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1 Ella parecia assustada. Se perguntava quantas vezes mais teria que fugir. O frio a consumia e a transformava em um pequeno cubo de gelo estático, sem derreter. Estava ali, no meio fio da Rua Corelli, observando enquanto um pequeno grupo de transeuntes passava sem nem sequer perceber sua presença. Não era notada. Por alguns minutos, pensou que o ranger de seus dentes não eram nem sequer ouvidos. Contudo, não era isto que a atordoava. Se sentia invisível muito antes disso (e se sentiria um milhão de vezes ainda, com toda sua vã certeza). Fugir tantas vezes já a acostumara a isso. Mas a última fuga... Ah, a última fuga... Havia deixado uma marca que lhe acorrentava a alma , muito mais dolorosa que um nariz agora ensanguentado ou partes da perna perfuradas por cacos de vidro. Queria voltar. Não queria fugir... Não dessa vez. Queria explicar-lhes sua fuga, seus motivos, superar até mesmo a perplexidade que lhes atingiria ou o deboche da incredibilidade imediata, encontrar uma solução extraordinária e salvar a todos, inclusive sua vida interrompida. Pela primeira vez, podia dizer que tivera uma. Mas agora, enquanto arrancava a uivos suaves os pequenos cacos que insistiam em agarrar-se a pele, percebera o óbvio. Aquilo não era um conto de fadas, não havia finais felizes ali e o máximo que conseguiria seria, nas melhores das hipóteses, oferecer-lhes uma morte torturante e nada digna. Não podia roubar-lhes isso. A vida que nunca tivera e lhe foi possível experimentar não iria usurpar justamente daqueles que a ofereceram. Se não por amor, pelo pouco de juízo que ainda lhe restava. A chuva que agora caía obrigou o pontinho vermelho na rua enegrecida pela noite sem luar a se levantar e se arrastar até um local que evitasse aquela sensação de vira-lata imundo. Encontrou uma loja fechada, com uma escada de 3 ou 4 degraus em sua fachada. Lá o toldo evitaria que se molhasse e, já que ali a iluminação precária da rua não batia, ficava como um vulto negro, invisível. Tinha uma boa visão da cidade ali. Via pessoas correndo pela calçada, completamente encharcadas. Algumas protegendo papéis ou pastas em seus ternos executivos, outras riam com seus


companheiros. A última visão fez com que seus olhos ardessem e gotas rolassem por toda extensão daquele rosto derrotado, como uma correnteza que passa sem pedir licença. - Malditos sejam os anjos da noite. Malditos sejam os anjos do Sol. Malditos sejam todos os anjos. Malditos sejam... - Sussurrou ao silêncio. Sussurrou a si mesma.

2 Enquanto caminhava pela cidade, sem qualquer menção de se esconder da garoa agora recomeçada, a jovem Ella percebera algo que não esperava que acontecesse pelos próximos, vejamos, quinhentos anos. A corrente de prata, com furos levemente projetados por toda sua extensão, terminando, finalmente, nas asas azuladas de um anjo inexistente, não estava mais em seu pescoço. A corrente que por tanto carregara e que veio até mesmo a fazer parte dela, agora lhe fazia falta, como um braço ou uma perna fariam. Encontrou-a no bolso esquerdo do casaco, ao apalpá-lo. Suspirou aliviada. Tudo parecia ainda mais estranho à sua volta. A cidade que nunca dorme agora estava às escuras, entre poucas casas iluminadas, onde seus donos mantinham-se, o quanto podiam, longe do frio perturbador que varria o próprio ar com uma ferocidade doentia. Ella lembrou-se de uma canção e cantarolou-a até dobrar a esquina da sempre inquieta Rua Principal. “Pouca gente sabe, mas à noite o frio é quente...”. Naquele momento, sua voz faltou-lhe. Um amontoado de pessoas fazia com o burburinho sobre a rua aumentasse e chamasse cada vez mais atenção. Ella pensou em desviar-se, mas não pode fazer-lhe antes que seus olhos quase saltassem da cara, e o coração se comprimisse e palpitasse como se quisesse correr uma maratona, desde que fosse longe dali. O rosto do garoto ali desfalecido fez com que seu estômago se encolhesse ao tamanho da semente de uma ervilha.


- David... - sussurrou, enquanto, com dificuldade descomunal irrompia aquele círculo inquebrável de curiosos e caía de joelhos sobre o corpo inexplicavelmente ainda quente. Não respirava mais e seus ossos faziam-se rígidos como uma rocha. Não precisava de muita esperteza para dar-se conta de que não restava mais nada dele ali. O corte avermelhado em formato de cruz sobre seu peito deram-na um tipo de calafrio que nunca sentira antes. Alguns chamam isto pelo nome, talvez seja medo. Se ainda lembrava-se de tal sentimento não sabia responder...

- Você o conhece? – uma voz feminina indagou-a, por cima dos ombros. Ella virou-se e enquanto o fazia sentiu de novo o mesmo calafrio. Pôde perceber a expressão misteriosa que a mulher lhe lançava, e da qual, por motivos que não conhecia, não conseguia fugir. - Conheci. - despejou, enquanto tentava não cair de joelhos outra vez. – Sabe me dizer o que aconteceu com ele? – Nesse momento, seus olhos arderam e soube que as gotas que escorriam sobre seu rosto não eram mais efeito da chuva. Queria ter alguém a quem abraçar. Queria ter, pelo menos, alguém que lhe sacudisse e lhe dissesse docemente que tudo não se passava de um sonho. Mas sabia que isso não aconteceria. Primeiro, porque estava habilmente lúcida. Segundo, e o pior de tudo, era que não tinha nem alguém, nem abraços. O máximo que tinha eram aqueles gigantes olhos de naja fitando-a.


Capítulo 1 e 2