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O teatro da ira

CAPITULO 1

A

noite era seca e sufocante. O quarto era decorado com tapeçarias exóticas e sedas caras. A garota a mera sugestão de uma existência. Demorou um tempo para perceber que estava acordada. Era sempre assim quando os sonhos a levavam longe demais. Em silêncio, no quarto ainda recheado com os mistérios da noite, ela começou a juntar as peças do quebra-cabeças que se tornavam o seu despertar. Sabia que aqueles momentos eram os mais importantes. Não haviam dúvidas em seus sonhos, não haviam dúvidas em seus dias. A incerteza permanecia naquela penumbra entre o sonho e a realidade, embora ela não tivesse nenhuma dúvida sobre de que lado estivesse a luz. Sem precisar ser chamada, atendendo a um sinal que a garota não se lembrava de ter dado, sua aia estava parada ao seu lado aguardando ordens. A garota olhou para a pequena silhueta que se projetava contra a parca luz que vinha da janela procurando entender se ela estava realmente ali. Criaturas estranhas permeavam seus sonhos e ela não gostava de encontrá-los quando não estava dormindo. A aia perguntou se ela precisava de alguma coisa em um tom que beirava as lágrimas, o su�iciente


para convencer a garota de que ela não era um fantasma de seus sonhos. Só sua aia podia ser tão covarde. Era fácil entender porquê os colonizadores de além mar haviam escravizado aquele povo. Tudo em seus modos cheirava a servidão. Não por menos eram chamados de dhäeni, pelos antigos. Servos. E embora aquela pequena dhäen tivesse vivido para criar duas gerações de sua família e fosse viver por pelo menos mais duas vezes isso, ela se curvava sobre si de olhos baixos, voz tremula e subserviência em sua voz. A garota ainda tentava se convencer de que aquele povo não era mais escravo. – Chá. – Sua voz era rouca como um sussurro brotando de uma caverna. A aia demorou só um instante a mais para saber se isto era tudo e desapareceu no mais completo silêncio, como só os melhores servos eram capazes de fazer. – Evhin? – A garota chamou novamente. De algum lugar de perto da porta ela ouviu a aia responder como se tivesse sido repreendida por algo e balançou a cabeça quase decepcionada. – Chame também um mensageiro. Alguém de con�iança. Um homem com �ilhos. Alguém que ainda não tenha caído nas graças de Círius. – Imediatamente, shäen. – A aia respondeu antes de desaparecer mais uma vez. A garota havia �inalmente encontrando os pedaços de seu sonho e enquanto os colocava em ordem percebia que o tempo era curto. Talvez, curto demais. Ela precisava enviar uma mensagem para o sul tão rápido quanto o vôo de um pássaro e não con�iava nos meios mais simples de fazê-lo para tratar do assunto que precisava tratar. Entendendo a urgência de tudo aquilo, se levantou, derrubando no chão os lençóis amarrotados e colocou-se a andar pelo quarto, tentando amarrar as pontas que ainda pareciam frouxas no emaranhado de nós que formavam a tapeçaria de seus planos. Um homem com o coração da guerra ardendo em sua mão. A garota pisou no chão de mármore úmido do balcão de seu quarto e olhou para o dia cinzento que lutava contra as trevas do lado de fora. As ruas da cidade já haviam despertado a muito tempo, no amontoado de homens e mulheres que ganhavam o pão com o suor de seu rosto. Todos tão felizes. Tão pateticamente felizes. As torres da Cidade da Névoa, porém, permaneciam adormecidas. Todas, menos a Torre dos Fundadores. 2

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A garota olhou para as luzes que nunca dormiam no último andar da torre que se projetava imaculadamente branca no centro do jardim labirinto e fez uma prece a seus ancestrais, sem saber muito bem porquê. Quando era uma garotinha sonhava em atravessar o labirinto, em encontrar a porta da torre e subir suas escadas para roubar o tesouro dos fundadores. Como era estúpida. Ficou imaginando quantas crianças haviam desaparecido entre aqueles corredores. Anderno�h já devia ter poupado uma fortuna em julgamentos tão grande quanto a lenda do tesouro dos fundadores. Não por menos os mais pobres a chamavam de Torre dos Sonhos. Era naquele pedaço absurdamente branco de mármore que eles colocavam todos os seus desejos. Mas ninguém nunca voltava do labirinto. Ela sabia que, de uma forma ou de outra, estava seguindo seu próprio labirinto e que estava atravessando a sua porta naquele instante. Não havia muros de arbustos e trepadeiras nas suas paredes, mas haviam tramóias e mentiras, conspirações e desejos escusos. E no seu centro, como naquele monumento, havia um tesouro oculto; todos os seus sonhos. Sentiu o vento arrepiando sua pele e só então se deu conta que ainda se encontrava nua. Cobriu-se com as mãos. A nudez não a constrangia, mas o frio sim. Acreditava que as roupas, mesmo as mais �inas, aprisionavam seus sonhos e ela não tinha tempo nem para as mais �inas barreiras. Algo naquele pensamento a fez perceber como estava cansada. – O mensageiro está aqui, mea shäen. – A voz de Evhin tremulou antes que a garota pudesse se virar. Olhou outra vez para a Torre dos Sonhos e percebeu que as luzes já não pareciam tão vivas a medida em que o dia ganhava coragem. Abaixou a cabeça, fazendo outra oração em nome daqueles que agora estavam vivos em seu sangue, em suas cinzas e em suas lembranças e temeu que algum daqueles seus ancestrais tivesse um apreço maior por seu pai, ou por um dos seus irmãos, do que por ela. – Traga-me algo para vestir, Evhin. – A garota pareceu mais cansada do que pretendia, mas seus últimos dias haviam sido exaustivos. Havia vasculhados sonhos sem conta, atrás dos peões que faltavam para o seu jogo. Agora que o tabuleiro parecia completo, era hora de começar a partida. Evhin apareceu segundos depois com uma túnica de tecido tão �ino que disfarçaria pouco da sua nudez. A garota o vestiu sentindo o tecido Chamas do Império: O Teatro da Ira

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delicado deslizando por sua pele dourada, como a caricia de um amante. Ela sorriu e mordeu os lábios rosados. Evhin penteava os seus cabelos louros com bastante cuidado, mas ela não tinha tempo a perder com tais bobagens. Calçou sapatilhas baixas de veludo vermelho e caminhou com passadas longas de volta ao seus aposentos. A luz já era uma realidade no mundo e a garota podia ver bem seu mensageiro. Talvez o reconhecesse de algum lugar da torre, mas não estava tão certa. A garota parou diante dele observando-o curvar-se como uma ovelha e sentou-se em um cadeirão imponente que emprestava-lhe um ar majestoso. Ela gostava daquilo. Sua aia lhe serviu o chá e o cheiro de mel e especiarias tomou conta do ar ao seu redor como se fosse capaz de aquecê-la. A garota olhou para o homem tentando demonstrar mais atenção do que realmente sentia. Não era muito velho, mas tinha uma aparência cansada e rota. – Você sabe quem eu sou? – A pergunta fora feita em voz baixa, com um sorriso levemente ameaçador. O homem tentou responder, mas só conseguiu balançar a cabeça. – Diga. – Lady Thalla, Filha de Lorde Círius. – O homem gaguejou, como se estivesse no meio de uma invocação demoníaca. A garota balançou a cabeça e deu um longo gole em seu chá. – Então, também sabe o que eu posso fazer? – O homem balançou a cabeça novamente, mas agora de forma �irme e pro�issional. Thalla respirou fundo, tentando desvendar seu coração. – Tenho uma mensagem para enviar. Preciso de um homem que possa cavalgar rápido, sem fazer perguntas demais. Quando a mensagem chegar ao seu destino, este homem e seus �ilhos serão muito bem recompensados. Quantos �ilhos você tem? – Quatro, senhora. Três rapazes nascidos do meu casamento. Uma menina, nascida em uma de minhas viagens. – A resposta fora dada no mesmo tom pro�issional de antes, sem qualquer sombra de mentira. Thalla gostou daquilo. – Os garotos são mensageiros, como o pai? Serão todos colocados aos meus serviços então. E sua �ilha trabalhará no palácio. Estarão todos sob meus cuidados, até que retorne de viagem. Tenho muito o que fazer e um pouco de ajuda será bem-vinda. Você pode cavalgar rápido? 4

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– Tão rápido quanto a montaria permitir, senhora. – A montaria é rápida. – Thalla sinalizou para Evhellyn e a garota lhe trouxe papel, pena e seu selo. – Vou lhe entregar ordens que lhe forneçam montaria descansada pelo caminho e dinheiro para que nada o impeça de chegar. Trabalhe bem e será recompensado. Me decepcione e seus �ilhos irão lamentar pelo pai que tiveram. Evhin, a cera. Se houve qualquer surpresa do mensageiro sobre os termos de Thalla, ele a escondeu bem, o que a garota julgou como um bom sinal. A dhäen esquentou a cera vermelha no fogo de uma vela. Por um instante o mensageiro pensou que ela pudesse estar conversando com a pequena chama que se inclinava para ouvir com atenção. Um arrepio involuntário correu pelo seu braço ao perceber a feitiçaria. Dhäeni eram servos úteis, cheios de magias e maldições. O medo que chegou até ele não tinha nada a ver com a maldição que ela provavelmente colocava no sinete. Sobrevivera a todos aqueles anos porquê se negava a ter conhecimento dos jogos dos nobres. Ele apenas tinha medo dos dhäeni, agora que estavam livres. Tinha medo do que eles podiam fazer. dhäeni Thalla selou sua carta com a cera visgosa e a estendeu para o mensageiro com um gesto puramente burocrático. O homem deu um passo respeitoso para alcançar a mensagem, mas Thalla não a soltou de pronto. Segurando-a entre os dedos procurou no fundo dos olhos daquele homem qualquer sombra de traição. Viu-o enrubescer quando seu olhar passou pela sombra dos seus seios visíveis através do vestido. A garota sorriu e dispensou-o com um aceno. O mensageiro se apressou em direção da porta, onde parou por um instante. – Senhora, me perdoe. Eu ainda não sei para onde estou indo. – Thalla tomou outro gole de chá, feliz pelo efeito que havia provocado. O homem esperou na porta, sem voltar a se aproximar. Obviamente não haveria endereço no envelope. Ela olhou para Evhin com uma expressão quase entediada com tudo aquilo. – Illioth. – Evhin falou. – Ao palácio. Espere lá fora, eu te ajudo com os detalhes. – Thalla viu o mensageiro saindo e fechando a porta atrás de si. Os peões estavam em movimento e ela havia conseguido alguma vantagem bisbilhotando os sonhos dos outros. Thalla sorriu e tomou outro gole do chá que já parecia frio. Chamas do Império: O Teatro da Ira

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– Grandes reis começam uma guerra com um grande exército. Reis Grandiosos começam uma guerra com uma faca para cortar gargantas. Basta uma faca a�iada, para começar uma guerra, e cortar a garganta certa. – Evhin retirou a bandeja de chá e viu Thalla se espreguiçando particularmente animada. Sabia que aquele era seu momento mais perigoso. Não existe faca mais a�iada, do que o coração de uma mulher. A dhäen ainda pensou. Em seguida pediu licença e foi ter com o mensageiro, para acertar todos os detalhes as quais Thalla não gostaria de se envolver. Mais uma vez sozinha em seu quarto, a garota bocejou e fechou os olhos. – Agora, vamos encontrar um assassino. – Com o coração da guerra ardendo em sua mão. Thalla sorriu para o quarto vazio. ••• A égua de dhun Marhos Grahan era uma das montarias mais cobiçadas de todo o Império. Grahan a havia comprado de um mercador em Lausarlot que dizia tê-la trazido do sul, das terras além do Deserto de Sal, onde os homens não queimavam seus mortos, permitindo que seus espíritos vagassem pela terra. Era alta como nenhuma outra, com pernas longas que corriam como o vento, infatigável e feroz. Seu preço havia sido indecente a qualquer homem de posses, mas para dhun Marhos Grahan, o homem de con�iança do Imperador, custou apenas uma carta selada com o leão do oeste. A resposta desta carta foi como um baú cheio de prata. Grahan batizou-a como Mensageira do Oeste e colocou suas longas pernas a serviço do Senhor de Karis, onde elas jamais haviam fraquejado. Mas mesmo a égua mais veloz das terras de Karis parecia meio cansada, quando o cavaleiro a desmontou. Havia um cavalariço a postos para a sua chegada, um dhäen de aparência mirrada e assustados olhos violetas que estremeceu ao receber as rédeas da Mensageira em suas mãos. Com passos largos, o Magistrado do Império se afastou, deixando o dhäen afagando o nariz de sua égua enquanto lhe cantava uma cantiga de conforto. O acampamento parecia agitado. Dois intendentes haviam se colocado ao lado de Grahan tão logo ele desmontou, para levá-lo até o imperador, 6

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mas ele não era homem de ser guiado por ninguém. Pisando a terra lamacenta com força, deixou-os desesperados para trás. Podia ver os estandartes de todas as famílias e casas que marchavam com o imperador no alto das tentas. No mastro mais alto, porém, o brasão do Império com o Leão e o Sol sobre tecido carmim, ofuscava a todos em sua majestade. Grahan sentiu um orgulho quase �ísico ardendo no rosto queimado pelo vento gelado. Dhun Marhos Grahan, o Magistrado do Império e homem de con�iança do Imperador havia viajado por toda a extensão de Karis. Dos Ermos do Oeste até as Colinas das Lágrimas ao Leste. Da Fronteira dos Crânios ao Sul, até a Espinha do Dragão ao Norte, mas todas as vezes que se encontrava diante do pavilhão �lutuante do imperador, sentia a mesma vertigem. A estrutura era uma coisa monstruosa, encabeçando o alto do pequeno morro como uma construção de madeira, lona e metal escurecido; comprida como a proa de um barco, com uma torre baixa no seu centro de onde uma fumaça esbranquiçada demonstrava o funcionamento de sua grande fornalha. Grahan havia viajado nela duas vezes e tinha se surpreendido com como ela parecia estável quanto se levantava do solo. Navegá-la era um truque complexo, envolvendo uma tripulação tão grande ou maior do que qualquer navio mercante, mas ela nem de longe sacudia tanto e podia levar o imperador mais rápido do que qualquer navio daquele mundo, onde nenhum navio era capaz de navegar. Seu interior era confortável, com um salão grande o su�iciente para o Imperador receber seus comandantes diante de um trono esculpido de um grande tronco de madeira dourada, com um leão de cada lado. Grahan ouviu o martelo batendo diante da estrutura e diminuiu as passadas para se dirigir ao ferreiro. O homem tinha o peito largo e brilhante de suor, apesar do frio que estava fazendo, um �ísico esplêndido, aparentando não mais do que trinta anos, apesar de estar mais próximo dos quarenta. Seus longos cabelos dourados haviam sido amarrados em um desajeitado coque em sua cabeça e a boca arfava a cada golpe, compenetrado no que parecia ser uma ferradura. Dhun Marhos Grahan aguardou sem sorrir. O ferreiro apanhou a ferradura em brasa e a mergulhou na água, onde ela chiou soltando borbulhas, até se afogar em silêncio. Chamas do Império: O Teatro da Ira

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Quando o ferreiro limpou o suor da testa alta se deu conta da presença de Grahan e sorriu. – Vossa Majestade Imperial. – Grahan caiu sobre o joelho e abaixou a cabeça, em sinal de respeito. – Eu continuo odiando quando você faz isso, Marhos. – A voz do imperador trovejava sem esforço, mas a reprimenda parecia cheia de afeto. – Vamos, levante-se! Eu o abraçaria se não estivesse tão sujo. Grahan não sabia se deveria se sentir grato, ofendido ou ansioso. Como não sabia o que dizer, preferiu o silêncio. Era o jeito certo de não parecer estúpido. Os intendentes �inalmente alcançaram o magistrado, bufando com os rostos vermelhos e constrangidos pela falha na simples tarefa. O imperador não tinha se dado conta deles, mas Grahan lançou-lhes um olhar reprovador. Se estivessem aos seus serviços teriam cometido aquele erro. Em um instante eles �izeram aparecer toalhas para o imperador, bem como um jarro de água limpa e uma bacia. O imperador se lavou e se enxugou antes de avançar e abraçar Grahan, para o seu constrangimento. – É muito bom te ver. – O imperador era sincero e se perderia em cortesias sem conta, se lhe fosse permitido fazê-lo. Grahan não sabia lidar com nada daquilo, mas foi o mais cortês que pode em suas respostas curtas sobre sua viagem e os perigos pelo qual havia passado. O Imperador Artheen Garantar era o segundo �ilho de um segundo �ilho e não havia sido criado para se sentar em um trono, uma situação que incomodava tanto a ele quanto aos senhores que lhe deviam �idelidade. – É bom vê-lo com saúde, majestade. Como estão seus �ilhos? – Fortes e cheios de energia, pelo que sei. Um campo de batalha não é lugar para crianças. Mesmo assim, Grahan podia avistar uma centena delas correndo pelo acampamento. Filhos nobres e bastardos, misturados com animais e homens de armas, sujos de lama e excrementos enquanto iam sendo arrebanhados por algumas das muitas mulheres que seguiam os soldados. Metade daquelas mulheres e crianças �icariam pelo caminho, quando os homens voltassem para suas verdadeiras famílias. Se retornassem. – É melhor entrarmos. – o imperador jogou a toalha suja para um dos 8

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seus intendentes e escancarou o portão do pavilhão �lutuante deixando as botas enlameadas ao lado da porta. Grahan seguiu seu exemplo e �icou feliz em ver que estavam sozinhos. O imperador olhou para o trono dourado por um longo tempo e balançou a cabeça, como se tentasse se livrar de algum pensamento que lhe assombrava. – Eu nunca quis esse trono. Foi a Imperatriz quem insistiu que um salão imperial, mesmo um itinerante, precisava de um trono. Eu me contentaria com uma boa cadeira à cabeceira da mesa e um estúdio privado para trabalhar, mas você conhece as mulheres, Marhos. O trono foi presente dos eldani, seria impossível recusá-lo de toda forma, mas não consigo me livrar da sensação de que a Imperatriz teve algo a ver com isso. Meu irmão estava certo ao não se casar. – O povo ainda sente sua falta, Majestade. – Sente? Sim, certamente sente. Eles não conseguem me ver como Imperador. O segundo �ilho de um segundo �ilho... um imperador de mãos calejadas. Artheen o Ferreiro... ou Artheen o construtor. Não importa todo o bem que eu �iz ao império, eles ainda preferem meu irmão. Não cabia a Grahan repreender o Imperador e ele não o fez. Mantevese em silêncio, enquanto Artheen mastigava seus pensamentos, o que parecia capaz de durar inde�inidamente. Grahan abriu a boca e a fechou duas vezes, antes de Artheen mandá-lo falar de uma vez. – Majestade... – En�ie a merda da Majestade no cu, Marhos! Eu te conheço a tempo demais para isso. Quando éramos pequenos e você quebrou o meu nariz, não era de majestade que você me chamava, mas de grandíssimo monte de bosta. Grahan precisou de um instante para absorver a reprimenda, �icou feliz por estarem sozinhos, ou teria que lidar com os sorrisos e olhares dos outros homens do imperador. Por �im tomou coragem e falou. – Majes... Artheen – apressou-se em corrigir e pareceu estremecer como se um raio estivesse prestes a cair sobre sua cabeça. – O povo amava seu irmão... mas também o temia. Eles acham que o Imperador é muito brando com seus inimigos... – Não me venha novamente com a história de Wedhon. – Dar um título a um dhäen... Chamas do Império: O Teatro da Ira

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O Imperador fuzilou-o com um olhar. Mas Grahan já havia começado e agora não desejava mais parar. – Muitos ainda lembram do tempo do seu avô e de como ele havia colocado os dhäeni... desculpe! Colocado os eldani em seu lugar, revogando o pacto... Artheen suspirou pesadamente. Era muito jovem quando colocou a coroa sobre sua cabeça, mas tinha uma idéia clara do que devia fazer para mantê-la. Ele precisava de paz com os eldani, ou teria as mãos amarradas. Seu irmão havia morrido sem conseguir sufocar a rebelião, ele não podia se dar o mesmo luxo. Wedhon era um gigantesco pedaço de �loresta quase inabitada e o pacto selado por seus ancestrais dava aos eldani a liberdade que o antigo império havia lhes negado. Durante quase dois mil anos o pacto levou prosperidade a Karis. Seu avô havia sido ambicioso e louco. Seu tio louco e rígido. Seu irmão mais diciplinado do que rigido. O que ele seria? – A estrada Norte-Sul está livre, novamente. Whedon cuida bem do trecho que atravessa a �loresta e ouso dizer que existe menos mortos ali do que em qualquer outro lugar. Diga logo o que você quer dizer, Grahan! Menos mortos pois seus corpos não são encontrados. Foi a sua vez de respirar profundamente, guardando o comentário para si. Artheen era um homem bom, mas tinha sangue de leão nas veias e fazia muito tempo que Grahan duvidava ser capaz de partir seu nariz. – Existem boatos vindos do sul, falando em rebelião, senhor. A expressão no rosto de Artheen era indecifrável. Os olhos verdes profundos passearam de seu rosto pelo aposento, terminando no teto como se ele pudesse perfurá-lo e ganhar as nuvens. – O que você sabe? – Pouco. Na verdade, não parece ter muito a saber. Os senhores menores parecem insatisfeitos. Muitos deles usavam os dhäeni em suas terras e mão de obra escrava era melhor do que mão de obra arrendada. Também falam sobre o valor dos impostos... – A guerra custa caro, Grahan. Estradas e fortalezas também. – Mas eles não vêm nada disso no Sul e acham que o Norte vem esbanjando seu dinheiro. O Imperador re�letiu sobre aquilo por um tempo. Os homens das 10 • Capítulo 1


terras geladas haviam atravessado a Espinha do Dragão, julgando-o um imperador mais fraco do que seu irmão, ele estava respondendo aquilo com a guerra. Mas agora era o sul quem ameaçava explodir em chamas e ele não podia se dar ao luxo de ter um inimigo com uma faca em suas costas. Seu irmão havia dedicado uma vida a guerra e havia morrido para dar paz ao reino. Artheen nunca desejou para si aquele destino. Usou seu poder para agradar o povo e restaurar a justiça no império, mas mesmo assim eles pareciam odiá-lo. Sentiu-se cansado. – Você vai para o Sul com cem homens, mais tantos quantos puder reunir pelas cidades em que passar. Enviarei mensagens a sua frente, para que os reis em seu caminho saibam de sua viagem. Thuron irá recebê-lo em Illioth, ainda existe em sua casa o su�iciente do sangue do Oeste para ele ser �iel ao Império. Você vai lembrar os senhores do Sul a quem devem lealdade. Grahan assentiu, satisfeito. Era o Magistrado do Império e vivia para fazer valer as suas leis. Podia não concordar com seu senhor sempre, mas sabia que ele estava fazendo a escolha certa, naquele momento. Se os boatos sobre rebelião tivessem chegado aos ouvidos do imperador em outro momento, Artheen teria gargalhado e desconsiderado o assunto imediatamente. Mas os Cães do Norte tinham aberto suas mandíbulas e já estavam a poucas semanas da capital. Não podia se dar ao luxo de ver uma rebelião se espalhando pelos reinos. Pediu licença para o Imperador e saiu para preparar sua viagem para o sul. – Espere. – O Imperador o seguiu até lá fora e lhe entregou quatro ferraduras ainda mornas da forja. – Fiz para a Mensageira. Que seus passos nunca tropecem. Grahan recebeu o presente com um sorriso constrangido. É impossível não gostar dele. Com a licença do Imperador, ele partiu para cuidar das suas coisas. Artheen Garantar, �icou sozinho, encarando as vigas de madeira que ele havia colocado no lugar com suas próprias mãos. Em quinze dias estaria tão embaraçado na guerra contra os nortenhos que seria impossível olhar para trás. O sangue dos seus pais era forte em suas veias, mas ele Chamas do Império: O Teatro da Ira

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desejou que fosse tão forte quanto o dos seus antigos antepassados, que podiam enxergar além das montanhas e tanto o passado quanto o futuro. Tudo o que o imperador tinha, em seu sangue diluído por casamentos entre os reis do oeste e seus súditos do leste era um mal pressentimento sobre tudo aquilo. E uma vontade obstinada que não lhe deixaria desistir. ••• O prisioneiro já não sabia mais se era dia ou noite. Nos primeiros dias ele fora capaz de contar o passar das horas, enquanto os carcereiros trocavam os turnos e vinham visitá-lo para a surra do dia ou para a surra da noite. Com a atual falta de interesse deles, atravessa o tempo na espera de uma morte dolorosa. Fora jogado no fosso mais fundo dos sete infernos, havia revirado as paredes procurando por uma forma de escapar, mas não havia nada além de rocha e ratos ao alcance das mãos. E ele �icou feliz quando conseguiu apanhar seu primeiro rato. Deveria estar morto a esta altura. Esperou por uma morte imediata. Depois esperou por uma longa sessão de torturas. Nada. Fora jogado no calabouço do castelo junto com ladrões de pão e mal pagadores de impostos, enquanto ainda tinha os dedos sujos de sangue nobre. Algo lhe dizia que o lorde gordo não era lá muito popular. Em sua defesa, o gordo havia sacado a espada primeiro, apesar de nem ele nem seus amigos terem grande utilidade para uma lâmina. Encostou a cabeça na parede de pedra e fechou os olhos sem perceber qualquer diferença. Os olhos fechados pareciam mais confortáveis, como se o fedor de merda e sujeira não os atingissem mais. Deixou sua mente escapar daquele lugar por um instante. Ainda podia se lembrar de como era o sol sobre sua pele e imaginou que isso deveria ser um bom sinal. A fome que atravessava seu estomago, não o incomodava tanto. Já havia passado fome antes. Também havia estado preso antes. Eram as trevas e o silêncio que realmente o incomodavam, como se ele tivesse sido apagado do mundo dos vivos. Mesmo os seus colegas de cela pareciam terem sidos consumidos pelas sombras, devorados pelas trevas. Atravessavam as paredes sem o menor ruído. Fantasmas de um mundo que os havia esquecido. 12 • Capítulo 1


Da vez anterior em que havia sido con�inado era tão pequeno e tão selvagem que haviam lhe colocado em uma jaula, pouco maior do que uma armadilha para raposas. Tinha �icado pendurado num dos cantos do salão de jantar durante dois dias, rosnando e sacudindo o arame da jaula que ameaçava cortar sua carne. Era quase um animal, naquela época. Um cão de caça, rastejando pelo chão do monastério comendo os restos que tinham caído da mesa dos nobres e abocanhando o calcanhar dos pés que se voltavam contra ele. Eles o chamavam de mastim e achavam graça em sua ferocidade. Não acham mais. Sentia frio. Sabia que o lugar estava quente como o inferno e percebeu que deveria estar febril. Estava vivendo en�iado na merda alheia a dias, comendo uma lavagem rançosa do tipo usada para alimentar os porcos, isso quando tinha comida, o que não acontecia a algum tempo. Depois, o rato. Sim. Se algo havia lhe passado uma doença, teria sido aquele rato. Estava morto e fedorento e o prisioneiro sabia que não deveria comê-lo. Mas se não o �izesse naquele instante, ele só �icaria mais fedorento com o passar dos dias, quando a fome seria maior e ele achou melhor não desperdiçar aquela chance. Imediatamente se arrependera, havia vomitado e se cagado até não haver mais nada dentro de si para depois começar a vomitar e cagar partes de si mesmo. Dias antes de entrar naquela estalagem, havia recusado um prato do ensopado de Khirk por não ter mais do que batatas e uma cenoura. Ele daria um braço em troca de um prato daquela sopa rala agora. Tentava imaginar onde estaria Khirk. Tudo havia acontecido tão rápido e sem aviso... As mesas se virando, as cartas no ar, o barulho das espadas, gritos de terror, golpe e contra-golpe. Sangue quente caindo sobre seus pés. O prisioneiro se lembrava de ver o dhäen ao seu lado do meio da briga, mas não sabia o que tinha acontecido com ele. Esperava que não estivesse morto. Devia muito a ele, para deixá-lo morrer daquele jeito. Mas não pode evitar. Quando entraram na estalagem, não havia nada que ele quisesse mais do que uma boa noite de sono, exceto talvez um bom pedaço de carne com cerveja. A discussão sobre hospedar um dhäen num quarto já era uma rotina esperada, a mulher do estalajadeiro havia pedido para Chamas do Império: O Teatro da Ira

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esperarem o marido dela voltar ao balcão. Khirk sorriu e sacudiu a cabeça, certamente esperando por mais uma noite nos estábulos. Ele se virou procurando um lugar para sentar. E lá estava o lorde Gordo. O prisioneiro o havia reconhecido, embora tivesse demorado um pouco para que o rosto atravessasse a barreira dos anos. O gordo mantinha o rosto sem barba e ainda roncava enquanto ria, o que ajudou muito a trazer de volta lembranças que ele tentava sufocar todos os dias. Os passos do prisioneiro se tornaram lentos e etéreos, como se caminhasse em seus próprios pensamentos. O gordo não tem pinto! Os outros cantavam, enquanto o gordo abaixava as calças e arrancava a camisa. O gordo não tem pinto! Ele ouviu a voz de Liliah lhe chamando. O gordo não tem pinto! Ele disse sorrindo quando o Lorde Gordo e seus homens �icaram em silêncio. Alguém deve ter perguntado se ele sabia com quem estava falando. Alguém deve ter exigido desculpas. Alguém deve ter dito que o Prisioneiro devia ser só um bêbado maldito procurando encrenca. Alguém deve ter rido e concordado com ele sobre o gordo não ter pinto. Ele não ouviu nada daquilo. Ele e o lorde gordo trocaram um longo olhar, enquanto o prisioneiro torcia para ser reconhecido. Eu disse que voltaria pela sua cabeça! Ele continuou sorrindo. E então o gordo se levantou chutando a cadeira para trás, tão assustado como se um demônio estivesse diante de si. Não um demônio. Um cão do inferno. Um mastim. O gordo sacou a espada primeiro, sendo seguido pelos seus companheiros. O prisioneiro deveria ter morrido naquele instante, enquanto ainda estava confuso tentava se livrar das memórias. Um dos homens estava prestes a rachar a sua cabeça com a espada, quando uma �lecha atravessou sua garganta. Ele sabia de quem era a �lecha e não esperou que outra surgisse para salvá-lo antes de sacar a espada e dar cabo ele mesmo do segundo homem. O gordo e um terceiro homem haviam se afastado, mas voltavam para a briga, como se pudessem assustá-lo com gritos. A coisa toda havia durado um minuto. Uma dezena de guardas haviam invadido a taverna enquanto o prisioneiro lutava para arrancar a cabeça do gordo, como um açougueiro com um cutelo cego. Ele estava coberto de sangue e nem resistiu enquanto os guardas o levavam. Apenas ria. “O gordo não tem mais pinto. Nem cabeça!” 14 • Capítulo 1


O julgamento fora imediato e breve. Os guardas o levaram para alguém que certamente se parecia com um nobre para que a história toda fosse ouvida. Tinha sido algemado a um pesado tronco e previamente surrado pelos homens que o haviam capturado. O estalajadeiro jurou que o prisioneiro partiu para cima do nobre como um lobo atrás de uma presa. Um lobo não, ele corrigiu, um mastim! E essas foram as únicas palavras que eles ouviram da sua boca antes de esmurrá-lo e jogá-lo nas celas. Esperavam por um magistrado, ele sabia. Nenhum homem podia ser morto sem que um magistrado ouvisse sua história. O magistrado registrava tudo em um grosso livro e proclamava a sentença em nome do Imperador. Se o prisioneiro morresse por causa da surra, da fome ou da febre, porém, pouco era feito a respeito disso. Exceto nos casos em que uma família viesse proclamar sua inocência, neste caso seria pago a família a compensação do sangue. Toda a família do prisioneiro era um dhäen que estava foragido ou morto, e que de um jeito ou de outro não pediria compensação alguma por sua morte. Por um instante �icou imaginando qual seria o seu valor. “Muito menos do que um gordo sem pinto!” Ele sorriu, sem nenhum arrependimento. O sorriso se tornou em um riso nervoso, que fazia suas juntas doerem, para se tornar um esgar de desespero e uma tosse violenta. Vomitou novamente, seu estomago doía e ele já não sabia o que era a surra, a fome, ou a doença. Abaixou a cabeça esperando ser �inalmente levado pela morte. “Você prometeu!” Liliah o recriminava. Ele podia ver os pequenos pés descalços no chão a sua frente, mas não tinha coragem ou forças para erguer sua cabeça. ““A serpente e a lança; o leão com asas; a águia de duas cabeças; a torre e a lua; o cavalo com chifres; o touro em chamas; a aranha púrpura. Ainda faltam cinco. Você prometeu!” – Eu não posso. Não consigo. Não posso, Liliah! – Engasgava com as palavras, sua voz soava rouca e distante, fazia força para não chorar. “Você prometeu!” E o que aquilo queria dizer? Era só um homem. Havia dado sorte e dois deles estavam mortos, um gordo que havia encontrado por acidente em uma taverna e um coletor de impostos que por pouco não levara Chamas do Império: O Teatro da Ira

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sua cabeça como suvenir. Tinha conhecimento de mais um, mas nunca chegaria perto dele, dos outros apenas uma vaga lembrança. Eram monstros em seus sonhos, criaturas cujo rosto lembravam super�icialmente as feições humanas. “Você prometeu!” Os pezinhos descalços se bateram contra o chão. – Estou morrendo. – Ele sorriu ao dizer aquilo. A idéia pareceu estranhamente reconfortante naquele momento. – Sinto muito, Liliah! Uma mão branca e azulada levantou o seu queixo, mas ele se recusava a abrir os olhos para encará-la. Estava morta. Era um fantasma. Seria uma criatura sombria e cadavérica, ele não queria olhar pra ela. Não queria ver o que eles tinham feito a Liliah. ““Abra os olhos!” Ela ordenou. E aquele homem que fora chamado de cão selvagem e assassino monstruoso, estava a beira das lágrimas e apavorado, mas abriu os olhos. A mulher que o encarava não se parecia com Liliah, mas também não parecia ser real. Seu rosto oscilava a luz de um pequeno sol, fazendo seus olhos gritarem de dor. Seus olhos eram de um dourado tão profundo que pareciam duas piscinas de ouro derretido, tinha lábios grossos e muito vermelhos que sorriam para ele. “Você tem certeza?” Ela perguntou para alguém atrás dela. Uma sombra encapuzada caminhou em sua direção e se agachou diante dele, retirando o capuz de sobre a cabeça. Se os olhos da mulher eram piscinas de ouro, os olhos daquele dhäen eram como duas pérolas geladas, de um lado completamente coberta por uma tatuagem rebuscada. A cabeça do prisioneiro começou a girar e por um instante ele acreditou que a tatuagem se movia como um animal sobre sua pele. O dhäen sorriu para ele, com uma expressão preocupada e acenou com a cabeça para a mulher de olhos dourados. “Então vamos tirá-lo daqui.” Ela �inalmente disse. E tudo voltou a �icar escuro, em um instante. ••• O Teatro da Ira é o primeiro volume da série Chamas do Império e conta os eventos que deram início a Rebelião Separatista que terminou por destruir o Império de Karis, destruindo a Dinastia do Oeste. A cada 15 dias você encontra um novo capítulo da novela, publicada através do site www.chamasdoimperio.wordpress.com. Acesse para ler online, ou baixar em formato pdf.

O Teatro da Ira Cap. 01  

O Império está em chamas. De um um minuto para o outro, dois mil anos de civilização estão prestes a virar cinzas. Sangrentos campos de bata...

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