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O feijão de soja trouxe vida à terra de Watiti. Após um só plantio da soja lado a lado com o milho, a sua produção de milho triplicou.

não têm espaço suficiente. Por isso, tudo o que plantam para ajudar o solo tem que lhes trazer outros benefícios também.”

“É extraordinário,” disse Watiti, 52 anos, sentado no seu pátio junto a um monte de espigas de milho branco a secar ao sol. “Nós gostamos mesmo dos investigadores — não, na verdade, nós amamo-los. Sem as informações deles não nos safávamos. A mim, deram-me os conhecimentos técnicos para melhorar a fertilidade do solo.”

Em primeiro lugar, foi preciso convencer os agricultores de que o feijão de soja poderia fazer parte da sua dieta alimentar. Margaret Musambi, técnica de extensão do Ministério da Agricultura do Quénia, mostrou-lhes como transformar os feijões de soja em leite de soja, iogurte de soja, bebida de soja, fritos de soja, salsichas de soja e até almôndegas de soja. Destacou também o potencial da soja como um novo rendimento para as famílias e como fonte de proteínas para os membros seropositivos de um grupo de apoio para VIH, na cidade de Mumias, no oeste do Quénia.

Recuperar os solos cansados de África tem sido um dos principais objectivos do trabalho do CGIAR, incluindo a importante pesquisa efectuada pelo Centro Internacional de Agro-Silvicultura (ICRAF) e pelo Instituto Internacional de Pesquisa Agrícola para os Trópicos Semi-Áridos (ICRISAT). Além disso, duas importantes organizações beneficentes — a Fundação Bill & Melinda Gates e a Fundação Rockefeller — criaram recentemente a Aliança para uma Revolução Verde em África, que colocou a fertilidade dos solos no topo da sua agenda. Os cientistas do CGIAR descobriram, por exemplo, que vários arbustos forrageiros podem também contribuir com nutrientes para o solo, além de fornecerem alimento nutritivo para os animais. Esse tipo de duplo objectivo foi o que tornou a soja atractiva para os agricultores. “Para os agricultores, se se quer fazer qualquer coisa pela fertilidade do solo, tem de se começar por falar do feijão de soja”, disse Jonas N. Chianu, um cientista da área socioeconómica do TSBF-CIAT, baseado em Nairobi. “Aqui, os agricultores têm muito pouca terra. Muitos não têm árvores porque

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Uma Paix ão para Lá do Normal . Quénia

Musambi referiu que se sente particularmente satisfeita com os benefícios obtidos pelos membros do grupo de seropositivos. “Estas pessoas estão a tornar-se tão saudáveis,” disse Musambi. “A medicação está a ajudá-los e o feijão de soja também. É verdade. Quando se come soja fica-se mais contente.” Para Chianu, o cientista, o feijão de soja também inspira sonhos. “Quando leio sobre o desenvolvimento da soja no Brasil e na Argentina, estala-me a cabeça”, disse. “O feijão de soja chegou ao Brasil em 1950. E ao Quénia, chegou em 1904. O Brasil é hoje em dia o segundo maior produtor. No Brasil, a dimensão média das explorações é de 800 hectares. No Quénia, estamos a lidar com uma multidão de pequenos agricultores. Essa é que é a diferença.” Várias fábricas do Quénia importam feijão de soja porque os agricultores locais não produzem o

suficiente. Chianu calcula a procura anual no Quénia em 150 000 toneladas; em 2008, os agricultores produziram 7 500 toneladas. Para dar resposta à procura ele calcula que seriam necessários 300 000 pequenos proprietários quenianos a cultivar soja em cerca de meio hectare cada. Ele compreende que isto pode parecer inatingível, mas refere a África Ocidental, onde mais de 500 000 agricultores, na Nigéria, Costa do Marfim e Gana, estão a produzir feijão de soja. Quase todos iniciaram a cultura da soja nos últimos 15 anos. Chianu mostrou-se particularmente entusiasmado com o potencial da soja no significativo melhoramento das colheitas de milho e outras. “Temos que procurar o que mais podemos fazer por estes agricultores,” afirmou. “Eles precisam de uma cultura para comercialização. Precisam de colheitas mais abundantes.” Watiti, o agricultor da zona ocidental do Quénia acrescenta que isso é verdade, sempre, e ainda mais em tempos de crise aguda — como o período de violência que assolou o país a seguir às contestadas eleições presidenciais do final de 2007. Por causa da agitação, Watiti e outros agricultores não conseguiram acesso às lojas de adubos. Tiveram que se remediar com fertilizantes naturais, como o estrume e resíduos de plantas de soja. “Dei graças pelo meu feijão de soja durante os distúrbios”, afirmou. “Muitos agricultores que não tinham cultivado a soja tiveram maus resultados. Mas porque eu tinha a soja, as minhas colheitas não foram assim tão más. Tive muita sorte.”

Uma Paixao para la do Normal  

How farmers and researchers are finding solutions to Africa's hunger.

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