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“Tivemos algumas brigas com o ILRI por causa disto”, confessou Machira Gichohi, directora do Conselho para os Lacticínios do Quénia. “Mas por fim concordámos que este sistema de dar formação aos vendedores informais era a melhor maneira de ir em frente.” Gichohi disse que o ponto de viragem foi a pesquisa do ILRI, demonstrando que o leite cru é seguro, especialmente se houver salvaguardas no produtor e pelos vendedores. A pesquisa identificou múltiplos beneficiários — pelo menos USD 33,5 milhões por ano para a economia do Quénia, sendo que mais de metade desse montante vai para os 800 000 pequenos proprietários cujas famílias dependem dos rendimentos dos lacticínios. Os vendedores informais não só criaram concorrência no mercado, mas em geral oferecem ao produtor preços mais elevados. Por outro lado, vendem o leite não pasteurizado aos consumidores a preço mais baixo, por vezes a metade do preço do pasteurizado. Esta pesquisa ajudou ainda, indirectamente, a incentivar a reforma dos mercados informais do leite em toda a região. No Ruanda, Uganda e Tanzânia, os mercados informais representam mais de 90 por cento de todo o leite vendido e os reguladores tomaram medidas, em anos recentes, para supervisionar o sector informal — mas não para o impedir. Eles sabiam que os dados do Quénia provavam que o leite não pasteurizado é seguro quando adequadamente manuseado. A agricultora de Ngechi, Margaret Nungari, de 52 anos, beneficiou grandemente com o sistema. Nungari, uma mãe sozinha e com quatro filhos, contou que anteriormente tinha tido más experiências com os vendedores, que não lhe pagavam o leite. Mas isso acabou depois de eles passarem a ser licenciados.

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Uma Paix ão para Lá do Normal . Quénia

“Os meus filhos foram educados com dinheiro do leite”, disse ela, passeando ao longo de leiras de cenouras, couves e espinafres na sua quinta, que tem apenas 0,8 hectares. E acrescentou que os investigadores também a tinham ajudado de outras formas. Por exemplo, ensinaram-lhe a alimentação adequada para as vacas, incluindo dar-lhes capim elefante Napier, e doses de ração comprada, logo após as vacas parirem. Contou que a produção de uma das vacas subiu de 8 para 25 litros por dia. “Antes, eu tinha que trabalhar muito e ganhava ... pouco”, comentou. “Agora, trabalho menos e ganho mais.” Joseph Kibunja, 55 anos, um agricultor vizinho, disse que a investigação o ajudou de outros modos. Contou que os cientistas lhe tinham recomendado misturar o excremento das galinhas na alimentação das vacas. Kibunja tem actualmente 400 galinhas; as suas cinco vacas — Lulu, Nyagaki, Genesis, Suzie e Beauty — comem ração e erva misturada com excremento e, segundo ele, as vacas produzem agora mais leite. Depois de ouvir Kibunja, Francis Wanyoike, um investigador do ILRI que estuda os mercados de animais de quinta, afirma que as explorações precisam desta integração. “Esta quinta é um excelente exemplo — lacticínios, aves e horticultura, todos interagindo muito bem.” Kibunja disse que a regulamentação do mercado informal do leite foi um grande progresso para os agricultores. “Ao valorizar os comerciantes informais do leite, criou-se concorrência”, afirmou. “Agora podemos obter um preço melhor para o nosso leite.” O sistema não deixa de ter as suas falhas. Alguns vendedores recusaram-se a cumprir o processo de

licenciamento. O governo está a ponderar a hipótese de criar um nome de marca para o leite dos vendedores licenciados, esperando que assim criem uma preferência junto dos consumidores. De qualquer modo, este novo modo de fazer as coisas está a dar muito bons resultados. Tudo começa com alguém com a formadora Teresia Wanjiku Kamau. “Eu dou formação aos vendedores, ao longo de vários dias, sobre o modo de manusear o leite em segurança”, explicou. “Isso implica também ensinar o manuseamento do leite ao produtor. Também os ensinei a fazer testes ao leite, o que veio melhorar a qualidade.” Esta formação tem ajudado vendedores, como Gabriel Karanja, 53 anos e pai de oito crianças, que agora vende 90 litros de leite por dia, quando antes eram apenas cinco ou seis litros por dia, no tempo em que o seu trabalho era ilegal. “Agora é tudo muito diferente”, disse ele. “Já não tenho medo de nada. Dantes era como se fosse um ladrão na minha própria terra. Agora vendemos o leite livremente.” Os consumidores parecem satisfeitos. Mohamed Shuria, 38 anos, compra dois litros de leite por dia a Karanja. Disse que tem tanta confiança no vendedor que, “quando o nosso filho mais novo deixou de ter o leite da mãe, eu pedi ao Sr. Karanja leite da vaca que ele próprio tem, para alimentar o meu rapaz.” Karanja abre um largo sorriso, recordando o pedido de Shuria. “Esta pesquisa tem-me ajudado muito,” comentou mais tarde. “Quatro dos meus filhos já fizeram a escola secundária. O rendimento do leite é que me permitiu isto — o leite e os investigadores.”

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How farmers and researchers are finding solutions to Africa's hunger.

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