Page 38

Produtores de lacticinios Levar o leite da Lulu ao mercado

NGECHA, Quénia — Às primeiras luzes da manhã os lavradores, embrulhados em roupas quentes contra o frio da madrugada, começaram a aparecer na estrada de terra batida. Subiam e desciam os montes, numa parada constante, todos transportando bilhas de leite. Os pássaros canoros chilreavam. Quem tinha sapatos deixava no ar o som dos passos no saibro. Eram os únicos sons. Parecia uma evocação de outras eras, mas na realidade a cena representava algo de relativamente recente — e algo de bom para os lavradores, para os 30 000 comerciantes informais de leite e para as legiões de bebedores de leite do Quénia. Os agricultores iam levar o seu leite a um ponto de recolha em Ngecha, uma aldeia nos arredores da capital, Nairobi, onde a sua cooperativa vendia o leite a uma rede de vendedores informais e para uma empresa de lacticínios, que o iria pasteurizar. Escassos anos antes, este negócio simples não poderia ter acontecido. Os vendedores informais, por quem passam mais de quatro-quintos de todo o leite vendido no Quénia, eram proibidos e continuamente perseguidos pela polícia, obrigando-os a trabalhar às escondidas. Alguns eram presos; outros escapavam aos lavradores sem lhes pagarem; e alguns acabavam com leite estragado. Os quenianos, que bebem uma média de 100 litros de leite por ano, nunca tinham a certeza da qualidade do seu leite.

{ 24 }

Uma Paix ão para Lá do Normal . Quénia

A ajuda chegou de um quadrante inesperado: cientistas. Investigadores do Instituto Internacional de Investigação Pecuária (ILRI), baseados em Nairobi, juntamente com colegas do Ministério de Desenvolvimento Pecuário do Quénia e do Instituto Agrícola do Quénia, formaram o Projecto de Lacticínios de Pequenos Produtores em 1997. Ao longo dos oito anos seguintes, o trabalho do grupo deu origem a cenários como o de Ngecha. Primeiro, a pesquisa do ILRI demonstrou que o leite cru vendido pelos comerciantes informais não era perigoso para a saúde pública, desde que agricultores e vendedores observassem práticas higiénicas. Os parceiros imaginaram então um sistema em que formadores ensinariam aos vendedores a melhor maneira de manusear e testar o leite. Em contrapartida, os vendedores receberiam licenças para a venda de leite. No entanto, os reguladores opuseram-se à ideia. Queriam que todo o leite fosse pasteurizado.

Uma Paixao para la do Normal  

How farmers and researchers are finding solutions to Africa's hunger.

Advertisement