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exposição de poesia portuguesa apresentada na

FACULDADE DE BELAS ARTES DE LISBOA (pátio interior de escultura, andar -2)

u i r o t a n a ins a poesia de

RICARDO FRANCO

booklet e maquete por Sérgio Neves


violar a marroquina

tenho saudades de violar a marroquina laçada em seda fina e bordada de cartão, de lhe acender o corpo esguio de menina e deixar a neblina encontrar a inspiração. tenho saudades de a suster na boca beijada e de ter a voz castigada pelo fumo preso ao peito. de lhe ter a cintura nos meus dedos dominada louca e molhada da saliva sem efeito. tenho saudades de sentir o seu cheiro enrolado no nevoeiro que me deixa demente e logo que a tenha abusado por inteiro, num gesto traiçoeiro matá-la inocente.


biografia de um orgasmo

pela libido vencido e de corte clandestino, subo-lhe o corpo contorcido, preso na inspiração. desatino e transpiro, deixo-lhe o seio despido, lacerado e seduzido contra a vontade da razão, e é então que ela solta um gemido calado e tremido pela respiração! faço-lhe a língua cativa do desejo de saliva e de uma vontade lasciva, inocente e sem perdão.

a mão desce furtiva,

pecadora e punitiva

e escorrega sugestiva de lhe trazer atenção...

a boca desassossega

da

encontra-lhe a carne

molhada

entre as pernas bord

adas

com o calor da tentaç

ão,

ela de costas curvadas e com as unhas cravad

as,

indecente e usada

vem-se dada à rendição

.


ambição

basta-me um cigarro depois um pouco de ti do eu tão de certo como a incerteza o nada ou o concreto uma palavra ou meia ou um verbo apenas num trago ou num beijo ou lágrima até em vários goles ou tudo chega

ou talvez

não.


tudo o que há para eu dizer

eu hei-de gritar. se tenho lábios e língua eraiva raiva e amor e dor e paixão guardados na garganta,

eu hei-de gritar. o cheiro e o sabor da pele e as lágrimas que escorrem para uma morte incerta e a loucura e a sensatez e a saudade e a porta aberta,

eu hei-de gritar. eu hei-de gritar o açúcar dos beijos e o azedo dos desejos, hei-de gritar a vontade e a angustia e a mentira e a verdade

tudo o que há para eu dizer

eu tenho que gritar. hei-de gritar ao céu e ao inferno e hei-de gritar com o diabo e hei-de gritar com um jeito terno...

eu vou gritar. hei-de gritar com a fome com o sorriso e o queixume e com a música e com o cheiro de mar quebrado no porto e com a cruz do teu corpo. hei-de gritar com a voz arranhada, hei-de gritar de dia, noite e madrugada, hei-de uivar à lua cheia e às derrotas e aos sonhos e à sorte. tudo, sem nada falhar... tudo o que há para se dizer

eu hei-de gritar.


tenho vontade de gritar

se tenho a saliva a secar e a voz a esmorecer, e um som oco a ecoar nas cordas da guitarra que me faz gritar:

eu tudo o que tenho hei-de dizer. contra as portas que se fecham ou se deixam ficar fechadas, através dos campos de cores perdidas e até mesmo nas casas de memórias esquecidas, hei-de gritar contra as marés e a favor do vento, com pouco, com muito tempo, hei-de gritar e derramar o meu grito, nas dunas ou no teu seio, na prisão das tuas pernas e nos contrastes da sociedade falida, se houver palavra que queira voar assim a vou deixar, despida, com gosto ou não, não me vou calar, e tudo o que tiver para dizer

eu hei-de conseguir gritar.


quero ser poesia quero dormir no fragmento das palavras

no conforto das mandíbulas de um poema assim por um instante de liberdade nos contornos das letras e dos sonhos aconchegado às loucuras dos meus ais e brando nas convulsões do meu coração aproveito para passar rente dos lábios da leitura

desarrumar-me

pintar-me de negro ou às manchas ao chegar lá

volto e revolto na espuma morna dos versos encomendo sabores e cheiros

e asas de chumbo leve

e dedos de areia às riscas

e porque não vida quero passear nos bordados impróprios da dor nas gotas avinagradas do ódio quero até espezinhar e respingar as certezas do mundo que se cega de certezas porém as sombras incógnitas da candura devem lamber o instinto

que dizem que não temos tombando as torres das definições inúteis que a todos nós atormentam sem sentido ao adormecer quero dedilhar a esperança cantar a saudade e sublinhar o futuro transparecer entre pernas derreter-me em bocas molhadas derrotando correntes de aço e de ferro quero não acordar nos jeitos do não existir e ao tornar infinita a ausência e ao surgir em harpas e descampados de mim

e ao beber dos seios o orvalho dos desertos e ao tempo dar pó e um punhado de eternidade

quero ficar com a carne e com as unhas nú perante o papel


o que somos

todos n贸s somos muitos poucos somos para todos somos tudo no vazio e nada somos

todos n贸s somos nada tudo somos para algu茅m tudo somos todos juntos e somos ningu茅m


nasci de palavras doces nasci fruto de beijos nasci no ventre da madrugada entre mãos despidas à minha pele nua nasci à sombra da lua onde a ternura era prata e a loucura sede de inocência. na coreografia do tempo escorreguei nos sorrisos desintegrei o silêncio

disse o que penso e aprendi a andar acordei os sentidos encontrei-me perdido e lembrei-me esquecido que é preciso respirar. nasceram gestos de criança nasceram pecados de mel nasceram versos recortados dos lábios feridos dos amores encantados nasceram gemidos desafinados nasceram olhares enrolados com o nascer da paixão escriba de encontros mal marcados escravo de esta e outra ilusão.


nasci para renascer

nasceram das horas os segundos nasceram memórias no meu sangue na fúria das minhas veias nasceu o licor da tentação o fogo a demência a minha insanidade nasceu a saudade e sabores intensos nasciam vendas e vontades nasciam dores lágrimas raiva raiva raiva raiva nascia pânico e medo nasciam explosões abraços pele unhas dedos afogava-se o desespero nasciam letras secas na saliva nasciam melodias numa serena suavidade suturavam-se feridas em cicatrizes puras cruas e frias nasceu o sabor do que ganhei e perdi com o nascer doce e cruel dos dias para agora saber porque renasci.


auto-retrato

do de dentro me torno o que sou no fora que do de dentro tiro da dor e do prazer que a mim me dou por dar de mim para fora o que na hora do de dentro vivo

]


]

quero em testamento

quero os meus ossos a bater no fogo sem cultos lágrimas lutos orações. eu quero ser cinza sem flores sem discursos ilusões ou percursos que transportem ou quebrem emoções.

não quero datas de princípios e finados nem recortes usados de lápides vulgares. apenas quero ser pó livre de memória e se estupidamente ficar na história, que seja um e que um seja apenas um nome. quero que a minha caixa fique fechada, para ser corroído numa chama acordada acorrentada na paz das guerras que fui. quero que os que me são como meus, quando a lua se despir no céu,

me façam sentir incenso música e maresia. quero ouvir sinatra, “by my way” tequila danças vozes apaixonadas sedas enroladas e risos até à madrugada. quando eu morrer quero dormir na ternura

quero viver nos que me amam e amar com a loucura na minha pele bordada.


vandalizo e vasculho a saliva podre que nos deixa na boca o hĂĄlito de fel, para rejubilar-me com os doces perdidos e os olhares mantidos de um beijo infiel. resta-me ser um verme, devoto das estradas e da palavra proibida. jĂĄ sĂł me chega o corpo da vida onde mastigo as vĂ­sceras do momento e deambulo nas entranhas do agora.


ossos da minha vida

prefiro a minha vontade mantida e o meu sangue rarefeito, quase extinto, do que extinguir os sonhos ou morrer faminto do desejo de existir. resta-me ser um verme, em prática, e não um homem por teoria. resta-me ser mais que os audazes, porque sou mais na minha glória do que na memória da maioria. arrasto-me, mordisco e trinco a eternidade. e amo cada espasmo de um orgasmo criado pela agonia da verdade! sou um verme parasita dos instantes. um ser infame (para uns) e para todos vivo! é essa a arquitectura a que a minha pele se segura e pela qual transpiro e com a qual rasgo a carne corroída pela gangrena do impossível. resta-me ser uma instável criação de um divino em que não acredito, sendo que eu, um marginal submisso, sou um feliz maldito um dia nascido!


nos vincos das camisas suadas e usadas rasgadas nas costas cruas, sossegam cortes reclinadas no encosto das mãos trespassadas nas horas incertas destas ruas. não sentem as balas cansadas que laboram disparadas lutas de resistir a um inverno inteiro, (ao invés de um nosso primeiro) sendo no chão, despejados recrutas de despojado dinheiro. assim seria a todos fácil ganhar, tendo outros todos a trabalhar no de todos campo de sementeiro. nas cadeiras gritam vozes com um nada de promessas feitas sem resposta

...


beijos feridos

saem como balas cansadas, com o travo triste das luas de um inverno inteiro. despejam-se em menos de nada por um verão completo, sossega cansada a vontade nos despojos da ansiedade pela hora em que me acerto. tenho as mãos cansadas dos perdidos. nas balas trespassadas perdem-se lágrimas sem avisos. nas duras mãos cansadas mergulham caras sem sorrisos e nas cortes abandonadas jazem cadáveres esquecidos. beijos feridos! beijos feridos! beijos feridos! beijos feridos! beijos feridos! beijos feridos! beijos feridos! beijos feridos! beijos feridos! beijos feridos!


auto-retrato

caiu-lhe o corpo, violada. abandonada à carência dos afectos. na calçada fica o sangue da história e na memória, os pensadores amantes. e só desses instantes é lembrada. agora, a arte é fachada fria restaurada para olhos de viajantes. os poemas, esses, pertencem aos livros que na escola afirmam: “está viva!” e que ecoam como tiros.

– ignorantes!

está morta e repleta de aparências. já não é puta, morreu da doença que lhe contagiou a revolução! a culpa foi essa liberdade intensa de se ser culto logo à nascença num parto que não tem dor.

agora passam por cima da sua campa, efeitam-a com cravos em abril e lembram de outrora o seu amor. e já nem o fado a consome do ócio nem as boémias ruas nos espantam. já só vive na boca de rumores.


álcool e jazz

de preto, veludo, clássico num templo de um tempo de camarim rolado na foice da noite em copo, gelo, tónica, gin o resto de um gozo estático em jazz de silêncio errático que começa num sopro frio sobejando nada perto do fim


um espaço para nós

o ( ) silêncio ( ) segura ( ) as ( ) palavras. e-não-as-se-pa-ra-co-mo-ra-ças nem-as-con-tro-la-co-mo-a-po-lí-ti-ca. é ( ) um ( ) espaço ( ) que ( ) as ( ) abraça e não uma farsa da-arit-mé-ti-ca. é ( ) a contradição ( ) da apocalíptica, da ( ) virtude ( ) a-na-lí-ti-ca pró-pri-a ( ) da ( ) genética. e o silêncio ( ) é ( ) a razão ( ) da ( ) verdade da ( ) gra ( ) má ( ) ti ( ) ca-da-es ( ) té ( ) ti ( ) ca que faz a nossa ( ) ansiedade ser ( ) a parte ( ) mais ( ) poética!


à pressa

trás lá essa roda gira a travessa enrola passa que há pressa para rela xar!


sentimentalista e comunista assumido, Ricardo Franco reúne num só corpo a vontade, a revolução e a poesia. da sua inspiração nascem linhas repletas de sentimento explosivo, de verdade crua, de pele áspera salpicada de lágrimas e punhos fechados, de unhas que rasgam a carne na loucura de um orgasmo. aos 28 anos, Franco é actualmente estudante no curso de Design de Comunicação da Faculdade de BelasArtes, o poeta/futuro designer, onde desenvolveu uma imagem gráfica própria e característica que liga à forma como escreve. esta é a primeira exposição para o autor nascido e criado nos arredores de Lisboa. e logo “em casa”.

RICARDO FRANCO Lisboa, Portugal insanatoriu.blogspot.com/


Faculdade de Belas-Artes de Lisboa no âmbito de Design Editorial Sérgio Neves, nººo.4795



INSANATORIU: a poesia de Ricardo Franco