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BETH-SHALOM

www.Beth-Shalom.com.br

JUNHO DE 2006 • Ano 28 • Nº 6 • R$ 3,50


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Prezados Amigos de Israel

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Ano 70 d. C.: o “Beco Sem Saída” Profético do Preterismo

Notícias de

ISRAEL É uma publicação mensal da “Obra Missionária Chamada da Meia-Noite” com licença da “Verein für Bibelstudium in Israel, Beth-Shalom” (Associação Beth-Shalom para Estudo Bíblico em Israel), da Suíça. Administração e Impressão: Rua Erechim, 978 • Bairro Nonoai 90830-000 • Porto Alegre/RS • Brasil Fone: (51) 3241-5050 Fax: (51) 3249-7385 E-mail: mail@chamada.com.br www.chamada.com.br Endereço Postal: Caixa Postal, 1688 90001-970 • PORTO ALEGRE/RS • Brasil Fundador: Dr. Wim Malgo (1922 - 1992) Conselho Diretor: Dieter Steiger, Ingo Haake, Markus Steiger, Reinoldo Federolf

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Teologia Aliancista: o que Pensa Acerca de Israel?

Editor e Diretor Responsável: Ingo Haake Diagramação & Arte: Émerson Hoffmann Assinatura - anual ............................ 31,50 - semestral ....................... 19,00 Exemplar Avulso ................................. 3,50 Exterior: Assin. anual (Via Aérea)... US$ 28.00 Edições Internacionais A revista “Notícias de Israel” é publicada também em espanhol, inglês, alemão, holandês e francês. As opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade dos autores. INPI nº 040614 Registro nº 50 do Cartório Especial

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HORIZONTE • O retorno dos judeus à Inglaterra - 15 • Como é possível negar o Holocausto? - 20

O objetivo da Associação Beth-Shalom para Estudo Bíblico em Israel é despertar e fomentar entre os cristãos o amor pelo Estado de Israel e pelos judeus. Ela demonstra o amor de Jesus pelo Seu povo de maneira prática, através da realização de projetos sociais e de auxílio a Israel. Além disso, promove também Congressos sobre a Palavra Profética em Jerusalém e viagens, com a intenção de levar maior número possível de peregrinos cristãos a Israel, onde mantém a Casa de Hóspedes “Beth-Shalom” (no monte Carmelo, em Haifa).


O resultado das eleições em Israel não foi uma surpresa. Como se esperava, o Kadima – sob a liderança de Ehud Olmert desde que Ariel Sharon adoeceu – passou a ser a maior força política e formou o novo governo. A grande surpresa foi o sucesso do partido Gil, fundado por aposentados pouco antes das eleições. De saída, ele conseguiu sete assentos no novo Parlamento israelense. Essa demonstração de força é uma prova da vitalidade da democracia israelense. Por outro lado, também trata-se de um sinal de que a população não está mais disposta a aceitar cortes na área social em troca de investimentos em setores aparentemente mais importantes. Esse novo partido também foi um dos primeiros a apoiar o governo chefiado por Olmert. Em resumo, a situação política israelense não mudou substancialmente. O grande perdedor foi o Likud, agora liderado por Benjamin Netanyahu, que rejeita a desocupação unilateral dos territórios palestinos se não vier acompanhada de um acordo com os palestinos. Ehud Olmert e seu partido Kadima, por sua vez, exigiram de todos os potenciais parceiros de coalizão uma declaração por escrito de que não vão se opor à desocupações de outros assentamentos. Muitos em Israel se perguntam como Ehud Olmert pode praticar tal política. Afinal, em 1978 ele votou contra a resolução do bloco Likud e do então primeiro-ministro Menahem Begin de desocupar a Península do Sinai e de selar um acordo de paz com os egípcios. Nesse meiotempo, Olmert chegou à conclusão de que o tempo não trabalha em favor de Israel, que o “domínio estrangeiro” sobre os palestinos não pode ser estendido indefinidamente e que uma rejeição de “dois Estados” acarretará a queda de Israel, uma vez que a taxa de natalidade dos árabes é muito mais elevada que a dos israelenses. Por ocasião do trigésimo aniversário da morte de Ben-Gurion (que proclamou o Estado de Israel), Olmert o elogiou dizendo que foi um homem que não apenas teve a grandeza de concretizar a esperança e a visão de várias gerações, mas também se satisfez com o que foi possível realizar em sua época. Olmert citou as palavras de BenGurion: “Quando chegou a hora de decidir se queríamos um país em toda a extensão da terra de Israel, porém sem uma maioria judaica, ou se optaríamos por um Estado judeu sem a extensão

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territorial completa, decidimos por um Estado judeu”. Durante a campanha eleitoral, Ehud Olmert declarou-se disposto a desocupar a maioria das colônias, com exceção dos grandes assentamentos. Essa foi uma reedição da visão de Ben-Gurion acerca de um Estado judeu sem toda a terra de Israel. Aparentemente, não foi apenas Olmert a mudar de opinião. Os cidadãos israelenses também apóiam majoritariamente a separação dos palestinos. Do ponto de vista humano, esses são os bastidores de passos decisivos na história de Israel: a fixação de uma fronteira permanente. Mas também existe o lado divino com suas muitas promessas registradas na Bíblia. No final, as promessas de Deus se realizarão mesmo que muitos fatores pareçam conspirar em contrário. Confiando na fidelidade de Deus, saúdo com um cordial Shalom!

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Em anos recentes, um sistema de interpretação da profecia bíblica conhecido como Preterismo invadiu a Igreja, gerando confusão e divisão em muitas igrejas locais que historicamente criam com firmeza na futura volta de Cristo. Incentivado por pregadores de grande audiência no rádio, tais como R. C. Sproul, erudito de convicção reformada, autor do livro The Last Days According to Jesus [Os Últimos Dias Segundo Jesus] que propaga a posição preterista moderada, o Preterismo tem feito incursões em seminários evangélicos e estimulado debates públicos nos círculos universitários cristãos e teológicos. Embora a maioria dos crentes em Cristo nunca tenha ouvido falar dos fundamentos do Preterismo, tal perspectiva propõe uma abordagem da pro-

fecia bíblica que menospreza a esperança profética da Igreja, enquanto solapa o alicerce das promessas proféticas para Israel.

O que significa Preterismo? O termo deriva da palavra latina preter (i.e., “passado”). O Preterismo advoga a crença de que a maioria dos eventos proféticos (para não dizer todos) registrados no Antigo e no Novo Testamento já se cumpriram. À semelhança do Historicismo que interpreta o livro de Apocalipse como uma simbologia da história da Igreja, o Preterismo espiritualiza as profecias para que estas se encaixem nos eventos históricos da Era da Igreja. Contudo, diferente do

Historicismo, o Preterismo procura ajustar certas profecias (para não dizer todas) referentes à Segunda Vinda de Cristo e à restauração de Israel, a um acontecimento histórico específico ocorrido no passado. Como explica o preterista moderado Kenneth L. Gentry Jr.: As predições de Mateus 24.1-34 (e em relatos paralelos), proferidas no sermão do Monte das Oliveiras, cumpriram-se nos eventos relacionados com a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. No Apocalipse, a maioria das profecias registradas antes do capítulo 20 encontra seu cumprimento na destruição de Jerusalém.1 Os preteristas argumentam que o uso por parte de Jesus da expressão “esta geração” no sermão do Monte das Oliveiras exige seu cumprimento no primeiro século. R. C.

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Preterismo procura ajustar certas profecias (para não dizer todas) referentes à Segunda Vinda de Cristo e à restauração de Israel, a um acontecimento histórico específico ocorrido no passado.

Sproul, em especial, alega que se essa interpretação de cumprimento no primeiro século não for adotada, as palavras de Jesus falharam. Em comparação, o Futurismo (posição na qual cremos) afirma que o cumprimento literal das profecias messiânicas referentes à Primeira Vinda de Cristo assegura que o ensinamento profético de Jesus também deve ser interpretado literalmente. Portanto, o sermão do Monte das Oliveiras e o livro de Apocalipse terão seu cumprimento no futuro, mais especificamente durante a Tribulação e o Reino Milenar (i.e., o Milênio) de Cristo. Hoje em dia, dois tipos de Preterismo disputam a primazia entre si. O Preterismo Parcial, ou Moderado, é a versão mais popular. Apesar de alegar que a maioria das profecias (a exemplo dos acontecimentos referentes à Tribulação) se cumpriu no ano 70 d.C., esse tipo de Preterismo reconhece que alguns ensinamentos proféticos, tais como a Segunda Vinda de Cristo e a ressurreição corporal, ainda se cumprirão no futuro. Por essa razão, o Preterismo Parcial acredita em duas Segundas Vindas de Cristo: uma que teria ocorrido no ano 70 d.C., na qualidade de parousia (do grego: “vinda” ou “advento”) e Dia do Senhor, com o propósito de exercer juízo

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contra a nação de Israel, e outra Vinda, de proporções universais, que acontecerá no clímax da história humana, como o último e definitivo Dia do Senhor. Dentre os que advogam o Preterismo Parcial e que já publicaram defesas, popularizando sua posição, destacam-se: R. C. Sproul, Gary DeMar e Kenneth L. Gentry Jr., além de David Chilton que, após a publicação de seus livros em defesa do Preterismo Parcial, mudou de posição para o Preterismo Pleno. O Preterismo Pleno, ou Extremo, defende a idéia de que os crentes foram espiritualmente ressuscitados e que a criação foi espiritualmente restaurada, de modo que a Igreja, atualmente, existe no estado eterno de novos céus e nova terra. Segundo Thomas Ice, diretorexecutivo do Pre-Trib Research Center [Centro de Pesquisas Pré-Tribulacionistas] e um dos mais proeminentes especialistas em Preterismo, não há nenhuma evidência de qualquer interpretação preterista na história da Igreja Primitiva até a época da Reforma Protestante.2

A concepção do Preterismo acerca de Israel O Preterismo ensina que Cristo voltou no ano 70 d.C. para julgar Israel e dar fim à Era Judaica. À semelhança dos historicistas, os preteristas argumentam que as promessas feitas a Israel foram entendidas erroneamente como promessas nacionais. Portanto, a partir do momento em que Israel rejeitou a Cristo, tais promessas “espirituais” foram transferidas à Igreja, o “verdadeiro Israel”. Todavia, o Preterismo, que força a interpretação da maioria dos tex-

tos proféticos, principalmente daqueles que se referem à destruição de Jerusalém, para que seu cumprimento se encaixe nos acontecimentos relativos à Primeira Revolta Judaica, considera a destruição do povo judeu como o elemento central da profecia. Tal como afirmou o preterista David Chilton: O livro de Apocalipse não trata da segunda vinda de Cristo. Trata da destruição de Israel e da vitória de Cristo sobre Seus inimigos no estabelecimento do templo da Nova Aliança [...] o livro de Apocalipse profetiza o juízo de Deus sobre o Israel apóstata; e embora, resumidamente, mostre eventos que estão além de seu foco de interesse, faz isso como um “pacote”, para demonstrar que os ímpios nunca prevalecerão contra o Reino de Cristo.3 Para os preteristas, o povo judeu é o verdadeiro inimigo de Cristo; sua ruína infligida pelo exército romano, sob ordens de Cristo e por Ele enviado, é o triunfo de Jesus Cristo sobre o Anticristo. Na realidade, dizem eles, Cristo voltou espiritualmente no julgamento imposto pelo exército romano (portanto, uma vinda para juízo), cumprindo Sua promessa de “voltar sem demora”. De igual modo, o templo judeu é visto pelos preteristas como o centro da apostasia espiritual, e sua destruição é interpretada como o cumprimento da abominação da desolação, ou seja, o santo juízo de Deus causado pela perversa crucificação de Cristo promovida pelos judeus. Conseqüentemente, os preteristas rejeitam qualquer ponto de vista que preveja um futuro para o Israel étnico (desassociado da Igreja) e reputam por herético qualquer sistema escatológico que espere por uma restauração de Israel e de seu templo, pois isso seria o mesmo que rejeitar a Cristo e restaurar a blasfê-


Pois se fosse necessário que o nome dele [do Anticristo] tivesse de ser revelado neste tempo presente, teria sido dito por aquele que contemplou a visão apocalíptica. Porque não foi contemplado [o Apocalipse] há muito tempo atrás, mas quase em nossa geração, próximo ao fim do reinado de Domiciano.7

O templo judeu é visto pelos preteristas como o centro da apostasia espiritual, e sua destruição é interpretada como o cumprimento da abominação da desolação, ou seja, o santo juízo de Deus causado pela perversa crucificação de Cristo promovida pelos judeus.

mia. O preterista Gary DeMar explica: Neste Evangelho [de Mateus] não há nada nos ensinos de Jesus que sugira a ocorrência de uma restauração após esse período de julgamento [...] O Discurso Apocalíptico (capítulo 24) afasta-se de Jerusalém [...] Será que a Bíblia, em especial o Novo Testamento, prediz que o templo será reconstruído? Não [...] fazer do templo de pedras uma estrutura permanente à luz da obra expiatória de Jesus seria uma negação do Messias e de Sua missão redentora.4

Os problemas do Preterismo: 1. A data do livro de Apocalipse

Para que as profecias de Apocalipse se encaixem na conquista de Jerusalém pelos romanos, é necessário que a data de composição do livro seja anterior ao ano 70 d.C.

Os preteristas percebem a necessidade de datar o livro no começo do reinado de Nero (64-67 d.C.), admitindo que “se o livro tivesse sido escrito após o ano 70 d.C., seu teor, conseqüentemente, não se referiria aos eventos relacionados com a destruição de Jerusalém”.5 Entretanto, se datar o livro fosse algo tão crucial para sua interpretação, por que o apóstolo João não indicou com exatidão a época de sua escrita em algum lugar dos 404 versículos de Apocalipse? Todavia, como concluiu Mark Hitchcock em sua dissertação de doutorado sobre esse assunto: ...eu realmente creio que o argumento em favor de uma data posterior (i.e., 95 d.C.) pode ser provado, se não indubitavelmente, pelo menos pelo predomínio da evidência.6 Essa evidência externa a favor de uma data posterior inclui o testemunho patente dos mais confiáveis pais da Igreja, tais como Irineu (120-202 d.C.), que fez esta nítida declaração:

Além disso, a evidência interna favorece uma data posterior na época do imperador Domiciano. Tal apoio inclui: 1) A situação e descrição das sete igrejas em Apocalipse 1-3, que não faz nenhuma menção às viagens missionárias de Paulo; 2) O exílio de João na ilha de Patmos, em vez de execução, conforme ocorrida nos casos de Pedro e Paulo sob o governo de Nero; e 3) A profecia da Nova Jerusalém (Ap 21.9-Ap 22.5), o que dá a entender que a velha Jerusalém já tinha sido destruída. 2. A ausência de uma concordância histórica quanto ao cumprimento no primeiro século

Se a interpretação preterista da profecia estivesse correta, o registro histórico deveria confirmar os detalhes. Entretanto, ocorre exatamente o contrário. Por exemplo, a direção do advento [i.e., chegada] de Cristo a Jerusalém (Mt 24.27) é comparada a um relâmpago, cuja claridade é vista do oriente para o ocidente. Porém, o exército romano, interpretado pelos preteristas como o cumprimento dessa profecia, avançou contra Jerusalém do ocidente para o oriente. Ainda que entendêssemos isso simplesmente como o significado de que o exército romano avançou “como o relâmpago” (i.e., rapidamente), a história revela que o ataque contra Jerusalém foi bastante demorado; a guerra durou vários anos até que Jerusalém che-

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As conseqüências históricas para Israel, no saldo final do ano 70 d.C., de fato foram críticas. Todavia, o povo judeu e seu nacionalismo não só sobreviveram, como também A direção do advento [i.e., chegada] de Cristo a Jerusalém (Mt 24.27) é comparada a um relâmpago, cuja claridade é vista do aguardam, caoriente para o ocidente. Porém, o exército romano, interpretado da vez mais, a pelos preteristas como o cumprimento dessa profecia, avançou contra Jerusalém do ocidente para o oriente. restauração prometida pelos profetas. Além disso, a gasse, pelo menos, a ponto de ser “consciência do Templo”, perpesitiada! tuada pelo judaísmo rabínico atraEm muitos casos, podem ser fei- vés da transferência espiritual para tas apenas “correlações” baseadas a sinagoga, também se expressa de na interpretação escatológica ten- modo tangível. denciosa [dos escritos] do historiaSempre que as circunstâncias fador judeu Flávio Josefo, que viveu vorecem a reconstrução do Temno primeiro século, tais como: 1) plo, há ativistas judeus que voltam Associar os sinais divinos com a a Jerusalém na tentativa de reedifiiminente conquista pelo exército ro- cá-lo. O Império Romano desapamano; 2) Reinterpretar o texto a receu há muito tempo, porém o pofim de ajustá-lo aos detalhes históri- vo judeu está novamente na Terra cos preferidos como, por exemplo, Prometida, tem o controle da Cidadizer que “as nuvens do céu” signi- de Santa e do Monte do Templo, e ficam a nuvem de poeira levantada faz planos para a reconstrução do pelo avanço das tropas romanas; ou Templo. 3) considerar como hipérboles as Seria justo considerar os acontedeclarações que não se enquadram cimentos do ano 70 d.C. como um nos eventos históricos, a exemplo cumprimento do plano de Deus pado caráter inédito e insuperável da ra Israel e não considerar também Tribulação, a fim de reivindicar um esses acontecimentos posteriores cumprimento profético no primeiro como parte da continuidade do plaséculo. no divino? Uma interpretação futuAté mesmo a concepção central rista harmoniza-se muito melhor do Preterismo – de que a volta de com a declaração de Jesus no serCristo para julgamento aconteceu mão do Monte das Oliveiras, de com o objetivo de extinguir a nação que, quando Ele vier, o povo judeu judaica – não pode subsistir à luz da terá de “erguer sua cabeça porque a contínua vitalidade do judaísmo e sua redenção se aproxima” (Lc da realidade presente do Estado de 21.28). No ensinamento desse texIsrael. to, está claro que a Segunda Vinda

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de Cristo implica a redenção de Israel, não a sua destruição. Em face de tais incoerências históricas e textuais, Robert Gundry fez o seguinte comentário acerca da interpretação preterista de um cumprimento profético no primeiro século: Tendo sido escrito imediatamente antes, durante ou logo depois do ano 70 d.C., Marcos [ou qualquer outro dos Evangelhos] não estaria sujeito a tamanha ignorância acerca do que se passava. [Pois,] do início ao fim, os acontecimentos e circunstâncias da Guerra Judaica divergem do texto de Marcos [bem como do de Mateus e, em parte, de Lucas] ampla e suficientemente para impedir que esse texto reflita aqueles acontecimentos e circunstâncias.8 Se não existe correlação histórica entre um cumprimento profético no ano 70 d.C. e o sermão do Monte das Oliveiras, e, se o Preterismo depende de tal cumprimento para a sustentação de seu sistema escatológico, logo o próprio Preterismo está reprovado como uma interpretação escatológica viável.

Os perigos do Preterismo Todo ensinamento traz suas conseqüências para a vida espiritual. Essa é a razão pela qual os ensinos do Preterismo devem ser levados em consideração pelo perigo que representam na prática. O Preterismo ensina que Cristo já voltou (espiritualmente) e, na sua forma extrema, que Jesus nunca mais voltará corporalmente a este mundo. Contudo, a declaração divina registrada em Atos 1.11 contradiz tanto o Preterismo Parcial quanto o Preterismo Pleno, nas seguintes palavras: “Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir”.


por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios” (1 Tm 4.1). Se adotassem o Preterismo, como os crentes em Cristo poderiam obedecer a determinadas ordens, tais como, “resisti ao diabo” (Tg 4.7; cf. 1 Pe 5.9) e “Foge também destes [dos apóstatas]” (2 Tm 3.5)? Além disso, a abordagem preterista da profecia influencia a maneira pela qual os cristãos entendem o propósito de Deus para o povo judeu, bem como o ponto de vista dos crentes em Cristo acerca da existência do Estado de Israel nos dias atuais. O Preterismo substitui Israel pela Igreja, peSempre que as circunstâncias favorecem a reconstrução do Templo, há ativistas judeus lo ensino de que “o Israel étnico que voltam a Jerusalém na tentativa de reedificá-lo. O Império Romano desapareceu há foi excomungado por causa de muito tempo, porém o povo judeu está novamente na Terra Prometida, tem o controle da Cidade Santa e do Monte do Templo, e faz planos para a reconstrução do Templo. sua apostasia e nunca mais será o Reino de Deus”.9 Se a futura salvação e restauração de Israel, previstas no plaPortanto, o ensino é falso. O O Preterismo também perverte a no de Deus (Rm 11.25-27), fossem Preterismo não apenas distorce o compreensão da obra atual de Sata- revogadas ou anuladas, também o plano profético e nega a “bendita es- nás e de seus demônios, ao ensinar seria, por conseguinte, a bênção paperança” (Tt 2.13), mas também que o Diabo foi subjugado e promove o engano de que não ha- amarrado na cruz, e que verá um final para a história, de que apostasia é coisa do passado. o mal foi erradicado deste mundo Contudo, as Escrituras afir(segundo o Preterismo Pleno) e de mam que a nossa luta é “conque os crentes vivem, agora, no es- tra os principados e potestades, tado eterno. contra os dominadores deste Tal doutrina falsa também im- mundo tenebroso, contra as forpede que os crentes em Cristo obe- ças espirituais do mal, nas redeçam às diversas ordenanças das giões celestes” (Ef 6.12); bem Escrituras dirigidas àqueles que es- como afirmam que “o mundo tão à espera da volta de Cristo (1 inteiro jaz no Maligno” (1 Jo Ts 1.10). Admoestações práticas 5.19) e que “nos últimos temfeitas à luz da volta de Cristo – tais pos, alguns apostatarão da fé, como: “...andemos [procedamos] dignamente” (Rm 13.11-13; cf. 1 Ts 5.4-10); “vivamos, no presente século, sensata [sóbria], justa e piedosamenA abordagem preterista da profecia influencia a maneira pela te” (Tt 2.12); “E a si mesmo se puriqual os cristãos entendem o fica todo o que nele tem esta esperanpropósito de Deus para o povo judeu, bem como o ponto de ça” (1 Jo 3.3) – não têm nenhum vista dos crentes em Cristo sentido para aqueles que crêem que acerca da existência do Estado de Israel nos dias atuais. a volta de Cristo já aconteceu.

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ra o mundo, prometida por Deus (Rm 11.12), em cumprimento da Aliança Abraâmica (Gn 12.3). O apóstolo Pedro sintetizou o veredicto de Deus acerca do Preterismo, ao escrever: “tendo em conta, Recomendamos os livros:

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O Surgimento do Preterismo A interpretação preterista apareceu pela primeira vez num comentário sobre o livro de Apocalipse escrito pelo jesuíta espanhol Luiz Alcazar (1554-1613). Ele interpretou os símbolos descritos em Apocalipse como a vitória da Igreja Católica Romana sobre o paganismo e, principalmente, sobre o povo judeu, cuja rejeição divina, segundo ele cria, consumou-se definitivamente no ano 70 d.C. Entretanto, Cornelius Lapide (1567-1637), um dos proeminentes comentaristas jesuítas, rejeitou o Preterismo de Alcazar, por considerá-lo “recente e contrário às interpretações usuais”; “místico em vez de literal”; “alegórico”; e que “faz declarações sem prová-las”.1 O primeiro preterista protestante foi Hugo Grotius (1538-1645), um arminiano holandês que também deu origem à herética concepção governamental da expiação, ainda que Henry Hammond (1605-1660), seguidor do ponto de vista de Grotius, tenha sido o introdutor do Preterismo em solo britânico. Entretanto, esses dois homens eram mais historicistas do que preteristas e

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antes de tudo, que nos últimos dias virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as próprias paixões e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? Porque, desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação” (2 Pe 3.3-4). Apesar disso, clamamos: “Vêm, Senhor Jesus!” (Israel My Glory) Randall Price é arqueólogo, autor de livros e diretor-presidente do World of the Bible Ministries, Inc., uma organização que se dedica a explorar e explicar o mundo bíblico antigo, atual e profético.

suas opiniões foram amplamente ignoradas, apesar de terem sido denunciadas por grupos posteriores à Reforma, tais como os huguenotes. Um dos principais líderes destes, Pierre Jurieu (1637-1713), afirmou que o Preterismo “desonra seus autores” e se constitui numa “vergonha e desgraça, não somente para a Reforma, mas também para o nome de cristão”.2 Mesmo assim, tal forma de Preterismo era branda. Apesar de John Lightfoot, um erudito protestante inglês, também ter adotado um Preterismo brando, a interpretação preterista não foi vista na erudição protestante até os idos de 1800, quando ela então surgiu como um produto do racionalismo alemão. Essa escola liberal alemã, que rejeitou a revelação sobrenatural e deu origem à alta crítica, adotou o Preterismo para evitar a profecia preditiva e oferecer uma interpretação naturalista para o livro de Apocalipse, através de uma comparação com a literatura apocalíptica dos Apócrifos e Pseudepígrafos. Como a propagação do racionalismo alemão, a interpretação preterista se firmou no protestantismo das Ilhas Britânicas e dos Estados Unidos da América, vindo a influenciar eruditos evangélicos tais como J. Stuart Russell

Notas: 1. Gentry, Kenneth L. Jr. He Shall Have Dominion: A Postmillennial Eschatology, Tyler, TX: Institute for Christian Economics, 1992, p. 159. 2. Ice, Thomas. “The History of Preterism”, publicado na obra The End Times Controversy, organizada por Tim LaHaye e Thomas Ice, Eugene, OR: Harvest House, 2003, p. 42-6. 3. Chilton, David. Paradise Restored: An Eschatology of Dominion, Tyler, TX: Reconstruction Press, 1985, p. 43. 4. DeMar, R. Gary. Last Days Madness: Obsession of the Modern Church, 4ª ed., Atlanta: American Vision, 1999, p. 52 e 61. 5. Sproul, R. C. The Last Days according to Jesus, Grand Rapids: Baker Books, 1998, p. 140. 6. Hitchcock, Mark. “The Stake in the Heart The A.D. 95 Date of Revelation”, publicado na obra The End Times Controversy, p. 125. 7. Irineu, Against Heresies, 5.30.3. 8. Gundry, Robert H. Mark, Grand Rapids: Eerdmans, 1993, p. 755. 9. Chilton, p. 224.

(1816-1895) e Moses Stuart (17801852), cujas obras representavam as modernas formas de Preterismo. A ascensão popular do Preterismo Parcial entre os protestantes americanos de tradição reformada pode ser rastreada até as suas origens pelos idos de 1970 no Movimento de Reconstrução Cristã, através da influência de Greg Bahnsen, e sua divulgação popular por intermédio dos seguintes alunos dele: David Chilton, Kenneth L. Gentry Jr., Gary DeMar e R. C. Sproul (este tornou-se um preterista pleno por volta de 1990). O surgimento do Preterismo Pleno pode ser atribuído às Igrejas de Cristo e, mais especificamente, a um de seus pastores, Max R. King, dentre cujos discípulos incluem-se os atuais preteristas plenos Don K. Preston, John L. Bray e John Noe. (Israel My Glory)

Notas: 1. Citado em Leroy Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers: The Historical Development of Prophetic Interpretation, Washington, D.C.: Review and Herald, 1950, vol. 2, p. 506, 512. 2. Citado em Jean-Robert Armogathe, “Interpretations of the Revelation of John: 15001800”, publicado na obra Encyclopedia of Apocalypticism, organizada por John J. Collins, Bernard McGinn e Stephen J. Stein, Nova York: Continuum, 2000, vol. 2, p. 198.


Teologia Aliancista (em contraste com a Teologia Dispensacionalista, na qual cremos) é um sistema teológico que procura desenvolver uma filosofia bíblica da história baseada em duas ou três alianças ou pactos. Tal teologia enquadra todo o conteúdo das Escrituras e da história nessas alianças. A Teologia Aliancista não existia como sistema até os séculos XVI e XVII. Não se desenvolveu na época da igreja primitiva, nem na Idade Média.1 Kaspar Olevianus (1536-1587) foi o organizador de uma Teologia Aliancista mais desenvolvida, “na qual o conceito de aliança, pela primeira vez, se tornou o princípio constituinte e determinante de todo o sistema”.2 Esse sistema teológico começou a ser adotado nas igrejas reformadas da Suíça e Alemanha, difundindo-se para os Países Baixos, Escócia e Inglaterra. Em 1647, a Confissão de Fé de Westminster na Inglaterra tornou-se a primeira declaração de fé a fazer referência à Teologia das Alianças ou Teologia Aliancista.3 Johannes Cocceius (1603-1669) retratou toda a história bíblica como uma realidade governada pelo conceito aliancista.4 Herman Witsius (1636-1708) vinculou a idéia das alianças aos decretos eternos de Deus.5 Isso instigou a idéia de que Deus, na eternidade passada, decidiu dirigir todo o curso da história com base nas alianças.

As alianças A maioria dos teólogos aliancistas crê que três alianças estão relacionadas com a filosofia bíblica da história – as Alianças da Redenção, das Obras e da Graça. Alegam que na eternidade passada, uma Aliança da Redenção foi firmada entre Deus, o Pai, e Deus, o Filho. Ciente de que a humanidade se afastaria dEle, Deus determinou proporcionar a redenção aos eleitos durante o transcurso da história. O Pai prometeu dar ao Filho a posição de Cabeça e Redentor dos eleitos e o Filho assumiu o compromisso de propiciar aos eleitos a redenção, por meio da encarnação num corpo humano e da morte substitutiva em favor deles.6 Segundo a Teologia Aliancista, uma Aliança das Obras foi firmada entre Deus e Adão, no período decorrido entre a criação e a queda da raça humana.7 Deus requereu de Adão “uma obediência absoluta e perfeita”.8 Adão foi colocado, temporariamente, numa situação de teste, a fim de que ficasse provado se ele sujeitaria, ou não, a sua vontade à vontade de Deus.

Deus prometera a vida eterna (não vida biológica) a Adão e seus descendentes em retribuição à perfeita obediência de Adão.9 Porém, se Adão, na qualidade conferida por Deus de cabeça representativo da raça humana, desobedecesse, ele e seus descendentes seriam penalizados com a morte, “que inclui morte física, espiritual e eterna”.10 A Teologia Aliancista também sustenta que Deus firmou uma Aliança da Graça, pelo fato de que Adão não cumpriu a Aliança das Obras. Louis Berkhof definiu a Aliança da Graça como “aquele acordo gracioso entre o Deus ofendido e o pecador ofensor, todavia eleito, no qual Deus promete salvação pela fé em Cristo e o pecador a aceita, confiantemente, prometendo uma vida de fé e obediência”.11 Assim, Deus é a parte iniciadora da Aliança da Graça. Os teólogos aliancistas alegam que a segunda parte envolvida nessa Aliança da Graça pode ser: 1) o pecador; 2) os eleitos; 3) o pecador eleito em Cristo; ou 4) os crentes e seus descendentes.12 Alguns teólogos aliancistas crêem que a Aliança da Graça foi firmada imediatamente depois da queda de Adão, enquanto

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A catedral de St. Paul em Londres.

outros argumentam que não foi estabelecida até que Deus firmasse Sua aliança com Abraão.13 Após ter sido firmada, tal aliança mantém-se em vigor ao longo do tempo, na condição de princípio unificador da história.

Problemas inerentes à Teologia Aliancista Infelizmente, o espaço que temos é limitado para referir-me a todos os problemas inerentes a essa abordagem teológica, todavia, descrevo os seguintes:

É muito limitada O propósito final da história, definido pela Teologia Aliancista como a glória de Deus mediante a redenção dos eleitos, é muito limitado. No transcurso da história, Deus não somente cumpre o Seu plano de redenção referente às pessoas que são salvas, mas também cumpre Seu plano referente àqueles que nunca serão salvos, bem como Seu

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plano para as nações, para os governantes, para os anjos, para Satanás e para a natureza. O propósito final da história deve ser amplo o suficiente para incluir todos os planos de Deus, não apenas um.

Nega distinções A Teologia Aliancista nega ou enfraquece algumas distinções verificadas na Bíblia, ao insistir que essas distinções são diferentes estágios ou fases da mesma Aliança da Graça. Por exemplo, alega que a Aliança Abraâmica e a Aliança Mosaica (i.e., a Lei) eram essencialmente a mesma coisa. Contudo, o apóstolo Paulo acentua as distinções entre essas duas alianças no capítulo 3 da Epístola aos Gálatas. Além disso, ensina que não há diferença fundamental entre a Aliança Mosaica e a Nova Aliança. Entretanto, o texto de Jeremias 31.31-34 aponta para o fato de que a Nova Aliança seria uma aliança diferente da Aliança Mosaica e

Paulo indica várias distinções importantes entre ambas as alianças (2 Co 3.3-9). A Teologia Aliancista nega a distinção existente entre a nação de Israel e a Igreja; crê que a Igreja, a qual nas declarações dos aliancistas pode ser chamada de “o Israel de Deus”, já existia nos tempos do Antigo Testamento e que a nação de Israel caracterizava-se como uma das principais fases da Igreja naquela época. A Teologia Aliancista define a Igreja como a permanente comunidade da aliança, composta de todas as pessoas que se incluem na Aliança da Graça ao longo de toda a história. Porém, se a Igreja já existia no Antigo Testamento e se Israel e a Igreja são a mesma coisa, por que razão Jesus situou a edificação da sua Igreja (Mt 16.18) em tempo futuro? Além disso, por que Pedro designa aquele acontecimento do dia de Pentecostes (At 2) como o “princípio” (At 11.15)? A Teologia Aliancista também nega as distinções existentes entre o “evangelho do reino” e o “evangelho” definido em 1 Coríntios 15.14. Ao sustentar a crença de que o propósito final da história é a glória de Deus mediante a redenção dos eleitos e que há somente um povo de Deus, essa teologia ensina que, desde o começo até o fim da história, só existe um evangelho. Entretanto, o evangelho do reino – “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4.17,23) – não faz nenhuma comunicação sobre a morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus Cristo. O Senhor Jesus ordenou que o evangelho do reino fosse pregado exclusivamente ao povo de Israel (Mt 10.5-7). Em comparação, o evangelho definido em 1 Coríntios 15 consiste dos fatos referentes à morte, ao sepultamento e à ressurreição de Cristo.


Jesus ordenou que esse evangelho fosse pregado a todo mundo (Mc 16.15). Além do mais, só depois que os apóstolos pregaram o evangelho do reino durante certo tempo, Cristo começou a dizer-lhes que devia ser morto e ressuscitar, o que instigou a reação negativa de Pedro (Mt 1.21-22).

Viola um princípio A Teologia Aliancista postula que cada aliança bíblica é uma nova fase e continuação da Aliança da Graça. Argumenta, por exemplo, que a Aliança Mosaica era uma nova fase da Aliança da Graça estabelecida anteriormente. Todavia, a Aliança Mosaica instituiu condições que não foram previamente adotadas. Se fosse uma nova fase da Aliança da Graça, estaria acrescentando novas condições a essa aliança. Tal prática violaria o princípio de que nenhuma condição nova pode ser acrescentada a uma aliança que já tenha sido firmada (Gl 3.15).

É incoerente A Teologia Aliancista emprega um sistema ambíguo de interpretação. Embora admita que o método histórico-gramatical de interpretação da Bíblia seja o método normal e que outro tipo de abordagem hermenêutica pode levar a um desastre, os teólogos aliancistas utilizam outros métodos de interpretação principalmente nas áreas que se relacionam com o futuro da nação de Israel e com o futuro reino de Deus. Nesses assuntos, adotam o método alegórico, no qual as palavras não são tomadas em seu sentido normal, usual e comum ao contexto cultural e cronológico da passagem bíblica. Segundo tal método, a palavra Israel pode significar a Igreja, não a

nação de Israel; e as promessas de bênção futura, feitas a Israel, estão para se cumprir na Igreja, não no âmbito da nação de Israel. Contudo, o fato de que as Escrituras proféticas têm se cumprido, até agora, de acordo com o método históricogramatical de interpretação, não conforme o método alegórico, parece indicar a maneira pela qual Deus planejou que todas as passagens proféticas fossem interpretadas.

Rejeita o futuro de Israel

dispersara Israel, nunca daria cabo da nação de Israel (Jr 30.11). Além disso, o apóstolo Paulo demonstra que, apesar dos israelitas serem inimigos do evangelho, a Sua divina eleição, na qualidade de povo de Deus, é irrevogável (Rm 11.28-29).

É amilenista Já que a Teologia Aliancista crê que o propósito final da história é a glória de Deus mediante a redenção dos seres humanos eleitos, a maioria de seus defensores não vê nenhuma necessidade de um reino político de Cristo nesta terra pelo período de 1.000 anos literais. Deste modo, mantêm uma postura amilenista acerca do futuro Reino de Deus predito na Bíblia. Essa posição alega ser o Reino, um reino espiritual que consiste da Igreja, ou do domínio de Cristo no coração humano, e que foi estabe-

Muitos teólogos aliancistas ensinam que, em virtude da nação de Israel não ter recebido a Cristo como seu Messias, por ocasião da primeira vinda dEle, Deus rejeitou a nação de Israel, para sempre, e a substituiu pela fase neotestamentária da Igreja. Portanto, segundo crêem, Deus não tem nenhum plano futuro para a nação de Israel. Porém, Samuel pronunciou as seguintes palavras ao Israel nacional: “Pois o Senhor, por Davi, numa referência à nação de Israel que Deus causa do seu grande resgatara do Egito para tornar-se um povo exclusivamente Seu, escreveu: “Estabeleceste teu povo nome, porque aprouve Israel por teu povo para sempre e tu, ó Senhor, ao Senhor fazer-vos o te fizeste o seu Deus” (2 Sm 7.24). seu povo” (1 Sm 12.22). Davi, numa referência à nação de Israel que Deus resgatara do Egito para tornar-se um povo exclusivamente Seu, escreveu: “Estabeleceste teu povo Israel por teu povo para sempre e tu, ó Senhor, te fizeste o seu Deus” (2 Sm 7.24). Deus prometeu, por boca de Jeremias, que apesar de dar cabo de todas as nações para as quais

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O sonho descrito em Daniel 7 revelou que o futuro Reino de Deus será estabelecido quando o Messias voltar sobre as nuvens dos céus como o Filho do Homem (v. 13-14). Cristo indicou que voltará dessa maneira em Sua Segunda Vinda, após a Grande Tribulação (Mt 24.21,29-30).

lecido por Cristo quando se assentou no trono de Deus nos céus. Dessa maneira, a Teologia Aliancista equipara o trono de Deus no céu com o trono de Davi, trono este que, segundo a promessa feita na Bíblia, será dado ao Messias na ocasião em que o futuro Reino de Deus for estabelecido. Há vários problemas nessa perspectiva teológica. O primeiro deles Recomendamos os livros:

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é que várias décadas depois de Cristo assentar-se no trono de Deus, o próprio Jesus marcou uma distinção entre esse trono e o Seu trono no qual se assentará em ocasião futura (Ap 3.21). O segundo problema é que os sonhos proféticos registrados em Daniel 2 e 7 revelam que o futuro Reino de Deus não coexistirá com o domínio mundial gentílico. Em comparação, a Igreja tem convivido com o domínio gentílico por séculos. O terceiro problema é que o sonho descrito em Daniel 7 revelou que o futuro Reino de Deus será estabelecido quando o Messias voltar sobre as nuvens dos céus co-

mo o Filho do Homem (v. 13-14). Cristo indicou que voltará dessa maneira em Sua Segunda Vinda, após a Grande Tribulação (Mt 24.21,29-30), e que então se assentará no Seu trono, governará como Rei e dará posse aos crentes para que adentrem ao Reino (Mt 25.31-34). O quarto problema é que Cristo se assentará no Seu trono como o Filho do Homem quando a terra for regenerada por um efeito suspensório da maldição (Mt 19.28), depois do arrependimento nacional de Israel e da vinda de Cristo dos céus à terra (At 3.19-21). Esse evento ainda não aconteceu. Uma minoria de teólogos aliancistas, denominados pré-milenistas históricos, crê na concretização do reino milenar de Cristo na terra, após Sua Segunda Vinda. Outra minoria defende uma posição pósmilenista, denominada Reconstrucionismo Cristão ou Teonomia, ao alegar que a Igreja assumirá o controle de todas as instituições e aplicará a divina legislação da Aliança Mosaica ao mundo inteiro, durante um longo tempo, antes da volta de Cristo no último dia da história. (Israel My Glory) Renald E. Showers é autor, professor e conferencista internacional a serviço de The Friends of Israel.

Notas: 1. Charles Caldwell Ryrie, Dispensationalism Today. Chicago: Moody Press, 1965, p. 179. 2. Louis Berkhof, Systematic Theology, edição revisada. Grand Rapids: Eerdmans, 1953, p. 212. 3. Ryrie, op. cit., p. 179. 4. K. R. Hagenbach, A Text-Book of the History of Doctrines. Nova York : Sheldon & Company, 1869, v. II, p. 173. 5. Ryrie, op. cit., p. 182. 6. Berkhof, op. cit., p. 269-71. 7. Ibid., p. 215. 8. Ibid., p. 216. 9. Ibid. 10. Ibid., p. 217. 11. Ibid., p. 277. 12. Ibid., p. 273. 13. Ibid. p. 295.


História das comunidades judaicas

O retorno dos judeus à Inglaterra Há 350 anos, após séculos de exclusão, os judeus receberam permissão para voltar a viver nas ilhas inglesas. Foi um arranjo informal, visto por alguns como um fracasso. Contudo, provou ser o que de melhor poderia ter ocorrido, pois permitiu o surgimento da primeira comunidade judaica moderna.

Era medieval Antes de analisar a readmissão dos judeus na Inglaterra é preciso avaliar os eventos ocorridos à época medieval. Quando, em 1290, o rei Eduardo I decretou sua expulsão do reino, encerrava-se o primeiro período da história dos judeus nas ilhas britânicas, iniciado quando da invasão normanda de 1066. Apesar de alguns judeus lá viverem desde a época romana, a presença judaica tornou-se significativa somente quando judeus franceses convidados por Guilherme, o Conquistador, estabeleceram-se principalmente em Londres. Seu status civil e social permaneceu, de certa forma, ambíguo até ser legalizado por Henrique I (1100-1135), que lhes garantiu direitos e privilégios. Ademais, por determinação da Coroa, somente os judeus podiam conceder empréstimos a juros. Os financistas judeus atendiam as necessidades monetárias dos soberanos e de seus súditos. A verba para a construção do Palácio de Westminster, residência real até o século XVI, por

exemplo, saiu dos cofres dos “banqueiros” judeus. Durante 200 anos exerceram importante papel na Inglaterra, estando espalhados em comunidades por todo o país, inclusive em York, Winchester, Lincoln, Canterbury e Oxford. Protegidos pelos soberanos, prosperaram e, com eles, o Tesouro Real, pois eram obrigados a pagar à Coroa uma grande fatia de todas as transações comerciais, assim como “contribuir” com vultosas somas para as insaciáveis demandas reais. Um dos que mais impostos pagou foi Aaron de Lincoln, cuja mansão ainda está de pé, sendo

das mais antigas da Inglaterra. Ao falecer, em 1186, teve todas as suas posses confiscadas, num montante que equivalia a 75% da receita anual do fisco real. Na Inglaterra do século XII, a população judaica vivia em relativa tranqüilidade, pois fora poupada da violência que se abatera sobre seus irmãos da Europa continental, por ocasião da 1ª e 2ª Cruzadas. A Inglaterra não participara ativamente nessas duas primeiras iniciativas. A partir da segunda metade do século, no entanto, tornaram-se freqüentes os sentimentos antijudaicos. Em 1144, os judeus de Norwich foram injustamente acusados de ter assassinado um menino, em uma cerimônia ritual. Apesar da pressão popular, as autoridades se negaram a abrir inquérito face à ausência de provas. Foi a primeira acusação de assassinato ritual na História. Nos anos seguintes, repetiu-se o li-

A verba para a construção do Palácio de Westminster, residência real até o século XVI, por exemplo, saiu dos cofres dos “banqueiros” judeus.

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Horizonte belo em outras cidades inglesas, mas, por falta de provas, as denúncias nunca chegaram aos tribunais. A vida dos judeus britânicos tornou-se cada vez mais difícil. Um incidente ocorrido em Westminster, em 1189, quando a delegação judaica foi impedida de assistir à coroação de Ricardo I, Coração de Leão, provocou distúrbios violentos e a morte de 30 judeus. Um ano depois, quando o rei se engajou na 3ª Cruzada, as comunidades se alarmaram, pois a pregação para essas campanhas religiosas inevitavelmente trazia à tona sentimentos antijudaicos que acabavam em violência. E assim foi. Antes de partir rumo a Jerusalém, os cruzados massacraram judeus em Lynn, Bury St. Edwards, Lincoln e Norwich. Mas, o pior aconteceu em York, em março de 1190. Atacados por uma multidão enfurecida, 150 judeus se refugiaram no castelo real, em busca de proteção. Em vão. A turba atacou a torre do castelo, Clifford’s Tower, onde estavam homens, mulheres e crianças judeus. Apesar de inferiores em número, defenderam-se com bravura, mas não havia como resistir. Negando-se ao batismo forçado, a maioria optou por morrer pelo Sagrado Nome de Deus, Al Kidush Hashem. Quando o castelo foi dominado, os judeus remanescentes foram massacrados, sem piedade. No século seguinte, a situação se deteriorou rapidamente. Antigos direitos foram abolidos, adotando-se severas medidas antijudaicas. Extorquiam os judeus de todas as formas e, em 1230, a Coroa confiscou um terço de todos os seus bens e créditos. Em 1255, Lincoln foi palco de nova acusação de assassinato ritual, mas, desta vez, 92 judeus foram aprisionados na Torre de Londres, tendo suas propriedades confiscadas. Destes, 18 foram executados. A história do suposto assassinato ritual de um menino cristão, Hugh de Lincoln, tornou-se parte do folclore popular inglês e o escritor

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Chaucer a incluiu em seus The Canterbury Tales, a mais importante obra literária inglesa medieval. Quando, em 1275, Eduardo I proibiu aos judeus continuar na atividade financeira, foi o sinal de que sua utilidade ao reino chegava ao fim. Em 18 de julho de 1290, além de apreender seus bens, o soberano decreta sua expulsão da Inglaterra. No calendário judaico, era o fatídico dia 9 [do mês] de Av. Foi a primeira expulsão, na História da humanidade, a abranger a totalidade de um povo. A data limite para deixarem as terras inglesas era 1º de novembro. Podiam apenas levar consigo seus pertences. Todos os bens imóveis e créditos foram confiscados pela Coroa. Não se sabe exatamente quantos judeus atravessaram o Canal – os números mencionados variam de 2.500 a 16.000

O período antes da readmissão Até o final do século XV poucos judeus viveram secretamente em solo inglês. Mas, a partir de sua expulsão da Espanha, em 1492, e de Portugal, em 1497, alguns conversos ibéricos buscaram refúgio na Inglaterra. Na Europa, as nações governadas por protestantes, em particular calvinistas, ofereciam aos judeus e aos conversos melhores condições de vida. Durante o reinado de Henrique VIII havia conversos vivendo em relativa tranqüilidade em Londres e Bristol, graças à influência que a família Mendes exercia sobre a Coroa. Donos de verdadeiro império financeiro, os Mendes haviam concedido vultoso empréstimo ao soberano inglês. Quando, em 1535, Doña Gracia, viúva de Francisco Mendes, foge de Lisboa, permanece algum tempo em Londres, assim conhecendo a pequena comunidade local de cripto-judeus. Um dos membros dessa comunidade era Hector Nunes, em cuja residên-

cia funcionava em sigilo, uma sinagoga. Médico e comerciante, esse judeu português entrou para a história inglesa por ter sido o primeiro a alertar a rainha Elizabeth I de que a Invencível Armada espanhola preparava-se para atacar seu reino. Outro converso famoso durante o período elisabetano foi Rodrigo Lopes, que se estabelece em Londres, em 1560, após fugir da Inquisição Portuguesa. Ele, que se tornara o médico de cabeceira da rainha Elizabeth I, foi vítima de intrigas políticas. Acusado de tentar envenenar a soberana, em 1594 foi julgado e condenado à morte. O destino de Lopes fez com que muitos conversos deixassem o país e, os que ficaram, foram expulsos por James I, em 1609, ao tomar ciência de que praticavam o judaísmo em segredo. No entanto, após algumas décadas, uma nova leva de conversos se estabelece em Londres. Eram, na maioria, grandes comerciantes, com atividades econômicas que se estendiam ao Oriente, às Américas e, principalmente, aos Países Baixos, Espa-

Elizabeth I.


Horizonte nha e Portugal. Em 1653, já viviam na cidade 20 famílias de conversos, o embrião da futura comunidade judaica. Apesar de procurar manter as aparências como católicos, não era segredo para os membros do governo que eram judeus secretos. O líder da comunidade era Antonio Fernandez Carvajal, que chegara a Londres por volta de 1635. Próspero e influente, é considerado um dos maiores negociantes de prata da Inglaterra, de todos os tempos. Na década de 1640, o confronto entre o rei e o Parlamento, agravado por divergências religiosas, resultara em uma guerra civil – a Revolução Puritana. As forças parlamentares, puritanos chamados de “Cabeças Redondas”, eram lideradas por Oliver Cromwell, um homem que teve importância fundamental na história judaica e ao qual o líder judeu Carvajal dá seu apoio. Além de ajudar financeiramente o esforço de guerra puritano, este último repassa a Cromwell preciosas informações sobre o então exilado Stuart, futuro Charles II, bem como sobre os planos que os realistas engendravam com a Espanha. As informações de Carvajal evitaram pelo menos um atentado à vida de Cromwell. Com a vitória dos puritanos seguida pela tomada do poder em 1653, por Cromwell, ele declara Carvajal persona grata do governo. Em 1655, ele e seus dois filhos recebem o status legal de residência, sendo os primeiros judeus a merecer tamanha distinção.

Readmissão A readmissão judaica à Inglaterra deve ser vista como resultado da conjunção de vários acontecimentos históricos e políticos. É quando entra a figura do Menasseh Ben Israel (16041657), filho de conversos portugueses e rabino da comunidade de Amsterdã. Autor de várias obras, muitas das quais em defesa do povo judeu e do

judaísmo, seguia com atenção o desenrolar da política interna inglesa. Acreditava que a chegada dos puritanos ao poder era uma oportunidade singular para o restabelecimento dos judeus na Inglaterra, país que poderia servir de abrigo a milhares de refugiados. Os puritanos eram fervorosos estudiosos do que os cristãos chamam de “Velho Testamento”, a Torá, e nutriam uma percepção mais positiva dos Filhos de Israel. O rabino lograra boa reputação entre eles, principalmente por suas idéias sobre a vinda do Messias. Em meados do século XVII, curiosamente, coincidia entre judeus e cristãos um generalizado anseio messiânico. Do lado judaico havia os que previam a iminente vinda do Mashiach. O rabino Menasseh acreditava que a dispersão dos judeus por todos os “cantos da terra”, Ketsê ha-Aretz, era uma das pré-condições para a vinda do Mashiach. Em 1644, o relato de um explorador converso, Antônio de Montezinus, sobre sua viagem à América do Sul, criara uma onda de entusiasmo no mundo judaico. Montezinus afirmava ter encontrado nas florestas do Equador nativos que falavam hebraico e diziam ser parte das Tribos Perdidas. Convencido da veracidade do relato, Ben Israel acreditava que se os judeus retornassem à Inglaterra, estaria completa a dispersão. Em 1650 expõe a idéia no livro “A Esperança de Israel”, encaminhando uma cópia ao Parlamento inglês, com um prefácio a eles especialmente dedicado. Do lado puritano havia quem acreditasse estar próximo o “Segundo Advento de Jesus”. Segundo a tradição cristã, uma das condições para tal era a conversão dos judeus ao cristianismo. Outra, o retorno dos judeus à Terra Prometida. Para muitos puritanos, o fato de os judeus viverem em contato com o cristianismo inglês, sem as distorções do catolicismo, poderia facilitar sua conversão espontânea. Essa

idéia fez com que encaminhassem uma petição em favor da readmissão judaica, no entanto, malograda. Cromwell também favorecia a vinda dos judeus e isso foi decisivo. Essencialmente pragmático, seus interesses iam além de qualquer esperança messiânica ou tolerância religiosa. Empenhado em erguer a economia do país e expandir seu comércio, entendia as vantagens da vinda dos comerciantes de Amsterdã, além de saber das importantes conexões judaicas, que lhe tinham sido tão úteis na prestação de informações. Em setembro de 1655, Menasseh Ben Israel foi a Londres, a convite de Cromwell, para lhe apresentar a petição sobre a readmissão dos judeus ao país. No documento, o rabino apontava os benefícios econômicos que o capital judaico e o empreendedorismo de seus membros trariam, rechaçando as acusações de que eram vítimas. Mas tal petição, iniciativa dele próprio, não representava os interesses da comunidade de conversos que, liderada por Antonio Carvajal, estava satisfeita com seu modo de vida. O que se seguiu foi uma solução tipicamente inglesa, que vale a pena examinar. Cromwell, após receber favoravelmente a petição, submeteu-a ao Conselho que, em novembro de 1655, designou uma comissão para analisá-la. Sua surpreendente conclusão foi apresentada numa Conferência realizada no mês seguinte, em Whitehall. Não havia lei que impedisse a readmissão dos judeus à Inglaterra, a expulsão de 1290 fora uma prerrogativa real e, como não tinha sido sustentada por nenhum ato Parlamentar, tampouco necessitaria de um para ser revogada. Resolvida a questão da legalidade, passou-se a discutir os termos da admissão. Mas Cromwell, que se expressara a favor desse movimento, encontrou uma oposição maior do que esperava. Comerciantes e certos setores

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Horizonte religiosos, temendo a vinda dos judeus, condicionavam-na a muitas restrições. Por outro lado, rumores fantasiosos sobre as “reais intenções” judaicas em relação à Inglaterra corriam o país. Dizia-se até que pretendiam comprar a Catedral de São Paulo para transformá-la em sinagoga. Temendo um parecer negativo, Cromwell dissolve a Conferência, abstendo-se de declarações públicas. Como vimos, os conversos de Londres não participaram da iniciativa do Rabi Menasseh, mas a guerra com a Espanha (1656-1659) forçou-os a mudar de atitude. Por serem, formalmente, súditos da Coroa espanhola, o governo inglês poderia confiscar suas propriedades. Quando, em março de 1656, são de fato confiscados os bens do comerciante Antonio Robles, um

dos mais ricos conversos, eles decidem apelar diretamente a Cromwell. A missão de Ben Israel conseguira provar às autoridades que o banimento não tinha força legal, mas o “Caso Robles” demonstrava que os judeus precisavam de garantias “mais concretas” de sua legitimidade em solo inglês. Em 24 de março é entregue a Cromwell uma petição na qual os signatários afirmam seu desejo de viver em paz, sob a autoridade do governo inglês e pedem permissão para conduzir serviços religiosos judaicos em suas casas e adquirir um terreno a ser usado como cemitério. Apesar de assegurada sua posição legal por ter recebido direito de residência, Carvajal é um dos signatários, assim como Ben Israel. Em paralelo, Robles submete outra petição, na qual pede a devolução de suas propriedades já que não era espanhol, mas “português da Nação Judaica”. Não era, portanto, inimiEm dezembro de 1656, em um prédio em go, mas “vítima do inimigo”. Creechurch Lane, foi fundada a primeira sinagoga O Conselho respondeu em faoficial. De Amsterdã vieram os Rolos da Torá e, vor de Robles, reintegrando-lhe menos de dois meses depois, comprava-se o terreno para o cemitério. suas posses. Mas não há registros de uma resposta por escrito à petição dos conversos. Contudo, segundo historiadores, há fortes indícios de que Cromwell tenha dado alguma garantia informal sobre o status da comunidade no país, pois, em dezembro de 1656, em um prédio em Creechurch Lane, foi fundada a primeira sinagoga oficial. De Amsterdã vieram os Rolos da Torá e, menos de dois meses depois, comprava-se o terreno para o cemitério. Menasseh Ben Israel, acreditando que sua missão falhara, regressou desapontado para Amsterdã, onde faleceu, pouco depois. O arranjo informal que permitiu aos judeus viver e professar abertamente sua fé

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em solo inglês, demonstrou ser um benefício, não-intencional, de grandes conseqüências. Se a Comissão tivesse chegado a um acordo, teria condicionado a volta dos judeus a vexatórios regulamentos legais, semelhantes aos que vigoravam em outros países.

Reconhecimento formal da presença judaica Em 1660, é restaurada a monarquia na Inglaterra. A ascensão de Charles II ao trono foi vista com apreensão pela comunidade judaica, mas o desenrolar dos acontecimentos mostrou serem infundados os seus temores. Charles, bem como seu sucessor, James II, protegeram a nova comunidade, ignorando várias petições de comerciantes da City de Londres. Os apelos iam desde pedidos de imposição de sérias limitações às atividades econômicas dos judeus, até uma nova expulsão dos mesmos. Contudo, o status civil e legal dos judeus se manteve informal e ambíguo até ser formalmente reconhecido em 1664, após a entrada em vigor de uma lei que proibia reuniões religiosas fora dos auspícios da Igreja Anglicana. Isso era parte da campanha para desestimular os seguidores do “nãoconformismo” aos preceitos da Igreja Anglicana. O alvo eram os cristãos não-anglicanos, fossem eles protestantes ou católicos. Mesmo assim, a comunidade judaica ficou receosa e o fez saber ao rei. Desta vez, o Conselho respondeu por escrito, assegurando que o soberano ordenara que não fossem perturbados, que “poderiam viver e trabalhar como sempre, desde que mantivessem comportamento pacífico e tranqüilo, com a devida obediência às leis de Sua Majestade e sem escândalos para o Reino”. Assim, sem alarde, os judeus tornaram-se cidadãos ingleses. Quem nascia em solo inglês recebia a cidadania britânica, com as mesmas limitações


Horizonte

Oliver Cromwell, um homem que teve importância fundamental na história judaica.

impostas a qualquer cidadão não pertencente à Igreja Anglicana. As exclusões referiam-se principalmente ao acesso à vida pública, tendo sido criadas antes da Readmissão, como tentativa de vetar o acesso de não-anglicanos às esferas políticas. No caso judaico, havia só mais um impedimento, referente à necessidade de se fazer votos cristãos para ter permissão de exercer certas atividades profissionais. Durante as gerações seguintes, várias decisões judiciárias estabeleceram o direito aos judeus nos tribunais de pleitear e prestar testemunho e de ter reconhecidas as suas suscetibilidades religiosas. A posição da comunidade se fortaleceu ainda mais a partir de 1688, quando o protestante Guilherme de Orange, Stadholder (governador) da Holanda, invade o país atendendo um pedido do Parlamento para libertar a nação “da tirania católica” e, a seguir, é coroado rei da Inglaterra. Sob Guilherme III, nome que passa a usar, muitos financistas judeus se estabele-

cem em Londres, e tornam-se fundamentais no mercado financeiro da City, que, no período, registrou notável crescimento. Nos anos seguintes, quando a comunidade judaica se sentia de alguma forma atacada, apelava diretamente à Coroa, que reprimia qualquer ação contrária a eles. Finalmente, uma lei de 1698 reconhece a legalidade do exercício da fé judaica na Inglaterra.

O crescimento da comunidade Nos primeiros 50 anos após a readmissão, estabeleceram-se em Londres sefaraditas provenientes principalmente da Península Ibérica, Holanda e França. Apesar de não ter ocorrido um grande influxo, como imaginara o rabino Menasseh, a comunidade cresceu, já contando em 1684 com 414 famílias. Eram prósperos e se estabeleceram nos moldes da comunidade portuguesa de Amsterdã. Em poucas décadas, a sinagoga de Creechurch Lane se tornou pequena e, em 1701, inauguraram outra bem maior e mais suntuosa, em Bevis Marks, na City de Londres, onde vivia a maioria dos judeus. Em grande parte inalterada, a sinagoga é usada até hoje como lugar de oração.

Levas de asquenazim também se estabeleceram em Londres, fundando suas próprias comunidades e casas de oração. A primeira destas, a Grande Sinagoga de Duke’s Place, de rito asquenazita, foi inaugurada em 1690 e utilizada durante 250 anos, até ser destruída na 2ª Guerra Mundial, durante os bombardeios que devastaram Londres. No final do século, quando Londres se torna um importante centro de comércio internacional, a comunidade judaica da cidade acompanha o crescimento, em tamanho e importância. Apesar de representar apenas uma parcela minúscula da população judaica no século XVII, tem uma importância especial por ter sido a precursora da moderna história de nosso povo. Até então, era extremamente vulnerável e sujeita aos caprichos de seus governantes a situação legal, social e econômica das várias comunidades judaicas mundiais. Sem nenhum tipo de amparo da lei, tanto em países cristãos como no Islã, as propriedades

Em poucas décadas, a sinagoga de Creechurch Lane se tornou pequena e, em 1701, inauguraram outra bem maior e mais suntuosa, em Bevis Marks, na City de Londres, onde vivia a maioria dos judeus. Em grande parte inalterada, a sinagoga é usada até hoje como lugar de oração.

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Horizonte dos judeus eram passíveis de confiscos e expulsões arbitrários. Apenas na Inglaterra e nas áreas sob domínio anglo-saxão a situação foi diferente. Apesar de permanecerem vivos os antigos preconceitos e de serem os judeus vistos como uma “nação com hábitos peculiares”, eram cidadãos com direitos assegurados perante a lei. Quase não havia restrições às atividades comerciais ou à liberdade de residência, nem havia guetos. Em raras ocasiões o governo inglês pressionou a comunidade a pagar impostos extras, mas nunca confiscou bens judai-

cos – como ocorria em outras partes do mundo. Além do que, os impedimentos legais não eram considerados estigma social. E, nas colônias, os judeus gozavam dos mesmos direitos que na Inglaterra. Não resta dúvida de que nos domínios anglo-saxões os judeus tinham maior segurança política e um maior grau de aceitação social do que em qualquer outra comunidade judaica da época. E esse fato lhes conferiu uma estabilidade nunca dantes vivenciada. Em decorrência, surge a primeira comunidade judaica moderna,

Israelenses acusam Ahmadinejad em tribunal alemão

Como é possível negar o Holocausto? Não apenas os israelenses mas os judeus de todo o mundo estão aborrecidos com as declarações do presidente iraniano. Ele repetidamente negou em público que tenha acontecido o genocídio do povo judeu e difamou o Estado de Israel e o sionismo. Desde que Mahmud Ahmadinejad assumiu o cargo, ele repetidamente insultou os judeus e a memória dos milhões assassinados pelo regime nazista. Por isso, o Congresso Judaico Europeu, que representa 2,5 milhões de judeus de 40 países, decidiu declarar o presidente iraniano como “persona non grata”. “Queremos que o presidente iraniano seja proibido de pisar no continente em que há mais de 60 anos aconteceu o genocídio do povo judeu”, afirmou Pierre Besnainou, presidente do Congresso. Paralelamente a essa decisão, um grupo de cidadãos israelenses decidiu entrar com uma ação contra o presidente iraniano na justiça alemã. A acusação apresenta diversos crimes:

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que vai ter impacto crescente e determinante na história judaica da Era Moderna e na criação do Estado de Israel. (extraído de www.morasha.com.br)

Bibliografia: – Endelman, Todd M, The Jews of Britain, 1656 to 2000, University of California Press. – Katz, David S., The Jews in the History of England 1485 -1850, University Press of the Pacific Binding. – Hyamson, Albert Montefiore, A History of the Jews in England, Oxford University Press.

pe com a acusação contra o presidente iraniano. Afinal, foi ele quem envolveu a Alemanha na questão quando conclamou a Europa a receber de volta os judeus. Os acusadores israelenses também deixaram claro que a sentença promulgada pela Áustria contra David Irving, conhecido negador do Holocausto, significou muito para eles e os animou a tomar a decisão de processar também o presidente do Irã. No momento, eles avaliam a possibilidade de dar entrada à mesma acusação contra Ahmadinejad também na Áustria. (Zvi Lidar)

negação do Holocausto, ataque à honra das vítimas e difamação dos sobreviventes, agitação popular, violação da Carta da ONU, das resoluções do Conselho de Segurança e da Carta Internacional Contra o Racismo. A acusação foi apresentada pelo advogado israelense Irwin Shachar ao Tribunal Federal em Karlsruhe, na Alemanha. Esse tribunal é obrigado a exigir a Mahmud Ahmadinejhad (presidente do Irã), inimigo interferência da Procuradodos judeus e negador do Holocausto, ria da República e a dar secujo maior desejo é aniquilar Israel. guimento ao processo. Os acusadores explicaram ao jornal israelense “Yediot Aharonot” que deram entrada à acusação na Alemanha porque esse país aprovou em 1993 uma lei que declara a negação do Holocausto como um delito. Para eles é importante que o país que foi reconstruído sobre as ruínas do regime nazista seja aquele que se ocu-


Notícias de Israel - Ano 28 - Nº 6  

• Ano 70 d. C.: o “Beco Sem Saída” Profético do Preterismo • Teologia Aliancista: o que Pensa Acerca de Israel? • O retorno dos judeus à Ing...

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