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Não. Foi o resultado do aprofundar de pesquisas pelos cientistas do Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), do Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT) e de vários outros parceiros, incluindo programas nacionais em toda a África. Uma equipa de investigadores, liderada pelo entomologista Hans Herren (que recebeu o Prémio Mundial da Alimentação 1995 por este trabalho) descobriu as pragas e em seguida concentrou-se em responder a uma questão chave: o que é que mantinha a cochonilha e o ácaro verde sob controlo na América do Sul? Através de trabalho em vários países da América do Sul e intensivos testes de laboratório, os investigadores identificaram vários parasitas e predadores — alguns demasiado pequenos para serem vistos a olho nu. Os cientistas do IITA testaram vários deles, até que, através do método de tentativa e erro, descobriram a perfeita Nemésis: a vespa Encyrtidae para a cochonilha e o ácaro fitoseídeo no caso do ácaro verde. “Em ambos os casos, não foi fácil encontrar o parasita e predador ideal” disse Rachid Hanna, um entomologista e especialista em biocontrolo do IITA, baseado no Benim. “Mas uma vez que o conseguimos e os introduzimos, espalharam-se rapidamente de moto próprio e através de uma libertação continuada. Tinham que se adaptar a uma grande variedade de ambientes e sustentar-se a partir de uma gama de recursos. Tinham que ter a capacidade de localizar a praga à distância e distinguir a mandioca de outras plantas. E não podiam fazer mal a mais nada. Em ambos os casos os dois inimigos naturais produziam efeitos apenas na mandioca.” No entanto, eram ainda muitos os cépticos. Muitos parceiros desligaram-se de uma decisão tão importante como a libertação dos inimigos naturais candidatos; 25 países africanos tinham formado comités para lidar com o problema da mandioca. Braima D. James, coordenador do Programa para

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Uma Paix ão para Lá do Normal . BENIM

Gestão Integrada de Pragas alargado a todo o sistema, do CGIAR, lembrou-se que alguns políticos destacados se tinham mostrado alarmados com os perigos de introduzir dezenas de milhar de vespas estrangeiras nos seus países, para lutar contra a cochonilha. “Tive que convencer as autoridades que estas vespas não ferram,” recordou James, rindo. “E é verdade que não. Mas custou a habituar as pessoas à ideia. Foram precisos poucos anos para ambos os programas de controlo apresentarem resultados espectaculares. Os estudos indicam que os danos causados pela cochonilha baixaram 95 por cento e os do ácaro verde 50 por cento. Um estudo revelou que as poupanças económicas situaram-se entre USD 7 e USD 20 mil milhões no caso do controlo da cochonilha; e um outro estudo, na Nigéria, Gana e Benim, calculou que, só nesses países, a poupança devida ao controlo do ácaro verde terá sido de USD 2 mil milhões. No centro de pesquisa do IITA em Cotonou, Benim, os cientistas continuam a estudar os inimigos naturais da mandioca. Ainda têm muitas perguntas sobre o porquê dos predadores darem tão bons resultados. E acreditam que o seu trabalho ao microscópio e nos campos de mandioca ajudará outros esforços para controlar as pragas das colheitas. É evidente que as pragas nunca desaparecem por completo. A mandioca ainda tem a sua quota. Uma delas é a forma muito virulenta do mosaico africano da mandioca, que é disseminado por uma mosca branca e estacas infectadas. Instalou-se ao longo da zona oriental de África e partes da central e meridional, e chegou já a áreas do Médio Oriente. Uma das vias de ataque que o IITA está a utilizar para combater o vírus, nada tem a ver com a introdução de inimigos naturais: está a desenvolver variedades da mandioca que sejam resistentes à moléstia.

Hanna, a entomologista do IITA, e Alexis Onzo, um especialista em ácaros do IITA, amarraram uns 300 pés de mandioca sobre o tejadilho do seu jipe, uma bela manhã em meados de 2008, e foram até duas aldeias no sudeste do Benim — o género de presente que o IITA tem vindo a dar a agricultores ao longo dos anos. Na vizinha Nigéria, por exemplo 60 por cento da mandioca cultivada provém de variedades de alto rendimento. Um dos pontos de paragem foi Ogoukpate, onde o velho Alphonse lhes deu as boas vindas à sombra de uma ficus gigante. Esta área tem um significado especial para o IITA; foi a poucos quilómetros daqui que se fez a primeira libertação em África do ácaro fitoseídeo, o predador do ácaro verde, em Outubro 1993. A aldeia de cerca de 130 pessoas, que não tinha carros, tinha quatro motocicletas, onde não havia electricidade nem aparelhos de televisão a menos de 5 quilómetros, dependia grandemente da mandioca. Alphonse disse aos seus visitantes que as colheitas de mandioca vinham a decrescer — aparentemente devido a solos esgotados. Ele e outros vieram pedir ajuda aos cientistas. Hanna disse-lhes que as novas variedades de mandioca “lutariam contra as doenças e atrairiam os predadores do ácaro verde”. Cada pé, disse ela, podia render cinco plantas. Os aldeões fizeram fila para vir apertar as mãos dos cientistas e agradecer. Eles não sabiam da antiga história da libertação dos inimigos naturais da mandioca, a cochonilha e o ácaro verde. Mas os pés das plantas à sua frente eram algo de tangível, uma nova fonte de esperança.

Uma Paixao para la do Normal  

How farmers and researchers are finding solutions to Africa's hunger.

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