cruzar com qualquer pessoa famosa. Um dia, andando pelo Central Park, como religiosamente acontecia todos os fins de semana, dei de cara com John Lennon, Yoko e o filhinho Sean. Ainda esfreguei os dedos nos olhos (literalmente) para saber se aquilo era real. John Lennon morava do outro lado de minha casa. Era só atravessar o Central Park e dar de cara com o Edifício Dakota. Poucas pessoas apontavam e muito raramente alguém se aproximava para uma foto. Havia uma espécie de pacto entre os moradores de Manhattan e o músico ilustre. Pouco tempo depois a notícia. John Lennon foi assassinado no dia 8 de dezembro de 1980, na entrada de seu prédio. Nem o frio, nem a escuridão da noite fez com que 20 mil pessoas arredassem o pé do parque. A noite toda, cada um com uma vela na mão cantando: All he was saying: give peace a chance All he was saying: give peace a chance Dia seguinte, na Starlight (TV Globo) recebo a ligação de um brasileiro, o motorista da limusine que levou John Lennon do estúdio de gravação na rua 44 para o Edifício Dakota. Exatamente às 10h50 da noite. Tecnicamente, a última pessoa que teve contato com o mais famoso Beatle e que viu o assassino Mark David Chapman. A entrevista não saiu. O motorista era ilegal, ficou com medo de a imigração o deportar e sumiu de Manhattan.

AMIGOS Os amigos Pedro da Silva e Eduardo Barbosa (hoje em Miami) trabalhavam no Brazilian Government Trade Bureau. Antes de trabalhar no Trade Bureau, Eduardo “quebrou” um restaurante de Long Island. O proprietário gritava com ele todos os dias. Tratava-o como um cachorro. O mineiro, trabalhador e honesto, não entendia como aquilo poderia ser possível. O tempo passando e o francês gritando. Um dia Eduardo resolveu o problema dos gritos. Começou a deixar a carne do lado de fora da geladeira, e ela foi perdendo o sabor. Em pouco tempo o restaurante fechou. Ninguém descobriu o porquê. Anos mais tarde, Eduardo ocupou uma das mais importantes posições (gerente de financiamento) numa concessionária da Ford em Miami.

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JOHN LENNON

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A brasileira Frida Biermann, era uma pessoa que eu sempre tinha um imenso prazer em conversar. A tal da alquimia. Com muita experiência no turismo da cidade, Frida sabia (sempre) de tudo o que rolava na Big Apple. Nuno Leal era um advogado carioca, meu colega de faculdade no Brasil, que após uma viagem de turismo resolveu ficar em New York. Trabalhou para o Citibank e depois foi motorista de táxi. Poucas pessoas entendiam como seria possível um officer do Citibank virar motorista de táxi. Voltou ao Brasil, abriu escritório de advocacia e a cada dois anos visitava os amigos de Manhattan. Um dia Nuno combinou de dar uma volta pelo Central Park e pediu que eu passasse por sua casa. Bati na porta e nada. Forcei a entrada e senti um forte cheiro de gás. Ele dormindo pesado não reparou que havia deixado um bico de gás aberto. Todas as vezes que nos falamos ele se lembra com carinho que eu salvei a sua vida. Gilberto Costa Nunes era um técnico de cinema que preparou para o sócio uma homenagem singular. Eles tinham um estúdio que depois virou produtora de cinema. Para o aniversário da esposa combinaram catalogar o primeiro filme super-8, os primeiros passos, o primeiro dia de escola, a valsa de 15 anos. Foram armazenando imagens em VHS, com amigos e família. Tudo sobre a esposa de seu sócio. Fizeram um filme sobre a sua vida. O primeiro namorado, a música que ela mais gostava, misturado com vídeos modernos dos filhos crescendo, etc. No dia do aniversário passaram o filme. Foi uma das mais interessantes homenagens que eu já presenciei. Com a ferramenta na mão e a boa idéia na cabeça, criaram um verdadeiro filme de amor. Nos 20 anos seguintes acompanhei nos cinemas o crédito do nome de Gilberto Costa Nunes como editor de filmes famosos da MGM, Universal, RKP, etc. Waldir Almeida era o bartender do Brazilian Pavillion. Morava no Village e tinha uma das maiores coleções de jazz e bossa-nova da ilha. Ainda no sistema de disco (a famosa bolacha), Waldir não tinha um metro de espaço em seu pequeno apartamento. Muitas vezes íamos lá para curtir um som nas madrugadas – ele morava no mesmo prédio de Amara Guimarães, a mais tradicional baiana de Manhattan. Arnaldo de Barros era um carioca filho de portugueses que havia trabalhado como bus boy no Top of The Six, um restaurante localizado na cobertura de um edifício (número 666) da Quinta Avenida. Um dia um amigo apresentou uma oportunidade para ele entrar num negócios de pedras preciosas. Compravam as pedras na África e vendiam em New York. Com os primeiros lucros, Arnaldo começou a investir na compra de imóveis. Anos mais tarde, após muito trabalho e muita visão, Arnaldo acumulou fortuna e foi viver na Flórida. Odilo Favacho, o Dell, me conseguiu o tal apartamento no East Side da Rua 65, em Manhattan, em cima do El Condor Pasa. O antigo


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contrato de locação de seu irmão que ia para a Califórnia permitia “morar bem” pagando pouco. Eram mais ou menos uns 1.000 dólares de aluguel, num minúsculo quarto-e-sala, o tal apartamento onde a banheira ficava no meio da cozinha. Odilo era bartender do TGI Friday’s. Além de ser faixa preta de caratê e guarda-costas do Burt Reynolds, fazia ginástica todos os dias e pelo menos três vezes por semana ia a uma academia. A bela esposa Wanda, como João Gilberto, tinha uma atração por gatos. No pequeno apartamento de Manhattan também criava dois ou três gatos. Favacho era do tipo paviocurto. Não podia ver uma cara feia que já quebrava os dentes de qualquer valentão. Um dia fraturou a canela de um cliente (deu um chute por baixo da mesa) que o tratara mal no restaurante. Outro dia levou uma fechada na Queensborough Bridge, parou o carro, arrancou a antena e arranhou todo o carro do outro motorista, que mesmo apavorado o seguiu à distância. Já em Manhattan, Favacho quebrou muitas costelas do pobre homem. Um dia, entrando no Restaurante Via Brasil, encontrei o Cláudio Pereira, um amigo de infância, companheiro do segundo ano ginasial no colégio Santo Agostinho, no Leblon. Ele estava casado pela segunda vez (como eu) e já tinha dois filhos. Após trabalhar numa loja de jeans na Rua 46, representou uma fábrica suíça que vendia (via New York) máquinas têxteis para o Brasil. Estava almoçando com sua advogada, que o orientava como receber os mais de 100 mil dólares que a empresa lhe devia. Até aquele momento eu não tinha a mínima idéia de que o futuro nos reuniria em circunstâncias distantes, até que a morte o levasse para outros jornais - os espíritas dizem que nada acontece por acaso e que nós só estamos aqui de passagem; o espírito continua a evoluir. Claudinho morava numa bela casa em upstate New York. Para o fim daquele ano programei a primeira vinda dos meus filhos a passar o Natal com neve, Santa Claus (Papai Noel), esquilos na janela e veadinhos pulando no jardim. Até o minuto final estava tudo certo para a vinda dos meninos. Uma semana antes do Natal a primeira esposa deu o contra. Foi uma das mais tristes noites que passei – a saudade já era insuportável. Na casa do Cláudio Pereira registramos: eu, minha mulher, o Marcos dos Santos, a esposa Jane (grávida de Mônica, minha futura afilhada), o filho Paul, a família do Claudinho e uns dois ou três casais amigos. Na volta descemos a montanha e nos perdemos. De repente o carro do Marcos, com problemas no distribuidor, parou no meio da neve. Saí correndo procurando qualquer pessoa que pudesse ajudar. Não passava viv’alma. Vi uma luz à distância, telefonei para a polícia e agarrei um único bêbado dormindo no balcão de um bar: — Você tem que acordar agora! Tem criança e uma mulher grávida num carro aqui perto. Vamos! — Leave me alone, your asshole!

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Pedi ao dono do bar para me ajudar. Ele jogou um pouco de água na cara do bêbado e deu a ordem: — NOW! O homem saiu correndo e fomos socorrer o pessoal que àquela altura já estava dentro do carro da polícia, quentinho. Dormimos num motel de beira de estrada e no dia seguinte saímos para procurar um mecânico. O problema do carro era somente um: cerveja. Nada, absolutamente nada de errado. Muitas tatuagens ficaram marcadas em New York, a cidade mais dinâmica, mais culta, mais feliz, mais suja e ao mesmo tempo mais limpa que conheci em toda minha vida. Naquela época descobri que era de fato uma pessoa de sorte por ter vivido em três lugares maravilhosos: Rio de Janeiro, New York e Salvador.

JACKSON HOLE New York é mais ou menos assim: eu morava na rua 65 no East Side. Todos os dias passava pela rua ao lado (a 64) e via uma enorme fila que entrava por um buraco. O que era aquilo? Uma igreja? Um cinema? Uma casa de massagem? Uma reunião da maçonaria? Fila para o Social Security? Ou será que é alguma instituição de caridade? O tempo passou paralelo à minha curiosidade. O tempo é corrido. Amanhã vou lá e pergunto. Amanhã, amanhã... Um dia fui checar. No letreiro lia-se 7 OZ Burgers . — O que é esta fila? — É o Jackson Hole. — O que é o Jackson Hole? O buraco do Jackson? — Exatamente. Aqui tem o melhor hambúrguer do mundo. Eu vivia ao lado do melhor hambúrguer do mundo e não sabia. Eram sanduíches enormes, alguns com até 10 centímetros de altura. O cheiro do grill se espalhava pelo quarteirão. Podia-se esperar 30, 40 minutos que ninguém se importava. A espera valia o prazer. E o restaurante tinha sido inaugurado exatamente no mesmo ano em que cheguei aos Estados Unidos: 1972. Em New York, vivemos 10, 20 anos no mesmo lugar e muitas vezes não sabemos nada do nosso vizinho.

MARTINI Em Manhattan, um amigo de meu primo que era diplomata me convidou para um almoço. Passou de carro no escritório do Globo – 909


Waldir de Almeida, um dos mais conceituados bartenders brasileiros de New York.

Pelé jogando pelo Cosmos de New York.

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Helio Gusmão, um dos primeiros brasileiros a acreditar no projeto da criação de uma seção de turismo sobre New York, no jornal O Globo.

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Carlinhos Pandeiro de Ouro, chegando do Hawaii, passa pelo Restaurante Via Brasil, da Rua 46.

DoUm Romão, Jamelão e Helcio Milito, no restaurante Via Brasil.


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Na saída do restaurante Brazilian Pavillion, após almoço de despedida com amigos do Banco MHT.co. À frente o advogado carioca Munir Helayel, seguido de Mirna Serrano, Pamela Cato, Andy Zamora e Hernan Badillo.

Maria e Arnaldo Barros em elegante noite de Miami.

Hélio Costa e Orlando Moreira (de barba) cobrindo matéria para a TV Globo no Egito.


*** Muito boas lembranças guardo daquela época. Principalmente de alguns brasileiros como o Adão Meireles, que trocou a Marinha do Brasil por New York. Adão foi o meu primeiro amigo espiritual na vida. Ele não falava um português muito brilhante, não era socialite, não ocupava cargos importantes nos lugares onde trabalhou: na Missão Brasileira junto à ONU, nem tampouco no Consulado. Mas ficou meu amigo. E muito amigo. O álcool foi o primeiro elemento de ligação. O segundo, o espírito. O terceiro, o tempo. Passando, fui descobrindo por que os ministros, embaixadores e presidentes do Brasil gostavam tanto do Adão. Ele era puro de coração e de alma. Os cabelos sempre alinhados com gel, usava os ternos combinando com a etiqueta do Itamaraty. Era o homem de confiança de Azeredo da Silveira, o Silveirinha, de Sérgio Correa da Costa, de Renato Prado Guimarães, Sarney, e tantos outros. Era casado com Dona Rafaela, uma nicaragüense que me ensinou existirem tubarões de água doce em seu país. Como o Cláudio Pereira, Adão iria conviver comigo anos mais tarde em Miami e também iria falecer do que eu costumava chamar de excesso de sensibilidade.

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Third Avenue – e fomos a um restaurante francês na Fifth Avenue . Em menos de 15 minutos pediu três martinis. Pensei: isto não vai terminar muito bem. Escargot, fondue e outras perfumarias não combinam com bebidas fortes. Era muito inteligente e simpático. Lembrava-me perfeitamente dele sentado na casa de meus tios, no Leblon, em posição de um verdadeiro garoto Santo Inácio. Horas sem se mexer, suando educadamente e tomando muitos sucos de abacaxi preparados pela Antônia. Anos depois, como Cônsul substituto em New York, tomava martini como água. O nosso almoço durou exatamente duas horas. Após os martinis, consumimos umas três garrafas de vinho e muitos licores. Na volta, com o carro perdido - não houve forma de lembrar onde havíamos estacionado –, ele pergunta: — Vamos tomar uma saideira? — Onde? — Vem comigo. Entrou completamente sóbrio no Consulado Geral do Brasil em New York. Cumprimentou a todos educadamente, entramos em seu gabinete, abriu um cofre e tirou uma garrafa de uísque. Saiu, pegou um balde de gelo e continuamos a nossa reunião. Passados dois dias me ligou dizendo que ainda não havia encontrado o carro. Algum tempo depois, soube da notícia de seu falecimento quando servia na África do Sul.

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Bárbara Chevalier, irmã do grande amigo Roniquito (que foi assistente do Boni), irmã de Stanley (diretor da TV Globo) e da jornalista Scarlet Moon, era uma boa lembrança do Rio de Janeiro. Todas as vezes que a encontrava sentia um amor de tabela. A saudade dos amigos do Rio, da praia, do meu primo Zé Carlos. Bárbara era a cara do Rio. O irmão Roniquito, pouco antes de falecer, casou-se com a Ângela, irmã de Soninha de Copacabana. Deste último casamento Roniquito teve uma filha chamada Paloma, que vi no colo de Ângela e que mais tarde também viria morar nos Estados Unidos. A minha esposa da época trabalhava na loja Brasil Som. Os proprietários Jayme e Lea Felzem tinham um sócio equatoriano. Mário Garcez era casado com uma carioca bonita e fagueira. Um dos gerentes da loja, Geraldo Silva, namorava a guia de turismo Vera Verão. Antes do Geraldo trabalhou um gay que foi apanhado com a boca na botija. De há muito a Marly sabia que o gay roubava e aquilo fazia mal a ela. Para os seus padrões morais, como deveria agir? Um dia chegou em casa aliviada. Os donos da loja viram quando o gay roubou dois mil dólares do caixa. Foi um escândalo. — Ladrão, safado, sem-vergonha. Passaram-se 8 ou 10 meses e volto à loja. Quem é o gerente? O mesmo gay. — Sabe, Chico, é o seguinte: ele tem os melhores contatos com o pessoal da Varig, com turistas de dinheiro. As vendas caíram muito com a saída dele aqui da loja...

SOPHISTICATED LADIES Um dia o José Martins (Pancho), um amigo do Brasil, veio nos visitar. Amante da boa música e do bom vinho, Munir combinou uma noite no Maxwell Plums para mostrar ao Pancho um jazz de Manhattan. Era um dos restaurantes mais sofisticados da ilha. Muitos brasileiros trabalharam no Maxwell Plums: o mineiro Carlos Roberto Sousa, o paraense Odilo Favacho. Pegamos uma mesa ao lado do artista, que era a badalação da época. Após alguns copos, Pancho treina o seu inglês, cria coragem e vai pedir “Sophisticated Ladies”, música mais do que apropriada para a época em que rolava um tributo a Duke Ellington, na Broadway. Volta para a mesa triste, porque o músico não lhe dera qualquer atenção. Treinou mais algumas vezes e voltou. Já gritando no ouvido do guitarrista, fala: — “I uant to rear sofistiqueitedi leides”. Nada. Muito chateado, desistiu do pedido. Dia seguinte, ao ler o New York Times, vemos a notícia: o único guitarrista surdo do mundo se apresentou ontem no Maxwell Plums...


Nas tardes de inverno ia buscar a esposa na rua 46. Saía do trabalho mais cedo e esperava no bar do restaurante Via Brasil, embaixo da loja Brasil Som. Os barmen, Lotte e Roberto Kowalski, já eram meus velhos conhecidos. — Hoje tô com um frio danado. Tem alguma coisa pra esquentar? — Sim, tem um chocolate quente. Outro dia: — Roberto, tô com uma tremenda dor de cabeça. Tem alguma coisa boa aí pra dor de cabeça? — Tem Tylenol, ali na farmácia Rulane. — Hoje tô meio enjoado. Tem alguma coisa para o estômago? — Tem peptobismol na farmácia Rulane. O Roberto era o anti-barman do Via Brasil. Pelo menos comigo. Não admitia que eu tomasse qualquer bebida alcoólica. Um dia, o Lotte exagerou nas doses, fechou o restaurante e, quando levava algum dinheiro para casa, foi parado por dois ladrões em plena Manhattan. Sacou uma arma e todo mundo saiu correndo. Com a chegada da polícia, Lotte foi preso. Em New York é proibido andar armado – mesmo com porte de arma. Mais ou menos às 3 horas da manhã, eu voltava para casa e no metrô vi o Lotte acorrentado a mais de 10 prisioneiros no vagão, sendo levado para um distrito policial. Nas estações do metrô de N.Y. existem pequenas delegacias de polícia. Ainda dentro do trem, levantei e perguntei quem era o oficial responsável. Ele me disse: — Não se aproxime do prisioneiro. — O quê? Sabe com quem está falando? Antes que eu começasse a dizer que era do Globo, que tinha poder etc. e tal levei um tremendo empurrão do policial. Doce ilusão! Afinal quem era Globo? Nada... Caí sentado no banco e o Lotte pediu que eu ligasse para a casa do Luizinho, dono do Via Brasil. — Não vou ligar coisa nenhuma, você não vai ficar preso. Não vou deixar. Na parada onde estava o distrito policial, os acorrentados saíram com a proteção dos guardas de New York. E eu atrás. Lá da frente ouço um grito: — Se você chegar perto do prisioneiro, YOU GO TO JAIL! Segui meio de longe. Vi onde entraram e bati na porta do distrito. Entrei e o Lotte me gritou o número do telefone do Luizinho. — Eu te avisei que você iria preso. Depois de anotar o telefone, me alinhei e disse bem alto:

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ROBERTO E LOTTE

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— Os senhores me perdoem, mas eu exijo respeito. Quero ter a oportunidade de dizer que conheço este senhor e que ele não é bandido. O fato de eu ter bebido não interfere na minha posição de defendê-lo. E por favor, não me tratem como um bandido. Sou um cidadão correto e que paga os seus impostos. Com educação, com a verdade não pode existir medo. Lógico que o álcool ajudou um pouco. Saí do distrito, liguei para o Luizinho, e de manhã o Lotte estava solto.

BRASILEIROS EM MANHATTAN Chia Knobel, Mauro, Eliane do Via Brasil (cunhada do Roberto Costa), Reinaldo Carnaval (o sobrenome é Carnaval mesmo), Jamil Degan, Carlinhos Pandeiro de Ouro, Marinheiro, o jornalista Newton Duarte de Brasília, Amara Guimarães, Arnaldo de Barros, Frida Bierman, Mara, Carlinhos de Jesus, o goleiro Ubirajara. As intermináveis noites com João Resende, Gerson Delano de Weisheimer e Luís Carlos Serra. Muitas lembranças de New York. Uma dessas inesquecíveis noites aconteceu na casa de um vicepresidente do Citibank. Eu e um colega de trabalho saímos de um happy hour para um belíssimo apartamento dúplex em Manhattan. A um dado momento o dono da casa diz: Daqui a pouco vai descer um brasileiro que vocês devem conhecer. De repente aparece o maestro, recém-acordado de um pilequinho. Reiniciados os trabalhos, dei a idéia de fazer uma brincadeira numa disputa de jingles antigos. Quem perdesse iria saindo da roda. O maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim ganhou todas. Eu esgotei meu repertório com: ...Melhoral Melhoral, é melhor e não faz mal.... ...Gin é uma bebida que embebeda demais, este ano só vou tomar guará... ...Se a lâmpada apagar não adianta esquentar, nem bater o pé, o que resolve é ter sempre à mão lâmpadas GE... Muitos anos mais tarde eu saberia avaliar exatamente o privilégio de ter convivido com o Maestro no Bar Veloso, em Ipanema e em Manhattan. Para um show do Caetano Veloso, ganhei uma entrada do pessoal da TV Globo e cheguei umas duas horas antes. Fui para o bar e só tinha uma pessoa bebendo: Tom Jobim. — Você também errou na hora? Começamos a consumir rapidamente o estoque do bar. Um pouco antes do show resolvemos entrar com umas garrafas escondidas. Fomos


TV GLOBO Os colegas de trabalho da Starlight eram boas pessoas e estavam meio distantes do Senado Romano (rede Globo) no Brasil. Com um nível intelectual uniforme, as pessoas se tratavam com respeito e carinho. Orlando Moreira tinha sido um dos fundadores da TV Globo. Nunca ficava velho ou dava sinais de cansaço. Considerado um dos melhores cinegrafistas do Brasil, Orlando era vegetariano, fazia ioga e todos os dias, às 4 h da manhã, meditava. Talvez por isto sempre estivesse rindo e feliz. Com sua voz suave, antes de qualquer coisa dizia “amigo”... Como não gostar de uma pessoa que começa a falar contigo dizendo AMIGO... Entre as muitas passagens registrei uma na procura de um estacionamento em Manhattan. Orlando vivia no Village e algumas vezes fiquei hospedado em sua casa. Na chegada – de carro – ele dava duas voltas no quarteirão e encontrava vaga. Como pode? — Amigo, na vida você tem que acreditar que tudo vai dar certo.

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para a última fila do teatro. A sensação de estar ao lado do Tom com o suporte das garrafas e vendo o show do Caetano foi outra grande tatuagem de minha vida. Sim, eu era macaco de auditório dos dois. Esta emoção era grande demais para ser verdade. Logo depois, por coincidência – dizem que não existe coincidência na vida - fui para São Paulo. Passei pela casa do meu primo que me convidou para ver um show do Caetano – o mesmo show. — Eu já vi em New York e com o Tom ao meu lado. — Vamos lá, temos ingresso sobrando. — OK. A Hercília Valadares era uma psiquiatra que dividia o consultório com o meu primo em São Paulo. Nasceu em Santo Amaro da Purificação e conheceu de perto Cae Cae. Em São Paulo, naquelas filosofias de meio de show do Caetano, ele começa a contar uma história de sua primeira namorada em Santo Amaro. — Mas que grande mentira, disse Hercilinha baixinho no meu ouvido. — Por quê? Não foi a Fulana? — Foi a Beltrana. Aí, gritei o nome da verdadeira primeira namorada. As luzes se acenderam e apagaram. Caetano encosta o violão e diz: — Aqui dentro tem alguém que me conhece bem e muito bem. De fato, a minha primeira namorada foi a Beltrana. Aí veio um holofote na nossa direção e eu fingia que não era comigo. Depois do show, no camarim... após muitas viborovas, tudo virou festa.

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Comigo sempre dá certo. Durante os próximos 20 anos Orlando Moreira me ligaria desejando um Feliz Natal e Próspero Ano Novo. E a cada três meses para dizer: — Amigo, só estou ligando para renovar a nossa amizade. Henderson Hoys era querido por todos. Era outro grande cameraman que mais tarde passou a trabalhar no programa Manhattan Connection, do Lucas Mendes. Lucas era um bon vivant, inteligente, culto e excelente repórter. Tinha a curiosidade peculiar dos grandes jornalistas. Depois de sair da Globo, fez algumas experiências na Record e mais tarde a própria Globo pediu que voltasse para dirigir o Manhattan Connection, um programa a princípio com Paulo Francis, Arnaldo Jabor, Caio Binder e Lúcia Guimarães. Escreveu um interessante livro com o mesmo nome do programa. Lucas era um bom jogador de tênis. Assim como o Lulu (fotógrafo da Manchete), o mineiro Lucas era capaz de tomar um litro de uísque e, no dia seguinte, jogar tênis como um garoto. Um dia me contou que passava os fins de semana na casa do sogro em upstate New York. Com mania de churrasco e apreciador de um bom vinho, não sentiu o “abaixo” de zero grau do lado de fora da casa. Aberta a segunda garrafa, deu início ao churrasco. Após algum tempo não sentiu a orelha. Quando entrou em casa a orelha já estava roxa. Ao chegar ao hospital, uma das opiniões médicas era de que deveria realizar uma cirurgia - cortar a orelha. Ele contando a história e imitando o repórter na televisão: “E aqui de New York, Lucas Mendes para o Jornal Nacional (sem orelha)”. Hélio Costa era o mais charmoso e carismático dos repórteres da TV Globo. As mulheres brasileiras quando viam o programa Fantástico criavam as suas fantasias sexuais com o galã de olhos azuis. Vi muitas mulheres casadas perseguirem o Hélio em Manhattan. Muitas milionárias pegavam um avião de São Paulo para New York só para “ver” o Hélio. Se chegasse em Cleveland, Ohio, para uma reportagem, em poucos minutos era rodeado de pessoas de todas as idades e classes sociais. Na época do nosso Primeiro Torneio Brasileiro de Futebol de New York, Hélio mantinha um namoro (meio escondido) com uma menina de Washington, que era a maior gracinha. Mais tarde, Hélio entrou para a política, casou no Brasil e, com sua honestidade e trabalho, conquistou grande número de adeptos. Redi era um cartunista fantástico que nunca soube lidar com dinheiro. Fazia os cartuns para a sucursal da TV Globo (Fantástico, Jornal Nacional) e ainda era ilustrador do New York Times. Aliás, ficou registrado como o primeiro cartunista (por acaso um brasileiro) a ter um trabalho publicado na capa ( front page) do mais importante jornal americano. O NYT proibia literalmente qualquer desenho de humor na capa do jornal. A diferença entre a sua época de Pasquim e de NYT era que no


JOÃO RESENDE Um dia estávamos o Luís Carlos Serra, o João Resende e eu esperando pelo Gerson Delano de Weissheimer num restaurante da Terceira Avenida. Começamos a beber às 5 horas da tarde. A minha obrigação era de enviar para o Rio uma matéria por semana. Na parte da publicidade os contratos já haviam ultrapassado as expectativas, não sendo necessário muito esforço nas vendas. O João Resende, por sua vez, como adido cultural, não tinha um horário muito puxado. Com duas horas de papo, viu uma mulher passar na frente do bar e foi atrás. Voltou e apresentou-a como sua amiga. Fui para casa. Mais tarde rolou a história de que o João tinha quebrado o braço de uma

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Brasil ele podia dar uma opinião sobre determinado assunto. Em New York, não. Existia um texto que deveria ser ilustrado. Redi trabalhou dois anos na NBC e me confidenciou que durante esse curto período viu três colegas sofrerem ataques de coração, tamanha era a pressão dos prazos de entrega etc., tal do deadline. Ainda em New York, Lucas Mendes produziu um quadro sobre o documentário de um médico americano que dizia que quando uma pessoa ri, faz bem ao coração. Ele pediu que o Redi criasse alguma coisa numa rua de Manhattan. Então, na Quinta Avenida, com imagens de Orlando Moreira, ele se sentou em frente à igreja de Saint Patrick (com um chapéu na mão) na hora do almoço e um cartaz pendurado no pescoço dizendo: O meu analista recomendou que eu fosse para as Bahamas, por favor ajude. As reações foram das mais adversas: um executivo colocou uma maçã, alguns deixaram moedas, outros passavam discutindo negócios, sem olhar, até que um homem bem vestido jogou o cartão de visitas de uma agência de viagens, dizendo para o Redi ligar quando tivesse bastante dinheiro que ele lhe venderia a passagem para as Bahamas. Na realidade o teste era para saber se o novaiorquino tinha humor. Redi fazia com Orlando Moreira a melhor dupla de representantes da raça brasileira no exterior, aquela coisa da boa índole. Muitos anos mais tarde, Redi falecia no Brasil – também de ataque de coração. Um coração enorme, sensível... Morreu literalmente de tristeza. Além do Washington Oliveira, Clarinha, Juanita, Becky, Clara Davis, Tony e já então Paulo Francis, sempre recebíamos a visita de amigos do Brasil: Hans Donner, Moisés Fuks, Nelsinho Motta, Fernando Mariano, Boni, Walter Sampaio, João Roberto Marinho, José Roberto Penteado, Arthur de Almeida. Mais tarde registramos a chegada da repórter Heloísa Vilella, que trabalhou os últimos 20 anos na sucursal da TV Globo de NY.

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prostituta. Foi detido, rolou processo e o escândalo correu por Manhattan. O adido cultural do Consulado do Brasil em New York foi preso por quebrar o braço de uma prostituta. Sua mulher, Hildegard Angel, tentou abafar o tititi na imprensa do Brasil. Mais tarde, João ficou doente em Marseille e faleceu no Brasil. Luís Carlos Serra e Gerson viviam entre hotéis de luxo em Manhattan e num dos diálogos de Serra registrei: — O seu marido está enchendo o saco? Ele quer disputar “puder” comigo? Tô chegando aí na Bahia na semana que vem. Era o Luís Serra falando com uma amante baiana, com o Gerson fazendo coro ao fundo... Mais tarde, Luís se mudou para Miami com o amigo Gerson Delano e muitas histórias continuaram a rolar.

LEMBRANÇAS DO BRASIL A fase na Starlight foi intensa, cheia de surpresas. Um dia me visitou o Paulo César Lisboa, o Paulinho Maluco (criado na rua República do Peru e ex-companheiro na Lagoa de Pituaçu), que lá da Bahia me descobriu em New York. Fez algumas experiências com publicidade no jornal, mas a Ilha de Itaparica falou mais alto e voltou para o Brasil. O carioca Bayard também trabalhou como meu contato de publicidade. Falava grego, iídiche, francês, inglês, espanhol, italiano. Era um gênio, completamente perdido em New York. Adorava parar nas carrocinhas de pretzel ou de castanhas e conversar com os gregos. Algum tempo depois, em Miami, me apresentou a namorada, a guia de turismo Kika Pedrosa. Lembrei da confusão no Brasil com os primos ipanemenses de Kika: Fernandinho e Paulo Sérgio Pedrosa. Eu passava um carnaval em Vassouras, terra do jurista Raul Fernandes e da família Avelino. Nos anos 60, fui a um baile de carnaval no clube Fluminense de Vassouras e a Silvinha Telles estava lá com o grupo. No baile, a comemoração da volta à cidade de Hélio Tubarão (Hélio Macedo Soares), filho do fundador da Cia. Siderúrgica Nacional de Volta Redonda. Durante algum tempo Hélio Tuba esteve “proibido” de entrar na cidade. Com o lança-perfume rolando, fiquei com o lenço parado no nariz e ao tirá-lo, o Fernandinho me dá um empurrão. É o que se podia chamar na época de “prise”. A “prise” de lança-perfume deixava por alguns segundos a pessoa com um zumbido na cabeça. No empurrão, Roberto Vieira Lima, meu amigo de infância, quebra uma cadeira na cabeça do Fernandinho. Este quebra uma garrafa e revida, cortando o rosto do Roberto. Eu quebro um pé de cadeira e saio dando paulada na cabeça de todo mundo. Hélio Tubarão entra na briga para separar e proteger Silvinha Telles, que àquela altura já entrara na briga. A polícia cercou o clube e fomos todos presos. Na mesma cela.


Tatuagens Lucinho Bisadão na barraca da Vigo fazendo a festa da Rua 46 em New York.

Lucimery Souza (Pompom) e o gaúcho Antonio Hellwig de Souza no Ivy Hill de New Jersey.

Heloísa Vilella, a eterna repórter da TV Globo de New York.

Pelé em New York, com Christian Kegler.

José Roberto Withaker Penteado e o casal Luis Redinger (o nosso saudoso Redi) comendo pastéis no Alvaro’s do Leblon, Rio de Janeiro.

O inconfundível Pauletty com Monique Evans em Newark, New Jersey.

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Os amigos de New York: o mineiro João Pereira e o carioca Mário Magalhães.

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Helio Gusmão Junior recebendo instruções do pai para organizar as empresas em New York.

Mauricio Sobrinho do Restaurante Brasil Tropical de Washington.

Mary Arnaud (Diretora da Câmara de Comércio Brasil - Estados Unidos de Miami) e Eduardo Cardim.

Roberto Lima, do jornal Brazilian Voice, em Newark, entrevistando Jetter Vianna.

A cantora Preta e o baterista Eddy Gonçalves, em New Jersey.


Helio Gusmão com Antonio, mostrando troféu do campeonato de futebol recebido pela Vigo de New York.

Don Luciano Mendes, Isa Chateaubriand e o Padre Checon em New York. (cortesia The Brasilians).

Magrão, Marly, Chico Moura e Cacá Santos, em New Jersey.

A escultora Vilma Noel (foto The Brasilians).

Bárbara de Chevalier no Restaurante Via Brasil de New York.

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Chico Moura recebendo o fotógrafo José Martins (Pancho) em Manhattan.

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O discotecário carioca Roberto Costa (ao centro), com Régine Choukroun e Jaques.

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A saudade dos filhos Paulo Roberto (à esquerda) e Carlos Henrique e do sobrinho Pedrinho em férias no Ceará.

André Adler colaborou (de New York) com algumas matérias importantes para a nossa seção no caderno de turismo do jornal O Globo.

A belíssima Jeanette Bezerra no Baile do Waldorf Astoria no ano de 1978.

Outra cena do mais famoso baile de carnaval de New York, o do Hotel Waldorf Astoria (cortesia jornal The Brasilians).

Foto histórica no restaurante Via Brasil de New York: Ana Maria Tornaghi, Jota Alves e o jornalista Newton Duarte, de Brasília.


AS PESCARIAS Washington Oliveira era o amigo pescador que havia fundado, com o Kaiserman, a TV Globo de New York. Um dia me chamou para uma pescaria em Long Island. Ao meu lado, no mesmo barco, usando as mesmas iscas, ele pegou 12 blue fishes. E eu, nada. No Brasil nunca havia pegado um peixe. Quando eu já havia desistido do novo hobbie, ele me liga: — Lembra do Robert? Está morando na Flórida. Pegamos um avião e lá fomos nós pescar no mar de Miami. Eu peguei oito king fishes (cavalas) e o Washington, nem uma mordida. Naquele momento a minha sorte estava lançada: vou me mudar para Miami. Na primeira viagem, voltei ao centro da cidade – a primeira vez que visitei Miami foi em 1975. No início dos anos 80, as lojas cheias de argentinos e venezuelanos. — Tem muito brasileiro por aqui? — Não, somos poucos – disse o paulista Daniel Garcia, da loja Kalu Place - talvez uns cinco mil. — Estou procurando uma pessoa para me representar aqui em Miami. Quem você sugere? — A Marize, mulher do Carlinhos Sampaio. Ela era uma garota encantadora. Jogou todo o seu charme para conseguir a posição. Me apresentou ao Helder Pereira e Regina Villela. Reencontrei os amigos de New York, Geraldo Silva, a Vera Verão... Conheci o William

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Após a noite na cadeia voltamos para o Rio. Celso Vieira Lima me chamou para vingar a cicatriz do irmão. Para sorte dos Pedrosa não os encontramos. Celso era faixa-preta de caratê, da academia Brito, companheiro de Cláudio Pereira e Paulo Góes. Silvinha já era mãe de Cláudia Teles, filha de meu amigo Candinho. A lembrança de Ipanema apagava os possíveis maus momentos nos Estados Unidos. Silvinha morreu em 1966, aos 32 anos de idade, num acidente de carro com Horacinho de Carvalho, indo para Cabo Frio – Horacinho era filho de Dona Lili de Carvalho, depois esposa de Roberto Marinho. O pessoal da Starlight (Orlando Moreira) tinha uma casa alugada em Fire Island, um lugar de difícil acesso. Pegávamos três conduções: o trem, o ferry boat e um táxi. A Ilha era uma mistura de balneário de luxo com praia de nudismo. A casa era de bastante conforto. O acesso à praia era por trilhas suspensas no meio de uma pequena floresta... Muito bem construída. Muita gente bonita. As fãs do Hélio Costa sempre querendo aparecer.

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Sorren - o pai, P. K. Sorren, já era meu cliente em New York -, o Oswaldo Pepper, a Nelly Gonzalez, Ina Sodré, o mineiro Salles, o Gilberto Manzano, Marcinho Rocha, Carlinhos Lopes, Victor da Silva, as guias Jurema, Cristina, Neida Soares. E a belíssima Elda, mulher de Daniel Garcia. Foi com a ajuda da Marize Sampaio que fiz a minha primeira edição de Miami para o jornal O Globo. A cada um ou dois meses viajava para a Flórida. A minha mulher na época começou a reclamar desta vida de viagens. Sem hora para sair, sem hora para chegar. Eu havia descoberto um sistema chamado Dependable Car Travel Service. Era uma empresa com grandes pátios de estacionamento cheios de automóveis que deveriam ser entregues no seu lugar de origem. Por exemplo: se uma pessoa ia para Miami dirigindo e resolvia voltar de avião, entregava o carro nesta empresa, que se responsabilizava pelo retorno do veículo. Então, eu chegava num pátio cheio de carros (em Miami ou New York) e escolhia o destino: — Este Mercedes vai para Queens, este MG vai para Manhattan, este Volvo vai para o Brooklyn. Dava 50 dólares de depósito e tinha quatro ou cinco dias para entregar o carro escolhido. Na entrega, o proprietário me devolvia os 50 dólares e a viagem saía quase de graça. Só tinha a despesa da gasolina e dos pedágios. Normalmente se podia dirigir em um ou dois dias. Nos dois ou três dias extras podia-se trabalhar ou fazer turismo (grátis) em qualquer cidade. Pelos próximos 10 anos usaria este tipo de transporte. Ia de carro e voltava de avião, ou vice-versa.

PRIMEIRO TORNEIO DE FUTEBOL O primeiro torneio de futebol de New York foi um evento que consumiu algumas semanas de planejamento e muito trabalho. Hans Donner, Cardim e Arthur Grandi trabalhavam numa casa em Botafogo no projeto Oxberry (o que criou o plim-plim da Globo). De passagem por New York, Arthur Grandi presenciou o meu tormento em liberar as camisas do nosso time, que haviam ficado presas no G.O. As autoridades no aeroporto Kennedy entenderam que era algodão, e na política de reciprocidade diziam que algodão do Brasil era proibido entrar nos Estados Unidos. Como eu ia adivinhar que 22 não passariam na alfândega? Foi um sufoco. No dia anterior fui pessoalmente explicar que as camisas eram para um simples jogo de futebol. No dia do torneio, de manhã, saímos procurando um decalque para colar os números nas costas dos jogadores. Conseguimos armar oito times entre a nossa comunidade. Era o primeiro torneio entre empresas brasileiras de New York. Rose Gan-


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guzza (mulher do Lucas Mendes) trabalhava no Brazilian Govt. Trade Bureau e conseguiria a licença para a liberação do local. O Ferrugem, que fazia churrasquinho em Manhattan, ofereceu uma rodada de carne. O que faltasse, eu pagaria do meu bolso. Conseguimos a cerveja, refrigerantes e bolinhos de todos os tipos, bacalhau, quibe, empadinha. Tinha que ser uma verdadeira festa brasileira. Com batucada, cerveja e futebol. Por sorte, o Roberto Marinho estava em New York, hospedado num hotel da Park Avenue. Se eu fosse pedir permissão ao meu chefe para depois cair na diretoria, presidência e chegar ao “Dr. Roberto”, jamais conseguiria realizar o torneio. Liguei direto para o seu quarto: — Dr. Roberto, é o Chico Moura. Nós estamos fazendo um torneio de futebol em Flushing Meadows (Queens) e vou precisar de 2.000 dólares para um suporte de caixa. Já tenho tudo o que preciso. Mas, se der alguma zebra, não tenho um tostão. Posso garantir que após este torneio eu vendo (numa edição) mais de 30 mil dólares em publicidade. — Peça ao Felipe Rodriguez. Qualquer problema diga pra ele me ligar. Boa sorte! E foi assim que levei a TV Globo ao campo para registrar o Primeiro Torneio Brasileiro de Futebol de New York. Saiu no Jornal Hoje, Jornal Nacional, direto para o Brasil. Não exatamente direto, mas no dia seguinte. O Hélio Costa, mais tarde senador eleito por Minas Gerais, e depois ministro, jogou no nosso time. O Lucas Mendes, do programa Conexão Manhattan, também. No gol estava o Ubirajara, o goleiro mais bonito do Brasil. O churrasquinho do Ferrugem voou.. O povo com fome não iria ficar. Eu tinha no bolso mais dois mil dólares para completar a grande festa. De New Jersey, o Jersey Brazilians levou uma escola de samba com Marcos, Torró, Kubu e cia. O time do Banco do Brasil levou a taça entregue pelo presidente da TV Globo, Felipe Rodriguez. Com o aval do “Doutor”, tudo ficou mais fácil. O time do Ary Export, Via Brasil Restaurant, e Banco Real quase saíram no pau. Teve expulsão de campo, com juiz da federação. A polícia não entendia nada. De onde apareceu tanta gente neste parque? Que língua estão falando? Yaponam de Sousa, Lucas Mendes, Luís Gomes, Torró, Hélio Costa, Henderson, Orlando Moreira, Ubirajara... são apenas alguns que lembram daquela grandiosa festa. Nessa edição vendi 35 mil dólares de publicidade com ampla cobertura jornalística no jornal O Globo. Pelo sucesso, levei bronca de todos. Do coordenador das sucursais e de toda a diretoria. Quem deu o direito a este petulante de falar com o Dr. Roberto sem a nossa participação no torneio? Recebi bronca por telex, por telefone, carta e até pessoalmente. Depois de algum tempo entendi como a máquina deveria funcionar. Eu não estava ali para vender mais. Tinha

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que obedecer á cartilha. Fazer somente o dever de casa. A partir daí comecei a me aborrecer com a mentalidade do jornal. No dia 11 de junho de 1981 era publicada no caderno de turismo do Globo a seguinte matéria:

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FUTEBOL DO BRASIL, VITÓRIA EM NEW YORK

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Oito equipes participaram do torneio patrocinado pelo Globo e Rede Globo, com apoio do Consulado do Brasil em New York e do prefeito da cidade, Ed Koch; as do Banco Real, Banco do Brasil, Restaurante Via Brasil, Restaurante Brazilian Coffee, Ary Export, Ivo Boutique, Samba Bar – New Jersey e o Globo. O local Flushing Meadows – Corona Park, uma das maiores áreas de lazer de New York, no bairro de Queens, com extensos gramados, lagos, praças de esporte, playgrounds, pistas de patinação e ciclismo e muitas outras comodidades. Ali, durante os fins de semana e especialmente na época do calor, milhares de pessoas desfrutam de agradáveis momentos ao ar livre, jogos de baseball e cricket, exibições de aeromodelismo, famílias e casais de namorados fazendo piqueniques ou tomando sol compõem o quadro alegre desses dias de sol no Corona Park. A música está por toda parte, seja nos minúsculos fones de ouvido dos pequenos gravadores tão em moda, seja nos imensos rádios de pilha que muitos preferem chamar de “transportáveis” em vez de portáteis. Sobre a grama, milagrosamente equilibrados nos guidons de bicicletas ou nos ombros de habilidosos patinadores, esses gigantes da eletrônica espalham sua potência, geralmente na forma de música de discoteca e por todos os lados pessoas dançam, não importa qual a atividade de que estejam participando. O Torneio de Futebol Brasileiro agitou ainda mais o clima do Flushing Meadows – Corona Park. O brilhante sol de primavera da manhã de sábado, dia 30 de maio, parecia insistir na proximidade do verão, a temporada mais badalada de New York, quando os turistas tomam conta da cidade, misturados à população local que sai às ruas em massa, como que num ritual de adoração ao sol. A movimentação na área oito do Flushing Meadows, onde está o campo de futebol, cedido pelo Comissário de Parques e Recreação da Prefeitura de New York, Gordon J. Davis, para a realização do torneio, indicava desde cedo aos freqüentadores do parque que algo de muito especial ia acontecer. Uma quantidade incomum de carros lotou o estacionamento, a ponto de ser necessária a presença da polícia para ajudar a resolver o problema. Camionetes descarregavam material esportivo, comidas e bebidas, faixas em português, mesas, pedras de gelo, despertando a curiosidade dos que ainda não sabiam a natureza do evento programado.


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Não faltou, naturalmente, a autêntica batucada brasileira, que desde os primeiros momentos animou o público presente e atraiu também muita gente que estava no parque para outras atividades, mas que acabou conquistada pelo ambiente tipicamente brasileiro que se estabeleceu na área oito. Para quem nunca tinha ido ao enorme parque, onde não é difícil o visitante se perder numa primeira vez, o ritmo do samba servia como um sinal inequívoco de orientação. Quem seguia esse sinal logo avistava ao longe as cores inconfundíveis da bandeira brasileira, que identificava o ponto de reunião para o torneio. A bateria sustentou o ritmo até quase oito horas da noite, quando, com o céu ainda claro, o estacionamento finalmente se esvaziou. Durante toda a tarde, uma estranha mistura de idades, línguas, nacionalidades, estilos e interesses cercou o campo de futebol, onde a bola só parava por alguns segundos. Atrás do gol do lado norte, o aeroporto La Guardia, de onde a cada minuto imensos jatos decolavam em curioso contraste com as piruetas dos aeromodelos na pista ao lado, a distribuição de bebidas e salgadinhos brasileiros preparados por senhoras brasileiras de New York (muito guaraná para matar saudades ou, para quem não conhecia, provar) facilitava os encontros, a confraternização e a troca de informações. Os turistas brasileiros trocavam as “últimas” do Brasil pelas experiências e “dicas” dos brasileiros residentes nos Estados Unidos. Os americanos e os turistas de outras nacionalidades absorviam todas essas informações, deslumbrados com a exuberância brasileira. Ao lado da bateria, duas carrocinhas do “Ferrugem” uma figura brasileira já conhecida nas ruas de Manhattan, completavam o menu com o seu famoso churrasquinho temperado com um exótico molho de ervas. A união demonstrada pelos diversos segmentos da colônia brasileira liquidou definitivamente quaisquer mitos de cisão ou dificuldade de cooperação entre os membros da população brasileira de New York, com brasileiros de todas as regiões e áreas de atividades congregados no clima mais agradável possível. Entre os que prestigiaram o torneio, o Ministro Renato Prado Guimarães, Felipe Rodriguez, da Starlight Communications, os repórteres Hélio Costa, Lucas Mendes (jogaram pelo time do Globo) e Sérgio Mota Melo da rede Globo, a atriz Glória Pires (de passagem por New York), Luís Oscar Niemeyer, o pessoal da Rua 46 também estava lá, garantindo o sucesso da festa, além de brasileiros residentes em New Jersey, Connecticut, Pensilvânia, Washington e até Califórnia, que vieram a New York especialmente para o torneio. O jeitinho brasileiro no futebol, no samba, na hospitalidade e na

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alegria espontâneas cativaram de maneira decisiva os representantes de todas as outras nacionalidades presentes ao Flushing Meadows. Enquanto isso, dentro do campo não era só a bola que corria. Do goleiro Ubirajara, que jogou no Brasil pelo Flamengo e pelo Botafogo (e defendeu o time do Globo no torneio), aos portadores de currículos esportivos bem mais modestos, todos se empenharam a fundo e com muito entusiasmo. O público acompanhou de perto as três horas e meia de jogo corrido e as torcidas mantiveram o nível de sua participação até o último instante. A emoção foi tão grande que em alguns momentos a disputa esquentou a ponto de a confusão lembrar os sururus de algumas decisões nos estádios do Brasil. Na quarta-de-final entre o Restaurante Via Brasil e o Banco Real, o empate no tempo regulamentar continuou sem decisão após longa série de disputas por pênaltis e, quando foi anunciado que a decisão seria por sorteio, houve muita discussão quanto à conveniência dessa solução. O sorteio foi realizado, por cara-ou-coroa, e a equipe do Restaurante Via Brasil, que não queria o sorteio, perdeu. Os protestos, compreensivelmente, foram muitos. Na final, entre o Banco do Brasil e a Ivo Boutique, quem quase sofreu as conseqüências do calor do ânimo futebolístico brasileiro foi um dos bandeirinhas, por causa de um impedimento. Mas ele escapou ileso e os momentos mais tumultuados não estragaram a alegria do torneio. Provavelmente apenas contribuíram para aumentar a autenticidade da festa. Que tudo acabou bem ficou claro para quem passou, na manhã seguinte, no Central Park, pelo ponto do Pé de Boi, a maior escola de samba de Manhattan. Lá estavam reunidos alegremente, ao som da batucada, jogadores dos diversos times, comentando, no festivo ambiente do tradicional domingo de New York, os acontecimentos da véspera. O campeão do torneio foi o Banco do Brasil e o vice a Ivo Boutique. Logo após a partida final, Felipe Rodriguez entregou os troféus oferecidos pelo Globo às duas equipes finalistas. Após a entrega das medalhas aos jogadores, foi feita a distribuição de material esportivo aos participantes do torneio, oferta da empresa brasileira Drible, representada por Don Soule. O organizador do torneio, Francisco Moura, manifestou sua satisfação com o sucesso da promoção e com a resposta da população brasileira de New York; ressaltando o interesse de pessoas como Luís Gomes do Restaurante Via Brasil, Rose Ganguzza, do escritório comercial do governo brasileiro em New York, sugeriu a possibilidade do Primeiro Torneio de Futebol Brasileiro da cidade de New York ter sido apenas a primeira de uma série de manifestações culturais brasileiras nos Estados Unidos. Talvez aconteça um festival de música brasileira em Manhattan ainda no verão nova-iorquino de 1981.


Em outubro de 1981 já estava vendendo mais de 20 mil dólares por mês de publicidade (o dólar valia muito) para O Globo. Podia visitar meus filhos no Rio a cada dois ou três meses, pagando do meu bolso pela passagem e levando sempre um baú de presentes. A idéia de criar uma seção retratando a cada semana uma cidade do interior da Bahia, de criar a primeira seção permanente do exterior num caderno de turismo num jornal brasileiro, de criar o primeiro torneio de futebol brasileiro de New York serviu de base para muitas outras tatuagens que iria criar pelo mundo. O Natal ou Ano-Novo passávamos no salão de festas no prédio do Pelé, que por acaso era o mesmo do Hélio Costa, Carlos Alberto Torres e Terezinha Sodré. Era uma época de bonança. O dinheiro rolava em New York, as pessoas gastavam mais, ganhavam mais. O prédio do Pelé ficava bem atrás do nosso escritório na TV Globo. Num Ano-Novo, viramos a noite na cobertura (com piscina de água quente) e voltamos a pé pela neve até a East 65 Street, onde moramos durante algum tempo. Voltei para New York encantado com a Flórida. Em Miami, com o dinheiro que ganhava, poderia morar em melhores condições. O lugar para morar já não importava. A máquina de fazer dinheiro já estava montada. Aí o destino já começou a se manifestar em direção à Flórida. O nosso apartamento em Manhattan (em cima do El Condor Pasa) era pequeno, mas todo mundo o visitava. Um dia pensei que seria melhor mudar para Queens. Lá, numa casa maior, poderíamos receber os amigos da TV Globo, fazer churrascos, criar cocktails. Mudamos e nunca fomos visitados por ninguém. Por coincidência, em Elmhurst (Queens), morava no mesmo prédio o carioca Sérgio Bosi. Cruzávamos nos elevadores sem falar, sem saber que muitos anos depois seríamos amigos e, mais tarde, sócios durante um curto espaço de tempo em Miami. Minha mulher (ainda a segunda) trabalhava na Rua 46. Ficou grávida e um dia foi imprensada no metrô. O vagão muito cheio. Veio o miscarriage (aborto natural). A tatuagem da perda, do sofrimento profundo. Quando começou o processo de aborto, liguei correndo para o médico, que perguntou: — Tem vinho em casa? — Como? Não entendi. Você quer que eu dê vinho para ela? — É só até eu chegar. Já estou saindo de casa. Não deu tempo. Os pedaços do feto já começavam a sair. O vazio no estômago, a tremedeira, o choro. Chamamos a ambulância. Demorou. Voei para o táxi e fomos para o hospital. Lá perguntei ao médico: — Por que você me disse para dar vinho? — É que relaxa. Não tínhamos vinho em casa. Mas eu estava com a chave da casa

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A TATUAGEM DO ABORTO

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do meu vizinho, Mário Garcez, que viajara para o Brasil e era um dos proprietários da loja Brasil Som, sócio de Léa e James Felzem. Ele tinha uma adega fantástica. Gostava de agradar aos comandantes da Varig, sempre convidando para um jantar em sua casa (lembro-me do Comandante William e Comerlato). Fui correndo ao seu apartamento e abri uma garrafa de vinho chileno. Não deu tempo. Ali foi a gota d’água para mais uma mudança de casa. Desta vez para o Greenwich Village, onde moramos num apartamento alugado. O proprietário, Jamil Degan, nos cobrava 1.200 dólares por mês, num conjugado (studio) na Sexta Avenida, esquina da Twelve Street. Naquele tempo, o carioca Roberto Costa era discotecário do Regine’s em New York e no meio de uma festa me fez uma homenagem tocando na despedida a música “New York, New York”, interpretada por Frank Sinatra. Roberto, que fora vice-campeão do primeiro torneio de futebol de Flushing Meadows – jogando pela Ivo Boutique –, anos depois também se mudaria para Miami. Após temporada no Village, ainda tentei morar por um tempo em New Jersey, mas o coração já estava em Miami. Amarrei o Dodge Charger 1969 num caminhão alugado e nos mudamos para a Flórida. O carro era o meu xodó, uma cópia do filme Dukes of Hazardous, um seriado que no Brasil levou o nome de “Os Gatões”. Nunca fui muito ligado a carros. Mas aquele Dodge Charger tinha alguma coisa de especial. Em quase todos os lugares em que parava, perguntavam: “Quer vender?” Eu imaginava que aquele deveria ser um bom carro. Já na estrada, nos postos de gasolina, as pessoas comentavam: — Vai para Miami? A Flórida está uma merda. Nós estamos subindo para New York.

EM MIAMI A primeira moradia foi em North Bay Village, no mesmo prédio da Marize Sampaio, já então nossa representante no jornal. Um apartamento de dois quartos com vista para a Baía de Biscayne. Lindo e três vezes mais barato que o de New York. Com um bilhete do José Gherardi no bolso, fui procurar o Sandrinho, seu irmão. Queimado do sol, o mais carioca dos brasileiros dos Estados Unidos me recebeu superbem. Eu havia conhecido o Zé Gherardi da agência Hotur, no bar do restaurante Chateau Bahia (em frente à ONU) em Manhattan e ficara seu amigo. No Chateau Bahia cantava a Ângela Soares (prima do Carnaval) acompanhada de Hélcio Milito, herdeiro do famoso Tamba Trio. A máquina do jornal O Globo nos Estados Unidos já funciona-


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va perfeitamente bem. Os clientes, satisfeitos com o retorno. Uma vez por semana eu viajava para uma cidade qualquer e fazia uma matéria simples, sem muitas pesquisas. Passou a ser um dinheiro fácil. E foi perdendo a graça. As tatuagens já estavam se apagando quando inventei de viajar uma vez por mês a New York. Comecei a jogar nos cachorros e nos cavalos. Procurava sempre uma desculpa para me encontrar com o Moisés Fuks ou outro turista brasileiro qualquer que estivesse disposto a viajar para Atlantic City. O Fio da Navalha já não cortava. A vida era boa, equilibrada. O dinheiro, as viagens fáceis, os presentes para os filhos no Brasil. Tinha que criar alguma coisa para complicar a minha vida. Numa destas viagens, em New York, encontrei meu amigo (na época representava a Bel-Air) carioca Jorge Siciliano e fomos ao Club A. Eu estava hospedado no Estado da Pennsylvania, na fazenda do meu compadre mineiro Marcos dos Santos. O discotecário Ricardo Lamounier (já falecido) ofereceu ao Siciliano uma noite com muito champanhe e mordomia. O tempo foi passando e perdi a hora de voltar para a Pennsylvania. O Siciliano me ofereceu uma suíte no Grand Hyatt na esquina da rua 42 com a Lexington, com dois quartos e tudo incluído. — Não tem problema nenhum. Estou sozinho. E você é meu convidado. Chegamos ao hotel às 5 horas. Após a choradeira pela perda do filho – aluguei o ouvido do Sici para contar a história do aborto – liguei para casa para explicar que havia chegado àquela hora porque blá-bláblá. Ninguém liga às 5 da manhã para casa dizendo que chegou bem. As notícias ruins correm rápido. Para que ligar? De volta a Miami, foi difícil convencer a esposa que não tinha estado com outra mulher. Com o tempo fui descobrindo que, em todos os relacionamentos, não existia realmente o ciúme de estar com outra mulher. Era simplesmente o ciúme de estar com alguém, fora de hora, fora do combinado. Seja lá quem fosse. A pessoa tinha que ser previamente determinada. A mente humana é cheia de monstros que se alimentam do imaginário e destroem as relações inseguras. No avião voltei pensando no casamento do Helinho, um baiano que eu conhecera no tempo da minha primeira fase de New Jersey. No começo dos anos 70, o baiano Helinho era um dos melhores jogadores de futebol do Jersey Brazilians. Casou com a Adinha, uma paraense bonita, jovem e cheia de fogo. Adinha fazia parte de uma grande família de paraenses que durante alguns anos escreveram algumas páginas na história dos brasileiros nos Estados Unidos. Helinho saiu da Bahia sem um histórico familiar. Ninguém sabia exatamente do seu passado. O importante é que o futebol fizera de Helinho uma pessoa querida e admirada em New Jersey. Os anos se passaram e já em Miami reencontrei o amigo.

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— Quanto tempo... Por onde andou? — Depois de New Jersey morei no Texas, criei uma empresa de transportes. Hoje tenho uma frota de caminhões e vim comprar um apartamento em Miami Beach. Que bom saber que um brasileiro, sem formação acadêmica, estabelecera uma história de sucesso baseada num trabalho honesto. — Voltou quando de New York? — Esta semana. — Quer vir até a casa do Tonico? Vamos fazer um churrasco para o Eduardo, aquele nosso amigo de New Jersey que esteve preso. Lembra dele? Era o Helinho me convidando para um churrasco em Miami Beach. Um churrasco só para homens. As esposas não participavam muito destes encontros. Nenhuma mulher poderia entender esta minha loucura – ou a versatilidade de conviver com pessoas de todas as classes sociais. O VERDADEIRO CACHORRO VIRA-LATAS. Ainda triste com a perda do filho, continuei bebendo, mas avisei à minha mulher que voltaria cedo: — Só vou fazer uma média e volto já. Comecei a beber às 2 horas da tarde. Às 9 da noite, já cansado voltei para casa dirigindo, numa mistura de choro e tristeza. Naquela época tudo o que eu queria naquele casamento era um filho ou uma filha. A sensação da perda no coração. Havia pouco tempo eu mudara para uma maravilhosa cobertura de frente para o mar em Miami Beach. No carro, tinha uma caixinha de controle para abrir a porta da garagem. Quando estava próximo de casa liguei avisando que em poucos minutos estaria chegando. Na porta do prédio procurei o transmiter. Fui caindo, caindo e apaguei. Dormi dentro do carro – em frente à minha casa. Só acordei às 2 da manhã. Nenhuma mulher poderia entender que eu às 5 horas da manhã estaria num Hyatt de New York, numa suíte, sozinho. Nem tampouco poderia acreditar que, em Miami, eu dormiria na porta de casa. Ao entrar, ela sentada no sofá da sala. Não falei nada. Dormi e não entendi o que estava acontecendo. No fundo já sabia que este casamento estava terminando. A vida estava muito boa para ser verdade. Uma das pessoas que mais amei na vida e a estava perdendo. *** Com a facilidade de viajar ao Brasil, assinava ponto no Villarino, um bar no Castelo. Na chamada grande mesa conheci nomes notáveis da boemia carioca. A maioria dos bons advogados do Rio de Janeiro freqüentava a grande mesa. Os amigos Roberto Couto, Zaimer, Alfredo Bumachar. Os


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delegados Gilberto Krenkel, Cebinho, Virgilinho... Os proprietários Antônio, Márcia e Dona Vera, os garçons Gerson, Ramos, Jorge, Alcides e Augustinho, os balconistas Zé Maria, Mário o Maro, Miguel Lisboa e o Batista. E ainda o Comandante Atila, Saul, o nosso fabricante de uísque Betinho, Nelson Coronha, George Tavares (advogado), Fausto Neto nosso jornalista pernambucano amigo do Almir o jogador, Cláudio, Nei do IRB, Felix Kronig, Mário Fanchona, o Cachorrão, Baeta, Mazinho, Zaimer, Irene (mãe de Tânia, Edson e Sheylinha), os jornalistas Cícero Sandroni e Irineu Guimarães, Galinho, Miltinho da Pinta, os dois Nunos, Pedalino, Luiz Mauricio, Rodrigo Malheiros, Jefferson, Silva Jr., Jacira, Marcos Iório, os irmãos Mello Franco, meu compadre Léo da Rocha Ferreira, o irmão Gilson de Paula, Lira, Fudêncio, Sérgio Cabral (pai)... Era uma mesa basicamente freqüentada por homens. Uma ou duas mulheres (lembro da Irene) eventualmente participavam dos finais de tarde no Villarino. Do outro lado da rua eu me encontrava com o Ângelo Mourão, da Basbrasil, que também freqüentava o Bar, ou com o Luís Machado, meu amigo de infância. A cada dois meses reciclava a minha paixão pelo Rio de Janeiro nas noites do Villarino. Nos Estados Unidos, para vender mais publicidade era necessário que as pessoas conhecessem o jornal. Dei a idéia de, a exemplo de Manhattan, lançar O Globo nas bancas de Miami. Agora, pela primeira vez um jornal brasileiro estaria circulando diariamente, além de New York, também na Flórida. O maior orgulho do Roberto Marinho naquela época era o de ter lançado o seu jornal diário nos Estados Unidos. Eu acordava às 5 horas da manhã e seguia para o aeroporto. Todos os dias o mesmo problema: Fred, um dos funcionários do setor de carga da Varig (já falecido) tinha lá os seus impasses e sempre me brecava. Liberava o Clarín de Buenos Aires e o nosso Globo ia por último. Fui reclamar com o então gerente, Ary Siebel, no escritório de downtown. De lá ele me diz: — Espere só um minuto. Vamos falar no speaker phone. — Alô, Fred, aqui é o Ary Siebel. Estou aqui com o Chico Moura e ele me diz que você libera tudo antes do Globo. Por quê? — Olha aqui, ô Ary, todo mundo tem que seguir a ordem de chegada. Se ele quiser esperar, tudo bem. Se não quiser, não posso fazer nada. Quase não acreditei naquilo que estava escutando. Um funcionário da carga peitando o gerente geral? — Sabe, Chico, é o seguinte; eles têm a Union e ficam assim cheios de marra. Depois eu converso com ele. A Union era uma espécie de sindicato dos aeroviários que protegia os funcionários. Na saída do escritório da Varig, ainda conversei com a belíssima Tuca, secretária do Ary.

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— Será que vocês não dão um jeitinho? — Chico, aqui tudo se dá um jeito. Vou falar com ele. A partir desse dia, eu tinha que conseguir colocar o nosso jornal brasileiro na frente de todos os estrangeiros. Perguntei qual a bebida que o Fred tomava. O que mais gostava? De guaraná? Pois vou comprar guaraná... Tudo o que ele quiser... O Fred acabou se tornando meu amigo e liberando tudo o mais rápido possível. Lógico que quem liberava a carga era o agente do customs (alfândega), mas só depois que o agente da companhia aérea determinasse. Mais tarde ele virou assistente do gerente geral de cargas da Varig, Juan Vasquez, o cubano mais brasileiro de Miami. O Globo começou então a circular cedinho na Flórida, e em New York foi entregue ao Castejón, um argentino que tinha alguns parentes e amigos espalhados pelos EUA e poderia fazer um bom trabalho. Depois de algum tempo eu passei a coletar todo o dinheiro do jornal. No início dava uma renda extra de mais ou menos uns 500 ou 700 dólares por mês. O interesse do Dr. Roberto naquele momento era ver o seu jornal circulando e não quanto dava de lucro. O lucro viria da publicidade. Mais tarde a circulação foi crescendo, as responsabilidades aumentando e então passei a distribuição para outro argentino. Houve uma época em que se lucrava, somente na banca de Juan Canales, no centro de Miami, uns 200, 300 dólares por dia. Com a boa relação estabelecida junto à Varig, uma revista recémlançada no Brasil precisava de um representante nos Estados Unidos. Carlos Ivan Siqueira, presidente da Editora Expressão em São Paulo, me descobriu e mandou uma passagem para a primeira reunião. Na segunda ou terceira edição da revista Ícaro já se podia notar o meu nome no expediente com matérias e publicidade na maior e melhor revista brasileira de bordo da época. Mudei para uma casa na beira de um canal. Comprei um barco e virei pescador. Com rendimentos superiores a 10 mil dólares mensais, o mundo não tinha mais limites. Pouco trabalho, muita festa, muita mordomia, poder e viagens. A Varig já me dava uma passagem por mês ao Brasil. Naquela época inventei de dirigir um táxi - para uma matéria por uma semana. Muitos anos depois voltei a dirigir outro táxi... Acabou virando o meu primeiro livro, PASSAGEM DE TÁXI. *** Se o torneio de futebol em New York foi um sucesso, vamos repetir em Miami. Com a participação de Geraldo Silva, Eduardo Santos (o Dudu policial), Carlos Sampaio, Paulinho do Consulado, William Sorren, o pessoal da Kalu Place, Helder Pereira, Eduardo Barbosa, Gina Ecker-


*** A loja Sonria fez escola no sul da Flórida. Jorge Siciliano, quando chefe dos guias da Bel-Air Turismo, levou muitos grupos à Lincoln Road. Na Sonria, conheci o Carlos Solano, que depois virou o contador dos brasileiros. Sua esposa, Carmen, trabalhava no balcão da loja, que recebia milhares de turistas do Brasil. No primeiro dia que fui à Sonria, o proprietário César Pinto atendia a um brasileiro que tinha uma revista chamada Florida Travel News, editada no Brasil e circulando em Miami. Esperei do lado de fora da loja até que o Roberto de Sousa acabasse de vender o seu peixe. Ele mostrava um belo currículo como ex-funcionário do Globo - foi um dos criadores do caderno de viagens no Brasil. Naquela época o Globo tinha um supercaderno. E por coincidência, anos mais tarde iriam se encontrar na Flórida: Roberto de Sousa com a coluna “Nos Bastidores do Turismo”, Fernando Mariano com a coluna “Auto-Moto” e Chico Moura, representante do Globo nos EUA. Próximo à Sonria, onde conheci o carioca César Pinto, a argentina Ethel (morou muito tempo no Chile) e os filhos, Rodrigo e Tatiana, também na Lincoln Road, existia uma pequena loja de um grupo árabe, Samour & Attick Electronics. Lá trabalhavam o Alfonso, os filhos George, Tony Samour e o primo Joe Attick. O Sr. Alfonso adorava vender relógios para poder pegar nas mãos das sapecas brasileiras. A família Samour se apaixonou pelo Brasil. Um tempo depois, Tony se casou com Vera Lucia e começou uma relação mais próxima com o nosso país. Muitos anos depois tive a honra de levar toda a família para um ano-novo na praia de Copacabana. O primo Joe Attick mais tarde criou a Jaccxs, representando a Sony no sul da Flórida. *** Jair Santos foi um dos precursores da comunidade de brasileiros

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man, Honorato, Carteirinho, Ponam, Jay Santos, Alemão, Cida Inácio, realizamos o primeiro torneio brasileiro de futebol de Miami. Patrocínio: Varig, agência Brasília (Jair Santos), Carlinhos Lopes e outros. Numa escola reservamos um campo de futebol com pequenas arquibancadas e alguma infra-estrutura. Desta vez, o time do Globo foi vice-campeão e a taça seguiu para a sala do Dr. Roberto Marinho no Brasil. Em Miami o troféu ficou na sala do recém-chegado, Bruno Borghini, gerente geral da Varig em Miami. Bruno adorava me apresentar aos seus amigos e enchia a boca: — Este é o Chico Moura, do Globo.

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em Miami. Criou a agência de turismo Brasília, que fazia todo o receptivo para brasileiros na Flórida. A Basbrasil de Ina Sodré vendia passagens para o Brasil. Na agência Brasília, além do vice-presidente Daniel Garcia, fizeram escola os guias: Paulão, Paulo Rigazzo, Deco, Alemão (Chê), Robertinho Oliveira, Antônio Carlos Carbone, Jay Santos. Homem de personalidade forte, Jair, casado com Leamira (Leli), criou quatro filhos: Mauro, Jair Jr. (Jay), Eduardo e Celina. Formou Mauro Santos como advogado, Jay Santos em turismo, Eduardo em Administração e Celina em dona-de-casa... Outra grande agência operadora da época, a Bancor Leader’s On Travel, de Carlos e Carmem Lima com o filho Tonico, formavam entre a Monark e a Ancar as maiores da época. Rosália Galdi, após vivenciar um intercâmbio cultural em Piracicaba, sua cidade natal, Rosália conheceu Melanie, que imediatamente a convidou para passar um Natal em Dixie, no Estado de Illinois. De volta ao Brasil, conheceu o Jair Santos, que na época fazia o receptivo dos vôos charters da Monark. Com muita visão, Jair ofereceu trabalho para as duas jovens como guias na Disney. Por Melanie falar português e Rosália o inglês, toparam na hora. Logo no início Melanie se apaixonou por Diovaldo (o Di), um paulista moreno de olhos verdes, que já trabalhava na agência Brasília. Casaram, tiveram quatro filhos e mudaram para a cidade de Orlando. Após três meses de experiência em Miami, quando já estava de malas prontas para retornar ao Brasil, Moacir, filho de Déa Ferreira (sócia da Ancar Travel), agência localizada na Brickell, convidou Rosália para atender as primeiras famílias que vinham para a Disney. Na ocasião ela conheceu a família Aguiar (Banco Bradesco), Maximiliano da Fonseca (Ministro da Marinha) e outros. Com a mudança de câmbio, depósito compulsório e a queda do fluxo turístico, a Ancar fechou. De volta a Piracicaba, Rosália começa a organizar grupos para a Disney. Numa dessas viagens, já trabalhando para a Monark Travel, conhece Charles Tavares em Miami e se apaixona. De volta aos EUA, me contou que no início foi até engraçado. Com o sapato alto, toda arrumada, com roupa de festa, ela saiu para ser guia na Disney. Naquela época lembra dos colegas na agência Brasília: o guia (depois ator) Victor Fasano, Chê, Alemão, Antônio Carlos Carbone, Betinho (irmão da Meire), Daniel Garcia, Jay Santos, Cida, Di (que depois casou com a Melany), Paulo Rigazzo e Kika. Já trabalhando na Monark em Miami, levou o Charles Tavares como guia de turismo. Mais tarde ele estudou real state (consultor de imóveis) e Rosália conheceu os colegas: Maurinho, Glorinha, Paulo Ferraz, Cristina Figueiredo, as guias Vera Verão, Neida, Cristina, Jurema e Frank Rebouças, um americano/brasileiro que misturava os dois idiomas.


Rosália Galdi, Silvio Ferraz, Silvio Bretas, Jair Santos, Ina Sodré da Basbrasil, Rosana, prima de Ina (hoje em Las Vegas), Daniel Garcia, Jurema Eakes, Neida Soares e Carlinhos Lopes foram então os precursores do turismo de brasileiros em Miami.

Muitas histórias ficaram registradas na Monark. Uma particularmente eu me lembro quando o Paulinho Ferraz me chamou para ser guia por dez dias: — Chico, eu te pago 100 dólares por dia para levar três brasileiras para Orlando. É a esposa do Ronald Golias com a irmã e a filha. Durante 10 dias fui guia, ganhei mil dólares e ainda me diverti bastante. O Ronald Golias me ligou do Brasil agradecendo as gentilezas etc. O Paulinho era uma das pessoas mais engraçadas que conheci na indústria turística. Foi por um tempo motorista de caminhão e de repente virou executivo em Miami. Um dia me chamou: — Tá fazendo alguma coisa? — Não. — Então vamos para Orlando. Eu tenho que resolver uns pepinos. Lá chegando, o grupo de brasileiros no hotel com as malas espalhadas pelo lobby, gritando que os quartos ainda não estavam arrumados e etc. Muito sem fazer ruído, Paulinho foi chegando até o balcão para tentar resolver o problema. Foi quando um grandalhão gritou: — E você, é da Monark? Está aqui para resolver o problema? — Não, eu sou só um motorista de caminhão. Em pouco tempo Paulinho resolveu o problema e tudo se acalmou. Os sobrinhos Silvinho Ferraz Jr. e Marcos Ferraz eram dois espetaculares profissionais que resolviam todos os grandes problemas da Monark. Numa temporada participei de uma operação que muito me impressionou. Conheci uma adolescente brasileira na loja Sonria, na International Drive, que estava com febre alta. Dia seguinte ela faleceu no hotel. Silvinho, ainda com muito pouca idade, resolveu todos os problemas. Isolou o corpo do resto do grupo, resolveu o traslado junto ao consulado do Brasil e o mais fantástico: conseguiu segurar a onda com as autoridades americanas. O escândalo de uma passageira que falecera de meningite – altamente contagiosa – na região de maior turismo do mundo era qualquer coisa de arrepiar os cabelos. Mais tarde, Silvinho iria ocupar diversas posições importantes na indústria turística do Brasil. Os mais importantes profissionais da época na área de vôos char-

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ters: Jota Alves, Benito Romero, João de Matos, Silvio Ferraz, Ângelo Mourão e Álvaro Feio.

Chico Moura

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No dia 28 de janeiro de 1982 eu escrevia no Globo uma matéria com o título: ROTEIRO PRÁTICO DE MIAMI PARA ORIENTAR O TURISTA BRASILEIRO Em recente pesquisa na cidade de Miami, ficou constatado que grande número de turistas brasileiros tem dificuldades na orientação dos preços – reais. Muitos com medo do idioma (a cidade é bilíngüe), são obrigados a pagar altíssimas comissões, absurdas tarifas hoteleiras e o eterno sentimento de gringo pegando táxi na praça Mauá. Se o turista vai a Miami através de uma agência de viagens a coisa fica mais tranqüila, sendo então os preços de acordo com esta tranqüilidade. Alguns reclamam que nem sempre as agências são corretas e que a diferença nas diárias dos hotéis (por exemplo) são enormes. Arlindo da Silva, homem ligado ao turismo, diz que por US$ 209.00 o turista pode ir a Londres sem nenhum acréscimo. Existem clubes de viagens nas principais cidades brasileiras. Muitos facilitam os pagamentos em até 10 vezes. A tarifa média de uma viagem do Rio, ida e volta a Miami – por exemplo – custa US$ 900.00 – parte aérea. Ao chegar em Miami o turista não encontrará nenhuma dificuldade de transporte. À saída do aeroporto existem diversos táxis de cor amarela ou vermelha e uma corrida até o centro da cidade (hotéis Omni, Everglades ou Marina) custará US$ 9.00. Até Miami Beach (Hotéis Fontainebleau, Doral etc.) em torno de US$ 15.00. Além do táxi, o turista encontrará um microônibus com o nome Red Top (teto vermelho) que faz o percurso Aeroporto – Centro e Miami Beach – principais hotéis. Não será difícil encontrar motoristas brasileiros no Red Top, onde os preços variam de US$ 5.50 (Downtown) e US$ 6.50 (Miami Beach). Ao chegar ao hotel, 70% dos funcionários falarão o espanhol e entenderão o português. As diárias, hoje, dos principais hotéis de downtown (centro da cidade) são: Hotel Omni, Tel (305) 374-0000 - diária de solteiro: de US$ 98.00 a US$ 130.00 diária de casal: de US$ 115.00 a US$ 150.00 Hotel Marina - Tel: (305) 371-4400 - solteiro de US$ 68.00 a US$ 88.00 – casal: de US$ 77.00 a US$ 99.00 Hotel Everglades - Tel: (305) 379-5461 - solteiro:US$ 77.,38 – casal: US$ 85.86


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A inconfundível batucada brasileira no Primeiro Torneio Brasileiro de Futebol de New York.

Silvinho, Magrão (Marcos), o goleiro Ubirajara e o jornalista Lucas Mendes (comemorando gol do time do Globo) no Torneio de Futebol de New York.

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Rogério 50 e Denise dançando no restaurante Via Brasil.

O jornalista Sérgio Mota Melo presente ao Torneio de Futebol de Flushing Meadows, New York.

Por ocasião do First Brazilian Advertising Show, no McGraw Hill de New York, a mostra da melhor publicidade do Brasil – Chico Moura com o publicitário paulista José Claudio Maluf. (Foto de Renato dos Anjos).


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Edilberto Mendes (de costas) com Chico de Matos (BACC), Barbara Chevalier (de óculos) e outros. Alfredo Pedro comprou o restaurante Brazilian Coffee da família Valentim de Oliveira.

Ana Maria Tornaghi, freqüentadora assídua da Rua 46. O Prefeito de New York (Mayor Koch) e Ademar de Oliveira do Cabana Carioca, um dos mais tradicionais restaurantes brasileiros de New York.

No carnaval de New Jersey, Jair Rodrigues e Claudinho Borogodó.

O cinegrafista da TV Globo Orlando Moreira.


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Os jornalistas Helio Costa e Orlando Moreira da TV Globo (New York), cobrindo a guerrilha em El Salvador.

Orlando Moreira gravando no vale dos reis no Egito.


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O nosso saudoso amigo Redi, um dos melhores cartunistas do Brasil no exterior, dando entrevista numa cadeia de TV em New York. Abaixo um dos cartuns de Redi.


Os hotéis normalmente não oferecem café da manhã, existindo sempre por perto um coffee shop ou restaurante. O “breakfast” pode variar de US$ 0,90 (noventa centavos) a US$ 5,00 . Sempre com dois ovos, torrada, café (muito fraco) e o leitinho half & half que o turista em geral detesta. Para os que realmente querem conhecer o sistema americano, o ideal é procurar a cadeia de lanchonetes Mc Donald ou Burger King onde se encontra um variado café da manhã. A parte da manhã é a melhor para cumprir a enorme lista de presentes e encomendas. Em Miami, mais de 50 lojas vivem do turista brasileiro e todas em geral têm pelo menos um empregado falando português. Este normalmente sabe da última moda no Brasil e orienta a marca dos produtos mais procurados. A Sonria - única loja brasileira de Miami Beach - localizada no número 900 da Lincoln Road, recebe uma média de 100 brasileiros por dia nesta época do ano e César Pinto diz que, com o dólar ao preço que está, foi obrigado a oferecer transporte do hotel (grátis) e outras facilidades. A Lincoln Road tem a vantagem de estar localizada nas cercanias dos hotéis mais econômicos. Lá o turista poderá encontrar um cinema, uma igreja cristã, um templo judaico (réplica do King Solomon) diversos restaurantes com bons preços e mais de 150 lojas. A agência de viagens localizada no número 817 da Lincoln Road atende a grande volume – principalmente aos interessados em excursões às Bahamas, Disneyworld, México etc. Mirta, sua proprietária, tem um carinho especial para com os brasileiros e procura a cada momento atualizar-se com as coisas do Brasil. Ainda em Miami Beach, o turista poderá pegar um ônibus para o centro da cidade (pagando US$ 0.75) e se divertir com as divergências de opinião entre os aposentados americanos com mais de 80 anos de idade que fazem diariamente o seu passeio matinal. Em downtown, continuando as compras, o turista com um recorte de anúncio de jornal procura o endereço da Sorren – verdadeiro supermercado brasileiro. Tem de tudo... Oswaldo Pepper e Alex de há muito cortaram o almoço: “Se a gente sai um minuto perde-se uma venda de

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Hotel Miami Colonial - (305) 373-2181 – solteiro US$ 25.00 – casal: US$ 27.00 e triplo: US$ 29,00 Em Miami Beach existe a maior concentração de hotéis do mundo. Alguns deles são: Hotel Fontainebleau - (305) 538-2000 - solteiro e casal têm tarifas começando por US$ 105.00 até 160.00. Crianças não pagam diária. Hotel Konover - (305) 865-1500 - Solteiro e casal de US$ 86.00 a US$ 110.00 Hotel Sheraton (305) 865-7511 - Solteiro e casal de US$ 105.00 até US$ 135.00 Hotel Allison - (305) 866-9731 - Solteiro e casal de US$ 25.00 a US$ 45.00 Hotel Brasil - (305) 866-9731 - Solteiro e casal: De US$ 25.00 a US$ 45.00

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até 10 mil dólares – dizem. A “A Store”, loja especializada em artigos esportivos, faz nesta época grande carnaval. Danny, seu proprietário, garante ter os melhores preços NIKE de Miami – Aliás, Danny é apaixonado com tudo que se relaciona com Brasil. Muitos visitam o Victor português, tradicional de Miami, o famoso “John’s”, hoje com um letreiro “A Casa dos Brasileiros”, o “Osmar Electronics”, onde Raul faz questão de presentear a todos e vibra quando os turistas se reúnem para discutir se Maradona ainda tem condição de chegar perto do Zico. A “Bella Boutique”, fazendo aniversário (10 anos) agradece a todos com um grande sorriso. A loja “Las Fabricas” localizada no coração de Miami tem cativado os turistas de toda a América do Sul e D. Gina atribui o segredo deste sucesso à continuidade e honestidade nas vendas. A “Argent Shops”, com seus jeans metalizados, vai ganhando a preferência neste setor e todo o pessoal da loja “Smoke Shop” aprendeu o português em pouquíssimas semanas para atender aos milhares de brasileiros que se hospedam no Hotel Omni. Após as comprinhas, muambinhas etc. vem a hora do feijão com arroz e ali está Haroldo que veio de New York para abrir um restaurante brasileiro em Miami. “No começo foi uma loucura” – diz Haroldo. O pessoal costumava dizer “não dura três meses”. Hoje o restaurante Brazilian South é grande sucesso com preços variando entre os quatro e sete dólares. Entre uma e duas horas é fila na certa. À tarde, se houver tempo, o turista pode dar um pulo no Seaquarium Tel: (305) 361-5703, localizado em Key Biscayne – a 15 min do centro – onde nos sete dias da semana encontrará uma enorme variedade de peixes em aquários imensos, além de shows incluindo “Flipper” o mais famoso golfinho do mundo. Os ingressos poderão ser facilmente adquiridos à porta com preços de US$ 7.00 (sete dólares) para adulto e US$ 3.50 para crianças. É bom lembrar que o último show começa às quatro horas da tarde. À noite, se o cansaço permitir, um churrasco no Rodeo - única churrascaria brasileira de Miami – é a grande pedida. Situada perto do Hotel Omni, o Rodeo tem um sistema de rodízio, inédito nos Estados Unidos, e uma excelente música animada pelos cantores Jair e Paulo. Se o turista ainda estiver em Miami em fevereiro próximo, poderá se divertir no Hotel Sheraton Bal Harbour, no maior baile de Carnaval que Ina Sodré, da Basbrasil, promete realizar na cidade. Dia 20, o conjunto Serrinha vem de Belo Horizonte com mais de 20 elementos para animar a festa. Quebrado o impacto dos primeiros dias, o turista então poderá conhecer a América. Existem tarifas aéreas que o brasileiro ainda desconhece como a V, K, e Q que são tarifas intermediárias dentro da tarifa econômica. Hoje, por exemplo, diz Tony Santilli da Calitour, uma viagem Miami x New York custa US$ 79.00 e a maioria não sabe desta diferença.


Em 1982 o Carlinhos, meu filho, já estava com 13 anos e mandava muitas cartas pedindo para morar comigo. A saudade dos meninos já não era mais saudade, era uma doença. Eu dormia e vivia a saudade. O Beto, com nove anos, caminhava no meu bolso em retrato que se desintegrou de tanto manusear. Em qualquer folga eu pegava um avião e ia ao Rio. A mãe continuou casada com o mesmo marido e poderia dar alguma estrutura familiar. Mas nunca mais seria a que eu sonhara. A que os meus pais me cobravam. Quase todos os dias eu escutava a frase de minha mãe: filhos de pais separados são problemas dobrados. Nunca deixe os seus filhos desamparados. O complexo de culpa. Nessa época o Augusto Buisine (Dino), que ainda estava casado com a Lulu, me chamou para ser o padrinho de sua filha Alice, uma linda russa, a minha terceira afilhada mulher. *** Na edição do dia 23 de setembro de 1982 a matéria: EPCOT CENTER, O INÍCIO DE UMA NOVA ERA NO MUNDO FANTÁSTICO DE WALT DISNEY Foi o recorde de faturamento de publicidade no jornal. Aliás, naquela época era o recorde de venda de publicidade entre todos os jornais estrangeiros que circulavam nos Estados Unidos. Passado algum tempo, fui ao Brasil reivindicar algumas mudanças nas sucursais. Precisava de um telex novo, de nova secretária em Miami e de um aumento de salário. Na primeira reunião tudo combinado. Fui, na mesma noite, comemorar com um belo jantar na casa do então editor de turismo, Moysés Fuks. Moysés foi o criador do termo Bossa Nova (de acordo com livro de Ruy Castro); professor de jornalismo, virou meu eterno aliado no jornal. Pouco antes de viajar foi marcada nova reunião de diretoria. Uma mudança de planos. Tudo aquilo que havia sido acordado fora adiado. Na cegueira, a explosão: — Vocês me prometeram uma coisa, agora é outra? Adeus! Como seria possível? Como largar o melhor emprego de minha vida? Como jogar para o alto mais de 10 mil dólares mensais? E o poder? E as festas, as passagens, os convites? Não, eu era maior que o jornal. E assim aconteceu com milhares de pessoas que se deslumbram

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com o poder, com a falsa sensação de que são super-homens e que a razão do sucesso é única e exclusivamente sua. O sucesso não era meu. Era o nome Globo. Este sim que era forte e envolvia as pessoas. Não era possível largar assim este cargo. Foi duro conquistar. Somente com a revista Ícaro não daria para me sustentar. O padrão de vida já era outro.

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A SEGUNDA SEPARAÇÃO Um dia, jantando na casa de um amigo, olho para a minha mulher e digo: — O casamento acabou, não é? — É. Prometi que iria voltar a trabalhar numa fábrica em New Jersey, que iria ter um emprego ���normal” com horário predeterminado. Prometi parar de beber. Voltaria a ser polidor de metais e aí, quem sabe, a gente poderia ficar junto. Da casa não levei nada. Com a roupa do corpo voltei para New Jersey e fui trabalhar numa fábrica de móveis. Mais precisamente como entregador de móveis. No frio de fim de ano, enchia o caminhão de geladeiras, pianos e fogões e saía com um motorista louco (veterano de guerra) pelas cidades cheias de neve de New Jersey. Telefonava todos os dias para minha segunda mulher, ainda com a esperança de voltar. Não havia volta. Agora eu era um entregador de móveis. Fui para New York e o Paolo Lavagetto, gerente geral da Varig, me disse: — Chico, a melhor coisa que você faz agora, pelo menos agora, é voltar para o Brasil. Vou te dar uma primeira classe. Voltei a Miami, me encontrei com a ex-mulher, choramos mais uns dois dias, nos separamos e, com a primeira classe do Lavagetto, segui para o Brasil.

PARACURU, A TERCEIRA VOLTA AO BRASIL Com uns três mil dólares no bolso e a primeira classe do Paolo Lavagetto, fui para São Paulo. Lá, virando uma noite com meu primo, ele aponta para um outdoor (billboard) e diz: — Paracuru! Era uma propaganda do cigarro Hollywood na praia de Paracuru. — É para lá que eu vou.


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Em permanente estado etílico, entrei no avião e pedi à pessoa ao lado que olhasse a minha mala 007 (briefcase). — Toda a minha vida está aí dentro. — Não se preocupe, eu olho para você. Apaguei. Em Fortaleza, meu pai me esperava no aeroporto. Ao se despedir, a vizinha de cadeira coloca um pedaço de papel no bolso de minha camisa: — Se estiver a fim, me liga. Era uma mulher lindíssima. Mais tarde descobri que era gerente de um hotel em Campos de Jordão. Parou o aeroporto de Fortaleza. Nem acreditei que ela estaria falando comigo. Na realidade nem sabia direito quem era aquela pessoa. Conhecia de algum lugar, mas não tinha a mínima idéia de onde. Após os churrascos, tradicionais visitas familiares e o reencontro com a minha cidade natal, achei o papel no bolso e liguei: — Vamos para Paracuru? — Onde? — Acho que é aqui perto... No dia seguinte pegamos um ônibus cheio de galinhas, macacos, cajus, serigüelas, cajá-manga (cajarana), pedaços de carne de sol envolvidos em jornal, gente pendurada nas janelas. Pareciam aqueles lotações (ônibus) colombianos. Nem reparei no tempo de viagem. O pescoço duro, olhando para o lado e conversando. A mulher era simplesmente maravilhosa. Chegando em Paracuru perguntei onde existia um hotel na beira da praia. — Você vai descendo aí esta rua e vira à direita. Tem a pousada das paulistas. A pousada Quasar tinha uns seis ou oito quartos. Lá chegando vi uma loura paulista, um americano e um casal jogando cartas na varanda. — Tem vaga? Sem sair da mesa de jogo a proprietária, Ângela Sandreschi, apontou: — Vai entrando aí e escolhe o quarto. Havia uns três quartos com vista para uns coqueiros que se balançavam para o mar. — Gostei do número dois. Onde está a chave? — Aqui os quartos não têm chave. Qualquer coisa a gente chama a Sétima Cavalaria. Era uma pousada de hippies? Como eu iria deixar os dólares sem chave no quarto? Mas, pensando bem, entre a dor da separação e aquela escultura de mulher, não adiantava me preocupar com chave ou com dinheiro. Mudei a roupa e fizemos o primeiro amor. Parecia coisa de filme.

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A sombra, com a lua se movimentando na parede do quarto no balanço das folhas dos coqueiros, o vento assobiando e encrespando as ondas do mar. Tudo como na canção de Dorival Caymmi. Sim, aquilo existia. Era verdade. O paraíso era ali. Quase todas as manhãs eu pegava a Juju Sandreschi, uma garotinha linda, lourinha, de uns quatro, cinco anos, filha da dona da pousada, para dar uma caminhada na praia. Na volta parava no entreposto de pesca e comprava algumas garoupas para fazer o almoço. Convidava todos os hóspedes da pousada. Com a diária a seis dólares, ali era realmente o paraíso. A namorada se apaixonou. Nos meus planos não esperava encontrar outra mulher. Foi tudo muito rápido. Ainda pensava na segunda esposa. Já era a terceira vez que me mudava para o Brasil. Em telefonema para minha prima Peré, ela diz: — Chico, não adianta você vir morar em Fortaleza. Aqui existe uma casta. Uma coisa fechada. É uma sociedade diferente. Você não vai se acostumar. E além do mais, você está com pouca grana. Em pouco tempo correu notícia de que uma pessoa do Globo estava na cidade de Paracuru. — Mas eu não estou mais no Globo. Não adiantava. As matérias estavam lá. O meu nome havia rolado por alguns anos. Até o expediente do jornal mostrava: Representante nos EUA: Francisco Moura. Como dizer que não? O prefeito foi me visitar. O gerente do Banco do Brasil ofereceu empréstimo, o dono da padaria onde passava as novelas da TV Globo me convidava para comer. Um dia me chamaram para presidir uma solenidade, a criação do jornal “A Folha de Paracuru”. Foi a única vez que coloquei uma bermuda mais elegante, um tênis limpo e uma camisa engomada. Com um discurso cheio de verdades e sentimentalismos, voltei a me sentir, de uma certa forma, útil à comunidade. Logo a seguir uma dupla de repentistas do nordeste faz uma apresentação com muitos brindes e outra grande tatuagem em minha vida. Em Paracuru conheci o Hugo Quinderé, um adorável falsificador de quadros, um grande pintor, o Carteirinho, um advogado que ganhara uma grana preta num caso da Coca Cola em Fortaleza e vivia o merecido prêmio. Fui às festas da família Carrá. Reencontrei os irmãos Gentil (os Fiapo). Uma madrugada, os gêmeos (João e Paulo Gentil) me chamaram para uma volta de buggy nas dunas da região. Completamente bêbados e somente com a luz da lua, eles davam piruetas no carro, “voando” entre os espaços. De repente numa duna falsa o carro cai de bico no chão e um dos “Fiapo” enfia o nariz no “santo antônio” do buggy. O ferro cortou-lhe uma veia e jorrou sangue, como num filme de terror. Rindo


do chafariz de sangue, ele volta para o hotel sem sentir absolutamente nenhuma dor. Muitos anos depois encontrei os irmãos João e Paulo Gentil em Miami.

A namorada já começava a me incomodar. Um dia fui direto ao assunto: — Não te amo e estou aqui só para ler. Trouxe estes livros e não consegui ler nenhum. — E você, sabe por que eu estou aqui? – E afastou-se chorando. Com a saída da namorada, sentia a primeira liberdade total. Sou dono do meu nariz. Acordo na hora que quero, leio o livro que quero, bebo, fumo, jogo, transo com quem eu quero. Ninguém para me cobrar nada. A perfeita liberdade. O dinheiro não acabava nunca. Fui reclamar da diária com a Ângela Sandreschi. De seis, caiu para dois dólares. Por mês gastava de hotel o correspondente a 60 dólares. Mais alguns champanhes, Black Label (do bom), lagostas, camarões e muita ostra, a minha despesa não chegava a 300 dólares por mês. Na cidade existia uma única cabine telefônica. Liguei para os meus filhos: — Estou no paraíso. Um dia vocês têm que conhecer isto aqui. Ao voltar para o hotel comi mais uma peixada e dormi. Acordei com umas mãos nos meus olhos. — Adivinha quem é? — Eu não acredito. O que você está fazendo aqui? Não disse que ia embora? — Sabe por que eu vim para Fortaleza? Porque estava noiva e viajei para descobrir se realmente amava a pessoa com quem ia casar. Agora vejo que esta pessoa é você.

O TIRO A vida em Paracuru era mais dinâmica do que se podia imaginar. Ao lado de nossa pousada vivia o filho de um médico famoso no Rio de Janeiro, que era o traficante de drogas oficial da cidade. Tinha de tudo: haxixe, cocaína, maconha, qualud, mandrix, LSD e todas as pastilhas do mundo. — Você, que mora nos Estados Unidos, pode ficar rico. Conhece a nossa sede dos correios? Tenho um amigo lá. A gente aluga uma caixa postal e você me manda uns LSD do tipo mata-borrão por carta. É moleza. Dá pra ganhar uma tremenda grana. Tem um monte de gente fazendo isto.

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— Não, tô fora. Eu nunca tomei LSD e não gosto nem de chegar perto. Na realidade, eu já havia feito uma experiência com a garotada de South Beach com mescalina. E foi uma das melhores coisas que já provei. Naquela única vez, foi tão bom que nunca mais tomei. Na época aprendi um ditado em inglês que dizia: If you play you pay. Tudo o que é bom demais pode ser perigoso. E muito mais tarde aprendi com meu primo Augusto (psiquiatra), um pequeno detalhe da vida que seria o meu lema para o futuro. Ele dizia: — Não é que você vá morrer. O que está em jogo é sua qualidade de vida. Morrer para muita gente pode ser solução. É muito simples abandonar o barco. Mas quem quer ser feliz precisa entender que a relação com qualquer droga é diretamente proporcional à qualidade de vida. Como pegar jacaré, surfar, mergulhar, jogar vôlei, futebol, trepar, cantar, sorrir e virar a noite dançando aos 60 anos? As pequenas experiências com as drogas aconteceram. Lógico que aconteceram. Impossível mentir ou esconder. Mas a inteligência, a grande malandragem foi a de parar e renunciar na hora certa. A grande onda da vida é a curtição da QUALIDADE desta mesma vida. Poucos dias depois da oferta do nosso vizinho traficante, acordei assustado com um tiro. Lembrei do Bar Villarino e da poesia de Carlos Drummond Andrade “Morte do Leiteiro”: Há pouco leite no país é preciso entregá-lo cedo. Há muita sede no país, é preciso entregá-lo cedo. Há no país uma legenda, que ladrão se mata com tiro. Então o moço que é leiteiro de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom para gente ruim. Sua lata, suas garrafas, seus sapatos de borracha vão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade. Na mão a garrafa branca


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não tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro. morador na Rua Namur, empregado no entreposto Com 21 anos de idade, sabe lá o que seja impulso de humana compreensão. E já que tem pressa, o corpo vai deixando à beira das casas uma pequena mercadoria. E como a porta dos fundos também escondesse gente que aspira ao pouco de leite disponível em nosso tempo, avancemos por esse beco, peguemos o corredor, depositemos o litro... Sem fazer barulho, é claro, que barulho nada resolve. Meu leiteiro tão sutil de passo maneiro e leve, antes desliza que marcha. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado, vaso de flor no caminho, cão latindo por princípio, ou um gato quizilento. E há sempre um senhor que acorda, resmunga e torna a dormir. Mas este entrou em pânico (ladrões infestam o bairro), não quis saber de mais nada. O revólver da gaveta saltou para sua mão. Ladrão? se pega com tiro. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, não sei, é tarde para saber. Mas o homem perdeu o sono

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de todo, e foge pra rua. Meu Deus, matei um inocente. Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão. Quem quiser que chame médico, polícia não bota a mão neste filho de meu pai. Está salva a propriedade. A noite geral prossegue, a manhã custa a chegar, mas o leiteiro estatelado, ao relento, perdeu a pressa que tinha. Da garrafa estilhaçada. no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite, sangue... não sei. Por entre objetos confusos, mal redimidos da noite, duas cores se procuram, suavemente se tocam, amorosamente se enlaçam, formando um terceiro tom a que chamamos aurora. Todos os hóspedes da pousada acordaram. Um corpo estendido na rua. Um jovem de Fortaleza (com o apelido de Macaco) batera na janela do traficante para comprar cocaína. Começou a perturbar e o carioca perdeu a cabeça e deu-lhe um tiro. Ninguém dormiu - todos ao lado daquela coisa espessa do leite, misturado ao sangue, com o dia nascendo... Com todo o contingente policial da cidade presente, um delegado e dois ajudantes, o traficante foi preso em flagrante. A coisa da droga começava a me incomodar. Por que naquele paraíso era preciso usar qualquer tipo de droga?

CUECAS AO VENTO Com o final definitivo do namoro, comecei a caminhar todos os dias de manhã cedo nas praias desertas. Levava sempre uma toalha e uma camisa com algum dinheiro no bolso. Numa destas manhãs, num lugar completamente deserto, uma menina de uns 17 anos me pára:


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— O senhor pode me ensinar a nadar? Fomos para a água e ela me deu uma verdadeira lição de amor. Deveria ter aprendido com algum turista e gostou da brincadeira. Logo depois pediu que ensinasse a irmã, uma indiazinha ainda mais linda que ela. Eu olhava para todos os lados e não via ninguém. E ela repetia: — O nosso pai está lá longe, pescando. E apontava para o horizonte. Contando é difícil de acreditar. Lembrei da menina de Palmeira dos Índios. Lembrei da história do meu primo quando foi defender tese de pós-graduação no Xingu e me falou da inocência dos índios que ficavam se bolinando. Aquelas índias lindas me levando para o mar... Nas dunas de Paracuru registrei (na minha vida) o maior número de relações amorosas possíveis a um ser humano. Parecia que a cidade inteira vivia do amor. Após a caminhada matinal, o almoço farto, o amor, a dormida à tarde, outro amor. À noite a cidade se preparava para o Forró do Aureni. Era um tablado armado na beira da praia com uma banda de forró e um som intermitente saindo de monstruosos alto-falantes. Não havia uma noite ou madrugada que uma nativa não me tirasse do “Aureni” e me levasse para a beira de um coqueiro. Me sentia como um verdadeiro boto das lendas brasileiras. A Ângela Sandreschi era casada com um americano, piloto de uma plataforma de petróleo, que ficava mais ou menos em frente à cidade de Paracuru. Além da Pousada Quasar existia o Hotel da Nair, uma fogosa cearense que ficou famosa quando abrigou um francês chamado Paul Mattei. O veleiro de Paul havia afundado nas imediações da cidade e ele acabou vivendo com a Nair. Mais tarde ela foi a primeira mulher a me “mostrar” as dunas. Assim foi também o caso de um ator paulista que foi fazer o comercial da Hollywood, se apaixonou pela filha de um latifundiário e jogou a sua âncora em Paracuru. A cidade tinha realmente um mel qualquer. Quando eu já estava próximo de voltar, encontro com um médico, cunhado de meu primo de São Paulo, que vinha de uma longa viagem costeando o norte e nordeste do Brasil. Levei o Ricardo Carrafa para a Pousada Quasar. No segundo dia ele vê duas amigas médicas de São Paulo que passeavam pela cidade. Coincidência ou não, ficamos todos na Pousada. Lógico que por circunstância eu tinha que ficar com uma e ele com a outra. Elas voltaram para São Paulo e o Ricardão quase abandona tudo para também jogar a sua âncora naquela cidade. A nossa partida, na rodoviária, foi cômica. Com muitas mulheres se despedindo, abrimos a janela do ônibus e jogamos as nossas cuecas como lembranças. Assim era o Ceará. Só quem viveu nesse Estado sabe como a relação do amor é forte.

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A QUARTA VOLTA AOS STATES

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Após alguns meses em Paracuru, voltei a Miami com exatamente 30 dólares no bolso, uma mala cheia de livros e poucas roupas. Deixei a mala num locker (guarda-volumes), telefonei para um amigo me emprestar o seu carro – de ônibus fui buscar o carro, tirei as malas do aeroporto e levei para o Hotel Helmor (hoje Chesterfield) - 855 Collins Ave. A dona do Hotel era minha amiga e cliente no Globo. Expliquei a situação para o funcionário do front desk, coloquei a mala no quarto e devolvi o carro. Saí e fui comer no restaurante Puerto Sagua , na esquina da Sétima com a avenida Collins. Na manhã seguinte procurei a proprietária: — Helena, preciso muito falar contigo. — Que bom que você está aqui, Chico, eu preciso de um favor. Sabe onde está o Yaponam? Preciso de uma pessoa para trabalhar aqui no turno da noite. — O Ponam trabalha à noite no Hotel Dupont. Mas eu posso trabalhar aqui. — Não, Chico, você é o homem do Globo. Que brincadeira é esta? — Helena, eu não tenho dinheiro nem para te pagar esta diária de hoje. Se você não me empregar aqui eu vou passar fome. — Você está falando sério? Chico, não é possível! E o Globo? E a Marli? — Mudou tudo. Estou separado, saí do Globo. — Ok. Você quer começar quando? — Já. Desci para o quarto dos empregados com minha mala. Na América, eu já tinha o poder e a capacidade de resolver tudo rapidamente. Comecei a trabalhar no front desk do Hotel Helmor. Helena tinha dois empregados gays que eram trabalhadores, discretos e muito boa gente. Ao ver que os hóspedes velhinhos não tinham muita diversão, criei um bingo às quintas-feiras e um sábado dançante. Pedi à Helena 100 dólares por semana para o Bingo, que muitas vezes eu tinha de cantar em iídiche. Os prêmios eram de $20, $30, e o maior, 50 dólares. Não era muito, mas os velhinhos contavam ansiosamente os dias para chegar na quinta-feira. No sábado à noite, levava um som para o basement e botava todo mundo para dançar. Ali, descobri que o amor e o desejo nunca morrem. A maioria dos velhinhos (judeus), que tinham sido abandonados pelos filhos, se paqueravam. Se algum deles tomasse um copo de vinho, então, era uma loucura. As mulheres faziam gestos com as línguas e os homens ficavam mais do que safados. Muitas vezes presenciei as escapulidas de homens e mulheres visitando outros quartos. Um dia, com uma porta entreaberta, vi uma


AL SOUSA Um dos brasileiros mais sensíveis e educados que conheci foi sem dúvida o Al Sousa. Jornalista reconhecido no Brasil, correspondente da Tribuna da Imprensa e dos Diários Associados (aposentado como jornalista no Brasil) em New York, foi o criador do primeiro jornal em português dos Estados Unidos. Lógico que o The Brasilians, criado em 1972 por Jota Alves e Benito Romero, é o jornal mais antigo em funcionamento nos States. Me aproximei de Sousa no aeroporto de Miami, quando ele sempre me quebrava os galhos, no balcão da Varig, com os excessos de peso nas malas e nos upgrades - todas as vezes que viajava para o Brasil eu me dirigia ao Sousa. Ele reservava o melhor assento e entregava o tíquete. Algum tempo depois, sem eu menos esperar, ele pegava o microfone e anunciava: Sr. Francisco Moura, favor comparecer ao balcão da Varig. Aí trocava a minha passagem de classe econômica para executiva. Meus pais viajaram pela primeira vez na vida, de primeira classe, graças à ajuda de Bruno Borghini e Sousa. Considerado como possuidor da voz mais bonita do aeroporto, Sousa foi sempre um amigo leal e prestativo. Se lesse este texto imediatamente criaria uma piada com a palavra “possuidor”. Era de um racio-

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cena de um casal de velhinhos beijando os corpos nus. Fechei a porta e deixei o amor rolar. Muito aprendi nesta fase de Hotel. Principalmente que todos nós um dia vamos passar por tudo isto. E se não fizermos por onde, o final poderá ser imensamente infeliz. Certa ocasião, fiz o roteiro de um filme chamado “Miami, Cemitério de Elefantes”. Como trabalhava no horário das 11 da noite às 7 da manhã, tinha tempo para escrever, criar. Mais tarde achei que o filme seria muito pesado para a realidade da região. Era uma história, uma lenda do cemitério de elefantes na África, que quando sabem que estão próximos da morte se encaminham a um determinado lugar, um vale qualquer, para morrer. O sonho dos caçadores de marfim era encontrar um desses cemitérios. Em Miami Beach, naquela época, os velhinhos sentavam nas cadeiras de balanço nas varandas dos hotéis esperando a morte. O cidadão americano das regiões mais frias trabalhava toda a sua vida em Detroit, Chicago, New York para um dia vir morrer na Flórida, onde havia sol o ano todo e outros velhinhos para conviver. Mas o filme poderia ser antiético. Além do mais, alguém já deveria ter criado esta história. O filme não continuou, mas comecei a escrever mais, a ler mais.

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cínio rápido e inteligente. Com um coração do tamanho de um bonde, auxiliou financeiramente a muitos brasileiros de Miami. Mais tarde ajudou o sobrinho Jorge Nunes a criar o jornal Achei USA e virou colunista.

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GILBERTO MANZANO O paulista Gilberto Manzano veio para Miami em 1956. Viajou para New York, tirou Social Security e após um mês (não se adaptou ao frio) voltou para Miami, onde primeiro trabalhou como bell boy no Hotel Bellfort (em downtown). Após ser campeão de natação pelo Floresta e pelo clube Tietê de São Paulo, fez pólo aquático e, em Miami Beach, conseguiu um trabalho de instrutor de natação no Hotel Seville (dez anos), depois no Hotel Doral (mais dez anos). Paralelamente, trabalhava na loja de Naban & Godfrey, a primeira loja voltada para o mercado brasileiro. Com duas filhas, Andrea Manzano e Carla Powell, o mais antigo brasileiro de Miami lembra dos amigos Alberto Menezes, Afonso Menezes, Jorge Bilda, Paulo Balkevicius, Sr. Romano, Silvio Ferraz, Paulo Ferré e outros. O Godfrey era um inglês que se casara com uma brasileira, e de São Paulo resolveu emigrar para Miami. Naban trabalhava na Real Aerovias e assim encaminhava os negócios para o Brasil. Foram os precursores da parceria comercial entre São Paulo e Miami. Anos mais tarde (aposentado aos 72 anos), começou a freqüentar diariamente o restaurante Las Palmas, no centro de Miami, para se encontrar com outros aposentados e alguns poucos turistas.

PINTADO No Hotel Helmor (em South Beach), conheci alguns brasileiros da área. O Yaponam de Sousa mudara para Miami e ia sempre nos visitar na madrugada levando o saquinho com a cerveja. O Pintado também havia morado em New York e tinha fama de pular muro. Mais tarde foi trabalhar com o Luís Carlos Serra, na IT Club, uma agência de viagens recém-criada na cidade. Luís Carlos também mudara de New York para Miami com o Gerson Delano de Weissheimer. Quando vieram me contar que o Pintado estava trabalhando para o Serra, eu disse: “Isto não vai dar certo”. O Luís Carlos Serra todos os dias gritava com o Pintado: — Pintado, vai buscar gelo.


*** A vida no Hotel era rotineira. Os recém-chegados hóspedes Lucy e Jô gostaram da cidade e procuravam emprego. Lucy tinha sido proprietária de um bar no Rio de Janeiro (Leme) chamado Lucy’s Bar. Tinha sempre umas jóias guardadas que sustentavam as despesas diárias. O seu filho Zé Luís era meu amigo de frescobol na praia de South Beach. Um dia o Jô, marido de Lucy, veio me perguntar se dava para trabalhar no Hotel. — Aqui é complicado, fica muito exposto. A Helena não vai deixar. Mas eu vou falar com ela. Naturalmente a Dona Helena (como era chamada) não iria empregar um turista em seu hotel. Dito e feito. A resposta veio rápida e direta. — Não, você está louco? Com o tempo fui convencendo a Helena de que não haveria qualquer problema e que eu poderia me responsabilizar pelo casal. E assim a Lucy e o Jô conseguiram o seu primeiro emprego em Miami. Mais tarde a Lucy criou com o Jô uma loja chamada Lucy’s Sports. Também viveu um tempo no Hotel a Maria Rejane Braga Barroso, que vendia roupas do Ceará. Depois virou Maria Shemesh, comprou a casa do Michael Lee, fez curso de corretora de imóveis, casou com o Edísio Sampaio e criou uma imobiliária. A Darcy também morou no Hotel com um filho único, recém-chegado do Brasil. Mais tarde trabalhou com o Tony Moura e Denise na Carol Shop. Com o filho (Júnior), virou dona de loja (Maino’s) no centro de Miami e ficou rica.

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— Pintado, vai ao banco. — Pintado, vai buscar o “papel”. Um dia Pintado foi ao banco buscar 80 mil dólares, pegou um táxi e se mandou para o Brasil. Luís Carlos ganhava uma média de três a cinco mil dólares por semana com um “forte” grupo colombiano. Muito inteligente, investia na agência de turismo. Só esqueceu que Pintado não era um empregado qualquer. Com a grana, Pintado ficou um tempo no interior do Brasil e o pessoal da Colômbia começou a perturbar a família dele nos Estados Unidos. Um dia, foi à Bahia, colocou uma arma na cabeça do pai do Luís Carlos, que telefonou para Miami e “pediu” que aquelas pessoas parassem de incomodar a família daquele maluco que o ameaçava. Com tudo acalmado, Pintado voltou para os Estados Unidos e tudo acabou em pizza. Mais tarde Luís Carlos (dizem) morreu de cirrose no Rio de Janeiro e Pintado foi deportado para o Brasil.

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Foram muitas as pessoas que passaram pelo Hotel Helmor. Tony Rodrigues chegou com a esposa brasileira, fez algumas experiências com turismo... Não deu certo, foi para a Califórnia, divorciou-se, voltou a Miami, casou com uma americana e criou uma das melhores agências de viagens de Fort Lauderdale, a Brazilian Wave. O pernambucano Carlos de Araújo passou temporada curta no hotel. Fez amigos em South Beach e criou agência de viagens na Washington Avenue, fez experiências com jornais e virou promotor de festas. O Doutor Peixeiro também passou pelo hotel. Tinha este apelido porque abriu negócio de peixe em Miami Beach. O casal de turistas Humberto Peroni e Cristina moraram no Helmor, gostaram da cidade e jogaram âncora em Miami. A proprietária Helena Valenti era uma gaúcha lindíssima. Muitas noites foi minha musa inspiradora (em sonhos) para agüentar o dia-adia desta nova fase. Ela irradiava uma luz qualquer, um brilho que mais tarde eu também iria descobrir num ashram aonde me levou para conhecer o Guru Muktananda. Na realidade Muktananda já havia falecido, estando em seu lugar a Gurumayi Chidvilasananda. Após a minha fase de católico no Ceará, espírita no Rio de Janeiro, protestante na Bahia, entrei para a minha fase de budista em Miami. Quase sempre telefonava para o Orlando Moreira em New York falando que estava freqüentando um ashram em Miami, que praticava a Sidha Meditation e que me sentia muito feliz. De verdade sentia uma grande leveza de espírito. Todas as vezes que saía do ashram parecia que estava voando. Lógico que a beleza da Helena Valenti me empurrava para aquele caminho tão maravilhoso. Mais tarde descobri que, por coincidência, no dia em que cheguei de mudança de New York para Miami, o ex-marido da Helena, Afonso de Andrade, suicidou-se. Jogou-se do nono andar do edifício Venetian Health Spa . Ele era dono de dois salões de cabeleireiros com o seu nome, Afonso I e Afonso II (em Miami Beach). Muita gente aprendeu a profissão com o Afonso, a Leiko Del Bel, Maria Helena Sunao, o Hélio...

PABLITO No hotel morava um porto-riquenho chamado Pablito. Era um mulato magrinho, casado com uma americana loura, bonita. Pelo movimento de visitantes, pelo entra-e-sai do hotel dava para se perceber que ele fazia alguma coisa errada. Os garotos paravam as bicicletas na porta do hotel, chamavam pelo interfone e subiam rápido. Em menos de dois minutos voltavam e saíam correndo. A cada 15 minutos um visitante. Eu não sabia o que fazer. Não sabia se deveria falar com a


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Helena, se fingia não saber. Cagüetar para a polícia, nunca. Um dia sua mulher ficou grávida e Pablito comprou um cachorrinho para ela. Ela saía de madrugada com o poodle dentro de um casaco escondido – para ele fazer xixi. Eu fingia que não via. Manter qualquer animal no hotel era proibido. A Helena veio me perguntar sobre um possível cachorro hóspede do hotel. — Não sei. Mas posso verificar. Esperei a noite chegar e fui falar com o Pablito. Ele se parecia muito com o Helinho Baiano, que havia sido preso em New Jersey. Helinho era o tal que eu admirava por ter vencido na vida através de um trabalho honesto, sem formação acadêmica. Doce ilusão. Quando fui me despedir da minha esposa em Miami (antes de viajar para Paracuru) encontrei o Helinho Baiano no aeroporto também viajando para New York. Me apresentou um americano louro com um brinco na orelha. Quando ele me estendeu a mão, senti que era um policial disfarçado. O Helinho todo empolgado, muito falante, dizia que havia vendido o apartamento de Miami Beach, que tinha acabado com a companhia de caminhões e que estava indo para New Jersey encontrar os amigos de Newark. O amigo americano também parecia muito alegre, mas não me convenceu. Deveria ser de fato um policial disfarçado pois logo em seguida o Helinho foi preso. Não tive chance de chamá-lo num canto e dizer o que eu pensava do “amigo”. Algum tempo depois lhe telefonei na cadeia, na Geórgia, e ele sempre alegre: — Isto aqui é um clube. É uma maravilha. Já temos o nosso time de futebol e todo mundo está jogando. O Helinho nunca perdia a esportiva. Mesmo preso fazia piada. Quando entrou no negócio de drogas no Texas foi se expondo muito e acabou cumprindo pena. Após a deportação viveu na Jamaica, Porto Rico e um dia me chamou do Panamá se oferecendo para fazer uma coluna sobre esportes. — Pablito, eu já conheci muita gente. Tenho um amigo, o Helinho, que está preso na Geórgia. Sabe, no Rio de Janeiro, eu morei em Ipanema, um lugar que é imprensado entre o mar e uma favela chamada Cantagalo. Desde muito pequeno ia soltar pipa no morro com meus amigos da favela. Naquele tempo existia uma certa integração entre a sociedade de Ipanema e a favela. — Por que você está me dizendo tudo isto? — É porque não sei como começar a te dizer que cachorro no hotel é proibido. E se você não me ajudar, estou ferrado. — Ok, vou falar com a Katy. No mesmo dia o cachorrinho foi para casa de seu primo na Rua Dois. Naquela época, South Beach começava a ser povoada por marielitos que havia poucos anos chegaram da praia de Mariel, em Cuba. A re-

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gião foi invadida por traficantes de drogas que aos poucos iriam expulsando os velhinhos da praia. Os tubarões, os investidores do norte não precisariam aparecer nas operações para desvalorizar a região, comprar tudo e depois enriquecer rapidamente. Um dia, já sem o cachorrinho e com a próxima chegada do bebê, Pablito me liga da rua: — Chico, pelo amor de Deus, vai correndo lá no meu quarto e pega uns cartões de crédito que estão num saco plástico em cima da geladeira. Eu estou preso. A polícia vai aí e se achar estes cartões a minha pena vai ser dobrada. E se puder, avisa a Katy que estou preso aqui em downtown. Com um frio na espinha, peguei a chave do quarto e corri para o quarto do Pablito. Em cima da geladeira, um monte de cartões. Peguei todos e joguei num outro saco. Desci supernervoso. Coloquei os cartões numa gaveta da portaria. Exatamente dez minutos depois, entra a Katy, presa (não algemada), com dois policiais. Pediu a chave e subiu. Saiu acompanhada dos policiais e um deles me disse: — Você, por favor, lacre a porta do quarto 312 e não deixe ninguém entrar. Liguei para a Helena e contei o que havia passado. Mas e agora? O que fazer com os plásticos? Liguei pra alguns conhecidos que me orientaram: — Ponha tudo num envelope e coloque numa caixa de correio endereçada ao US Post Office. Desta forma estaríamos minimizando a pena - os cartões iriam para a sede do correio e depois para a polícia - e ninguém estaria prejudicando ainda mais o casal. Fiquei horas me questionando se esta seria a atitude correta. Tudo estava muito confuso. A mulher grávida, presa. O marido preso, e eu, de uma certa forma, cúmplice. Dia seguinte ele me liga agradecendo e pedindo mais um favor: — Agora eu preciso que você vá até a casa do meu primo para que ele tire umas coisas do meu quarto. Ele tem uma pick up. — Pablito, só posso fazer isto com a autorização da polícia. Você vai complicar a minha vida. — Ok, vou pedir ao meu primo para resolver. Com a presença do policial, o primo do Pablito retirou os seus pertences pessoais e me agradeceu pela ajuda. Muitos anos depois, estou caminhando pela Collins Ave. e vejo um conversível vermelho com uma loura, uma criança de uns quatro anos e Pablito, que parou o carro no meio da rua, pulou e veio me beijar. — Chico, você salvou a nossa vida. O que você quer? Vamos tomar um drinque. Está precisando de alguma coisa? Já viu nosso filho? Olha só como ele é lindo! Katy me abraçou chorando de alegria. Parecia uma família bem


constituída, com um filho. Com as buzinas gritando, eles me deram o telefone de casa, celular. Nunca liguei, mas ficou na memória uma boa ação.

Logo depois conheci o Fernando Medeiros e a Fernandinha Quinderé. Era um casal supersimpático e amigo. Eu gostava muito deles. Numa constante auto-análise da vida, lembrava-me sempre do amigo Fernando Medeiros. Todas as vezes que ele me via, comentava sobre o filme “Little Big Man” (Pequeno Grande Homem), com Dustin Hoffman. Era uma história meio doida mostrando as diferentes fases de um personagem que durante um tempo foi índio e, depois de fase religiosa, virou vendedor de remédios numa diligência, foi pistoleiro, voltou a ser índio, virou bêbado, homem de negócios, virou soldado. Ele me achava meio como aquele personagem. Após esta conversa com o Fernando, durante muitos e muitos anos eu analisava os imigrantes brasileiros e a minha vida principalmente nos Estados Unidos como “ESTOU”. Eu não SOU, eu ESTOU. Numa festa vi uma paulista de Santos. Sem lembrar direito onde a havia conhecido, comecei a me enamorar. Ela tinha os olhos azuis mais bonitos que já tinha visto em toda a minha vida. Era uma mulher carinhosa e meiga. Sotaque paulista, parecia estrangeira, uma mistura de italiana com argentina. Tinha uma prima que morava em Miami Beach. Fui conhecer a família e encontrei o Aloísio Carcará, um ex-funcionário da Varig que andava paquerando alguém por aquelas bandas. — Chico, você não me viu aqui, ok? Tô meio escondido com esta menina. E era realmente uma menina. O Aloísio também havia vivido em New York e se mudara para Miami. Um dia o Fernando Medeiros me diz: — Little Big Man, esta é a minha irmã que mora no Rio. A Lulu chegou com o namorado, um médico – clínico geral. Dei a idéia de viajarmos para New York. — Tô com muita saudade de New York. Vamos todos? E assim, a Maria Lúcia Medeiros, o namorado médico, eu e a minha namorada de Santos alugamos um carro e viajamos. Em Washington resolvemos parar para que a Lulu mostrasse a casa onde havia morado na primeira infância. À noite, poderíamos escutar um jazz. O almirante Medeiros havia morado em Bethesda há uns 15 anos e, com a esposa e quatro filhos, servira ao governo brasileiro. À noite, o médico, cansado, e a minha namorada, dizendo que odiava jazz, resolveram ficar no apartamento de nossos amigos em Georgetown. — Chico, como é que uma pessoa pode odiar jazz?

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— E como é que se pode cansar em Washington? — Vamos nessa? Foi assim que começou o meu namoro com a Lucia Medeiros. Fomos a todos os bares de jazz de Georgetown. No final da noite aconteceu o primeiro beijo. Dia seguinte, paixão escondida. Mais forte que tudo e todos os presentes. As mãos se cruzando no carro, o ombro, os beijos rápidos, nervosos. Na volta a Miami, acabei o namoro com a paulista e a Lulu, depois que voltou ao Brasil, acabou com o médico. Com a vida mais ou menos estabelecida no hotel, comecei a juntar dinheiro. Todo o dinheiro que ganhava colocava numa caderneta de poupança. Festa nenhuma. Minha vida se resumia em ligar para os filhos e para a Lulu no Brasil, de um telefone público... Naquela época rolavam uns números de uns cartões com que toda a cidade ligava de graça para o Brasil. Nunca soube exatamente como os números chegavam à nossa mão. Mas toda vez que um brasileiro encontrava outro – naquela época – em Miami, antes de dar o bom-dia, perguntava: — Tem um número aí? Os números eram o paliativo para a saudade dos meninos. Algum tempo mais tarde soube que o Geraldo Silva, da Travel Business Bureau, teve sérios problemas na cabine de um telefone público ao lado de sua casa. Deste dia em diante todos nós paramos de ligar para o Brasil. Numa dessas longas chamadas, telefonei para o Rio de Janeiro, para um amigo que havia conhecido em New York, Péricles Leal. Era casado com a Tatiana, uma jovem bonita, filha de um cearense chamado Ivo. Nos Estados Unidos, Tatiana fazia a dublagem da voz da filha do Rex Humbard, um pastor protestante que fazia sucesso na televisão do Brasil. Ivo vivia com a Glícia, que trabalhava com moda e adorava me acompanhar na cerveja. — Alô, Péricles? Tô pensando em fazer um jornal brasileiro (em inglês) aqui em Miami. Já tenho quase tudo pronto. Só falta a sua experiência.

PLAY HOUSE Naquela época meu primo do Ceará liga do Brasil pedindo uma ajuda. — Estou mandando uns amigos daqui te procurarem. Ele é um costureiro famoso. Vai com a esposa e uma jovem modelo. O casal chegou à porta do hotel com a modelo, linda, esguia, altíssima. — Não sabia que no Ceará existia mulher tão alta. Todas as vezes que chegava alguém do Brasil eu me rejuvenescia,


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tomava um banho de prazer, de alegria. Era como se estivesse recebendo alguém da família. — O que vocês querem conhecer em Miami? — Eu gostaria de ver alguma coisa excitante, diferente. Será que ele quer ver um show de go go girl? Ou será que quer ir ao Seaquarium? A esposa, muito charmosa, tinha um andar nobre, passos firmes. A modelo era um encanto. Por onde passava irradiava suspiros. — Não, pelo amor de Deus, go go girl não. Será que ele é gay e não gosta de ver mulher nua? Quem sabe gosta de ver homem nu? E segui para o Crazy Horse. Lá umas velhinhas colocavam notas de um, dois dólares nas cuecas (tipo Zazá) dos enormes dançarinos. Todos sem pêlo no corpo, bombados pelas injeções, morenos, louros, altos. Os negros pareciam uns príncipes africanos. As velhinhas deliravam de prazer. — Chico, tudo isto nós já vimos no Brasil. Queremos uma coisa diferente. Uma coisa que possamos contar para os nossos amigos. Pensei no Cruz, um amigo que trabalhava com importação e exportação no warehouse do Zicler. Ele sempre me falava de uma casa chamada Play House onde as pessoas podiam se divertir sem qualquer tipo de censura. Expliquei aos meus convidados que nunca havia estado lá e que não sabia exatamente como funcionava, mas que poderíamos descobrir juntos. Após o pagamento de 200 dólares (50 por pessoa), uma senhora elegante com um longo vestido negro nos acompanha até o vestiário. Lá, homens e mulheres trocam de roupa. A regra número um: ou você fica completamente nu ou se envolve numa toalha. Os amigos brasileiros optaram pela toalha. A sensação de ficar nu ao lado da modelo já era o despertar de um desejo. Como era muito alta, não conseguiu uma toalha suficientemente grande para cobrir todo o corpo. Na casa não se podia comprar bebida. Beber era proibido. A não ser que se levasse de casa, envolvida num saco qualquer de papel. Aquela coisa da hipocrisia americana. Saímos e compramos umas quatro garrafas de vinho, colocamos o nosso nome (no label) e entregamos ao barman. A senhora de longo então nos leva para um tour e começa a explicar as regras da casa. — Aqui não se pode forçar nada. As pessoas só fazem aquilo que os parceiros aceitem. É permitido a qualquer visitante participar de qualquer ambiente desde que todos estejam de acordo. Só é permitido usar a nossa toalha como vestimenta. Se preferir pode-se ficar nu, sendo permitido qualquer tipo de ereção – com respeito, é claro. Não entendi o que seria uma ereção sem respeito. E foi mostrando a discoteca, o salão de sinuca, as salas de jogos, de descanso, de dormir, a sauna. Em cada sala um ambiente diferente:

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uma com televisões e almofadas espalhadas pelo chão. Pessoas completamente nuas se acariciando. Numa sala, camas com 8, 10, 15 pessoas fazendo amor. Noutra, uma enorme cama suspensa com umas seis pessoas gritando e trocando de parceiros. Embaixo, umas cavernas escuras, fechadas com uma cortina, onde existiam camas individuais para casais falando baixinho, com muito respeito. Eu não acreditava que aquilo poderia existir. O casal de brasileiros sumiu. Eu, por ética, não os procurei. A modelo ficou com medo e nos refugiamos na caverna. Pensei em nunca mais sair daquele buraco. O barulho da cama acima “mexia” literalmente com a nossa cabeça.

HALLOWEEN Na semana seguinte criei uma lei no Hotel Helmor: nenhum funcionário poderia trazer gente de fora para dormir. Os empregados dormiam no basement. E naquela semana fui, pela primeira vez, a uma festa de Halloween no Hotel Sasson. O mineiro Zé Milton alugava com o irmão o restaurante do hotel e, todas as sextas-feiras, fazia uma noite brasileira com Juarez, o rei da capoeira e do pandeiro. Na festa, conheci uma cantora de Jazz, Linda Novitt. Em pouco tempo combinamos que mais tarde ela entraria pela janela do meu quarto que dava para o alley (um beco atrás do hotel). Eu entraria pela frente. Afinal, eu havia determinado que nenhum funcionário poderia trazer convidados para o hotel. Linda, completamente bêbada, entrou pela janela quebrando todos os vidros possíveis e imaginários. E uma vez dentro do quarto, todo o quarteirão acordou. Dia seguinte só existia uma forma de me desculpar com a Helena: pedindo demissão. Saí do hotel com a Linda e aluguei um studio (conjugado) na Michigan Ave. em South Beach. Todo o dinheiro que havia guardado foi embora em duas semanas. Ela então resolveu dançar e trazer de volta o dinheiro. Um dia, acordo com a parede toda ornamentada com notas de um, cinco e dez dólares que Linda havia recebido pela dança de go go girl e pregado na parede com fita durex. Além disto sempre trazia algumas garrafas de vinho, queijos suíços, fiambre e tudo o que havia de melhor do Epicure, um supermercado de produtos importados em Miami Beach. Vivemos intensamente um caso de amor, inconseqüente, instável e maluco. Seu pai havia sido amante de um escritor americano famoso e ela amante de todos os gatos da cidade. Era uma judia inteligente, agradável, engraçada, que vivia a vida com toda a sensibilidade e a liberdade que poderia valer. Eu tinha acabado de ler o livro “The Razor’s Edge”,


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O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. Um livro escrito em 1944, sobre a busca espiritual de um jovem veterano de guerra que anda pela Itália, Inglaterra, a Riviera francesa e finalmente, na Índia, encontra o seu bálsamo, o alívio dos horrores da guerra, e adquire uma verdade absoluta através de uma filosofia hindu chamada Vedanta – um sistema filosófico caracterizado pela suposição de que o indivíduo, para alcançar a sua libertação final, deve superar a ilusão de que vive em um mundo material e múltiplo, compreendendo o seu pertencimento à realidade original, única e absoluta. Volta e meia me identificava com o personagem Larry, que além do Vedanta tentava recuperar a viúva de um amigo que falecera na guerra. Era mais ou menos como a minha relação com a Linda Novit. Um dos lugares em que a Linda cantava era o Lobo’s, uma casa de jazz na Biscayne Boulevard, na região do Hotel Omni. Mais tarde aprendi que a Biscayne havia sido nos anos 50 o paraíso do jazz no sul dos Estados Unidos. No bar eu não conhecia absolutamente ninguém. Sentado numa mesa, sozinho, esperei a Linda cantar. Era a réplica fiel de Janis Joplin. Ao terminar ela me apresentou ao Howard Moss, um baterista: — Semana que vem vou com um grupo de pessoas ao Brasil. Você conhece algum músico com quem eu possa me comunicar? — Lógico. Liga lá pra casa que eu te digo. Ele ligou umas duas ou três vezes. Eu liguei de volta umas quantas vezes. De ambos os lados sempre a secretária eletrônica. Uma tarde, estou em casa sozinho e passa o Geraldo Silva (que também havia morado em New York) casado com a Rosana Leonel, da agência Travel Business Bureau. — Quer ir ao Brasil? Tenho uma passagem de ida e volta, de graça. — De graça? — Passa lá no escritório. Com uma pequena bagagem e alguns dólares no bolso, chego ao aeroporto de Miami e quem eu encontro? O Moss, que foi logo me apresentando: — Esta é a Polita e esta é a Betsy. Já no avião começamos a falar de música brasileira. O Moss sabia tudo sobre Tom, Vinícius, João, Sivuca, Egberto, Luizinho Eça. Quando falou de Luizinho Eça, lembrei da Fernandinha Quinderé, na época mulher do Fernando Medeiros. A mãe de Fernandinha (também Fernanda Quinderé) era a mulher do Luizinho Eça. Moravam com uns nove ou dez filhos (de ambos os casamentos) num apartamento da Constante Ramos. Seria uma boa apresentação para o Moss. Ele ia cobrir com a Polita e a Betsy um Festival Internacional do Filme, no Hotel Intercontinental do Rio, e depois, quem sabe, subir até a Bahia. Minha mãe conseguiu um apartamento no Leme, de frente para o

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mar, com quatro quartos. Com a vista mais bonita do Brasil, com os três jornalistas americanos e com muitas saudades da noite carioca, liguei para a Lulu. Saímos eu, a Lúcia Medeiros e os três americanos. Fomos direto ao Jazzmania, uma casa de jazz na praia de Ipanema. Viramos a primeira noite. Ninguém queria dormir. O Rio tinha aquele encanto, aquela magia que nunca esgotava a nossa resistência. De manhã cedo encontramos o José Carlos Pereio na Taberna do Leme – também virando a noite. Fomos ao Veloso, à praia e ao Fiorentina, um restaurante localizado embaixo do nosso apartamento. À noite finalmente fomos ao People Down (no Leblon) ver o Luizinho Eça. Chamei o baterista Robertinho Silva e pedi que anunciasse o baterista Howard Moss. Foi mais uma noite sem dormir. Dia seguinte, Marcio Montarroyos passou a nos acompanhar e as americanas deliravam com a música brasileira. Moss conheceu quase todas as casas noturnas do Rio de Janeiro. Ficou tão empolgado com o Brasil que perdeu a volta. No nosso avião, conversando com a Polita Gordon e a Betsy, já quase chegando de volta a Miami, falei: “Estou criando um jornal em inglês e vai se chamar Brazil Review”. Foi o jornal que teve como inspiração o pessoal que introduziu o frescobol na praia de South Beach: Fernando Medeiros, Fernandinha Quinderé, Gina Eckerman, Gerson Delano, Luís Carlos Serra, Gregório, Pedrinho, Carlos Martins (Carlão), Ninon, Lorena, Johnny Be Gooda, Ilka, Sea Weed, Georgia e Isabela, Luciana Malheiros, Derick, Lindy e José Luís Volpato.

BRAZIL REVIEW O primeiro jornal sobre o Brasil na Flórida (em inglês) teve a ajuda de Péricles e Tatiana Leal, Fernandinha Quinderé, Howard Moss, Polita Gordon, Geraldo Silva. Na primeira edição, em abril de 1984, matéria sobre a chegada a Miami do navio Custódio de Mello, os carnavais dos hotéis Konover, Four Ambassadors, Holiday Inn Brickell Point e Grand Bay Hotel. Entrevista com “Joe Bike”, o Zé do Pedal (José Geraldo de Souza), que aos 26 anos de idade passa por Miami pedalando uma bicicleta com destino ao mundo. Matéria de Polita Gordon sobre o Third Annual Caribbean Music Festival organizado por Paco de Oniz (filho de um correspondente do New York Times no Rio de Janeiro). E ainda, Howard Moss entrevistando os músicos Laurindo de Almeida e Tânia Maria. Saí à procura de uma gráfica que imprimisse 24 páginas em preto-ebranco, com uma tiragem de 2.000 exemplares. Após muitos desencontros ficamos com a Continental Printing, do amigo cubano Bruno Garcia. Em menos de dois meses, o Péricles é chamado de volta ao Brasil. Sem poder produzir tudo sozinho, quebrei. Fiquei devendo a impres-


são. Em pouco tempo consegui, fazendo diferentes trabalhos, pagar a dívida com a gráfica.

Um dos trabalhos foi o de peixeiro. Descarregava o caminhão, armazenava num frigorífico, classificava os peixes e os limpava com uma espécie de barbeador elétrico usando um tubo que saía do teto. Todas as noites os peixes desciam por uma rampa de aço e eu, usando duas luvas, uma de borracha e a outra de couro, passava-lhes o barbeador. Na velocidade da rampa, muitas vezes os espinhos entravam pelos dedos, inflamando e criando bolsas de pus. Com o peixe já limpo, seguia a ordem de entrega para o dia seguinte. Primeiro os restaurantes mais sofisticados e os supermercados. No final da semana, com o peixe que sobrava, era feita uma outra rota, em overtown e Little Haiti, os lugares mais pobres da cidade de Miami. Os mercadinhos, bares e pequenos restaurantes haitianos pagavam um preço três vezes inferior ao de tabela. Mas também levavam um peixe quase podre. Eu não conseguia entender como uma pessoa em sã consciência podia ganhar dinheiro vendendo peixe podre. Todas as semanas eu mandava 50, 100 dólares para o Bruno Garcia da Continental Printing. Com a dívida paga, saí da peixaria e resolvi criar um outro jornal com o nome de Florida Review. Com dois jornais, poderia atingir os dois mercados: um promoveria o Brasil em inglês, o outro os Estados Unidos em português.

FLORIDA REVIEW Com a volta da Lulu para Miami, aluguei uma bela casa no Doral, na beira de um lago cheio de patinhos e, de namorada nova, comecei o Florida Review. A primeira edição do primeiro jornal em português do Estado da Flórida tinha o seguinte expediente: Diretor: Francisco Moura Gerente Geral: Maria Lucia Medeiros Arte: Victor Balarezo Esportes: Geraldo Silva Fotografia: Howard Moss Gráfica: Econographics Impressora: Continental Printing Colaboradores: Antônio Nina, Michael (Lee) Bellot, Gerson Delano de Weissheimer, Augusto Ribeiro.

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A Lulu era uma pessoa cheia de vida, com um espírito alegre, sempre pronta a fazer uma piada. Uma autêntica carioca, cheia de charme, de boa família e, ainda, irmã de meu inseparável amigo Fernando Medeiros. Ela ajudava na revisão do jornal e dava boas idéias. Eu já conhecia grande parte de sua família que morava em Miami, a Tia Déa, mãe de Moacir da Agência Ancar. Lá trabalhou a Rosália Galdi, o Marquinhos, o Moa. Um dia a Lulu recebe um convite do Chico de Matos para ir a New York. “Quem ele pensa que é chamando assim a minha namorada?” Chico, irmão de João de Matos, já era um dos donos do jornal The Brasilians e da Brazilian American Cultural Center, o maior vendedor Varig no exterior. Na época fiquei com muitos ciúmes da Lulu. Victor Balarezo era um peruano que de sua casa confeccionava muito artesanalmente os anúncios do jornal. Geraldo Silva ajudou no Segundo Torneio de Futebol de Miami e aí ganhou uma coluna de esportes. Bruno Garcia, feliz com o pagamento da impressão do Brazil Review (o jornal em inglês), acreditou na criação do primeiro jornal em português na sua empresa, a Continental Printing. Antônio Nina criou uma coluna de gastronomia com receitas das mais variadas. Michael Lee era intérprete do Tribunal de Miami e seria útil em sua coluna de serviços. Gerson Delano começou a escrever nos guardanapos do Brazilian South Restaurant uma coluna que mais tarde levou o nome de Bazar. O jornal era criado numa máquina de escrever Olivetti Lettera que me foi presenteada pelo falecido Augusto Maciel (O Sr. Maciel do Consulado do Brasil). A cada mudança de corpo (tamanho da letra) tinha que escrever uns códigos complicadíssimos para que a máquina (uma espécie de mimeógrafo) pudesse ler e reproduzir os diferentes tamanhos de letras, manchetes etc. Em dois dias os rolos de papel (do tipo papel fotográfico) estavam reproduzidos e eu levava para casa. Quase sempre à noite começava a cortar as colunas e fazer o paste up (colar num papel milimetrado) das matérias. As linhas (borders) dos anúncios eram coladas à mão. Todos os meses estávamos no Rex Art, uma casa de artigos de arte de Coral Gables, comprando as fitinhas para colar nos anúncios. As ilustrações das artes eram retiradas de uns cadernos especializados (também vendidos no Rex Art), recortados e colados na mesma folha milimetrada. Nos últimos dois dias ninguém dormia. Normalmente, era de um trabalho insano, do tipo 48 horas sem dormir. Não sentia cansaço, sede, fome, nada. A adrenalina no fechamento de cada edição explodia em felicidade. Na edição “Número Um”, do dia 15 de janeiro de 1985, do jornal Florida Review, a Manchete:


“UM GOVERNO DE PAZ SOCIAL, EM QUE TODAS AS CLASSES POSSAM VIVER EM HARMONIA”

Por coincidência, no dia em que lançamos o jornal foi oficialmente eleito o primeiro presidente civil do Brasil desde a Revolução de 1964. Na chamada de capa também a entrevista com Daniel Garcia, da loja Kalu Place: “Miami você vai gostando aos pouquinhos. Vai descobrindo a cidade. Na terceira vez que vim a Miami, aí sim, me apaixonei”. Ainda a notícia: MIAMI TEM SEU PRIMEIRO EMBAIXADOR Assumiu a direção do Consulado Geral do Brasil em Miami o Senhor Embaixador Carlos Alberto Pereira Pinto, substituindo o Conselheiro Agildo Moura. E o gerente geral da Varig, Bruno Borghini, substituindo o Sr. Paulo Mesquita na presidência da Câmara do Comércio Brasil Estados Unidos. O discurso de Bruno foi um dos mais profissionais que havia presenciado nos últimos anos. Com um inglês perfeito, Bruno deu um banho de cultura e charme no jantar de sua posse. Na época, a BACC – Brazilian American Chamber of Commerce (de Miami) tinha no comando: Presidente Honorário: Carlos Alberto Pereira Pinto Presidente: Bruno Borghini (Gerente Geral da Varig) Vice-Presidente: Hilary Langen Tesoureiro: Thomas Skola Diretores: Edson Ferreira da Silva (Banco Nacional), Newton Berwig (Embraer), Keith Rosen (University of Miami), Mathew Margoles (advogado), Marinus Otte (South East Bank) e Vicente Timiraos (Banco Real).

FEVEREIRO DE 85 A partir do mês de fevereiro conheci muita gente em Miami. O jornal abria muitas portas. Estava meio solteiro, meio casado com o jornal e com a namorada Lulu. Um dos anunciantes, Antônio Maciel Primo, importava móveis do Brasil e era nosso quase vizinho. A sua esposa ficou amiga da cantora Rosemary, que eu já conhecia do Brasil. Meu tio, o cantor Carlos Augusto (o primeiro artista a gravar a música “Negue”, de Adelino Moreira), me apresentou a Rosemary na antiga TV Rio, no Posto Seis de Copacabana – Rio de Janeiro. Ela era uma mu-

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Na frase do Presidente eleito do Brasil, Tancredo Neves, a esperança de dias melhores.

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lher bonita e sabia cantar muito bem. Em Miami apresentava o show “Rio By Night” no Hotel Deauville. Eram muitas mulheres perfeitas de corpo – todas brasileiras – reunidas num só show. Rosemary aproveitava para dar uma canja no restaurante Monte Carlo, onde já então trabalhava o “chef” Pororoca, um homem trabalhador, inteligente e com muita sorte para negócios. Após a temporada, o show do Sargentelli deveria continuar na Itália. A maioria das meninas ficou em Miami. Acabaram virando go go girls. Eu e o já amigo de sempre, o americano Howard Moss, entrevistamos o violonista Laurindo de Almeida e a cantora Tânia Maria. Foi uma experiência fantástica. A sensação de liberdade total. Perguntar o que bem desse na telha. Nada de censura. Laurindo, então com 67 anos, já vivia nos Estados Unidos há 38 anos (chegou em 1947). Num dos trechos da entrevista de Howard Moss, no restaurante Arthur’s, registramos: …Laurindo Almeida arrived on theses shores with guitar in hand and his own unique style of playing with his fingers instead of the traditional used pick. Although he spoke very little English, his guitar spoke a melodic language that was universal and within one month he was working on a movie with Danny Kaye, called “A Song is Born”. Soon after he was discovered by Stan Kenton and was honored as a featured soloist for three years on the road with Kenton Orchestra. In 1952, Almeida got together with renowned saxophonist Bud Shank to record a vanguard album called “Brazilliance”. This was the beginning of a new style that was later copied by Stan Getz and which went on to become a very popular movement of blending jazz and bossa nova sounds in the United States, for many years. Since these early days Laurindo Almeida has gone on to become known as one of the world great concert guitarists and has even been compared with Segovia. He has scored music for 16 motion pictures and has been nominated 14 times for the prestigious Grammy Award – which he has won on 5 occasions. One of theses Grammys was for his “Dicantus”- A Composition for Three Guitars - all of which he played on the recording.... ...Laurindo Almeida’s love for the classical music of Bach and other fine 16th century composers have led him to compose his own major concertos for guitar. He has completed major works for Flute and Orchestra and Harp and Orchestra. His latest album “Selected works for Guitar & Flute” has just been released on the Concord Concert Label. Although Laurindo visits family and friends in Brazil once or twice a year he has not performed his music there since his arrival in the U.S. in 1947. Still he speaks with great pride of his roots and of the penetrating Samba Rhythms that have inspired so much of his music.


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Thank You Laurindo Almeida and Thank You Brazil for the great gift you have given to the world. (Howard Moss)

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Laurindo de Almeida, um dos mehores violinistas brasileiros nos EUA.

Os outros jornais iriam repetir por muitos e muitos anos as mesmas histórias. Artistas diferentes, datas e locais diferentes, mas sempre o mesmo espetáculo, o mesmo show. O brasileiro no exterior sempre iria se reunir por um bom futebol ou por um samba. Mais tarde o fenômeno “IGREJA” também iria reunir as diferentes comunidades. Ainda em 1985, registrávamos: o Carnaval de Mário Magalhães, com Emilinha Borba, a abertura do bar P.J. Clark (filial de NY), no Aventura Mall, uma temporada musical de Hélcio Milito, Bebeto (Ex-Tamba Trio) e Aloísio mostrando o melhor da Bossa Nova Brasileira. Emerson Fittipaldi voltando a participar do Terceiro Grande Prix da cidade. Dino Evangelista sendo promovido a assistente de gerência de Carga da Varig. E as notícias em cápsulas: Passeando por Miami o Prefeito de Alagoinhas e editor do jornal “A Tarde” da Bahia, Judelio Carmo. Em carta de um jornalista da TV Globo de São Paulo: ...Para o jornalista nenhuma fronteira divide a informação e a prestação de serviços ao nosso leitor brasileiro em qualquer parte do mundo


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em que ele se encontre. Continue nesse PIQUE, vai em frente “meu irmão”. O abraço deste brasileiro que o tem como profissional capaz. (Carlos Karabachian)

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As agências de viagem da época: Happy Tours (Carlinhos Lopes), Brasília (Jair Santos), Basbrasil (Ina Sodré), Ancar (Déa), Monark (Silvio Ferraz), Bancor (Carlos Lima), Hotur (Sandro Gherardi), Brasil World Travel (Geraldo Silva), DN Travel, International Travel Club (Luís Carlos Serra), Cruzeiro do Sul e Tourism D’Avant Garde (Luís Fernando Macambira e Genilde Guerra). Na terceira edição do jornal, a Lulu resolve voltar ao Brasil – com saudades do Rafinha, seu filho, cujo pai por coincidência era o meu antigo vizinho e amigo de Ipanema, o Eduardo Ganen (Piu Piu). Os anunciantes da época: Samour & Attick (Tony Samour), Varig (Bruno Borghini), Brasil World Travel (Geraldo e Rosana), Ralph The Taylor, Magic Oriental Rugs (David), Restaurante Monte Carlo (Pororoca), Guaraná Antarctica (Valnei Santos), Pisces XV Restaurant (David), Huntington, Paradise Inn (Roberto Bechtinger), Frachi Perfumes, Carlinhos Lopes. As lojas de downtown: Kalu Place, Raul Distributors, Sorren, Smoke Shop II, Mr. R., EDS Electronics e Victor’s recebiam os primeiros turistas que, se tivessem qualquer problema na cidade, poderiam, a pé, procurar o consulado localizado no 330 da Biscayne Boulevard. Com a continuidade do patrocínio da S & A Distribuidores e a ajuda de Tony Samour, recebemos um AMSTRAD, um computador inglês que, no escritório do jornal, veio substituir o nosso primeiro Atari.

A TEMPORADA EM ORLANDO Parei com o jornal, levei a Lulu até Orlando, que de lá viajou para o Brasil para ficar mais perto de seu filho. Depois da separação, encontrei o César Pinto, que já então mudara a sua loja Sonria da Lincoln Road (South Beach) para a International Drive. — Por que você não fica lá em casa por um tempo, arruma a sua cabeça e ganha um dinheiro extra aqui na loja? — A minha cabeça está arrumada. O bolso é que está sofrendo. Em princípio eu não poderia aceitar trabalhar na loja de um excliente meu do Globo. César Pinto era um homem de temperamento único. Gostava dele pela determinação no trabalho, pela inteligência e tenacidade. A esposa era a cabeça que, com o gene judaico, administrava o movimento geral da loja. Era uma mulher bonita e sensual. Podia-se encontrar a Ethel (Presser) Pinto na esquina da International Drive a distribuir panfletos


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promovendo a sua loja ou a receber artistas. Mais tarde ela iria controlar, somente no mês de julho, um faturamento de alguns milhões de dólares. Os filhos, desde muito pequenos, ajudavam nos fins de semana e férias. Passei o mês de julho na casa do César e da Ethel em Orlando. Um dia César Pinto me chama para ser guia de turismo: — Amanhã tem um grupo de um amigo meu da Agência Abreu que vai para Busch Gardens. Dá para ganhar, num dia, 120 dólares. Você topa? Ser guia da agência Abreu era um privilégio. Mais uma aventura não seria nada mal. À noite não consegui dormir direito. Tinha que acordar às 6h da manhã, buscar o grupo no hotel e seguir para Tampa. Na viagem, as crianças a cada dez minutos perguntavam: — Tio, quanto tempo falta para chegar? — Ainda falta um tempinho. — Tio, vai chover? — Talvez. — Tio, falta muito? — Mais um tempinho. E assim fui enrolando até chegar em Tampa. Nem a entrada para grupos no Bush Gardens eu sabia onde era. O motorista me chamou: — Você está indo na direção errada. Os grupos entram por aquela outra porta... Com o coração na boca, tinha que controlar 28 passageiros. Umas dez crianças, cinco adolescentes e treze adultos. Fui orientado a manter o grupo junto – o tempo todo – e tudo corria bem até o momento da chuva. Torrencial. Daquelas que não se enxerga nem um palmo à frente. Os adolescentes correram para um restaurante. As crianças já tinham voado para os brinquedos e os velhos ficaram para trás. Todo molhado, eu não sabia o que fazer. Entrei no restaurante e pedi aos adolescentes que me ajudassem a reunir o grupo para o encontro no final da tarde, na fábrica de cerveja Busch. Muita gente havia me avisado que em julho chovia todos os dias na região central da Flórida. Mas não daquele jeito. Ao final, com todos os passageiros molhados e com um grande atraso, conseguimos entrar no ônibus. Na arrancada, já sentia a má vontade do motorista pelo horário. Em silêncio todos se sentaram. Muito sem graça, falei no microfone: – Espero que tenham gostado do passeio. O silêncio era mortal. Lá do fundo um sotaque gaúcho bem carregado: — Este passeio foi uma merda, tchê! — E a culpa é do guia. — É, foi uma merda. Quando voltar vou reclamar com a Abreu. Quero meu dinheiro de volta. — Não foi tão ruim assim. Muita gente se divertiu.

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— Tu tá louco, tchê? Foi realmente uma merda. Completamente encharcado, com muita dor de cabeça e de sacocheio de tamanha ignorância, peguei o microfone e gritei: — Vocês podem reclamar com quem quiserem. Eu não tenho culpa se São Pedro não gosta de vocês. Vocês são todos uns mal-educados e sabem perfeitamente que a culpa foi da chuva e de ninguém mais. Façam o que bem quiserem. A partir de hoje não sou mais guia de turismo coisa nenhuma. O turista brasileiro começava a descobrir a Flórida. A Sonria ficou registrada como a primeira loja de brasileiros a se instalar na cidade de Orlando e eu, como o pior guia.

O TERCEIRO CASAMENTO No mesmo ano voltei ao Brasil. Quando cheguei ao Rio de Janeiro, a Lulu já estava namorando um músico. Anos depois uma grande tragédia: ela falecia de problemas respiratórios. Reciclei a vida no Bar Jangadeiros, reencontrei os amigos do Bar Veloso, os garçons Arlindo, Severino, Silva, as sextas-feiras do Bar Villarino, com o meu compadre Léo, Gilson De Paula e Roberto Couto. Logo depois viajei para o Ceará. Em 4 de outubro, dia de São Francisco e de meu aniversário, a prima Peré passa pela minha casa em Fortaleza às 6 h da manhã para me levar para o Canindé. Eu acabava de chegar. Não deu tempo nem de mudar a roupa. — A festa de Canindé é ótima. Você vai gostar. Lembra da Glória? No banco de trás a Glorinha, viúva de Luís Capelo, enteado de minha tia Fernanda. — Lógico que eu lembro. Principalmente daquele tempo em que morávamos em Belo Horizonte. Ela havia feito pós-graduação em Belo Horizonte com o Dr. Hilton Rocha, na época um dos melhores oftalmologistas do Brasil. Vivia numa confortável casa com o Luís e os filhos. Ele também fazia pós-graduação em medicina e era professor da Universidade Federal de BH. Meus pais tinham um apartamento na rua Tupis, no centro de Belo Horizonte, e uma loja de material elétrico. Toda quinta-feira à noite eu viajava do Rio para BH para estar com meus pais e uma namorada que morava na Avenida do Contorno 8590. Eu e a prima Peregrina Cavalcanti (Peré) tínhamos um caso antigo pendente. Quando adolescente, ela foi ao Rio com toda a família e aos 15 anos tivemos um namoro escondido. Só quem viveu o amor desta idade sabe exatamente a intensidade, a cegueira, a loucura, a volúpia. Peré também era uma jovem viúva. Tinha um dos mais belos sorrisos que conheci em minha vida. Não era um sorriso, era um verdadeiro


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orgasmo. Ao sair da igreja de Canindé, me puxou para um hotel, subimos correndo as escadas e nada aconteceu. NADA! — Você não gosta mais de mim? Nunca soube explicar direito. Foram muitos anos de desejos escondidos. De repente rapidamente caiu o pano. Saímos do hotel frustrados. A resposta seria somente uma: beber mais. Voltei para Fortaleza sentado na parte de trás do carro e pedi que ela me deixasse na casa da Glória. Frustrado com a “imagem”, iria tomar uma cerveja e voltaria para casa mais tarde. Entrei na casa da Glória, olhei para o céu. Com a lua na minha cara e em perfeita sintonia etílica, escutei: — Quero ver você segurar esta barra. Imaginei no céu, entre os milhares de estrelas, a cara do Luís, meu primo, me desafiando. E foi assim que casei com minha terceira esposa, a Glorinha. Viúva de meu primo. Logo no primeiro dia um dos filhos disse que iria dormir do lado de fora da casa. Pouco tempo depois, outro quebrou a cabeça do mais novo com uma estátua. Para cada problema, um desafio, uma atração maior. Afinal, agora seriam sete filhos: os meus dois e os cinco dela. A Glorinha era uma das pessoas mais doces, criativas e amáveis que conheci. Tinha o poder mágico de transformar uma guerra num paraíso. Aquela força espiritual era uma coisa que me deslumbrava. A paz – e o melhor: uma mulher que nunca se deixou levar pelas futilidades da vida. O seu tempo sempre foi bem aproveitado, sempre estava criando alguma coisa. Além de ser uma excelente médica, era uma excelente artesã. De cara, fez um colete de crochê para mim. Em poucos dias acabou o casaco. Estava sempre criando. Se o carro parasse, ia para a beira da estrada para catar florzinhas. Depois descobri que ela pendurava as flores de cabeça para baixo, desidratava-as e criava uns quadrinhos ovais com desenhos de flores secas. No Natal criava arranjos fantásticos. Uma mulher com sensibilidade para a música, para a poesia. Mais uma vez lembrei do Fernando Medeiros com a história do filme de Dustin Hoffman, Little Big Man. Agora eu vivia uma fase completamente nova, cheia de desafios e mistérios. Voltei para a Flórida no dia 28 de janeiro de 1986. Nosso avião pousou em Orlando às 11h38, exatamente no momento em que o foguete Challenger desintegrava-se (73 segundos após a decolagem) no ar. Eu e o Capelo Neto, o filho mais velho da Glória. O Luís Capelo (pai), que também era médico, era uma das pessoas mais queridas e inteligentes que conheci. Carismático, grande amigo, boêmio. Era um cientista, um excelente professor. Entre as suas criações, construiu um foguete. Um dia levou os filhos mais velhos, o José Neto e o Felipe, para acionar o foguete. Alguma coisa saiu errada e explodiu. O corpo dilacerado foi a maior tatuagem para os dois adoles-

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centes. Presenciaram o desastre e ainda tentaram (sem sucesso) salvar a vida do pai. No dia 28 de janeiro de 1986, no exato momento em que aterrissávamos em Orlando, o foguete Challenger explodia. Ou era muita coincidência ou eu estava ficando mesmo maluco. Com a casa já montada em Kendall, reiniciamos o Florida Review. Com a permanente criação da Glorinha e a dedicação do Felipe, conseguimos dar continuidade a uma das maiores obras de minha vida.

MARÇO DE 1986 No dia primeiro de março de 1986, data em que o Brasil muda a sua moeda de cruzeiro para cruzado, líamos no expediente: Diretor: Francisco Moura Arte: Felipe Capelo Esportes: Geraldo Silva Impressora: Continental Printing Colaboradores: Antônio Nina, Michael Lee, José Capelo, Glória Capelo e Augusto Ribeiro. Augusto Ribeiro era o Sr. Maciel do Consulado do Brasil (primo do Marco Maciel). Ele me emprestara a primeira máquina de escrever, a Olivetti Lettera, para a primeira matéria do jornal. Com a criação do Bazar, estava agora sujeito à sensibilidade das chuvas e trovoadas de Gerson Delano, o meu eterno personagem nos Estados Unidos. Eu sempre repetia para os meninos em casa: em qualquer relação, a personalidade mais louca é a mais forte. Gerson escutava uma notícia e mandava a informação em pequenos hieróglifos: pedaços de papel de pão, sacos de supermercado, guardanapos, caixas de fósforos. Uma escrita ilegível e muitas vezes indecifrável. Qualquer rabisco feito na madrugada ele me entregava, e no dia seguinte cobrava: — Minha matéria já está pronta? Francisco, vamos trabalhar. Não é assim! Quando você vai deixar de brincar e fazer uma coisa séria? Francisco, atenção. Não somos mais crianças. Eu ficava horas para decifrar os rabiscos de Gerson. As notícias em cápsulas: O Sr. Antônio Nina foi proposto e aceito como membro da mais famosa associação de “gourmets” de New York: a prestigiosa sociedade de Epicure leva o nome de “Les Amies D’Escoffier Societé de New York”.


Descansando do imenso sucesso alcançado com a novela “Roque Santeiro”, está entre nós o ator/cantor Fábio Júnior. Daniel Garcia levouo para conhecer os lugares turísticos de Miami. Faleceu João Resende, ex-adido do Consulado do Brasil de New York e Marseille na França. O Sr. João era casado com a jornalista Hildegard Angel, do jornal O Globo. Acaba de voltar do Brasil Lucia Silvestri, do Brasil World Travel – Voltou deslumbrada com o novo pacote econômico recentemente criado. O novo Cônsul Adjunto do Consulado do Brasil é o Conselheiro Sérgio Lacerda. Vivian e Carlos Cunha esperam seu primeiro filho para julho. Outra marca que já tem seu nome no mercado é a Delano’s Collection, de Gerson Delano, um dos homens mais elegantes de nossa cidade. E ainda, foto de Martinho da Vila com Mário Magalhães e Chico Moura recebendo Fagner.

ABRIL DE 1986 A primeira entrevista com Helô Pinheiro, a Garota de Ipanema. O Restaurante Sugar Loaf é sucesso em Miami. Seu proprietário, Chaleur (leia-se Chalé), é um dos mais experientes profissionais da indústria hoteleira. Trabalhou no hotel Waldorf Astoria de New York e foi dono do restaurante Chale’s em Queens. Maria Estela Esplendore, viúva do costureiro Denner, vive em Miami, onde aderiu à seita Hare Khrisna após a morte de seu marido.

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Jair Santos Júnior acaba de regressar da Europa onde foi promover a Carnival Cruise Lines. Luís Carlos Serra, campeão de vendas de passagens da cidade, passa seus fins de semana no eixo Paris-New York. Luís, acreditando na publicidade, veicula nos principais jornais dos Estados Unidos, como o New York Times, Los Angeles Times e Miami Herald.

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Aniversariou dia 13 de abril Sérgio Cunha, o Chê do Brazilian South Restaurant. Completou 24 anos. Chê é filho de Cida, a proprietária.

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Hugo Leite é diretor da agência de turismo Sete Mares.

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Ann Ruth Meireles, filha de Adão e Rafaela Meireles, estará se formando no dia 25 de abril na Embry Riddle Aeronautical University. Alan Kobrin é o responsável pelo programa de rádio “O Jeito Brasileiro”, todas as sextas-feiras a partir de 8:30 da noite, na WDNA – 88.9 FM. Chris Johnson é a especialista em ótica de Miami. Após 15 anos de experiência neste setor, Chris e seu marido, Scott, atendem a comunidade brasileira com honestidade e segurança.

MAIO DE 1986 Entrevista com Yaponam de Sousa, o personagem do mês. Casaram-se, no último dia 10 de maio, Vera Lúcia e Tony Samour, na Igreja de St. Joseph em Miami Beach. Matéria defendendo o Sérgio Brito da Varig que foi envolvido (erroneamente) num crime passional. Foto de Márcio Moreira, diretor de criação da Mcan Erickson por ocasião do First Brazilian Advertising Show, organizado pelo nosso diretor, Chico Moura, em New York, com a presença de Roberto Dualibi, José Roberto Withaker Penteado e Luís Oscar Niemeyer. Passou por Miami o Sr. Luís (Luigi) Avaloni. Esteve em Orlando fechando contratos/reservas para a próxima temporada. Avaloni é diretor da Queen Turismo de São Paulo. Paulinho Ferraz, da Monark, disse que a comunidade é ótima, unida, e que não viu nada, não sabe de nada. Ivan Meira ciceroneando em Miami o Senador Aloísio Chaves, Senador Milton Cabral, Deputado Federal Antônio Milton, Dep. Federal Tarcísio Burity e o Senador Murilo Badaró.


Recém-chegado do Brasil, Ary Piassarollo. É o maior guitarrista brasileiro em Miami.

Após filmar “Anjos da Noite”, Zezé Motta prepara-se para o show que fará no SOB de New York em agosto próximo. Terá o nome de “Vitamina Z”, com direção de Jorge Fernando e Guto Graça Mello. Dia 12 de junho nasceu mais um filho de Sandra e Pedro Oliveira. Pedro é funcionário do Consulado do Brasil em Miami. Nasceu no mês passado Stephanie, filha de Fernanda e Fernando Medeiros. Aniversaria dia 17 de junho Francis Salazar, a morena mais brasileira de Miami. Aniversariam dia 19 de junho Carlos Martins e Gina Eckerman. O casal contraria as previsões dos astrólogos, mantendo uma união tranqüila (?) e duradoura. José K Furi, gerente do Banco Real, foi assistir ao jogo Brasil x Espanha em Guadalajara , no México. Até autógrafo eu dei, disse K Furi. Outro brasileiro que deu autógrafos no México, o diretor de marketing da NCL, Ronaldo Batalha. Ele divide com Roberto Sas (Diretor da Transbrasil) o primeiro lugar em horas de vôos internacionais. Nesta edição começa a coluna de Nelson Slosbergas “Doing Business in the US”. E em pequena nota de Marcos do Santos de New Jersey: Último dia oito marcou a celebração da “Semana de Portugal”. Na parada oficial pela Ferry Street (que neste dia passou a se chamar Portugal Ave.) compareceram o Prefeito eleito de Newark, Sr. Sharp James, Antônio Matinho, o vice-cônsul português Jorge Cardielos, o padre Antônio Pinho, Bernardinho Coutinho, e outros. Entre as fotos: William Gonzalez (depois Brasília) da loja Victor’s International, Ruben da Galeria Ingrahan, Joe Attick (Samour & Attick), Moacyr Mou-

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JUNHO DE 1986

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ra, responsável pela distribuição no FR Brasil, Lucy Almeida, já então gerente do Hotel Chesterfield (antigo Helmor).

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FLAVIUS FERRARI

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O restaurante Brazilian South já era sucesso na cidade. Lá era o ponto de encontro dos brasileiros residentes em Miami. Cida Ignácio, Chê, Alemão e os cozinheiros Ruy, Maria Emilia. Todos ilegais. Na hora do almoço a imigração bateu no restaurante. Todo mundo correu pelos fundos. A Cida pediu que eu ficasse no caixa. Não sabia nem como apertar as teclas. Os homens de verde entraram e saíram. Foi tudo muito rápido. Parece que procuravam alguém. Passado o susto, sento numa mesa com uns amigos para contar o momento. De repente, lá do fundo levanta-se um cliente, atravessa o restaurante e me diz: — Este jornal é seu, não é? —É — Parabéns. Meu nome é Flavius Ferrari. — Obrigado. Nem prestei atenção no nome quanto menos na pessoa. Continuei a tomar a minha cerveja e a conversar com os amigos. Uns três dias depois, toca o telefone no meu escritório. — Alô, Sr. Moura? Eu gostaria de que o senhor passasse na Emerita Tours e pegasse uma passagem de ida e volta para Cancún, aqui no México. Estou interessado em fazer um anúncio no seu jornal. Rapidamente desliguei. “Deve ser trote de alguém”, pensei. Como pode alguém me mandar uma passagem para fazer um anúncio no México? Logo depois toca o telefone de novo. — Meu nome é Flavius Ferrari, administro um hotel em Cancún, no México, e gostaria de convidá-lo a passar uns dias em nosso hotel. Tenho interesse em fazer uma campanha publicitária no seu jornal. — Me perdoe. Pensei que era brincadeira de um amigo que tem uma voz igual à sua. — O sr. pode passar na agência Emerita Tours. A sua passagem está em aberto. Ao chegar a Cancún pedi ao agente da alfândega que me indicasse uma casa de câmbio. — Yo soy el cambio. — Não, o sr. não entende. Estou buscando um banco. — Yo soy el banco. E sacou um bolo enorme de dinheiro do bolso.


JULHO DE 1986 Manchete: “Brasileiros Invadem Miami” Especial: “Key West , o Caminho do Mar” A Maior Atração da Flórida: “Walt Disney World” Consulado Tem Novo Endereço: Mudou da Biscayne para o 777 Brickel Ave. Notícias de New Jersey: No dia 3 de julho faleceu em sua residência, em upstate New York, de um ataque cardíaco, Sr. Gilton Raymundo. Era presidente da RRR Travel, a mais tradicional agência de turismo (de brasileiros) americana. Já existe em Newark, New Jersey e em New York (na Rua 46) uma

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Com o câmbio que ele determinou, segui para a porta de saída. Do lado de fora uma louraça segurava um cartaz com o meu nome. Seguimos para uma limusine branca. E ela começou a falar. — Na realidade sou a consulesa da Costa Rica aqui em Cancún. E trabalho part time para o Sr. Ferrari. Ela me levou até uma suíte com dois quartos e vista para um parque aquático. Nas piscinas, mulheres para todos os tipos e gostos. Tomei banho e desci para o lobby. Sempre com a minha loura a tiracolo. Lá me esperavam Flavius e Amanda Ferrari, sua esposa. — Fomos convidados para almoçar num outro hotel. Se você não estiver cansado e puder nos acompanhar, será um prazer. Com todos aqueles latinos de Miami, aquelas lojas cheias de pessoas mal-educadas, encontrar a família Ferrari foi um bálsamo. — Lógico que eu vou com vocês. O resto é história. Fiquei em Cancún oito dias, com todas as despesas pagas. Festas todos os dias, mergulho, pesca. Aluguei uma moped para andar pela cidade. Nos últimos dias conheci um casal de brasileiros que tinha uma butique perto do mercado popular da cidade. Ele era filho do Omar Cardoso, um famoso astrólogo dos anos 60 no Brasil. O filho viveu em Paris, casou e mudou para Cancún. Era responsável pelo fashion designer de todos os uniformes dos hotéis de Cancún. Pedi para que eles guardassem a minha moped em sua loja. Queria me “perder” pela cidade, pela puebla. Peguei um ônibus todo pintado com cores fortes e fui para o ponto final de um pueblo. Após várias tequilas e diversas histórias, só voltei no dia seguinte, com muita dor de cabeça. Flavius fechou um contrato de duas meias páginas no jornal, por um ano.

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agência que envia o seu dinheiro para qualquer parte do Brasil. A cotação é no câmbio paralelo. O nome da agência é VIGO REMMITANCE.

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Neste ano conheci o Sérgio Vilhena, uma pessoa que para comigo sempre teve uma postura nobre. A vida é cheia de surpresas e Sérgio muitos anos mais tarde voltaria a cruzar o meu caminho de uma forma muito especial. Brazilian Energy – Para quem não conhece, este é o grupo musical brasileiro autêntico. É formado por quatro músicos profissionais, com dez anos de experiência em bailes e festividades, formaturas e shows em todo o Brasil. O grupo é composto por: Reinaldo (baixo e vocal), Marcos Pontes (teclados e vocais), Odimar (bateria e vocal) e Bandinha (sax e trompete). Passaram pela loja Kalu Place, Carlos Eduardo Dollabela, Roberto Carlos e o Sérgio Malandro, que filmou um videoclipe da loja para o Programa Silvio Santos. Ainda em Miami o Esquadrão de Ouro do Bicho Brasileiro: Miro, Castor de Andrade, Antônio Turco, Anízio e Luizinho Drumond. Gisela Sarney (irmã do Presidente José Sarney) almoçou no Restaurante Gordo’s, com toda a família Sarney. O Restaurante Gordo’s foi criado por Wenceslau Soares Júnior e Leila Aguiar, que em muito pouco tempo o arrendou para o Luís Barbosa e a seguir para o Paiva, voltando para o Barbosa. Logo depois Soares criou a loja Yes Brasil. Armando Nogueira, o homem forte do jornalismo da rede Globo passou por Miami após temporada em Nassau. Foi assistido pela Hotur, a agência de classe e tradição de Miami. Miguel Ângelo de Oliveira é o popular “Careca”– atende aos navios brasileiros que passam por Miami. Poucas pessoas sabem que, além do Custódio de Mello, vêm a Miami o Cisne Branco, as Fragatas Constituição e Liberal. Sandro Gherardi, da Hotur, informou que recebeu mais de cinco mil turistas brasileiros na última temporada. Somente nos vôos charters da Vasp foram mais de 10 fretamentos. Entre as fotos:


Wenceslau Soares, proprietário do Restaurante Gordo’s.

Roberto Bechtinger do Hotel Paradise Inn sempre ajudando os brasileiros de Miami. Nelson Ned no Restaurante Brazilian South com Genival Melo, coordenador do Grupo Nelson Ned Promoções Artísticas. Pepe, ex-gerente do Hotel Helmor, no salão de beleza Valenti’s de Miami Beach. Isabel Silva, braço direito do incansável Victor, da Loja Victor’s International. Stela Rocha e Helene Chalviré na loja da Varig na Flagler Street, o homem mais elegante da cidade de Miami, Gerson Delano Weissheimer, da Delano’s Collection, Amanda Ferraz (Monark), Walter (Brazilian South), Helena Valenti.

AGOSTO DE 1986 Manchete: BRASIL, OU VAI OU RACHA Nesta edição foi criada uma seção de New York com Hélio Gusmão da Vigo; NOTÍCIAS DO BRASIL. Manoel Mira é o Presidente do Clube Português de West Palm Beach. Joe Rasgado é o responsável pela saúde dos brasileiros de Miami. Mais um restaurante brasileiro: desta vez é o Gina’s situado no número 6954 da Collins. Além de Gina, a culinária fica por conta de Lair Rosa e Waldir. De (Marcos Cardoso dos Santos) New Jersey: Neste verão, a Ferry Street (em Newark) está mais alegre: Jorge e

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Rodrigo Soares, que de Miami coordena o sucesso de seu jornal “Diário Popular”, o jornal mais tradicional de São Paulo. Rodrigo ofereceu uma linha direta de notícias para o Florida Review.

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João Loureiro resolveram colocar mesinhas à frente de seu restaurante, o tradicional Iberia.

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Chegará em Newark, proveniente do Brasil, o advogado Luiz Gerundi. Vem visitar sua filha Jane e seus netos Paul e Mônica.

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Martinho da Vila voltará a Newark. Após viver muitos anos nos Estados Unidos, o Sr. José Batista foi passear em sua terra natal e se perdeu dentro de sua própria cidade – em Portugal. FOTOS: Denizar Maciel do Consulado do Brasil, Vera de Sousa, Ethel e César Pinto na Sonria de Orlando. A baiana Amara Guimarães, tradicional figura da comunidade brasileira de New York. A elegante Déa Mara Sorren, num momento de descanso ao final da temporada de julho. Chico Moura com Berta da loja Berta Brasil de New York. Fernando Natalici, representante do jornal FR em New York. Luís Gomes do Restaurante Via Brasil de New York trabalhando duro, todos os dias, no almoço e jantar. Chaleur preparando-se para o próximo show na cozinha do “Sugar Loaf Restaurant” de Miami. Além do show na cozinha, Chaleur sobe no palco e canta como um profissional nas noites de sexta e sábado. Hélcio Milito, criador do Tamba Trio, lê o jornal FR na loja International Latin Products, de Tony (Pinheiro Pires), em New York. Em Washington D.C., o FR faz sucesso: o restaurante Dona Flor é outro ponto de distribuição. Na foto, Décio Andrade, Chico Moura, Mauro Gomes, o pianista Eduardo Prates, o proprietário Heitor Moura e Laerte Andrade. Delmário Silva, o “alegre” cabeleireiro brasileiro de Washington. Na foto de 1961, Adão Meireles, atual Adido do Consulado do Brasil em Miami, Léa Pereira (Consulado do Brasil em New Orleans) e o Sr. Sebastião Paradela (atualmente servindo na Bahamas) são vistos num cocktail realizado nos salões do Hotel Waldorf Astoria em New York. Warley da Silva, ao lado da esposa e filhos, no restaurante Sugar Loaf. Márion Vogel visitando a amiga Cida no restaurante Brazilian South.


SETEMBRO DE 1986

A artista brasileira Tânia Maria, que foi entrevistada com exclusividade para o FR em fevereiro de 1985, pelo jornalista americano Howard Moss, voltará a se apresentar em Miami. O produtor Paco de Onis promete realizar um show inesquecível dia 16 de outubro próximo na discoteca OVO, situada no número 1415 da Collins Ave, em Miami Beach. O novo Cônsul-Geral do Brasil em Miami é o Sr. Ministro Luís Fernando de Oliveira e Cruz Benedine, que vem substituir ao Sr. Embaixador Carlos Alberto Pereira Pinto. A coluna de gastronomia de Antônio Nina apresenta a receita de uma verdadeira Feijoada. Wenceslau Soares completou 33 anos no dia 22 de agosto de 1986. A festa foi comemorada dia 30 do mesmo mês em sua residência à volta da piscina. Presentes: Nina, Oliveira, Stela e Tina (Varig), Ziclair e Luísa, Zé Alberto, Alex, Fernando Ruiz, Sr. Urano (policial de Miami), Dona Margarida, Dona Leda, Francisco Aguirre, Alfredo e Norma Santis e mais de 100 convidados. A banda de Ary Piassarollo, Howard Moss e Rene. Ninguém ficou de pileque. Dia 28 de agosto, no South Miami Hospital, nasceu Priscilla Barbosa, filha de Nívea e Eduardo Barbosa. Miami Samba Group é o nome do conjunto de Paulo Gualano que já atua há seis anos em nossa cidade. Paulo, antes de morar em Miami, viveu em Chicago, onde começou a sua vida artística. Já realizou diversos shows em West Palm Beach, Ft. Lauderdale e Miami Beach, acompanhando cantores brasileiros como Jair Rodrigues (1984), Emilinha Borba (1985) e Martinho da Vila (1986). Dia 11 de agosto nasceu Bruno Laino Cunha, filho de Carlos e Vivien Cunha no South Miami Hospital. Rodrigo, o simpático garoto brasileiro de Miami, comemora oito anos dia 11 de outubro.

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A coluna Doing Business in US continuava a fazer sucesso com o advogado Nelson Slosbergas. Assim como a primeira coluna da VIGO (Hélio Gusmão) sobre Minas Gerais.

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Dia 3 de outubro, completa 17 anos de idade Carlos Henrique Baltazar Moura.

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Fotos: Roberto de Sousa editor do Florida Travel News. Ziza, músico e compositor mineiro com restaurante em Guarapari, no Estado do Espírito Santo.

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Fotos da Festa da Independência do Brasil da rua 46 de New York. Graziela, secretária de Halph Conti da Varig. Leila Aguiar, Ziclair e Luísa na festa de aniversário de Wenceslau Soares. O reencontro em Miami de Tony Villarindo e Carlos Martins, amigos do Havaí nos anos 70.

ROBERTO BETCHINGER O carioca Roberto Betchinger era o responsável pelo hotel Paradise Inn. Na região da rua 41, em Miami Beach, conheci o Roberto como anunciante no jornal O Globo. Depois nas primeiras edições do jornal Florida Review – a partir de 86, já na rua 85 e a Harding Avenue, Roberto começa uma nova campanha de publicidade. Após os anúncios, o hotel manteve uma taxa de ocupação com 70% de hóspedes brasileiros. O seu jeito mais sério escondia um coração do tamanho de um bonde, sempre atendendo aos nossos pedidos. Durante muito tempo eu fiz uma permuta com o hotel. Muitas e muitas vezes o pessoal do Consulado do Brasil me ligava com problemas. Brasileiros que eram roubados; sem passaporte e sem dinheiro, tinham que se hospedar em Miami até a data do vôo de volta. Me ligavam (por indicação do Consulado) e eu os acomodava dentro de nossa permuta no “HOTEL DO ROBERTO”. Pessoas que nunca cheguei a ver, a conhecer pessoalmente. Roberto nunca me disse um “não”. Eu comecei a acreditar que alguma coisa boa havia feito no passado para receber tanta gentileza de tantos amigos, e Roberto Betchinger era um deles.

OUTUBRO DE 1986 Disneyworld, a festa de 15 quinze anos - Na primeira semana de outubro, foram celebrados no complexo Disney/Epcot Center os


Valnei Santos, criador do mercadinho Via Brasil (Miami Beach), recebendo em sua loja da Collins Ave. a primeira carga de guaraná do Brasil.

O casal Américo Torneiro em Miami (exCabana Carioca, restaurante de NY).

Silvinho Ferraz, Mariana Denis Lay (Seaquarium-Miami) e Silvio Ferraz (Monark) fechando pacotes turísticos.

O músico Mú (Cor do Som), a esposa Lina Quinderé, a cunhada Fernandinha Quinderé e o amigo Fernando Medeiros num cruzeiro pelo Caribe.

Eduardo Casali e o homem de turismo Carlinhos Lopes, na agência Happy Tours de Miami.

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A cabeleireira Leiko e João no início de carreira em Miami Beach.

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Rosalia Galdi (à esquerda) ensinando guias de turismo na Flórida.

Ronaldo Batalha (ao centro) recebendo, pela primeira vez em Miami, a "Garota de Ipanema").

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O ex-jogador do Flamengo Yaponam de Sousa com Angélica e filhos.

O piloto Raul Boesel em começo de carreira sendo patrocinado por João de Matos da BACC de New York.

Julio Mazzei (Copa Pelé), José Maria Marin (exgovernador de São Paulo) e o pioneiro do turismo em Miami Jair Santos, no Orange Bowl.


Banco Português é inaugurado em Miami – O Banco Português do Atlântico é o maior banco comercial de Portugal. O cocktail de inauguração contou com a presença do Sr. Antônio Cavaco, João Esteves da Silva, Rui Xará, José e Theresa Theriaga, o casal Lucena, Victor da Silva, Anthony Campos, Louis Grilo, Luís da Silva, Rangel Dantas Brasil, Gerson Delano e sua esposa Maria Gladys de Betancur. Pintora Brasileira – Um sucesso o cocktail de inauguração da mostra da pintora Nair de Carvalho Janstein no último dia 9 de outubro no Venetian Town Residences em Miami. Passou por Miami José Perlingeiro Neto, da Perlinter. Inaugurado o Brazuca Restaurante, em Newark, New Jersey. Dia 31 de outubro, Mário Magalhães anuncia o seu Baile de Halloween, no Hotel Hyatt, com a orquestra do Maestro Serrinha. O grupo Real acaba de fechar negociações para a inauguração do Banco Delta – o primeiro banco de brasileiros em Miami. Paco de Oniz, um americano da Califórnia que morou muitos anos no Leblon, no Rio de Janeiro – o pai foi correspondente do New York Times no Brasil – depois de criar o Festival de Música no Caribe (Cartagena) montou em Miami a Crossover Concerts. E começou a anunciar o show de – nossa já conhecida cantora – Tânia Maria. Com preços de 12, 15 e 17 dólares. Paco foi o primeiro americano a promover grandes eventos brasileiros em Miami. Mais tarde, com o sócio James Quinlan, abriu o Cameo Theater.

ROGACIANO LEITE Ainda no mês de outubro, homenagem a Rogaciano Leite, um “cantador” do nordeste que faleceu no Rio de Janeiro em outubro de 1969. E um trecho de um poema de Patativa do Assaré: Hoje, o teu estro se expande Na Eterna Mansão Divina.

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200 anos de assinatura da Constituição americana e os 15 anos da existência da Disneyworld. Cinco mil jornalistas de todo o mundo foram convidados para a Festa do Século. Fui com minha mulher (Glorinha) e registramos uma das mais belas festas da história.

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Para musa assim tão grande Esta terra é pequenina. Foste levar teus abraços Ao insigne Guimarães Passos E Antônio Gonçalves Dias. Terás ponto de destaque Junto a Olavo Bilac, Castro Alves e Tobias Guiado por santo lume, Foste simples cantador, Mas, como o pássaro implume, Que se transforma em condor, Tanto voaste e subiste, Até que, um dia, partiste, Com os louros da vitória. Dorme em paz, Rogaciano: O Céu, a Terra, o Oceano, Cantarão a tua glória.

O SONHO DE TRABALHAR EM JORNAL Rogaciano era um poeta pernambucano – também chamado de “o melhor cantador do nordeste”. Viveu a maior parte de sua vida no Ceará, onde constituiu família. Como repórter, vasculhou a Amazônia, ganhando Prêmio Esso de Reportagem na cobertura da matança do padre Caleri. Lá, se apaixonou perdidamente por uma francesa. Ao retornar de Paris, com o coração partido pela separação (afinal ele ainda era casado), chegou à nossa casa, no Rio de Janeiro, para visitar meus pais. Eles tinham amigos em comum, da época do antigo Diários Associados. Conheci Rogaciano Leite, autor com Silvio Caldas da música “Teus Cabelos Cor de Prata”, poucos dias antes do meu aniversário: — O meu maior desejo na vida é trabalhar em jornal. Aqui, aos 22 anos de idade, neste ano de 1969, é difícil conseguir uma apresentação. Rogaciano imediatamente me levou ao Carlos Lemos, um diretor do Jornal do Brasil. — Este garoto quer trabalhar em jornal. — OK, vamos conversar. Eu vou viajar. Mas na semana que vem vocês podem voltar e a gente conversa. Dali seguimos para o Correio da Manhã, jornal que em 69 apresentava os dossiês de presos políticos e as fichas criminais do DOPS. Por último, me levou ao jornal Última Hora, de Samuel Wainer.


NOVEMBRO DE 1986 Manchete: PRESIDENTE SARNEY GANHOU O BRASIL Jorge Siciliano é o novo supervisor da Hotur em Orlando. Raymundo Soares é presidente da Good Trade, Vice-Presidente da Agridisc e presidente da “Right Price”. Na Agridisc, com o ex-engenheiro da Varig, Rubens Russowsky, representam a Baldan, uma das maiores indústrias brasileiras de peças e equipamentos agrícolas. Luís Eduardo Santos é o único brasileiro de Miami que pertence ao quadro de “Police Officers” da cidade. Carlos Martins é a mais nova aquisição do Florida Review. Vai ser o homem responsável por toda a parte comercial do jornal brasileiro que mais cresce nos Estados Unidos. Silvio Ferraz, irmão de Paulo Ferraz, da Monark de Miami, é o maior nome da indústria turística no Brasil em volume de passageiros. A Monark é a primeira agência na emissão de tíquetes para Miami. Mais uma empresa é criada em Miami. É a Astral Freight Services”. Eliane Lessa à frente dos negócios de carga para o Brasil. Nasceu dia 16 de outubro Dexter Anthony Samour, filho de Lúcia e Tony Samour.

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Rogaciano conhecia todo mundo de jornal. Antes e depois de cada visita parava num bar qualquer e pedia uma bebida. Nas duas últimas noites anteriores ao meu aniversário, eu o acompanhei pela cidade. Viramos a noite pelo Rio de Janeiro. Ele me contou de sua paixão pela francesa. A sua trajetória. No dia 4 de outubro de 1969, ao completar 23 anos de idade, convidei Rogaciano para uma festa em minha casa. Mais de 100 pessoas presentes. Ele cantou, dançou, e saiu de táxi para o hotel. Tomou estricnina e morreu. Eu ainda havia insistido em levá-lo ao hotel. — Não, hoje é o seu aniversário. Pega mal sair de casa agora. Foi uma das tatuagens mais marcantes de minha vida. A pessoa que mais se interessou pelo meu futuro de jornal SUICIDOU-SE NO DIA DO MEU ANIVERSÁRIO.

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Foi inaugurada no dia 14 de novembro a loja “Carol Shop”, de Denise e Tony Moura. Carol - é o nome da filha do casal.

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João Sobrinho, do Restaurante Brasil Tropical de Washington, informa para dezembro próximo show de Emilinha Borba.

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Completou 59 anos no dia 30 de outubro o Sr. Tonico Teixeira. A dinâmica Leila Soares à frente da Yes Brasil, a mais nova loja brasileira de Miami. O economista do IPEA Léo da Rocha Ferreira veio a Boston dia 17 deste mês realizar conferência na área de economia agrícola. Léo é PhD formado em Gainesville, Flórida. Da Bahia, Virgínio Loureiro, da Bahiatursa, promete enviar artigos para o FR.

DEZEMBRO DE 1986 FÉRIAS, MAIS DE 100 MIL TURISTAS BRASILEIROS VISITAM MIAMI “Mais uma vez os turistas brasileiros invadem a cidade, com suas roupas coloridas, com a alegria de um povo, que embora sendo iludido por alguns poderes misteriosos que dominam o Brasil, não perdem o humor, a picardia e o carisma que os outros povos não entendem, mas admiram...” Assim começava mais uma matéria sobre o nosso povo brasileiro em Miami. Brazil Legal Culture, colaboração do Professor de Direito da Universidade de Miami Keith Rosen. Na coluna de New York – Hélio Gusmão da VIGO: O mayor Koch, o Prefeito de New York, cumprimentou recentemente a Adhemar dos Santos pelo excelente serviço do restaurante “A Cabana Carioca”. Jota Alves, editor do mais tradicional jornal brasileiro nos Estados Unidos, o “The Brasilians”, realizará dia 21 de fevereiro de 1987 mais um baile de Carnaval no Hilton Hotel de New York.


E na coluna de New Jersey de Marcos Cardoso dos Santos: Monique Evans passará o réveillon de 86 em Newark, a convite de Pauletty.

De Washington: Jailton Neves é Presidente da Primeira Escola de Samba da Capital dos Estados Unidos. É a “Carmen Miranda Samba School”.

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O United Brasil informa que realizará o tradicional baile de réveillon na sede do Polish Falcons, animado pelo conjunto “Som Brasil”, de Rui Guerra.

Lucinho Tropical (depois Bizadão) é “One Man Show” da cidade de Washington.

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O músico Bezo Cerqueira esteve recentemente em Washington e deu o seu alô no Brasil Tropical. E ainda da Flórida: Hilary Langen, presidente da Câmara, reuniu mais de 70 associados em sua residência para a tradicional feijoada. Completou 19 anos, no dia 18 de dezembro, o homem das “artes” Felipe Capelo. É responsável pelo sucesso da diagramação do jornal FR. Dia 15 de dezembro Leila Soares completou mais uma primavera. Roberto Sas, da Transbrasil, informou que a partir de 15 de dezembro de 1986 a empresa comandada por Omar Fontana estará operando com vôos diários do Brasil para Orlando, na Flórida. Marcos Machado, ex-Cotia Trading, informou a criação de mais uma Trading em Miami. Inaugurada dia 28 de novembro a “American Supply”. Marise e Celso Cipriani passaram pela loja Sonria. O carioca Paulo Chame dos Santos chegou do Brasil velejando com quatro amigos no Cinq Gar Pour. A Vasp tem contrato com a Hotur e a Monark para voar quatro vezes por semana para a Flórida. A guerra começará em março de 87 quando Vasp, Transbrasil e Varig farão os devidos acordos.


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A partir de 87 o jornal já era sucesso em Miami. As principais agências de viagem do Brasil recebiam (via Varig) todo os meses o único jornal brasileiro da Flórida. A comunidade ia se formando ao redor das festas de carnaval dos arquiinimigos Paulo Gualano e Mário Magalhães, o pessoal da Câmara do Comércio, do Grand Prix (com Emerson Fittipaldi representando o Brasil), a turma do Consulado, dos restaurantes; Brazilian South, Gordo’s, dos shows de Jamelão, Tonia Elizabeth, Ary Piassarolo... Naquela época parei de ler. Não conseguia mais terminar um livro... Comecei a me preocupar com a falta de cultura, o abandono das letras. A vida era uma festa constante... No dia 8 de dezembro de 87 a inauguração do Bayside, e em Coral Gables, o Primeiro Festival de Filmes Brasileiros no Cinema Arcadia – os filmes: Happily Ever After (Além da Paixão); de Bruno Barreto, Dona Flor e seus dois maridos; “Bye Bye Brasil” de Cacá Diegues; Xica da Silva com Zezé Mota, Quilombo, I Love You (Sônia Braga), Gabriela, Pixote de Hector Babenco e Ópera do Malandro. As notícias dos amigos de New York; Edmeia, Shia Knobel, Munir Helayel, Lawrence Vega, Loremil Machado, Pé de Boi, Saravá Bahia Band e do amazonense Thiago de Mello... Quem abrir o New York Times e vir um cartum assinado por Redinger, pode ficar sabendo que se trata do nosso carioca Redi. De New Jersey, Marcos (Magrelo) mandando as notícias de Paulety superativo em suas festas para a comunidade (Baile da Saudade, Beth Carvalho, Jair Rodrigues), Gether Vianna, Cubu, Gil Faria do Scorpio, Dr. Moraes, Kaká dos Santos, Vera Cotrofe, Regina Martins, Claudine (mulher do Jair), Paul Skarin, Mônica dos Santos, Roberto Lima, Torró, Roberto Calegari, Lidia, Jack Bola, Cezar, Gilmara, Marly Pinto. Do Brasil, o jornalista da TV Globo Paulo Roberto Leitão enviava as suas colaborações, assim como Moisés Fuks e Álvaro Feio, da Bel Air. Na Flórida, a Kalu Place, de Elda e Daniel, continuava a receber os notáveis brasileiros: Roberto Medina, Roberto Carlos, Joãozinho Trinta. Gerson Delano religiosamente jogando a sua pelada (futebol) na praia da rua 14 em South Beach, Luís Castro propondo casamento à Maria Emilia do Brazilian South, Carlo Gancia veio a Miami dar o abraço a Emerson Fittipaldi que vencia o grande prêmio de Cleveland, Sandro Gherardi, um dos dez mais elegantes da cidade, o advogado Barry Brumer, Joel Stewart, Fausto Silva do programa “Perdidos na Noite” descobre Miami. João Pereira começa a freqüentar o Bayside e a cantora Raquel Lima dando o seu recado no Jardin Brezilien com Landinho, Betinho, Carlos Silva, Sebastião Floriano (Tiko) Paulo César (bateria).


ROMERO BRITTO Numa manhã, recebo telefonema do Vice-Cônsul Sérgio Lacerda pedindo que eu fosse ao Consulado. — Chico, tem um pintor pernambucano que chegou esta semana a Miami. Ele está aqui no Consulado. Você pode vir agora? Fui correndo ao Consulado do Brasil. Passei a tarde conversando com o Romero Britto. De lá, dei-lhe uma carona até downtown, mostreilhe o local do Bayside. Naquele momento Romero me pediu um exemplar do jornal e disse: — Vou te dar um presente. E pintou o seu primeiro quadro em Miami. A cara de uma mulher com um estilo meio cubista. Logo depois me presenteou com outra obra – também pintada em jornal. A seguir, ainda em 1987, Romero Britto é apresentado à comunidade brasileira da Flórida com a seguinte matéria: Romero Britto, pernambucano de 23 anos de idade, é o artista que faz sucesso em Miami. Após viver dois anos em Paris, onde cursou a

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Tonia Elizabeth começa a escrever sobre música. O último show do violonista Segóvia (faleceu logo depois) com a última foto ao vivo – publicada no FR (o fotógrafo Felipe Capelo foi expulso do Jackie Gleason Theater, teve a câmera apreendida, mas guardou o rolo), os shows de Gibran Helayel, um carioca que em Washington fez apresentação de música clássica para o pessoal do governo americano. Paco de Oniz continuou a sociedade com James Quinlan e arrendam por mais 10 anos o Cameo Theater (mais tarde virou Crobar), com a gerente Laura Quinlan. Jorge Amado chegando a Miami para a Feira do Livro, Rogério Rubião do Consulado do Brasil presente ao evento. Jorge Amado abriu caminho para diversos escritores brasileiros que mais tarde participariam desta feira: Ziraldo, Jô Soares e outros... Roberto Burle Marx assinou contrato para a criação de uma nova paisagem para a Biscayne Boulevard. Jantar da Câmara no Hotel Sofitel. O artista Celso Werneck apresenta a sua pirogravura (ação do fogo sobre o couro). Presentes ainda Ricardo e Graça Brennand com a filha Lurdes. O empresário Ricardo é irmão de Francisco Brennand, artista que tem sua presença perpetuada em Miami no mural da sede da empresa Bacardi, na Biscayne Boulevard com 21 Street. A grande parede (painel) que mostra 28 mil azulejos pintados à mão é o orgulho dos brasileiros de Miami.

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“Ecole Beaux Arts”, apresentou em Londres seus trabalhos numa “vernissage” do “Queen Charlotte Hall”. Na Espanha, convidado pelo Professor Cláudio Murilo Leal, fez exposição na “Casa do Brasil”, onde o Embaixador do Brasil, João Carlos Pessoa Fragoso, adquiriu quadro do artista. Na Suécia, Romero ganhou prêmio (primeiro lugar) na exposição Internacional de Estocolmo – categoria originalidade. A Rainha Silvia tem em sua pinacoteca quadro do artista brasileiro. Em Berlim, deixou diversos trabalhos em exposição. Após uma breve passagem por New York, Romero Britto veio a Miami onde participou de um encontro de cultura brasileira no dia 24 de junho na FIU – Florida International University – Dia 2 de julho (Festa do Dia 4 de Julho) expôs seus trabalhos no Hotel Sofitel, assim como na festa da Queda da Bastilha, onde vendeu 15 quadros. A proposta do jovem pernambucano é expressar na tela a poesia do grande poeta pernambucano Manuel Bandeira. Com maestria, técnica apurada e seriedade... a estrela de Romero Britto já começa a brilhar. E como brilhou!!! Dia 12 de agosto, Gerson Delano presente ao aniversário do Cônsul Luís Benedine, no Consulado Geral do Brasil. Dia 10 de setembro de 87, o Papa chega a Miami. O tapeceiro (obras em macramê) La Barros inicia coluna sobre arte. O advogado Durval de Noronha Goyos faz conferências em Miami. A trágica notícia do falecimento de Beatriz Barbosa (Noca), em New York, que aos 21 anos, numa troca de vagão de metrô (em movimento), teve um mal súbito, desequilibrou-se e caiu. Estava recémcasada e grávida de cinco meses. O casamento de Álvaro Itajahy e Viviana Belaunbe. Hermes Simão (da Varig) de mudança para Fortaleza. O falecimento de Noelly Gonzalez, uma da mais queridas brasileiras de Miami. Márcia Braga participando do show do Le Violins de Miami. Lucinho Bisadão prestigiando a Festa da Independência do Brasil


em New York, com o time do Via Brasil campeão do Torneio, que já então Luís Gomes organizou.

Sunny Girl é o nome da fábrica têxtil que Mário Magalhães adquiriu em Miami. O gaúcho Valnei Santos e a baiana Beth são os proprietários do mercadinho Via Brasil...Yolanda é quem fica na linha de frente.

OUTUBRO DE 1987 Em outubro de 87, de passagem por Miami, com destino a Los Angeles, o diretor da “Mudanças Confiança” Luís Carlos Correia e senhora. A “Confiança” tem escritórios por todo o Brasil e representa diversas empresas de carga do exterior. Hélio Porto, produtor e diretor de cinema no Brasil, passou por Miami e esteve com seu amigo Mário Magalhães. Fernando Carvalho, um dos homens da PM Turismo, passou por Miami. Carlão (Carlos Martins) pescando lagostas e driblando a polícia em South Beach. Dona Maria e Fernando Pestana com mais de 20 anos de experiência no setor de hotelaria/restaurantes vieram para a Flórida e inauguraram o melhor restaurante de Pompano Beach: É o Brazilian Tropicana. Ninon Nad é a brasileira do mês. O Embaixador Marcílio Marques Moreira cumprimentando em Miami o pessoal do único jornal brasileiro da Flórida. O Dr. Jorge Macedo, José Ferreira, José Melo e o Dr. Neri Franzon já são os médicos em destaque junto à comunidade.

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Agnaldo Timóteo pela primeira vez se apresentando em New York, e Jeanete Bezerra (em New York) anunciando o seu baile de Carnaval de 1988, no Sheraton, com Elza Soares.

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Bill Williamson, ex-proprietário do jornal Brazil Herald (do Brasil), e sua esposa, a corretora de imóveis Vânia Williamson, mandam foto com o Presidente Nixon para a seção “Fotos em Lembrança”.

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Dia 8 de agosto nasceu mais um brasiliano (americano filho de brasileiros), Bryan Piccoli Loureiro, filho do casal Varig: Carlos e Lizette.

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Warley da Silva é o novo diretor da Brahma no Estado da Flórida. Tonia, Ary Piassarollo e Nestor Torres fazem show em downtown Miami. Daniel Garcia, da Kalu, recebendo em casa amigos do esporte: Luís Evandro (o Águia), Dedê Gomes, Laureano Garcia, Roberto (Coruja) do Amaral, Luciano do Valle, Henderson Royes (TV Globo New York) e Christine Barthas de Souza (Kika). Na abertura da semana brasileira do Hyatt: Américo Torneiro, Maria Emilia, José KFuri, Peter Beebe, Henrique Campos, Bruno Borghini, Marcio Crispin, Helene e Vasquez, Cividanes, Márcia do Restaurante Green Door. Bossa Nova comemora 25 anos em New York com Tom Jobim, Fernando Barbosa Lima, Oscar Castro Neves e Gal Costa. Carlinhos Lopes comemorando bodas de ouro. Chico Anysio passa por Miami e almoça no Brazilian South com Chico Moura. A loja Kuxixo de Norma e Cláudio Ramos abre no Bayside. Orlando Moreira, da TV Globo, começa a mandar notícias de New York...

1988 No princípio de 88, Cacá Diegues vem a Miami promover o seu filme “Um Trem para as Estrelas”, com avant-première no Gusman Cultural Center.


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Ninon Nad, uma das cariocas que inaugurou a turma de brasileiros na praia de South Beach – início dos anos 80.

O amigo de infância Claudio Pereira com a esposa, Amelinha, e filha.

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Chaleur, uma mistura de “chef ” e cantor, animando as noites do“Sugar Loaf”, um dos primeiros restaurantes brasileiros de Miami.

Munir Helayel e Léo Ferreira no Hotel Plaza de New York.

De volta ao Bar Veloso, no Rio de Janeiro: Chico Moura, Nelson Luiz Oliveira e Gil Paraíba.


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Patrocinado pela Adams Travel (a primeira remittance de Miami), Paulo Gualano e sua banda.

O americano/brasileiro Donald Sutton, um dos patrocinadores dos bailes de carnaval de Miami.

Maria Estela Esplendore (viúva do costureiro Denner) com as filhas que também aderiram à seita Hare Krishna, fazendo cânticos pelo Bayside.

O músico Paulo Gualano com o mais perfeito grupo de artistas brasileiras no exterior.

Pedro da Silva (do consulado do Brasil em Miami ) virou Rei Momo e animou a festa.

O mineiro Torró, como músico, deixou a sua marca registrada nos Estados Unidos.


Carlos Alberto (Capita) é o novo técnico do Miami Sharks. Roberto Marinho envia carta de congratulação ao artista Romero Britto.

Leila Soares, Norma Barros, Luiz Cláudio Ferraz e Tânia Silva respondem questionário de La Barros: Carnaval é Arte? A despedida do Brazilian South (o prédio foi derrubado), o primeiro restaurante brasileiro de Miami. Juan Canales é o vendedor de jornais da cidade. Daniel Podboy Garcia e Elda recebendo: Beliza Ribeiro, Mila Moreira, Luiza Brunet, Jorge Goulart, Nora Ney, Ary Toledo, Marly Marley, Zico e Sandra, Adalberto (Flamengo), Tancredo Augusto, Luciano do Valle, Rosa Maria Murtinho, Rosemary, Chico Anysio e Henrique Amaral (irmão do Ricardo). Passando por Miami, Ivan Muniz e Hélio Gusmão da Vigo. No Carnaval de Paulo Gualano no Hotel Fontainebleau: o humorista Bobby Fotão, Rejane Braga Barroso, Beatriz e Tim, Wilson da Brahma, Leila e Denis Lupovic, Don Sutton e Lutty, Roberto Bechtinger (Paradise Inn). Roberto Costa começa o som do Regine’s em Coconut Grove. Dia 10 de fevereiro, no Cash Bar, Warley da Silva e Wilson Ferreira, da Brahma, receberam homenagem da Câmara de Comércio Brasil – Estados Unidos (da Flórida). Chega a Miami o dentista Nelson Marques. Juan Garcia (Juanito do La Ideal) promovendo a comunidade brasileira. Adriana (atual Duba), Marize e Borracha dando show no Carnaval da Calle Ocho. Paulo Gualano faz amizade com o cantor Roberto Torres e Célia Cruz.

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Donald Sutton, da Adams Travel, abre oficialmente a primeira remittance da cidade de Miami.

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Voltou para Miami Luís Ernesto Ramalho Gozzoli, de 33 anos, formado pela faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Luís organizou o torneio de tênis com a participação de Nelson Slosbergas, Robert Macaulay, Juan Zorilla, Luiz David Azambuja, Daniel Paiva, Henrique Campos, Bruno Borghini, Michele Laurin (única mulher no torneio), Robert Gomez, Greg Gigell, Don Sutton, José KFuri e Caetano Lopes.

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Tony Moura patrocina Carlos Ehlke. Raul Boesel desponta como grande piloto patrocinado por João de Matos. Julio Iglesias casa com a brasileira Daisy Nunes. Faleceu dia 14 de março, no Barnabas Medical Center em Livingston, New Jersey, aos 37 anos, Ângela Pribyl (esposa de Yaro). Astrud Gilberto fazendo show no SOB de NY, em março de 88. Mário Magalhães reúne a Orquestra Copacabana para acompanhar Beth Carvalho no Hyatt Hotel de Miami. Presentes: Adão Meireles, Baianinho de New Jersey, Antônio Rocha, Johnny Marciano (diretor do canal 51), as filhas de Mário, Andréia e Luciana (vieram de New York), Lutty Sutton. Romero Britto fez a decoração do baile. E ainda, Luíde, Daniel, Kika, Denize e Tony Moura, Lauro. Um dos melhores bailes realizados na cidade. Paula Gonçalves de Sousa é a gatinha do mês. Agora existem três remittances: Adams, Goval e Vigo. Luís Ayrão fez show na casa de Paulo Gualano com patrocínio de Donald Sutton, da Adams. Kleber, o melhor jogador do Torneio Goval, recebeu de Aloísio Bastos (Carcará) a sua merecida medalha. Carcará, ao final do torneio, sorteou um terreno em Alcobaça, na Bahia. Carlinhos Lopes anuncia aposentadoria. Show de Roberto Carlos lota o Hotel Intercontinental. Presentes Emerson Fittipaldi e Miriam Rios.


Em abril de 88 a notícia da abertura da Adams Travel de Boston, com Luís Ayrão e a promoção do radialista Marcos César. Marcos, que já apresentou cantores como Belchior, Emilinha Borba, Beth Carvalho, Pé de Boi (Escola de Samba de New York), Jeanete Bezerra, Lucinho Tropical (Bizadão) ou Lucinho do Cavaco e outros. Dia 11 de maio de 88, Nelsinho Motta vai dirigir a parte brasileira de um festival de arte em NY: Gal Costa, Caetano e João Gilberto, no Town Hall. Jacques Bola, o mais recente produtor de Newark, New Jersey, volta com o seu “Festival de Talentos”. Dia 26 de maio, aniversário de Donald Sutton. Futevôlei chega a Miami (Rua 14 em South Beach) com Brazil Borges (que vive no Havaí), Carlos Santana (ex-goleiro do Santos) e o craque do Miami Sharks, Dirceu Guimarães. Brazil Borges chegou no Havaí em 1969. Primo do Zé Bonitinho (comediante da TV brasileira), recebeu muitos turistas em Honolulu. Foi um dos criadores do futevôlei de praia (na ilha) e durante muitos anos vendeu fotografias de turistas - principalmente japoneses – com um papagaio no ombro. Cada vez que eu ligava para ele no Havaí trocávamos experiências sobre “novos trabalhos”. E ele me dizia: “A vida é um eterno next page”. Discoteca Zoom é inaugurada por Mago Miguel, José Luís Volpato, Fernando Llos e Sérgio Optany. Romero Britto (em foto com Miriam Rios) acaba de fechar contrato para abertura de galeria em Coconut Grove. Germano Barbosa cria na Brickell a agência BR Tours. Passou pela primeira vez em Miami o navio-escola Brasil. O português Abel Silva sai da Victor’s e abre sua própria loja em downtown, a Abel Electronics.

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Tonia Elizabeth e Ary Piassarolo continuam preenchendo a música em Miami.

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Frank Rebouças abre a Deco Tours em Miami. Cristina Ruiz e Túlio Reis apresentam programa de rádio “Canal Brasil”, em New York.

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Velho Guerreiro (Chacrinha) partiu – dia 30 de junho de 88.

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Em associação da Crossover Concerts (Paco de Onis) e Rhythm Foundation (James e Laura Quinlan) e promoção de Chico Moura, o maior show do ano: Milton Nascimento, dia 6 de agosto de 1988, no Gusman Center – lotação esgotada – mais de 100 pessoas na porta sem conseguir ingressos. Benito Romero, Lindy, Jussara, Peri Ribeiro e Cacá Santos no Festival Fora de Série do Scorpio’s, de New Jersey. E ainda Kid Abelha e os Abóboras Selvagens. Yaro Pribyl, de New Jersey, foi com o filho Brian assistir corrida de Indianápolis. Emerson chegou em segundo. Show de Fagner, Robertinho do Recife e Manassés, no Hotel Deauville em Miami Beach – patrocínio de Donald Sutton – Adams Travel. Mais uma loja inaugurada em Miami, a Brasilia International, com Domingos e Edy Trofino, Willie e Gladys Gonzalez. Darcy sai do Hotel Helmor e começa a trabalhar na loja Carol Shop. Tony Moura solidifica amizade com Ayrton Senna. Luís Cláudio Ferraz aumenta sua loja, a Amec Center. Paulo Neves, Geraldo Ribeiro, Ed Ferreira e os irmãos Ozório vendem carros para a comunidade. Aimee Johnston, ex-esposa de Hélio Gusmão, abre loja da Vigo Remmitance em Pompano Beach. Carlão (Carlos Martins) sai do jornal e cria a Revista Miami Alegria. Dagmar e Luís Barbosa são os novos proprietários do Restaurante Gordo’s.


Joel Stewart continua sua coluna sobre imigração. Nasceu dia 28 de junho de 1988, em Edison, New Jersey, Marcelo Magalhães, neto de Mr. Carnaval – Mário Magalhães.

Márcia Motta trocou um cabaré de Santos por um restaurante em Miami. Após muitos desencontros na aquisição dos documentos, Márcia abre o restaurante com o propósito de criar um ambiente musical brasileiro. Paulo Gualano começa a fazer alguns shows. Todas as semanas um cantor diferente: Jorginho Mexicano (Jorge Alberto), Zizi Barnier e muita canja. Todo mundo tocava, todo mundo cantava. O garçom Alfredo Abreu larga o avental e dá um show no palco. Adilson Rodriguez, o popular Maguila, mostra pela primeira vez no restaurante “Made in Brazil” os seus dotes musicais e arranca aplausos da platéia. Nos Estados Unidos revelou-se melhor cantor do que lutador de boxe. Muita gente passou pelo “Made in Brazil”, localizado ao lado do Hotel Everglades: os sócios, Márcia, Eduardo e André, recebendo Gerson Poltroniere e senhora, Elizete e Salvatore Lo Turco, que haviam inaugurado a loja Escott International, Danilo Santos (o rei da Limusine) conhece Enilda, Eddy (filho de Zelico) na bateria deu show com Torró no bumbo, o discotecário Roberto Costa e o atleticano Eduardo Barbosa sambando com a filha Priscila no colo.

AINDA EM 1988 Naná Vasconcelos voltará a Miami dia 9 de dezembro. Paco de Onis e James Quinlan trazem Gilberto Gil e Djavan. O mais antigo funcionário da Varig nos Estados Unidos, Antônio Nina, é o homenageado do mês (despedida de Varig), com música de Zizi Barnier. Meu filho Carlos Moura chega a Miami. É criado por Roberto Lima, em Newark, New Jersey, em setembro de 88, o jornal Brazilian Voice. De New York, a excelente jornalista Heloísa Vilela começa a con-

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quistar o seu espaço na TV Globo, enviando para o Brasil matérias super interessantes sobre brasileiros nos Estados Unidos.

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Gerson Delano comparece à recepção de Tony Goldman em Miami Beach com as irmãs Paradela do Consulado.

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O pianista Benedine (Cônsul Geral do Brasil em Miami) faz recital no Gusman Cultural Center, em noite de gala. Em Miami, Miriam e Edson Gonçalves do Programa TV Destaques de São Paulo. Jota Alves faz uma de suas últimas festas na Rua 46 de New York, passando para João de Matos do BACC. Na festa: Edilberto do jornal The Brasilians, Luís Gomes, Ayrton Santos, Carlinhos Pandeiro de Ouro, Yone Kleger, Adel, Denise e Rogério Ribeiro (50), Benito Romero, Chico de Matos (BACC), Rose Lima, Francisca Botelho (artista plástica), Bárbara Chevalier, Hélio Gusmão, Antônio Soares, Wilson Egydio, Amara Guimarães, Alfredo Pedro, Jacques Bola, Jamelão, Newton Duarte (jornalista de Brasília), Ana Maria Tornaghi (jornalista do Rio), o casal Tânia e Marcos César de Boston (anos mais tarde mudaram-se para a Flórida), Frida Biermann, Mara Ramos, James Felzem. A despedida de Jota na Rua 46 – foi trabalhar com o governador de Mato Grosso do Sul.

CADELA AMAMENTA CRIANÇA NO BRASIL Fui distribuir jornais no escritório da Varig e encontrei o Bruno Borghini: — Chiquinho, o seu jornal está bárbaro. Muito bom! — Obrigado. Posso deixar alguns exemplares aqui na portaria? — Não só pode, como deve. Jeniffer, consiga aqui um espaço para o jornal do Chiquinho, meu amigo. Saí do edifício superfeliz. Aquela sensação de vitória. O jornal estava agradando ao gerente geral da Varig. Isto significava que continuaria a anunciar e a promover o nosso trabalho. Naquela época eu já ganhava uma passagem por mês ao Brasil em permuta com a Varig. Muito mais tarde descobri que foi só eu dar as costas e Bruno mandou jogar tudo no lixo. Fiquei arrasado. O tempo passou e o Luís Ernesto Gozzoli me chamou para um drinque no Fire & Ice. De lá telefonou para o Bruno. Passados alguns copos, falei:


BOAS NOTÍCIAS Numa das mordomias da Varig, passei um fim de semana no Brasil e encontrei na praia de Ipanema o Ministro Luís Fernando Be-

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— Por que você fez aquilo comigo? Você sabe que eu conheço muita gente e já soube que você mandou jogar o nosso jornal no lixo. — Chiquinho, eu sou um vendedor do Brasil. Tenho que falar bem do nosso país. Na Varig, tenho que vender passagens. Levar gente, divisas. O seu jornal sempre falou bem do Brasil. Mas aquela matéria de uma criança que sobreviveu amamentada por uma cadela foi demais! De fato, Bruno tinha razão. Pela primeira vez transcrevi trechos (do jornal Gazeta de Paulo Afonso) de uma matéria grotesca, surrealista, mostrando um Brasil odiento, pobre. Mesmo sendo verdade, descobri, vivendo na América, que a gente tinha que aprender alguma coisa com eles, com os gringos. Jamais os jornais americanos estampariam uma foto de um italiano beijando um americano na boca com uma seringa pendurada na veia. Ou um garoto de 12 anos fumando crack num gueto de overtown. Poderia talvez publicar a foto da pobreza de um imigrante mexicano coletando food stamps. A lei que nós conhecemos é a lei que a mídia nos impõe. O mundo americano é cheio de hipocrisias, de mentiras. Tudo é falso: os peitos são falsos, as bundas são falsas, as unhas, os cílios, a cor dos cabelos... As putas não gozam, as paredes são falsas, as galinhas são gordas e falsas. Engordam em duas, três semanas e são refletidas nos corpos mondronguentos registrados nas filas da Disneyworld. As árvores dão frutos rápidos, falsos, sem sabor. Um país que tem como presidente uma pessoa que fumou maconha mas não tragou, e outro que foi preso dirigindo bêbado. Todos advogados. De acordo com a lei americana, ele poderá limpar o seu nome (DUI) em 99 anos. E quantos tiveram ligações com vendas de armas, contrabando de bebidas???? A droga durante muito tempo entrou solta na Flórida. Com o lucro, foram reformados antigos hotéis, mais empregados, mais impostos para o governo. O Edge Act, pelo qual qualquer banco poderia ter uma agência na Flórida, foi uma grande jogada do governo. O paraíso dos ladrões sul-americanos. Depois a prisão e o confisco. Eles são os grandes mestres. O Brasil com toda a sua esperteza nunca entendeu que poderia tirar proveito desta política. Fomos todos idiotas. Costumo dizer que o governo americano é o melhor para o seu povo. Acho que, também no Brasil, poderíamos mostrar uma favela colorida, cheia de boa música, um Nordeste irrigado com muitas estradas asfaltadas, hotéis cinco estrelas... Mulheres encantadoras, mostrar as nossas reservas de petróleo – e parar com esta história de que sai caro explorar...

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nedine. Dia seguinte ele iria a São Paulo para ser entrevistado pelo Jô Soares, o nosso David Letterman brasileiro. Na entrevista rolou o papo da criação, no Itamaraty, do Departamento de Boas Notícias. Durante muito tempo me fixei nesta idéia. Por que não criar no exterior um Departamento de Boas Notícias? De preferência, notícias exageradas, mostrando um Brasil vitorioso, os nossos heróis... Sem furacões, terremotos, um Brasil bonito, celeiro do mundo. Chega de render homenagens aos ingleses, franceses ou americanos. Nestes trinta anos de esquinas pelo mundo, vi muita coisa boa. Mas nada comparado a uma, que só nós brasileiros temos: BOA ÍNDOLE. Somos um povo de boa índole. Até os bandidos são de boa índole. Costumo dizer que os nossos bandidos são bandidos circunstanciais. No exterior encontrei bandidos de verdade. Pessoas más, de genes maus. Herdeiros de cabeças deturpadas pela guerra, pela usura, pela ganância. O poder ilimitado, sem fim.

SEPARAÇÃO Em dezembro de 88, já estava morando de novo em Miami Beach. Saímos da casa de Kendall para um apartamento à beira da baía. Vivia com a terceira esposa, os dois enteados mais jovens e o meu filho Paulo Roberto, o mais novo, que acabara de chegar. Com o desgaste do relacionamento entre os meninos, a vida foi mudando e ficando chata para a minha mulher e para mim. Ela era médica, com consultório no Brasil, e não conseguia clinicar nos Estados Unidos. Os meninos mostrando insatisfação. Um dia, por uma bobagem doméstica qualquer, meio de saco cheio, fui passar uns dias no velho e amigo hotel Paradise Inn. Precisava refletir sobre o que realmente queria. O que realmente seria bom para todos nós. Fui ver o show do Naná Vasconcelos no centro de Miami. Na saída passei pelo escritório (que também ficava em downtown). Liguei a secretária eletrônica para ver se tinha algum recado. — Alô, aqui é a Dida. Sou amiga do Carlão, da revista Miami Alegria. Ele me disse que você poderia me ajudar a encontrar um médico quiroprático. Estou morrendo de dor nas costas. Meu telefone é... Aquela voz gaúcha me bateu como uma flecha. Ainda ouvi a gravação umas duas ou três vezes. Já era tarde para ligar, mas fazer o quê! Após duas horas de conversa (ao telefone), já estava apaixonado. Sem conhecer pessoalmente, sem saber nada – ou quase nada – daquela pessoa. Voltei para casa. Afinal era casado e precisava tentar consertar o casamento. Dia seguinte viajei para Orlando com a esposa e a cunha-


Jadiel Pires do Porcão e o ex-Ministro Luis Fernando Benedine.

Sandro Gherardi, da Hotur, eleito como um dos dez mais elegantes de Miami (à esquerda) com Bruno Borghini.

Fazendo ponte aérea entre EUA e Brasil, o homem de turismo Fernando Carvalho (meu excompanheiro do colégio Santo Agostinho) em foto no Iate Clube do Rio de Janeiro.

O advogado Gerardo Ribeiro Leitão conhecendo o Bayside de Miami.

Chico Moura com Roberto Burle Marx no lançamento do projeto da nova Biscayne Boulevard, em Miami.

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Em Pernambuco, o sociólogo Gilberto Freyre, apadrinhando Romero Britto, antes de sua viagem para o exterior.

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A primeira foto de Romero Britto tirada em Miami no Consulado Geral do Brasil. À direita o Vice-Cônsul Sergio Lacerda.

O músico americano Lionel Hampton aplaudindo os artistas brasileiros Raquel Lima, Landinho e Tico no Bayside.

O saudoso Augusto Maciel, (primo de Marco Maciel) funcionário do consulado do Brasil em Miami.

O advogado Durval de Noronha Goyos (à esquerda), fez palestra em Miami e recebeu: Luis Fernando Benedine, Thomas Skola, Renato Scaff, Newton Berwig e Henrique Campos.


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Flavius Ferrari, ex-diretor do Hotel Y Casa Maya de Cancun e ex-presidente do Holiday Inn do Brasil.

Com Romero Britto, na semana que o pintor pernambucano chegou em Miami.

Com Pelé no ano de 1987, em Miami.

Com Janelão em New York.

O casal Tony Rodrigues e Vânia Williamson.

Carlos Martins, em frente ao antigo posto de salvamento da First Street (hoje Nikki Beach) em South Beach, em 1985.


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Com o pugilista Maguila, em sua primeira apresentação como cantor nos Estados Unidos.

Com a Senadora Ileana Ros-Lehtinen, em solenidade na comunidade cubana de Miami.

No restaurante Via Brasil de New York, com Do um Romão (percussionista) e Helcio Milito (ex-Tamba Trio). Entrevistando Joãosinho Trinta em Miami.

Com o músico Manassés no show da ABAV, em Fortaleza.

Com Marilia Gabriela em Key Biscayne, Flórida.


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Eduardo “Borracha” e Henriquinho Marques no restaurante “Made in Brazil”.

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A pianista Tânia Maria dando show no Bicentenial Park, de Miami.

Chico Moura recebendo um troféu (escultura de Romero Britto) do pessoal do Brazilian Film Festival de Miami.

A saudosa amiga Cida Ignácio, proprietária do Brazilian South Restaurant, parte da história de brasileiros em Miami. Marcinho e Lucinho Bizadão em New Jersey.


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Helio Costa e Orlando Moreira em Hong Kong.

Fatinha Vilela, em seus melhores dias, na festa de carnaval de Miami.

Capitão Guimarães e Tucão, passando por Miami após Copa do Mundo no México, onde prometeram a garantia do pagamento do bicho aos jogadores brasileiros.

Denise, Faustão e Tony Moura na Carol Shop de Miami.


DEPOIMENTOS DE ROSÁLIA GALDI Uma das brasileiras que guarda boas lembranças de personalidades que passaram por Miami é sem dúvida a Rosália Galdi. Entre alguns de seus depoimentos, os personagens: XORORÓ — Durval, Noely, Sandy e Júnior sempre viajam em família nas férias. De vez em quando D. Terezinha (mãe de Noely) viaja com o grupo. Um dia o Xororó insistiu em me acompanhar na embalagem (com aquele plástico de proteção) de umas 12 malas. Já com as malas despachadas, vem um cubano correndo e gritando: “Señor, por favor, van a me botar... Donde está mi equipaje de amuestra?” Era tarde. Por coincidência era igual à da família Xororó... Àquela altura os fãs faziam fila para tirar fotos e o cubano não entendia mais nada. VICTOR FASANO — Um dia, antes de fazer sucesso como ator, foi jantar em minha casa. Muito tímido e calado me confidenciou que quando voltou da Eu-

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da que veio do Brasil. Encontrei o Jorge Siciliano, fomos aos parques. A cabeça o tempo todo naquela voz. Que bruxaria! Como poderia ser verdade? Eu nem conhecia a pessoa. Na volta não houve jeito. Tinha que conhecer a gaúcha. Telefonei e marquei uma hora. A porta entreaberta, fui batendo e entrando. Diz ela: — Entra, ainda estou no banho, saio já. De repente aparece uma verdadeira deusa, com os cabelos molhados, curtinhos ao estilo Demi Moore. No corpo uma roupa colada meio transparente, molhada. E aquele sorriso maravilhoso. Comecei a tremer. Não sabia mais o que fazer. Como era possível? Tão rápido? Saímos de carro para procurar o tal quiroprático. No trânsito, uma vizinha pára o carro num sinal e me olha. Arranco o automóvel sem cumprimentar a amiga. Ela vai correndo avisar a minha esposa. Com algumas coisas da casa deixadas num depósito, levei a terceira esposa – com os filhos mais novos – de volta ao Brasil. No avião o soluço intermitente, a sensação monstruosa de perder uma pessoa tão maravilhosa. Uma das mais fantásticas pessoas que conheci. Depois de muito choro, muita tristeza, volto a Miami. Fico hospedado no Paradise Inn. O velho amigo Roberto Betchinger sempre ao meu lado, sempre quebrando os galhos dos brasileiros perdidos.

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ropa, onde era modelo, carregava um lindo “book” e começou a fazer propagandas. O produto que ele anunciava vendia muito – com aquela cara lindíssima e o sorriso simpático – não tinha como... Os produtores o descobriram e passou a fazer as famosas novelas da Globo.

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EDSON CELULARI

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— Com recomendação de um amigo, chegou à nossa agência para alugar um barco e comemorar o aniversário de Cláudia Raia. Logo fui realizando meus sonhos e já tinha o barco e a festa pronta. Fui um pouco além e ele, muito seguro, foi cortando os extras. Enviei minha funcionária para enfeitar o barco e ofereci o bolo de presente. Ele é muito romântico. CHITÃOZINHO — Num jantar em South Beach estávamos eu, o Marinho, Cristininha Pacheco Fernandes, Emídio Many Carvalho e o casal (na época) Adenair e Chitão. Adenair me perguntou por que eu havia me separado. Eu disse que era bastante difícil estar com um homem muito bonito ao meu lado. O assédio era demais. Ela disse: “Com o meu marido também é um problema. As mulheres não o deixam em paz”. Mas ele é o Chitãozinho, respondi. BILLY RAY CYRUS — Sempre fui fã de Billy Ray Cyrus, e quando Emídio Carvalha me telefonou pedindo para reservar lugares no avião para o grupo que iria ao Brasil fazer um show com Chitão e Xororó, fiquei sem fala. Eu não poderia perder a oportunidade de conhecer o Billy Cyrus. Me arrumei toda e fui ao aeroporto. Tremia de emoção... Ele chegou com o grupo e o empresário no terminal H e nós tínhamos que ir ao terminal B, do outro lado do aeroporto. Achei mais rápido e mais seguro ir pelo segundo andar, onde tem as esteiras. Comecei a falar e não via que a esteira estava no final. Acabei caindo e eles em cima de mim como um baralho. Comecei a rir e disse: “Não acredito que isto tenha acontecido comigo. Me arrumei toda, até no cabeleireiro eu fui, olha só que vexame”. Ele me abraçou e riu muito. No embarque, a Transbrasil na época tinha um grupo grande para a Disney, e Billy estava sentado em um murinho. Uma garota queria tirar a foto de uma amiga e ele estava bem na frente. Ela pediu para ele se afastar porque estava atrapalhando. Toda a Banda caiu na gargalhada. Ele aí me perguntou: “Será que vai alguém ao meu show no Brasil?” Falei: “Estará lotado. Tenho certeza. Não se preocupe”. Ele iria fazer um show em Jaguariúna com Chitãozinho e Xororó.


JEAN-CLAUDE VAN DAMME — Quando foi para a Ilha de Caras, passou por nossa agência. É muito charmoso.

— Um dia chegou na agência a Anni Benevides, esposa do deputado Carlos Benevides, trazendo uma caixa de isopor com mais de 200 rabos de lagosta diretamente do Ceará. Imagina! Foi uma surpresa deliciosa. Faz tempo que não tenho notícias. Dizem que os cearenses são os judeus do Brasil. Não sei por que, mas que eles choram na hora de fazer negócio, choram. Andam sempre em turma grande, gastando muito e bem animados. QUÉRCIA — A família Quércia é extremamente educada. Tem um carinho especial pelas crianças. São quatro - um mais lindo do que o outro. Sempre sou convidada pela família para participar de algum evento no Brasil. O último foi o lançamento do Hotel Jaraguá, no centro da cidade de São Paulo, que já foi inaugurado. Era um almoço no Hotel Intercontinental. Fui convidada para sentar à mesa do governador. A meu lado estava o presidente da Sixflags, companhia que tem o headquarters na Inglaterra e é proprietária do Holiday Inn, Intercontinental, Quality Inn e outros. Hoje são os maiores do mundo. O arquiteto do hotel, que conhecia o prédio quando funcionava o jornal Estadão, da Família Mesquita, contou algumas histórias interessantes da época. Participei das festas de 15 anos de Andréa e Cristiane, filhas do Dr. Orestes e Alaíde. ANTÔNIO BELTRÃO MARTINEZ — Como empresário, um dos que mais eu respeito é o Sr. Antônio Beltrão Martinez e Dona Lecy. Ela é escultora e retrata a imagem dos personagens típicos do Brasil. Com ela aprendi que para ser elegante tem que ser simples e para ser sofisticada tem que ser natural e verdadeira. Quando estão em Miami não perco um almoço com esta família. Fizemos uma grande amizade. Jamais esquecerei aqueles bons momentos. LUCIANO DO VALLE — Luciano do Valle ficou um grande amigo. Me convidou para assistir à final da copa mundial em Paris e quando íamos para o estádio

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ANNI BENEVIDES

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com o Rivelino, escutei: Orelha! Era assim que Gerson o chamava. Fui com a família passar um final de semana em Las Vegas em um super Liarjet, participei das festas superanimadas de final de ano em sua casa em Porto de Galinhas. O que poucos sabem é que Luciano é um grande profissional da culinária. Conhece os melhores restaurantes do mundo e sempre que viajamos peço a ele para indicar os melhores. Às vezes até nem pago a conta. Foi o que aconteceu em Los Angeles. Ele recomendou um restaurante italiano perto dos estúdios da Paramount. O dono ficou tão emocionado quando falei que era amiga do Luciano do Valle que mandou servir o melhor vinho e não paguei nada. ALBERY — Albery deixou saudades nos cafés da manhã aos sábados na sacada de nossa casa olhando para o mar – contando as repetidas histórias de amores que eu nunca cansava de escutar. Dizia ele que o perfil mais bonito que ele já tinha pintado era o da princesa Carolina de Mônaco. Eu ficava esperando ele falar alguma coisa sobre mim, afinal ele tinha acabado de pintar meu retrato com o Chouchou, meu cachorrinho, mas ele nunca disse nada. Albery era muito sincero.

JANEIRO DE 1989 Eu costumava dizer aos amigos que este tipo de jornal (tablóide) era bom para ler no banheiro. As notícias em cápsulas eram mais práticas. Era jornal para ler na hora do almoço, na sala de espera de um médico, de um dentista. Mas principalmente no banheiro. Muita gente não alcançava esta idéia: — Não, o jornal é bom. Você deveria levar mais a sério. As notícias em cápsulas: Pela primeira vez, Pery Ribeiro se apresenta em New York, no restaurante Via Brasil, de Luís Gomes. Beloto e Al Sousa inauguram o novo balcão da Varig no aeroporto de Miami. Sousa é a voz mais bonita do aeroporto... Brigite Blair cria, com Patricia Blair, o Teatro Revista em Miami. Elba Ramalho faz o baile de Mário Magalhães no Hyatt – sua primeira apresentação nos Estados Unidos.


Marcinho da Victor’s, Johnny Marciano, Vininha de Moraes, Jorge Siciliano, Leila Soares, Luís e Dagmar Barbosa, Alex e Carmen, Joãozinho Pereira e Tânia, Cruz, Jenniffer (Varig) e Ricardo de Sousa, Jo Sutton, todos no carnaval de 89.

Bia Duarte inaugura uma lanchonete dentro da loja de Tony Moura: a Carol Coffee Shop. O jornalista Rangel Cavalcanti, de Brasília, convida os amigos para o seu aniversário dia 11 de março de 89. Vai virar cinqüentão. A Cafeteria La Ideal dos cubanos Juanito e Mayra recebendo milhares de brasileiros. Lucy Barreto, Polita Gordon, Gabriela Alves, Pepe Aparício, Dida Gomes (já então minha atual namorada/mulher), Paquito de Rivera, Nat Chediak, Teresa Trautman e Claudinho Roditi, alguns dos participantes do Miami Film Festival de 1989. Paulo Rollo chega a Miami dirigindo um Fiat Elba (a carrinha) com a idéia de percorrer todos os países das Américas. Gerson Delano abandona os guardanapos dos restaurantes e passa a escrever em pedaços de papel – nunca entregou um texto batido à máquina.- fazendo regularmente a coluna Bazar com sua foto na página. Dino (Augusto Buisine) é o mestre cabeleireiro de Miami Beach. Uncle Sal vendendo armas (em sua loja) para os delegados de polícia do Brasil. A dupla musical Tony Cruz e Honey Jackson conquista South Beach. Regina Duarte visita a Amec Center e é ciceroneada por Roberto. De forma misteriosa, é roubada (evaporou) a loja Yes Brasil, de Leila e Wenceslau Soares Aguiar Júnior. Em 1989 continua a Coluna de Neri Franzon. Na noite do Regine’s, Silvia e Helinho Fraga, Tânia e o namorado

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Luís Ayrão faz o baile de Paulo Gualano no Hotel Fontainebleau.

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Joãozinho Pereira, a gaúcha Dida Gomes, Edna Costa, Jaqueline Pitigliane e Cláudio Coutinho.

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Luís Castro abre com Maria Emilia o Restaurante Oscar Cuban Place, em Miami Beach.

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Neuza Figueredo, Oswaldo Leão e Rafael, no Las Palmas. A cantora Linda Novitt dá canja no Bayside acompanhada do músico Betinho, que mais tarde mudou-se para a Holanda. E circulando em Miami: Christina Rohlfs, Juliana Marisguia, Flavia Ferola, Tânia Martins (Adams), Eduardo Borracha, Nivaldo Mello, Andrew Mello, Raimundo Costa (guia). Roberto Escalante, além de supervisor do nosso jornal, é músico (baterista) de mão cheia.

NEW YORK Um dia viajei de carro com a Dida, a nova namorada gaúcha, o seu filho Michael e o Beto (meu filho) de Miami para New York. A idéia era fazer uma matéria sobre a Bike Week em Daytona Beach, na Flórida, e seguir para Washington, New Jersey e Manhattan. Foi uma viagem cheia de contratempos e confusões. A Dida tinha um temperamento explosivo e só fazia o que queria. Não aceitava qualquer sugestão ou opinião. O hotel tinha que ser aquele que ela queria, a hora de acordar, de dormir. Sem um tostão no bolso, dava ordens o tempo todo. E eu, como bom cordeirinho apaixonado, obedecia. O meu amigo e compadre Marcos dos Santos naquela época morava numa fazenda na Pennsylvania. Ficamos uma semana no campo, indo de vez em quando a New York para curtir a noite. Numa dessas viagens (íamos para um show), a Dida começa a discutir dizendo que não queria sair naquela hora, que estava muito frio, isso e aquilo. — Se você não está satisfeita, pode sair do carro agora! E ela saiu. Saiu correndo em direção ao outro lado da pista. Dirigi alguns quilômetros, dei meia volta e nada de a encontrar. Um frio terrível, nevando e sem viv’alma na estrada. Parei para telefonar para o Marcos: — A Dida está aí? — Não, ela não saiu contigo? — É, mas não sei onde ela está. Mais ou menos às 3 horas da manhã ela voltou para a fazenda, de


PORTUGAL Era a primeira vez que pisava o solo europeu. Um sentimento estranho, cheio de mistérios. O amor de minha mãe pela terra de Camões tinha me passado uma sensação de que eu já havia estado ali. No caminho do aeroporto para casa, meu filho diz: — Pai, não quero mais sair daqui. Nunca mais. Tô gostando muito.

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carona, com uns americanos que havia conhecido na estrada. Era uma mulher decidida, sem medo de nada. Podia ser japonês, africano, alemão, cubano, qualquer um ela dominava. Dava ordens. E quando ficava difícil, jogava o charme. Sempre conseguia o que queria. No caminho de volta para a Flórida, vejo uma placa na estrada: Welcome to Georgia. — Que Geórgia que nada, nós vamos é para Portugal, o pá! – falei brincando. — Vamos para Portugal? — Tá falando sério? – perguntaram as crianças. — Nunca fui tão sério... Uma semana depois a Dida, o Michael e o Beto viajavam para Lisboa para procurar casa, carro etc. Telefonei para o amigo Cláudio Pereira, meu companheiro de ginásio, que a esta altura havia mudado de upstate New York para Orlando, na Flórida: — Claudinho, o que você está fazendo aí em Orlando? — Estou acompanhando um grupo de árabes pela cidade. São cheios da grana e estão comprando tudo por aqui. Mas por enquanto só recebo salário. — Este salário de 400 dólares por semana é muito pouco. Venha para Miami para a gente conversar. Claudinho ficou hospedado no Holiday Inn, de Coral Gables. Conversamos sobre o jornal. — A idéia é a seguinte: estou fazendo dois jornais, o Florida Review e há dois meses reabri o Brazil Review. Só que me apaixonei por uma gaúcha e vou morar um tempo em Portugal. Você toca os dois jornais e me manda a metade do que faturar. Quando chegar a hora de viajar, eu te aviso. — Ok. De Miami telefonei para o Beto e perguntei como era a vida em Portugal. — É boa. Mas eu quero voltar para aí. O nosso apartamento aqui é bom, de frente para o mar, na Costa da Caparica. Você vai gostar. — Espere mais um pouco. Em duas semanas eu chego aí.

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Mas como poderia ter acontecido uma transformação tão rápida? Fazia poucos dias ele dissera que queria voltar. A Dida então me contou que ele entrou no elevador e conheceu a Conceição (irmã do Micas), uma morena lindíssima, nossa vizinha. Na realidade, morava na Suíça e nas férias voltava para a Costa da Caparica. Ao convidar o Beto para a praia, a primeira coisa que fez foi tirar a roupa. Havíamos mudado para uma praia de nudismo e não sabíamos. A Conceição tinha cabelos pretos com um chumaço castanho na cabeça. Era moda na Europa implantar um pouco do cabelo de outra pessoa. Por exemplo: se eu amasse profundamente uma mulher, poderia fazer um transplante de um pedaço de seu couro cabeludo para o meu. E vice-versa. Conceição era uma mulher extremamente simpática, charmosa e com um corpo escultural. Os homens todos se curvavam perante ela. A Dida, que na época também fazia as suas aeróbicas, não ficava atrás. A nossa vida em Portugal se resumia então a passeios – no carro da Conceição, ela nos emprestava um Volkswagen Cabriolet conversível –, a caminhadas à praia do Meco, muita festa e muito vinho. No supermercado Pão de Açúcar (o mesmo do Brasil) eu carregava sempre dois carrinhos; um para comida, outro para os vinhos. Provei quase todos os vinhos portugueses. A Dida conseguiu realizar o sonho de fazer um curso de iluminação de teatro, o Michael começou as primeiras experiências como modelo e o Beto foi trabalhar numa tasca chamada “Delícias da Praia”, em frente à nossa casa, nas areias da Costa da Caparica. Todos os dias os portugueses ofereciam vinho no café da manhã, almoço e jantar. De Miami recebíamos os jornais e a grana. O Cláudio Pereira todos os meses me mandava religiosamente metade do lucro dos jornais. A vida em 1989 era um paraíso, porque o paraíso chamava-se Portugal. Pelo menos uma vez por semana cruzávamos o Tejo para assistir aos shows internacionais ou curtir uma noite no Bairro Alto. A Dida começou a trabalhar no Casino Estoril. Chegava tarde e o meu ciúme aumentou. Eu vivia num verdadeiro inferno. Paixão era uma coisa estranha, doentia. Eu na janela, a noite toda esperando. O tempo foi passando e comecei a me comunicar por telefone com o Aécio Ramos, um gaúcho amigo da Dida que tinha idéia de acabar seu projeto imobiliário em Búzios, no Rio de Janeiro, e morar em Portugal. Um dos garçons do “Delícias da Praia”, quando soube de minha intenção de voltar a Miami, foi à minha casa com um vinho chamado “1946”, o ano em que nasci. Tamanho carinho não era para se jogar fora. Os portugueses daquela época amavam os brasileiros. Anos mais tarde o quadro seria completamente diferente. Ao receber o vinho, não consegui achar o saca-rolhas. Um verdadeiro sacrilégio na terra das parreiras. Desci pelo elevador e logo no andar debaixo entrou um rapaz.


PAULO ROLLO Um dia, ainda em Portugal, me liga o Paulo Rollo: — Consegui o seu telefone na sede do jornal em Miami. Estou chegando na Costa da Caparica na semana que vem. Vou continuar a minha viagem de carro pela Europa. Paulo Rollo saíra de São Paulo dirigindo um Fiat Elba, com o propósito de percorrer todos os países da América. Antes de chegar na Flórida, o mais importante patrocinador retirou o apoio e ele foi ao Consulado do Brasil em Miami pedir auxílio. — Aqui não temos verba para este tipo de patrocínio. Mas você pode procurar o Chico do jornal. Quem sabe lá alguém te ajuda? Paulo Rollo entrou no meu escritório em Miami: — Preciso de 10 mil dólares. O pessoal do Consulado garantiu que você poderia me ajudar. — Eu? Você está louco? Aí ele me mostrou o projeto. Era realmente um louco, determinado a percorrer todos os países das Américas. Liguei para o gaúcho Luís Cláudio Ferraz, da loja Amec Center. — Ferraz, aqui é o Chico. Tem um louco aqui no escritório que precisa de 10 mil dólares. Em troca ele poderá pintar no carro o nome de sua loja e levar para todos os Estados americanos, até o Canadá. — Ok, vamos conversar... E assim Paulo Rollo conseguiu o resto do patrocínio para a sua viagem. — Agora você não está querendo mais 10 mil, ora pois, não? — Não, aqui em Portugal só quero te dar um abraço. Foram 15 dias superagradáveis. Tive mais tempo para conversar com ele, ver as fotos e, principalmente, na Rua do Alecrim em Lisboa,

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— Você tem saca-rolhas? Ele deu uma gargalhada. — Você é do Rio? — Não, do Ceará. Mas fui criado no Rio. — Eu sou gaúcho. Tenho um saca-rolhas em minha casa. Vamos voltar que eu te empresto. — Muito prazer, Chico Moura. — Meu nome é Eduardo Tessler. — Estou voltando para Miami, onde moro oficialmente. — Tenho um tio em Miami, Rubens Russowsky. — Conheço o Rubens Russowsky. Ele é muito meu amigo. E você, trabalha aqui em Portugal? — Sou correspondente do Estadão.

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conviver com o pessoal do “Mundo Motorizado”, uma das revistas para as quais Paulo mandava matérias. Em nosso apartamento na Caparica, Paulo “acampou” na sala. Sempre muito limpo, disciplinado. Não bebia, não mexia com drogas. Era um profissional determinado a realizar o sonho. Percorreu todos os países das Américas, da Europa e da África, no mesmo Fiat Elba. Escreveu um livro chamado “Até os Confins do Mundo” e obviamente citou a nossa colaboração. Fernando, o porteiro de nosso edifício, era um exímio jogador de pingue-pongue. Todas as tardes o Beto, o Paulo Rollo, o Fernando e eu disputávamos uma partida. À noite ele me chamava para o seu apartamento. Bebia-se um maduro tinto, intercalado por muito choro e fado vadio, uma música que sempre cantava uma tragédia. A cada disco, uma grande choradeira. A minha separação da Dida Gomes também foi dolorosa – mais uma vez. Já estava ficando PhD em separações. Os jornais em Miami já andavam sozinhos. Continuavam a ser os dois únicos tablóides brasileiros do Estado da Flórida. A esposa do Claudinho se apaixonara pelo jornal. Na volta, não deixava mais eu fazer nada. — Pode ir para casa que a gente toma conta.

O EGO Lembrei da história de um pequeno veleiro que ganhei de um amigo em Miami. — Este barco está precisando de uma reforma. Você compra o material e podemos refazer todo o casco – lá no meu deck, no fundo da minha casa. Depois você leva para a sua casa. Dito e feito. Comprei todo o material e nos fins de semana ia consertar o barco. No primeiro dia, o amigo disse: — Não, não toca aí. Deixa que eu faço. Tenho mais experiência que você. Eu ficava ao lado, sentado num banquinho olhando o amigo trabalhar. Todos os fins de semana ia para o “trabalho” de reformar o barco. Os dias se passaram e ele foi se apaixonando pela obra. Eu não podia nem sequer dar um palpite. Nem lixar, que poderia ser mais duro, mais trabalhoso, ele me deixava fazer. A possessão, o ego, a vaidade era maior do que o valor real do barco. Quando o barco ficou pronto, eu disse: — Amigo, uma pena. Não dá pra ficar na minha marina. Tá tudo cheio. Sem pensar duas vezes, ele me levou até a porta e nos despedimos.


Mário Magalhães (o Mr. Carnaval) num de seus primeiros bailes na cidade de Miami com Ana (à esquerda), a segunda esposa.

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O casal Marcos Machado inaugurando em 1986 a “American Supply”. Álvaro Itajahy casa com Viviane Belaumbe em Miami e muda para Orlando.

Juarez e Eddie (Big Birdie) afinando os instrumentos em New York.

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O casal Celso Werneck, recebe Lúcia Leitão em sua loja (ateliê) do Bayside, em Miami. Celso Werneck é artista que perpetuou a sua obra em Pirogravura que é a arte de gravura a fogo, com ferro incandescente.

Uma das primeiras lojas da Flagler St. no centro de Miami: JOHN’S, A CASA DOS BRASILEIROS.


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A turma de South Beach dos anos 80, mostrando um sambão com Heleno, Bill Duba, Alex, Silvio Careca e Léo Capelo.

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Dra. Marah, Elisabete Mangabeira, Maria Helena e Edson Lamardo.

Carlos Martins (Carlão) driblando a polícia de South Beach, catou mais de 50 lagostas.

Paolo Lavagetto ex-gerente da Varig de New York.

O flautista porto-riquenho Nestor Torres e a cantora brasileira Raquel Lima, no Bayside.

Halph Conti (ex-Varig), depois prefeito de Key Biscayne.


AINDA 1989 BRASILEIROS DESCOBREM PORTUGAL – Em julho de 89, matéria de Conceição Caldeira (irmã de Micas), nossa vizinha, que

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Anos mais tarde lembrei de outro amigo que me chamou para ajudá-lo na reconstrução de um jardim. Pagava caro pela hora de trabalho, mas não me deixava tocar em nada. A arte era dele. Eu já conhecia o filme e deixei rolar. Ainda sobre o mesmo tema, lembrei da história de um pastor que resolveu – com o dinheiro dos fiéis – fazer uma reforma em sua igreja. Com noções de arquitetura ele ia colocando toda a sua vaidade no projeto. A cada dia, dedicava mais e mais tempo à reconstrução da igreja. Um dia, estava tão ocupado com a obra que esqueceu do culto – esqueceu da verdadeira razão da igreja. O importante não era a beleza da obra e sim servir às necessidades dos fiéis. No caso da esposa do Claudinho, estava verdadeiramente enfeitiçada. Eu sabia exatamente o que ela sentia pelo jornal. Tinha sido mordida pela mosca da comunicação. Anos mais tarde vivenciei esta mesma cena com o Rodrigo Soares, ex-proprietário do jornal Diário Popular de São Paulo. Voltávamos da gráfica com a van cheia de jornais quando ele disse: — Sabe, Chico, fui criado sentindo este cheiro de tinta de jornal. Só nós sabemos o que isto representa. Nunca esqueci aquela frase do Rodriguinho. Com moradia (de novo) no Paradise Inn, passava noites e noites sem dormir preocupado em como resolver aquele problema do jornal. Meus pais voltaram a passar temporada em Miami. Então minha mãe pediu: — Meu filho, você vai me prometer uma coisa. Nunca venda o jornal Florida Review. Ele é a sua obra, a sua vida. Uma semana depois o Claudinho me ofereceu uma casa em Natal, no Rio Grande do Norte, pelo jornal Brazil Review (como parte do pagamento). — Amanhã eu te falo. Minha mãe pediu que eu não vendesse o jornal. Pensei, pensei. Dia seguinte fui ao escritório: — Guess what? O jornal é seu! Não quero nada. Você fica com o Brazil Review – de graça – e eu com o Florida Review. E ainda pode levar os meus clientes... Todos. Assim Claudinho começou a sua carreira de jornalista em Miami e eu cumpriria o pedido de minha mãe. Pelo menos com o Florida Review. Algum tempo depois Claudinho se divorciou, a esposa voltou para o Brasil, ele conheceu a cantora Lilian Vianna, casou e a vida continuou...

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já então, depois da amizade com a Dida, era nossa correspondente em Portugal.

Chico Moura

A professora Sofia Azevedo começa coluna sobre Educação.

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Júlio Rossato, que passara por Miami num veleiro em direção a New York, volta da Europa sendo considerado o primeiro brasileiro que atravessou (solo) o atlântico num veleiro. Como brasileiro, registrou o seu veleiro no Consulado do Brasil de Miami e deu entrevista para o jornal. Andres Cibotti, do Medieval Times, convidando amigos de Miami para temporada em Orlando. Romero Britto faz cocktail em sua galeria do May Fair, em Coconut Grove, e homenageia Peggy Iaccoca. Neste evento conheci Gina Martell, grávida de seus primeiros filhos (gêmeos) e fui entrevistado pelo jornalista Amaury Júnior para o programa Flash. Dia seguinte, gente de todo o Brasil me liga dizendo que me viu na telinha. Dia 15 de julho de 1989, casamento de Luís Ernesto Gozzoli e Meryl Susan. Yellow Green, a primeira locadora de carros – de brasileiros na cidade de Miami –, de Carlos Coutinho e Jaqueline. Bethânia, primeira vez em Miami. Dia 16 de setembro no James Knight Center. Foi um fracasso de público. Glória Estefan foi com um grupo de amigas do ginásio (high school) aplaudir a cantora brasileira Raquel no Bayside. Vinte brasileiros são presos pela imigração na loja Victor’s. Tony Correa paga fiança e liberta todos os funcionários. Edson Lamardo e Maria Helena Lamardo batem recordes de vendas na loja Alô Brasil. Parola começa coluna sobre Pompano Beach, falando sobre o casal Geraldo Assunção, Dona Maria Pestana, Paulo de Oliveira e Neusa Correia. É o começo da comunidade de brasileiros na região. Coluna de Neri Franzon sobre medicina continua firme e forte no jornal.


O editor de artes do jornal, La Barros, volta ao Brasil. Ana Maria Stewart acaba com sua agência de viagens.

João Dória e Titto Valiente no Restaurante Rodeio de Coral Gables fazendo planos para o futuro. Em 1989, exatamente 100 eleitores brasileiros compareceram ao Consulado do Brasil em Miami para registro e atualização de seu título de eleitor. Na primeira oportunidade que o brasileiro tem de votar para Presidente da República (nos últimos 25 anos) e num esquema montado pelo pessoal do Consulado do Brasil. Esperava-se o comparecimento de 2.000 pessoas.

ABAV 1989 A ABAV 89, no Ceará, reuniu grande número de brasileiros que viviam o universo da Flórida: Os cearenses Clodomir Girão e Erbene Girão ofereceram jantar de boasvindas aos amigos no Iate Clube de Fortaleza: Rodolfo Maineri, Luís Cláudio Ferraz, Ivonildo Lavor, Edna e Domingos Trofino, Teresa Melo de Goiânia, Jorge Siciliano, Douglas Presto, Kiki Pinheiro (filha da Garota), Sérgio Lacerda e Rene Lopes Couto, Antônio Carlos da TV Gazeta e Dede Gomes. E mais: Marco Aurélio Testa, da Overseas, Acran de Belém, Joana Palhares e Bayard Boiteaux, Julio Burgos, Gracinha da Monark e Denize Vaz, os músicos Fagner e Manasses. Alvaro Feio, Manoel Cannon, José Santucci, Margareth Mishima (Tentitur), Tia Ginha, Gladys Crabar, João Eduardo Guinle Gentil (Beach Park), Serginho da Amec Center, Tony da Maxi Tour, Luís Barbosa (Gordo’s Restaurant) o casal Rony Curvelo da agência IST de Orlando, Luís Avaloni da Galaxy, a família Ferraz (Silvinho), Ondina, Teresa Valente, Eduardo Vasconcelos (Kontik), Rogaciano Leite filho (editor do Povo).

TITTO SANTOS Após a ABAV 89 em Fortaleza, muitos brasileiros de Miami seguiram para a cidade de Petrópolis no Rio de Janeiro para a final do concurso Miss Florida Review, um evento realizado no dia 25 de agosto de

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Do Ceará, Marcus Vinicius Cavalcanti Soares enviando suas contribuições para os amigos de Miami.

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Chico Moura 200

1989, no restaurante Tarrafas de Itaipava, com patrocínio do jornal FR, Petrotur, Diário de Petrópolis, Rádio Musical FM, Pérolas de Maiorca, Ateliê Betty Cirelli Alta Moda e a Academia Rotima de Ballet. O evento consumiu muitas horas de sono, muitas idas e vindas, busca de patrocínios e muito trabalho. O jornalista Titto Santos, que já havia passado por Miami algumas vezes, foi o responsável pelo sucesso do evento em Petrópolis. Conquistou a mídia local, os patrocinadores e, principalmente, dedicou bastante tempo para o sucesso do empreendimento, o que muito favoreceu o jornal. Com matéria de Moisés Fuks anunciando o evento em seu caderno de Turismo no Globo, os empresários de Miami se empolgaram e subiram a serra. No júri: Chico Moura (Presidente), Debora de Andrade (Miss Petrópolis 89), Betty Cirelli (Fashion Designer), Lolita Mardini (Diretora da Coty), Afonso Mendes (Artista Plástico), Ivan Castro (Maiorca), Marinelson Ribeiro (Alo Brasil – Miami), Sérgio Pires (Amec Center – Miami), Carlos Henrique (Brasília – Miami), Márcio da Rocha (Victor’s – Miami), Geraldo Silva (Travel Business Bureau) e Jorge Siciliano (Florida Review – Orlando). Jaqueline Caiaffa, de 17 anos de idade, foi a grande vencedora do concurso de Miss 1989, com direito a passagem de ida e volta a Miami e estadia no Hotel Omni. O concurso do Miss Florida Review foi um sucesso absoluto! O aniversário do Borracha foi badalado em Coconut Grove. Muita gente bonita, ornamentação havaiana, mais de 100 pessoas compareceram à pérgula da piscina de Eduardo de Souza, que já era a “imagem de Miami”. Em todos os outdoors da cidade podia-se ver a propaganda do Bayside com Eduardo Borracha dançando. Lucy, da Lucys Sports, recebendo o casal Ibrahim Sued em sua loja de downtown. Alain Jacquemin cria agência em Miami. José Teixeira (o Pepe), juiz de futebol vivendo em Pompano Beach, cria eventos brasileiros na região. Ficara famoso por ter expulsado Pelé do jogo Santos x Botafogo. No dia 24 de setembro de 1989, pela primeira vez na história, um piloto não-americano levanta a taça de campeão da fórmula Indy. Parabéns, Emerson Fittipaldi!!! Boa Tarde Miami é o programa de rádio (primeiro da cidade em


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Hélio Costa, o médico (clínico geral) da comunidade de brasileiros do sul da Flórida.

Rosália Galdi, uma das pioneiras no turismo brasileiro de Miami.

Com o cantor cearense Fagner, em sua primeira apresentação na Flórida, com o patrocínio de Donald Sutton, da Adams Travel.

Com o compositor Fernando Brandt, na recepção, após o primeiro show de Milton Nascimento na Flórida.

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Ainda com o patrocínio de Donald Sutton da Adams Travel, o primeiro show de Luis Ayrão na Flórida.

Jô Sutton (em pé), Leila Aguiar e Milton Nascimento em Miami.


Chico Moura

A turma do Restaurante Brazilian South recebendo a pintora Nair de Carvalho (em pé do lado direito).

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A cozinha do Brazilian South, com os ilegais (na época), Rui, Carlos e Maria Emilia.

No dia do fechamento do Restaurante (demolição do Hotel Columbus), Brazilian South, a última foto.

Gladys de Betancourt, uma assídua freqüentadora do Restaurante Brazilian South de Miami.

O então Embaixador Marcilio Marques Moreira cumprimentando Chico Moura em cocktail da Câmara de Comércio da Flórida.


O saudoso baterista Johny Teles.

Kleber, o melhor jogador do Torneio Goval, recebeu de Aloisio Bastos (Carcará) a sua merecida medalha.

José KFuri (ex-gerente do Banco Real) Peter Beebe e Marcelo Sabino em cocktail no Hyatt de Miami.

Ivan Muniz Freire e Helio Gusmão no Bayside, fazendo pesquisas na cidade para implantar uma filial da VIGO.

Romero Britto no início de sua carreira rodeado de admiradores.

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O cubano Juanito, apoiando a comunidade brasileira de Miami, com Donald Sutton e Henrique Marques.

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Chico Moura

Sr. Pestana (ao centro), criador do Brazilian Tropicana, o primeiro restaurante brasileiro de Pompano Beach.

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Ary Piassarolo e Tônia Elizabeth, cantando o parabéns para Abbos Abrarpour, na loja Victor’s de Miami.

Chico Moura com Ricardo Lamounier no "Clube A" de Manhattan.

Germano Barbosa, à esquerda criou a agência BR Tours na Brickell. Na foto com o português Victor da Silva (loja Victor’s) e Chico Moura.

Carlos Ivan Siqueira (presidente da Editora Expressão - Revista Ícaro) e Bruno Borghini Gerente da Varig de Miami.

Antonio Nina, o primeiro funcionário da Varig nos Estados Unidos com sua esposa Pearl.


Henrique Marques, Gerson Delano e Paulo Roberto Moura no antigo restaurante La Ideal de Juanito e Mayra.

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Benito Romero, Lindy, Jussara, Pery Ribeiro e Cacá Santos no Festival Fora de Série do Scorpio’s, de New Jersey.

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Uma das últimas fotos em frente a antiga sede do Consulado do Brasil em Miami (na Brickell Ave). Luis David Azambuja e o advogado Luis Ernesto Gozzoli em cocktail na cidade de Miami.

Paco de Oniz (à esquerda), filho de um ex-correspondente do New York Times no Rio de Janeiro, criou o Festival de Música do Caribe e em seguida iniciou a promoção de shows brasileiros. Em Miami, o primeiro grande espetáculo foi o de Milton Nascimento, promovido também por James Quinlan e Chico Moura.

As americanas Cristiane Roget e a cantora Linda Novitt, promovendo o Brasil em Miami. Foto 146


português) que Johnny Marciano e Roberto Costa (DJ) apresentam na Rádio Suave às terças-feiras.

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Em 1º de setembro de 1989 a Transbrasil iniciou os seus vôos regulares ao Brasil, partindo de Orlando.

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Com a caída do restaurante “Made in Brazil”, foi criado no mesmo quarteirão o “Green Door”. Originariamente fundado por dois portugueses, passou para as mãos de Careca e Pedro da Silva – do Consulado do Brasil.

NAMOROS E MAIS NAMOROS Eu, já divorciado da terceira esposa, passei a mais longa temporada de solteiro. Almoçava no restaurante Gordo’s e jantava no Green Door. No Gordo’s trabalhava uma paulista de Alphaville. Sempre muito simpática, fazia com eu voltasse muitas e muitas vezes. Certo dia, no Green Door, reencontrei a Eliane, filha do grande amigo Roberto Bechtinger. Ela havia trabalhado uma temporada na Amec Center e já se preparava para criar a sua empresa. Foi uma paixão meio desorientada, uma vez que estava desacreditando das relações. Afinal, alguma coisa deveria estar errada. Uma pessoa normal não casa três vezes. No restaurante Green Door vivi momentos de muita festa, muitas promoções, lançamentos. Conheci ao mesmo tempo três mulheres encantadoras: a Sueli, a Eliane e a Yara. Aluguei um apartamento de dois quartos (perto do centro de Miami) e fui morar com meu filho. Em pouco tempo a namorada do restaurante virou minha companheira. O jornal já caminhava sozinho. Eu passava pelo escritório uma ou duas vezes por semana. E as festas de novo aumentaram. Diariamente era um cocktail. No Green Door fazia as maiores loucuras de um solteiro cansado de casamento. Um dia desci pelo corrimão da escada esquecendo completamente que havia no final uma bola de madeira, que como num jogo de bilhar acertou em cheio as outras duas bolas. Fui socorrido pelo proprietário, Pedro da Silva, que acabou solidário nos vinhos portugueses até às 5 horas da manhã. William Peetz foi um piloto de kart em Ribeirão Preto que, numa prova, sofreu um acidente e ficou paraplégico. Foi a primeira pessoa que me mostrou o quanto as mulheres se sentiam atraídas por pessoas em cadeiras de rodas. E principalmente mulheres bonitas e inteligentes. O goiano Alexandre e a mineira Vânia Cançado (que a esta altura já assinava uma coluna no Florida Review), foram outros amigos paraplégicos daquela fase de Green Door.


A ÚLTIMA VEZ QUE VI LA BARROS “A última vez que vi La Barros” era o título da matéria de Gerson Delano na coluna BAZAR sobre o falecimento do nosso editor de arte, Léo Barros, no dia 16 de setembro de 1989, na cidade de Santos: A última vez que nos vimos, foi precisamente no dia de sua volta ao Brasil. Encontramo-nos acidentalmente na Brickell, ele vinha do nosso Consulado, eu cumpria o meu cotidiano de trabalho numa típica tarde floridiana, um dia luminoso. Falamos de banalidades, não perguntando como ele se sentia e sim injetando-lhe força, estímulo moral e espiritual. Enquanto esperamos a ponte fechar, aconteceu a derradeira cena. Um registro marcante. La Barros fixou-se nas águas do Rio Miami, seu semblante foi envolvido por uma nuvem melancólica, de uma maneira exclamativa disse que talvez fosse a última vez que veria estas águas – palavras de despedidas. Fiquei meio perturbado, mas me mantive firme, contradizendo-o

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Na saída, levei o Ruy Meireles à casa da psiquiatra mineira Vânia Cançado, na Brickell. Ela tinha uma amiga que a acompanhava, a Verinha. O Ruy se encantou com a Verinha (mais tarde casou com ela). Após alguns drinques, resolvemos dormir por lá. O Ruy na sala e eu no primeiro quarto. Na madrugada me deu uma solidão e bati no quarto da Vânia. Rindo muito, ela disse para eu me comportar. Voltei para o meu quarto e esqueci a cena. Muitos anos depois, ela me recordou o fato. A Vânia era uma mulher extremamente inteligente e interessante. Ainda muito pequena sofreu de paralisia infantil e ficou presa à cadeira de rodas. Mais tarde casou, teve uma filha e morou em Copacabana, no Rio de Janeiro. A cena de nosso primeiro encontro foi muito engraçada. Conhecia por telefone, ela se oferecendo a escrever uma página no jornal sobre psiquiatria, comportamento humano etc. Achei que seria uma boa mexida no jornal. Ela mandava as matérias por fax, eu reescrevia e publicava. Muitas edições depois, no baile do Mário Magalhães no Hotel Hyatt, eu estava pulando sozinho o Carnaval (como de costume) e de repente saio empurrando uma cadeira de rodas qualquer. Levei a cadeira para o meio do salão e cantamos muito. Ao terminar perguntei: — E como é mesmo o seu nome? — Vânia Cançado. Eu me joguei no chão e saí rolando em cima dos confetes e serpentinas do salão. Ela não entendeu nada. Eu não parava de rir. Todo arrepiado, gritei: — Eu sou o Chico Moura do jornal. Nem é preciso dizer que a partir daquele momento a nossa amizade explodiu na alegria de muitos e muitos encontros.

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Chico Moura

falei alto – qual nada, você se recupera e retorna a Miami. Hoje, após a triste notícia, meus pensamentos voltam. Teria La Barros, o artista, pintado a cena da ponte como ele gostava, realizando o dramático, pontuado de beleza natural? As águas sob o efeito do sol resplandeciam...

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La Barros foi o primeiro editor de artes do jornal Florida Review e foi o primeiro caso de um brasileiro surpreendido pela “maldita” que iria assolar o final do século XX. Sabrina Lúcia Samour nasceu no dia 20 de setembro de 1989, às 21:17 h, pesando 9 libras e com 20 polegadas de comprimento. Inaugurada a loja “Storm” de Karla Fernandes, no Ultramont Mall (depois virou Kau Laser). João Baltazar (meu ex-cunhado) volta aos Estados Unidos. Em Miami cria maquetes em forma de minifazendas para o mercado americano. Paulo e Jackson criam o restaurante “Garota de Ipanema”, que depois virou Esquina Carioca com Germano Barbosa e Abbos Abrarpour – e depois Everaldo (ex-SNI). João Pereira, Donald Sutton, Lutty Sutton, Gerson Delano, Tonia Elizabeth, Christiane Roget, Joe Torregrossa, Paula Torregrossa, na 5th Street, no show de Djavan. No ano de 1989, Chico Moura recebe a medalha de cidadão cearense (medalha de mérito legislativo) da Câmara dos Vereadores de Fortaleza.

ENTREVISTANDO OS ROLLING STONES Entrevistar os monstros sagrados do rock&roll, o conjunto Rolling Stones (na época com 27 anos de sucesso), foi uma das mais interessantes experiências de minha vida. Dia 15 de novembro de 1989, o dia da entrevista, acordei às 6h30 da manhã com uma chamada do Brasil (TV Globo) perguntando se o contato com o pessoal da CBS já havia acontecido. Para um notívago como eu, que nunca dormia antes das quatro da manhã, ficava difícil entender quem estava do outro lado. Tentei dormir. Nada. Pulei da cama e fui ao escritório para receber o fax com as perguntas que o


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pessoal do Brasil gostaria de fazer. Passei pela casa da fotógrafa Gina Ackerman (Jennah Jah) para registrar o momento e seguimos para o Orange Bowl. Almoço marcado com o pessoal de Los Angeles (Globo Records) e com o pessoal da CBS, começou a minha experiência. — Os Rolling Stones não são fáceis. Podem te dar um minuto ou cinco. Você tem que falar com cada um dos empresários antes das entrevistas. Não existe um manager (empresário) do grupo. Cada um tem o seu. Eles podem, de repente, te deixar falando sozinho. A entrevista marcada para as 4 horas da tarde só começou às 5h30. A única do dia, especial para a TV Globo, não poderia falhar. Nenhum outro jornal, revista, televisão, nada. Nesta uma hora e meia de espera, sob uma enorme tenda armada ao ar livre, os Rolling Stones jogavam sinuca e se “inspiravam”. — Parece que um deles vai te atender agora, disse a diretora da CBS. Deve ficar uns 5 minutos. De repente ele entra no trailer: botinha de camurça toda furada, calça de couro, muitos anéis e um monstruoso copo de uísque na mão. Um sorriso. Ficou parado me olhando e sorrindo. Parece que adivinhava que aquela era a minha primeira entrevista para a televisão. A primeira entrevista e logo com os Rolling Stones? Eu não poderia ser uma pessoa normal, que começa fazendo entrevistas no espelho? Ou num pequeno programa de uma cidade do interior? De cara, os Rolling Stones? No dia anterior o Costa Manso da Globo Records tinha me ligado de Los Angeles: — Chico, não tem ninguém para entrevistar o Mick Jagger para um especial de fim de ano da Xuxa. Você quer ganhar 500 dólares e entrevistá-lo? Você, se quiser, não precisa nem aparecer no vídeo. — Eu não vou pela grana, vou pelo momento. Na mesma noite saí pelas bancas de jornal buscando alguma informação sobre o conjunto. Comprei a revista Rolling Stones. Nada, nenhuma história. E agora? — Não se preocupe. Amanhã o pessoal da TV vai te mandar por fax as perguntas. — Ok. A entrada de Keith Richards com suas botinhas furadas, com aquele olhar de diabo, os olhos espumantes e completamente bêbado, eu não sabia o que perguntar. Eles me disseram que eu ia entrevistar somente o Mick Jagger, e agora me aparece este maluco? No bolso as perguntas para uma só pessoa. Uma das empresárias disse: — Não, diz aqui no papel que você vai entrevistar os quatro: Keith, Mick, Ron e Bill.

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Sem perder tempo perguntei ao Keith Richards: — Vocês não têm uma griffe? Por que anda com este sapato furado? Completamente travado, responde com um gesto, balançando dois dedos da mão esquerda. — Dois sapatos? Ele balança afirmativamente a cabeça. — Você só tem dois sapatos. Um para trabalhar e o outro para sair? – falei brincando. Ele balançou a cabeça. — E este é para trabalhar ou para curtir? Ele continuou balançando os dois dedos. — É pelo jeito você só tem dois sapatos mesmo. De repente, tomou uma golada do uísque e abriu a boca: — Sure. Para que ter mais do que dois sapatos? Ele poderia estar curtindo ou não. Não importa. Importa que falou e que gostou de mim. — Você, então, não é como o Elton John, Billy Joel ou Michael Jackson, que têm um milhão de óculos, de bonés, de sapatos. — Nada. E começou a falar sem parar. Parecia que tinham ligado uma tomada no monstro sagrado da guitarra mundial. Com o calor do sorriso e o gelo derretido, Keith Richards (17 minutos de entrevista) abriu o caminho para mais de uma hora de papo com os outros. Mick Jagger, ao entrar, também ficou parado me olhando e eu disse: — Hi, my name is Chico Moura, and I’m from Brazil. — So? I’m Mick Jagger and I’m from England. De novo o nervosismo. Ele bebia um enorme copo d’água. Preferia o outro embriagado do que aquele chato pernóstico. Puxei as perguntas do bolso e mostrei a foto da Xuxa. Ele pegou e ficou esfregando na boca. — Xuxa, Oh my love, oh my love... I love you... Lógico que uma das perguntas seria se eles tinham intenção de se apresentar no Brasil etc. — I would love to go to Brazil. — Você sabe que eu já te vi no Rio de Janeiro, num carro subindo a Rua Marques de São Vicente, na Gávea. Gostou do Brasil? — Eu adoro o Brasil. A entrevista terminou com Bill e Ron Wood, que eu já conhecia quando era dono da primeira discoteca (Woody’s) de South Beach (foi expulso pelos velhinhos). Não vi o teipe.


Gerson Delano continuava a ser, no exterior, o meu personagem favorito. Um dia o Bruno Borghini (ex-Varig) me contou que conhecia o Gerson desde os tempos da Av. Atlântica, em Copacabana. — Chico, o Gerson foi um homem que parava o trânsito em Copacabana. Todo o pessoal da noite o conhecia. Mais tarde, em conversa com o Abbos Abrapour, um paulistano elegante, soube que o Gerson era tão querido em São Paulo que a maioria das pessoas colocava limusines à sua disposição. Todos o conheciam. As mulheres se encantavam. Gerson foi para New York no final dos anos 70. Ficava no pinguepongue entre Rio, Porto Alegre, Bahia e São Paulo. Não havia uma casa noturna que não conhecesse. Também a todas as figuras da sociedade e da política. Foi um dos modelos favoritos no eixo Roma/Paris. Trabalhou uma época no Canecão como relações-públicas. Uma vez, o Mário Priolli me confidencia: — Só existe um Gerson Delano de Weissheimer. E ele é fantástico! No Congresso da ABAV de Salvador, Gerson não falava comigo. Nos separamos por dois episódios fantásticos. O primeiro foi na festa da socialite Clarita Pasquim. Numa elegantérrima casa da Hibiscus Isle, Gerson foi representando o jornal. Ele era o mais elegante personagem para chegar de limusine na festa. Era uma homenagem à prima ballerina de Londres, que após o show num teatro de Miami Beach iria dar os devidos autógrafos na casa da brasileira. Ele misturou algumas bebidas e logo foi apresentado à prima ballerina. A um dado momento ele dá uma tropeçada e amassa o vestidinho de balé da inglesa - correu um boato de que havia vomitado no vestido da bailarina. Não vi a cena, e não acreditei. Logicamente que jamais poderia ficar com raiva do Gerson, o meu ídolo, uma pessoa irreverente, única. Mas o único jornal brasileiro da cidade deveria manter uma reputação qualquer. Falei duro com o Gerson e a vida continuou. Passados alguns dias o Cônsul do Brasil nos convida para um cocktail no Hotel Intercontinental. Na festa, apresentado a um dos representantes do Itamaraty (recémchegado), Gerson pega na bochecha do novo funcionário e diz: — BONECA! Dia seguinte o diplomata me liga. Foi taxativo: — Ou eu, ou ele. Afastado do jornal por alguns dias, ele cortou relações comigo e, sempre que me via, atravessava a rua. No congresso anual da ABAV, Gerson, já amigo íntimo de minha família, foi a Salvador. No aeroporto Dois de Julho, chegou junto ao meu pai, conversando alegremente. Ao me ver, virou as costas e sumiu.

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GERSON DELANO

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Fui ao jornal Tribuna da Bahia e, após combinar os detalhes da impressão com o proprietário (precisava rodar uma edição especial da ABAV), ele me diz: — Chico, vamos hoje à noite em nossa casa. Vou fazer um cocktail para algumas pessoas. — Não posso. Amanhã tenho que estar cedo aqui na gráfica. Quero ver o jornal rodar. À tarde, já com o jornal circulando, o dono da Tribuna me chama: — Chico, ontem conheci o seu sócio, um homem muito elegante, engraçadíssimo. De chapéu branco, camisa verde e sapatos azuis. Que homem fantástico! — Já sei quem é, Gerson Delano de Weissheimer. Não podia falar mais nada. Era ele. Gerson era único. Ele sempre se apresentava em todos os negócios de Miami dizendo: — O Nosso restaurante, o Nosso banco, a Nossa festa, o Nosso jornal, a Nossa loja. E assim por diante. Com o tempo descobri que ele incorporava o sonho do próximo, o negócio do amigo e conversava como se a outra pessoa estivesse falando. Se encontrasse comigo dizia: — Vou fazer uma cobertura para a ABAV, depois vamos vender publicidade para o Tony Samour. Ainda não sei como vou cobrir a corrida de Fórmula Indy. Num dos diálogos por telefone, gravei a seguinte conversa: — Francisco, nós não estamos falando da arte de 400 talheres da época de Carlos Lacerda. É outro universo. Você não pode imaginar o que os meninos de Tóquio e Kioto estão fazendo no mundo japonês. — Mas, Gerson, arte é tudo. — Mas você fica tolhido a um jornal, o que você escreve. Hoje estou lendo quatro jornais diferentes por dia. Agora, por exemplo, estou lendo O Dia. — Ele está com uma diagramação boa, né? — Lindo. Claro, é um jornal forte. O crime dele melhorou muito. — Não é mais Chagas Freitas? — Não, Francisco!!! (Gerson nunca me chamou de Chico.) É Arizinho. — E o Samuel Weiner? — Antônio Maria antes de morrer rogou uma praga para o Samuel Weiner. Teve um lance com a Danuza. O Samuel falava que o Antônio Maria no fundo, no fundo era um negro. A coisa mais linda Antônio Maria. Ah Antônio Maria... Ah Antônio Maria, chegou no Severino. — Quem, Severino Araújo? — Não, rapaz, Severino o bartender do Rond Point. Serviu o drinque e deu as costas. Foi pegar o cigarro. Acho que era um cigarro amarelo chamado Flórida, da Souza Cruz. E aí teve um ataque do coração. Morreu de uma maneira muito elegante. Descansou a cabeça em cima da mesa. Coitado, Deus me livre.


Brigite Blair chegando em Miami com sua família.

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Rosalia Galdi com dotes brasileiros, encantando a SWAT no centro de Miami.

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No Miami Film Festival de 1989, Gabriela Alves (filha de Tânia), a diretora de cinema Teresa Trautman e o excelente trompetista Claudinho Roditi.

José Peçanha (Presidente), Rocky Marciano e Jarbas, os amigos de Newark, New Jersey se encontrando em Miami.

O amigo de New York, José Gherardi, da Hotur.

Regina Duarte ciceroneada por Roberto, da Amec Center.


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— Gerson, o Antônio Maria morreu no Rond Point? — Claro, rapaz, é por isto que eu digo: se você está em Ipanema estaria na elegância, tem que saber, Francisco. — Eu remei com o filho dele na Lagoa. O Antônio Maria Filho, que hoje está no Globo. — Francisco, vai pra casa. Passa um bife mal passado, uma salada de alface com um vinagre bem neutro... Uma coisa sadia. Toma o teu banho, come pouco. Porra, Bicho, se cuida mais. — Acho que vou ver um Reggae com a Gina. — Vai com a Gina ou com a Cíntia? — Como é que você sabe? Vou com as duas. — Você começa a trabalhar quando, Francisco? — Estes dias a minha fobia aumentou. Estou complicado. — A Gladys está falando aqui se você vai mesmo fazer a carta, a nossa credencial. Bicho, você está nesta fase ruim e vai me fuder. Faz a carta. — Tudo bem, faço To Whom it May Concern. — Faz dizendo que eu vou fazer uma reportagem ligada ao turismo. — Eu fiz pra Dida em Portugal, não vou fazer para você? — Ah a Dida, Ah a Dida, Ah, a Dida. Você fechou com o Green Card? — Você quer dizer Yellow Green... — Bicho, não confunda trabalho com amizade. Ontem aquele cara daquela loja disse Xiquim, Xiquim e deu as costas. Aquele que foi gerente em vários lugares. — Ah, o Marcinho Rocha. Ele é gente boa. — Não é assim, Francisco. Xiquim, Xiquim. Pra você todo mundo é gente boa. Não é assim, Francisco. — Não. Não é pejorativo. É carinhoso. — É. É aquele que esteve com você lá em cima no Miss Bangu. — Foi o Miss Florida Review em Petrópolis. A esta altura já comecei a rir. Só conhecendo a cabeça louca do Gerson para entender este diálogo. E continuou. — É, eu tinha até bolado um slogan para cá, para que estes seis gerentes aprovem: “Quem não é o maior tem que ser o melhor”. Uma menina, uma das amantes do dono da loja, saltou do balcão e gritou: maravilhoso, maravilhoso!! — Mas, Gerson, você há de convir que este slogan já existe. Isto não é criação. Você está copiando de alguém. — Francisco, veja bem, eu copiei de uma empresa que mudou de razão social. Que se chama Exxon. — É de fato era Esso, agora é Exxon. — Então eu tenho razão.


Maria Augusta (minha mãe) na primeira festa da independência do Brasil em Miami.

Alfonso Samour, um dos primeiros comerciantes que acreditou no mercado de brasileiros na Flórida.

No aniversário de meu pai (à esquerda) com Hendel, Nina e minha mãe.

Tony Moura, Mário Magalhães, Chico Moura, Daniel Garica e Wenceslau Soares Júnior no Baile do Mr. Carnaval no Hotel Hyatt de Miami.

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O Ministro Luis Fernando Benedine recebendo o pintor goiano Siron Franco.

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Chico Moura

José Sales, gerente da Transbrasil e Chico Moura.

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William Peetz, Valnei Santos e Pedro da Silva no restaurante Green Door.

William Batalha, Hispéria Grossi, Acran e Tatiana Pinto no congresso ABAV.

De Carlo, o fashion designer que ensinou muita gente a dançar.

Com Berta, da loja Berta Brasil de New York.

Luis Gozzoli, Bia Duarte, Bruno Borghini, Marilia Gabriela e Henrique Campos em noite elegante de Key Biscayne.


E bateu o telefone. Gerson ao telefone nunca se despediu de ninguém. No meio da conversa desligava.

O início do ano (19 de janeiro) era o aniversário da ex-namorada de Portugal, a Dida Gomes, já então nossa representante em Lisboa. Aécio Ramos era outro gaúcho (amigo da Dida) que eu conhecera de forma muito peculiar. Falava com ele quase todas as semanas por telefone, mas não o conhecia pessoalmente. Um dia, viajando para um congresso da ABAV em Porto Alegre, faço uma mudança de avião em São Paulo e entro numa fila para comprar um suco. Com um sotaque gaúcho, a pessoa que estava à minha frente pede um café. Virei para ele: — Aécio? Ele respondeu: — Chico? Ficamos arrepiados. Alguns chamam de paranormalidade. Poderia ser coincidência. Não sei. Mas foi uma coisa forte. A partir daí surgiu uma grande amizade. Principalmente em razão do amor por tabela que eu sentia pela Dida. De volta a Miami, a agenda sempre cheia de compromissos. Um dia eu almoçava com a congressista eleita (depois senadora) Ileana Ross Lethnen na Calle Ocho, no dia seguinte voava para New York para uma festa de Benito Romero que criava, sob os auspícios da Brazilian House Foundation, o Forró na Broadway. Benito passou toda a sua vida com esperança de criar a Casa do Brasil... No outro dia poderia almoçar com o futuro governador Jebb Bush, com o Chico Anysio, Zico ou Nelson Ned.

1990 Continuava a publicar as notícias em cápsulas: No mesmo início de ano, o mineiro K Furi finalmente cria a sua agência de viagens, a Euroamerica. Henrique Marques (o Henriquinho), funcionário do jornal, casa com Miriam. Marília Pêra e Cibeli Capezzutti (namorada do Carlão), da revista Miami Alegria, na Disney.

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AÉCIO RAMOS

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No centro de Miami, a foto de Nicete Bruno, Paulo Goulart e Maury Silva (pai do Faustão) na Amec Center.

Chico Moura

De volta a New York, o registro da bela mineira Tânia Mara que abria a loja “Coisa Nossa”.

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O casamento de Torró e Rose foi um happening no Surfside Community Center, da Flórida. Além dos músicos Heleno (irmão de Chaleur), Bill Duba e Eddy Gonçalves, os irmãos Marcos Cardoso dos Santos (Magrão) e Salvador Cardoso Filho (Cubu), o amigo de New Jersey Yaro Pribyl e Mário Magalhães. Luís Renato Jung é o gerente de vendas da agência TAG Tours, de Genilde e Luís Fernando Macambira.

OS BRASILEIROS DO NORTE Naquela época já podíamos registrar em Miami os brasileiros que vieram do norte: Antônio Nina, Carlinhos Lopes, Aimee Johnson, André Papadan, Cardosinho, Adão Meireles, Cláudio Pereira, Yaponam e Angélica de Sousa, Nívea e Eduardo Barbosa, Tim e Beatriz Oliveira, Aloísio Carcará, Carlos Roberto, Aroldo Couto, Emília e Américo Torneiro, Maria e Gerson Poltroniere, Mário Magalhães, Sérgio Bosi, Luís Barbosa e Dagmar, Pintado, Família Pestana, Nivaldo (Meltur), Rosana e Geraldo Silva, Alfaia, Augusto Buisine (Dino), Johnny e Rocky Marciano, Jarbas, Presidente, Alemão, Helena Valenti, Dona Jacinta, João Cabelo Branco, Sal Cavaliere, Paulo Gualano, a família da Stela e da Tina da Varig, o DJ Roberto Costa, Ed Ferreira, Warley da Silva, Ed Ferreira, Tonico, José Gonçalves (Zelico), a Família Bastos...

CINCO ANOS DE JORNAL A festa de cinco anos do jornal aconteceu no dia 17 de janeiro de 1990, no Fourty One at the Forge, hoje Jimmy Z. Mais de 300 pessoas passaram pela festa. Entre os músicos: Linda Novitt (cantora), Saulo (teclado), Etiene Fuentes (bateria) e John Babel (baixo). Todo o lado musical da cidade assinando as partituras: Tony Cruz (guitarra), Honey (cantora), Roberto Escalante, Eddie Gonçalves, Howard Moss, Bill Ross, Johnny Telles e Torró (seis bateristas), Borracha ( showman), Heleno e Bill (percussão), Pepe Aparício (baixo), Luizinho (baixo), Erica Norimar (cantora), Orlandinho (guitarra), Paulo Gualano (cordas) e outros.


EL CAPITÁN Um dia, virando a noite – já sozinho – no escritório, meti a mão no bolso e nada. Quatro horas da manhã, sem carteira, cash, cartão de crédito, nada. Com uma renda sempre superior a dez mil dólares mensais, não tinha um penny no bolso. O ar-condicionado central desligado me obrigava a ficar de cuecas. Me deu uma vontade louca de tomar um café cubano, um pão com manteiga. Já estava clareando e em poucas horas deveria levar a arte para a gráfica rodar mais um número de jornal. Catei moedas... Nada. Desci e encontrei o tradicional mendigo que fazia da nossa portaria o seu hotel. Ele dormia profundamente. Cheguei bem devagar e toquei no seu braço: — Capitán, Capitán, tiene aí unos dos o tres dólares? Te lo pago mañana. — Lógico, Chico. Solamente tres? — Sí, está bien. Fui correndo ao bar do René na esquina da terceira avenida, o único bar que nunca fecha em downtown. Às 6h da manhã, terminei o jornal, fui à gráfica, na volta passei pelo banco e levei o dinheiro para o mendigo. Durante anos esta cena poderia se repetir muitas e muitas vezes. O dinheiro para mim foi feito para gastar. E manejá-lo era uma arte que eu não conseguiria aprender. El Capitán tinha sido um empresário cubano ligado à indústria tabaqueira. De tanto apanhar na prisão, ficara maluco e passava todos os dias arrumando uns papéis que encontrava voando pela rua. Tinha um sentido de organização incrível e lógico, sabia lidar com o dinheiro melhor do que eu. Papéis de todos os tamanhos. Ele não parava um

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A um dado momento eu olhei para um lado e vi o pessoal do Consulado, de outro os comerciantes, no fundo os bancários e banqueiros, no meio o pessoal da Brickell, a turma da Câmara do Comércio, na pista de dança todos se misturavam ao redor de enormes cisnes que me foram oferecidos por ilustre desconhecido. O jornal havia promovido tanta gente que eu não tinha a menor idéia de como passara a ser querido. Foi a oportunidade que o mundo me deu de poder fazer o bem naturalmente, sem pensar em retorno. Dinheiro é uma conseqüência de uma coisa que se faz bem feita, com amor. Se a gente coloca o coração em qualquer projeto, não tem como dar errado, e naquela festa o meu coração era dividido com todos os presentes. O famoso endereço do 141 NE Third Ave. deixara de ser O Globo para ser do jornal Florida Review. Rodrigo Soares, com suas tradicionais bermudas, continuava passando pelo nosso escritório para o cafezinho e para “ver” o movimento.

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minuto de trabalhar. No canto de nossa porta já era parte do folclore e ninguém reclamava.

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Nas matérias de Gerson Delano a sua preocupação com a hiperinflação do Brasil.

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Gladys Crabar e Lica, da loja Alô Brasil, fazendo relações públicas pela cidade. A proprietária, Maria Helena Lamardo, sempre simpática e amiga. A jornalista Silvia Vinhas começa a colaborar para o jornal. Dr. Neri Franzon continua fazendo sucesso com a sua coluna de medicina. José Pororoca agora tem a responsabilidade da cozinha do restaurante da loja Amec Center. Romero Britto assina com a Absolut Vodka os painéis (billboards) espalhados pelos EUA. ABSOLUT ROMERO! É a glória brasileira representada pela arte de um pernambucano. Agora seriam dois os artistas pernambucanos a perpetuarem suas obras em Miami: Francisco Brennand e Romero Britto. Marcos de Paula e Jussara de Paula presentes ao Carnaval de João Nogueira, assim como o baterista Robertinho Silva, GuilhermeVergueiro, Newton Ferraz, Ana Lúcia Breil, Giora Breil, Luciana Lamardo, Maria Helena Lamardo, Jimmy da Silva, Marco Polo Figueredo, Zaira Figueredo, Alejandro Mia, Márcia Figueredo, Stela Rocha e Antônio Rocha, Yolanda Amorim (Yolanda Pereira), Sueli Rocha, Mara, Luís Capelo (O Gordo), Ricardinho Capelo, José Neto, Carlos Moura, Felipe Capelo. No baile do Grupo Kaoma a assinatura de Johnny Marciano do canal 51 – Telemundo. Leila Luna começa coluna de New York mostrando os teatros, museus, música, dança e o que rola na Big Apple. O tradutor Carlos de Paula - também de New York - colabora com o jornal Florida Review. No Carnaval a divisão das águas: Torró no Deauville, Mário Magalhães no Hyatt e Paulo Gualano no Palácio de Viscaya.


Vânia Lopes Cançado continua a colaborar com coluna de psiquiatria.

Victor Manzolilo de Morais (Vic Morris) começa a colaborar para o jornal. Jamil Degan inaugura o restaurante “Maison Brasil” em New York. Luizinho continua firme no seu Via Brazil e, de New York, anunciando no FR. Vânia Cançado, Careca (sócio de Pedro da Silva) e a Elyane Bechtinger dando recado como violonista no Green Door, com a presença de Moacyr Moura e Maria Augusta Moura - meus pais. De passagem por Miami, Maria Lucia Medeiros, a Lulu. Encontrou muitas modificações no escritório do jornal que ajudou a criar. Nasceu (com 4 quilos) no dia 18 de março de 1990, em Miami, Nicholas Abrapour, filho de Abbos Abrapour. Roberto Carlos ganha prêmio na Latin Stars Walk of Fame, pouco antes do falecimento de sua esposa, Nice. Romero Britto faz parte do acervo da Casa Branca com o quadro “Soldier of Peace”.

NAVIO-ESCOLA “BRASIL” EM MIAMI Dia 19 de maio de 1990, na festa do Navio-Escola “Brasil”, o Capitão de Mar-e-Guerra pediu que eu ficasse. — Mais tarde, depois desta festa, vamos fazer uma reunião com um pequeno grupo de convidados. Gostaríamos de contar com sua presença. Com tanta formalidade, aceitei o convite. Descemos para um salão, uma espécie de cassino dos oficiais onde a verdadeira festa iria começar. Dancei muito com uma senhora da alta sociedade carioca. A festa parecia que não terminaria jamais. Muita fartura de comida e principalmente de bebida. Era como se estivesse presente em duas festas ao mesmo tem-

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Unidas Rent-a-Car inaugura filial em Miami, Dalmo Ferreira é o presidente. Na festa de abertura, Pedro da Silva do Consulado, Francisco Ruiz (o Kiko), Teresa Theriaga e Joe Rasgado.

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po. A um dado momento mui educadamente pedi licença à senhora para ir ao banheiro. Ela também muito educadamente perguntou: — Posso lhe acompanhar? — Com prazer. E saímos pelos corredores do navio procurando um banheiro. Abri uma porta, encontrei a lavanderia, outra porta uma dispensa de alimentos. Lá ela me pegou por trás, me virou e me deu um longo beijo. Continuamos a procurar por um banheiro. Na terceira porta encontramos um pequeno consultório dentário. — Será que aqui tem banheiro? A esta altura a senhora já estava com más (ou boas) intenções. No escurinho da sala apagada nos beijamos mais uma vez. Com o balanço do navio e do belo rum cubano, fomos tirando a roupa e o calor aumentando. Passado algum tempo, o comandante do navio resolve fazer um tour com os convidados mais ilustres: o Cônsul-Geral do Brasil em Miami, os gerentes dos bancos, o pessoal da Câmara de Comércio e os oficiais acompanhando. Ao abrir a porta do compartimento onde estávamos, anunciou: — E este é o nosso consultório dentário. Foi acender e apagar imediatamente a luz. De cuecas arriadas, com a bunda branca de frente para o grupo, montado numa cadeira do dentista, foi uma das cenas mais grotescas e engraçadas por que já passei na vida. Saí do navio correndo, sem me despedir de ninguém.

AINDA EM 1990 Coluna de Ellen White sobre Romero Britto (Absolut Vodka) em inglês mostra relação do pintor com Paloma Picasso, Paulo Maluf e Jeb Bush. Lygia Bruno Lobo é a Managing Editor do jornal. Antônio Nina publica os dez mandamentos de como receber socialmente. Falece dia 11 de abril o presidente da Varig, Hélio Schmidt, aos 64 anos. Paulo Rollo, após percorrer todos os países da América e Europa, chega à África com o mesmo Fiat Elba e manda cartão. Luís Fernando Macambira e Genilde (Guerra) Macambira mandam colaboração para o jornal com matéria sobre excursão na África.


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Meu filho Paulo Roberto Moura, morou um tempo em Portugal e gostou da Costa da Caparica.

Paulo Rollo conseguiu em Miami o patrocínio para o resto de sua viagem.

Meu filho Carlos Henrique (à esquerda), com o jogador Kid em Orlando.

Romero Britto com Peggy Iacocca em sua primeira galeria de Coconut Grove.

As mulheres da sociedade miamense da época; Teresa Theriaga, Carmen Lima, Tânia Ferraz, Inês, Elka, Maria Helena e Amélia.

A turma do Bar Villarino do Rio de Janeiro: o jornalista Irineu, Sergio Cabral (pai) e Gilson de Paula.


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A família Pereira: Cristiano, João, José Afonso e Luiz.

O empresário cearense Clodomir Girão em foto com João Pereira.

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Rogaciano Leite Filho, (filho do poeta e cantador Rogaciano Leite), Fagner e Manassés, na ABAV- 90.

O casal Marcos de Paula e Silvio (Careca) na loja Yes Brasil de Miami.

O eterno amigo de Newark; Augusto Buisine (Dino), ex- jogador de futebol, de basquete, ex-cabeleireiro e atual companheiro de pescarias em Miami.


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Ianaiê Sousa, Allan Kobrin e Ary Piassarolo (de costas ) no primeiro restaurante brasileiro de Miami Beach, o Gina’s Place (mais tarde Miami Beach Place), de Gina Eckerman.

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Luis Capelo (o Gordo) no concurso de lambada no The Forge em Miami Beach (Studio 41 – mais tarde Jimmy Z)

Geraldo Silva (com camisa trocada do Banco Nacional) exibindo a taça de campeão (pelo time do Globo), no primeiro Torneio de Futebol da cidade de Miami. O ViceCampeão foi o time da Varig. O torneio marcou a chegada do jornal O Globo em Miami.

Houve uma época, onde quase todos os passageiros de um avião se conheciam. Num destes vôos, vemos os brasileiros, Jussara, Mário Magalhães, Marcos De Paula, George Bassit e outros...


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Jorginho Mexicano, de Petrópolis, se apresentando no Restaurante Made in Brazil, de Miami.

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Maria Emília e Luis Castro, no meio de um casamento, em foto no restaurante de Carlinhos baiano em Fort Lauderdale (depois Carlinhos virou vendedor de carros).

O paulista La Barros, um dos mais queridos artistas plásticos brasileiros em Miami. Foi o primeiro editor de artes do jornal Florida Review.

O homem de turismo Rony Curvelo (de Orlando) com a sua ex-esposa, na ABAV de 1989. Mais tarde Rony mudou para Miami, virou secretário de Fernando Collor, foi candidato a vereador por Miami Beach (perdeu) e voltou para o Brasil.


Dia 22 de junho de 1990, Toninho Horta faz show no Music Room de Miami Beach. Ao lado do News Cafe, Mark Soika inaugurou uma pequena casa noturna mostrando o melhor da chamada fusion music do sul da Flórida. A casa ficava também ao lado da Blue Man, a primeira loja de biquínis do Brasil de South Beach – do carioca Azulay. Lá trabalhava o Marquinhos Pires. Pelé dá entrevista com exclusividade ao jornal Florida Review. Dirce Migliaccio (Emília) também dá entrevista ao jornal. Passa a morar em Miami. Dia 13 de junho de 1990, a festa de noivado de Evangelista Pereira e Yolanda Amorim no restaurante Abbracci (Coral Gables): Karen e Cláudio Rozen, Sônia Nittinger, Karen Amorim, Ana Lucia Breil, Carlos Cividanes, Silvia e Oscar Soicher, Luís Fernando Benedine, Carlos Andre Pereira, José Theriaga e Teresa, música de Talita e canja de Cláudio Rozen. Evangelista Pereira era um português criado no Brasil. Foi professor de medicina e depois criou clínica em Botafogo, no Rio de Janeiro. Yolanda foi socialite no Brasil, destaque da Portela. Fernando Llos faz vernissage em seu restaurante de Miami Beach. Presentes Romero Britto, Carlos Martins, Cybelle, Marcia Gabrielle e o pintor Stewart Stewart. Vitorio Pierre é Disc Jockey do Stringfellow em Coconut Grove, a mais badalada casa noturna dos anos 90 em Miami. Pierre é amigo de praia, de frescobol. Casado com Soninha Tomé, irmã de Márcio Braga (Flamengo). Soninha era uma bela mulher que trabalhava no Consulado do Brasil em Miami. Leila Luna informa Marisa Monte em NY. Thierry Currey, Christian Kegler e Cid Guerreiro fazendo sucesso em NY. Editora Thesaurus de Brasília abre filial em Miami com o português Victor Alegria.

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Em junho de 1990, a Transbrasil inaugura vôo direto ao Brasil com show de Tonia Elizabeth e Ary Piassarollo no Aeroporto Internacional de Miami. Presentes: Jost Leite, Pedro da Silva, Márcia Ribeiro (Consulado), Germano Barbosa, Antônio Carlos Carbone, Luís Barros, Marco Aurélio Testa, Sérgio Bandeira de Mello, Paulo Machado, José KFuri, Roberto Sas, Omar Fontana, Celso e Regina Cipriani, William Ellis, Elda e Daniel Garcia.

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Silvinho Moura começa a dar trambiques na cidade e desaparece.

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Darci Vila-Verde (irmão do artista plástico Dalton) faz show no Green Door. Na platéia, William Peetz, a psiquiatra Vânia Cançado (filha de Nariz, ex-jogador de futebol e médico), Paulo Teixeira do Banco do Brasil, Igor Kipman (Consulado), Jon Ricardi (corretor), Tânia Leite (Consulado), Al Sousa da Varig e o DJ Henriquinho. Turma da Mônica chega ao Estados Unidos. Na primeira entrevista da Turma, conheci Maura Silva (irmã do Maurício de Sousa), uma mulher superinteressante... Almir, que nos anos 80 foi dono da loja Chica Brasil, é o novo gerente da loja Victor’s, de Tony Correa. Azymuth no Music Room, ao lado do News Café, e na loja Blue Man (Azulay). Abre a Peninha’s Shop de Miami.

CIRCULAÇÃO Naquela ocasião o jornal Florida Review já circulava com grande sucesso no Brasil. Todos os meses eu despachava (via Varig) os jornais numa mala direta que meu pai enviava para as principais agências de viagens em todos os Estados brasileiros. Além do correio, o jornal era distribuído e vendido nas bancas internacionais. O amigo baiano Nivaldo Caires de Sousa desembaraçava na alfândega e colocava nas principais bancas de jornal do Brasil: em São Paulo, na livraria La Selva (aeroporto), na esquina da Paulista com São João, na Rua Augusta, na Brigadeiro Luís Antônio, na Galeria Metrópole (perto da Monark Travel). No Rio, Nivaldo distribuía no Galeão, final do Leblon (banca da Farmácia Piauí), Praça Nossa Senhora da Paz, General Osório, Posto Seis, Posto Dois, Rio Branco. Em Salvador, no aeroporto, no Porto da Barra, na Vitória, Pituba, Mar Vermelho. E assim por diante. O jornal era vendido por 50 cruzeiros e toda a renda revertida para o jornaleiro. Um dia fui ao Rio e me embriaguei com amigos. Saí do baixo Leblon até o Posto Dois comprando jornais. — Tem aí o Florida Review? — É um jornal da América, não é?


FESTA DA INDEPENDÊNCIA Dia 7 de setembro criamos o primeiro baile de Independência do Brasil de Miami, no Hotel Omni. Com mais de mil pessoas presentes, a festa contou com a animação da orquestra do Clube Internacional do Recife, que, com seus metais, veio de Pernambuco especialmente para animar o já conhecido “Vôo do Frevo”. A Bancor (Carlos Lima) recebeu os 200 turistas pernambucanos; a NCL (Ronaldo Batalha) faturou nos passeios de barco para o Caribe; do Recife, a agência Moturismo (Mote Stambosky) faturou em cima de todo mundo. O pessoal do jornal organizou o baile, contratou o local, os instrumentos musicais (Paulo Gualano). A Pitu de Pernambuco ofereceu mais de 1.000 latinhas de cachaça, que foram distribuídas no final do baile. O baile contou com o apoio da Varig (Bruno Borghini), da Tagus Investments (Teresa Theriaga) e da loja Alô Brasil (Edson e Maria Elena Lamardo). Para dar um caráter mais oficial à data resolvemos criar um troféu e premiar cinco personalidades (não brasileiros) que mais colaboraram com a nossa comunidade de Miami. Foram escolhidos: o Prefeito Stephen P. Clark (americano), o diretor da Univision, Giora Breil (alemão), a corretora de imóveis Teresa Theriaga (portuguesa) e os ameri-

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— Sim, vocês deveriam colocar em exposição. Por que está lá no fundo escondido? Não é um bom jornal? — É um bom jornal, mas a gente não tem mais espaço. No Posto Dois descobri um jornaleiro italiano, Giovanni Bottino, que “comandava” diversas outras bancas de jornal. No Rio, assim como os portugueses dominavam os botequins, os espanhóis os motéis, os judeus o comércio de imóveis, os árabes o comércio de tecidos, os italianos dominavam as bancas de jornal. E Giovanni era um deles. Na edição seguinte saiu uma foto de Bottino (na capa) lendo o FR e recomendando aos seus amigos – levei 50 T-shirts (camisetas) para distribuir entre os jornaleiros. A empresa S&A Distributors continuava a prestigiar o jornal e periodicamente aumentava o número de publicidade. Um dia o Tony Samour me ligou dizendo que tinha uma boa promoção. Todos os jornaleiros passariam a receber um radinho de pilha, na condição de colocar o nosso jornal em display, ao lado do Jornal do Brasil, Globo, Estadão ou Folha.

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canos Mr. Anderson (chefe da polícia de Miami) e Therry Gonzalez (do Fire Department).

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O artista plástico pernambucano Romero Britto recebeu homenagem do governo de Pernambuco. E ainda mais gente presente: o grupo árabe da S&A Distributors (Tony Samour); Carmem e Carlos Lima com a turma da Bancor; um grupo que saiu de São Paulo especialmente para a festa: Kau, Elísio, Ângela Maria Capelo, Augusto Capelo, Priscila e Ronaldo. E ainda o casal de dentistas mineiros Arnaldo de Sousa e Jaqueline, a fotógrafa Gina Eckerman, Aldo Leone (Agaxtur), Dagmar Barbosa (Gordo’s), Bob (Fotão) Garcia, Suiane e Angélica de Sousa, Sueli Rocha, Leila Luna (de New York), João Pereira, Sérgio Botinha, Jeude, Ninon e Johnny Be Guda. Nos sorteios a presença de Carlos Imperial e meu pai (Moacyr Moura). Meu pai mete a mão na cumbuca para sortear uma passagem ao Brasil e me entrega o envelope. Em mais de 1.000 pessoas presentes, tira o nome de minha mãe. Parecia combinado. A primeira festa da independência do Brasil de Miami ficou registrada como uma das mais organizadas e animadas da cidade. Em Key Biscayne o beautiful people começa a se reunir. Principalmente ao redor da Studio Art Gallery, com a então promotora de eventos Beatriz Duarte recebendo Marília Gabriela, Marcos Machado e esposa Cristiana, Luís David Azambuja, Luís Ernesto Gozzoli, Raul Boesel, Bruno Borghini, Kika e outros colunáveis. Os brasileiros de Miami da época: Carlos Araújo, da Concierge Travel, com June Farias na galeria Laurent. Na festa de aniversário de Abbos Abrapour: Juarez Régis, Vera Bernadini, Caca Pagotto, Luís Barros, Tony Correa, Almir, Ada (Varig) Richard Pontes, Ricardo Bezerra, Marietta Bitter, Luís Tripoli, Yara Watlington, Romero Britto, Sônia Fachini, Richard Miessler. Oscar Fasano é o namorado da Kau Fernandes. O ano de 1990 foi talvez o de maior participação, maior faturamento e de grandes realizações. Dia 6 de setembro (comemorativo ao dia 7), o jantar da BACC no Hotel Sofitel com o casal Luís Gozzoli, Luís David Azambuja e música de Jesse Pessoa, Tonia Elizabeth e Ary Piassarollo.


Tony Correa, da loja Victor’s, entra para a Câmara do Comércio.

Um belo dia, o gaúcho Nelson Huffel, quando ainda residia no Rio de Janeiro, olhou para o seu motor home e disse: — Vou para o Alaska. Vendeu o suficiente para a viagem e partiu. Moacyr Moura, representando o jornal, cobre cocktail que inaugura vôo Miami–Manaus pela Transbrasil, onde Gerson Delano ganha sorteio de passagem ao Brasil de Roberto Sas. A harpista Nádia Pessoa fez, aos três anos de idade, sua primeira apresentação em Washington D.C. Aos dez anos com o pai, Jesse Pessoa, faz show no jantar da Independência do Brasil em Miami. Chico Moura cobre para o jornal a ABAV de Porto Alegre. Itaguaçu Ferreira é o novo editor de moda do jornal.

A CHAVE DA CIDADE E O LIVRO DE ZICO Dia 24 de setembro de 1990, o Prefeito de Miami (Dade County), Stephen P. Clark, me condecorou com a chave da cidade. Em cerimônia realizada às 8 horas da manhã, o prefeito fez pequeno discurso agradecendo a nossa participação na divulgação positiva da cidade de Miami no exterior. A chave não era grande – e muitas vezes se perdeu nas mudanças. Em novembro de 1990, na época da Feira do Livro de Miami, com a supervisão do publicitário Marcus Vinicius Bucar Nunes, o pessoal da Editora Thesaurus solicitou o nosso apoio para o lançamento do livro “Zico Uma Lição de Vida”. Nas palavras do editor Victor Alegria: A importância do lançamento deste livro em inglês é enorme, uma vez que os Estados Unidos sediarão a próxima Copa do Mundo (a de 1994) integrando-se no interesse que o futebol está despertando no povo americano. Em um concorrido cocktail, Bruno Borghini da Varig deu o vinho e Álvaro Diago cedeu o espaço no luxuoso Hotel Intercontinental de Miami. Ainda muito cedo fui com o Danilo Santos (de limusine) buscar o Zico, a Sandrinha e o Marcus Vinicius no aeroporto. Ele pediu que fôssemos direto para a FJF Electronics e logo em seguida para a loja Kalu Place. — Não é muito cedo? Vamos tomar um café primeiro. Eles estavam ansiosos para comprar o novo modelo de um telão.

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A maioria dos artistas brasileiros, jogadores de futebol, políticos, quando vêm para os Estados Unidos, pensam logo na enorme lista de compra dos produtos de consumo. Nos anos 80 os adolescentes gastavam milhões de dólares nas temporadas de compras – na maioria das vezes adquirindo produtos sem necessidade, supérfluos. No caso dos artistas era mais ou menos a mesma coisa. O cocktail de lançamento do livro do Zico no Intercontinental foi um sucesso! Presentes: o Ministro Luís Fernando Benedine, Emerson Fittipaldi, Francisco Frota (Franzé), Maria Helena Borghini, Raul Boesel, Paulo Roberto Moura, Jô da Loja Lucy’s Sports, Luís Gozzoli, Renato Scaff, Nelson Slosbergas, Dalma Campos (irmã de Wolf Maia), Yara Watlington, Danilo Santos, Alexandre Araújo e o editor da Thesaurus, Victor Alegria. Logo a seguir aconteceu em Miami a Copa Pelé, com Luciano do Vale, Júlio Mazzei, Ciro e Cristina Batelli, a jornalista Silvia Vinhas, os jogadores Zico e Edu, do Brasil, Paolo Rossi e Alessandro Altobelli da Itália, Bobby Moore e Ray Clemence da Inglaterra, Tarantini e Norberto Alonzo da Argentina. O carioca James Felzem é o novo presidente do Lyons Club de New York. Ed Ferreira continua sendo o maior vendedor de carros da cidade de Miami. Com o título “A FORÇA DO TRABALHO”, Abel de Jesus, da loja Abel Electronics, é entrevistado pelo jornal FR. E ainda na mesma época, entrevista com o flamenguista Antônio Teixeira, o popular Tonico, que comemorou, no final de 1990, trinta anos de América. O estilista Itaguaçu Ferreira continuava a fazer sucesso com sua coluna Fashion in Flashes. E a Câmara do Comércio continua publicando a sua diretoria. Entre outros: Renato Scaff, Luís Ernesto Gozzoli, Nelson Slosbergas, Bruno Borghini, Henrique Campos, Germano Di Polto, Thomas Skola. Brasil foi Campeão da Copa Pelé, com a jornalista Silvia Vinhas (mulher de Luciano do Vale) entrevistando os atletas do século. Após o lançamento do livro do Zico, fui com o meu conterrâneo Francisco Frota para o Mounty’s, um restaurante localizado numa ma-


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rina em Coconut Grove. Ao final da noite, uma americana filha de brasileira com novaiorquino, me pede uma carona. Na porta de sua casa, deu um mau jeito nas costas e pediu que eu fizesse uma massagem. Esta massagem custou uma grande paixão, incontrolável, doentia. O início de um novo amor, cheio de idas, vindas e muitas viagens. Ela me mostrou um lado da vida que eu pouco conhecia. Um lado mais sofisticado, mais caro. Ganhando um bom dinheiro com o faturamento do FR, podia me dar ao luxo de gastar mais, conhecer os melhores restaurantes da cidade. De 1990 a 1992 vivi um verdadeiro eldorado. O modo de vida já não era o de um jornalista. A vida já não era mais simples, os porres diminuíram, as roupas mais elegantes, a saúde mais comedida. Mudei para uma casa de dois andares nos Roads (ao lado da sofisticada Ave. Brickell). Na parte de baixo, três salões cheios de obras de arte e tapetes persas. Na parte de cima três quartos e dois banheiros num estilo art deco. No driveway três carros: um Nissan Maxima, um Mitsubishi Eclipse e uma Van. Todos zerados. Além de um belo backyard (quintal) com árvores frutíferas, a cozinha completava o desejo de receber amigos e fazer festas. Chamei o Beto, meu filho mais novo, para morar comigo. Não deu certo. Ele chegava tarde e eu, preocupado, não dormia. Um dia ele se mudou para a casa de uma ex-namorada minha, a paulista do corpo bonito. Ainda solteiro, fiquei morando numa casa enorme, recebendo a visita da nova e bela namorada e outras “meninas” que me descobriram como talvez um bom partido (?). Luís Ernesto Gozzoli morava a meio quarteirão de minha casa. Tinha dois rottweilers enormes e eu uma cadelinha vira-latas que adotei num shelter. Quando ia visitá-lo, era um deus-nos-acuda. Aqueles monstros perto de minha pastora. O paulista Rodrigo Lisboa Soares continuava com a representação de seu jornal em Miami. De vez em quando nos encontrávamos no Las Palmas ou em meu escritório. Para o réveillon de 1990 combinamos eu, a namorada, a Leila Luna (de New York) e o Fred (editor de um jornal de New York) passar o AnoNovo em Paris. Antes, eu e a namorada fomos a Amsterdam, na Holanda. Um dia, entramos numa enorme fila para assistir a um canto gregoriano numa igreja. No frio da espera fui a um bar e pedi um licor. Uns árabes com cara de loucos me olharam de lado dizendo que ali não havia bebidas. Só haxixe. Servido em pratinhos, poderia ser bom para o frio. A girl friend e a igreja não combinavam com a nova droga. Voltei para a fila e segui caminhando. Ao olhar para o lado esquerdo, vi uma vitrine com uma enorme negra, nua, de pernas abertas chamando com a língua os transeuntes para entrar. Não entendi nada. Era a primeira

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vez que visitava a Holanda. Na igreja um espetáculo inesquecível. A beleza dos cantos. Dia seguinte seguimos para Haia. Parei um casal na rua e perguntei: — Para que lado fica Haia? — Haia? — É. Heya, Heía. — Não sei. Será que estava pronunciando direito? Aí mostrei o nome correto: Den Haag. Em inglês eu deveria ter falado The Hague. Jamais poderia imaginar que Haia queria dizer Den Haag. E ainda responderam com aquele catarro na garganta: Deeeeen Haaaaag. O casal entrou num carro à nossa frente e nos levou até a cidade. Que país era aquele com tamanha gentileza? Lá, reencontrei Victor Manzolilo de Moraes, um diplomata que servia na Holanda. Na semana anterior ele recebera na mesma casa o embaixador Affonso Arinos de Mello Franco. Após o almoço me chamou para tomar uns licores num quarto. As mulheres ficaram na sala e confortavelmente começamos os “trabalhos”. Com um pequeno controle remoto, ele ligou a televisão. Durante três horas vi cenas que me marcaram profundamente. Entrevistas com Fidel Castro, Nelson Mandela. Conversas com Chico Buarque... Victor tinha um acervo muito interessante com imagens únicas, que nunca foram distribuídas ao grande público. Na volta ao hotel pensei: de que vale uma pessoa servir ao Itamaraty e não registrar (como ele registrou) os momentos e os lugares por onde andou? Antes da Holanda, Victor Manzolilo de Moraes fazia a mala diplomática nas Ilhas Caribenhas e vinha constantemente a Miami. Escreveu para o FR com o pseudônimo de Vic Morris. Em Haia nos mostrou luxuosos cassinos à beira-mar, a embaixada do Brasil - localizada num castelo com direito a fosso, ponte levadiça e tudo o mais – e ainda, num restaurante brasileiro, comemos uma razoável feijoada. O nosso hotel, em frente à casa do Victor, não tinha chaves na porta. Podíamos entrar e sair a qualquer hora do dia ou da noite – sem chave. Lembrei da pousada em Paracuru no Ceará e da Sétima Cavalaria. Em Haia começamos a tirar no cara-ou-coroa o tipo de restaurante da próxima refeição. Nos deparamos com uma comida mexicana e na outra esquina com um sofisticadíssimo restaurante de Bali. Deu coroa: o restaurante mexicano. Ainda na entrada os nossos olhos presos no outro lado da rua. Sem dizer palavra, descumprimos a aposta e voamos para o de Bali. Contei exatamente seis garçons nos atendendo. Um verdadeiro ritual de comidas. O melhor vinho da casa. A conta,


*** Dia 31 de dezembro fomos nos encontrar com a Leila Luna, que chegara de New York com o Fred, editor de um jornal. Após o passeio de barco pelo Rio Sena e as doze badaladas de Bonne Année, Bonne Année, fomos à casa do Thierry Currey, um amor enrustido de Leila. Leila Luna era uma pessoa superquerida que me mostrou uma incrível fortaleza na capacidade de sobreviver em New York meio que sozinha, sustentando os estudos de uma filha, que mais tarde se formou na Sorbonne. Tinha aquele espírito alegre de carioca da gema. Por acaso havia estudado com a minha primeira esposa em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e sempre era um grande prazer encontrá-la. Durante muitos anos foi correspondente do jornal Florida Review em New York. Dia seguinte, pelas mãos do adido cultural do Consulado do Brasil, Antenor Bogea, fomos a um show de Nazareth Pereira, uma das cantoras que fazem um tremendo sucesso no exterior e que pouca gente conhece no Brasil. Nos Estados Unidos conheci muita gente assim: Flora Purim, Airton Moreira, Tânia Maria, Leny Andrade, Nelson Ned, Rose Max, Ramatis e tantos outros. Na viagem pela Europa, gastava uma média de 500 a 800 dólares por dia. Na volta para Miami estava completamente quebrado. Pedi a

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mais de 400 dólares, não doeu absolutamente nada. Não existe dor financeira quando estão presentes o prazer e o amor. Da Holanda alugamos um carro e seguimos para a Bélgica. Em Luxemburgo conheci um restaurante com o nome de Búzios – decoração igual – nas paredes, fotos de Brigitte Bardot, Bob Zaguri e outros famosos nas praias dos Ossos (Orla Bardot), Jeribá, Ferradura etc. Em Bruxelas visitei um primo que servia na Embaixada do Brasil. Notei que em seu apartamento existiam alguns banheiros bem divididos. Dois para o banho, outro com privada, bidê e uma pia, e ainda outro com um lavabo. Meu primo chegava da embaixada e, com sua esposa, sentava numa cadeira do tipo “do papai” e lia toneladas de livros, revistas e jornais. O ritual era diário. Eu sentia falta dos calvados noturnos. Um dia assaltei o seu bar e tomei todas as garrafas de licor (de raízes) da Bulgária. Ele havia servido no Consulado da Bulgária e não teve tempo de provar os famosos licores. A viagem de Bruxelas para Paris foi linda! Muitas cidades pequenas e aconchegantes. Na fronteira não adiantou ter tirado visto com comprovação de renda em Miami, nada. Tanta preocupação para nada – passamos direto. A companhia era extremamente agradável para se viajar. Muito bonita, educada e com bom astral.

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Titto Santos e Jorge Siciliano apresentando o Miss Florida Review em Petrópolis.

Em foto de Gina Eckerman, Mick Jagger, após entrevista de Chico Moura – exclusiva para a TV Globo do Rio, se apresentando no Orange Bowl na cidade de Miami .


Gerson e Chico Moura na inauguração do Café Ópera, a primeira casa noturna brasileira de South Beach.

Na inauguração da Unidas Rent a Car de Miami: Renato Jung, Pedro da Silva e Gerson Delano.

Gerson Delano com Marisa Monte.

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Gerson Delano com a esposa colombiana, Gladys de Betancourt em noite na Flórida.

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Gerson com Gilberto Gil, após show do cantor baiano em Miami.

Flavio Carvalho, Chico Moura, Roberto Carlos e Gerson Delano no Hotel Fontainebleau Hilton.


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um amigo 10 mil dólares emprestados. Ele me deu o OK se eu concordasse em pagar 10% de juros ao grupo a que ele pertencia na época. No mês seguinte não consegui os dez mil. Paguei os mil dólares de juros e resolvi trabalhar mais. Faturei em um mês o suficiente para pagar e fazer mais duas ou três viagens à Europa. O único jornal brasileiro da Flórida já faturava uma média de dez mil dólares por edição. Em um mês poderia faturar bruto mais de 20 mil dólares. Gastava tudo: New York, Paris, Fortaleza, Salvador, Rio e São Paulo.

PROFESSOR CAUBY No Carnaval de Mário Magalhães no Hotel Hyatt, o baile oficial da cidade, a atração era Cauby Peixoto. Eu, já embriagado pelo sucesso do jornal e me considerando dono daquele mundinho, não raciocinava direito, não prestava atenção nas armadilhas da vida. Nas viagens que fazia ao Brasil não entendia como as pessoas poderiam estar sofrendo. O mundo era bom, tudo era festa. Não havia problema de dinheiro, de saúde, de mulher, de família. Nada. Todas as vezes que chegava ao Rio de Janeiro e alguém reclamava de alguma coisa eu dizia: “Esse pessoal tá maluco!” Minha irmã, Ana Maria, segurando uma barra violenta com os filhos, netos, tudo era difícil. Eu não entendia como alguém no mundo pudesse estar sofrendo. E continuava a jogar dinheiro fora – pela janela. No baile de carnaval do Mário Magalhães, no Hotel Hyatt, curtia no fundo do salão, com dois ou três amigos, mais uma garrafa de Black Label. No banheiro um ex-jogador (mineiro) da seleção brasileira de futebol se entupindo de cocaína. De costas para o palco, não entendia nada do que estava acontecendo. De repente me puxam pela camisa. — É contigo. — O quê? — Estão te chamando lá no palco. — Que palco que nada. Eu lá sou homem de palco? Com muita dificuldade me levaram ao palco. E do microfone: — Professor! Professor Chico Moura! – Era a inconfundível voz de Cauby Peixoto. Ele parado me esperando com um troféu na mão. Mário Magalhães criara um troféu para pessoas que mais colaboraram para a comunidade do Brasil etc. Antes do Cauby começar a falar, tirei o microfone de sua mão e disse: — Professor, você ainda mora na Barata Ribeiro? Pois ora muito bem, eu ganhei uma aposta de uns garotos de Ipanema que duvidaram


1991 A pintora Adriane Banfi (com Bia Duarte), Irene Sangeri, Maria Alice Celidonio, José Hugo Celidonio, começam a aparecer na sociedade “miamense”. Paulo Gualano faz o seu Carnaval dia 19 de março, com Jair Rodrigues. Nilza Barude em Miami me fala de Carlos Borges, um jornalista seu amigo que morava em St. Petersburg. Matéria com o espírita Medrado, da Bahia. Festa de reinauguração do restaurante Esquina Carioca com o apoio de transporte das limusines de Danilo Santos. Miami Samba Group, sucesso na cidade, com festa de aniversário de Bob Garcia (Fotão) e Paulo Gualano. Gerson Delano, em janeiro de 1991, entre outras notícias, anuncia com exclusividade, em nosso jornal, a criação do restaurante Camila’s: Nossa cidade está em estado de graça, focalizada em 10 páginas com direito a uma grande chamada de capa pelo semanário Veja. A revista aponta suas lentes para empresários e comerciantes aqui radicados

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que eu pudesse entrar em sua casa numa festa – sem ser convidado. E aí eu entrei em sua casa na Rua Barata Ribeiro!!! A esta altura o Cauby não entendia mais nada. Peguei o troféu e, tropeçando, caí escadas abaixo. No dia seguinte me encontrei com o Cauby na rua e, com muita vergonha, tentei explicar o furo do dia anterior. A turma de Ipanema dos anos 60 não era fácil. Lembrei das festas de formatura no clube Ginástico Português, Hotel Glória e Jockey Clube. Alugávamos o smoking ou o summer na Casa Rollas, no bairro da Glória. Na festa, a caída com roupa e tudo na piscina. As apostas corriam. Só é homem e entra para a turma da Farme de Amoedo se andar da Avenida Vieira Souto até a Rua Visconde de Pirajá nu – completamente nu – e por aí vai. A festa na Barata Ribeiro que no final acabou em pancadaria foi antecedida de uma verdadeira carnificina numa boate gay da Prado Júnior. Os anos 60 e 70 foram extremamente cruéis com os gays.

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e traça um perfil de suas atividades que nesse aprazível porto lançaram suas âncoras. Paralelamente outras acontecências colocam Miami em evidência: a Copa Pelé Seniors realizada no “Joe Robie Stadium” foi televisionada (TV Bandeirantes) para todo o Brasil. A cidade ganha o seu primeiro restaurante self-service. Com o nome de Camila’s, dá um passo pioneiro na prestação de serviços a residentes e turistas. Deverá ganhar em breve dois empreendimentos de grande porte: o “Grotta Mare” dos irmãos Nerone, famoso restaurante de peixes do Rio de Janeiro, lançará, na valorizada Miami Beach, o Nerone’s. Outra sensação será o “Cafe Photo” (mais tarde Cafe Opera), um projeto internacional com liderança brasileira vindo consolidar a nossa presença. E para fechar com chave de ouro, o Consulado do Brasil instala-se no exclusivo bairro de Coconut Grove. Restaurante Gordo’s de Luís Barbosa e Dagmar recebendo a comunidade. Foi criado na loja Victor’s o primeiro videoclube brasileiro da cidade de Miami. Brasil, Campeão da Copa Pelé! Olodum faz show no Cameo Theater, de Miami Beach. O goiano Siron Franco fez exposição em Miami sob a batuta do maior marchand latino-americano da cidade, José Martinez Cañas. Presentes Luís Benedine, Bia Duarte e a marchand paulista Mônica Filgueiras. Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 12 de março de 1991, Maria Augusta de Araujo Moura. Lembrei do psicanalista Eduardo Mascarenhas dizendo: AMOR DE MÃE É PIOR DO QUE UM ARSENAL DE BOMBAS ATÔMICAS. Pois o amor de minha mãe era maior do que todos os arsenais reunidos. Perdi o chão, o caminho. A gente nunca está e jamais estará preparado para a morte da própria mãe. Publiquei no jornal, entre algumas cartas, um trecho que ela rabiscou num papel qualquer: As Marés recuam, mas deixam atrás de si conchas brilhantes na terra; O sol se vai, mas seu meigo calor


Após o funeral no Rio de Janeiro, fui para São Paulo encontrarme com a namorada. Nada melhor do que um ombro feminino num momento de tristeza. Na casa de meu primo Augusto Capelo escutei o nome de Flavius Ferrari. — Como? Ele está aqui? Ele é de Cancún. — Não, agora ele é presidente do Holiday Inn do Brasil. Augusto, Ângela e Vitinho estavam de malas prontas para a casa do Celso e da Zezé, em Ribeirão Preto. — Vamos lá. Vai ser bom para sua cabeça. Antes liguei para o Flavius: — Que alegria saber que você está aqui em São Paulo. E Cancún? Vendeu o Hotel? — Vendi minha parte. Venha me visitar. — Não posso. Estou indo para Ribeirão Preto. Minha mãe faleceu e estou meio derrubado. — Então vou lhe dar uma suíte em nosso hotel em Ribeirão! Mais uma vez não acreditei: outra mordomia do Flavius Ferrari? Comecei a crer nas coincidências da vida. Não, não eram coincidências. Cada pessoa já tem o seu livro escrito. MAKTUB. A qualquer momento espero uma ligação do Flavius me convidando para passar uma temporada em St. Tropez ou numa ilha grega qualquer.

PRIMEIRO PROGRAMA DE TELEVISÃO EM PORTUGUÊS Logo após a entrevista com a Maura Silva (irmã do Maurício de Souza), da Turma da Mônica, conhecemos seu filho Ary Rogério Silva. Miami fervia. Burle Marx anunciava a criação de um novo projeto na Biscayne Boulevard. O Cafe Opera de Gugu Cruz e Cacá Pagoto abria suas portas em Miami Beach como a primeira casa noturna da nova Lincoln Road. A casa levou a assinatura do “mago da régua” João Pereira e foi a precursora de uma nova fase na região. O proprietário Gugu (que mais tarde casou com a filha do Emerson Fittipaldi) criou um ambiente fantástico, com muitos cantores (inclusive garçons) de ópera. A Flórida já fazia parte do roteiro artístico brasileiro. Adriana Corá (mulher do Ro-

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ainda permanece na terra; A música pára e ainda ecoam os seus doces estribilhos; Para cada alegria que passa, alguma coisa bela permanece...

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gério) começou a produzir algumas cenas para o programa. Ary Rogério me ensinou a gravar e, com mão firme, gravei sua entrevista com o Ricardo Prado. Um dia o Rogério era o câmera, noutro era o entrevistador: Alceu Valença, Burle Marx... Eu nunca havia trabalhado com televisão, mas conhecia muita gente e comecei a aprender alguma coisa nova. O advogado Luís Ernesto Gozzoli foi repórter por um dia, entrevistando personalidades da noite de Miami Beach. Após muito trabalho, aluguel de estúdios e gravações etc., o programa Tele Brasil, de uma hora de duração, foi ao ar no dia 24 de maio de 1991, no canal Tele Miami. Na semana seguinte o canal perdeu o sinal por falta de pagamento (da estação) ao cable. Perdemos tempo e dinheiro. Mas ficou registrado como o primeiro programa de TV (em português) da Flórida. Lógico que na segunda semana aconteceram as críticas e as invejas. Aí publiquei na edição seguinte do jornal Florida Review um pensamento do Roosevelt: “É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece a vitória nem derrota.”

AINDA EM 1991 Rangel Cavalcanti continua, de Brasília, mandando suas matérias para o FR. Hermeto Paschoal explode com sua maravilhosa música no Tobacco Road. Dia 23 de maio, Chico Moura recebe o Troféu “Os Dez Mais do Ano”, em festa no Studio 51, de Broward. O flautista Nestor Torres se aproxima cada vez mais da comunidade de brasileiros no sul da Flórida. Câmara do Comércio homenageia Raul Boesel, com o diretor Luís Gozzoli fazendo belo discurso. O baiano Johnny Oliveira, da FJF, é o entrevistado do mês. Genilde Guerra começa a colaborar no FR escrevendo sobre imigração.


O gerente da Transbrasil em Miami, o cearense José Sales, promove concurso de Lambada no restaurante Brazilian Tropicana.

Dia 8 de julho de 1991 nasceu Luca, o quinto filho de Emerson, que deu entrevista ao FR. A mãe, a belíssima Teresa. Ao contrário do que declarou recentemente o jornalista Tom Brokaw da NBC-TV, ao afirmar que o Rio de Janeiro é um INFERNO NA TERRA, a jornalista americana Gina Martell criou um pacote de turismo com o nome de “Miami Loves Rio”. Roberto Carlos tirando foto para o jornal ao lado do, depois pastor, Wanderley Franco. O músico Beso Cerqueira, após muitos anos se apresentando em New York, faz shows em Orlando. Paulo Correa (Bolacha) entrevista, em Orlando, o homem de televisão Murilo Neri. Dia 28 de junho rolou festa no restaurante Gordo’s. Aniversário de seu proprietário, Luís Barbosa, casado com Dagmar Barbosa. Entre outros, presentes Carlão da Miami Alegria, Adão Meirelles, Gerson Delano, Roberto e Vera de Souza. Bruno Borghini, que nunca retirou o patrocínio da última página do jornal, continuava a permutar uma passagem por mês. Em somente um ano, viajei 11 vezes ao Brasil. José Sales, da Transbrasil, continua promovendo as festas brasileiras de Broward e conquistando a comunidade. Dona Dulce Macedo, mãe de Pauletty, comemorou 72 anos de idade no dia 1º de julho.

CARLOS BORGES Na ABAV da Bahia, em 91, a jornalista Nilza Barude, que já co-

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O pessoal da nova loja Victor’s (Tony Correa e Abbos Abrapour) recebeu amigos no restaurante Camila’s: Sérgio Pires, Johnny e Sandra Miesller, o popular Beleza e todos os funcionários.

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laborava para o jornal, havia previamente retirado a minha credencial para cobrir o congresso de turismo em Salvador. — Chico, não vai dar tempo de te entregar. Tô mandando minha cunhada, que está na hora do almoço, aqui na TV Bahia. Com horário e lugar marcado, esperei. De repente aparece na porta do Centro de Convenções de Salvador uma maravilhosa libanesa/paulista, uma mistura cheia de meiguice, inteligência, charme e sensualidade árabe. Não demorou muito para eu me apaixonar. Imediatamente disse: — Na realidade não estou muito interessado no congresso. Gostaria mesmo era de te convidar para almoçar. — Não posso. Tenho gravação na TV. — Prometo que te levo e te trago. Não vai demorar nada. Onde já se viu? Na Bahia? Fomos para o restaurante Bargaço. Lá, por casualidade, encontrei outros amigos de Miami. Após o ritual baiano – impossível quebrar o ritual – o tempo foi passando e ela ficando. À noite, o jantar da Varig. O então gerente, Marcelo Bottini, recebia convidados num restaurante de luxo. Dia seguinte à noite fui à casa de Cristina Barude conhecer a filha, conhecer o escritório. Surgiu uma nova paixão. De volta a Miami não agüentei de saudades e mandei a passagem para que ela viesse passar uns dias comigo. Viajamos para New York. No domingo, acordamos cedo e fomos em direção ao Central Park. De repente, aparece no meio da calçada uma fila. Eu disse: — Vamos entrar nesta fila? New York é cheia de mistérios que devem ser desvendados... E ali, no restaurante Petrossian, gastei 300 dólares num brunch (uma mistura de café da manhã com almoço) com direito a caviar beluga, champanhe francês etc. Ao voltar a Miami comecei a analisar mais de perto a educação, a finura, a espiritualidade da Cristina Barude. Tudo era muito perfeito para um cachorro vira-latas como eu. Ela já no Brasil, telefonei-lhe numa madrugada saudosa. Me diz ela: — Chico, você já ligou pra Carlinhos? Aquele jeito baiano de falar me embriagava o coração. Embora paulista, vivia em Salvador há muitos anos, daí o sotaque baiano. — Não, vou ligar agora. E assim foi feito. — Alô, é Carlos Borges? Muito prazer. A Nilza e a Cristina Barude falam muito de você. O que está fazendo aí em Tampa? — Aqui a minha atividade não tem nada a ver com a minha profissão. Imediatamente combinamos que ele poderia se mudar para Mia-


“Você é uma pessoa que mudou a minha vida na hora Y (ipisilone). Nunca me esqueço disso e nem sei se é por gratidão ou por puro bom humor. Porque minha vida na América se definiu alí, no “transbordo” de Tampa para Miami via uma alucinada “venda” de meu nome a você, pela não menos apoplética Nilza Barude. O mundo é um moinho, meu rei. Eu às vezes lamento que nossos estranhos tipos de vida, o seu e o meu, tenham impedido de sermos realmente amigos mais próximos porque quando nós conversamos, nesses tais anos bissextos, há tanto o que conversar e rir. É porque você sempre será meio baiano e eu meio Chico Moura também. Believe me.” *** Naquela época as coisas aconteciam muito rapidamente. O Al Souza, da Varig, me apresentou a Moniquinha. Ela tinha uma amiga alta (que o Souza namorava), inseparável. Saíamos os quatro para todos os novos restaurantes, festas etc. Não é difícil imaginar que elas também acabaram trabalhando no jornal. A Mônica era uma pessoa encantadora. Sempre sorrindo, alegre, nos seus vinte e pouquinhos anos.

ADÃO MEIRELES No restaurante Las Palmas encontro meu eterno e saudoso amigo Adão Meireles. Adão fazia com Amaro, Pedro da Silva, Tânia Leite, Maciel (primo de Marco Maciel) e outros, o lado boêmio do Consulado. Servira durante anos junto à Missão Brasileira em New York, ao Consulado do Brasil e, transferido para Miami, foi Adido. Nunca se preocupou com a aposentadoria americana – nem tampouco com a brasileira. Um dia, já velho e cansado, se aposenta sem um tostão. Deu entrada na papelada para tentar conseguir provar que havia trabalhado mais de 30 anos etc. e tal. Naquela tarde, reparei que Adão tirara do bolso umas moedas de 25 centavos de prata e as usou num telefone público. — Adão, o que é isto? Você está usando moedas de prata? — É que o meu dinheiro acabou e estou esperando uma aposentadoria do Consulado. — Não acredito. A partir daquele dia Adão Meirelles começou a trabalhar no jornal

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mi e começar a trabalhar comigo no jornal. Com a velocidade intelectual de um bom baiano, Carlinhos, muitos anos mais tarde, me enviou o seguinte e-mail:

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El Capitán, ex-empresário do ramo de tabacaria em Cuba, mais tarde mendigo em Miami, fazia da portaria do prédio (do nosso jornal), a sua casa.

O casal Yolanda e Evangelista Pereira no Carnaval de Miami.

Amigos se encontram no Restaurante Las Palmas de Miami: o policial americano Dudu (carioca), Chia Knobel, Salvador (de New York) e Waldir.

A simpática e eficiente jornalista Silvia Vinhas, em Miami.

O carioca José Perlingeiro (irmão de Aerton) e o jornalista Roberto de Sousa em North Bay Village, na Flórida.

Hélio Gusmão com o filho Júnior - em Manhattan.


Paulinho Ferraz e Silvinho Ferraz

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June Farias, Mara Rocha, JoĂŁo Pereira e Neida Soares, no Miami Beach Place.

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Orlando Moreira e Lucas Mendes.

Enilda Santos e Danilo Santos.

Chico Moura e Titto Valiente.

O casal Zicler de Freitas.

O nosso colunista de BrasĂ­lia, o jornalista Rangel Cavalcanti em passeio pela Biscayne Boulevard.


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À esquerda, vemos o então gerente da Transbrasil, José Sales, entregando passagens aos ganhadores de um concurso de Lambada em Fort Lauderdale.

Um animado grupo no Miami Beach Place. Ao fundo o proprietário Jorge Carneiro (carioca) e Santiago.

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O homem de turismo Geraldo Silva e o gerente da Varig Marcelo Bottini, almoçando no Picanha na Brasa, o restaurante do Pororoca.

O músico Paulo Gualano com Maria Alcina, no Bayside.

Genilde Guerra reencontrando a amiga de infância, Teresa Fittipaldi, no Grand Prix de Miami.


Florida Review até que a sua situação se normalizasse. E a sua marca registrada atendendo ao telefone: — Florida Revius – may I help you....

Presenciei quatro mudanças de endereço do Consulado do Brasil de Miami. Todas as vezes que a Varig ou outra grande empresa trocava de endereço, as más línguas comentavam que era uma jogada de dinheiro. Os dirigentes poderiam participar de uma possível comissão. Os tripulantes da Varig mudaram de hotel umas 8 vezes. No início dos anos 80, o Consulado funcionava no número 100 da Biscayne Boulevard. Logo depois esteve no quarteirão seguinte, na mesma rua. Em pouco tempo foi para a Avenida Brickell e depois para o bairro de Coconut Grove. Em todas as mudanças não parecia ter havido “economia de dinheiro”. Em 2004, muda (pela primeira vez por questões de economia e praticidade) de novo para perto de downtown. Durante muitos anos convivi com o pessoal do Consulado. Estabeleci amigos e, como brasileiro vivendo no exterior, soube entender como deveria funcionar o sistema. Uma das pessoas que me impressionou pela beleza interior e exterior foi Tânia Leite. Vítima de um relacionamento complicado no Brasil, viu-se obrigada a “mudar” para Miami, onde o sogro arranjou uma colocação no Consulado-Geral do Brasil. Era uma pessoa alegre, comunicativa, e no Consulado cumpria o dever de casa. Certo dia, já de mudança ao Brasil, eu soube do acidente: havia sido atropelada. Falava muito da filha Maria, com quem infelizmente não teve tempo de conviver.

ANTÔNIO CARLOS DA SILVA Paro o carro em frente à loja Victor’s, vejo um amigo e grito: — Você sabe quem está precisando de emprego? Preciso de uma pessoa para dirigir a Van e cuidar da distribuição. — Não, não sei. Se encontrar alguém te ligo. A meu lado passava um rapaz jovem, bem vestido. Encostou-se na Van: — Você está precisando de alguém para trabalhar? — Estou. É para você? Como é o teu nome? — Antônio Carlos da Silva. — E o que você faz? De onde veio? — Sou carioca, vim do Alasca, onde trabalhei com pesca de salmão.

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TÂNIA LEITE

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Ele entrou na Van e desde aquele momento já começou a trabalhar. Era o meu homem de confiança, o meu amigo eterno de muitas noites. Era o fotógrafo do jornal, o homem que segurava as pontas das namoradas, cuidava da distribuição, dos anúncios, de tudo. Sabia dos meus horários malucos. Quando eu estava de ressaca. Quando estava de mau humor. O Carlinhos sabia que eu me irritava com a voz metálica do Ricardinho, um garoto brilhante que vendia muita publicidade para o jornal. Mas se eu estivesse de ressaca, o Carlinhos avisava: — Ricardo, é melhor você esperar aqui fora do escritório. O Chico hoje está atacado. Realmente o Carlinhos foi um grande amigo. A história do Alasca, salmão, no final era tudo mentira. *** O meu namoro com a Mônica Mattedi foi rápido. Ela, uma tremenda profissional paulista, começou a fazer nova diagramação no jornal. O Carlos Borges chegou que nem uma metralhadora. Nunca vi um raciocínio tão rápido num teclado. O Hendell, que também era nosso funcionário, foi trabalhar com o Alceu Aragão (ex-sócio do gaúcho Ernani Carvalho), que já começava a ganhar mais dinheiro com importação x exportação, e o Beto Batera foi para o México.

A VENDA DO JORNAL Um dia fui à loja Amec Center, do Luís Cláudio Ferraz. — Ferraz, o Rodriguinho apareceu no meu escritório e eu ofereci uma sociedade no jornal. Quanto você acha que vale? — Chico, você é louco se não vender este jornal para o Rodriguinho. — Será que vale uns 50 mil dólares? — Este é o único jornal brasileiro da cidade. O Rodrigo já foi dono de um veículo e está doido para fazer alguma coisa. Ele vendeu o Diário Popular em São Paulo por 30 milhões de dólares. Fui para casa pensando na possibilidade de ver, pela primeira vez na vida, uma bolada de dinheiro. Nota em cima de nota. Qual o poder do dinheiro? Será que ele compra? Mas minha mãe pediu que eu não vendesse. É, mas agora já não vale. Ela morreu. A minha vida perdeu a graça... mil pensamentos. Na semana seguinte, acordei com uma grande ressaca, suscetível a qualquer decisão indecisa, vulnerável... Chamei o Rodrigo e ele falou: — Eu comi uma macarronada e estou sentindo um pouco de azia. Amanhã a gente se fala.


“Tudo perdido. Não vou vender o jornal.” Mas no outro dia ele já veio com hora marcada no advogado etc. O preço ficou em segredo... ao redor dos 200 mil dólares.

O Rodrigo Soares era um nobre quatrocentão paulistano. A família havia fundado o segundo mais antigo jornal do Brasil, o Diário Popular. Um dia me convidou para ir à sua casa em São Paulo. Na entrada esbarrei numa mesa de jade. Valia mais do que o nosso jornal. As histórias sobre sua vida rolavam pela paulicéia desvairada. As loucuras de Guarujá, os carros importados na madrugada, quebrando os portões de suas casas, virou lenda. Era considerado um dos últimos playboys brasileiros. Uns diziam que tinha 100 milhões de dólares. Outros que chegou em Miami somente com 20 milhões, mil boatos. Rodriguinho havia vendido o seu jornal para o ex-governador Orestes Quércia (que depois foi vendido para o Roberto Marinho) e o prédio do Estadão (na Rua Major Quedinho). Em Miami não tinha muito que fazer. Além do mais, seria uma forma de legalizar a sua papelada junto à imigração. O jornal, sempre bastante enxuto em sua contabilidade, mostrando um crescimento anual na ordem de PA – progressão aritmética – nunca PG – progressão geométrica. Os economistas e contadores americanos sabem que uma empresa estável é aquela que tem um crescimento em PA. De cara recebi uma bolada. Saí distribuindo pequenos dinheiros para grandes amigos. O acordo era para eu ficar sócio por um tempo. Depois, se eu quisesse, poderia vender a outra parte, ou não. Fomos procurar um local para comprar. No número 100 da Biscayne Boulevard, vimos um andar corrido com uma linda vista. Fizemos os planos, desenhamos as plantas. — Você tem aí um cheque? Vamos comprar este andar. Feliz da vida, já me imaginava naquela maravilhosa vista para a baía de Biscayne. Dei um cheque (sinal) de 10 mil dólares. Passados alguns dias, ele me chama. — Vem comigo. E me levou para o lobby do Four Ambassadors. Um conjunto de quatro edifícios, atrás da elegante Avenida Brickell. — Está vendo esta loja? Podemos fazer uma obra e criar a sede do jornal. — E o cheque? — Deixa pra lá. É melhor perder. Aqui vai valorizar e além do mais é loja.

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RODRIGO SOARES

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Alugamos um apartamento no mesmo prédio (esperando a obra) e transferimos o escritório. Com uma equipe de mais ou menos 10 pessoas começamos o novo jornal Florida Review. Carlos Borges levou a esposa, Andréa, para ajudar. Além dos antigos funcionários, contratamos ainda a Marta, a Debbie (esposa do Chiquinho Marcha-a-Ré), a Lúcia Souza (ex-namorada do Al Sousa), o Luís Surdinho e a Érica Norimar. Mais tarde entraria o carioca Marcos Omatti. No jornal, em pesquisa sobre como havia sido a temporada de 91, os depoimentos de Daniel Garcia (Kalu Place), Armando Acuña (Fino), Abbos Abrapour (Victor’s), Salvatore Lo Turco (Scott International), Edson Lamardo (Alo Brasil), Abel de Jesus (Abel Electronics), Lucy e Jô (Lucy’s Sports), Domingos Trofino (Compubras), Kaú (Kau Laser), Luís Cláudio Ferraz da Silva (Amec Center), Nelson (Peninha), Willie (Brasilia International), William Sorren (Sorren), César Pinto (Sonria), Tony Moura (Carol Shop), Walter Costa (Orlando Store), Darcy (Maino’s), Lina Capotorto (Miami Express), Luiz Barbosa (Gordo’s Restaurante), Zé Pororoca (Amec Restaurant), Manuel Briote (Camila’s Restaurant), Tom Morimoto (Yes Brazil - Orlando), João (Las Palmas), Ruben (Ruben Restaurant), Germano Barbosa (Esquina Carioca Rest), Ahir Ramos (Brazilian Restaurant - Orlando) Maira e Juanito (La Ideal). Entrevista com Léo Batista, com o urologista cearense Fernando Borges e a primeira entrevista com Flávio Carvalho, da Transbrasil. Joana Palhares começa a enviar do Brasil a sua coluna, Socialtur. O baiano Cláudio Magnavita aparece em Miami e faz entrevista com Chico Moura para seu programa de TV no Brasil. Carlos Wattimo (general), de New York, volta a Miami lançando o primeiro sistema de aluguel de fitas da Globo, nos Estados Unidos. Sem se aperceber, serviu de pesquisa para a criação da Rede Globo Internacional. Álvaro Feio trazendo enormes grupos de turistas brasileiros para Miami. Dalmo Ferreira e Ronaldo Batalha da NCL presentes no “La Cumbre”. Dia 14 de setembro de 1991, Luís Gozzoli reuniu amigos em sua residência nos Roads, para festa de aniversário. Presentes, entre outros: Joe Ryan, Nelson Slosbergas, Carla Baggi, Bob Macaulay, Sandro e Sônia Gherardi, João Carlos Penteado, Ronaldo e Cristina Bergamo, os pais de Lulu - Júlia e Luís Gozzoli, Bruno Borghini, Marcelo Bendix, Vera e Raul Boesel, Eduardo Oncins, Luiz Lobo, José Barbosa, Mirian e Edson Gon-


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Maura Silva (irmã de Mauricio de Sousa) e Vânia Williamson (casada com Bill Wiliamson) na antiga sede do jornal Florida Review, em Miami.

Gina Martell, a americana mais brasileira de Miami, no início de sua carreira na estação de rádio Love 94, criou o programa Brazilian Love Jazz.

Rosália Galdi com Chouchou, sua grande paixão.

A socialite Clarita Pasquin e José Sales.


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Marcelo Bottini, quando gerente da Varig em Salvador na Bahia.

A família Manuel Briote do Restaurante Camila’s.

A obra de Francisco Brennand perpetuada em Miami na sede do (Museu) Bacardi.

Ary Rogério Silva (à esquerda) entrevistando o nadador Ricardo Prado, para o Tele Brasil. o primeiro programa de televisão em português, criado no Estado da Flórida.


O saudoso Ayrton Senna e José Luis Volpato na loja Lucy’s Sports de Miami.

O repórter Luis Ernesto Gozzoli apresentando o programa Tele Brasil, no Cafe Ópera de Miami Beach.

Tony Correa, o casal José Maria Carneiro da Cunha, Denise Moura, Tony Moura e o ex-companheiro de escotismo José Augusto Pereira Nunes.

Em Miami, Gugu Liberato e José Pororoca, na loja Amec Center de Luis Claudio Ferraz da Silva.

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No Café Ópera de Miami Beach, Verinha Pignatari, Jorge Goulart, Nora Ney, Julinho Pignatari e o proprietário Gugu Cruz.

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Leila Luna com Olympio Serra e o cacique Raoni, no jantar do Tavern on the Green de New York. Meus pais, Moacyr e Maria Augusta no primeiro baile da Independência do Brasil em Miami.

Carlos Imperial com Chico Moura sorteando prêmios no Primeiro Baile da Independência do Brasil, no Hotel Omni de Miami.

Gilmar, Silvio Luis e Careca na Copa Pelé, em Miami.

Na festa dos Cinco anos do jornal Florida Review: vemos Roberto de Sousa, Vera de Sousa, Lucy e Jô, Chico Moura e Léo Capelo.

Xuxa, descansando os pés na mesa de Luis Claudio Ferraz da Amec Center em Miami.


çalves, Lídia e Luís David Azambuja, Bia Duarte, Nina Bosco, Robert e Dania Medina.

Foto do reencontro de antigos imigrantes brasileiros de Miami: Linda Lorenz, Maria, Cida e João Lorenz e Leiko. Paulo Correa, mandando notícias de Orlando, faz cobertura da ABAV de Salvador para o FR. Johnny Marciano e Chia Knobel (ex-New York) fazem a festa da Independência no Bay Front Park. Halph Conti da Varig é nomeado Prefeito de Key Biscayne. Chitãozinho e Xororó fazem o primeiro show em Miami – na marina de Key Biscayne, com promoção da LUQUI Corp., uma empresa de Luciano do Valle e Quico. No atraso, os filhos Sandy e Júnior – ainda muito pequenos – cantam durante mais de meia hora a mesma música: “O quê que você foi fazer no mato Maria Chiquinha? Na platéia Denise e Tony Moura, Ana e Giora Breil, Rosália Galdi, Ângela Maria e Augusto Capelo, o casal de dentistas Jaqueline e Arnaldo de Souza, Daniel Garcia e Elda. Luciano do Valle era casado com a dentista Sônia Vinhas (depois jornalista); logo depois casou com Maria do Carmo Fulfaro, que deu continuidade à Luqui, criando depois um programa de televisão diário. Mais tarde Maria do Carmo casa-se com Birigui e Luciano com Luciana do Valle. Em outubro de 91, Rodrigo faz suas primeiras matérias para o jornal. Vera Christiansen começa a colaborar, assim como Nilza Previato e Hayde Panini Botelho de São Paulo, Joana Palhares do Rio de Janeiro, Anita Bernstein de Minas Gerais, Paulo Correa de Orlando, Nilza Barude de Salvador e Vic Morris da Holanda. Sônia Nittinger faz coluna sobre investimentos imobiliários. Alcione faz o nono Baile de Carnaval de Mário Magalhães, no Hotel Hyatt de Miami. Entrevista com José Medrado, baiano de 30 anos, que leva pintura mediúnica para a Europa.

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A TV Bandeirantes faz especial sobre Miami com João Dória entrevistando Luís Gozzoli, Chico Moura, Teresa Fittipaldi, Raul Boesel e Bruno Borghini.

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Antônio Nina, o primeiro funcionário da Varig nos Estados Unidos e fundador do nosso jornal, continua firme com sua coluna de gastronomia. Nesta edição mostra foto com o título Good Old Days, tirada em 1958 no aeroporto Internacional de New York, com a Miss Brasil Adalgisa Colombo.

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Em novembro, entrevista exclusiva com Joelmir Betting, que declara: “Collor tem 90 dias para salvar seu governo”. De New York: Rose Ganguzza (mulher de Lucas Mendes) manda sua colaboração. De New Jersey: Domenico Matinatta; de Tampa: João e Valéria Chaves; de Boston: Arthur Lima e de Portugal: volta a colaboração de Didamar Terezinha Gomes, a ex-namorada Dida.

FINAL DE 1991 Emerson abre nova loja Hugo Boss em Bal Harbour. No cocktail: Miriam Rios, Ronaldo Batalha, Carlos e Carmem Lima, Henrique Campos, Tony Correa, Dalmo Ferreira, Raul Boesel, Birigui, Cristina Barude, Luís Gozzoli, Marcelo e Adriana Sabino, Abbos e Ana Luzia Abrapour, Tânia Mara Iznard, João Bosco, Tony Moura, Kika, Marcos Machado, Marcelo Almeida, Luiz Barreto, José Maria Carneiro da Cunha, Tuca e Vicente Timiraos, Sérgio Brito, Casal José Hugo Celidônio. A Ministra Vera Machado dá entrevista, declarando: “A colônia brasileira da Flórida se destaca pela capacidade empreendedora”. A Transbrasil (José Sales) patrocinou um encontro em Orlando com a participação de 63 agências de viagens de Miami. No show Olé Olá: Vivian Soares, Eliana Fisher, Branca de Neve, Cláudio Carneiro (irmão de César Alabama) e Pelé da Bahia. No VI Brazilian International Tennis Championships, na categoria Pro-Am, foram campeões: Diego Escribano/ Ronaldo Carneiro (primeiro lugar), Eduardo Oncins/Lucas Mendes (segundo) e Heitor Santos/Sandro Gherardi (terceiro). No torneio consolação: em primeiro Luís Gozzoli/Marcelo Bendix, em segundo Richard Vattinelli/ David Schimidt e em terceiro José Kfuri/ G. Estrella. No caderno de Business aparece foto de Jorge Carneiro (o carioca), que investiu na compra de cachorros de corrida – Greyhound.


No programa de televisão de Cristina (Univision), em cadeia nacional (USA), mesa-redonda com Chico Moura, Daniel Garcia, Paulo Gualano e o casal Edson e Miriam Gonçalves.

Gina Eckerman conquistando a população de Miami Beach com suas pizzas naturais. Maurício de Sousa, da Turma da Mônica, continua a enviar tirinhas para o jornal. Caderno especial de 12 páginas sobre o Ceará, no jornal “Diário do Nordeste” e no “Florida Review”. O mesmo caderno encartado nos dois jornais simultaneamente. Luís Oswaldo Leite, presidente da Odebrecht em Miami, ganhando as maiores concorrências na área de construção civil, dá entrevista ao jornal. Na coluna de Nilza Barude: José Sales Filho, gerente geral da Transbrasil em Orlando, passou por Salvador desenvolvendo um amplo trabalho de pesquisa de mercado por todo o Brasil, a pedido do presidente Omar Fontana. Piry Reis se apresenta no restaurante Camila’s, de Miami. Ary Stabili começa a vender pianos para o Rodrigo Soares. Cada semana um novo órgão, um novo programa musical.

A NOVA SEDE DO JORNAL Para não existir jogo de compadre, procurei alguns construtores americanos para fazer a obra. Todos caríssimos. Finalmente apresentei o João Pereira, que mostrou um orçamento muito mais em conta. Além do mais, falando português – o que facilitava qualquer mudança de plano. A obra durou alguns meses. Naquele período tudo funcionava. Com dinheiro sobrando, tudo flui. Mas o jogo do poder, das influências, começavam a me aborrecer. Nunca fui de jogar, de me aproveitar de situações ou de pessoas. Pela multidão que cercava o Rodrigo, dava para imaginar o quanto ele sofria com os sangue-sugas, os puxa-sacos. Afinal, mais de 50 milhões de dólares era muito dinheiro para uma pessoa. Na nova sede, ele me colocou num aquário lindo, onde somente a

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Lucas Mendes, de New York, começa a colaborar para o jornal.

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mesa custou dois mil dólares. Ainda morando sozinho, continuei a vida boêmia, cada vez bebendo mais e trabalhando menos. Nada mais tinha graça. Já não fazia mais matérias, entrevistas, não vendia anúncios, não distribuía o jornal. Perdi o contato com os amigos anunciantes. Só ia às festas para beber. A boliviana Mirtha Arriaran, esposa do Rodrigo (na época), virou vice-presidente do jornal e começou a decoração do novo Florida Review. Da enorme casa dos Roads mudei para o 32º andar de um lindo apartamento no Venetia Causeway. Namorei a passadeira, a lavadeira, a vizinha gorda, a contadora, a secretária, a amiga, a cantora, a ex-namorada, a empregada, a modelo, a jornalista. O que caísse na rede. Um dia o Sérgio Brito da Varig faz aquele comentário machista: — Chico, quem será que come mais gente nesta cidade? Eu, você ou o Al Souza? Ridículo!!! Havia caído no ridículo e não sabia. Me achava o máximo. Na festa na casa de Tony Correa – dono da loja Victor’s – rolava de tudo: muita bebida, comida, mulher bonita, mordomia. A casa era famosa em Key Biscayne. Havia sido palco de filme americano e era parte do roteiro turístico de Miami. No final da festa ele me oferece a volta de barco até Miami. — Manda o teu motorista levar o carro. Você vai com o meu marinheiro e outros convidados até a marina do Intercontinental. Todos vivíamos o eldorado. O dinheiro vinha dos milhares de turistas brasileiros que invadiam a Flórida.

A QUARTA ESPOSA Numa destas festas, fui com o meu já então inseparável amigo João Pereira a um aniversário na pérgula da piscina da carioca Gisele De Luca. Conheci a capixaba Raquel, o carioquíssimo Marquinhos Pires (que trabalhava na loja Blue Man, do Azulay) e uma turma de mineiras bonitas e saudáveis. De repente vejo um corpo escultural. Lógico, já embriagado, pensei ser o de uma mulher. Não era. Era o Marquinhos com uma calça stretch. A seu lado uma carioca. Disfarcei e comecei a conversar com ela. Não foi amor à primeira vista. Nem à segunda vista. Da festa fomos para a casa de não sei quem, depois para a casa não sei de quem... Passados alguns dias comecei o ritual de ligar para as amigas. Liguei para a amiga do Marquinhos: — Cristina? Onde você trabalha? Vamos nos encontrar? — Não. Aí comecei a me preocupar. Como alguém pode me dizer não?


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Liguei de novo. Nada. Inventei um monte de coisas para conseguir sair com ela. Ela saía, mas só em turma. Nunca sozinha. Inventamos uma festa na casa do Luís Ernesto Gozzoli. Convidei o Orlando Moreira da TV Globo de New York, a Neida, o João Pereira e um monte de solteiras. Nada. Até que o dia chegou. Levei-a para jantar no bar/restaurante Mike’s, que ficava no nono andar do meu edifício. Fechava quando o último saía. E ficamos no bar irlandês até as 5 horas da manhã conversando. Já em casa, de madrugada, começamos a ligar para todos os nossos familiares e amigos do Brasil. Tudo era festa. Horas ao telefone regadas a muita cerveja. Comecei a me relacionar melhor com o Sr. Alcebíades, o pai. Depois com a irmã. Depois fui conhecendo ainda por telefone os irmãos, os cunhados. Um dia peguei um avião e fui conhecer a família no Brasil. Comprei um buggy, um sítio perto de Maricá e fui à rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, enfrentar as feras. Parei o buggy na calçada. Na volta convidei a irmã Marize e o cunhado Nadim para passar uns dias em Miami. O jornal começou a crescer. Chegamos a ter mais de 10 mil nomes no mailing list. Saía religiosamente no dia marcado. Chegou a mais de 100 páginas – um verdadeiro milagre para um tablóide brasileiro nos Estados Unidos. Rodrigo Soares, cada vez mais empolgado, trabalhava. E muito. Virava as noites metendo a mão na massa. Parecia um garoto que havia acabado de comprar a sua primeira bicicleta. Todos trabalhavam felizes. O recém-contratado Marcos Omatti e logo depois Idílio Gomes, que mais tarde faleceu de um ataque do coração, foram pessoas com quem convivi pouco. Comecei a viajar mais ao Brasil. Em Fortaleza comprei uma casa que tinha pertencido à minha avó. Com o pedido de noivado na mão, programamos fazer um filho ou filha no dia 12 de março, no primeiro ano de aniversário de falecimento de minha mãe. Exatamente neste dia cheguei do Brasil e, com muito amor, aconteceu. Com a idéia de voltar em definitivo ao Brasil e criar codornas, cavalos, galinhas etc., comecei a encher um container. Já não era marinheiro de primeira viagem. Afinal, esta já era a quarta ou quinta tentativa de voltar a morar no Brasil. Minha irmã morava em Itaipuaçu. Um dia fui à Reserva Verde. Tinha uma casa para vender. Não entrei na casa. Comprei pela vista da montanha. Lógico que a casa era uma porcaria. Cheia de infiltrações, umidade etc. e tal. Gastei muito tempo e dinheiro para consertar. Mas a vista continuou e fui feliz. Minha nova mulher passou uma gravidez

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tranqüila, sem estresse, sem telefone, sem problemas financeiros. E ainda com a maravilhosa vista para a montanha. No final da obra a casa ficou linda! Duas piscinas, sauna, jaccuzzi, cavalos, um gramado verde, único. As redes nas varandas, o silêncio, a proximidade do mar, da montanha. Passados os nove meses de gravidez, a realidade se aproximava cada vez mais da volta. Como vou gerar dinheiro? Tem escola? As estradas oferecem segurança? Dia 19 de novembro de 1992, nasceu Marcella, a menina mais meiga, carinhosa, inteligente e tudo o que o leitor puder imaginar de um pai coruja, minha primeira filha mulher.

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RIO TIMES – O TERCEIRO JORNAL Com a venda do sítio, mudamos para um apartamento em Ipanema. Então, em outubro de 1993, nasceu o RIO TIMES, um jornal que tinha o objetivo de promover a cidade do Rio de Janeiro no exterior, numa época em que tanques de guerra apontavam para as janelas indefesas dos apartamentos da zona sul do Rio de Janeiro. O exército nas ruas. Um dia acordei e havia um canhão na direção do quarto de minha filha. Do jeito que estava vestido, desci e pedi ao soldado que girasse o canhão em direção ao morro, à praia. Menos para o quarto de minha filha. Para o jornal fui pedir apoio ao governador, ao prefeito, nada. Nenhum tostão de patrocínio. Saí vendendo publicidade como um louco acreditando que as pessoas do Rio deveriam amar a sua cidade, que colaborariam com tão interessante projeto. Trazendo turistas brasileiros que viviam na França, Portugal, Alemanha e, principalmente, mais de um milhão de brasileiros que vivem nos States. Era um ponto de partida para uma boa arrecadação junto ao turismo internacional. NADA! Comecei a vender o que tinha para investir no jornal. Primeiro foram os carros. Depois as casas. Já quase sem nada, voltei a Miami e consegui o primeiro anúncio com o Tony Samour do grupo S&A Distributors. Todos os meses viajava para Miami e coletava o dinheiro dos anúncios que sustentavam o jornal. Não podia fazer jornal em Miami (por ética contratual), mas poderia ter alguns clientes anunciando no Brasil. Na primeira edição do RIO TIMES, em outubro de 1993, a entrevista com Tom Jobim, na manchete: “O RIO NUNCA VAI DEIXAR DE SER A MINHA MUSA INSPIRADORA”. Com fotos de José Martins e a fantástica simpatia do Maestro, a entrevista foi um sucesso, prenunciando um bom começo para o jornal. Ainda na primeira edição do Rio Times, entrevista de Valéria Mar-


tins com as duas mais famosas damas da Mangueira, D. Neuma e D. Zica. E nas palavras de Gal Costa: “A Mangueira é a escola do coração. Não há um carioca, um brasileiro, que no fundo não seja mangueirense”.

Sérgio Cabral (pai) autografa seu livro no Bar Villarino: “No Tempo de Ary Barroso”. O cantor Jon Secada recebe Disco de Ouro na Lagoa Rodrigo de Freitas e posa para o Rio Times no restaurante Mostarda da Lagoa e encontra-se com Gerson Delano. Na segunda edição, entrevista com Lúcio Costa e uma homenagem a Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto). A cada edição uma homenagem a uma personalidade carioca viva, e na seção REVIVAL uma homenagem a um carioca já falecido – nas edições seguintes homenagens aos “Cem anos da Colombo” e “Fortes e Fortaleza do Rio”. E ainda matérias e entrevistas com Hans Donner da TV Globo, Gibran Helayel (músico), Sérgio Cinelli (cobrindo as reuniões do Clube do Feijão Amigo), Reginaldo Bessa (músico), Antônio Miranda, a cantora Clara Sandroni, a empresária Sônia Chami, o homem de turismo Sérgio Ricardo M. Almeida, o pintor Jorge Longuiño, o empresário Sérgio Nogueira, o jornalista Paulo Monte, o presidente da ABIH Alfredo Lopes, o músico Orlan Divo, Moreira da Silva, o pintor Carlos Henrique de Magalhães, o pianista Edson Elias, homenagem a Sinval Silva, à Banda de Ipanema, Acadêmicos da Rocinha, Iate Clube do Rio, Bola Preta, Festival de Cinema de Búzios. Bruno Borghini, já então diretor geral da Varig nos Estados Unidos, veste a camisa da TurisRio e, como um bom carioca, promove o seu Estado em New York. No expediente do jornal Rio Times: Editor: Chico Moura Coordenação: Marco Varella Alliz Reportagens: Valéria Martins Fotografia: José Martins Música: Gibran Helayel

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Gerson Delano viajou de Miami para entrevistar a escritora Gilda Souza Campos, numa belíssima noite de autógrafos na H. Stern de Ipanema.

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Arte: Leonardo Gomes Colaboração: Sérgio Cinelli, Léo Ferreira.

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Ainda no Rio, o nosso amigo de New York Angelo Mourão cria vôos chartes com a sua nova empresa, Sky Express.

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Leila Luna, de New York, cria o guia “Curtindo New York”, sucesso em Manhattan. E em Miami o nosso amigo gaúcho Zigomar Vuelma, cria em Dezembro de 1993 o Gazeta Brazilian News, o jornal que (único semanal) mais tarde (em 2006) registrava o maior número de exemplares publicados no Estado da Flórida. Na edição de abril/maio de 94, uma homenagem aos 100 anos de Ipanema com ampla matéria sobre os mais tradicionais ipanemenses de todos os tempos. E uma cobertura completa sobre a abertura da primeira filial da loja Kalu Place no Rio de Janeiro. Além de Daniel e Elda Garcia, diversos artistas presentes: Giuseppina Veluto, Eva Tudor, Clodine Rodrigues, Camila Pittigliani, Armando Pittigliani, Acácia Gomes (ex-empresária de Roberto Carlos), Barbara Alves, Rosane Coury, Maria Emir Brotto, Acyr Rodrigues, Tita Garcia, Mauro Mendonça, Danielle Dias, Walkiria Picos, Eva Wilma, Carlos Zara, Araci Cardoso, Rosamaria Murtinho, Leda Nagle, Letícia Spiller, Lúcia Veríssimo, Imara Reis, Emílio Santiago. O eterno amigo de Daniel e Elda, Roberto Carlos, mandou telegrama lamentando não comparecer à festa de inauguração da Kalu, no Shopping Rio Sul. Na mesma edição, publicadas as fotos de Marcelo Bottini (Varig), Geraldo Silva (TBB), Kaú Fernandes da Kaú Laser, Alvino (ex-chef do Scala Grill) e Ruy Pontes, presidente da BTN Television. Em junho de 94, uma homenagem a Carmen Miranda, um especial sobre a cidade de Teresópolis e, em matéria de Alfredo Lopes, o Adeus a Ayrton Senna. Nas edições seguintes, na seção “homenagens a cariocas notáveis”: Vinicius de Moraes, Garrincha, Madame Satã, Pixinguinha, Lalá, Cartola, Noel Rosa, Tom e ainda Confraria do Garoto, Bar Antonio’s, Zagalo, Petrópolis, São Pedro da Aldeia, especial sobre a Rua da Carioca, Pão de Açúcar, Jardim Botânico. Em anúncio de Ary Rogério Silva e Paulinho Leite, lemos: “O me-


Ainda em 1994, o jornal esteve presente à reunião da ABAV de Pernambuco registrando a presença dos amigos de Miami: José K Furi (Euroamerica) Carlos e Tony Lima (Bancor), Antônio Carlos Carbone (ACC Tours), Ronaldo Batalha (NCL), Roberto Sas (Seawind), Júlio Burgos (Ocean Resort), Luciana Barreto (Miami Villa Hotel). De Orlando: César Pinto (Sonria), Jorge Siciliano (Maria’s Tour), Juliana Carneiro (Church Street Station), Mário Barreiro (Medieval Times) e Fernando Mariano (O Globo). Entrevista com o advogado Alfredo Bumachar, um dos maiores especialistas em falências e concordatas do Brasil. Na semana do Adeus ao Maestro é lançado o livro “Villa Ipanema”, de Mário Peixoto, com crônica de Tom Jobim: A Areia Fazia Cuim, Cuim; de Artur da Távola: Copacabana a Princezinha, Ipanema, A Rainha ; de Vinícius de Moraes: Ipanema La Douce; de Fernando Sabino: Viagem em Torno de uma Praça, e a minha contribuição: Ipanema Terra da Gente. Fazer parte desse livro foi um dos mais gratificantes momentos de minha vida. Somente os que viveram os anos 50/60 em Ipanema poderão avaliar o quanto fomos felizes.

AMERICAN TIMES – O QUARTO JORNAL Quase sem dinheiro resolvo voltar para os EUA. Desta vez para Orlando, onde poderia criar outro veículo. Deixei muitos amigos que, nos Estados Unidos, enriqueceram ajudados pelo jornal e que poderiam de uma certa forma retribuir com um apoio financeiro. Mas só dinheiro não resolve o problema de ninguém. Era necessário criar um projeto. Na vida o importante não é ter dinheiro mas sim a capacidade de gerar dinheiro. Daí surgiu o jornal American Times. Cheguei em Orlando, no Natal de 94, com 200 dólares no bolso e comecei a vender os anúncios. Eu tinha ido ao Brasil com mais de 200 mil dólares e retornado aos States com 200 dólares. Lógico que de cara recebi ajuda da Ethel e do César Pinto, da loja Sonria. Depois, ajuda do amigo Evangelista Pereira e outros. Estava então criado o primeiro jornal em português da cidade de Orlando. Na época existia um boletim da Associação Central Flórida que depois virou o excelente jornal “Brasileiras e Brasileiros”, de Eraldo e Maida Manes.

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lhor da Flórida na Televisão Brasileira” todos os sábados, às 20h30. No canal CNT, o programa FLÓRIDA DIRETO.

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No apartamento, uma mesa emprestada e um computador. Passei o primeiro Natal e Ano-Novo trabalhando sozinho, dormindo no chão de um pequeno apartamento alugado na Conroy Street. No primeiro número a Manchete:

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BRASIL, O MAIOR PARCEIRO COMERCIAL DA FLÓRIDA

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E ainda uma matéria sobre a Rua 46 de New York, relembrando depoimentos e fotos de Hélio Gusmão, João de Mattos, Jota Alves, Jeanette Bezerra, Adão Meireles, Léa e Jaime Felzem, Carlinhos Lopes, William Sorren, Ana Maria Tornaghi, João Siqueira (Cabana Carioca), o médico Jesus Cheda (Dr. Dedinho), Tony (Pinheiro Pires) Benito Romero, General (Carlos Wattimo), Berta e Abraão (Berta Brasil), a família Valentin (Brazilian Coffee), Leon e Ângela (Broadway Boutique), Fábio da Rio Som, Ivo (Ivo Boutique), Sidney, Jurandi Lima, Alaison Bighi, Paulo Murno (alfaiate de Sérgio Mendes), Enio Carvalho (depois corretor em Orlando), Hispéria Alves (mulher de Jota), Mário Magalhães, o médico Dr. Levy, o dentista Dr. Carneiro, Aimee Johnston, Rogério 50, Pedro da Silva, Eduardo Barbosa, João Pereira, Peter Martins, Carlos Roberto Sousa. Acreditando no Plano Real e na estabilidade da moeda, pela primeira vez encomendei uns newsracks (caixinhas de jornais) em Miami e exportei para o Rio de Janeiro, com a idéia de mais tarde lançar em todo o Brasil, nos shopping centers. O primeiro a receber as caixas foi o Rio Sul. Ao lado da loja (filial) Kalu Place e em outros andares do shopping, a novidade das caixas. O jornal era vendido por dois reais com o tamanho exato das combinações das moedas – exatamente igual aos newsracks americanos – a Varig ajudou na carga. Com um layout moderno, as caixas fizeram um tremendo sucesso. Por dez, quinze dias... Em muito pouco tempo estavam todas destruídas. O sonho mais uma vez foi por água abaixo e o prejuízo foi grande. O jornal continuava com a mesma linha de promover os brasileiros da Flórida: o Carnaval de Paulo Gualano levando para Orlando a cantora Maria Alcina, o show de Waleska (a Rainha da Fossa), matéria sobre a necessidade de uma representação consular na região central da Flórida. Em Miami, a guerreira Jeanette Bezerra realiza o Troféu Brasil, com festa beneficente para a Casa dos Artistas do Brasil, e Mário Magalhães, com ingressos a dez dólares, apresenta a Asa de Águia (grupo baiano) em seu XII Baile no Hotel Intercontinental. João de Matos vem de New York para patrocinar o piloto Raul Boesel e reencontra outro piloto, Alencar Júnior, de Goiânia. Miramar Mangabeira mora um tempo em Miami fazendo shows locais e a Varig anuncia a compra da Nordeste Linhas Aéreas. O restaurante Camila’s de Orlando continua a fazer sucesso entre os turistas brasileiros. Manoel Briote e Lia mostram ao povo brasileiro como é


O jornalista Roberto de Sousa faz coluna no JB sobre Orlando. De New York, Carlos Wattimo fatura alto regravando novelas e programas da TV Globo e distribuindo em cadeia nacional para todos os EUA. Foi o precursor do que hoje é a TV Globo Internacional.

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possível fazer dinheiro com honestidade e trabalho. Ainda em Orlando, a academia de capoeira Cordão de Ouro tem o comando de Carlo Verga (Suassuninha) e na aviação, o argentino mais brasileiro da América, Carlos Araújo, da Transbrasil, continua a promover o nosso país no exterior. No ano de 1995, sob o comando da Prefeita de Orlando, Glenda Hood, segue um grupo da Flórida para realizar intercâmbio no Visit USA, de São Paulo: Ana Barros, Ronald Ambar, César Pinto, Ângela Orano, Carlos Mellinger, Carlito e Antônio Machado, Samir, Alfredo Gonzales, Jack Miller, Carlos Lima, Fred Pope, Milton Garcia, Ronaldo Batalha, Luciana Barreto, Ivan Engelhart, Júlio Burgos e outros. Em todas as edições de todos os veículos que criei, o apoio publicitário da Varig, Sonria, Uncle Sal, S&A Distributors, La Ideal, K Furi, Sylvio’s Driving School, Amec Center, Camila’s (com a chegada de José, irmão de Lia Briote em Orlando), Gradual Remittance (do então já eterno amigo Carlos Rodriguez), Hotel Paradise Inn do amigo Roberto Bechtinger, Lucy’s Sports – Jô e Lucy haviam saído daquele primeiro trabalho no Hotel Helmor (Chesterfield) e criaram a sua própria loja, uma em Miami e outra em Orlando – naqueles anos dourados, todo mundo ganhava dinheiro. Os turistas continuavam a viajar mais, a gastar mais. A agência Meltur, de Nivaldo Mello, cresce em Orlando e em Miami, vira operadora, abocanhando uma bela fatia do mercado. A Bancor e a ACC Tours explodiam de ganhar dinheiro. E a comunidade de Orlando começa a se formar mais organizada com uma associação que durante algum tempo funcionou, e bem: Donald Sutton, que havia criado a primeira remittance (de brasileiros) de Miami, agora vivia em Orlando e ajudou na criação da Associação Brasileira Central Flórida; Quiciano Albuquerque trocou o Recife por Orlando, Ronald Moura veio de Washington, Ana Francisca Flores, Lázaro (capoeira), Tereza e Renato Graciano, Suellen Triska, Ronaldo Camargo (chef da Disney), José Almeida, Nick e Wanda Martucci, Pablo Rozemberg, Hispéria Grossi (ex-mulher de Jota Alves), Tia Ginha, Ângela Donni e Fernando, Wenceslau Soares Júnior, Vera e Roberto de Sousa. Jorge Siciliano compra terreno ao lado da Disney e cria o futebol society – entre alguns jogadores: Fernando, Miguel Careca, Rubens Taddei, Marcelo, Tuna, Humberto, Faneco, Carlão, Alex, Brent Louis, Afonso e Márcio.

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Chico Moura e Zico no lançamento do livro “ZICO UMA LIÇÃO DE VIDA”, Hotel Intercontinental de Miami.

Zico e Emerson Fittipaldi em noite de autógrafos no Inter. Ao fundo Elizabeth Santos com seu irmão Ricardo.

A cantora Nazareth Pereira e Antenor Bogéa, exadido cultural do Brasil em Paris.

Chico Moura recebendo a chave da cidade de Miami do Prefeito Stephen P. Clark.

Três grande nomes do esporte brasileiro em Miami: José “Birigui” (campeão de motociclismo), Raul Boesel (automobilismo) e Ricardo Prado (natação).


Pelé e Luciano do Valle, introduzindo o futebol em Miami.

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Em foto histórica: Luis Ernesto Gozzoli, Caitano, Luis David Azambuja, Tony Moura, Raul Boesel, Luciano do Valle e José Sales.

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Leila Luna e Thierry em noite de Paris.

No stand da Touriscard a turma mais animada da ABAV de todos os tempos.


Luís Barbosa vendeu o restaurante Gordo’s de Miami e agora atende, com a esposa Dagmar, no Brazil Grill da International Drive de Orlando.

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O professor Enio Borghini (irmão de Bruno Borghini) cria escola de inglês para brasileiros.

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Em agosto de 95, Ary Rogério Silva (meu companheiro no primeiro programa de TV em português da Flórida) manda notícias de Washington, onde agora é câmera e editor da PAHO (Pan American Health Organization ). Acabara de criar entre os países da América Latina um programa chamado “Cidades Saudáveis”. E Paulo Gualano anuncia o baile de Pepeu Gomes com um Trio Elétrico, em seu nono baile de carnaval na Flórida. Desta vez no Hotel Ramada de Orlando. O carioca Marco Varella Alliz, um dos melhores revisores no idioma português, continua colaborando com o jornal American Times. Roberto Mitre e Cristina Mitre (do Shopping D) viajam de São Paulo para participar de um congresso de outlets – que levou a tradução de Business Travel do Varejo de Desconto.

CHURRASCARIAS Com o título CHURRASCARIAS BRASILEIRAS INVADEM O SUL DA FLÓRIDA, o jornal The American Times publicava uma matéria contando a história de como tudo começou: o saudoso Jair Santos criou no início dos anos 80 a Rodeio, a primeira churrascaria rodízio (all you can eat) da Flórida. Localizada na Biscayne Boulevard, a Rodeio oferecia uma boa carne, boa música e a tradição de bons serviços importados das melhores churrascarias do Brasil. Depois, Titto Valiente, proprietário de uma churrascaria no Paraguai, resolve criar outra Rodeo. Desta vez em Coral Gables. Outra churrascaria que criou fama naquela época foi a Ipanema Grill (do Javier), na Coral Way, com a gerência de Lee (que veio de New York) e a música de Lilian Vianna. O Porcão, no final de 95, com a gerência de Júlio Queirós e o comando de Dom Pedro Gonzalez, Arthur Curi, Neudir Mocelin e Jadiel Pires, abre suas portas e definitivamente conquista o mercado no Estado da Flórida. Mais tarde, com o “afastamento” de Júlio Queirós, o gerente Moacir Ferronato segura a barra da churrascaria e aumenta o faturamento entre a clientela cubano-americana. Antônio Duarte (Tony), natural de Corinto, Minas Gerais, chegou em New York em 1968. Após trabalhar de “chef” no Brazilian Pavillion (do falecido galego Joaquim Gonzalez), um dos melhores restaurantes brasileiros de Manhattan, Tony criou o Brazilian Pavillion em Orlando.


O PRIMEIRO PROGRAMA DE RÁDIO DE ORLANDO E no dia 24 de dezembro de 1995 criamos na WFIV - 1080 AM o Alô Brasil, o primeiro programa de rádio em português da cidade de Orlando. Todos os domingos eu sorteava entradas para as principais atrações da Flórida, refeições nos restaurantes brasileiros e CDs de artistas brasileiros. Neste programa trabalhava o Juan, um DJ da Nicarágua, que me auxiliava na colocação das músicas. Um dia ele faltou ao trabalho. Minha mulher, Cristina (que não entendia nada de rádio), virou Juquinha. E todas as vezes que eu anunciava uma música dizia: — Roda, Juquinha! Deste dia em diante ela virou a titular da posição e funcionou melhor do que o Juan... Simultaneamente, com o programa Rádio Turismo, de Ailton Gomes (Rádio Bandeirantes do Rio de Janeiro) apresentávamos um 4 way line, ou seja, quatro pessoas poderiam falar ao mesmo tempo - via telefone. No Dia dos Pais, por exemplo, o homem de turismo Ronaldo Esteves ligou para o nosso estúdio e nós telefonamos para o Ailton (no Rio de Janeiro) que ligou para o pai de Ronaldo. Qual não foi a surpresa: pai e filho conversando ao vivo para todo o Rio de Janeiro e para toda a cidade de Orlando. Os anunciantes do programa de rádio Alô Brasil: Sutton & Associates, loja Sonria, Perfumeland, Gradual Remittance, Camila’s Restaurant, O Globo... Nas mensagens de fim de ano, os ouvintes da Flórida enviam saudações aos seus parentes e amigos do Brasil (ao vivo) através do programa Alô Brasil.

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Com saudades de NY, Tony lembra dos amigos: Pelé, Dondinho (pai de Pelé), Carlos Alberto, Terezinha Sodré, Xuxa, Florinda Bulcão, Sônia Braga e Chico Anysio. Fernando Mariano se enraizou com o jornal O Globo e acaba criando em Orlando a agência de publicidade Multimídia, especializada em representar toda a mídia do Brasil no exterior. Ronald Ambar (ex-BelAir) cria agência, Marcos Cigagna cria galeria de arte na Orange Blosson Trail, e ainda Walter Comassetto, Bill Caine, Steven Brown, Marcos Teixeira, Alma Grey (pioneira em Orlando), Márcia Farrel, Álvaro Itajahy, que trabalhou na loja Yes Brasil de Miami agora tem sua empresa de carga, a LGM, e fatura nas temporadas. O carioca Ronaldo Esteves cria a RGE Turismo, uma operadora que controla a venda dos tíquetes para as principais atrações da região central da Flórida.

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Os músicos Charles e Rafael gravam o seu primeiro CD, e a dupla Jurema e Miltinho, com sua arte, conquista os brasileiros da região. Passa por Orlando e é entrevistado pelo jornal American Times, em março de 96, o advogado carioca Nelson Santos (residente no bairro de Copacabana), com a filha Gabriela e a esposa, Dana. Nelson, após trabalhar no Banco Central do Brasil por 22 anos, um dia viajou para a Patagônia (Terra do Fogo) com a família e leu numa placa: VOCÊ ESTÁ NO FIM DO MUNDO! Ushuaia é a cidade mais austral do mundo e está localizada a 89 mil quilômetros do Alasca. “Enquanto a Dana tirava uma foto da gente, eu disse: Vamos para o Alasca?”, contava Nelson. Realizaram viagem do Rio ao Alasca, via Ushuaia – 100.000 quilômetros – no seu carro Monza, ano 1992. No ano de 1995, segundo dados oficiais do Greater Miami Convention & Visitors Bureau, publicados em 96, os brasileiros gastaram em Miami 525 milhões de dólares. Mais do que canadenses ou até mesmo do que americanos. Joe Almeida e Lucy, da Lucy’s Sports, mudam para a cidade de Orlando e o jovem Martonio Pinto, natural de Acesita, Minas Gerais, é o novo gerente da Transbrasil. Sônia Jageliavicius colabora com uma coluna sobre Medicina e Saúde. Em março de 1996, o pessoal do jornal American Times viaja para João Pessoa na Paraíba e cobre o BNTM - Brazil National Tourism Mart. Lá reencontramos a amiga de New York (então funcionária da Embratur no Brasil) Barbara Beatriz de Chevalier (irmã do saudoso Roniquito), Giovanni e Pedro (ex-residentes de Miami), Lílian Viana e Cláudio Pereira, Maria e John Hulsewe. De Miami: José Kfuri, Daniel Matheson, Eliane Oliveira (Discover Brasil Tours), o amigo dos tempos do Hotel Helmor Tony Rodrigues (Brazilian Wave), Marian Astoazarain, José Araújo, Euler Martins Pereira. O professor de inglês Ennio Borghini continuava a colaborar com o jornal American Times escrevendo uma coluna sobre arte. Principalmente sobre música clássica, em que era um expert. Ennio foi quem ensinou as primeiras palavras em inglês ao futuro diretor geral da Varig nos Estados Unidos, o irmão mais novo, Bruno Borghini. Mais tarde Ennio viria a falecer no Rio de Janeiro, deixando muitas saudades entre os amigos da Flórida. O Carnaval de 1996 foi um dos mais animados da cidade de Orlando; a sensação foi Juju Sandreschi, a menininha lourinha com quem eu diariamente andava na praia de Paracuru, no Ceará, filha de Ângela Sandreschi, dona da pousada Quasar, onde no início dos anos 80 fiquei hospedado por alguns meses. Ângela era casada com um piloto de helicópteros de uma plataforma de petróleo no Ceará. Nunca poderia imaginar que iria reencontrar a Juju e que ela se transformaria numa das


No Porcão de Miami, numa promoção de João Mendonça, o show do violonista Carlos Barbosa Lima. E o engenheiro mineiro Fernando Piancastelli sofrendo com as arapucas empresariais do político Sérgio Naya no complexo hoteleiro da International Drive, em Orlando. No Visit USA de 1996, em São Paulo, viajam: o promotor Antônio Carlos (o Toninho de Orlando), Vera Correia Domingues, Paulo Cigagna, Marcos Cigagna, Ana Paula Barros, Vera Domingues e Ana Paula Cigagna. O primeiro programa de rádio da região central da Flórida, o Alô Brasil, continuava a fazer sucesso entre os ouvintes de Orlando. Todos os domingos de 13 às 15 horas o melhor da música brasileira, notícias e entrevistas. Felipe Saldivia, o uruguaio mais brasileiro da Flórida, exibe em

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mais belas mulheres de Orlando. O mundo dá muitas e muitas voltas, se a gente tem tempo para observar que tudo é cíclico e muitas e muitas pessoas ainda irão cruzar nosso caminho. É preciso estar “sempre alerta” para não cair nas armadilhas da vida. Ainda em 1996, a criação do jornal Brazilian Paper de Tânia Azevedo e Marcos Cesar. O casal veio de Boston e conquista a comunidade mineira do sul da Flórida. No baile de carnaval de Paulo Gualano em Orlando reencontrei o amigo de Miami Cláudio Pereira (já então casado com Lílian Viana), que continuava a tocar o jornal Brazil Review, o jornalista do Globo e amigo do Rio de Janeiro Moisés Fuks, o publicitário/jornalista Eraldo Manes, Donald e Luty Sutton (já com os filhos crescidos), Adrian, Zilá Goes, Gerson Miguel, Flávio Almeida, Wilma e Wanda Almeida, Leila Júnior e Margarida Aguiar. Em cada capa do jornal, uma nova atração da região central da Flórida. Em maio de 96 a Universal inaugura em 3D a atração “Terminator”, de 60 milhões de dólares. Em Miami é criado pelo então Cônsul-Geral do Brasil, Luís Fernando Benedine, o Conselho de Auxílio ao Brasileiro, formado por “personalidades” que representavam os diferentes segmentos da comunidade: Amélia Freitas Gomes (doméstica), Arnon Dantas (jornalista), Bruno Borghini (Varig), Domingos Trofino (Compubras), Emerson Fittipaldi (piloto), Flávio Carvalho (Transbrasil), Marcelo Bottini (BACC), Maria José Willumsen (professora), Ricardo Dunin (empresário), Ricardo Eichenwald (Ourinvest), Rodolfo Canhedo (Vasp), Sérgio Vilhena (UNO) e o Pastor Silair Almeida.

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nosso jornal, com o carioca Jair Júnior, a taça de campeão recebida pelo time Brazilian Star no torneio quadrangular em Mt. Dora, na Flórida.

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De Miami registramos a exposição da pintora carioca June Farias exibindo uma arte primitiva, vibrante e sensual.

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Em Miami a Câmara do Comércio apresenta, em coquetel, o novo presidente da Varig, engenheiro Fernando Pinto. Presentes: o economista Léo Ferreira (meu compadre que veio do Brasil), Flávio Carvalho (vicepresidente da Transbrasil), Bruno Borghini (Varig), Álvaro Feio, Ronald Ambar, Fernando Mariano, Robert Potter, Bill Caine, Mercy Dessau, Manuel Diegues, Maria Jensen, Tina Martins, Estela Gomes. No dia 7 de setembro o palestrante da Câmara do Comércio em Orlando foi o ex-presidente Fernando Collor de Mello, com patrocínio da Disney, Florida Hospital e BACC. Com o título BAD GRASS DON’T DIE, entrevista com o Sr. Carlos Cepeda (82 anos), um dos mais antigos imigrantes brasileiros no Estados Unidos. Chegou em New Orleans no ano de 1953, onde foi trabalhar numa fábrica de tecidos ganhando um dólar por hora. Ao encontrar um amigo que não via há muito tempo, escutou: “Hey Charles, você ainda está por aqui?” Ele respondeu: “Bad Grass Don’t Die”. Impressionado com a incrível memória, perguntamos: — Agora conta aqui pra gente o que o senhor fez para a sua memória ser tão perfeita? — O vinho que eu faço em casa. A página com as tirinhas do Maurício de Sousa (A Turma da Mônica) conquistava os primeiros leitores no jornal American Times de Orlando. Passados alguns meses, fui a Miami receber minha mulher, Cristina, e a filha, Marcella, que chegavam do Brasil. O mercado de Orlando era extremamente sazonal e já dava sinais de fim de festa. O eldorado começava a desmoronar. O restaurante Camila’s, do nosso já então amigo e companheiro Manuel Briote, era um dos poucos que apresentava um lucro sólido e real. O restaurante do Luís Barbosa e Dagmar, embora bem localizado, estava também sujeito à sazonalidade da região. O Donna Donni virou o filet do Moraes.

A SAÍDA DE ORLANDO Manuel Briote, quanto mais a situação ficava ruim, mais investia. No final de 1996 comecei a ligar para o amigo Ary Rogério. Ele trabalha-


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va na OMS (Organização Mundial de Saúde) de Washington e poderia dar alguma sugestão para a criação de um novo jornal na capital do país. Descobrimos que na cidade de Rockville estava o melhor padrão de ensino nos Estados Unidos. E para o Estado de Maryland nos mudamos em outubro de 1996. Com o Ary Rogério, consegui um trabalho de free lancer na PAHO (Pan American Health Organization) fazendo dublagem em português para especiais da Organização Mundial de Saúde. Virei locutor, ganhando 400 dólares por cada documentário narrado. Era uma beleza. Se existissem três documentários por semana seriam 1.200 dólares semanais de faturamento. Mas não era um trabalho estável. Pelos classificados do jornal Washington Post consegui uma posição de tradutor nas revistas Radio World e TV Technology. Pela primeira vez uma seção em português passou a existir nas mais conceituadas revistas de tevê e rádio dos EUA. Eram todos trabalhos free lancers. Precisava encontrar alguma coisa fixa. Foi então que resolvi encarar a posição de entregador de pizza. Vinha de Washington com terno e gravata e trocava pelo uniforme vermelho do Papa John’s Pizza . Era uma mistura de locutor de uma das mais respeitadas instituições públicas americanas, tradutor de revistas especializadas e entregador de pizza. Minha filhinha não entendia nada daquela alternância de ternos, bonés e uniformes. No Papa John’s me deram uma região de aposentados e pessoas de baixa renda. Muitas e muitas vezes fui obrigado a completar o dinheiro das notas de velhinhos que quase não enxergavam e que sempre tinham um ou dois dólares a menos. A história dizia que, em 1984, John Schnatter (o Papa John) vendeu o seu Camaro 1972 -Z28 e com os 1.600 dólares derrubou um armário-parede dos fundos do Mick’s Lounge (o bar de seu pai) e começou a vender pizzas para os clientes do próprio bar. Os clientes adoraram a pizza e em menos de um ano ele abriu (ao lado do bar) o seu primeiro Papa John’s. Hoje, existem 3.000 restaurantes em 49 estados americanos e em mais de 20 países. Em Washington, o frio chegou violento. Fiz concurso de técnico administrativo para trabalhar no Departamento de Justiça e passei. Dois meses depois ligo para o Rodrigo Soares, o que comprara o Florida Review: — Chico, pegue um avião agora e vamos conversar. Eu pago todas as suas despesas. Voei para Miami e fomos almoçar no Porcão. A proposta era tentadora. Pagaria o aluguel (qualquer que fosse o preço do imóvel em Miami), um salário fixo e uma participação na venda de publicidade. Fiquei encantado com a idéia de voltar a trabalhar em meu antigo jornal. Vendi tudo o que tinha em Washington e de carro retornamos para Miami. Na tarde de sexta-feira o telefone toca (deixei instalado até o momento final da mudança) e vem a seguinte notícia:

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— Aqui é do Departamento de Justiça. O senhor pode começar a trabalhar na segunda-feira aqui em Washington. Agradeci, mas não podia mais mudar. Havia dado a minha palavra para o Rodrigo. Nas primeiras semanas, em janeiro de 1997, ficamos hospedados, a convite do Roberto Bechtinger, no Hotel Paradise Inn. Encontrei um bom apartamento na praia de Surfside (Miami Beach), onde minha filha poderia estudar na Ruth K. Broad, em Bay Harbor, a melhor escola do condado de Dade. De frente para o mar, o apartamento oferecia muito conforto e tranqüilidade. Nos primeiros dias cumpri o combinado, vendi em publicidade mais do que havia prometido. Mas eu não contava com as inseguranças dos funcionários, as intrigas e os jogos dos sanguessugas que se instalaram no jornal. Procurei o Rodrigo para conversar sobre aquelas intrigas e ele sumiu. Em menos de dois meses a situação ficou insustentável. Saí do jornal sem qualquer perspectiva de trabalho. Foi como se eu mesmo tivesse tirado o meu tapete do chão – para sentir a própria queda. O pessoal que havia começado o novo jornal já não era o mesmo. Érica Norimar voltou para a música e agora era cantora; o Carlinhos foi trabalhar na construção e depois no Miami Beach Place; Carlos Borges criou uma revista com Tony Moura e Denize. Com a cabeça sempre criativa e inteligente, o baiano não parava de inventar: criou o concurso Miss Brasil USA, o Brazilian Press Award e outros eventos. Marcos Omatti voltou para a televisão, Rinaldo casou e foi trabalhar com vendas, Idilio Gomes faleceu, Debbie Barbosa pediu demissão, Monica Mattedi casou com um cubano e ficou rica. Antônio Tozzi voltou a ser correspondente do Estadão. Tudo era diferente. Agora o jornal estava na mão de nosso antigo fotógrafo, o corretor de imóveis venezuelano Marco Lauretti, e da boliviana Mirtha Arriaran.

PROGRAMA DE RÁDIO EM MIAMI Mais uma vez desempregado, tinha de inventar alguma coisa nova. Em poucos dias criei em Miami, das 21 às 23 horas de cada sextafeira, o programa RÁDIO BRASIL, na Union Radio – 1450 AM. Para sustentar o padrão que me foi prometido, fui salvo pelo Sérgio Vilhena, da empresa Uno, que já me conhecia desde os tempos da Vigo (em New York) e me ajudou com o patrocínio do programa Rádio Brasil. Na época existia o “Chora Viola”, um outro bom programa de rádio em Miami, criado por André Volpato e Gilson Ogliare. O nosso programa, sem script e sem direção, reportava o que rolava na cidade, intercalado com a boa música brasileira. Não é difícil fazer


BRAZILIAN SUN – O QUINTO JORNAL No início de 1997 o mercado já não era o mesmo. Os turistas já não viajavam para a Flórida como nos anos 80. A tendência da comunidade de brasileiros voltava-se agora para Fort Lauderdale, Pompano e Deerfield Beach. Existiam então quatro jornais em Miami: Brazil Review (Cláudio Pereira), Florida Review (Rodrigo Soares), The Brazilian Post (Cláudio Magnavita) e o nosso Brazilian Sun. Na capa do Brazilian Sun, o anúncio da chegada do primeiro Trio Elétrico para a Flórida, a matéria de Marcos Omatti sobre Carlinhos Brown, o show de Marisa Monte, crônica de Lucas Mendes (Conexão Manhattan) e uma coluna sobre música brasileira, de Gina Martell. Publicação do show beneficente “The Friendship Music Encounter”, o maior encontro musical já realizado na Flórida, contando com a participação de um elenco de mais de 40 artistas, entre músicos e dançarinos, em suas mais diversas formas de expressão e estilos, provenientes de todo o sul da Flórida e norte dos Estados Unidos. Um verdadeiro

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uma programação com o Brasil. O excesso do virtuosismo musical tupiniquim para sempre garantirá a qualidade de qualquer programa. Com algumas externas e muitas entrevistas, o RADIO BRASIL começa a agradar aos ouvintes da cidade de Miami. O homem da capoeira, César do Alabama, foi entrevistado e reclamou da falta de cobertura da mídia brasileira em relação aos filmes de que participou ao lado de JeanClaude Van Damme em 1995 e 96. O filme The Quest foi gravado na Tailândia, onde César ficou por três meses. Carlinhos Brown foi entrevistado ao vivo, por telefone: falou de sua programação na Europa – em 30 dias, 25 apresentações em diferentes cidades. No Scala de Miami a cobertura do show da Portela (produzido pelo ex-policial carioca Edson) entrevistando Zeno Bandeira da rede Globo em sua primeira viagem a Miami, e Richard da Portela (o Pavarotti do Brasil) informando que antes da Portela foi tenor do coral dos Correios no Brasil. Zeno é também radialista, produzindo na Rádio Imprensa o Carnaval da TV Globo. O show da Portela aconteceu no mesmo dia que Júlio de Souza (Julito) fazia o show de 40 anos da Jovem Guarda no Teatro Gusman Center, com Martinha, Jerry Adriani, Wanderely Cardoso, Os Vip’s. Após a minha pequena passagem pelo jornal Florida Review recebi duas carinhosas homenagens: uma de Sérgio Vilhena (Uno) e outra da grande amiga Tânia Azevedo (jornal Brazilian Paper ) com cestas de frutas, chocolates, vinhos e champanhe.

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Bill Williamson, exproprietário do Jornal Brazil Herald (do Rio de Janeiro), chegando de viagem solo, em seu veleiro, no sul da Flórida.

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Luiz Carlos Serra, Pepita Rodrigues e Carlos Eduardo Dolabella , em Miami.

Francisco Ruiz, Jaqueline Pitigliane, Carlos Coutinho, Tereza Theriaga e José Kfouri.


O cantor Emilio Santiago no restaurante Porc達o de Miami.

Neida Rodrigues e as pintoras Naza e June Farias.

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O cearense Falc達o e Jorge Bilda, um dos fundadores da comunidade de brasileiros de Miami.

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Romero Britto com Ricardo Amaral na Williams Island, Miami.

Os baianos Carlos Borges e AndrĂŠa Borges em festa de Jair de Almeida.

Os jornalistas Paulo Correa e Carlos Borges em noite de Miami.

Paulo Miranda, Luis Gozzoli, Tony Correa e Claudio Magnavita no cocktail da Gazeta Mercantil na cidade de Miami.


Nivea Barbosa (esposa de Eduardo Barbosa) trocou New York por Miami.

O médico cearense Fernando Borges, um dos melhores urologistas do Estado da Flórida foi entrevistado pelo Florida Review.

Léo Batista, quando morava em Orlando, foi entrevistado por Paulo Correa.

O baiano Claudio Magnavita criando o jornal Brazilian Post em Miami.

O cearense José Sales conquistando a comunidade de brasileiros no sul da Flórida.

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A Transbrasil se reúne em Miami: Carlos Araujo, o ex-gerente Roberto Sas, o ex-Vice-Presidente Flavio Carvalho e Marcelo Rodriguez.

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O carioca Jorge Siciliano, atual diretor do Pirate’s de Orlando, um dos pioneiros do turismo na Flórida, ex-funcionário da Varig - ex-Belair e ex-Hotur, sempre bem acompanhado nos congressos da ABAV - Associação Brasileira dos Agentes de Viagem.

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Os amigos do Brasil na eterna reunião de sextafeira no Restaurante Capela no Rio de Janeiro: Gilson de Paula, Roberto Couto, Chico Moura, Marcos Iorio e Léo Ferreira.

Com um dos melhores compositores/ pistonistas americanos Chuck Manggione (à direita), autor de Feels so Good.

No Congresso da ABAV com o baiano Paulo Gaudenzi.

Quando o turismo se encontra em Miami. Os guias:Sergio Pires, Kika Pedrosa e Antonio Abussafi (o Jota).


A família Pestana do Restaurante Brazilian Tropicana.

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Omar Fontana e Elda Garcia em cocktail de inauguração do um novo vôo da Transbrasil no aeroporto de Miami.

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Dalva, sua filha Carol, Dilma Lóes e Maria Fernanda no Miami Beach Place.

Marcella Moura também foi retratada pelo artista plástico paraense Albery.

O casal Lia e Manuel Briote, no Restaurante Camila’s de Miami.

Em festinha familiar na casa de Adriana Dutra (ao centro).

Manuel Briote, Paulo Ferraz e Silvinho Ferraz no Restaurante Camila’s de Miami.


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Marcos Medeiros (já falecido), sorrindo para os amigos da Flórida.

O cinegrafista Orlando Moreira, fundador da TV Globo, aproveitou momento de descanso na Casa Branca e posou de Presidente.

Rosana Bowman, Carlos de Araújo e Miltinho. Maria Pestana e Pauletty em Pompano Beach.

Orlando Moreira dirigindo uma novela da Globo na Columbia University (New York) com o ator Fábio Junior à direita.


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encontro de amizade e talento EM PROL DA VIDA. Da vida de Cláudio Pereira, o meu amigo de infância, companheiro do colégio Santo Agostinho, que re-encontrei no restaurante Via Brasil de New York, o amigo que me levou para um Natal inesquecível em upstate NY. O mesmo Claudinho que tomou conta do meu jornal quando fui morar na Europa, o mesmo que agora tocava o Brazil Review, estava morrendo de câncer no pâncreas. Nas fotos do Brazilian Sun: Marcos Lima (marchand) com Rosana Bowman (ex-Intercontinental Hotel) e João Carvalho (mais tarde dono absoluto de todo o comércio da Brickell Key), Rony Curvelo (secretário de Fernando Collor), a família de Jorge Siciliano, que criara no início dos anos 80 o primeiro restaurante brasileiro de Orlando, Cida Ignácio e Terry Gonzalez, Carlos Borges e Cláudio Magnavita, Eduardo Borracha, Luciano do Valle, Waldir Coelho, Antônio Nina e ainda uma raríssima foto de Rodrigo Soares. O pessoal da pescaria mostrando os dotes: Carlos Martins, da revista Miami Alegria, exibindo 45 lagostas, Helder Pereira mostrando um dourado de 40 quilos e os exagerados Johnny (FJF), Domingos Trofino, Toninho Cabeção, Geraldo Figueiredo e Sapo (Mr. Frog). Luís Ernesto Gozzoli prestando a consultoria ao então “amigo” Júlio Queirós, na criação da churrascaria Steak Masters, de Coral Gables. Paulo e Regina Gualano anunciando a vinda de Leonardo César Gualano, que nasceu no dia 14 de maio de 1997. Entrevista com o jornalista americano Bill Williamson (ex-proprietário do jornal Brazil Herald, do Rio) que quando conheceu a baiana Vânia, num cocktail do Consulado do Estados Unidos no Rio, anunciou: “Vou fazer uma viagem (solo) num veleiro da Europa para o Brasil e volto para me casar contigo”. Não foi. Casou-se com Vânia, teve três filhos e esperou 40 anos pela aventura. Bill saiu de Fort Lauderdale a bordo do Imagine (onde fizemos a entrevista), um veleiro de 32 pés, com destino à Ilha da Madeira em Portugal, volta à Ilha da Madeira em Sepetiba e volta a Fort Lauderdale. Tudo isto sozinho. Mais uma vez encontro o Albertinho (Alberto Decat), amigo de infância de Ipanema. Em Miami, Alberto abriu a loja Bodega e depois criou o Baby Beef com Luís, fornecendo uma excelente picanha, lingüiça, salsicha, paio, carne-seca, pão de queijo e tudo para uma boa festa. Pelo que me lembro, somente ele, eu, Adriana Sabino, Sérgio Muller (Xuxu), Dilma Lóes e Claudinho Pereira saímos de Ipanema para morar em Miami. O Grupo Esgoleba faz sucesso em Fort Lauderdale com Gilson do Cavaco, Eduardo Borracha (já então na Igreja), Edinho, Candinho, Nilton, Jorge e Kadu. No mesmo ano, Albery fixa residência em Miami e tira foto com Romero Britto para o jornal. Em festa da Câmara, Marcelo e Adriana Sabino, Denise Moura,

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Flávio Carvalho, Rosa e Renato Scaff, Paulo Teixeira e o casal Luís Ernesto Gozzoli e Marjorie Andrade. Terezinha Sodré, a mais elétrica, energética, alegre e competente atriz de TV do Brasil, criou em Miami o programa “Planeta Flórida”. A médica gaúcha Dra. Henriette Failace vai conquistando os brasileiros em sua clínica em Aventura. Os nortistas Ronaldo Mayorama e Antônio Camarotti, com o nordestino Ricardo Caminha, trazem o CarnaBeach para as areias de Miami Beach, apresentando pela primeira vez um Trio Elétrico brasileiro. Entre milhares de participantes, registramos: o cantor Marquinhos Moura, o empresário Sérgio Vilhena, Rodolfo Canhedo, James Quinlan, Marquinhos Mentirinha, Isaac e Sônia Gerstein, Ronaldo Monte Rosa, Luiz Chaves e Rony Curvello. Anya Ribeiro, Secretária de Turismo do Ceará, realiza feijoada no Porcão com a presença do casal George Halas, Tony Rodrigues, Fred Santos, Fernando Teixeira, Rosana Bowman, Henrique Campos (Banco Real) e o casal Renata Funaro e Ricardo Maio. De New York, o jornalista Lucas Mendes continua enviando a sua colaboração com a coluna “Conexão Manhattan” e o Barão de Ramalho (pseudônimo do advogado brasileiro Luís Ernesto Gozzoli) envia sua crônica com o título: EXODUM BANANUS Num passado longínquo, numa grande nação em crise chamada Bananaland, sob o jugo tirano-cômico do Imperador Ferdinandus Dellirium, o Tresvairado, houve um êxodo de súditos para além de suas fronteiras. Os bananos, como eram conhecidos os súditos em debandada, preferiram, em sua maior parte, rumar para o reino balneário de Tihani, Fl,* terra da fantasia e da invenção, onde estavam a salvo das intempéries econômicas de bananaland e também do Código Penal. Assim que chegaram, os bananos tiveram muitos problemas com a guarda pretoriana de Tihani, conhecida como Immigratum Circus, cujo lema era “deportas quae sera tamen”, ou seja “cai fora, ô banano!”. O banano que não era burro nem besta, passou a imitar o povo dominador cultural de Tihani que na época era o bundano. Os bundanos, que por sua vez haviam imigrado de uma pequena ilha próxima, não só falavam o idioma de Tihani como também imitavam com perfeição os modos dos nativos de Tihani, os gringanos. Como o banano era meio dado a pagar mico e dar vexame e tinha medo de ser deportado, passou a agir como o bundano, inclusive no que tange ao talento para a invenção e fantasia. Assim, como o lema de Tihani era “aqui você não é o que sempre foi mas aquilo que sempre quis ser”, o banano se transformou


*Fl. É a abreviatura de Fim de Linha, i.e., o lugar mais longe a que o dinheiro dos bananos conseguia levá-los, classe econômica, fileira 128. Na edição seguinte, o Barão de Ramalho continuava: O IMPERADOR FERDINANDUM COLLERICUM, O DOIDIVANAS, INVADE O REINO DE TIHANY, FL. Um belo dia o Banano que vivia em Tihany recebeu a notícia. O Imperador Ferdinandum de Bananaland aprontou as suas e, por conta de sua aliança com um tal de Pati Farias, cujo lema era “deixa que eu levo a mala”, teve de renunciar à coroa. Saiu de Bananaland com a Imperatriz Lady Rô, Duquesa de Canapi, furibundo, cuspindo marimbondo, fazendo banana e mostrando a língua. Amanheceu em Tihany, onde imediatamente comprou duas Ferraris, o Palácio de Viscaya, o S.S. Norway, dois políticos e uma mesa para o concurso de Miss Brasil-USA. Na mesma noite foi visto com a Duquesa, bandeja na mão, no restaurante Camila’s em downtown Tihany. Aquilo, para o Banano, era demais. Quando o Banano deu de cara com o ex-imperador, ocorreu o seguinte diálogo (o banano falando, logicamente, o dialeto tupi-bananês e o imperador o bananês imperial): Banano: Ué? Tu tá aqui? Tô fu!!! Imperador: Não, não está não, meu caro banano descamisado. Estou no exílio, como você, mas pretendo voltar. Primeiro, entretanto, vou comprar a Disney World, eleger-me membro pessoa física do Conselho de Segurança da ONU e quarterback do Tihany Dolphins. Banano: Chi... tão tá. Tachau! E saiu o banano, rabo entre as pernas, receoso de dar muita conversa e ter sua poupança confiscada. Com o tempo, todavia, o Imperador desterrado percebeu que não estava dando muito Ibope, já que não era convidado nem para a posse

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da noite para o dia. O banano bancário transformou-se em banqueiro, O rábula em advogado. O pedreiro em construtor. O chantagista em jornalista. A recepcionista em colunista social e o iletrado em professor. Ou seja, aquilo que um banano não só acreditava mas até contratava os serviços. Teve até caso de cego dentista. Neste caso, o paciente banano, logicamente, não foi à consulta (porque não era burro) mas mandou em seu lugar um bundano amigo, que teve o seu tímpano e nariz perfurados à broca. É lógico que o bundano reclamou à immigratum e foi aí que começou a primeira grande crise na comunidade banana de Tihani, Fl* . O que estava por vir, todavia, superou quaisquer expectativas jamais sonhadas pelos bananos em exílio.

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de síndico. Resolveu então se aproximar dos Bundanos, que o achavam original e bonitinho. Era, assim, comum escutá-lo discursando nas rodas de Bundanos na Calle Ocho. Mis buenos bundanos descamisados: Yo, como ustedes. También tomé un pié en la bunda! Pero comigo el buraco es mas abajo, yo hago cosas del arco de la vieja... voy a chutar el palo de la barrueca y volver a Bananaland: duela a quien duela!!! Os bundanos ficavam sem entender muita coisa, mas como o homem falava grosso e era bonitinho, batiam palmas e tudo acabava em bistec empanizado. Assim, o Imperador passou a fazer parte do dia-a-dia de Tihany, enquanto se preparava para voltar ao trono. O Banano também continuava sua vida de trabalho duro e embates com o immigratum. O seu relacionamento com os outros povos da America Las Tima que coexistiam em Tihany era muito peculiar e vai ser objeto de próxima crônica do Barão.

1997 O programa de TV “Aqui Brasil”, de Álvaro de Sá, ia se firmando nas noites de sábado. Ainda no ano de 1997, uma das brasileiras mais bonitas da cidade de Miami, Priscila Richter, manda carta de agradecimento ao jornal Brazilian Sun, após receber o inédito título de Miss Clairol Carnaval de Miami. O baiano Carlos Borges cria o Brasil Onze e Meia, um programa diário na WLRN, na TV Educativa de Miami. O pernambucano Carlos de Araújo é relações-públicas da Williams Island e o corretor Mark Pordes é o campeão de vendas para brasileiros no ano de 1997. Vanessa Aiex tira foto com Daniela Mercury, que fez show no Jackie Gleason Theater, promoção da South (Silvio Anspach) com direção de Roberto Treptow e José Roberto. Jussara Quinan promove em Miami o Miss Brasil-USA, que sob o maestria de Carlos Borges vira a maior atração entre as comunidades de brasileiros nos Estados Unidos. Mais tarde passaria para as mãos de Cacá Santos. Com o nome de Brazil World Tour um grupo de brasileiros viajou


para a Coréia e Japão, sob o comando do mais profissional artista brasileiro nos Estados Unidos, Paulo Gualano.

JAPÃO/CORÉIA Nem o alarme que disparou no Aeroporto Internacional de Los Angeles fez parar o show de capoeira que alguns dos componentes da Escola de Samba Unidos de Miami mostraram no desembarque do vôo 986 com destino a Seoul. Tudo começou com um bater de palmas de um dos componentes que timidamente marcava um ponto de guerra. De repente Mestre Caboquinho tirou o berimbau de sua vestimenta e começou o espetáculo. A roda formada, as rezas de chão, as bênçãos e a capoeira de Eldio Rolim (Cabello) e Tisza Coelho, foi dada oficialmente a partida para a Escola de Samba Unidos de Miami rumo ao oriente. Os passageiros em trânsito não entendiam. Como esta gente pode continuar tocando e dançando com o alarme soando? De onde vem tanta gente diferente fazendo o mesmo som? americanos brancos, negros e mulatos, hispanos e brasileiros de todos os tipos? e todos batendo uma música estranha e cantando coisas estranhas com a mesma batida, seria alguma nova tribo ou alguma nova religião? Já no aeroporto de L.A. senti o primeiro arrepio na espinha. De repente me vi batendo palmas e acompanhando o grupo. Afinal era para isto que eu estava ali. Para tocar qualquer coisa. No dia anterior, na hora marcada, todos os 55 componentes da Escola de Samba compareceram ao aeroporto de Miami no dia cinco de agosto às 3 horas da tarde. Eu já imaginava que o responsável por esta jornada, o capixaba Paulo Gualano, era exagerado nos horários. Também, com uma experiência de quase 20 anos neste mercado, ele deveria ter alguma razão para exagerar. O vôo saiu às sete da noite com destino a Los Angeles, a primeira escala do grupo. Após o show de capoeira no aeroporto de L.A., encaramos 13 horas de viagem para Seoul, capital da Coréia. E quem dormiu? Surgiu um cavaquinho em forma de banjo, um pandeiro e um tamborim. Na voz de Lázaro Franco, uma das figuras mais simpáticas e positivas do grupo, surgiu o primeiro samba. E rolou durante muitas horas até se descobrir que havia caído um avião da Coréia e os passageiros poderiam se ofender com tanto samba e tanta felicidade. Alguns minutos de silêncio foram observados.

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Da mídia registramos: Carlos Borges, Valéria Hadad, Cíntia Braga, Chico Moura e Zigomar Vuelma. E em matéria desta viagem publicada no jornal Brazilian Sun:

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No aeroporto de Seoul, o representante da Vasp abriu uma fila especial na imigração, já dando mostras de que este era um grupo especial. Afinal, a Nike estava gastando milhões de dólares para promover o futebol do Brasil pelo mundo e tudo deveria sair perfeito. Paulo Gualano controlava tudo como um soldado num campo de guerra. No aeroporto, dois ônibus nos esperavam para levar ao Hotel Intercontinental, um dos mais luxuosos de Seoul. A diferença do fuso horário começou a pesar. Como este povo vai tocar, jogar capoeira e sambar depois de tantas horas de vôo – e quase sem dormir? Que horas são? Ninguém mais sabia de nada. Continuava sendo quarta-feira e após um descanso, a primeira exibição de rua – a divulgação do jogo foi pouca - dos 65 mil ingressos disponíveis só foram vendidos 30 mil. A Escola de Samba Unidos de Miami tinha que levantar, em dois dias, mais 35 mil ingressos. Foi quando “elas” começaram a se produzir. No avião quase não se podia notar atrás daqueles óculos intelectuais de Flávia Barbosa a escultura guardada. A beleza de Kátia dos Santos era de se notar já no rosto, mas seria verdade? Era possível existir aquela harmonia? Era tudo dela? Ana Cristina de cabelo preso, soltou nas ruas de Seoul os 120 centímetros de um rabo de cavalo deslumbrante. E a Márcia da Rosa? um monumento que deixava os coreanos boquiabertos, a Patrícia Duarte com aquelas roupas tímidas de garotinha, nas ruas de Seoul transformou-se numa deusa de salto alto com o público delirando. A Carolina Menezes, uma chilena com aquela pele branca e a ginga de mulata mostrando todo o seu ar sensual fluir pelas ruas de Seoul. E quem poderia resistir a Jennifer Tomasoni? com seus olhos amendoados, a pele dourada e o corpo nota dez? Quem poderia resistir a este apelo? E a bateria? Os primeiro calos mostravam nas três apresentações de rua que os 35 mil ingressos adicionais seriam vendidos – e foram. Com o sucesso alcançado, os mais jovens, chefiados por Michael Costa, subiram a “ladeira da montanha”, um prostíbulo coreano - mas só pra brasileiro ver. Com o estádio lotado e após o show da Escola de Samba Unidos de Miami, o time do Brasil entrou em campo meio cansado e sem inspiração. Os coreanos ganhavam de um a zero. No intervalo mais um show. Final: Brasil 2 – Coréia 1. De volta ao hotel, quando entramos no ônibus os coreanos seguiram agarrados mandando beijos, com gestos de “leve o meu coração”. Como pode um povo perder e continuar torcendo pelo adversário? Um espetáculo inesquecível... À noite, os jogadores da seleção e os jornalistas brasileiros preferiram o nosso hotel. Vinham de todos os lados para ver as meninas ou curtir o tamborim do Mestre André. O jogador Ronaldo (9) pulou o muro, se engraçando para uma componente do nosso grupo. A modelo levou bronca do general Gualano e quase foi banida do grupo.


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Da Coréia seguimos para Osaka, no Japão. O hotel (Ritz Carlton) era ainda mais luxuoso do que o anterior. Um cafezinho custava 10 dólares. Cada porta era aberta por 3 ou 4 japoneses que faziam os tradicionais gestos de reverência. Logo no primeiro dia o grupo descobriu as galerias do metrô. Era uma outra cidade dentro de Osaka. Esta cidade subterrânea era mais limpa, cheia de lojas, camelôs, restaurantes de todos os tipos, mercados, supermercados. O metrô limpo e bem organizado. O grupo se dividiu. Uns seguiram para a cidade de Nara, onde está o Museu Nacional, o parque Kohfukuji com diversos templos, entre eles o “Grande Buda”. Outros seguiram para Kioto e Kobe. Os mais aventureiros se perderam pela cidade. A última noite livre as pessoas se encontravam meio sem combinar no John’s Place, uma casa de jazz (em frente ao Blue Note japonês) com entrada franca. Um trio de japoneses tocava músicas de Louis Armstrong e outros monstros sagrados. Num dos intervalos Ettiene Fuentes senta na bateria, o Julio Acosta corre no hotel e afina as suas congas, o Afonso Sanz disputa o microfone com o Carlos Arazera, os irmãos Ramirez no piano e nos tambores. Bye Bye Japão. Com a chegada de Paulo Gualano na guitarra, aí então ninguém segurou o grupo... O samba rolou até as 6 horas da manhã. Em Osaka não havia mais a necessidade de promover o jogo. Os 75 mil lugares já estavam vendidos e os cambistas anunciavam a venda de um ingresso comum por 200 dólares. O grupo, já mais definido, afinado e com mais sincronização nos horários, apostava num espetáculo ainda maior. Metade do estádio vestia a camisa da seleção do Brasil. A torcida canarinho, de olhos japoneses e coração brasileiro, xingava os pais, os avós. Numa falta cobrada contra o Brasil, os gritos: FILHO DA PUTA, FILHO DA PUTA, FILHO DA PUTA... Não dava para entender direito tamanho fanatismo. Quando a Escola de Samba Unidos de Miami adentrou no estádio foi um delírio. Primeiro, um show de tambores japoneses, depois o samba de Paulo Gualano e suas morenas de ouro. O Brasil deu um passeio – final: três a zero. Após o jogo, eu e o Carlos Borges (como bons nordestinos) tomamos banho nos chafarizes da praça e seguimos de ônibus para Fukuoka. De lá voamos para Seoul, Los Angeles e finalmente Miami. As fotos e as histórias são muitas. Os jornalistas convidados prometeram fazer um curso intensivo de tamborim com Mestre André Magalhães. Até dezembro, quando a seleção do Brasil for jogar na África do Sul, a Nike já demonstrou interesse em contratar 100 componentes da Escola de Samba Unidos de Miami. Até lá, muito samba vai rolar.

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Em matéria de João Mendonça (que foi casado com a filha de Sérgio Mendes) registramos o sucesso do show de Pery Ribeiro em New York. Presentes: Lionel Hampton, Paulo Moura, Caio Luís de Carvalho, Ana Maria Tornaghi e Sônia Braga. E na primeira feijoada do restaurante Steak Masters, a presença de Joãozinho Pereira, Luís Gozzoli, Flávio Carvalho e Carlos Araújo (Transbrasil), Bruno Borghini, do ipanemense Sérgio Muller (Xuxu) e outros. Gerson Delano volta com sua coluna anunciando o casamento do mineiro Horácio Oliveira e Jennifer Porciello. Horácio foi gerente do restaurante “I Tre Merli”, depois “Follia”. Anos depois criou, com o irmão Juca Oliveira, o “Giovanna Cafe”. Hoje estão divididos e separados entre o Tutto Pasta/Tutto Pizza (Juca) e La Loggia (Horácio). Em palavras de Gerson Delano, registramos: O Las Palmas é a versão atual do finado Brazilian South Restaurant, que se confundia com o Consulado, onde tudo acontecia; notícias, negócios e fofocas, com uma linha aberta de telefone para a matriz - a conta era apresentada depois. Foi ali, nas suas mesas, que se imprimiu pela primeira vez, em papel-arroz, o jornal que viria a registrar os momentos iniciais da comunidade de brasileiros em Miami. Vânia e Roberto Pereira da Unibras (ex-Amec Center) anunciando a chegada do filho Bruno. Dalma Campos (mãe da atriz Thais Campos) recebendo chamada telefônica de seu irmão Wolf Maia, no dia de seu aniversário em Miami. Em mais fotos, vemos: Luís David Azambuja, Sônia Nittinger, Yolanda Pereira, Ivan Moniz Freire e Hélio Gusmão, da Vigo de New York. E uma seção de fotos com o título – ADEUS AOS AMIGOS – Airton Senna (piloto), Adão Meireles (Consulado do Brasil), Barbosinha (empresário cearense de New York), Cida Ignacio (Brazilian South Restaurant), Márion Vogel (empresária), Hugo Leite (homem de turismo), Noelly Gonzalez (a primeira promotora de eventos em Miami), Augusto Ribeiro Maciel (adido do Consulado do Brasil em Miami), Jair Santos (pioneiro da comunidade de brasileiros em Miami), Leslie Gateno (diretor da Associação Brasileira Central Flórida), Américo Torneiro (Cabana Carioca de New York), Alain Jacquemin (Fiorentina - Miami), La Barros (ex-editor de artes do Florida Review), Luís Carlos Serra (empresário baiano, figura polêmica, homem de turismo). Na despedida de Claudinho Pereira, a sua última mensagem: Acredito que o mais difícil seja escrever um agradecimento, isto porque não existem palavras suficientes no dicionário para tal. Além disso, corre-se o risco de esquecermos o nome de alguém importante, simplesmente por sermos humanos. Fiquei realmente agradecido com a resposta recebida por este pro-


Pela primeira vez apresenta-se na Flórida o violonista Baden Powell. Dilma Lóes abre o primeiro curso de teatro brasileiro na Flórida. Gil Santos abre academia de dança em Miami Beach, Cláudio Carneiro cria no Marti Theater o show Brasil Zum Zum, com Marquinhos Moura, César do Alabama e mais 20 artistas. Dilma Lóes continua colaborando com suas crônicas e conquistando leitores. Conheci a Dilma quando ainda muito pequena e corria pela Rua Gomes Carneiro, em Ipanema. Aquela coisa platônica, impossível. Um dia me vejo convivendo com a Dilma e recebendo as matérias para o jornal. Jair de Almeida cria em Miami o Brazilian Night, um baile em comemoração à Proclamação da República do Brasil. Bia Duarte e Amauri Júnior se encontram na noite do The Point. Presentes o jovem casal de namorados Marcelo Netto e Jennifer Tomasoni, o maravilhoso pintor Pedro Lazaro, Blima Efraim, Renata de Miranda, Camilo Nader, Silvia Nader, Maria Cândida e Cláudio Magnavita do programa diário de TV “Bom Dia Miami”. A médica Helena Leite, de Washington, envia colaboração para a coluna de Saúde. Na festa de fim de ano da S&A Distributors no Hotel Hyatt de Dadeland, Alfonso Samour convida parentes e amigos: Lucia Samour,

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jeto e me faz pensar que valeram a pena estes nove anos junto à comunidade, coletando amigos como nunca pensei possível. A todos que nos ajudaram, meu muito-obrigado, meu e de minha mulher (Lílian Viana), sempre incansável e a quem atribuo o sucesso desta festa. Obrigado aos amigos que tiveram sempre uma palavra de apoio e souberam me tirar dos momentos mais difíceis. Obrigado a todos que de uma forma ou de outra participaram do projeto. Obrigado a estes talentosos músicos, instrumentistas, cantores, dançarinos que emprestaram seu talento a fim de que esta festa possa estar acontecendo. Todos estarão sempre no mesmo coração e em minha memória. Muito obrigado, Cláudio Pereira. Claudinho faleceu poucos dias depois da festa beneficente. Após uma separação de cinco anos, os companheiros do antigo Florida Review se encontram no primeiro endereço do jornal: Mônica Mattedi Ramos, Antônio Carlos da Silva, Gerson Delano, Cláudio Casanova e Nivaldo Caires de Sousa.

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Marlene e Bob Garcia, o pintor paraense Albery, George Samour, Tony Samour, Cláudio Garcia.

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Maria Fernanda escreve sobre arte e publica foto do baiano Paulinho Correia (agora trabalhando para a Revista Plus) e Elio Cerullo do jornal Brazilian Post. Rejane Santos (esposa do policial Dudu) presente na Comdex de Miami Beach. O músico capixaba Paulo Gualano acaba de ser contratado pela Federal Express para fazer parte do “Fedex Orange Bowl”, junto ao cantor Jon Secada, no dia 2 de janeiro, no Pro Player Stadium, onde também se apresentou com a megastar Gloria Stefan, durante a comemoração da vitória dos Marlins. Gualano exibirá 12 de suas 50 fantasias de alto luxo durante a apresentação do consagrado cantor Jon Secada. O grupo de samba de Paulo estará se apresentando nas Bahamas no final do mês de janeiro e na Guatemala no princípio de março, levando para essas terras um pouco da cultura brasileira. No expediente do jornal Brazilian Sun: Antônio Carlos da Silva, Gerson Delano, Gina Martell, Dilma Lóes, Lucas Mendes, Adriana Corá, Léo da Rocha Ferreira, Maurício de Sousa. AS AGÊNCIAS DE TURISMO DA ÉPOCA: Agaxtur - ACC Tours - AIR Projects - Bancor Leaders in Travel - Brazilian Wave - Dumond Travel - Discover Brazil Tours - Euroamerica (Kfuri) - Fredson Travel Newport Tours - M.A. Travel - Magic Chartair - Mariana Tours - Meltur - MNK Charter - N Way Travel - Nelly World Travel - Optur - Stella Barros Tours - Stravaganza - Transmares Travel - Travel American - Travel Business Bureau - Tour Express - Via Brazil Tour - Volnix Travel. RESTAURANTES BRASILEIROS - Camila’s - Double & Russo - Flossy’s - Ipanema Grill - Las Palmas - Manhattan Cafe & Market Miami Beach Place - Ponto de Encontro - Porcão - Professional Foods - Steakmasters - Unibras. JORNAIS DE MIAMI - Brazil Review - Feijão com Arroz - Florida Review - The Brazilian Post - The Brazilian Sun. REVISTAS - Brazil Magazine - Comunidade - InterPlus - Miami Alegria News.


PROGRAMAS DE TELEVISÃO - Aqui Brasil - Arquivos Raros Bom Dia Miami - Brazil Onze e Meia -. Sounds of Brazil - Planeta Flórida - VIP Brazil Television.

BRAZILIAN BOOKS - Maria do Carmo Fúlfaro e Birigui criam a livraria virtual www.brazilianbooks.com. É uma página na internet que apresenta os últimos lançamentos de livros em português, com a facilidade de melhor preço e a comodidade da pronta entrega. O livro “O Menino Maluquinho”, de Ziraldo, por exemplo, custava somente nove dólares. O endereço é: www.brazilianbooks.com Além do Brazilian Books, Maria do Carmo apresenta o programa de TV “Avenida Brasil”. O programa vai ao ar à meia-noite e meia de terça-feira na WLRN. O piloto Hélio Castro Neves é o entrevistado da semana e, entre outros assuntos interessantes do automobilismo, dá uma receita de pizza de banana (que diz ter copiado da própria Maria do Carmo): PIZZA DE BANANA - Depois da massa pronta, corta-se as bananas em fatias, mistura-se açúcar, canela e queijo muzzarela. Depois de tudo misturado põe no forno pré-aquecido a 350 graus. Fica uma delícia. Antônio Martins, da ACM Productions, nos informa que o grupo TERRASAMBA já vendeu mais de três milhões de cópias no Brasil. Ainda pouco conhecido pelos imigrantes mais antigos, o grupo baiano irá se apresentar pela primeira vez em Miami no próximo dia 3 de setembro, no James Knight Center (atrás do Hotel Hyatt). Os ingressos variam de 25 a 35 dólares. CÉSAR SANTANA – O excelente violonista César Santana, que vem de uma turnê pela Espanha, Itália e Portugal, se apresenta todas as quartas-feiras no restaurante Picanha’s Grille, situado no n° 13750 da Biscayne. O show, marcado para as 20 horas, sempre é esticado até à meia-noite. A promotora de eventos, Valéria Trauer, conseguiu modificar a arquitetura da casa possibilitando aos presentes a chance de dançar junto. O “dançar junto” é aquela coisa do Brasil, rosto colado, MPB, começo de namoro, o choro no ombro de corações partidos e otras cositas mas que ficam na imaginação. Paulo e Edson Milto, proprietários da casa, dizem que “além da excelente música, ainda se pode provar uma picanha com sabor de picanha”.

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PROGRAMAS DE RÁDIO - Chora Viola.

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No dia 19 de janeiro de 1998, a CBS iniciou na televisão de Miami a sua programação diária em português (inédito nos Estados Unidos) tendo como âncoras Leila Cordeiro e Eliakim Araújo.

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Aniversários de Bob Garcia e Paulo Gualano (24 de janeiro), Joe Menezes (30 de janeiro), Nicolas Soares (31 de janeiro), Oliver Boumeni (14 de fevereiro), Julia Duba (21 de fevereiro). No Festival que apresentou a comida mineira em Miami, preparada por Cantídio e Edmundo Lanna, do “Chico Mineiro” de BH, registramos, além de Marcelo Sabino (sobrinho de Fernando), que declarou ser freqüentador assíduo do restaurante, João Pereira, Juliana Mares Guia, Marcos Mares Guia, Gilberto Neves, Paulo (Popola) Mata Machado, Dagmar Machado, Sérgio Botinha, Lílian Viana, Jorge e Denise Vianna. Na coluna de Gerson Delano, o réveillon de Regine Choukron (Regine’s) com Tara Solomon (a rainha da noite de South Beach) e ainda uma promoção da agência de Rosália Galdi (Transmares) levando o primeiro grupo de socialites de Miami para a Turquia. No Porcão a recepção de Sérgio Martinelli Campos apresentando o novo bar, com a presença de Moacir Ferronato (gerente-geral do Porcão), Marcelo Lederman, Ralph Monteleone, Salomão Júnior, Luís Azambuja, Marilena Borghini, Lineu Vitale, George Halas, Teresa Leme, Luís Gozzoli, Rafael de La Lastra, Maria Teresa, Teca Pedrosa, Sérgio Pires, e a música de Tonia Elizabeth, Saulo Ferreira (pianista filho de Darlene Glória), Sérgio Alvarez (sax) e Jorge Albuquerque (baixo). Bruno Borghini (ex-Varig) agora é responsável pela agência de turismo Air Projects em Miami. Albery faz a sua terceira exposição individual em Key Biscayne, Mônica Mattedi Ramos envia a sua coluna sobre turismo no Brasil, e Maria Fernanda é a editora de arte. Nos dois primeiros festivais do cinema brasileiro de Miami tive o privilégio de ser o host (apresentador) oficial. Adriana Dutra começa com a irmã Claudinha Dutra e a arquiteta Viviane Spinelli uma nova etapa no roteiro cultural brasileiro da Flórida. Carlos Henrique Garção, Elio Cerullo e Marcelo Pepe criam o jornal The Independent.


Cláudio Ribeiro era um carioca, filho de amazonenses (ex-cunhado do saudoso Redi), que absolutamente era o inverso de qualquer imigrante brasileiro da Flórida. Nunca pensava em si próprio e vivia para ajudar os amigos, sempre viajando na maionese dos mais sonhadores. Em Miami, detonou mais de um milhão de dólares em pouco menos de dois anos. De importador de pedras semipreciosas passou a importador de camarão. Logo depois teve a idéia de vender fogões de duas bocas (do Brasil) para o Haiti. A cada ano Claudinho criava uma idéia nova, até mudar para o Brasil e construir a sua sonhada pousada em Arraial da Ajuda. CINEASTA BRASILEIRO – Ary Rogério Silva, responsável pelo Departamento de Vídeos e Documentários da OMS (Organização Mundial da Saúde), em Washington, foi aceito para fazer o seu mestrado na American University School of Communications. O “Master’s Degree” em filme e vídeo com certeza vai projetar muito em breve mais um nome brasileiro em Holywood. Os amigos de Miami enviam saudações e parabéns a Ary Rogério Silva. Do Rio de Janeiro, a jornalista Solange Vasconcelos (minha afilhada) envia suas matérias, e o jornalista/tradutor Francisco Pelúcio envia de Brasília a sua colaboração. A cantora Martha Raulim é entrevistada e a coluna de Pery Ribeiro começa a fazer sucesso no jornal Brazilian Sun. Elyane Bechtinger volta a colaborar com seção de economia e negócios. Com abertura de show de Paulo Gualano, o cantor Alexandre Pires é apresentado à imprensa americana, com presença de Emilio e Glória Stefan e o nosso antigo representante do jornal Globo em Los Angeles, depois presidente da BMG Ariola, Luís Oscar Niemeyer. Nas duas páginas centrais criamos uma seção de fotos com duas tribos distintas que batizamos de Zabumba e Tupirumba. Entre alguns nomes: Mordelaine Altamonte, Luís Ernesto Gozzoli, Júlio Queirós, Júlia Antonieta e Luiz Gozzoli (pai), José Otávio Cruz, Luiz Freitas, Glauco Santos (Gerente da Vasp), Reiner Pessoa (Dolphin), Erika Costa (Brazilian Wave), Waldir Coelho (Boca Maldita), Eliane Learn (Bureau Travel), Délia Campos (Brazilian Wave Tours), Sérgio Bosi (TBS), o pianista Saulo Ferreira “Monk”, José Cláudio Ribeiro, Yara Furacão, Carlinhos Zigelmeyer, Ricardo Mayo, Jadiel Pires (proprietário do Porcão),

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O Brazilian Sun parou por um tempo. Voltei a dirigir táxi. Em maio de 1999 o jornal volta a ser editado com o apoio de Cláudio Ribeiro e depois Sérgio Bosi. Passou a ter mais cores e mais colaboradores.

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Lineu Vitale (publicitário), a cantora lírica Ariadna Moreira, Sideney Zabeu (preparador físico do Miami Fusion), Paulo Cavalcanti, o Pajé George Halas, Gerson Delano, João Pereira, Ivo Wortmann (treinador do Miami Fusion), Orlando Veronezi (Gerente do Bar do Porcão), a corredora de Indy Light Suzane Carvalho, Robert Kravitz, José Augusto Pereira Nunes (corretor de imóveis), Gaspar da Cunha (pintor), Zelmar Couto, Divina Lúcia (marchand), Leiko (cabeleireira), Roseanne Riggenbach, Glauco de Paula Santos (gerente da Vasp), Manuel Fernandes, Dalton Fonseca (escultor) o cartunista Redi, o piloto William Peetz, Simone Sotelo, Antônio Nina, Mestre Caboquinho, Regina Bittencourt, Erica Norimar (cantora), Lígia Bruno Lobo, Fábio Rushell (proprietário da churrascaria Bossa Nova - antigo Steak Masters), Edson Lamardo com a ex-Miss Venezuela, Paulo Gualano e José Kfuri. No restaurante Steak Masters, de Julinho Queiroz, foi criado, com o apoio cultural do Consulado Geral do Brasil em Miami e organizado pelo Centro Cultural Brasil - USA da Flórida, o Botequim Musical, com a participação de Sérgio Álvares na flauta, Bill Tuba no cavaquinho, Victor Souto no bandolim, Didado e Saulo Ferreira no violão, Nóbrega nas sete cordas e Felipe Souto na percussão. Em maio de 1999 o amigo José Perlingeiro envia do Brasil carta saudosa aos amigos de Miami. Perlingeiro foi durante muitos anos produtor/diretor do programa “Almoço com as Estrelas”, do seu irmão Aerton Perlingeiro. Viveu na Flórida alguns anos, foi proprietário de jornal, de restaurante e deixou grandes amigos. Leila Luna volta com sua coluna “Curtindo New York”. Em página inteira, fotos do aniversário do amigo Joãozinho Pereira recebendo Margareth Ferreira (filha de Ed Ferreira), Giuseppe Fallica, Neida Soares, Ludmilla e mais de 80 mulheres... João, que esteve presente ao festival de Woodstock em 1969, é em Miami o brasileiro responsável pela construção do News Cafe, News Room, Florida Review Newspaper, Steak Masters, Porcão, Jazzid, Van Dome, Cafe Manhattan, Miami Beach Place, Camila’s de Orlando e ainda reformas nos apartamentos de Gugu Cruz, Bruno Borghini, Emerson Fittipaldi, Luís Gozzoli e centenas de outros. E Francisco Rodrigues (Papai Noel) apresenta, em pequena matéria, fotos de seus maravilhosos filhos no Brasil. O pintor Albery conquista a cidade de Miami. É entrevistado pelo


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Os patrícios (todos) Moisés Fuks, Ethel (Pinto) Presser, Rony Ambar e Pablo Rosemberg no congresso da ABAV.

Paulo Roberto e Marco Varella Alliz no meio de uma viagem para New York.

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O sensual Manuel Briote (Camila’s) e Waleska, a Rainha da Fossa em Orlando.

À direita vemos (na International Drive) Juju Sandreschi, ex-miss Orlando, a menininha que aos 5 anos viveu na cidade de Paracuru, no Ceará.

Regina Gualano, Moisés Fuks, Lilian Viana e Claudinho Pereira, em Orlando na Flórida.

Chico Moura, Flavio Almeida, Claudio Pereira, Eraldo Manes e o jornalista carioca Moisés Fuks.


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O ex-presidente Fernando Collor, após palestra em Miami, cumprimenta o santista Waldir Coelho.

O jornalista Idílio Gomes (falecido), Ministro Luis Fernando Benedine, George Halas (falecido) o jornalista Arnon Dantas e o jornalista Antonio Tozzi.

Na cidade de Orlando a prefeitura pintou os transportes urbanos com imagens do Rio de Janeiro em retribuição a enorme quantidade de turistas brasileiros.

O lançamento do livro “Villa Ipanema”, do jornalista Mário Peixoto (de óculos), o primeiro livro de que fiz parte.

Luis Barbosa, Chico Moura, Carlos Martins e o saudoso Claudinho Pereira.

Com Gilson de Paula no desfile da Acadêmicos da Rocinha.


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O maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, em foto de JosĂŠ Martins, deu entrevista exclusiva ao primeiro nĂşmero do jornal Rio Times.


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O advogado carioca Alfredo Bumachar entrevistado pelo jornal. Chico Moura recebendo o Troféu Brasil em Miami.

O Professor de inglês Enio Borghini em Orlando.

Pela primeira vez na história, a criação de caixinhas de jornais no Brasil (newstand).

Chico Moura criando o Alô Brasil, o primeiro programa de rádio em português na cidade de Orlando.

Cristina, Chico e Marcella recebendo em Orlando o advogado carioca Nelson Santos, a filha Gabriela e a esposa Dana em direção ao Alasca.


Maria do Carmo Fulfaro continua com o programa de TV “Avenida Brasil”, com Bia Duarte, Maria Eudóxia Mellão, Ana Lucia Leite, Samantha Ratton e Claudia Riviere. Manuel Briote, proprietário do restaurante Camila’s, anuncia mudança para o Brasil. Vai ficar na ponte aérea. E entre as tribos dos Zabumba e Tupirumba: Renata Funaro, Ricardo Mayo, Sharon Lima, Neri Franzon (médico), Ana Carolina (modelo), Rodolfo Canhedo (VP da Vasp), Rafael de La Lastra (cabeleireiro), Manfredo Fest (músico), Betty Faria, Marcela Lazaro, Célia e Guilhermo Valencia (Silvio Driving School), Paulo Figueiredo e Carolina Sanchez, Liberato, Vera (Verão) Brandão, Adriana Dutra com Maitê Proença, Clarissa Lippi e Cristiane Boumeni, Priscila e Luciano Lentz, Allan Maquieira, Marcelo Netto, Alessandra Jalles (Miss Brasil), Zigomar Vuelma (jornal Gazeta Brazilian News), Zeca Ferraz, Oscar de Barros, Adriana Sabino (Centro Cultural Brasil - Estados Unidos), Marcelo Sabino (bancário), Indiara Andion, Carla Vissi (cantora do Cheiro de Amor), Patrícia Veloso, Maria Wei e Márcio Yoshida (Chang Express Travel), Léo Bellot, Astrid Yepez (Nena), Alexandre Stry, Vanessa Bellot, Priscila Gonçalves, Edna Mayo, Moisés Borges (músico), Andrea Borges, Ann Helen Wainer, Ellen Saraiva, Cláudia Heimes, Marcelo Leone, Hello Sousa Ramos, Rosaly Knobel, a filha Heather, Paulo Knobel, (Manhattan Deli), Cláudia Rushell, Fábio Rushell (churrascaria Bossa Nova), Iara Watlington (executiva da MTV Network), Don Moore (Echobridge), Jackie Gaspar (jornalista independente), Diana Vieira, Neuza Moura, Barbara Jacquemin (La Fiorentina), Dayse e Jackson Coutinho (Ponto de Encontro), Alex Trindade (pianista), Rejane da Silva, Francisco Ricarti, Valnei e Beth Santos (All Brazilian Imports), Fernanda Naves, Mirna Aguiar. E Adriana Corá envia, de Washington, matéria sobre o Memorial Day. Marcelo Pepe fazendo sucesso com o seu Fax letter diário. Planeta News e Victor Fuks (primo do jornalista Moisés Fuks) enriquecendo em Miami com a venda de peixes tropicais do Brasil para o mundo.

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nosso jornal e pinta o corpo nu de Ana Carolina da Fonseca, em Luau organizado por Valéria Trauer. Vânia e Bill Williamson anunciando a chegada da netinha Gabriella Rocha. O designer de jóias Candinho (Cândido de Souza) é também músico, já tendo gravado com Erasmo Carlos e Lulu Santos.

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JULHO DE 1999

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O turismo na cidade de Miami praticamente acabou em 1999. Mas, em contrapartida, existiam pelo menos 26 restaurantes brasileiros: Barroco - Bossa Nova Steak House - Brasileiríssimo - Brasserie - Café Palheta - Camila’s - Ciao Bella - Fiorentina - Flocos Caffe - Giovana - Old Lisbon - Las Palmas - Manhattan Cafe & Market - Mezzo Mezzo - Miami Beach Place - Minas Deli Restaurant - Picanha na Brasa - Picanha’s Grille - Ponto de Encontro - Porcão - Professional Foods - Tasca Lisboa - That Old Time Pizza - Tropicalia Pastel - Tutto Pasta - Via Brazil. E em matéria com o título de TURISTA BRASILEIRO JÁ FOI O MAIS RICO DA FLÓRIDA, no mês de julho de 1999, fiz uma retrospectiva dos ANOS DOURADOS. Um estudo da Taubman Center (responsável pelo desenvolvimento dos Shopping Centers americanos) e do Departamento de Comércio dos Estados Unidos revelou que a renda anual dos turistas brasileiros era de 94 mil dólares. Parece incrível, mas esta renda familiar era superior à dos japoneses, alemães e ingleses. Mais de 75% dos entrevistados brasileiros declararam ocupar posições de gerentes executivos ou técnicos profissionais. A pesquisa revelou algumas diferenças entre os turistas brasileiros e a média dos outros países. Por exemplo: nos últimos cinco anos, nossos conterrâneos mostraram uma média de 7.2 visitas ao continente norte-americano. Em segundo lugar (ainda de acordo com esta pesquisa), registrou-se o turista inglês, com uma média de 5.6 visitas. Os brasileiros gastavam uma média de 58 dólares por dia comprando as últimas novidades: presentes, souvenirs e eletrônicos. Como os japoneses, nove entre dez brasileiros se hospedavam em hotéis ou motéis. A maioria dos ingleses e alemães se hospedam em casas de amigos e particulares. Com todos estes dados, como pode existir esta crise no centro de Miami e mais especificamente no mercado de brasileiros? Estes números eram verdadeiros até janeiro deste ano [1999]. Nos últimos seis meses a história mudou. Durante muitos anos os comerciantes de downtown (Miami) investiram a sua verba de publicidade junto aos meios de comunicação do norte do país. Miami era um balneário americano que recebia os turistas de New York, Chicago, Detroit e outras regiões do norte. O comércio, forte e estável, era voltado para este público. O americano (sempre exigente) demorava muito para comprar um radinho de pilha, uma toalha de banho, um cartão-postal ou uma camiseta estampando o nome MIAMI. Demorava, mas era constante.


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Um dia, apareceram os mexicanos, ávidos por novos produtos. Depois vieram os colombianos, argentinos e venezuelanos. Chegavam na Flagler Street (a principal rua do centro de Miami) e compravam de quantidade. Quero 10 calças Lee, 20 isqueiros Zippo, 30 canetas Cross ou Parker e 5 rádios de pilha. Com esta invasão, os comerciantes esqueceram do mercado americano (do norte) e voltaram as suas verbas para a mídia latina. Anúncios nos jornais: Clarín de Buenos Aires, El Espectador da Colômbia, El Mercurio da Venezuela, El Economista do México e finalmente, Jornal do Brasil, Folha, Estadão e O Globo, do Brasil. Eram páginas e páginas de cadernos especiais. Anúncios das Secretarias de Turismo de Miami, Miami Beach, hotéis, restaurantes e finalmente a criação das lojas de brasileiros. No caderno de turismo do jornal O Globo lia-se: “MIAMI PARAÍSO DE COMPRAS”, “BRASILEIROS INVADEM MIAMI”, “GUIA DE COMPRAS PARA O TURISTA BRASILEIRO” e assim sucessivamente. Como parte da história, em economias instáveis, os petrodólares venezuelanos evaporaram, os colombianos foram boicotados, os mexicanos passaram a viver uma economia completamente insegura. E os brasileiros? Vieram com tudo. Downtown parecia um formigueiro verde e amarelo. O centro da cidade vivia num eterno clima de Copa do Mundo. Uma loja como a Victor’s (por exemplo) faturava numa temporada de julho, com a de 1986/87, em torno de cinco milhões de dólares. Em frente à Kalu Place, três carrocinhas de cachorro-quente, ônibus da Monark, Soletur, Stella Barros, Kontik, Dimensão, Hotur, Bel-Air e centenas de outros. Que outro negócio poderia ser mais rentável? A partir daí, com a fama deste eldorado brasileiro que existiu no final dos anos 80, mais de 100 mil brasileiros emigraram para o sul da Flórida. Nos últimos dez anos (repito), 100 mil brasileiros invadiram esta região. Com a chegada da Internet, com o plano do governo brasileiro em fomentar o turismo interno e finalmente a desvalorização cambial (janeiro de 99), a coisa mudou de figura. Quase todas as lojas fecharam as suas portas. Os mais antigos, já acostumados a outras crises, previram esta quebradeira. Trataram de vender as suas lojas e mudaram de profissão: Edson Lamardo, da loja Alô Brasil, mudou para o ramo de construção civil; o Abel da Abel Eletronics mudou-se para Portugal e abriu restaurante; Daniel Garcia da Kalu Place entrou para o turismo; Luís Cláudio Ferraz desmembrou a maior loja de departamentos da cidade (Amec Center) e voltou para uma consultoria internacional. Tony Moura vendeu a Carol Shop, virou dono de revista e logo depois se mudou para o Brasil - O Roberto da Unibrás fechou. Marcio Rocha também acabou a sua loja. Domingos Trofino deu um fim ao seu império (Compubras) e vive no eixo Paraguai – Brasil; Daniel da Brasusa fechou, e a loja do Ratinho (aquele da TV brasileira) o Gatinho comeu.

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E as notícias (1999) da época: a partir de agora é oficial o lançamento, em todos os Estados Unidos, da programação da REDE GLOBO INTERNACIONAL DE TELEVISÃO. A TV Globo Internacional iria mudar todo o comportamento das diferentes comunidades de brasileiros nos Estados Unidos.

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BRAZILIAN PACIFIC TIMES - Ainda em 1999, acusamos o recebimento do primeiro número do jornal “Brazilian Pacific Times”, de San Diego, Califórnia: “Sob a direção de Jaroslav Pribyl, o novo jornal mostra em seu editorial uma frase que muito me toca, pois faz lembrar quando iniciei o primeiro jornal brasileiro da Flórida”. De San Diego, Yaro respondeu com a nota: A melhor forma de prever o futuro é criá-lo, e é num clima de entusiasmo e otimismo que nasce o “Brazilian Pacific Times”. Filho de pai tcheco e mãe baiana, Yaro tem pela frente um longo caminho. Vai contratar pessoas, elas vão aprender, vão dar continuidade ao seu trabalho pioneiro. Vão criar outros veículos e, tenho certeza, ele ficará feliz com os filhotes. Os amigos da costa leste enviam a toda a equipe do BPT os mais sinceros votos de sucesso e continuidade... Eduardo Borracha, trabalhando na Gradual Remittance, é o entrevistado do mês, sob o título A VISÃO DO SAMBA EM MIAMI. Em julho de 1999 existiam na cidade de Miami nove programas de televisão em português: Aqui Brasil - Programa de entrevistas com Hello Souza Ramos e Álvaro de Sá Avenida Brasil - Revista eletrônica de cultura serviços e lazer canal 17 WLRN BR 2 - Programa de variedades, cobertura de eventos e reportagens - WLRN canal 36 CBS Telenotícias - Diariamente às 18h30 e às 21h30 no canal CBS - Notícias do Brasil e do Mundo, com equipe de profissionais da televisão Marcos César Show - WLRN canal 36 Sounds of Brazil - WLRN - 36. Toque de vida - WLRN - 36, às 22 h Planeta Flórida - WLRN – 36, com os agitos de Terezinha Sodré This is Football - Com Marcos César, à meia-noite de quinta-feira, no canal 17 (WLRN)


ADEUS A DOM HÉLDER - Outro dia eu conversava com meu amigo Marco Varella sobre as disparidades do nosso Brasil. Como pode um país tão rico – e tão... como diz o Jorge Bem, “abençoado por Deus e bonito por natureza” - ser ao mesmo tempo tão esquecido e tão mal projetado no cenário internacional? Não temos nem um Santo reconhecido pelo Vaticano. Em alguns países como a Polônia ou Iugoslávia, registramos dezenas e até centenas de Santos canonizados pela igreja católica. No Brasil: zero. Temos, é bem verdade, os nossos super-heróis, aqueles que aparecem de repente, do meio do nada: Guga, Airton Senna, Pixinguinha, Cartola, Tom, Vinicius, Fittipaldi, João do Pulo, Jorge Amado. Com discretas manchetes internacionais, uma vitória do tenista Guga na TV americana é papo para um ou dois minutos – no máximo. Voltando à conversa com o meu amigo Varella, ele me repetia, “sabe que nunca recebemos um prêmio Nobel?” Aí lembrei do primo de meu pai que foi uma vez indicado para ganhar o Nobel da Paz. Lógico que não ganhou. Um homem com idéias comunistas (?), defensor dos pobres e oprimidos, odiado pelos militares e que criou uma cisão no Vaticano, jamais poderia ganhar um prêmio Nobel. No Brasil, defender os pobres é sinônimo de comunista. O fato é que, nesta vida, muitas lembranças ainda vou levar de meu primo querido, Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, que faleceu em Olinda no último dia 27 de agosto. O meu pai, seis anos mais novo que Dom Hélder, passou muitas histórias dos primos Gilberto, Eduardo, Mardônio e Nair. Dom Hélder Câmara dedicou 68 anos de sua vida à luta contra as injustiças sociais. Na adolescência andou por caminhos errados e disse: “É bom que a gente erre porque aprende a ter um pouco mais de paciência com os erros dos outros”. Nascido em Fortaleza em 1909, transfere-se para o Rio de Janeiro em 1936, quando dirige programas educacionais da prefeitura do então Distrito Federal. Entre 46 e 62 é assistente nacional da Ação Católica, dedicada à atuação pastoral da população carente. Em 1952 é nomeado bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Sob sua influência, a CNBB, fundada em 1952, muda os rumos e o estilo da Igreja Católica do Brasil. Em 1956, funda a Cruzada São Sebastião, no Rio de Janeiro, destinada a dar atendimento aos problemas dos favelados.

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Na edição de setembro de 99, a matéria:

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Em 1959, no Rio de Janeiro, funda o Banco da Providência, cuja atuação se desenvolve especificamente na faixa da miséria. Em 1964 é nomeado Arcebispo de Olinda e Recife. Em 1970 denuncia na França a tortura de presos políticos brasileiros. No plano internacional, teve projeção devido à sua diferenciada atuação. De 1958 a 1966, é Delegado do Brasil e 2º Vice-Presidente do CELAM. Em 1968, é Delegado do Episcopado Brasileiro à 2ª Assembléia Geral do Episcopado Latino-Americano em Medellín, na Colômbia. Em 1979, é Delegado do Episcopado Brasileiro à 3ª Assembléia Geral do Episcopado Latino-Americano em Puebla, no México. Ainda no plano internacional, destaca-se pela sua atuação junto à Santa Sé: Membro do Conselho Supremo de Imigração; Membro da Comissão “para a disciplina do clero”, preparatória do Concílio Vaticano II; Padre Conciliar nas 4 sessões do Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965; Membro da Comissão Apostolado dos Leigos e Meios de Comunicação Social, em 1964; Delegado do Episcopado Brasileiro no 3º Sínodo dos Bispos, em 1974. Foi o único brasileiro indicado para receber o prêmio Nobel da Paz! NOVO PROGRAMA DE RÁDIO - Em 1999, voltamos para a mesma emissora WCON – 1450 AM, desta vez quatro dias por semana (de segunda a quinta) com o nosso programa Alô Brasil – o mesmo nome daquele primeiro programa em português criado na cidade de Orlando. Num desses programas, recebemos a ligação da carioca Angélica de Souza, uma ex-moradora da Cruzada São Sebastião (antiga Praia do Pinto) no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Emocionada, cantou ao vivo o verso de uma música feita para Dom Hélder quando de sua chegada no aeroporto Santos Dumont: Obrigado Reverendo Deus lá no Céu está vendo a sua gratidão... Você fez apartamentos em lugar de barracão. A favela diz bem alto quem traz o morro pro asfalto traz o nosso coração! O programa Alô Brasil entrevistou muita gente ao vivo: Pery Ribeiro, o cartunista Redi, a corretora de imóveis Maria Shemesh. Do carro, liga para a estação o saudoso homem de turismo George Halas, com Valéria Trauer, indo para a festa de Independência no Hotel Biltmore. O atleta Romar Torres telefona falando da coincidência de seu acidente e o


No final de 1999 Ana e Antônio Martins realizam, no James Knight Center (Hotel Hyatt), o show do Terra Samba.

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de Tatiana Ribeiro. Ambos vítimas de motoristas irresponsáveis no Brasil, que os levaram para cadeiras de rodas. “Nos dois acidentes, as pessoas dirigiam embriagadas e na contramão. Eu ia fazer uma competição de Jiu-Jitsu. Estava atrás e não usava o cinto de segurança. Se estivesse usando isto não aconteceria...” O baiano Carlinhos Brown (direto do Brasil), o economista Léo da Rocha Ferreira, o paulista Elio Cerullo, o radialista Milton Neves (de São Paulo), a cantora Rose Max, todos foram entrevistados. Os comerciais do Hotel Paradise Inn (Roberto Bechtinger), Euroamerica (KFuri), Miami Alegria News (Carlos Martins), Bossa Nova Steak House (Fábio Ruschell e Cláudia Ruschell), Sylvio Driving School (Guilhermo Valencia), eram todos criados e apresentados (com a voz) por cada um destes clientes. O programa apresentou, pela primeira vez nos Estados Unidos, a gravação da histórica criação do Samba, com narração de Ramos Calhelha. E de New York recebemos a chamada do Vereador Arnaldo Carrera, o primeiro brasileiro eleito pelo voto direto nos Estados Unidos (vice-prefeito de Belleview, uma cidade de New Jersey), que por acaso ligou 20 anos depois – agradecendo o nosso encontro. E no bate-bola: — Qual o seu objetivo político? — O próximo passo seria concorrer para deputado estadual, que aqui nos Estados Unidos seria State Assembly ou State Senator. O problema aqui é que concorrer para um cargo político destes requer muita grana. Eu teria que, de cara, angariar uns 250 mil dólares para o início desta campanha. A lei é muito restrita - só poderia receber 1.500 dólares por empresa e 750 dólares por indivíduo. — O mundo dá muitas voltas e é cheio de surpresas. Eu te conheci em 1975 e em 1980 nos reencontramos na área financeira. — Chico, eu quero te agradecer publicamente através do seu programa de rádio, porque foi através de você que entrei no Manufacturers Hannover Bank de New York. O programa de rádio, assim como o nosso programa de TV, não tinha um script, uma programação predefinida. E o nosso jornal continuava a ser publicado em Miami, concorrendo com os bem-sucedidos de Fort Lauderdale e Pompano Beach. Na edição de julho de 1999, é publicada uma das primeiras matérias sobre a Amazônia (do jornalista Francisco Pelúcio), que me fez despertar o desejo de viajar pelo verdadeiro Brasil.

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Manuel Briote, do Camila’s, faz feijoada para o Clube do Feijão Amigo, com mais de 400 convidados, no Sheraton Bal Harbour. Entre alguns, registramos: Pedro Mattos (Gerente de Vendas da Transbrasil), Rene Lopes Couto (Diretor do Newport Beachside), Ana Barros (Diretora do Orlando Entertains), Luiz David Azambuja (vice-presidente do Lloyds Bank), Nara Ravani (Best Western de Orlando), Estela Gomes (Kontak - Miami), Marcelo Mattos da TTI, Jessie Colondres do Planet Hollywood, Gilson Monteiro do jornal O Globo, Ana Gonzalez e Andrés Cibotti do Pirate’s de Orlando, o pintor Albery, Tony Lima da Bancor, Joe Menezes da Via Brasil, Fred Santos da Fredson, Marcelo Lederman e uma infinidade de pessoas ligadas ao trade turístico do Brasil. Fred Santos chegou em New York no início dos anos 70 e, após trabalhar na BAS - Brazilian American Society - de Benito Romero, criou com o Plínio a BASBRASIL. Em Miami nos confidencia que a maior agência da época foi sem dúvida a Triple R de Gilton Raymundo. A segunda, a BasBrasil e mais tarde, a BACC de João e Chico de Matos. Já em Miami, Fred chama o ex-gerente da BASBRASIL, o Edson, para ser o seu sócio na FREDSON, uma agência com uma equipe altamente profissional. Logo depois do Terra Samba, o show de Cesária Evora, com uma matéria do ítalo-brasileiro-americano Sérgio Bosi. A partir desta data as histórias se repetiriam, os mesmos shows, as mesmas buscas de patrocínio, os mesmos cocktails... Os jornais Brazilian Paper (Tânia e Marcos César), Achei USA (Jorge Nunes) e Gazeta Brazilian News, do amigo Zigomar Vuelma, continuavam a fazer sucesso na região norte de Miami: Pompano, Fort Lauderdale e Deerfield Beach. O pintor carioca Pedro Lázaro, o verdadeiro artista plástico (brasileiro) de Miami, ganhou prêmio do Latin American Museum, com um quadro sobre a PAZ – Outro vitorioso foi o escritor gaúcho, Paulo Tedesco, que escreveu um poema contra a guerra. De formação socialista, Paulo colaborou durante algum tempo para os jornais Gazeta e Brazilian Paper. O gaúcho, sem medo de censura, por diversas vezes sentou o pau no governo americano. A matéria do Francisco Pelúcio começa a fazer efeito em minha cabeça. Como pode existir um lugar no mundo com média de um a três habitantes por quilômetro quadrado? Se é verdade, é para lá que eu vou, para a Amazônia. As festas, as pessoas, começavam a me perturbar. De saco cheio, começo a não parar mais em lugar nenhum. Esta busca incansável da felicidade, da aventura. O casamento se repetindo, a profissão morrendo. A única alegria era a filha, que já começava a nadar muito e a tirar boas notas. Sempre lembrava dos versinhos de meu


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ex-cunhado, o músico Otoniel (Gaúcho) Gonçalves de Sousa: Amou demais, perdeu a paz; viveu demais, perdeu a paz. Lembrava de minha avó, Dona Mocinha, que sempre dizia: — Meu filho, pedra que rola muito não cria limo. E eu respondia: — Para poder brilhar, as pedras têm que rolar. O limo só serve para dar comida aos peixes. Já não sabia o que era a verdade. Se era melhor criar limo ou brilhar. Para brilhar era preciso existir aquele saco. E de novo a frase que me perseguia: O SEGREDO DO SUCESSO É O TAMANHO DO SACO. Naquela época notei também que começavam as piratarias das idéias, das filosofias, textos plagiados de nomes famosos. Como um que recebi de Fernando Pessoa, dizendo que os e-mails que ele recebia eram assim ou assado. A internet trouxe uma velocidade cultural incrivelmente rápida para as nossas cabeças. As mentes mais loucas, então, começavam a imaginar coisas e a repassar textos dos mais absurdos. O Veríssimo e o Arnaldo Jabor cansaram de agradecer por textos escritos por eles – um deles confessou até que o texto era tão bom que ele queria parabenizar o autor. O amigo e já então sócio do jornal Sérgio Bosi cada vez mais interessado nas artes e nas matérias, agradecia por eu ter participado em sua mudança de vida. Não sei se para melhor ou pior. O fato é que ele sentia grande felicidade em “fazer” o jornal. Ele também, de saco cheio dos 40 anos que viveu na América, repetia todos os dias: tenho que voltar ao Brasil... preciso ir embora. O mundo está muito rápido para a gente. A confusão era total. Anos mais tarde, o amigo Luís Ernesto Gozzoli comenta que estava lendo um livro de Gabriel García Márquez cujo tema principal era a verdade sobre a vida. A mentira sobre a vida é aquela vida que a gente conta, não a vida que é vivida. E a minha? Como era a minha vida? A Amazônia começava a me chamar. O verdadeiro Brasil. Descobrir alguma coisa que estava por lá. Pensava em Platão, que admitia a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis, eternas, e o mundo das aparências sensíveis, mutáveis; Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade, mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia, ou mais exatamente, uma sombra. As notícias locais no jornal Brazilian Sun não podiam parar. Em outubro de 99 a procissão de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, a Padroeira do Brasil, com a presença do Bispo de Fortaleza, Aldo Di Cillio Pagotto. Na Igreja de Kendall, Luís Carlos Correia (Mudanças Confiança) me chama para ajudar na missa celebrada pelo Bispo, e na Igreja de St. Joseph, em Miami Beach, a procissão com mais de 200 fiéis brasileiros e ainda com a presença do Padre Carlos Anklan, Embaixador Luís Be-

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nedine, Padre Elias Guimarães, Fátima Almeida (organizadora da paróquia), Padre Bennet e os cearenses Alfredo Abreu, Carminha Cruz, Luís Pretestato e Waléria Furtado. Em matéria de Pery Ribeiro, registramos a triste despedida ao amigo músico Manfredo Fest. Um trecho da matéria:

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Perder tem um significado excessivamente terreno, sem a dignidade que um momento de dor deveria ter, quando alguém querido parte. Eu sei que a dor nos maltrata numa dimensão muito forte e esta dor enorme percorre todo o nosso sentimento, nossas lembranças, nossa saudade e nossos aspectos interiores se transformam em aspectos cinzentos, perdem totalmente a cor. É como se a dor trouxesse uma chuva negra para a nossa saudade. Este silêncio que toma conta da nossa dor é solene, lúgubre e muitas vezes desesperador. Eu cada vez mais, a cada amigo que “perco”, sinto nitidamente que meu tempo está indo junto com eles, que tudo o que foi vivido, saboreado e desfrutado, fez parte de um momento onde Deus nos aproximou e nos deu a grande presença de cada um deles, como presente a ser cultuado, admirado e regozijado para sempre. Como se fôssemos um time de futebol organizado por mãos sábias, para que disputássemos os grandes campeonatos da vida, jogando lado a lado, para vencer. Como o próprio Manfredo gostava de dizer: “Pery, nunca esqueça, Papai do Céu não joga, mas fiscaliza...” Poucos dias antes do falecimento de Manfredo Fest, viajei com o Pery para um show na cidade de Orlando com o próprio Pery, Manfredo, Mièle e outros. O segredo do sucesso é o tamanho do saco! Não me lembrava se realmente existia aquela frase ou se era mais uma piração. Sei que para mim a cidade de Miami estava perdendo o glamour. O tipo de brasileiro que chegava já não me interessava mais. A cidade (para mim) perdeu o encanto. Os momentos de glória, a pujança do turismo acabou. As lojas fecharam, os amigos foram se mudando. Um a um, via desaparecer toda uma geração de amigos que não encontravam mais trabalho. Lembrava de uma frase que escutara havia muitos anos: O MAL QUE VEMOS NA JUVENTUDE É QUE NÓS JÁ NÃO PERTENCEMOS A ELA. Será que eu estava ficando velho? E as ondas? As cervejadas? O futebol? A adrenalina no jornal? O mergulho? A pesca? O dinheiro fácil... As aventuras pelo mundo? Lógico que eu deveria ter a consciência de que a minha vida é que não acompanhou a mudança, e não a cidade que era ruim. O fluxo dos novos brasileiros que chegavam ia em direção a Pompano, Deerfield e Palm Beach. Deixei o jornal com o Sérgio Bosi e fui


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dirigir um táxi. Escrevi um livro, PASSAGEM DE TÁXI, e aí comecei a mudar de trabalhos. A cada dois, três meses trabalhava em coisas completamente diferentes. Na BVI traduzia filmes americanos para o Brasil, assim como especiais para a TV: 60 Minutes, 48 Hours (CBS). Ainda criei, com a ajuda do maravilhoso natalense Marcos Sá de Paula, um jornal com o nome de Siri News. Siri anda para trás, e eu inconscientemente estava andando para trás. No final do ano criei uma empresa de cestas de natal com produtos italianos e toda a produção foi vendida. Fui vendedor de carros e vendedor de mármores. Um dos poucos momentos de felicidade (para mim) naquele ano de 2001 (maio) em Miami foi o Quinto Festival de Cinema Brasileiro, que Adriana Dutra, Viviane Spinelli e Claudinha Dutra realizaram na cidade. Na festa do kick off, presentes: Adriana Sabino, Blanca Arce, Fernando Machado, Mônica Azambuja Alves, Neusa Israel, Isabela Oliveira, Lílian Fontes, Renato Camargo, Felipe Alves, Branca de Paula Braga, Carlos de Araújo, Tamara Pekelman, o eterno amigo João Pereira, o Prefeito Joe Carollo, Rony Curvello (na época candidato a vereador), Márcia Ribeiro (Consulado), Pauline Winick, Ana e Antônio Martins, Juarez Araújo, Dale Webb e Sol Schreaber. E em entrevista a Marcos Sá de Paula, Adriana Dutra (organizadora do festival) afirma uma estatística (na época) aterradora: “92% das cidades do Brasil não têm (não tinham) cinema. Desses 8% que sobram, 90% só passam filmes americanos”. Em 2001, a triste notícia do falecimento de George Halas, um dos mais ferrenhos patrocinadores da cultura brasileira no sul da Flórida. Acreditava na publicidade e participava de muitos eventos musicais. Deixou grandes amigos. Em Miami a artista piauiense Naza faz sucesso com seus quadros e expõe em diversas galerias no sul da Flórida. Naza a cada ano se especializa na confecção de suspiros e diz que o segredo está na casca do limão. Nos Estados Unidos, Naza aumenta a qualidade de seus suspiros, uma vez que os fornos são mais modernos e mais fáceis de controlar. No programa de TV que eu fazia, era atendido maravilhosamente bem pelo time da loja da Transbrasil em Miami: Norca D, Chris Miron e Vera Graeff. Na churrascaria Steak Masters (depois Bossa Nova), recebo de Fábio Ruschell (sobrinho de Alberto Ruschell) a triste notícia: a morte de Didamar Teresinha. A companheira de Portugal, a mulher que me enfeitiçou, que acabou o meu terceiro casamento, morreu. Dida faleceu com um edema de glote, uma tragédia. Muito choro na noite com o Claudinho Ribeiro, Valéria Trauer e o próprio Fabio Ruschell, esticando conosco até seis horas da manhã. O carioca Pedro Lázaro (pai de Marcella Lázaro), casado com Mirza, continuava a fazer sucesso com seus quadros e depois, como profes-

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sor de pintura. Tinha um irmão psiquiatra, outro irmão diretor da TV Globo e ainda um outro, vice-reitor da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pedro era um artista de verdade. Um homem de extraordinária memória e muita cultura, vivendo uma vida simples (como os grandes artistas de verdade), cheia de dificuldades e de problemas financeiros. Na minha casa, de todos os 32 quadros que ornamentavam as paredes, os mais elogiados eram com certeza as obras de Pedro Lázaro. E de Portugal recebemos convite da atriz Thais Campos e de nossa amiga Dalma Campos para passar réveillon na casa do titio Wolf Maia (irmão de Dalma) no Rio de Janeiro.

LUSO-BRASILEIRO, O SÉTIMO JORNAL Em setembro de 2001, Wenceslau Soares Aguiar Júnior me chama para passar uma semana em Portugal. Sua idéia era ele criar, com o Donald Sutton e o Armando Santoni, a primeira empresa brasileira de remittance do país. Donald tinha a experiência dos Estados Unidos – onde criou a primeira remittance da Flórida – e poderia implantar a primeira em Portugal. Como eu conhecia o gaúcho Aécio Ramos – amigo da Dida –, já então dono de uma revista em Lisboa, eu poderia paralelamente voltar com a idéia do jornal que havia iniciado com a Dida, na Costa da Caparica, em 1989. No dia 11 de setembro de 2001 estava almoçando em Setúbal, com o meu primo Alexandre Moura Cabral, quando na imagem da TV explode a primeira Torre. Ainda no restaurante levantei para ver mais de perto. A segunda Torre não deixava mais dúvidas: era um atentado terrorista. De cara pensei na minha filha estudando em Bay Harbour, num colégio com a maioria das crianças de origem judaica. Depois nos amigos Munir Helayel, Arnaldo Carrera, Benito Romero, Edilberto Mendes, Luís Gomes, João de Matos, o cinegrafista Orlando Moreira, Redi, Lucas Mendes, e nos milhares de brasileiros que viviam em Manhattan. O Munir tinha uma delicatessen ao lado do World Trade Center, em New York. Os cinegrafistas estariam por lá? Mil pensamentos. Liguei para minha mulher proibindo minha filha de voltar para a escola. Proibir é uma palavra pesada. Mas na crise, na emergência, no sufoco, funciona. Ainda esperei alguns dias para poder voltar. Uma coisa simples como um atentado terrorista (em comparação aos horrores das duas grandes guerras), a sensação de estar na Europa sem poder confirmar vôo, sem condição de voltar, aquilo me chamou a atenção de como seria nos tempos de qualquer outra guerra. Não era um filme, era real. As companhias aéreas sugeriam uma chegada ao aeroporto cinco horas antes do vôo. A fila única (do lado de fora do aeroporto) formava


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um desenho tortuoso por alguns quilômetros de extensão. Na conexão em Londres foram mais cinco horas de revista. Não me lembro em toda a minha vida de ter feito uma viagem assim longa. Nem quando fui ao Japão e Coréia passei tão longas horas em trânsito. De volta a Miami resolvi mudar – de novo – para Portugal. Eu iria na frente e depois – quem sabe – a mulher e a filha poderiam se interessar. Foi aí que surgiu o Luso-Brasileiro, o sétimo jornal que eu criava. Uma das principais matérias era a entrevista com Manuel Briote, um português que deu certo nos Estados Unidos, e ainda um interessante roteiro dos vinhedos de Portugal. Cheguei de volta a Lisboa no começo de 2002. Com 100 dólares no bolso, fui para a casa do Wenceslau Soares, um apartamento que o nosso amigo Aécio havia conseguido – a preço de banana... No caminho paramos para ver o Casino Estoril. Fingi que ia conhecer os caça-níqueis e joguei 40 dólares numa máquina. Perdi. Os amigos já esperavam do lado de fora do cassino. Voltei para dizer que ia ao banheiro. Joguei mais 40 dólares e ganhei 350. Com quase 400 dólares, parei e fui para casa. Leila Aguiar (esposa do Soares) irradiava aquela alegria eterna. Mantendo a imagem das pessoas bem-sucedidas, criava o filho Bernardo, que àquela altura já estudava na Escola Americana, em Sintra. No dia seguinte de minha chegada, com os 400 dólares no bolso, combinei com o Soares uma visita à BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa. Lá, de cara, encontrei o Marcelo Bottini, então diretor da Varig para a Europa. Acenou a possibilidade de colaborar com anúncios na recriação do Luso-Brasileiro, o primeiro jornal brasileiro de Portugal. Logo depois encontrei o Dalmo Ferreira (ex-sócio da Unidas Rent-a-Car de Miami) que me anuncia: — Sabe quem está aqui? O Arnaldo de Souza. O Arnaldo era um dentista mineiro que havia se apaixonado por uma aluna sua em Belo Horizonte e no final dos anos 80 resolveu se mudar para Miami. Além de anunciar no meu antigo jornal (Florida Review ), ainda saía regularmente nas colunas sociais. Fez vários cursos na Universidade de Miami, no Jackson Memorial Hospital, voltou ao Brasil e finalmente descobriu Portugal. Dois dias depois ligamos para o Arnaldo. Ele nos convidou para conhecer as suas clínicas e um restaurante que acabara de comprar em Tomar, uma linda cidade histórica, localizada no centro do país. Fizemos uma caravana com os amigos de Miami – de Lisboa até Tomar: Wenceslau, Leila, Bernardo, Dalmo Ferreira e mais dois casais de amigos. Do restaurante resolvemos viajar até o Porto e depois até a cidade de Esposende, onde ele morava – pertinho da casa de Abel de Jesus, ex-proprietário da loja Abel Electronics, de Miami. Na cidade ao lado, Barcelos,

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Abel era proprietário de um bom restaurante. Por coincidência, Barcelos era a cidade natal de Manuel Briote do restaurante Camila’s de Miami. De novo as coincidências da vida. Após visita ao restaurante do Abel e alguns copos, o dentista Arnaldo me mostra a garagem, oferecendo qualquer carro ao amigo Chico Moura. Com uma família bem constituída, proprietário de um restaurante e algumas clínicas em Portugal, Arnaldo me surpreende com a seguinte oferta: — Escolha o carro! — Por enquanto não. É melhor andar de ônibus. Os gajos são loucos nestas estradas. Voltei para Lisboa pensando na oferta do Arnaldo. Em poucos dias ele me liga convidando para passar uns dias em Tomar. Quando descobri a estátua do Infante Dom Henrique, aprendi que nós existíamos porque o descobrimento do Brasil começara ali. O Infante financiara a era dos descobrimentos. Aluguei um pequeno apartamento ao pé do Infante (ao lado do Castelo do Templários) e ainda ganhei um carro do Arnaldo. — E fique tranqüilo em relação ao jornal. Eu financio para você. Você não tem que pagar nada. Lembra do que você já me ajudou em Miami? Eu não me lembrava de nada. Só sabia que o Arnaldo era uma boa pessoa e com a Jackie fazia uma dupla que sempre se lembrava dos amigos em comum: Dalmo Ferreira, Rodrigo Soares (Florida Review), Milton Mecozzi (pai e filho), Taís, Carminha, Márcio Cristiansen, Ary Rogério Silva, Carlos Martins (Carlão), Abel de Jesus, Mário Magalhães e outros. O Arnaldo estava passando uma fase qualquer de carência emocional. Eu não conseguia acreditar em tamanha bondade. Sim, era verdade. Existiam pessoas boas no mundo. Sem pensar em retorno, em nada. Só para ajudar o amigo. No exagero da ajuda, nos perdemos. O nosso lado boêmio era grande e Arnaldo de Sousa então resolve alugar para mim um escritório no centro de Lisboa e financia (acabou virando presente) o primeiro computador. As coisas eram lentas em Portugal. O jornal demorou a sair. Mas saiu. Ainda fiz três números, devolvi o carro ao Arnaldo e me mudei para Setúbal. Nunca pude de verdade agradecer ao amigo Arnaldo de Sousa por tamanha gentileza. Mas, como disse em alguma parte deste livro, nós sempre iremos encontrar (um dia) as pessoas que cruzaram nosso caminho. Temos que viver a vida sempre alerta para não deixar que as armadilhas nos peguem de surpresa. Na inauguração do Marriot de Lisboa, a cobertura do jornal LusoBrasileiro mostrando a presença do então embaixador José Gregori e a presença do amigo gaúcho Zeno (dono de restaurantes em Lisboa), Mário Bruni (gerente da Varig), Maurício Mattar (ator), Renato Rodyner (artista plástico) e Thais Campos (atriz). Acompanhar Maurício Mattar


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Waldir Coelho, Zeca Ferraz, Orlando Veronezi (em pテゥ) e o comendador Oscar de Barros, curtindo uma quinta-feira no Porcテ」o.

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Zigomar Vuelma, Carlos Borges e Chico Moura chegando na テ《ia.

Antonio Martins e Ana Martins promovendo o Terra Samba em Miami.


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Leila Luna e Chico Moura curtindo um Ano Novo em Paris.

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Ronaldo Batalha, Luis Gozzoli, June Farias e Jo達o Pereira em Miami.

Ronaldo Esteves e Manuel Briote no Clube do Feij達o Amigo.


Os brasileiros que comandam New York: Fábio Machado, Raul Barbosa, Luis Gomes e João de Matos.

O carioca Sergio Bosi (ex-residente de New York) com a carioca Valeria Trauer no Mo Jazz de Miami Beach.

Com o arquiteto/decorador Jilles Jacquard (responsável pelo design da churrascaria Steak Masters).

Com o artista plástico Albery e o empresário cearense Clodomir Girão.

O paulista Eduardo Borracha, o carioca Allan Maquieira, Marcelo Netto (carioca) e o mineiro José KFuri reunindo-se em cocktail de Miami.

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Cumprimentando Roberto Carlos (ao lado de Gerson Delano) no Hilton de Miami Beach.

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O engenheiro Victor Mendes e o economista Fernando Medeiros.

O casal José Roberto, o jornalista da TV Globo de New York Jorge Pontual e o carioca Marcelo Netto.

Leny Andrade com Roberto Menescal no restaurante Steak Masters de Miami.

O cearense Alfredo Abreu, o carioca Antonio Carlos da Silva e o paraibano Nóbrega na Igreja St. Joseph de Miami Beach.

À esquerda o amigo carioca Claudio Ribeiro, Claudia Dutra, Chico Moura e o casal Raymundo Bittencourt na comemoração dos 40 anos da Bossa Nova em Miami.

Chico Moura e o jornalista Paulo Echebarria no Hotel Fontainebleu.


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Jô Soares em Miami, no lançamento de seu livro A Samba for Sherlock. Ao fundo Adriana Sabino, Ligia Bruno Lobo e o "papagaio de pirata"Chico Moura.

Lucas Mendes com o filho Antonio, a esposa Rose Ganguzza e o sogro no antigo Restaurante Steak Masters de Coral Gables.

O casal de gaúchos, a lindíssima Priscila Lentz (ex-Miss BrasilUSA e Miss Clairol) e Luciano Lentz.


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O Ministro Helio Costa com os amigos de Miami; Augusto (Geloso) Cesar (o "Toque de Elegância") e esposa.

Claudia Dutra, Hugo Carvana e Adriana Dutra no Festival de Cinema de Miami.

Pedro Lázaro, Eliane Betchinger, Eliane ThompsonKronig (ex-Miss Brasil 1970) e Ângela de Barros organizando vernissage na cidade de Miami.


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Os amigos Hans Donner e a esposa Valéria Valensa (Globeleza) recebendo o casal Chico Moura na Fundação do Banco Brasil, no Rio de Janeiro.

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Carlos Rodrigues (De Orlando), a carioca Vera Netto e Alvaro Feio (exBelair, Vasp, TAM), na ABAV do Rio de Janeiro.

A nossa eterna miss Ana Carolina, com Dr. Neri Franzon, no New Scala Bay Club.


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Paulo Zero (filho de Romeu Zero), cinegrafista de TV Globo cobrindo excursão da Seleção do Brasil no Japão. No estádio de Osaka metade dos japoneses (niseis e sanseis) torcendo pelo Brasil.

O grupo de jornalistas/músicos: Carlos Borges, Valeria Hadad, Joe Menezes, Cintia Braga, Chico Moura e Zigomar Vuelma.

À esquerda Zigomar Vuelma do jornal Gazeta Brazilian News, no aeroporto de Seul, na Coréia.

No Japão, indo com a comitiva de Paulo Gualano para Fukuoka.


O casal de paulistas; Landinho e Soninha em noite de alegria em Miami.

No Carnabeach, Rosana Bowman e Henrique Campos.

Ziraldo em concentração no Hotel Intercontinental, antes do desfile na escola de samba Acadêmicos da Rocinha.

O casal Marcelo Sabino, Luis Gozzoli, Jorge Gouveia e Luis Oswaldo Leite, na Flórida.

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Elizeth Gonsalves e Nilda mostrando a saúde latina em Miami.

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Mário Magalhães (Mr. Carnaval) e Wanderleia.

Chico Moura com Marisa Monte em Miami Beach.

O médico Dr. Carneiro, Paulo Teixeira, Gozzoli, Renato Scaff, Xuxu e os dois agentes federais comemorando a vitória do caso “GEORGINA” em Miami.

João de Matos, o Prefeito Giuliani, Terezinha Sodré e Alexandre Pires na festa do Sete de Setembro na Rua 46 de New York.

Marcelo Pepe (à esquerda) mostrando o pagamento de uma conta de bar ao garçon Patricio Mola.

Daniel Garcia e Ivon Cury na antiga Kalu Place.


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Victor Mendes em Hong Kong - Após 6 meses de dedicação para aprender o idioma, completou no Japão, seu PhD em Engenharia Mecânica, com honra ao mérito (honors).

Luiz Lamardo (pai de Edson), Waldir Coelho e, de costas, Edson Lamardo.

Os primos Joe Attick e George Samour na primeira loja de eletrônicos da Lincoln Road.


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em Lisboa foi uma tarefa difícil. Mulheres de todas as idades quase desmaiavam ao primeiro encontro. Ainda nesta edição de maio de 2002, a notícia sobre a inauguração da galeria da artista plástica paulista Fernanda Meirelles, em Miami Beach, localizada na 18660 Collins Ave. Com a mudança para Setúbal, meus primos Fernando e Alexandre de Moura Cabral também me ajudaram, e muito. De cara o Fernando me deu um espaço em seu escritório e um carro. Alexandre ofereceu a casa e dinheiro para minha sobrevivência. O que será que acontecia em Portugal? Todo mundo me ajudando??? Por quê? O meu tio Fernando Cabral (pai de Fernandinho e Alexandre) faleceu de câncer na próstata e, até ele, deixou um par de sapatos para mim. Minha tia Cleide não dormia enquanto eu não chegasse, e de repente eu estava vivendo a minha nova família. A saudade dos filhos era grande. Não deu para agüentar a distância. Minha mulher não aceitou a idéia de vir para Lisboa. Após longa temporada em Portugal, vou ao Brasil e passo por Fortaleza. Na volta, já em Miami, resolvo trabalhar num emprego do tipo nine to five. Não sabia durante quanto tempo, mas ia tentar. Mais uma vez o grande amigo Marcelo Netto, da Star, me chama para participar do excelente time por ele montado em sua empresa. Logo me identifiquei com o Allan Maquieira, um tremendo atleta, um excelente jogador de tênis, nadador e grande velejador. Tudo aquilo que eu “pensava” que sabia fazer, o Allan fazia melhor. Até em nossas discussões o Allan foi correto em sua análise e eu, para variar, passional. O Eduardo Borracha, para mim, sempre foi e sempre será a imagem do samba em Miami. Embora ele esteja agora numa igreja evangélica, isso não impede-me de pensar no Borracha como um grande sambista, um homem sensível à música, grande passista, um verdadeiro showman. Excelente profissional, grande amigo. Não sei exatamente qual religião abraçou, mas continuo achando que o pecado não está no palco, e sim na mente e no coração do ser humano. O Marcelo Netto sempre honesto e cumprindo com a sua palavra. Seja como anunciante, seja como amigo. Difícil encontrar coração tão grande quanto o do Marcelo. Uma das pessoas mais corretas que conheci. Aliás, foram muitas as pessoas honestas que conheci. E lembrei que quase nunca estas pessoas são lembradas. A mídia sempre reporta os desonestos, os trapaceiros ou ladrões. Deve ser normal, deve vender mais – dá mais ibope. A Solange Pinto, sempre elegante e bonita, irradiando aquela atração feminina, sempre perfumada e (pelo menos para comigo) simpática. Lógico que no original não escrevi somente isto da Solange. Mas depois lembrei que isto é um livro e poderia ser mal interpretado... Com Geraldo Coura, Luciana e Joe Tomasoni convivi pouco. Mas o pouco já deu para saber que o time era perfeito.


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No trabalho tudo funcionava como um relógio. Menos a minha cabeça. Diariamente eu tinha contato com brasileiros de diferentes regiões do Brasil. Me divertia com as histórias de cada região. A nova (e bela) raça goiana, a vivência dos cariocas, o trabalho dos nordestinos, a seriedade dos paulistas, a graça dos baianos, o sotaque dos gaúchos, a curiosidade dos mineiros e o segredo dos nortistas. Nesse trabalho tive a oportunidade de reencontrar velhos amigos - que não via há tempos. Um deles, Elmo de Almeida, me lembrou a profissão dos pedristas de New York, incansáveis caixeiros-viajantes que passavam meses a fio sem ver a família no Brasil, passando pelas feiras de pedras preciosas e visitando milhares de clientes pelos Estados Unidos. Elmo havia mais de 20 anos se hospedava no hotel Holiday Inn, a sua segunda casa. Carregava sempre mais de 50 mil dólares em pedras preciosas do Brasil, diamantes, esmeraldas, turmalinas. Um trabalho árduo e cansativo. De repente aumenta a minha vontade de viajar. Pedi ao meu primo Augusto que comprasse o livro O TURISTA APRENDIZ (1927), de Mário de Andrade, que realizou a primeira “viagem etnográfica”, percorrendo o nordeste do Brasil, o Amazonas e o Peru. Não era livro fácil de encontrar. Na realidade, foram rabiscos de um diário que ele não chegou a publicar. Daí a curiosidade, a importância da obra. A cada detalhe dos banhos de aguardente para afastar os mosquitos que Mário de Andrade era obrigado a tomar, eu me lembrava do quanto eu era alérgico a mosquitos. Costumava dizer que se existissem 100 pessoas e um mosquito, ele viria primeiro tirar todo o meu sangue, depois o dos outros. E a cada dia que passava, minha vontade de viajar aumentava. Depois da leitura do TURISTA APRENDIZ, que me empurrava para a Amazônia, comecei a pesquisar um pouco mais sobre a vida do autor. E, de uma crônica chamada O PERU DE NATAL, extraída do livro “NÓS E O NATAL” (Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, p. 23), me arrepiei com a coincidência de minha vida e vivenciei o seguinte parágrafo de Mário de Andrade: Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo

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para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

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A viagem para a Amazônia foi transferida até que o problema da alergia aos mosquitos fosse resolvido... Muitos imigrantes vivenciaram o american dream e aproveitaram o lugar certo na hora certa: Helio Gusmão, Domício Coutinho, Alceu Aragão, Tony Correa, João de Matos, Victor Mendes, Rubens Taddei, Fernando Moreira, Luis Gomes, Fabio Machado, Enio Carvalho, Milton Mecozzi e Arnaldo de Barros foram alguns dos brasileiros bem sucedidos nos Estados Unidos. Victor Mendes (residente em Miami), o mais jovem de todos, entrou para a Universidade de Engenharia de Brasília aos 16 anos – aos 21 já estava fazendo pós-graduação no Japão – em japonês. Durante o seu mestrado recebeu algumas propostas. Um dia eu perguntei a ele se foi sorte ou se alguém deu um empurrão. Ele me respondeu que a sorte só existe para quem se dedica, estuda e trabalha muito. Victor é o que os americanos chamam de self-made-man – No Japão aconteceu a realidade do primeiro sonho: projetar robôs. Na FANUC – uma subsidiária da GE, Victor ocupou o cargo de Gerente-Geral projetando sistemas de automação (interface) e logo depois já como VP da FANUC foi chamado pelo então CEO da GE (Jack Welch) que o contratou para liderar uma operação na GE Motors. Foram seis promoções em oito anos. Aos 31 anos (já morando nos Estados Unidos) era o mais jovem Vice-Presidente entre todas as divisões da GE. A partir daí, os Head Hunters deixavam Victor completamente enlouquecido com as propostas. Uma delas foi mais um desafio: ocupar a presidência de uma subsidiária da Brambles Industries, uma empresa australiana. Aos 32 anos foi o mais jovem SENIOR EXECUTIVE BAND – só existem 300 no mundo. Como presidente da CHEPS nos Estados Unidos, Victor globaliza a empresa e em menos de 3 anos aumenta o faturamento de 200 milhões de dólares para 500 milhões de dólares. A CHEPS é a maior empresa de pallets do mundo. Somente alugadas são mais de 200 milhões de pallets. Na Recall – que tem 3.000 empregados em 17 países – a segunda empresa de administração de documentos do mundo – (Brambles) Victor (já então CEO) interrompeu uma reunião (no meio do atentado


O CASO DO QUADRO Lembrando Carlos Drummond de Andrade no poema “O caso do vestido”, em que uma mãe apontando para um vestido pendurado na parede conta às suas filhas as aventuras de seu pai, eu, todas as vezes que olhava para um quadro do Romero Brito (o primeiro que ele pintou em Miami) pendurado em minha parede, contava esta história: As primeiras obras do pintor Romero Britto ainda estavam comigo quando, numa péssima fase financeira, pensei em “empenhar” um dos quadros. Procurei o amigo Sérgio Vilhena, que ficou com o quadro e me entregou um valor num envelope com o seguinte bilhete: “Quando a situação melhorar, o quadro é seu.” Os anos se passaram e eu esqueci do quadro. No dia do Natal bate à minha porta um courrier com um enorme pacote e outro bilhete: “É presente de Natal! Um abraço do amigo Sérgio Vilhena.” Numa troca de e-mails, digo-lhe: Sérgio, Há dois anos, sofri muito com uma pedra nos rins. Dei entrada duas vezes no hospital e nada... A pedra era muito grande e a solução seria bombardear com laser. Naquela data (19 de dezembro), quando fui levar a carta de minha filha (na época com nove anos) para o Papai Noel, ela pedia de presente que eu ficasse curado daquela dor. No dia 24 de dezembro à noite eu expeli a pedra sem cirurgia, sem sofrimento. Esta foi, sem dúvida, a razão maior pela qual voltei a acreditar em Papai Noel. Agora, com esta sua atitude tão nobre, tão carinhosa, chego à conclusão de que sim: PAPAI NOEL EXISTE! As palavras de agradecimento estão sendo formadas no livro TATUAGENS. Desejo de coração que você seja extremamente feliz, com muita saúde e longevidade para curtir esta maravilhosa vida que ainda está por vir.

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de 11 de setembro) e acionou a máquina de recuperação de dados das empresas envolvidas na tragédia. Victor tinha na época, 22 furgões blindados que circulavam por Manhattan dia e noite. Eles coletavam as fitas magnéticas e as levavam para uns depósitos de segurança – em conjunto eram armazenadas 2 milhões de fitas de documentos. Matérias em todas as revistas especializadas como FORBES, PEOPLE, SELLING POWER e jornais de todo o mundo publicaram matérias sobre os bilhões de dólares que o nosso brasileiro (em menos de 3 horas), presidente da RECALL, recuperou. O nosso amigo, o advogado Luis Gozzoli, sempre me pedia para escrever sobre as nossa vitórias, as nossas conquistas. Victor Mendes foi uma destas vitórias.

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O meu muito-obrigado, Chico Moura Ele me respondeu com outro e-mail que fez para os filhos:

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Filhos Chico é uma figura histórica na comunidade brasileira de NYC e Miami. Aqui, entre outras coisas, fundou o primeiro jornal brasileiro, o Florida Review, que vocês sempre viram lá em casa. Numa determinada época, precisou de uma ajuda financeira e com seu bom caráter e vergonha de pedir, pediu que eu ficasse com esse quadro (que Alex trouxe) em troca ou garantia do valor que precisava. Pude ajudá-lo e fiquei com o quadro. Esse quadro foi pintado numa folha do seu Florida Review pelo Romero Britto, quando apenas chegava em Miami e era desconhecido, pobre e vindo de Recife. Hoje em dia, Romero é um artista de renome internacional com obras em museus e coleções importantes e suas obras atingem valor altíssimo. Mas não tão alto como o valor sentimental que deve ter para o nosso Chico. Pudemos ter a sorte de devolver-lhe o seu pedaço de estória e em troca ganhar esse belíssimo presente de Natal. Por isso sempre respondo a mesma coisa quando me perguntam o que quero ganhar: quero cartões, cartas, bilhetes, palavras. Pois essas são eternas e tocam a alma. Obrigado, Chico. Tudo na vida é cíclico. Tudo volta. Uma vez, ciente de que o quadro estava avaliado pela galeria Britto em mais de 20 mil dólares, eu poderia “usar” esta arma para qualquer necessidade no futuro. E assim aconteceu com os amigos Tony Rodrigues e Arnaldo Barros que nem quiseram ver o quadro – e me salvaram de outras situações financeiras.

OS DEDOS COÇAM, A CABEÇA VIAJA Depois do lançamento do meu primeiro livro, PASSAGEM DE TÁXI, me vi numa situação única: desempregado e sem qualquer vontade de “procurar” emprego. Como sustentar uma família? Como dar os tais bons exemplos para os filhos? A minha vida seria agora uma mistura de escritor e vivenciador de novos trabalhos. A cada dia que passava, mais uma oportunidade de aventura se me apresentava. Um dia era o trabalho de fotografia numa fábrica em Detroit, numa transportadora


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de Akron, Ohio ou uma ida rápida a Atlanta. Tudo por conta de uma empresa do Brasil que apareceu oferecendo uma boa renda para tirar umas fotos com a finalidade de um registro para a companhia seguradora. Outro dia era motorista de limusine ou de táxi. Em conversa com a belíssima advogada Genilde Guerra, ela me confidenciou que, na época em que foi aceita na Universidade de Harvard (a mais antiga e melhor instituição de ensino americana, criada em 1636), surgiu a oportunidade de desenvolver um novo escritório de advocacia (imigração) em Miami. Como já havia investido muitos anos nesta atividade, resolveu ficar e dar continuidade àquilo que havia plantado. — Eu me lembrei de você, Chico. Daquilo que você falava sobre continuidade. E optei por ficar. Eu respondi: — Sempre fui uma pessoa de muita teoria e pouca prática. Sei muita coisa. Dou bons conselhos. Mas na prática, sou um desastre. Sou um desastre financeiro, um desastre emocional, administrativo, vivo numa profunda anarquia. Para algumas pessoas eu costumava dizer que O SEGREDO DO SUCESSO É A CONTINUIDADE. E a Genilde absorveu esta idéia. Para outros eu dizia: O SEGREDO DO SUCESSO É O TAMANHO DO SACO. De novo, de saco cheio, resolvo “chutar o pau da barraca”. O casamento batia todos os recordes de continuidade. Todos os dias acordávamos e dormíamos com a idéia de que ele estava acabando. E assim, ele foi se mantendo e se fortalecendo. Lógico que, com o tempo, fomos descobrindo um amor diferente, mais forte do que todos os outros, e mais uma vez lembrei da poesia “Caso do vestido” de Drummond, que dizia: ao depois o amor pegou... PASSAGEM DE TÁXI (Editora Letra Capital) me fez receber muitas críticas. Por certo alguns motoristas de táxi de Miami não gostaram do livro. Lembrei mais uma vez da obra de Gabriel García Márquez em que falava: a verdade que a gente conta sobre a nossa vida é uma mentira. Ninguém gosta de aceitar a sua verdade. E o pouco que escrevi feriu algumas pessoas. O que para mim seriam coisas simples, para muitos foi uma ofensa. O livro PASSAGEM DE TÁXI foi lançado em Miami com o apoio cultural da TAM. O amigo de infância, o fotógrafo José Martins, me apresentou ao editor João Batista, da Letra Capital, e embarquei nesta onda de escrever. Mais uma vez o José Sales (gerente da TAM em Miami), acreditou no nosso trabalho e apostou no livro. Aliás, desde os tempos da Transbrasil que Sales acredita em mim – e nunca, absolutamente nunca - deixou de me prestigiar. E lógico, serei “eternamente” grato. No dia do lançamento em Miami, o apoio da TAM, da empresa

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transportadora Mudanças Confiança e da Churrascaria Porcão. No Rio, o José Perlingeiro me ofereceu um restaurante no Castelo. Em São Paulo, Romero Britto abriu a sua galeria de arte e, com um belo cocktail, aterrissamos na Rua Oscar Freire. Em Fortaleza, após entrevista com Fernanda Quinderé da TV Verdes Mares, o lançamento do livro no Centro Cultural Dragão do Mar levou parentes e amigos. De volta à Flórida, a noite de autógrafos em Fort Lauderdale, depois New Jersey e outros lugares dos States. Fernanda Quinderé foi casada com o (já falecido) Luizinho Eça, mãe da minha querida amiga Fernandinha Quinderé, ex-mulher de Fernando Medeiros (irmão de minha ex-mulher Lúcia Medeiros). Tudo voltava a se encontrar no destino da minha história, da minha própria vida. Mais tarde, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami (patrocinado pela TAM – José Sampol), me embriaguei cedo, antes da festa. Com a recepção marcada para as 23 horas, já cansado, encontro uma pessoa na porta – aparentemente desconhecida – querendo entrar no cocktail: Joaquim de Almeida, que por acaso estava hospedado no mesmo condomínio da festa. Ninguém reconheceu (a princípio) o mais importante ator de cinema português no cenário internacional. Quando lancei o jornal LUSO-BRASILEIRO em Lisboa, conheci Joaquim de Almeida, que também era dono do Porcão em Portugal... Consegui duas credenciais e começamos a rodar os salões. Ao encontrar o José Wilker, lembrei do curso de direção de teatro que fiz com ele na Escola Martins Pena, no Rio de Janeiro. Ele me disse que havia sido diretor do curso em 81 e não se lembrava de 1971. Ainda no mesmo evento, encontrei a Betty Faria e lembrei da última vez (anos 60) que a vi pessoalmente no Bar Zeppelin (em Ipanema), casada com o motoqueiro Cláudio Marzo e o próprio José Wilker, sentados à mesma mesa. A um dado momento interrompi uma história qualquer (como um bom bêbado chato) para contar que um dia um de meus melhores amigos me pediu que o levasse a Brasília. Ele não tinha carteira de motorista e pediu que eu dirigisse o seu Alfa Romeu (o famoso JK) até o destino – acho que foi em 1971. Os pais e irmãos moravam em Cristalina, uma cidade localizada a 100 km da capital. Eram todos pescadores e caçadores. No meio do caminho Franklin me contou que ia a Brasília para fazer um aborto – a namorada estava grávida. Ao cruzar o rio São Francisco compramos de um pescador uns surubins e logo depois atropelamos, sem querer, um veadinho. Colocamos tudo na mala do carro e seguimos para Cristalina. Lá, parte dos onze irmãos estava pronta para receber a visita do “carioca”, que chegava com diversos peixes e ainda um veado fresquinho anunciando uma bela churrascada. Foram três dias de festa. Seguindo para Brasília, ele recebe o recado, por telegrama, de que a Vica, sua esposa (a titular) estaria dando à luz nas próximas 48 horas. Após o aborto em Brasília, voamos para o Rio e nasceu Franklin


Most people’s feelings and thoughts about themselves fluctuate somewhat based on their daily experiences. The grade you get on an exam, how your friends treat you, ups and downs in a romantic relationship - all can have a temporary impact on your wellbeing. Your self-esteem, however, is something more fundamental than the normal “ups and downs” associated with situational changes. For people with good basic self-esteem, normal “ups and downs” may lead to temporary fluctuations in how they feel about themselves, but only to a limited extent. In contrast, for people with poor basic self-esteem, these “ups and downs” may make all the difference in the world. Comecei a fazer feijoadas na minha casa. Depois, fiz uma experiência no restaurante do amigo Mário Braz em Miami. Daí, surgiram mais de 20 feijoadas (uma vez por mês) em diversos restaurantes pela cidade. Hoje, mais de 300 amigos se reúnem para a FEIJOADA DO CHICO MOURA, contando nos dedos a data do próximo encontro. Meu querido e único irmão! Preocupo-me muito com tua saúde (física, mental e espiritual). Afinal só me resta tu, de nossa “pequena” família (como mamãe dizia). Às vezes me pego pensando como o destino nos afastou tanto em quilometragem. Mas, me conformo, pois sei que temos muito em comum, apesar de termos até os defeitos que me incomodam, tais como querermos ser “fortes” e não deixar transparecer (aos outros) nossos anseios e inseguranças... É uma “luta” diária, que nos cansa e que ao colocarmos

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Argent Thompson Júnior, recém-separado de você, Betty Faria. No início da minha conversa, as pessoas se olhavam pensando que era mais uma de minhas loucuras. Seu ex-marido (muitos anos mais novo) era o filho de meu inseparável amigo Franklin Argent Thompson. Franklin faleceu num desastre de automóvel e deixou muitas saudades. Naquele cocktail comecei a ficar com medo de tanta vivência, de tantas histórias. As coincidências aconteciam a cada minuto. Todas as vezes que ia ao Bar do Azeitona, no final do Leblon, ficava horas olhando para a casa do Franklin do outro lado da rua... No ano de 2004 (ainda morando em Miami), alugo um escritório/casa no centro do Rio de Janeiro, levo um computador preparado pelo meu conterrâneo Emanuel Costa, e reabro o RIO TIMES, aquele jornal que poderia promover (em 1992) a cidade maravilhosa no exterior. Foi um verdadeiro desastre. Volto para Miami, de novo sem dinheiro, e continuo na busca de um trabalho que possa fortalecer o meu self-esteem, expressão que, de acordo com a Universidade do Texas, quer dizer:

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a “persona”, nos sentimos incomodados, pois precisaríamos de um descanso (o “repouso do guerreiro”), que nos é negado por nós mesmos. A máscara já está tão impregnada em nossas “faces”, que fica difícil as pessoas perceberem nosso interior. Mas, a “culpa” é nossa mesmo. Às vezes nos anestesiamos com uma cervejinha a mais, mas quando nos deparamos com a NOSSA realidade, retomamos depressa a direção do personagem que criamos para nós. Iludimos e somos iludidos por nós mesmos. Na verdade, queríamos que “alguém” nos desse um “colinho” de vez em quando. Mas, quem vai dar colo para “guerreiro”? É inatingível... E, continuamos sós! Numa busca surda dentro da mudez do “EU” que criamos para nós mesmos. Nem sei porque te escrevi tudo isto. Mas, senti vontade de desabafar ou te acarinhar, ou os dois... Vou amanhã para Itaipuaçu. Devo voltar domingo após o carnaval. Espero que tua rotina seja de alegrias, paz e boas escolhas! Que DEUS te proteja e abençõe! Te amo muito irmão querido, mas só sei dizer isto escrevendo. A “velha persona” em jogo e colada à minha face... Beijo teu coração, Ana. Neste livro, procurei cronologicamente descrever alguns momentos de personagens que vivem nos Estados Unidos e reescrever um grande jornal que retratasse a mais próxima de nossas verdades. E lógico, a vida de um imigrante brasileiro na América, a minha vida. Entretanto, continuo questionando minha vontade de publicar este livro. Nas palavras de Fernando Pessoa: “Dizem que finjo ou minto / tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / com a imaginação. Não uso o coração.” Usei o coração e descobri que jamais poderia ser um grande escritor. Principalmente depois de encontrar esta frase: Toda vez que alguém diz algo como “apenas escrevo, com muita sinceridade, tudo que me vai n’alma”, trata-se de péssima literatura. Grandes escritores não escrevem “o que sentem”. As coincidências da vida voltam a acontecer. Faço uma retrospectiva, leio este livro, revivo as tatuagens, dou boas risadas e vejo que tudo é cíclico. Lembro do Frank McKeon, o amigo catatônico, companheiro do banco em New York, que pontificava: “Para que ler jornal? As notícias são sempre as mesmas – só mudam os personagens...” FIM


Com Marcella e o designer Caio Mourão em sua casa de Iguaba (RJ).

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Um raro momento em Miami; Carlinhos de Jesus,Terezinha Sodré, Jorge Aragão, Carlito e Chico Moura.

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Sandrinho Gherardi e Bruno Borghini na ABAV do Rio de Janeiro.

Adriana Dutra (Festival de Cinema de Miami) com o primeiro marido em Londres.

Elba Ramalho dando o pé para o público do Cameo Theater em Miami Beach. O aniversário de Joe Menezes (Via Brasil) no alley de sua loja em Miami Beach.


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Chico Moura recebendo William ex-maitre Di do Restaurante Neronis de Miami Beach.

O executivo Victor Mendes, com suas filhas Camila e Viviane, em Madrid.

Chico Moura e Ziraldo na Feira do Livro em Miami.

O saudoso amigo Xuxu (à esquerda), jogando cartas no Bar Veloso de Ipanema.

Antonio, filho de Lucas Mendes, o jovem cineasta que já desponta em Los Angeles...

Marcos Silveira o famoso Conan – campeão mundial de ultimate fighting, almoçando com seu filho na churrascaria Porcão de Miami.


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Nelson Ned com Marcella Moura em Orlando na Flórida.

Com Mauriício de Sousa em exposição em Washington.

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Com os amigos Parafuso, Lulu e Xuxu.

No dia do quarto casamento, com Cristina e a filhinha Marcella, em Rockville, Maryland.

Fred Santos, Sergio Vilhena e Álvaro de Sá.

No Hotel Glória do Rio de Janeiro, os cearenses: Claudio Pereira, o Secretário de Turismo, Antonio Cambraia (exprefeito) José Wilker e Chico Moura.


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Luciano do Valle e Luciana do Valle no congresso da ABAV do Recife.

Orlando Moreira cobrindo a festa do Oscar para a TV Globo do Brasil.

O fotógrafo José Martins, Ricardo Tuba e Nelson Luis, nas noites de Copacabana.

Rosane Girão,Clodomir Girão e Fernando Lobo, no congresso da ABAV no Rio de Janeiro.


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A carioca Vanessa Aiex e baiana Daniela Mercury no show de Miami Beach.

Moacir Ferronato, o Capita e Delmo Moura no Porcão de Miami.

Entrevistando Bill Williamson em Fort Lauderdale, após viagem de veleiro (solo) da Ilha de Trindade (Portugal), à ilha de Trindade (Brasil).

Kaú Fernandes, Chico Moura, Jorge Siciliano eValéria Hadad no cocktail de inauguração do Primeiro Festival de Cinema de Miami.

Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um Trio Elétrico é importado (chegando em New Orleans) do Brasil - para o CarnaBeach. O advogado Luis Gozzoli com a família Marjorie Andrade em Miami.


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Eliakim Araujo, Leila Cordeiro e Chico Moura (ao centro) anunciando nas areias de Miami Beach a abertura oficial do Festival de Cinema Brasileiro.

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Jô Soares autografando livro "A Samba for Sherlock" para Chico Moura na Feira do Livro de Miami.

Fernando (Black Label) e Kim Peixoto de Castro (Jack Daniels) em alegre tarde no Restaurante Steak Masters de Miami.


Tatuagens O dentista mineiro Arnaldo de Sousa, o cearense Chico Moura, o português Abel de Jesus e o carioca Wenceslau Soares, na cidade de Barcelos, em Portugal.

João Pereira, Chico Moura, Joe Menezes e a cantora Rose Max.

Tânia Azevedo e Marcos César com os filhos, herdeiros do jornal Brazilian Paper de Pompano Beach.

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Dilma Lóes, Chico Moura e Lidia Matos em dia de aniversário na casa de Yolanda (Amorim) Pereira.

O dentista paulista Hédimo de Sah e Luciana de Sah.

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Com “Chico” do La Mole no clube do feijão amigo no Hotel Othon de Copacabana.

Meu compadre, o Professor Léo da Rocha Ferreira, e a filha (minha aflhada), a jornalista Solange Vasconcelos.

A contadora dos brasileiros em Miami Regina Vilela e o cearense Francisco Frota. Zeca (Diabo) Magalhães, Waldir Coelho, Chico Moura, Taciana Carvalho, Fernando, Mirian Carvalho e Yolanda Pereira em almoço de downtown, Miami.


Com Benito Romero no lançamento do primeiro livro em Newark, New Jersey.

O músico Landinho, Howard Moss Yaponam de Sousa, no lançamento do livro PASSAGEM DE TÁXI, no Porcão.

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Lançamento do livro “Passagem de Táxi”, em Fortaleza, com Fernandinha Quinderé.

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Ainda no lançamento do livro Passagem de Táxi: Neusa Martiznez, Gerson Delano, Victor Fuks (de barba), João Mendonça, Chico Moura e Yaponam de Sousa.

No lançamento do livro no Rio de Janeiro, os amigos de Miami: Dilma Lóes, Dagmar Barbosa, Luis Barbosa, Mario Braz, José Perlingeiro, Sonia, Sergio Bosi, Marcelo Pepe e Claudinete.

Chico Moura com Luiz Gomes do Via Brasil, no Restaurante Plataforma de New York.


Mário Braz, Chico Moura, Claudio Ribeiro e Cristina Figueiredo na Primeira Feijoada do Ever Cafe.

Caricatura de Sergio Bosi, retratando Chico Moura - feita em menos de dois minutos no computador.

A turma da loja Sonria de Orlando, nos bons tempos do turismo brasileiro da cidade.

Allan Maquieira, Chico, Marcelo Netto e Gerson Delano na Feijoada do Chico Moura no Gil’s Cafe.

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O jovem casal Roberto Natali num momento de descontração em downtown, Miami.

Os amigos de Miami, Chico Moura, Bill Duba e Sergio Bosi se encontrando no Posto Seis do Rio de Janeiro

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O casamento de Tony Samour e Lucia Samour.

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João Pereira comemorando mais um aniversário em Miami.

Luis Cláudio Ferraz, Bia Duarte, Amauri Júnior, Maria Fernanda e Cláudio Magnavita em noite de cocktail em Miami.


Com Rita Ribeiro no Mistura Fina.

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Antonio e Ana Martins com Ivete Sangalo.

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Com Paulo Betti e Anick Malvil em Miami. O casal José Sampol (TAM) prestigiando a Feijoada da Câmara de Comércio em Fort Lauderdale, na Flórida.

Da esquerda para a direita: os veteranos Chico Moura, Jorge Siciliano, Roberto de Sousa e Pablo (Bolacha) Correa no restaurante Camila's de Orlando.

Romário encontrando com o médico Dr. Hélio Costa no aeroporto de Miami.


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Mauricio Mattar (ator), Chico Moura, Thais Campos (atriz), Mario Bruni (gerente da Varig) e Zeno (empresário), em Portugal.

Cristina Moura e Chico com os músicos Pepe Aparício e Claudinho Roditi, no Van Dyke da Lincoln Road - South Beach.

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Mário Braz e José Perlingeiro em Miami.

Alfredo Lopes (Presidente da ABIH), Castro Neves (Diretor da Turisrio) e Chico Moura no Rio.

Luis Oswaldo Leite,ex-presidente da Odebrecht - Miami. Claudinho Roditi no Van Dyke, South Beach.


Marcella, em dia de aniversário com papai e mamãe.

Al Souza, a voz mais bonita do aeroporto de Miami.

Maria Tereza de Queiroz Piacentini, a revisora que acreditou em nosso trabalho e tornou o sonho uma realidade.

Eric Moura (meu neto) e Antonio Carlos da Silva em noite de autógrafos (do livro Passagem de Táxi) no Porcão de Miami

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O cinegrafista Orlando Moreira (baseado em New York) gravando imagens no México para a TV Globo no ano de 2003.

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Na galeria de Romero Britto (Rua Oscar Freire, em São Paulo), Chico Moura autografando livro para Mauricio de Sousa. Ao lado, o amigo Ricardo Bergamo.

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Isadora Capelo com Luis Gozzoli na praia do Futuro, em Fortaleza.

A simpática Ana Martins e José Sampol (da TAM) em Miami.


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A futura vereadora Cintia Silva, Ministro Helio Costa, a esposa Ana Catarina e Geraldo Silva da Travel Business Bureau de Miami, no Porc達o de BH.

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Os eternos amigos: Francisco Ruiz (Kiko), Bruno Borghini, Ronaldo Batalha e Luis Ernesto Gozzoli.

As eternas amigas: Neida Soares, Jussara Eakes, Cristina Ibsen e Neija Padilha.


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No Carnaval do Rio com o primo Augusto Capelo.

Cauby Peixoto , antes de se apresentar no baile de Mário Magalhães.

A família Bastos, de Belém do Pará, no aniversário do carioca Bob (Fotão) Garcia.

No dia 4 de outubro, a socialite Yolanda (Amorim) Pereira, abriu os salões de sua residência no sul de Miami, para festa de aniversário de Chico Moura e do pintor Albery (já falecido).


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O Clube do feijão Amigo de Michel Tuma Ness, chega à Miami e é preparado por Manuel Briote. Na foto: Julio Queirós, Renato Scaff, Luis Gozzoli, Tony Correa, Francisco Ruiz e Marcelo Sabino.

Sergio Botinha, Chico Moura, Francisco Rodrigues, Orlando Veronezzi e Tiago Monteiro na Churrascaria Porcão de Miami.

Carlinhos (Antonio Carlos da Silva) e Mônica Mattedi, se re-encontrando na antiga sede do jornal Florida Review, onde tudo começou em Miami.


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Faustão, Denise Moura, Tony Moura, Henrique Amaral (irmão do Ricardo) – sentada, a vovó Estela.

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Mariozinho, Gabriel O Pensador e Carla Magalhães.

O cantor e compositor, Antenor Bogéa, ex-adido cultural do Brasil em Paris.

Mariozinho Magalhães e Popó, em Miami.

A bela Jane dos Santos em baile de Carnaval em New Jersey.


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JosĂŠ Wilker e Carla MagalhĂŁes no Festival de Cinema de Miami.

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Chico Moura e o brasilianista americano Mark.

Aloysio Legey com o amigo Claudio Ribeiro em Miami Beach.


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Em reunião no Rio de Janeiro: Fernando Carvalho, Marta Ramos, Moisés Fuks, Léo Ferreira e os irmãos Adriana e José Ferreira.

Gil Santos e Andrezinho da Ilha comandando mais uma batucada em Miami.

Hilda Chaar e Adriana Dutra no meio de mais um cocktail do Brazilian Film Festival de Miami.


Tatuagens AndrĂŠ Volpato, Jussara Quinan e Kalil, no Miami Beach Place Restaurant.

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Os amigos de Miami: Bruno Borghini, Bia Duarte e Luis Gozzoli.


Chico Moura

O ministro Helio Costa convidou o amigo Chico Moura para um jantar em Belo Horizonte, e posou com os ďŹ lhos para o livro TATUAGENS.

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Elmo Almeida e Michael Sullivan fechando acordo de parceria musical em Miami.

JosĂŠ Sampol (gerentegeral da TAM), sempre patrocinando os eventos culturais brasileiros na cidade de Miami e Antonio Martins do ACONTECE.COM .


Tatuagens

A bonita família de Robson e Sandra Oliveira.

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Meus netos americanos, Kaio e Julia.

Antonio Martins com Adriane Galisteu.

Edmundo Souto (compositor de “Andança”), Chico, Pery Ribeiro (primeiro artista a gravar Garota de Ipanema) e o cineasta Otávio (Maravilha) Terceiro.


Chico Moura

Os jornalistas Sergio Cinelli e Leda Nagler no Clube do Feijão Amigo, do Michelão.

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O gaúcho Zico (Zigomar Vuelma), publisher do Gazeta Brazilian News.

José Sampol (exexecutivo da LAP e depois gerentegeral da TAM), Edson Alessi e Fred Santos (Fredson Travel de Miami).


Tatuagens

Fernanda Cirino (ao centro) com o troféu do mais recente Brazilian Press Award, acercada pela equipe do jornal Gazeta, o único veículo semanal da Flórida.

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Antonio Martins com Caetano Veloso.

O casal Jorge Nunes e Esterliz Nunes, proprietários do jornal Achei, uma das melhores publicações de brasileiros no sul da Flórida.


Chico Moura

Antonio Carlos com Jeanette Bezerra, no Miami Beach Place.

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Ronaldinho Gaúcho e Carla Magalhães.

O homem da TV, Vicente Maraboli.

A maravilhosa Carol Saboya.

Claudio e Regina Franco - Regina é responsável pelo maravilhoso site (propriedade de Ana e Antonio Martins): www. acontece.com, que retrata os brasileiros nos Estados Unidos.


Tatuagens

Com os filhos, Marcella e Paulo Roberto, comemorando o sucesso da Primeira Feijoada do Chico Moura em Miami.

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Adriana Dutra e Chico Moura, descansando após noite de Festival de Cinema em Miami.

Carlos Moura (filho) e Eric Moura (neto) esquiando nos alpes suíços.


Chico Moura

Ana Bergamo, Ângela Capelo, Augusto, Victor Capelo e ChicoMoura, em São Paulo.

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Marcella e Cristina Moura visitando a reserva indígena dos Everglades, na Flórida.

A formanda Marcella Moura, aos 12 anos de idade, com os pais em Miami.


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Tatuagens


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Chico Moura


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