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Título: PSM – UM Autor : carlos peres feio Capa: Chinesa do Norte – Produções sobre desenho de carlos peres feio

© carlos peres feio e chinesa do norte produções , Maio 2008 Composição, paginação, impressão: chinesa do norte – produções, lda Depósito nº : 0012305/08

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talvez alguĂŠm sinta a falta dos versos que nĂŁo escrevo carlos peres feio

nos dias iguais a tantos outros cinzentos a tua palavra luz viva fogo ardente ilumina o silĂŞncio e-mfb

3


fui informado

fui informado de que o mundo real não existia stop só existem imagens na tua cabeça daquilo que o mundo é em sonho fiquei surpreendido e despedi-me definitivamente da realidade. (2000)

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morte de manhã

é a que pode apanhar qualquer um numa bela manhã, preparando uma fatia de pão saloio com doce de frutos vermelhos, escuros e doces, que nos atiram para trás, para o odor da meninice, da adolescência, que meninice e adolescência são frutas da mesma árvore, e doces. é a que nos persegue todas as manhãs da vida, digo, todo o caminho, como um míssil, daqueles que apontados ao alvo em voo não mais o largam, pois farejam a fonte de calor, que nas guerras sobre golfos são tubos incandescentes, vomitando gases da combustão do jp4, e que na nossa vida toda também farejam a fonte de calor, que é sempre o coração e raramente o cérebro. (1997)

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coisas revoltas

algumas coisas revoltam-se ao serem tocadas e poucos saberão porquê. revelam na atitude invisível a agonia em que têm existido obrigadas ao espectáculo dos humanos face ao auditório dos inertes, das pedras semipreciosas, preciosas e simples pedras, as que amo. como as compreendo, incrédulas com este fim de século, a lembrarem, a desejarem voltar aos tempos antes de a história ser feita, em que a ordem universal, a gravidade e o silêncio, só eram vagamente acordados pelo passar onírico de um meteoro (2000)

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Senhor

tenho pena que n達o haja um senhor para lhe agradecer o bem que me sabe estar bom e em paz ouvir um vento forte e lembrar as catedrais onde entrei n達o encontrei o Senhor mas a calma que reina em Seu lugar (2003)

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fabricante de postais

a basílica da Estrela as duas basílicas da Estrela a que de longe aparece como uma escultura gigante e a outra a de perto onde as três dimensões vencem e nos mostram ao fundo o iluminado corpo grosso contra o céu e na frente duas torres uma sem luz, ali estão. mas talvez seja outra ainda a que tenho dentro da cabeça a que imprimirei quando me tornar fabricante de postais ilustrados será nessa profissão que a reforma me encontrará artesão de imagens muito vistas artífice de tarefas sem prazo de entrega na espera de que os dias tenham cinquenta horas e que o eléctrico, o vinte e oito breve me leve ao encontro comigo mesmo. (2000)

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arte plástica

gosto de pensar que a arte plástica é flexível e estou disposto a aprender o limite das formas aceito como fim ter feito à mão livre uma elipse sem nunca a ter terminado (2001)

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infelicidade

a infelicidade é quando Cole canta tu não estares à volta e nunca termos o par certo na certa noite deixa lá também não estou certo de que o mundo assim seria maravilhoso já não é mau ter esta infelicidade só esta (2001)

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estilhaços

espalhados pela rota do nosso riscar de superfícies foram ficando estilhaços vários muitos que numa função integrada levada ao máximo reunia a minha vida toda. e daí? dessa visão não irá resultar nada senão com tristeza sentir que para mais há uma sensibilidade crescente e para menos não se atinge o êxtase. programada a próxima explosão, venham mais estilhaços. (1985)

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a uma desconhecida

vejo-te como estrela que viaja no espaço e na noite dos tempos será atracção saber da tua existência conhecer tua luz receber confidências beber tua música desenhar teu rosto não nos tocámos mas tua força alterou meu rumo gravito agora à tua volta és estrela nova desconhecida e no firmamento sigo-te quem sabe um dia eu possa entrar em rota de colisão (1999)

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esboço de um take

ó moon! ó lua! porque apareces grande? às vezes sem tiras, sem riscas, ilesa. porque me impressionas? tens muita certeza, apareces branca, mostras-te toda. ó moon! tu ficas feliz por me saberes sempre encantado. dás-te, talvez, num alívio forçado, de quem tem de ser amado. ó lua! acreditas que quando voltares, branca, forte, passarão por debaixo de ti duas mulheres, lindas e sem te olhar? é um sem olhar de inveja, mas eu ainda te chamarei: lua! lua! sou eu! sou teu. (1988)

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Alentejo confirmado

volto ao que chamo um lugar de criação onde sobreiros pássaros e calma me acolhem. a casa, o espelho de água e os cães também são indispensáveis. esta escrita é só um esboço para me sentir vivo atrás da câmara. (2002)

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à natureza

ver terra vermelha entre verdes vários é tão necessário à nossa paleta de cores todos os dias acrescentada de cinzentos. por isso fujo das auto-estradas da informação e me refugio nos vales da ignorância procurando a essência do profundo. e evito como um contorcionista o complicado sem pássaros e o contacto com os corpos e almas em anestesia. já não peço no meu mundo imaginado a presença de pessoas que figuram noutros cenários onde o apreço é só o de ocuparem espaços. a mim basta-me a cor da música o fluido deste mergulho e o pensamento fixo num ser que me compreenda. (2001)

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sentir

a teia que nos liga na vida não é por nós tecida. fornecedores do fio emocional somos. o destino a tece. pouco mais fazemos além de quebrar ligações e levar outras ao limite. chamo-te um fio luminoso frágil na superfície mas feito de filamentos fortes. a teia que nos liga na vida já não resiste sem a tua luz. (2003)

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estrada irreal

a estrada que aqui nos trouxe é a que nos levará a ti e à minha sombra não há programa sem ti só pensamentos na quietude da noite escutas feitas confissões sem um piscar de olhos para perder o coração basta um piano forte em fundo e tua mão no meu peito (2004)

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GRITO

Grito Porque tenho medo Grito mais Porque ouvi o meu grito Grito ainda Cresce o pavor Nรฃo me ouรงo Mas sinto-me gritar Grito com mais forรงa Comeรงo a gostar Grito para me lembrar Altero a postura Grito por gritar Finalmente Atingi A loucura (1994)

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2004

em 2004 eu ainda lia Virginia Woolf e resumia toda a vida a um diário por escrever. fazia o balanço e os braços caíam sem força, fechava capítulos com pontes para a Europa e Escolas de Sagres para o mundo. abria a porta às pessoas com talento a quem não cedo nada senão o desejo, para que o estandarte da força de viver não caia comigo (2004)

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respirar (manual prático)

nasce em portugal e por aqui gravita. apercebe-te tarde de mais que o ar está rarefeito. coloca-te, peça A, no espaço B, um país europeu dito da linha da frente. olha para trás, para o teu passado, e encolhe os ombros. verifica que B é igual ao país onde nasceste. verifica os neurónios e faz um auto-teste: onde eras mais feliz? na terrinha, ou em paris? entristece, renasce em portugal e aprende a ser diferente. cumpriste a missão, e aprendeste a respirar finalmente! (2001)

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todas as noites

todas as noites quero remendar a minha vida e a onda resultante é uma fortaleza ritmo frenético onde um solista tem seu tempo de brilho vontade de fundir reciclar remendar esta noite com um astro próximo brilhante, ameaçador qual gás de explosão esta noite vai redimir todas as noites em que quis remendar a minha vida com resultado próximo de zero

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esta noite será o sótão arrumado (esperou dez anos para que dessem por ele) é, tenho a certeza, a noite da reconciliação a noite em que encontro o bálsamo para continuar extrair a raiz do que magoa aspirar os cantos da memória endireitar livros tombados sobre personagens inventadas é nesta noite que as verdades por fim descansam exaustas sobre mentiras inteiras de uma vida (2001)

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excitação

o que paira no ar o que não se adivinha vontade de colar lábios a lábios a face a pescoço a bruma, fábrica de mistério as coxas a mão curva o olhar turvo mármore de monumento branco sem aviso iluminado tontura raio excitação (1995)

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oitenta e oito

o meu olhar chama-se Pentax a minha mão lápis meu cérebro Vax a minha imagem Osíris a minha mente Cinema todo o mundo Movies toda a gente Sixties pelas imagens podem crer viveremos para sempre (1988)

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Em voo (poema religioso)

Deus nunca viu a Terra do ar porque nรฃo hรก Deus e porque coube ao homem inventar a mรกquina o Profeta teve de subir toda uma montanha para fazer crer que fora iluminado e trazia novas esse visionรกrio viveu num tempo de mรกquinas simples mas teve a ideia complicada de falar em nome de um Deus que nunca existiu 25


o Profeta, Deus e eu - de notar que eu existo mesmo em equipa e trabalhando muito nunca conseguirĂ­amos explicar porque olho para baixo e vejo novelos brancos sem fim que julgo saber serem ĂĄgua numa forma bela de pairar e mais abaixo ainda os verdes e castanhos da Terra desta minha terra povoada por profetas e sem Deus (2002)

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pássaros da costa

porque estou condenado a ver pássaros voar tenho asas mas não as sinto são os pássaros no seu voo que mas cortam e disso nem sequer se apercebem vejo o que quero mas fora do alcance e é no preciso momento em que perco a visão com os olhos rasos de água (2004)

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o eclipse

deu-se agora mas já se pressentia. o sol, laranja às vezes, amarelo fogo despertou, e estava com pouca atenção, lá em cima. foi preciso a lua, pálida, direi até insignificante, atravessar-se para criar o facto novo, o olhar novo para o sol, agora com precauções, filtros, barreiras, reflexões. e tudo voltou ao mesmo. deu-se agora, mas já se pressente o próximo, em 2090. sorry, não vou cá estar. (1999)

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Guiness da tristeza em simultâneo com Óscar

quero arrebatar a marca estou em posição de fazer pena ao próprio júri que os tristes assistentes só de lerem a nomeação se desfaçam em lágrimas o cinzento exterior ajudou muito quero agradecer a quem me apoiou na obtenção deste galardão não agradeço a familiares pois só me deram alegrias quero dar uma palavra esta sim de agradecimento ao que se passa lá fora de horrível ajudou

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mas quero sobretudo agradecer-te a ti sem ti este prémio seria como a minha vida sem sentido sem o teu contributo de rejeição não estaria neste podium foi com suprema tristeza que me coloquei a este nível para subir alto e de lá me atirar para o abismo (2004)

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ao destino

É de minha vontade que o destino me comande e que o meu abandono a essa lei seja entendido como um sinal para me concentrar no que toda a vida deveria ter privilegiado Mas assim não foi Que passe o resto da minha vida neste subtil martírio de ir escrevendo e percorrendo os caminhos de uma aprendizagem tardia com o remorso de não estar já num estado mais avançado de aproximação à verdade E que sejam as máquinas a forçar a minha natureza e a impelirem-me para o que já adivinhava desde sempre

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Esta ladainha em forma de prece é um requiem pelo século que deixamos e pelo desperdício de metade dele roçando a arte sem a tocar Lanço um grito rouco que só eu ouço para que no além o destino me atenda e me faça gastar os restantes dias com preocupação maior por quem amo pelas artes Só fiel tenho sido ao destino pois nunca me deixou ficar mal nem com mais força posso crer em qualquer outra coisa (1999)

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comigo

comigo o ano 2001 descia a avenida da liberdade os murmúrios intensos a recusa de ficar na rotunda do tempo descíamos os dois com uma visão armada de tesouras para limpar as folhagens do sentimento retive-me ao ver que este ano ia ficando para trás espantado por ser eu tão veloz tudo estremeceu com as imagens registadas e pairou a ameaça de agora ser tempo de câmara escura (2001)

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sons cheiros visões

os sons indispensáveis à minha bússola orientam dia e noite melodias e palavras no limite ouço um órgão em catedral o humano está nas vozes do coro os cheiros pairam em desafio tão diferentes como sândalo alfazema ou o teu corpo no bosque dos aromas recolhem para novo ciclo as cores, simples frequências por si só já nos cativam aprisionadas em linhas contam a história do mundo sê para alguém uma linha envolvente do seu som sua cor seu odor (2004)

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homenagem aos répteis

nascer com a sina de ter sangue frio é tarefa para que muitos se treinam sem chegarem a nascer sente-se o deslizar da pele a roçar as ervas em economia de sons começa a fazer sentido o sangue o som e a viagem saudemos o fim da tarde provoquemos os bem comportados para que de nós se digam cobras e lagartos (2001)

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espanto

espanto é conhecer que um dia haverá um momento único na terra: o último que se lembrava de nós morreu momento a que chamamos o nosso encontro com o cosmos (1998)

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trocas sincronizadas

conto a história do pintor de paisagens apanhado por um tornado quando viu o rosto e os olhos ternos da mulher da sua vida esqueceu as belas artes mudou o perfil de artista e na incrível transformação tornou-se um pintor fantasma sentiu-se câmara com tripé encontrou a necessidade da filosofia e não mais deixou de pensar nela (2004)

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lugar de criação

para a escrita não basta a caneta o papel pode ser obrigatório mas mais necessário é o lugar de criação no momento fatal o som certo nem sempre música uma esfera envolvente não identificada então o tremor interno e a poesia sai-te da mão (1999)

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reter lágrimas

retive as lágrimas, invertendo programas em curso fiz-te caber inteira na minha ogiva, arriscando passageiros em viagem nada correu como antes senti que emitias energia positiva peça nuclear, acolhi-te como és - virtual. (2002)

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felicidade

um solo de violino, acordes de Beethoven lembranças de Nyman e odores de mulher a calma de bosque um castelo ao longe abandono de dois seres, um a outro. sejas quem fores mata-me agora ou nunca – em beleza se deve morrer – desafio-te a que me fulmines, ou a que te rendas para sempre. êxtase – sei agora o teu código. (1994)

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amor de provinciana

quer mesmo com muita forรงa um homem que deve ser forte ele deve ser o sol ela deve ser o norte. quer com a forรงa do vento por vezes a quem nรฃo deve serรก como ir para o deserto com os hรกbitos da neve. (1984)

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Sophia 99

saber a poesia viva na noite dos cegos poetas carentes da lanterna que ilumina marcham penosamente para salvar a alma sonhando ver escrito nas pegadas SOPHIA (1999)

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7º dia

a raiva apareceu desta vez com pulseiras agitou-as no brilho e no som sem pudor vomitou argumentos magnéticos pisou mágoa e desespero com desprezo o resultado é mais este crucificado. (2001)

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conversa

a mensagem parecia estranha para quem a não esperasse estranha seria para um incrédulo eu sabia que chegariam explicações esperadas desejadas necessárias fundamentais esta era de Vincent, o pintor que de cores viveu e de cores morreu lamentava ter usado o carvão sobre papel alguém soubera mostrar o cinzento da vida o preto da solidão sobre o branco de Lisboa o branco, o cinzento, o preto, é Pessoa (1997)

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flutuar

já nem aos escombros ligo desprezo o que flutua em meu redor ignoro se alguém me salvou não me lembro do desastre alguém me procurou? se bastasse uma canção, a quem a dedicaria? e sem porquê continuo flutuo (1991)

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no fundo – história curta

estremeceu e parou sentiu uma luz forte em cima ouviu perguntar lembras-te dela? deviam estar a gozar queriam o seu embaraço por certo cego pela luz atordoado pela questão disse se me lembro? e há algum minuto sem a ver dentro da minha cabeça? sua pele prometia sempre seus olhos eram risadas com o choro em fundo seu corpo em geral uma mistura de fêmea desejo e cor seu andar dramático ao afastar-se ondulante à vinda se me lembro? sufocou, tudo andou à roda e caiu, fulminado. (2001)

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África

todos os dias perco palmares mares quentes vistas sobre águas gentes no sonho de todas as noites chegam-me a Praia das Chocas a África de menino e o calor daquela noite em que decidi preferir a recordação à vida (2004)

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A capital de Lisboa

nem todos sabem é o Largo da Estrela quando aqui estamos tudo é equidistante basílica branca sem ponteiros no relógio tão perto de Sintra como do Rossio só aqui temos a sensação de centro Estrela capital de Lisboa de Portugal capital moçambicana capital de roças de São Tomé centro da dor quando irmãos que perdemos em guerras por explicar aqui chegavam sem vida 48


ainda hoje na Estrela nos despedimos de portugueses dos nossos hĂĄbitos de vozes do fado da televisĂŁo preto e branco aceitando que algum ponto desta cidade seja o centro o princĂ­pio e o fim (2004)

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como apanhar Condores

há um momento de preocupação reflexão quando surge a dúvida como perseguir o Sonho? a explicação está na frase lida num jornal antigo alcançar um sonho é apanhar Condores com um caça-borboletas (2004)

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Veneza

apaixonei-me por uma diva digna Leila de Bizet o canto foi o isco mas os cabelos o rosto a calça preta que a cada momento salientava as curvas de encanto depois o passeio de gôndola onde as ramagens da blusa rejeitavam o cinza das águas tudo é passado e ainda hoje não compreendem porque não quero voltar a Veneza (2004)

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noites de encantamento

pequeno tributo aos que nas ruas caminham música na cabeça versos atrás dos olhos, aos que respiram dança, canto, representação, aos que tudo cozinham fabricantes do sonho que no palco recriam vida, delírio, paixão ópera, opereta flores-de-lis, margaridas à beira do caminho (2004)

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Poema

num conjunto de madrugadas o início do tempo na febre com que estou a visão clara do que para mim és não te quero ouvir já assim sofro e se o domingo vai longo que os próximos crepúsculos sejam o princípio do fim (2004)

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madrugada

por ser madrugada em descanso revestida surgem os desejos dum destino qualquer esboçados não cumpridos mortos ao nascer (2004)

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da viagem à descoberta

porque a fazemos? para que a alma continue colada ao peito evitando a surpresa de um dia não estar lá dela vêm as descobertas nutritivas para a floresta da imaginação geradoras das voltagens que nos ligam às redes que levam longe nossos passos sei agora o que é o salto da gata de olhos verdes feitiço da serra iluminada por candeeiros tudo será diverso na doce asfixia experiência única sinto-me preparado para uma nova era (2001)

55


inadaptado

oh, meu amor estamos a deixar passar um tempo precioso sem nos termos vai ser nosso choro como os filmes que vemos: preto e branco da mem贸ria no colorido dos dias talvez nos sirvam, sem motivo (2004)

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uma história

um copo de vinho ― coisa simples os sonhos emanados da destilaria que somos ― números difíceis os sons incríveis nas faixas de uma vida criam grande eco na muralha construída ― nosso palco o copo vazio a alma esgotada ― saída sem glória salva a peça bebe outra dose retira pedras ao muro marca uma nova actuação ( 2004)

57


praia

não tem que ser mar é cor pura quando acontece espaço espuma ar frio pegada na areia o amor desembarca mesmo quando ninguém espera (2004)

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desejo

não luto contra a morte não contrario a vida mas o desejo oh! esse não, não pode expirar venham folhas caídas flocos de neve flores em botão quando o desejo morrer leve-me também com ele (2004)

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CANÇÃO SOBRE OS CAÇADORES DO PÔR-DO-SOL

empoleiravam-se em mastros passavam as mãos pelos cabelos quando era tempo de esperar a partida do sol naquele dia, de tão curto, havia no ar um tremor um medo que o sol não voltasse pois do solstício se tratava a noite seria a mais longa e o sol era tudo para eles nem a lua, também amada, lhes dava coragem sem sol não haveria lua caçadores noite e dia nem o amor grande à praia com esse nome (2004)

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desalento

quando me atraso nas tarefas de todos os dias, a seguir castigo-me, produzindo mais, sempre devagar, claro. pela falta de hรกbito de ser velho, passo o tempo forรงando barras das que torcia em novo uma coisa hรก em que certamente serei maior no desalento (2005)

61


ouço a luz

lembra-te que és meu pôr do sol mas sou eu que me afasto enquanto brilhas ainda amor mergulho na terra com os ouvidos na luz os meus olhos em ti (2005)

62


ar de moinhos

chega de cantar locais de encanto não mais recordar pontos altos vistas largas se para os sentimentos só trago lastro de dias felizes nocivos para o próximo naufrágio, dos sítios encastrados em tardes de doçura renego as gravuras feitas marcas de fogo na pele curtida do passado já desfocado exorcizo e evito toda a recordação salvo a do ar fresco no monte dos moinhos. (2005)

63


tu

teu rosto tuas formas teu corpo salva-vidas deste nรกufrago nas tempestades do fim da vida (2005)

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onde estás

onde estás para te dizer das estúpidas dores que sinto das brilhantes ideias que tenho e tudo o mais tudo o que cabe num dia vazio e acaba no sonho ter-te tido uma delícia uma ternura junto à espuma do mar revolto com a tua ausência (2005)

65


quarto não habitado

agora, porque nem sempre foi assim, a falta o que não se vê os odores são os mesmos, bem-haja o reconhecimento, apanho no ar pedaços de uma memória estilhaçada a viagem, última consequência, pode ser um bater de porta o entender do adeus (2005)

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Amor

nรฃo dei por ele talvez brisa no pescoรงo e na orelha, o primeiro arrepio de prazer talvez tenha sido isso leve comeรงo a senti-lo refresca-me mas cresce torna-se forte antevejo um tornado com todos os sentimentos no centro a elevar-se em espiral para fora de mim e do mundo dos ventos amor-vento jรก uma tempestade abre-me os olhos amor-รกgua escorre-me pelo rosto pelo corpo

67


as cordas das velas do meu passado esticam rangem vibram as cruzes nelas bordadas partem com o vento e a minha alma fica branca pura dispon铆vel para receber as tuas marcas, s贸 as tuas! (1990)

68


fim do sonho

tivesse havido o amor fosse ele um estratificado existisse uma só verdade festiva seria a morte conhecida então por ti a única duplicidade de muito muito te amar de alma de coração ( 2005)

69


informação

a má influência que temos sobre nós próprios pode ser curada pelo remédio do passado agora só devo escrever o que me passa pela cabeça sem qualquer outra consideração se uma seta me atingir em qualquer momento quero estar bem (1985)

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digital

houve um tempo em que a escrita ela só gerava as imagens delicadamente impressas em células cinzentas e por aí ficavam noutro estamos cérebro adormecido aguardando o que virá onde as imagens são digitais. (2005)

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recusa

não quero ser do vosso universo prefiro ouvir músicas dentro de mim e não acreditar que existe algo mais convencido que o fim é hoje e também já foi há muito recuso trazer mais nomes ou objectos ou ideias ou pessoas para esta nave em queda escrevo o poema último e possível tudo o que vos mostrar no futuro é mentira para acreditarem também em dias de desespero. (2002)

72


perda

pode ter acontecido quando minha mente repousava, elevada a meditação será desculpa para entender a perda, e também ela a terá provocado ? digam que não - que o asfalto abra frestas onde jardins inteiros penetram, e de perda falarei sofro com ela. (2005)

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se

se quiseres saber quem te ama e tiveres dado sinais, da cabana onde estás podes medir a afeição de que dispões pelas visitas recebidas e a mais profunda mágoa sempre pelo silêncio dos intervalos (2005)

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a Castro

tudo foi dito. tudo. resta somar mais este choro a tantos. este atestado à crueldade na velha, na média, na nova idade. vamos a canis salvar da morte animais, e apunhalamos mulheres e crianças. terá a humanidade um fim feliz? julgamos aprender, mas os lobos em nós são mais fortes. a Castro é também uma adaga no coração do mundo para os crentes, oremos. para os outros, sangremos. (2005) (a minha neta Inês)

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prata

oferta de rio na superfície escondendo as três dimensões olhar que faz bem e garante para depois transmissão à alma brilho de reposição nas faltas sentidas substituição do prateado por cinzento-escuro voz na noite favorita das artes afastada de mim retiras-me a prata sem defesas para a feitiçaria mudo de rumo construo meus próprios escombros (2006)

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convite

quero reduzir-te a uma imagem condensar-te não permitir cópias filtrar sinais ouve avança ilumina-te na noite coloca o breu no escuro dá de ti o que não tens mostra o que há para ver o sonho impõe sai de ti mexe com o que te rodeia perfuma-te à entrada do bosque alterna-te contigo consome a vida num todo e sê para sempre no teu estar e no teu modo (2005)

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sou contra sou contra termos abandonado a tinta permanente a falta que a cor sépia faz o abandono da arte superior chamada caligrafia sou contra as ideias que surgem nas pontas dos dedos quando tocam em teclados que ordenam a correntes fracas que imprimam a facilidade serei sempre contra o que nos transformou a ideia que tenho de mim contra o que de mim esperava ainda contra o ter esperança quando esta partiu por isso olho ondas e sóis mergulhantes contra um mar que reconheço lamentando a maré cheia de desespero cúmplice de tudo o que não aconteceu quando me faço ao mar da contradição não há céu risonho que trave esta cruzada ou armada de luzes brilhantes capaz de abortar o projecto sou mesmo contra assim navego para o escuro levando em contentores os medos gigantes sem nunca os soltar

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vejo no mistério envolvente um sinal de estar na rota certa para a condenação os sonhos que à pressa embarcaram vieram a tempo do naufrágio garantido pela previsão sou contra levar na cabeça melodias de voltar para trás agentes subversivos que escapam ao controlo clandestinos na minha cabeça transportando a droga do prazer em restos de seringas picando a vontade de respirar ainda contra meu sentir passam imagens a estibordo dos locais que longe amei das coisas-animais-de-companhia e a bombordo este país onde o contrário do programado aconteceu só posso ser contra as portas fechadas e tudo o que foi difícil desse lado passa também o apego à terra pessoas e animais agora num pacote de amor-ódio transportando o que queima exalando vapores rutilantes azuis sem classificação veneno esperado para cumprir este ritual sou contra a ideia esgotada o fosso aberto o juízo final. (2005)

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MEU FOGO

no deserto dos pensamentos encontro na sombra areias em movimento sem fuga possível procuro o azul luminoso com rochas salgadas mas tudo me foge o mergulho é profundo cumpro o destino de me imolar pelo fogo que em mim arde

TEU FOGO

que incêndio vai na tua cabeça! o crepitar desse fogo sentem-no alguns quero ajudar-te na detecção desses perigos garantir meios para os anulares não fiques em combustão eterna com a tua carga térmica de gigante há que compartimentar com selagens montar uma barreira corta-fogo para que entres em lume brando protegendo as tuas fronteiras e possas por fim arder de amor (2005)

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Irreparável

porque não escrevi versos quando meus filhos dormiam no mesmo quarto, sonos que não se repetem? olhava-os nas viagens que suas mentes faziam em sonhos separados mas unidos pelo meu olhar. mais valiosa, porque não me preocupava com as suas respirações, não tinha nada de prática a minha vigília era pura e lúdica só os olhava e com tal amor que me esqueci de escrever estes versos em devido tempo embora irreparável - porque do que passou não há registos faço fora de prazo esta declaração de uma saudade grande de um amor maior. (2006) à Mónica e ao Alexandre

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às mulheres dedico

encontrar alegria no sexo praticado ontem à noite abrir janelas sorver ar sair do canto cuidar da casa ignorante de seu valor para o mundo afogada nas tarefas construtora única da vida melhor esperança final do remedeio corpo celeste maior mãe irmã filha amante mulher a quem um dia devolverão a dignidade seja esta a homenagem que às mulheres dedico (2006)

82


fui informado

fui informado de que o mundo real não existe stop existem imagens na minha cabeça daquilo que o mundo é em sonho fiquei surpreendido despedi-me definitivamente da realidade. (2006)

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Porquê ?

porque somos fragmentados? será que o caminho nos faz caminhantes? e a rota não escolhida faz de nossa partida, a chegada? pela estrada absorvemos no início desenhos da calçada portuguesa pregão anunciando fava-rica e uma gare marítima que nos empurra para o mar quando a margem do rio se deixa de ver é quando os detalhes surgem mais vivos o pescador à linha terá a alma no seu corpo ou afogada e espetada no anzol? 84


na partida começa a dor sabendo que à chegada ela será reforçada por mais dor - a de ter estado ausente porquê? se nas terras de outro oceano há encontros índicos inadiáveis outro mundo por descobrir com um xicuembo-feiticeiro à espreita estranho? sim. descobrir entre máscaras e esculturas primitivas que os deuses do Olimpo habitaram a savana o homem só e os medos desse homem cabem numa mochila ou numa arca de casa provinciana a descoberta pelo estudo da civilização europeia feita debaixo de um embondeiro mordendo o agridoce de uma toranja fará sentido?

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conhecer Mozart e Haendel num salão onde o calor aperta e à saída ouvir os marimbeiros de Zavala, tem lógica? há pontos do percurso onde a mensagem do regresso aparece em cada esquina é a nossa sina? ver de novo o Tejo regressar à origem sentir que o fim da viagem agora foi conseguido alguém sabia da certeza de voltar vou chamar-lhe Destino. porquê? não sei. (2006)

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boa hora

qualquer hora é boa para uma declaração ninguém me levará a sério meu passado será sempre ameaça quem quer ver através de mim terá sempre nevoeiro pela frente não se pode viver sempre acertando onde devemos as falhas são abismos sou consumido pela falta pela cegueira que tive e agora que te encontrei cego na tua luz (2006)

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fulgor

nem todos os dias o sangue corre com pressa nas veias do mais íntimo de nós na contradição da ânsia e do torpor mas quando tal acontece não há montanha nem rio mais próximo do sentir só o mar se aproxima do bater do coração nas tardes de tempestade partindo de toda a gama de cinzentos mostrando o brilho de muito azul com vento sal e água no ar um destino está marcado o esplendor do arrepio no branco que cega na espuma. (2006)

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Poema de nunca sentir abandono

sinto o teu sofrimento corro à procura da caneta minha ferramenta também do papel teu suporte amado com teu rosto em visão quero escrever um poema amuleto para que o tenhas junto ao peito quando o dia desfeito a noite caída te sentires perdida com o mar na mente usa-o estandarte emblema talismã que teu coração sossegue adormeças serena e acordes feliz pela manhã (2004)

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fui informado morte de manhã coisas revoltas Senhor fabricante de postais arte plástica infelicidade estilhaços a uma desconhecida esboço de um take Alentejo confirmado à natureza sentir estrada irreal GRITO 2004 respirar (manual prático) todas as noites excitação oitenta e oito Em voo (poema religioso) pássaros da costa o eclipse Guiness da tristeza em simultâneo com Óscar ao destino comigo sons cheiros visões homenagem aos répteis espanto trocas sincronizadas lugar de criação reter lágrimas felicidade amor de provinciana Sophia 99 7º dia conversa flutuar no fundo – história curta

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47 48 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 80 81 82 83 84 87 88 89

África A capital de Lisboa como apanhar Condores Veneza noites de encantamento Poema madrugada da viagem à descoberta inadaptado uma história praia desejo CANÇÃO SOBRE OS CAÇADORES DO PÔR DO SOL desalento ouço a luz ar de moinhos tu onde estás quarto não habitado Amor fim do sonho informação digital recusa perda se a Castro prata convite sou contra MEU FOGO – TEU FOGO Irreparável às mulheres dedico fui informado Porquê? boa hora fulgor Poema de nunca sentir abandono

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Nota da editora Já é demasiado tarde para a aquisição de saberes oficinais, para a aprendizagem de regras de concorrência. Por isso, embora o nosso querer, querer muito, tenha a mesma força de há um ano, o labor-artesanal-cliente-único manteve-se. A dedicação total, absoluta, também. Eventuais falhas são da nossa responsabilidade. O Poeta, ser especial, saberá, relevá-las e – proverbial bom humor – murmurar: é o Destino!

Lisboa, 19 de Maio de 2008

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PSM - UM