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“O que é realmente gratificante é falar com os agricultores,” disse Banziger, directora do programa global para o milho do CIMMYT, a quem muitos agricultores chamam “Mamã Milho”, pelo que tem contribuído para as suas plantações. “As novas variedades representam a diferença entre ter alguma colheita e nenhuma. Se houver alguma produção, tem-se algo para comer, algo para vender, pode-se mandar os filhos à escola. No Malawi, dizem que o milho é vida — é grande assim sua importância.” Algumas dessas variedades proliferaram rapidamente e tornaram-se, entre as variedades mais frequentemente comercializadas, as mais usadas pelas organizações não-governamentais para a ajuda em sementes, em zonas com tendência de seca. Na aldeia de Muisuni, no sudeste do Quénia, perto de Kiboko, os agricultores disseram que tinham começado há pouco a usar as variedades de milho resistentes à seca. Bastou uma estação seca para os transformar em ardentes apoiantes. “Esta nova variedade aguenta o sol quente”, disse Virginia Nthambi, de 22 anos, mãe de duas crianças pequenas, enquanto caminhava ao longo de fileiras de plantas de milho verde. Apontou para um campo adjacente, com filas de pés secos. “Vêem a diferença? Está bem à vista”, disse. “Quando há seca, aqueles pés além secam completamente. E estes aqui mantêm-se verdes.” Nthambi estava a cultivar as novas variedades para vender para semente. George Muthama, um representante da Freshco Seed Company, referiu que esperava poder comprar-lhe 150 sacos de sementes, cada saco com 100 quilos. Esses sacos,

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Uma Paix ão para Lá do Normal . Quénia

disse, conteriam sementes suficientes para plantar 1 500 hectares de milho. “A procura é enorme”, afirmou, “Venderemos tudo.” Nos campos experimentais de milho de Kiboko, onde o pico nevado do Monte Kilimanjaro, na Tanzânia se avista a sudoeste em dias claros, Makumbi, o produtor, observou os trabalhadores a cruzarem cuidadosamente plantas de milho. Numa das fileiras, os trabalhadores colocavam sacos de papel castanho sobre as bandeiras, agitavam o saco e a bandeira e a seguir colocavam o saco — já cheio de pólen — sobre uma espiga de uma outra planta. A seguir punham um saco plástico em torno da espiga para garantir que nenhuma outra planta a pudesse polinizar. Dorcus Gemenet, 29 anos, uma jovem cultivadora do Instituto Queniano de Pesquisa Agrícola, superintendia o trabalho. Uma parte importante do projecto para o milho resistente à seca envolve o treino de cientistas que trabalham em programas nacionais de pesquisa, o que desenvolve capacidades em toda a África nas mais avançadas técnicas de cultivo. “Cresci numa aldeia e sei o que essa gente sofre quando não chove”, comentou Gemenet. “O país é seco na sua maior parte, em mais de 80 por cento está classificado como árido. O trabalho que pudermos fazer pelo milho vai verdadeiramente tocar a vida das pessoas.” Em meados de 2008, muitas zonas do Quénia sofriam de condições de seca. “Em muitas áreas as explorações tinham um ar verdadeiramente patético”, contou ela. “O clima está a mudar e precisamos de ter estas variedades que acompanhem a mudança. Por isso, precisaremos sempre de novas variedades.”

Esse aguilhão à investigação é contínuo, a força por detrás do trabalho de Banziger, a vivacidade nos passos de Makumbi. Os criadores do milho têm obtido sucessos, mas sabem que têm potencial para fazer muito mais. “Temos à nossa frente uma tarefa de respeito”, comentou Banziger. “Vai haver um aumento de procura do milho — um aumento de 3 a 5 por cento ao ano ao longo de uma série de anos, em resultado do crescimento da população, do crescimento económico em África e na Ásia, do facto de as pessoas terem maiores recursos e se alimentarem com mais carne. Junte a isto a mudança climática e vamos precisar de muitos truques para nos mantermos à frente na corrida. O melhoramento da resistência do milho à seca será absolutamente crucial.” Para Gemenet, a jovem cultivadora queniana, o incentivo para levar a pesquisa ao campo vem também de outra fonte: é que esse milho cria uma rede de segurança para os agricultores — gente como os seus próprios pais, no oeste do Quénia. “É realmente urgente realizar este trabalho”, disse. “Estamos a desenvolver variedades que podem ser a única opção da maioria das pessoas pobres nas províncias. Pessoas que não podem pagar um sistema de irrigação. Que apenas esperam a chuva. E se a chuva não vem, temos que ter uma variedade de milho que ainda assim produza.”

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How farmers and researchers are finding solutions to Africa's hunger.