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O macro „‟7:00 da manhã. O som irritante do despertador me faz emergir de forma violenta do meu sono. Acordo hoje para mais um dia de trabalho. Embora não seja aquilo que havia planejado, por algum motivo essa profissão me escolheu e mantém meu único vicio: Fotografar. Mas não são fotos comuns, com uma bela imagem „‟sei lá „‟... Isso me irrita. As coisas bonitas em excesso me atormentam, pois vejo todos os dias coisas o suficiente para saber que quase tudo nesta existência é frágil, é “plástico”. Gosto de imagens que sintetizem a única realidade que o ser humano demonstra em suas ações. Gosto sentir e ver as coisas das quais a nossa real natureza é capaz. E gosto de imortalizar isso, pois esta é a realidade para mim. Posso dizer que tento esconder esse meu lado uma grande parte do tempo, pois creio que possa provocar certo espanto as pessoas mais "sensíveis". Então mantenho esse vicio escondido, assim como os usuários de drogas, assim como os padres que molestam crianças, assim como jogadores de futebol que usam cocaína. Assim como todos que temem e escondem os seus vícios. ‟‟

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Capitulo 1 Um dia de trabalho

Sei que para muitos o transito não passa de um momento de stress. Mas para mim é a porção do dia em que reside o meu alívio, onde posso desfrutar das minhas músicas prediletas imersa no sossego inabalável proporcionado pelo interior do meu carro... E ao mesmo tempo, posso sorver a raiva do ambiente fora da minha redoma; todos os sentimentos negativos, gestos... A fúria tempestuosa e quase animal presente no trânsito do dia a dia acaba por se misturar, com os meus pensamentos e as canções de dentro do meu carro, dando origem a uma sinfonia caótica e infindável. Acabo, no final das contas, utilizando este percurso de pouco mais de 1 hora como minha meditação diária, e o tempo que se decorre é o suficiente para que eu possa estar bem o suficiente para chegar ao trabalho sem distribuir mal humor. E talvez por consequência da musica ou do momento, sempre acabo sempre perdida em pensamentos que me levam a pensar como as pessoas comuns me cansam. Me cansam pelo medo de suas vidas pequenas e medíocres, me cansam por viverem acuadas dentro de si mesma presas em personalidades vazias e sem vida... Em resumo: É impossível para mim não sentir nojo da grande maioria das pessoas, até mesmo das com que eu sou obrigada a conviver. Posso ser vista como uma pessoa falsa ou extremista por pensar desta forma e expressar justamente o contrário, mas são os ossos do ofício. Seria mal compreendida se demonstrasse os meus sentimentos quanto as pessoas que me rodeiam. Finalmente cheguei ao trabalho. Aproveito meus últimos minutos de sossego, me espreguiçando e escutando de olhos fechados os últimos minutos da última música da minha seleção predileta. Depois, abro vagarosamente a porta do carro, e atravesso a passos rápidos o espaço entre o estacionamento e a porta da DP. Logo que a pesada porta de vidro se fecha atrás de mim, tenho o 2


primeiro o primeiro contato desagradável do dia: Uma de minhas “colegas” de trabalho vem ao meu encontro, com o mesmo sorriso aberto e carregado de falsidade de sempre. É incrível a falta de lealdade que existe entre as mulheres, e me acho estranha por ver as coisas desta forma. Ela simplesmente perde horas de seu dia falando mal de mim, e por qual motivo? Simples, o cara que ela está afim não larga do meu pé. O que eu faço? Nada. Não entendo o motivo pela qual eu atraio determinados homens, em especial caras como ele... Que basicamente pensam com o pênis e me vêem como um receptáculo de esperma. E em contrapartida entendo porque não se atraem por coisas fáceis como ela, afinal as jóias se tornam mais caras de acordo com a dificuldade que temos em extraí-las. O sorriso plástico de transforma em um cumprimento, onde a gentileza é tão mentirosa quanto a nossa amizade: -Bom dia, Sandra! - Bom dia amiga... Tudo bem? Respondo com o mesmo tom amistoso, e me divirto com o fato dela não conseguir fingir muito bem... Quase posso tocar seus pensamentos destrutivos. -Estou ótima-Ela prossegue, com um sorriso meio lateral, meio sem graça-Então Sandra, já sabe estamos com um caso hoje? Você foi designada para ir até o local averiguar. - Oh claro, muito obrigado. Irei falar com o responsável por isso – Respondo já de costas para ela, o que acaba por evidenciar o quanto a acho insignificante. E assim começa mais um dia de meu trabalho. É dito por alguns como um dos mais estressantes, e mesmo com o passar do tempo ser policial ainda é difícil para uma mulher. Ainda existe preconceito, ainda existem brincadeiras de mal gosto...Se bem que algumas me dão idéias interessantes. Mas vejo bem mais vantagens do que desvantagens, afinal tenho um ótimo salário e uma ótima fonte para fazer as mais belas fotografias. Pelo menos para mim elas são belas, já que minha concepção sobre o que é bonito é, diga-se de passagem, “diferente”. O meu mais sincero desejo, enquanto caminho até a sala do nosso encarregado, é que haja uma cena com muitos corpos... Ou ao menos algum algo diferente, algo de belo... Algum detalhe, algo de primoroso, algo de cuidadoso. Ou pelo menos algo que transmita a 3


fúria de quem o fez. A única coisa que é capaz de me tirar um pouco do êxtase deste momento é a presença do meu chefe. Sempre de mal humor. E sempre reclamando das suas filhas acabando com seu salário. -Sandra, preciso de você neste endereço – Disse ele estendendo a mão com um relatório – Houve um assassinato, que está descrito superficialmente neste documento. Estamos considerando por enquanto a possibilidade de um latrocínio, A situação aponta para uma tentativa de assalto. A senhora foi abordada e, por algum motivo, foram efetuados 4 disparos pelo assaltante. Ela veio a óbito no local e estamos esperando a perícia e o mapeamento da área do crime para que possamos fazer a liberação do corpo. - OK, estou me dirigindo para o local. Enquanto me dirigia à cena do crime, me perdi de novo em meio aos meus pensamentos sobre certas reações humanas; partindo do ponto em que percebi o quanto os veículos oficiais fazem com que as pessoas me temam, ou aparentem me temer. Mesmo que não esteja em uma velocidade acima do comum e nem com as sirenes ligadas, os olhares que caem sobre mim são sempre de temor, de raiva, de susto... Por qual motivo? Muitas dessas pessoas já presenciaram desmandos e abusos por parte de alguns companheiros de farda. É fato que muitos deles agem de maneira desnecessária, abusando de autoridade policial, da “imunidade” cedida pela farda. Esse tipo de comportamento acaba por sujar a imagem de toda a corporação, trazendo como consequência este tipo de comportamento das pessoas... Até mesmo o cidadão honesto e impoluto, que não deveria nos temer, acaba por ver em cada viatura desta o reflexo dos desmandos, dos abusos, dos atos de corrupção e da covardia de alguns de nós. E vendo as coisas por este ângulo sou forçada a compreender o motivo de tais olhares. Um chamado no rádio me retira das minhas reflexões, mas não era nada da minha alçada. Somente mais um batedor de carteira bastante azarado, que acaba de ser preso pela tentativa de, creio eu, arranjar alguns trocados em uma carteira roubada para satisfazer o vício corrosivo pelo crack. Bem, estou quase no local do crime, e as lentes da minha Nixon d5100 estão famintas pelo que irão saborear daqui a alguns momentos. Tenho uma imensa apreciação por esta câmera, pois me proporciona 4


fotos de ótima qualidade sem ser exagerada em suas dimensões, é desagradável andar com uma ferramenta de trabalho que troque a minha mobilidade por imagens de boa qualidade. Ao adentrar o quarteirão próximo a cena do crime, já pude notar ao longe a movimentação, tanto de curiosos quanto de profissionais zelando pelo integridade daquela área. Como sempre, meu coração dispara pela excitação de saber que terei mais fotos para analisar... Sou tomada por um misto incomum de felicidade libido, me dividindo em duas porções neste momento: A criança feliz por ter um lugar novo para brincar e a artista que terá um novo modelo para imortalizar, numa pose única, numa cena única. A sensação causada por estas emoções quase me leva ao orgasmo, me sinto ofegante, com as mãos trêmulas... Demoro cerca de 3 minutos para estacionar bem a frente do local. Eu novamente fecho os olhos e me espreguiço, na tentativa de relaxar e disfarçar a sensação que tenho agora. Estou totalmente excitada, tanto psicologicamente quanto fisicamente... O prazer físico que tenho nestes momentos é indescritível, prazer este que poucas pessoas vivas me deram com toques, beijos ou sexo. Assim que consegui reprimir um pouco a enxurrada de sensações que me atropela nestes momentos, abro a porta do carro. Devo primeiro averiguar o perímetro, avaliando a existência de evidências que possam ser fotografadas com o intuito de servirem como pistas para chegarmos ao assassino, e somente depois disto poderei começar a me divertir... O caos da paisagem me diverte: Posso ver a alguns metros um carro com as portas abertas, e o cadáver de uma senhora do pendendo para fora do lado do motorista... A mão direita largada sobre o volante, o corpo debruçado lateralmente sobre o quadril, o braço esquerdo tocando o chão, servindo como apoio para a cabeça da vítima. Os longos cabelos brancos contrastavam com a poça de liquido carmesim que a rodeava. A descrição no relatório relatava de maneira superficial os pontos onde os disparos foram atingidos: Uma das balas atingiu a cabeça, na altura do olho esquerdo; rompendo o globo ocular e estourando uma parte da caixa craniana, deixando uma parte do cérebro exposta. Outras duas atingiram o peito na altura dos seios e um atingiu a garganta, atravessou o pescoço e fraturou a coluna, projetando o osso para fora. O mais fato irônico é que tudo aconteceu 5


em frente a uma igreja católica... Cheguei a pensar na possibilidade de haver alguma conexão entre os dois fatos, que poderá caracterizar um “serial killer”... Mas pela forma que foi executado, me pareceu um trabalho de principiante, possivelmente um latrocínio mesmo. Terminei a checagem de perímetro, e acabei não localizando nada de muito relevante em relação ao assassino ou aos fatos que originaram o crime. Somente algumas pegadas de sangue, o que indica que o nosso assassino esteve parado perto do cadáver tempo o suficiente para que o sangue embebesse a sola de suas botas. Isso pode estar ligado a duas hipóteses: Ou quem executou isso ficou paralisado pelo choque de ter matado, ou... Quis ficar por alguns segundos admirando a vida se esvair de sua vítima. Fiz a marcação do local para que possa retornar em alguns momentos e registrar as imagens. Antes de partir para o registro das imagens, sempre procuro localizar pelos arredores da cena alguém que esteja agindo de modo atípico. O normal é que após a primeira hora, a grande maioria dos curiosos já tenha ido embora... Mas sempre há alguém que por algum motivo permanece no local, uma pessoa que parece estar presa de alguma forma ao que aconteceu. Eu sempre chego, vou fazendo os procedimentos de praxe e observando a movimentação dos curiosos. Eles sempre vão embora, na mesma velocidade e quantidade que chegaram, e da mesma forma sempre haverá alguém que permanece, parecendo alheio a movimentação a sua volta. E como era de se esperar, aconteceu novamente... Passados cerca de 30 minutos após a minha chegada, já com o local devidamente isolado e demarcado, os curiosos começaram a se dissipar. Mas entre eles pude perceber um senhor, de aparência distinta e muitíssimo bem vestido, que mantinha o olhar fixo na direção de onde tudo havia ocorrido. Recordo-me de tê-lo visto logo que cheguei, em meio à aglomeração que começava a se formar. E seu olhar se manteve o mesmo, desde o momento que o vi até agora. Bem, tendo cumprido os procedimentos iniciais é chegada a hora de imortalizar a cena em imagens...Mal posso esperar. Mas antes disso, me aproximo do homem que permanece lá, observando tudo, como se sua alma estivesse presa aquele cadáver. Os sentidos dele

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estão tão compenetrados na cena que ele sequer percebe a minha aproximação: -Bom dia! Ho, bom dia – Me responde o homem em um susto, pareço tê-lo arrancado de um transe profundo.- Meu nome é Sandra, sou fotógrafa e perita da Polícia. O senhor se importaria de responder a algumas perguntas? -E-e-eu sou suspeito de alguma coisa? -Não cabe a eu decidir se o senhor é suspeito ou não, não é a minha função no momento. Quero somente obter algumas informações sobre o que aconteceu, para que possa dar continuidade ao meu trabalho. - Tudo bem – Respondeu em um suspiro profundo- Mas já adianto que não vi muita coisa... -Todas as informações são úteis neste momento, Senhor... Qual seria seu nome? -Jó. -Certo. O que trouxe o senhor até aqui? - Hoje pela manhã, enquanto eu me arrumava pra ir à igreja... Ouvi o som de pneus derrapando, e o barulho parecia próximo a minha casa – me disse apontando a para a uma residência próxima – e resolvi sair para ver se havia ocorrido algum acidente. Enquanto me dirigia a porta, ouvi o som de um disparo de arma de fogo... O que me fez parar, e ficar com medo... Afastei-me da porta, e fui em direção ao telefone. Antes que eu chegasse até o aparelho, ouvi mais 3 disparos. Liguei para a polícia, e em seguida sai correndo para cá sem pensar muito; foi quando me deparei com esta cena. - O senhor a conhecia? - Não intimamente. Ela era uma vizinha muito discreta, quase não a via na rua. A encontrava em algumas ocasiões nas missas de domingo, onde ela sempre me cumprimentava como um aperto de mãos e um belo sorriso no rosto – Disse ele fixando de novo o olhar sobre o cadáver. 7


Percebi algum sentimento em seu olhar. - O senhor chegou a ver alguém suspeito no momento em que o senhor correu até aqui? - Sim – Ele responde fixando de novo os olhos nos meus – Vi um rapaz correndo, em direção ao fluxo dos veículos desta rua. - Eu sei que é complicado perguntar isso... Mas o senhor conseguiu ver algum detalhe que possa ajudar na identificação? - Ele já estava bem longe, não consegui ver seu rosto. - O senhor consegue descrever algum detalhe dele? Roupas, tamanho, cor da pele ou algo assim? - Sim. O rapaz é moreno, não é muito baixo e nem muito alto. Estava usando uma camiseta preta rasgada nas costas, bermuda jeans e boné. Mais não consigo lembrar - me de mais nada além disso – O homem soltou outro suspiro e voltou os olhos para o chão - E ainda me admiro por ter visto algo, afinal tive tempo de ligar para a policia, informar sobre os tiros, passar o endereço e encerrar a ligação. Houve um intervalo de cerca de 3 minutos entre o quarto tiro e o momento em que sai pra vir até aqui, creio que fosse tempo o suficiente para que eu não conseguisse mais vê-lo. - Bem, de qualquer forma obrigado. Irei passar a informação ao meu encarregado, e pediremos para ficarem atentos a indivíduos com esta descrição. - Tudo bem, me sinto feliz por ser útil. Serei chamado para depor? - Provavelmente sim, afinal o senhor é vizinho da vítima. Mas não se preocupe, procedimento de rotina. - Tudo bem, eu não me importo. Espero que ajude a encontrar quem fez isso – Pude sentir um certo ressentimento na frase, que saiu carregada de dor. - Certo. Sinto muito por ter presenciado isso. Ela parecia ser especial para o senhor.

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-E era - Seus olhos encheram-se de lágrimas – Mas não tive tempo de falar isso a ela. Era evidente que o homem que eu estava questionando nutria algum sentimento pela mulher, ainda que platônico. Me despedi do homem com um aperto de mãos, e a única coisa que pude dar para lhe confortar foi um sorriso, que acabou por não ser recíproco. Não sou muito boa nessa coisa de confortar as pessoas. Depois de recolher as informações que desejava, corri para o meu carro para pegar a minha câmera e passar um radio ao Fernando, que havia me passado a ocorrência em questão: -Fernando, Sandra falando. - Prossiga Sandra. - Sei que não é a minha função, mas consegui recolher algumas informações que podem ser úteis. Um homem chegou ao local alguns minutos depois dos disparos, e alega ter visto um rapaz se evadindo do local. O referido trajava camiseta preta meio rasgada nas costas, boné e uma bermuda jeans. - Obrigado Sandra. Já fez as imagens? - Ainda não. Estava marcando o perímetro e isolando a área. Eu vim até o carro para pegar a câmera e dar continuidade. - Tudo bem. Quando terminar eu preciso que volte o mais rápido possível. Quero que se concentre naqueles relatórios que lhe passei a semana passada. - OK. Desligando. Assim que encerrei o contato, peguei a bolsa com a câmera e um sorriso indisfarçável veio a minha boca. Hora de fazer o que eu mais amo, hora de imortalizar a única realidade absoluta para os seres humanos... Retirei a câmera da bolsa, desbloqueei a lente e a liguei. Mau posso conter a excitação, estou ofegante de novo... Respiro fundo, me contenho e saio do carro caminhando lentamente em direção a cena do crime. Conforme me aproximava, o cheiro do sangue me entorpecia, me fazia ter arrepios de prazer... Finalmente poderia colocar em paz os meus olhos sobre o que eu estou querendo 9


ver desde quando cheguei aqui. Como sempre costumo fazer, tirei primeiro as fotos profissionais, as que preciso levar como evidência. São um tremendo desperdício de tempo, tenho que priorizar somente a posição do corpo, profundidade dos ferimentos e outros parâmetros que não considero interessantes. Terminada a parte maçante, parto para as fotos que serão minhas. Não posso tirar muitas fotos para mim, uma vez que o uso do cartão de memória não pode exceder as checagens que serão feitas posteriormente. Fiz 3 fotos, que aprisionara de maneira exata a essência que eu sempre desejo: A primeira foi feita de cima, captando a massa cinzenta semidilacerada, mistura aos cabelos brancos e tingidos de sangue da pobre mulher. A outra foi feita de frente, captando toda a cena, praticamente como se ela tivesse pousando para mim. E a última e mais difícil exigiu que eu aguardasse que os companheiros se afastasse. Fiz mais algumas fotos superficiais, praticamente inúteis, e assim que pude me ajoelhei para captar a imagem da garganta aberta, onde era possível ver o interior da laringe e as vértebras dilaceradas pelo impacto do tiro... Simplesmente perfeito. Me sinto saciada, agora posso voltar para o distrito, separar e editar as minhas fotos. Depois de encerrado o trabalho, a segunda equipe chegou e começou a preparar a remoção do corpo. Me dirigi a minha viatura, abri a porta e entrei no carro. Deixei um sorriso de satisfação escapar enquanto guardava a câmera. Liguei o carro e sai, como sempre com todos os veículos civis próximos abrindo caminho para a viatura, que por algum motivo nestes momentos se torna uma armadura imponente para mim. Os mesmos animais que esbravejam e rosnam no transito pela manhã se comportam como insetos medrosos em uma situação dessa. Agora preciso votar a DP e terminar o relatório a que o Fernando se refere, sobre um garoto de 15 anos que foi pego traficando em um beco em algum lugar dessa cidade imensa. Ele até já foi liberado, e perderei algum tempo encerrando este documento praticamente inútil. O que mais me entristece é que no fim de tudo, será mais um documento para ser arquivado e devorado pelo sistema. Não chegarão sequer a analisar o que o levou a fazer isso. Em muitos momentos me vejo pensando o que leva um garoto a fazer tal coisa... Dinheiro? Falta de atenção? Vício? Graças ao seu sempre tive tudo que precisei em minha vida: Sou oriunda de uma família de posses, 10


nunca me faltou dinheiro, comida, diversão ou estudo... Fui agraciada até com beleza, embora não seja tão apegada a este tipo de fato. E fico mais intrigada quando vejo alguns de nós maltratando um garoto desses, como se nunca tivesse tido algum contato com drogas ou similares. Como se esse vício o tornasse um animal indigno de compreensão ou até pior, porque já vi animais de rua serem tratados com mais dignidade do que estes garotos. Estou cansada de ouvir boatos sobre policiais que se drogam, que abordam usuários como se fossem os senhores da moral e dos bons costumes e não passam a noite sem entupir seus narizes podres de cocaína...Creio que em alguns casos, eles são somente vítimas das circunstâncias que citei. Ao chegar dedicarei as minhas três horas de trabalho restante a terminar este relatório, mesmo morrendo de vontade de cobrir este garoto de cascudos. É uma vontade quase irracional, afinal ele irá me prender a minha mesa por mais tempo que eu gostaria. Mas depois disso, poderei voltar a segurança da minha casa e me dedicar a edição das minhas fotos. Quanto ao garoto, o que posso dizer? Cabe a mim conviver com o fato dele ser mais um número para este sistema podre.

Continua...

Autor: Cleber Felipe Fagundes de Oliveira Edição e correção: Willian Francisco

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O MACRO