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produzidas por reprodutores, que as passam a agricultores ou a empresas para multiplicação. Em muitos destes novos sistemas de sementes, os cientistas ofereceram as sementes aos agricultores contra uma promessa: eles dariam pelo menos a mesma quantidade de semente a outros agricultores após a sua primeira colheita. De certo modo, eles estariam a seguir o exemplo daquele lavrador que plantou as primeiras sementes de grão-de-bico em Mkonoo. Vários Centros do CGIAR — o Instituto Internacional de Pesquisa Agrícola para os Trópicos Semi-Áridos (ICRISAT), o Centro Internacional de Melhoramento do Milho e do Trigo (CIMMYT) e o Centro Internacional para a Agricultura Tropical (CIAT) entre eles — dedicaram mais de duas décadas a investigar e ajudar a instalar sistemas de sementes por toda a África. O ICRISAT, por exemplo iniciou um fundo rotativo no Malawi em 1999, no qual as receitas da venda de sementes são reinjectadas para préfinanciar a produção da estação seguinte. Estudos indicam que o fundo tem tido resultados sustentáveis: 80 por cento dos agricultores, em duas regiões do Malawi, tiveram acesso a semente de CG7, uma variedade melhorada de amendoim, quando foi lançada e, desde então, começaram a adoptar uma variedade mais recente, com melhor resistência às moléstias (Nsinjiro). Também em Moçambique, investigadores do ICRISAT ajudaram a montar um sistema de sementes completo — chegando mesmo a assegurar o financiamento para uma fábrica de processamento de sementes e a aceitar dirigir temporariamente a fábrica enquanto se desenvolviam conhecimentos a nível local para que outros pudessem assumir a direcção. Na aldeia de Leonde, cerca de 200 quilómetros a norte da capital, Maputo, cientistas do ICRISAT

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Uma Paix ão para Lá do Normal . Tanzânia

têm estado também a trabalhar com uma empresa agrícola, a Mocfer Indústrias Alimentares (MIA), para testar novas variedades de grão-de-bico e de feijão-guandu, na esperança de ajudar a indústria a montar um negócio de sementes com estas culturas. “É a primeira vez que tentamos criar feijão-guandu no sul do país,” refere Wilson Leonardo, um especialista de sementes do ICRISAT baseado em Maputo, inspeccionando um campo experimental com viçosas plantas de guandu. “Estou bem contente com o bom comportamento das plantas. Os agricultores daqui ainda não confiam muito nesta cultura, de modo que, se queremos mudar as coisas, temos de lhes provar que podem ganhar dinheiro com ela.” Também presente, Lorena Pedro Francisco, técnica de investigação do MIA, referiu que a parceria entre o ICRISAT e o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique ( IIAM) tem ajudado muito a empresa. “Ajudaram-nos a escolher as melhores variedades”. Richard Jones, director adjunto regional do ICRISAT para a África Oriental e Meridional referiu que este tipo de relacionamentos, ainda que distante dos laboratórios, pode ter uma importância crítica no desenvolvimento de um sistema de sementes em cadeia — elos que são estabelecidos entre cientistas, produtores, agricultores reprodutores e compradores. “Queremos encontrar oportunidades em cada país”, afirmou Jones num dia de Agosto de 2008, rodeado por um campo de grão-de-bico em Mkonoo. “Se olharmos para o Malawi, onde isto se processa já há vários anos, vemos os benefícios das estratégias de incrementação.” Em Mkonoo, Godson Laisser, de 65 anos, pai de oito filhos e agricultor há 45 anos, disse que quando os investigadores trouxeram, em épocas recentes,

novas variedades de grão-de-bico para talhões experimentais, ele e os outros quiseram as sementes o mais depressa possível. “Eram muito melhores que as sementes antigas”, disse. Mas os cientistas trouxeram mais que sementes. Ensinaram também as famílias a preparar diversas receitas com o grão-de-bico (batatas fritas às rodelas, passadas por farinha de grão-de-bico, são uma das preferidas) e ajudaram-nas a formar uma associação. “Formar a associação juntou-nos e ajudou-nos a conseguir um bom preço para o grão-de-bico” , disse Laisser. “Deixámos de vender individualmente.” A iniciativa está a correr tão bem que a associação de produtores de grão-de-bico de Mkonoo está a pensar vender sementes do outro lado da fronteira, no Quénia. Jones disse que os agricultores são bons empreendedores — uma característica que ajuda a construir um sistema de sementes. “Temos tido bons resultados com estas novas variedades,” disse Laisser. “Mas esperamos vir a ter resultados ainda melhores.”

Uma Paixao para la do Normal  

How farmers and researchers are finding solutions to Africa's hunger.