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Investigação Agrícola em Áreas Secas (ICARDA) introduziu a fava e novas variedades de lentilhas em algumas das mais pobres e mais flageladas áreas de seca da África Oriental; estudos mostram que a fava, que consegue obter preços mais elevados nos mercados que outros tipos de feijão, ajudou a reduzir a pobreza em 12 por cento no Sudão e 3 por cento na Etiópia. Em toda a África, o feijão é uma cultura essencial a muitas famílias. No Ruanda, esta afirmação só peca por defeito. As razões deste amor ao feijão são numerosas: tem sabor agradável; é uma fonte de proteína importante; os feijoeiros não necessitam de fertilizantes dispendiosos; e não há falta de ruandeses para comprar o feijão nos mercados. Além disso, muitos dizem simplesmente que é o seu alimento tradicional — por outras palavras, é o que as mães lhes serviam desde que começavam a gatinhar. No entanto, secas periódicas e a infestação de pragas reduzem consideravelmente a produção de tempo a tempo. E depois, o genocídio de 1994, que dizimou cerca de 1 milhão de pessoas, mudou tudo nesta terra — desde a estrutura do poder, à interacção social e aos modos de vida. Para os agricultores, a principal preocupação depois do genocídio, foi tentar arrancar de novo o seu sustento à terra. E um grande problema era que o stock de germoplasma do país — as traves mestras para criar novas variedades — fora praticamente eliminado. Os lavradores tinham sementes, mas a maioria de fraca qualidade. Em 1995, cientistas do CIAT entraram rapidamente em acção para começar a trazer para o Ruanda sementes e materiais de qualidade. Recolheram germoplasma de feijão melhorado, conservado por redes de feijão na África Oriental e Central. Trouxeram novo germoplasma da América Latina.

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Uma Paix ão para Lá do Normal . Ruanda

Quando o agente de extensão chegou a Cyanika, que fica situada nas proximidades do Parque Nacional dos Vulcões, no noroeste do Ruanda, levava consigo sementes que provinham de outras paragens, talvez até do longínquo México. Shiragahinda, o líder da associação de agricultores, lembra-se bem desse tempo. Disse que quase toda a gente na sua cooperativa tinha imediatamente mudado para o feião-de-trepar, e os resultados positivos tinham surgido rapidamente. Antes de 1994, os seus feijoeiros arbustivos produziam 400 quilos por acre (0,4 hectare); agora, os seus feijoeiros-de-trepar produzem 1,5 toneladas, quase o quádruplo da produtividade. Com os lucros do feijão, Shiragahinda, como muitos outros aqui, está a melhorar a sua vida. Está a construir uma nova casa (dando a antiga ao filho), comprou duas vacas (que produzem 18 litros de leite por dia, sendo 15 litros para o mercado e três para consumo doméstico) e paga as taxas escolares dos seus oito filhos. Na vizinha aldeia de Cyuve, os agricultores também construíram as suas vidas com base no feijão. Emmanuel Serukata, de 71 anos, emergiu das traseiras da sua casa de cinco divisões, onde centenas de caules secos de feião-de-trepar repousam encostados a dois lados da estrutura. “Ele tem feijões por todo o lado!” diz Mukishi M. Pyndji, um patologista de plantas do CIAT e coordenador da Rede de Investigação de Feijão da África Central e Oriental (ECABREN). “É verdade, sabe? No Ruanda não há vida sem feijão.” “Por toda a parte, todos os dias”, acrescentou Felicite Nsanzabera, do programa de feijoeiros para o Ruanda do Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola (ISAR), que caminhava a seu lado.

“Feijão, feijão, feijão,” replicou Pyndji. Ambos riram com vontade. Nsanzabera quebrou uma vagem entre os dedos, revelando uns lindos feijões salpicados de vermelho — tecnicamente conhecidos como RWV-296, um dos feijões-detrepar de mais elevada produção do país. “Os agricultores fazem assim quando vêem uma boa variedade,” gracejou, abrindo outra vagem e fingindo enfiar as sementes no bolso da camisa. “É assim que se multiplicam por todo o país.” Serukata, o lavrador, conta que o feijão o ajudou, a ele e a sua mulher Alphonsine, a comprar duas cabras e a pôr dois filhos na escola secundária. Explicou que têm utilizado várias das variedades do ISAR, que permitiram aumentar em muito a produção. Mas para muitos agricultores, a alegria de receber mais dinheiro pelas suas colheitas só é comparável com o prazer de comer feijão ao almoço e ao jantar. Em Cyanika, Shiragahinda, o lavrador, diz que faz duas refeições por dia à base de feijão desde que a sua memória alcança. ``Bom, talvez tenha falhado o feijão numas poucas refeições antes da colheita, durante uma seca nos anos 90”, comenta. Sentada a seu lado sua mulher, Janine Nyirabakwiye, interpõe rapidamente: “Não, nessa altura não falhaste nenhuma.” “Bem, eu… parece-me...” “Nunca,” disse ela. “Tu nunca viveste um dia sem feijão.” E o casal riu, reconhecendo assim a importância deste esteio nas suas vidas.

Uma Paixao para la do Normal  

How farmers and researchers are finding solutions to Africa's hunger.

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