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novembro de 2013

edição nº 7243550 Quase verão C25_CA50 equipe Antônio César Alves Teixeira Beatriz Beccari Barreto Daniel Agostini Cruz Estevão Sabatier Gabriela Gonçalves Marques Karol Costal Raul Maciel Ricardo Castro diagramação Daniel Agostini Cruz Estevão Sabatier

F 12,5mm


Algumas coisas que queria dizer sobre a poli, a USP e a sociedade A vida no Brasil não é bonita para todos. A maior parte da população desse país vive em péssimas condições de vida. Pouquíssimos têm acesso à educação de qualidade, a um bom sistema de saúde e lazer. Muitos vivem em condições precárias de habitação e constantemente presenciam episódios como assassinatos na porta de casa. Aqui, na USP, vivemos numa bolha, isolados do mundo. A extensão popular, e não a Universidade, me propiciou um vislumbre da realidade. Em uma favela da Zona Sul, deparei-me com a notícia do assassinato de um jovem de 17 anos, próximo à associação com que temos parceria. Uma semana após esse evento, mais dois jovens foram assassinados. Outra vez, quando visitamos um terreno, onde possivelmente seria instalada uma cooperativa de triagem de material reciclável, deparamo-nos com um corpo, descartado no local. Tais atrocidades não devem ser vistas como eventos pontuais causados pela ação de um policial ou criminoso, mas sim como um problema estrutural do nosso sistema de organização social. Uma coisa que muito me incomoda é a apatia da maior parte dos estudantes e docentes com essa situação. Muitos assumem a postura de que não têm nada a ver com isso. Posicionam-se dizendo que esse tipo de discussão não cabe a uma escola de engenharia. Que não cabe a eles a discussão sobre tais assuntos. Ninguém percebe, ou não quer perceber, que nós temos uma contribuição significativa para o que acontece ao nosso redor. Para exemplificar, vou dar um panorama sobre os casos das favelas das regiões mais centrais de São Paulo. Você já perguntou para um habitante desses espaços por que ele mora ali? A periferia tem pouquíssimos empregos, e portanto grande parte da população tem que se deslocar para o centro para trabalhar, num trajeto que pode durar mais de três horas. Morar próximo das regiões centrais é extremamente benéfico.

O problema é que os altíssimos valores do terreno nessas regiões não são acessíveis para a maior parte da população. Opta-se assim pela realização de ocupações e constituição de favelas. O maior responsável por tal valorização fundiária é o mercado imobiliário (do qual fazem parte muitos politécnicos) e que visa ao lucro, e não ao bem estar social. Esse mercado briga com unhas e dentes pelos espaços mais urbanizados da cidade, não abrindo espaço para a moradia popular. Nas regiões com mais infra-estrutura é mais interessante, do ponto de vista do lucro, construir casas para as classes altas em detrimento das classes baixas. Um grande absurdo é que a Escola Politécnica, cuja maior fonte de financiamento é o ICMS, imposto que possui o formato “paga mais quem ganha menos”, ensina seus estudantes a continuarem com essa prática. Grande parte dos docentes e estudantes não procuram a solução e muitas vezes até contribuem para o agravamento dos problemas sociais. A explicação para esse fenômeno é complexa, mas certamente um ponto relevante é a acomodação de grande parte da comunidade politécnica. Temos que lembrar que a condição de vida da população em geral não é comparável com a condição da maior parte dos membros da Poli. A Universidade deveria ser crítica aos processos que ocorrem hoje na sociedade. A USP tem a obrigação de produzir conhecimento e formar cidadãos capazes de compreender e propor soluções para os problemas da sociedade. Enquanto projetos como os de extensão popular forem jogados às traças e os nossos cursos forem focados na aprendizagem dos processos já realizados na sociedade, sem se posicionar criticamente em relação a eles, isso jamais irá acontecer. João Pedro Salva Geddo 3


Capital imobiliário X Capital industrial Marx, no século XIX, estudando o modo de produção capitalista, chegou à conclusão de que, de acordo com a produção do espaço dessa sociedade, a tendência geral era a de aumento de eficiência nos transportes e melhor acomodação dos trabalhadores de acordo com os postos de trabalho. Tais fatores se deveriam à uma pressão para o barateamento do trabalho por parte das indústrias. Trabalhadores morando mais perto das fábricas e sistemas de transporte baratos e rápidos, além de uma maior velocidade no fluxo de capital, contribuiriam para um ganho financeiro dos capitalistas. Por que então, se olharmos para a cidade de São Paulo não notamos tais características? Teria Marx errado escandalosamente em suas previsões?

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A verdade é que ele analisou uma sociedade capitalista baseada na produção fabril, que sofreu uma radical transformação ao longo dos anos. Durante o século XX e principalmente depois da década de 70 os investimentos em mercados especulativos se tornaram mais lucrativos do que investimentos na indústria no geral. Na cidade de São Paulo o mercado imobiliário se tornou uma forma de retorno financeiro cada vez mais interessante com o passar dos anos. Passaram pela prefeitura diversas gestões que viram no incentivo ao mercado imobiliário uma grande forma de aumentar o crescimento econômico da cidade. O problema, entretanto, é que os interesses do capital imobiliário normalmente


entram em conflito com os interesses do capital industrial. Enquanto a não regulamentação do uso do solo é de extrema importância para o primeiro, vai de encontro com os interesses do segundo. Tais regulamentações, que melhorariam a mobilidade urbana e contribuiriam para uma melhor disposição dos trabalhadores no território da cidade, causando uma diminuição no preço do trabalho para as indústrias, restringem os campos de atuação do mercado imobiliário, diminuem a quantidade de investimentos baseados na especulação e, portanto, seus lucros. As prefeituras usaram ferramentas como essa, além de outros incentivos, para assegurar os ganhos do mercado de especulação. Não é de se admirar que o crescente ganho de importância do capital imobiliário afastou a indústria de São Paulo. A maior parte dos empreendimentos são feitos no centro expandido, área que recebe maior investimento de infraestrutura por parte do Estado, favorecendo a especulação imobiliária. Isso se deve, entre outras coisas, ao fato de a prefeitura entender que o mercado imobiliário causa maior circulação de capital do que a indústria, de as imobiliárias e grandes construtoras serem as maiores financiadoras das campanhas eleitorais na cidade, e também à corrupção direta promovida por esses setores. As habitações da população mais rica da cidade bem como a maior parte dos postos de trabalho se concentram, então, nessa área do centro expandido. Disso decorre a necessidade da realização de grandes deslocamentos por parte dos trabalhadores e uma grande piora em suas condições de vida. A imensa concentração de investimentos nas regiões mais centrais acarretam outras consequências gravíssimas. O preço do terreno na periferia é baixíssimo se comparado com as regiões centrais, pois o mesmo se deve aos investimentos realizados no local, como a realização de obras de infraestrutura, instalação de equipamentos culturais, estabelecimento de escolas, etc.. Disso decorre um grande problema: qualquer investimento que se faça em uma

favela, por exemplo, causa uma grande valorização do terreno nos entornos. Com isso, o investimento resulta em um ganho para os proprietários de terra no local, mas também a necessidade de deslocamento dos mais pobres que ocupam irregularmente o território ou que alugam uma casa no local. A população se desloca para regiões mais distantes que, possuem condições iguais ou piores de infraestrutura e empregos. Qualquer investimento isolado em regiões como essa, que deveria melhorar a qualidade de vida da população, na verdade representa um ganho para alguns (proprietários) e uma piora de vida para outros. Tal problema só poderia ser driblado com o desenvolvimento massivo de toda a periferia, pois não ocasionaria uma valorização excessiva em um só local. A luta pela melhora de vida dos trabalhadores da metrópole e para a melhora da mobilidade na cidade é, portanto, uma luta contra o capital, que tem como um de seus grandes representantes o mercado imobiliário. Em suma, o capital industrial, que vê na terra uma forma de assegurar ganhos de produção, entra em conflito com o capital imobiliário que, por sua vez, vê na terra a mercadoria em si. Tal fato demonstra que nosso sistema de organização social possui contradições internas graves. No caso de São Paulo, tal contradição poderá levar a cidade à uma grande crise. A imensa quantidade de contradições no sistema capitalista gera crises recorrentes, já observadas por economistas marxistas à muitos anos. Enquanto não despertarmos e enxergarmos a ineficiência e crueldade de nosso sistema de organização social, seremos, em São Paulo, vítimas da violência que decorre da periferização e falta de investimentos nas favelas, do crescente problema na mobilidade que resulta do não planejamento de nosso território, da imensa desumanidade de nossa metrópole e tantas outros problemas que nos destroem durante o cotidiano. João Pedro Salva Geddo 5


Delegação Politécnica à Rio +20 - parte II Eis que chegou o momento de escrever sobre a nossa boa viagem ao Rio durante a Cúpula do Povos e outros eventos paralelos à Conferência oficial da ONU. Adiei, enrolei, adiei, mas não teve jeito, chegou o momento de relatar os fatos. Mas não adiei por preguiça não galera (tá, um pouquinho), e sim porque condensar uma viagem toda em duas páginas a partir de minha falha memória é algo complicadíssimo de fazer (se esquecer de algo, me perdoem). Enfim, deixo os choramingos para lá porque começa a descrição da loucura toda. Suando para que aconteça Não me recordo exatamente quando é que surgiu a ideia de irmos ao Rio, acredito que os sete organizadores (eu, Lari, Oi, Marcello, Dé, Lucca e Gustavo1) tiveram essa ideia de maneira separada, alguns se inspiraram num evento que ocorreu na FEA em março que tratava da Rio +20, outros por ter colegas de outras faculdades se organizando para ir e se empolgaram de ir também, enfim, no final das contas, começamos a nos reunir para organizar essa ida ao Rio. No início parecia algo inviável; depois possível, embora longínquo; para então ser totalmente realizável. E aconteceu. A passos de formiguinha conseguimos levar a cabo o projeto. Disponibilizamos listas de interesse em alguns pontos da Poli e nos surpreendemos com a quantidade de gente que estava a fim de participar. Fomos atrás de apoio financeiro e conseguimos com a Escola e os departamentos do PMI, PHA e PEF. E as inscrições se iniciaram, um ônibus e 41 inscritos. E o ziriguidum começa Sábado - Partimos em uma sexta-feira de bixopp perto das 23h. E no busão foi a bagunça boa de sempre, violão e cantorias boas de boa música durante o trajeto. Dormimos afinal e chegamos ao Rio para a primeira atividade2 1 Comissão organizadora da viagem ao Rio: Débora Carvalho, Gustavo Tanaka, Karoline Costal, Larissa Rahmilevitz, Luciana Mascarenhas, Lucca Pérez e Marcello Walter. 2 Atividade Painel 1 - A Transição Para uma Nova Economia concebido como parte do Fórum de Empreendedorismo Social da Nova Economia vinculado ao evento Humanidade 2012. Com Marina Silva, ex-ministra

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logo pela manhã no Forte de Copacabana. Muito bacana o evento, com a participação da Marina Silva, Ricardo Abramovay, Eduardo Giannetti, Brooke Barton, entre outros. Balanço do evento: Colocações importantes como a de Giannetti sobre crescimento do PIB e qualidade de vida não serem a mesma coisa e a de Cáceres sobre a necessidade de se criar uma Declaração de Deveres Humanos; notória diferença de pensar do “Norte” e do “Sul”; e a necessidade de se rever paradigmas da sociedade contemporânea. Logo após, seguimos para a Cúpula dos Povos, onde o grupo se dispersou e cada um foi para tenda, atividade, palestra que melhor lhe conviesse. Ao final da tarde, fomos para o camping organizado por estudantes da UFRJ, na Urca. Transcrevendo palavras da Lari (não consigo descrever melhor): “O terreno era do tamanho de dois campos de futebol, lotado de barracas, no qual ocupamos um cantinho. Cada dois dividiram uma barraca e assim passamos a noite ao pé do Morro da Urca, envolvidos com muita discussão, alto astral e energia positiva.” Domingo - Metade do grupo permaneceu no campus da UFRJ para atividades e palestras e a outra metade, eu no meio, voltamos ao Forte de Copacabana. Lá rolava a exposição (tudo de bom!) Humanidade com curadoria de Bia Lessa3 e patrocínio de fundações que nada tem de preocupação sócio-ambiental e sim de marketing ecológico, porém o resultado final foi lindo de se ver, show de bola mesmo. Subíamos de andar a andar e trocávamos de salas temáticas, ao todo 9 ou 10, não me recordo, e em cada espaço abria-se um mundo meio ambiente e ex-senadora, Eduardo Giannetti, professor do IBMEC e autor do livro “Vícios privados, benefícios públicos”, Tim Jackson, autor do livro Prosperidade sem Crescimento - Economia para um planeta finito, Brooke Barton, diretora de água e corporações do Sistema de Avaliação dos Recursos Ambientais da Califórnia (Ceres) e o sociólogo Milton Cáceres, diretor da Escola de Educação e Cultura Indígena, do Equador. A mesa de discussão foi mediada pelo economista Ricardo Abromovay, Professor da Faculdade de Economia e Administração da USP. 3 Exposição Humanidade, realizada pela FIESP, SESI-SENAI, Fundación Avina, Ashoka, Skoll Foundation e Fundação Roberto Marinho e desenvolvida pela artista e cenógrafa Bia Lessa.


do de sensações táteis, visuais, olfativas, auditivas que nos levavam a questionar o meio ambiente em que vivemos, tanto da perspectiva ambiental quanto da social. À tarde, fomos até a Cúpula dos Povos, onde estava rolando as Plenárias de Convergência, com o intuito de se discutir temas levantados no sábado nas tendas. Os temas foram: Soberania Alimentar; Energia e indústrias extrativas; Defesa dos bens comuns contra a mercantilização; Direitos, por justiça social e ambiental; Trabalho: por outra economia e novos paradigmas. Balanço: Muito pouco tempo para a exposição, porém foi interessante de ver pessoas dos mais diversos cantos tentando dialogar sobre esses diversos temas. Lembro que fiquei confusa, sem foco com tanta coisa ao meu redor. No fim, fui parar no MAM e lá havia uma galera no Clube da Engenharia, um cara que parecia mais com o Tíbio e/ou o Perônio, mas que falava da “Casa Sustentável”, uma realização do INPTS (Instituto Nacional de Pesquisa em Tecnologias Sustentáveis).4 De volta ao camping, cansadões, nos preparávamos para a volta. De volta para casa Cansadões depois de um fim de semana cheio de atividades, não houve a bagunça da ida. Alguns conversaram sobre a estada no Rio, suas impressões e outros descansaram num sono de pedra. Próximo das 5h da manhã, chegamos à USP e assim acaba a nossa viagem. A viagem apenas, porque as impressões dela ficaram na nossa lembrança e nos preparamos para começar preparativos de atividades pós-Rio. As atividades pós-Rio Galerinha, alguns de nós se organizaram para a realização de atividades pós-viagem, debate, exposição, relatório, vídeo. O vídeo foi postado na nossa página do facebook, mas pode ser encontrado no You Tube (Delegação Politécnica na Rio +20) e no site do PHA, aba disciplinas subaba Análise de Sistemas Ambientais. O relatório será disponibilizado para os departamentos patrocinadores, no Escritório Piloto e quem quiser, é só mandar e-mail para qualquer um de nós ou mesmo para o jornal que fornecemos sem o menor problema. O debate Rio +20 e Nós já ocorreu em setem4 Stand do Clube da Engenharia na Cúpula dos Povos com resultados de uma pesquisa do INPTS (Instituto Nacional de Pesquisa em Tecnologias Sustentáveis), para o desenvolvimento de uma casa sustentável e inteligente, denominada Reprocessed House.

bro. E, por fim, a exposição sobre a nossa jornada se encontra exposta durante o mês de novembro no prédio da Civil. Lá, há fotografias, livretos, reportagens que separamos para mostrar aos nossos coleguinhas de faculdade e dividir um pouco do que vivenciamos por lá. Se você que está aí ler tal texto antes de ela acabar, vai lá e dá uma conferida. Impressões pessoais e agradecimentos E o meu balanço geral de tudo isso é que foi uma viagem ótima com muita gente animada que já conhecia e muita gente animada que passei a conhecer, não só animada para ziriguidundear, mas também para conversas boas de serem feitas, discussões necessárias, ideias a serem refletidas, outras colocadas em prática. Foram momentos agradáveis e propocionaram um olhar diferente para uma porção de coisas que aprendi, ouvi, li, vivi. Enfim, voltei outra e melhor, p recisa dizer algo mais?! Agradecimentos especiais: - à minha companheira de barraca, Oiii, que dormiu sossegadamente porque eu não ronco, falo o mesmo dela, eu que tenho sono leve não podia ter escolhido melhor. - ao Marcello que aguentou meu mau-humor no domingo, depois passou né Waltão, amigo que é amigo tem que aguentar, fazer o que?! - ao Phil e à Mari que acompanharam a mim, ao Straat e ao Ale no sábado. - ao Straat e Ale, meus companheiros de Cúpula e todo o mais, sem dizer o ótimo almoço no sábado, experiência gloriosa a frangada com farofa de vocês na calçada (só faltou o milho!) e o almoço de domingo com vocês, Rubão, Lê, Edil, Layla, Carol. - á organização, suamos e conseguimos, Lari, Gus, Oi, Marcello, Dé e Lucca. - e, em nome de todos os organizadores, agradecer a todos que nos ajudaram e apoiaram essa nossa empreitada, especificamente ao diretor José Roberto Cardoso e aos chefes de departamento: Mario Thadeu Leme de Barros (PHA), Laurindo de Salles Leal Filho (PMI) e Waldemar Hachich (PEF), que acreditaram e apoiaram nosso projeto. Agradecemos também o apoio e credibilidade que nos foi dado pelo Prof. Luis Enrique Sánchez, e pela disposição dos professores Maria Eugenia Gimenez Boscov, José Jorge Nader e Arisvaldo Vieira Méllo Jr. em nos acompanhar, apesar de não terem podido estar conosco. Ao Escritório Piloto, CEC e Grêmio pelo apoio. E é isso, fim! Karol Costal

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Além da representatividade existe a Liberdade Quem aqui está satisfeito com o governo¿ E quem se sente por ele plenamente representado¿ Embora eu ache que satisfação plena nunca ocorrerá (e nem deve), isso é apenas uma opinião minha, como várias outras. Já representação plena é um paradoxo, e isso, pelo contrário, é uma afirmação; não é possível pensar como outra pessoa, chegar às mesmas conclusões que ela, escolher sempre o que a outra pessoa escolheria. Mesmo um indivíduo, em diferentes momentos, pode vir a pensar e “dizer o oposto daquilo tudo que ele disse antes”, como diria Raul. Ninguém melhor (ou menos pior) pra te representar do que você mesmo, se fazer ouvido, marcar sua posição. Portanto vou afirmar, sem delongas, o que o meu eu de agora vem pensando (já há tempos): democracia representativa não significa o poder na mão de todos, muito menos representa a maioria! Os nossos ta-ta-ta-tataravós não devem ter lido as cláusulas de letras miúdas

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quando “assinaram” o contrato social iluminista, que está vigente até hoje. Tampouco eu ou você assinamos. Como abdicar de quase todo nosso poder e eleger alguns (lobos) com mais poder pode nos tornar mais livres e melhorar nossa vida¿ A verdade é que a democracia representativa é um grande avanço comparando-se com o antigo regime, onde os reis mandavam simplesmente “por que sim”, e um grande aprendizado. No entanto, após séculos dessa representação, podemos perceber que coisas absurdas como aumentos abusivos de salários de parlamentares, redução de seus expedientes, inúmeras leis e políticas que favorecem minorias e interesses que não são os da população, foco no crescimento econômico sem foco, entre outras, acontecem costumeiramente. Portanto é simples a conclusão de que: do jeito que está, não está bom. Eu não quero propor nenhuma solução, muito menos mágica ou utópica com base em ne-


nhuma teoria com esse texto, mas apenas expor a minha convicção que qualquer que seja essa solução, se ela existir, passa por uma sociedade participativa, construída por todos que nela vivem, pois só assim o que as pessoas pensam de fato estará sendo posto em prática. Pode parecer impossível de imaginar um mundo em que todos tenham acesso às tomadas de decisões e gestão da sociedade, mas nada deve parecer impossível, nada deve parecer natural. As coisas não são assim por que sempre foram, ou porque o homem é assim. E não serão assim para sempre. Afinal, várias coisas consideradas naturais e inquestionáveis no passado, como machismo e escravidão, hoje em dia são totalmente repudiadas por (pelo menos quase) todos. Mas como participar das decisões, conciliar vida pessoal, trabalho, política, esse turbilhão turbulento que é a vida¿ Acho que não estamos na iminência de conseguir essa autonomia e nem saberíamos como lidar com ela, pois não temos essa cultura (ainda). No entanto, novas iniciativas vêm surgindo. Por exemplo, as cooperativas, onde os trabalhadores gerem, participam, debatem, e votam as decisões empresariais, burocráticas e como será realizado o trabalho. Um cooperado sabe para quem está trabalhando, porque, toma as decisões e divide a renda da forma que a maioria achar justa, não necessariamente igualmente, mas justa. Ele debate as decisões, sempre aprendendo e discutindo novos conceitos e não se alienando na produção. Essa forma horizontal e coletiva de viver a vida, com respeito à individualidade de cada um e reconhecimento de que o outro é tão ser humano e potencialmente capaz quanto você, pode ser assimilada e conquistada aos poucos, através de pe-

quenas mudanças culturais. Instituições, organizações e comportamentos serão aos poucos transformados em estruturas emancipadoras, dependendo apenas das pessoas, e não de guerras, fatores externos ou imposições, sendo uma construção natural da libertação humana. Concordo que nem sempre foi possível a existência de uma sociedade participativa, mas atualmente com novas ferramentas de comunicação, isso se tornou mais fácil (ou menos complicado). Além disso, nós perdemos muito mais tempo trabalhando para pagar impostos que achamos mal utilizados e salários de políticos, do que gastaríamos para governarmos todos, discutirmos políticas coletivamente, nos dedicarmos a cuidar de nós. Aliás, perdemos muito, mas muito tempo da nossa vida trabalhando por ideais que não são os nossos, ideais que são mantidos pela ausência de poder que temos para muda-los. Isso é liberdade¿ Definir liberdade á algo que julgo além das minhas capacidades, mas sei que a resposta dessa pergunta é negativa. Só seremos livres quando escolhermos coletivamente, sem imposições de nada e de ninguém, os rumos do que é feito conosco, sobre como nos devemos organizar, sobre como devemos agir, sobre como, quanto, para que e para quem devemos trabalhar (nós). Assim seremos livres para escolher como utilizar as tecnologias, em favor de nós mesmos, e não de alguns apenas. Livres para compartilhar o conhecimento, que por sua vez aumenta ainda mais liberdade, entre nós. Livres para viver e usufruir uma vida íntegra e saudável, para poder escrever nosso destino, pois isso, entre tantas coisas, é liberdade!

Lucca Pérez

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Nós Estamos Aqui: O Pálido Ponto Azul (tradução) A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa idéia, logo depois de Saturno, fazer ela dar uma ultima olhada em direção de casa. De saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe, nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: Planetas vizinhos, sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado valeria a pena ter tal fotografia. Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica, que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmos circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance, e talvez a nossa última nas próximas décadas. Então, aqui está - um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas, e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de sol. Como se houvesse alguma importância especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas maquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidencia. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal. Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e 10

destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “lidere supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria auto-importancia, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz. Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não ha nenhum indicio que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nos mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez, se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a terra é onde estamos estabelecidos. Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos... o pálido ponto azul. Carl Sagan


No dia 14 de fevereiro de 1990, a pedido de Carl Sagan, a sonda Voyager 1 voltou-se e tirou várias fotografias, entre elas a histórica fotografia da Terra, do tamanho de um pixel azul, suspensa num raio de sol, refletido pela nave. Esta encontrava-se a 6,4 Bilhões de Kilómetros de distância, nos confins do sistema solar. “Toda a história humana aconteceu neste pequeno pixel, que é o nosso único lar”. Uma visão de futuro do homem no espaço. Em 2001, esta foto foi selecionada como uma das dez melhores imagens de ciência espacial. 11


O Açúcar O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar não foi feito por mim. Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco ou no Estado do Rio e tampouco o fez o dono da usina. Este açúcar era cana e veio dos canaviais extensos que não nascem por acaso no regaço do vale. Em lugares distantes, onde não há hospital nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome aos 27 anos plantaram e colheram a cana que viraria açúcar. Em usinas escuras, homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. Ferreira Gullar Enviado por Lucca Pérez

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O Engenheiro A Antônio B. Baltar A luz, o sol, o ar livre envolvem o sonho do engenheiro. O engenheiro sonha coisas claras : superfícies, tênis, um copo de água. O lápis, o esquadro, o papel ; o desenho, o projeto, o número : o engenheiro pensa o mundo justo, mundo que nenhum véu encobre. (Em certas tardes nós subíamos ao edifício. A cidade diária, como um jornal que todos liam, ganhava um pulmão de cimento e vidro). A água, o vento, a claridade, de um lado o rio, no alto as nuvens, situavam na natureza o edifício crescendo de suas fôrças simples. João Cabral de Melo Neto

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O peso de viver Vamos treinar a imaginação. Imagina comigo. Imagine que você carregue sempre contigo uma mala, e que essa mala represente a sua vida. A vida começa fácil, começa leve, livre e solta. Com o passar do tempo vamos crescendo e vão surgindo problemas e responsabilidades. A mala fica maior, mais pesada. Mas nada demais, ainda posso ir aonde quiser! Sou livre. Chega então aquele momento. Algum aspecto de nossa vida não vai nada bem, aliás, começa a virar um incomodo. Pesado. E o problema vai se prolongando, a mala vai se alargando e ficando pesada com o tempo. E cada vez mais, vai ficando mais difícil de carrega-la. Até que se chega ao ponto que simplesmente não podemos mais nos mover. Paramos no lugar. Nós e nossas malas. Estagnamos a vida. Meu sábio pai me contou uma pegadinha que ele fez no trabalho há muito tempo atrás. No escritório, ele tinha um colega que levava todos os dias uma maleta enorme. Todos desconfiavam que o rapaz nunca abria a maleta. Certo dia, durante o horário do almoço, meu pai abriu-a e colocou um tijolo dentro (sim, um tijolo), sem a presença e muito menos consentimento do amigo. Alguns dias depois, graças a boatos, contaram o que tinha na mala para o infeliz, que finalmente descobriu o porquê de sua maleta ter ficado mais pesada. Como podemos nos conformar com a situação que nos encontramos a ponto de não perceber o que se passa ao nosso redor? Como podemos chegar ao ponto de estagnar na vida, e não ter parado nem um segundo para abrirmos nossas malas? Ao simplesmente abri-la, veríamos que muitos de nossos problemas que carregamos todos os dias são tão importantes quanto o tijolo para o infeliz. Ou seja, insignificantes. Mas continuamos nos arrastando dia após dia esperando uma luz que nos liberte desse peso. Sem esforço, sem reflexão. Pior ainda, nos arrastamos esperando pelo carnaval.

porque temos vertigem num mirante cercado por uma balaustra sólida? Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrae e nos envolve, é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados”. Nós somos atraídos pelo peso. E consideramos mais fácil nos conformarmos, sentarmos a bunda no sofá. E não discordo, é mais fácil. Mas é simplesmente sadomasoquismo. Acredito que podemos reverter todos nossos problemas, nossas angustias. Não deveríamos levar a vida como se fosse uma mala inconveniente. Rosa Luxemburgo dizia: “Quem não se move, não sente as correntes que lhe prendem”. Não quero me rebaixar a escrever qualquer coisa relacionada a como solucionar problemas. Livros de autoajuda estão ai aos montes. E nem vou entrar no mérito se é baboseira ou não. O meu ponto é outro e mais simples. Olhamos demasiadamente para o exterior. Peço-lhe apenas para reservar mais tempo para o interior. Por que estamos respirando mais rápido? Por que estou tenso? O que ele faz que me incomoda tanto? Por que isso me incomoda? Isso pode ser relevado? Não devemos deixar passar essas pequenas sensações. Sim, elas se acumulam, pesam e doem. Mas melhor começar agora, antes que acumule mais sentimentos negativos. E quando tudo parecer resolvido, não adianta negar, teremos sempre algum novo aspecto da vida para rever. O sapiente Heráclito, há muito tempo atrás, disse: “Nada é permanente, senão a mudança”. Ele acreditava que nunca poderíamos atravessar o mesmo rio duas vezes, pois o rio nunca seria o mesmo. Isso reforça a ideia de que exige-se que fiquemos o tempo todo em alerta, prontos para mudanças. Isso não é fácil. Isso é vida. Abra-se para seus amigos. Não há maneira mais fácil de começar. E como não vivemos sozinhos, que tal começarmos a fazer nossos amigos também abrirem suas malas? Renato Dallora

Estamos todos desequilibrados, com sensação de vertigem. Milan Kundera escreveu: “O que é vertigem? Medo de cair? Mas 14


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O que aprendi com Monet O Museu de Arte de São Paulo (MASP) oferece todo primeiro sábado do mês uma aula de história da arte. Fantástica. O curso é inteiro gratuito. Tive a oportunidade de participar, nesse mês de outubro cujo tema foi a pintura “A canoa sobre o rio Epte” (1890) de Monet. Apesar de se ter um quadro como principal, o professor __ precisa explicar os antecedentes de Monet e suas reflexões para poder definir os por quês do quatro. Para lecionar um único tema, são feiras referências desde século XVI até o seu antecessor Edoward Manet, o primeiro modernista. A aula começa pontualmente as 10h00 e dificilmente termina as 13h00, horário previsto. Por que escrevo sobre isso? Nessa aula aprendi que o importante não é apenas o conteúdo, mas principalmente a abordagem desse. Aqui na escola, se um de nosso professores utiliza powerpoint e apaga uma das luzes, somos impelidos a nos desligar. Lá, mal via as pessoas piscarem. Durante a manhã, fui levada a pensar como Monet de uma maneira clara e objetiva, simplesmente para entender o quadro, que ficava projetado ao fundo. Usando seu maior recurso, a fala, o professor foi capaz de me transportar entre os anos e me interessar por arte, ou melhor, pela história da arte, um assunto que eu detestava. Agora eu vos pergunto: por que, então, passo a desgostar dos meus antigos interesses ao frequentar minhas aulas na faculdade? Partindo do princípio que os alunos tem alguma curiosidade sobre as matérias, não deveria ser tão difícil mantê-los entretidos nos estudos. Com o passar dos anos, vejo a queda de assiduidade e a falta de motivação tanto minha quanto de meus colegas. sso me faz crer que poderíamos ter um curso melhor. Se Monet foi capaz de fazer oitenta e seis interpretações da “Ponte sobre o Lago”, uma mais bonita que a outra, nossos professores poderiam imitá-lo, ou seja, recriar interpretações de uma ideia, aula ou tema para nos inspirar.

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O Encontro Era um menino homem. Já se vestia como um, mas comportava-se como outro. Estava a estudar engenharia. O ano não se lembrava mais, o momento que era importante. Lembra-se que estava sol. Caminhava de uma sala a outra. Os livros calam por debaixo do braço, os papeis amassavam. Suas pernas mantinham o movimento enquanto tentava equilibrar os pertences. Estava atrasado. Nesse mesmo instante, ela vinha em sua direção. Com seu cabelo preso e suas roupas impecáveis. Já era uma mulher. Estava linda como sempre. Suas pastas e seus livros devidamente organizados em seus braços, sua postura a deixava deslumbrante. Ele lembrou-se de olhar para onde andava. A distância entre os prédios era de um quarteirão. Levantou os olhos. Viu-a. Viu-a, mas não foi visto. Suas pernas, que andavam por si, pararam. Seu pescoço começou a virar-se para que ela ficasse no centro da visão. Era ela. Os livros começaram a escorregar. Até suas mãos sabiam da importância da situação, desaguava. A moça sentia o olhar pousado sobre ela. Manteve-se em seu caminho. Mas a intensidade puxou-a inconscientemente. Levemente, inclinava-se na direção daquele menino. Era um homem. O encontro de um olhar. Não roubaria a descrição de Machado de Assis se não fosse extremamente necessária: eram olhos de ressaca. Ele ficou preso a eles. Todo seu material foi ao chão. Era ela. Descontrolou-se. Ela voltou a seu caminho, se afastava cada vez mais. O encontro durou na mente dele. Teve vontade de gritar, chamar, correr atrás. Devíamos casar, pensava. Um milhão de ações poderia ter tomado. Ficou ali parado. Olhando-a ir. Ia aonde? Deslumbrante. Ele ficou ali, após o encontro. Parado com seus livros ao chão. O corpo estava ali. Sua alma havia sido levada com as ondas do mar. Karina Piva

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Os Politécnicos Fui a São Paulo, a convite do Grêmio dos Politécnicos, bater um papo com os rapazes em sua Faculdade. Recusei-me a fazer uma palestra, pois sou homem de língua emperrada; mas os motivos para a minha ida, como me foram apresentados pelos futuros engenheiros paulistas, pareceram-me bastante válidos, além de modestos. Têm eles que a carreira escolhida oferece o perigo de canalizar o pensamento para problemas puramente tecnológicos, em prejuízo de uma humanização mais vasta, tal como a que pode ser adquirida em contato com o homem em geral e as artes em particular. Há muito não me sentava diante de tantos moços, com um microfone na mão, para lhes responder sobre o que desse e viesse. “Quem sou eu”, perguntei-me, não sem uma certa amargura, “quem sou eu, que não sei sequer consertar uma tomada elétrica, para arrogar-me o direito de vir responder às perguntas destes jovens que amanhã estarão construindo obras concretas e positivas para auxiliar o desenvolvimento deste louco país?” Mas eles, aparentemente, pensavam o contrário, pois puseram-se a bombardear-me de perguntas que, falar verdade, não dependiam em nada de cálculos, senão de experiência, bom-senso e um grão de poesia. Providenciaram mesmo uma bonita cantorazinha de nome Mariana, que estreava na boate Cave (de onde partiram para a fama Almir Ribeiro e Morgana) para cantar coisas minhas e de Antônio Carlos Jobim: o que era feito depois de eu responder se acreditava ou não em Deus, como explicava a existência de mulheres feias e o que pensava de João Gilberto. A homenagem foi simpática, mas no meio daquilo tudo comecei a ser tomado por uma sensação estranha. Aqueles rapazes todos que estavam ali, cada um com a sua personalidade própria - João gostando de romance Lolita, Pedro detestando; Luís preferindo mulatas, Carlos louras; Francisco acreditando em Karl Marx, Júlio em Jânio Quadros; Kimura preferindo filme de mocinho, Giovanni gostando mais de cinema francês - já não os tinha visto eu em outras circunstâncias, em outros tempos? Aquele painel de rostos desabrochando para a vida, 18

aqueles olhos sequiosos ao mesmo tempo de amor e de conhecimento, não eram eles o primeiro plano de uma imagem que se ia perder no vórtice de uma perspectiva interminável, como num jogo de espelhos? Atrás de cada uma daquelas faces não havia o fotograma menor de outra face, como ela ávida de saber o porquê das coisas, e atrás dessa outra, e mais outra, e outra ainda? Vi-os, de repente, todos fardados me olhando, atentos às instruções de guerra que eu lhes dava em voz monótona: “Os três grupos decolarão em intervalos de cinco minutos, e deixarão cair sua carga de bombas nos objetivos A, B e c, tal como se vê no mapa. É favor acertarem os relógios...” Mariana cantava, um pouco tímida diante de tantos rapazes, a minha “Serenata do adeus”: Ai, vontade de ficar mas tendo de ir embora... Qual daqueles moços seria um dia ministro? Qual seria assassino? Quem, dentre eles, trairia primeiro o anjo de sua própria mocidade? Qual viraria grã-fino? Qual ficaria louco? Tive vontade de gritar-lhes: “Não acreditem em mim! Eu também não sei nada! Só sei que diante de mim existe aberta uma grande porta escura, e além dela é o infinito - um infinito que não acaba nunca. Só sei que a vida é muito curta demais para viver e muito longa demais para morrer!” Mas ao olhar mais uma vez seus rostos pensativos diante da canção que lhes falava das dores de amar, meu coração subitamente se acendeu numa grande chama de amor por eles, como se eles fossem todos filhos meus. E eu me armei de todas as armas da minha esperança no destino do homem para defender minha progênie, e bebi do copo que eles me haviam oferecido, e porque estávamos todos um pouco emocionados, rimos juntos quando a canção terminou. E eu fiquei certo de que nenhum deles seria nunca um louco, um traidor ou um assassino porque eu os amava tanto, e o meu amor haveria de protegê-los contra os males de viver. Vinicius de Moraes


Haicais e hai-quases Haicai é um estilo de poema de origem japonesa, que chegou ao Brasil no início do século 20. Suas características principais são a forma concisa (3 versos), o conteúdo relacionado à natureza, e o tempo da narrativa (sempre narrando o agora). Poderia copiar dos sites as mais variadas exigências de um “verdadeiro haicai”, mas de fato não me interesso por tais formalidades. O que realmente me encanta nesses poeminhas é a simplicidade e a capacidade de descrever sentimentos apenas apresentando cenas (ou são puramente os retratos que nos puxam da memória os sentimentos?). Me encantam mais ainda as adaptações (ah, essas sempre me encantam) feitas por escritores (e amadores, ¡Hola!) brasileiros. É curtinho, demora nada pra ler! [e de repente, você se vê pensando em blocos de 3 frases.. ] Deliciem-se! Algo faz barulho — Cai sozinho, sem ajuda, O espantalho. Bonchô Esnobar É exigir café fervendo E deixar esfriar. Millôr Fernandes Você deixou tudo a tua cara Só pra deixar tudo Com cara de saudade Alice Ruiz Viver é super difícil o mais fundo

está sempre na superfície Paulo Leminski Achei que ia ter ânimo pra estudar por horas a fio dias a fio vou pegar esse fio e me enforcar isso sim. de uma politécnica : ) 19


Remexida no Baú/Entrevista Idos da década de 80 Rita Lee: O Rock’N’Roll da Babilônia Uma entrevista apaixonante e apaixonada.... Quando chegamos ao teatro Bandeirantes, a noite tépida de fim de setembro caía sobre nós, J. Fernando Lee, Rick Jagger e Kochinha que estávamosexcitadíssimos com a espera. Após um longo tempo (atenuado por uma pizza très, très jolie do Speranza), o Dodginho amarelo da Rita chegou; Roberto (seu marido, pianista e guitarrista do Cães e Gatos), numa rápida manobra, estacionou loucamente, batendo de leve (não era na contra-mão) num carro atrás. Mas como diria um amigo nosso: tudo bem... a caravana passa e os cães ladram. Rita e seu grupo nem ligaram para o evento e passaram depressinha a entrar no teatro. Perguntamos, uníssonos: e a entrevista? Ela respondeu: não esqueci, não. Esperem um pouquinho só. Esperamos quase meia hora. Nesse ínterim tentamos comme matti penetrar no tenebroso castelo Bandeirantes, num processo que faria Anthony Perkins invejar-nos em seu respectivo filme. Falamos com o seu Pedro, um canalha muito grande: não deu. Falamos com o porteiro: não deu. Falamos com o Wellington (nada neo-zelandês): não deu. Até que chegou um cara finíssimo, o Martino que, gentilmente nos deixou entrar para falar com o maior superstar do Brasil. É lógico que estávamos extasiados, liquidificados numa sensação de misticismo, amor e glória. Quando vimos a Rita Lee se maquiando em seu camarim dizendo oi! pra gente, sentimos ter atingido o Nirvana, ou mesmo até, a Babilônia, não importa: foi uma emoção que só os adoradores do rock podem ter ao se deparar com seus ídolos... Foi um verdadeiro musí! Rita é linda em tudo, estranhamente natural, quase mortal. Apaixo-

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namo-nos por ela imediately. Estava sentada, de frente pro espelho, passando rímel (faltava meia hora pro show) ao lado de sua percursionista (Naila) de uma beleza embriagadora. Tínhamos cinco minutos, mas nosso papo durou vinte. Para aqueles que a amam, eis aqui, na íntegra, a entrevista (para os que não amam, apenas um desprezo) José Fernando Lee Rick: Eu sei que você está ocupada, mas vamos levar um papo super-rápido... Rita: (olhando-se no espelho) Tá legal. Rick: Como você sabe, nós somos universitários e você pode falar o que quiser, sem frescuras, inclusive contra nossa classe. Pra começar, o que você acha do público universitário? Eu sei que eles te podam muito... Rita: Às vezes, às vezes... Meu maior contato com eles foi com o show da Refestança. Com o Gil; o Gil está mais perto deles... A coisa ficou mais ou menos em equívocos... Rick: O Raul Seixas é que tem bronca com eles... Rita: É, mas eu não tenho muito contato... Rick: Certo, me diz um negócio: e o rock nacional, sumiu? Só tem você e uns gatos pingados... (risadas curtinhas). Ficam os grandes e morrem os pequenos... Rita: (indecisa) O que eu entendo de rock é uma coisa que para mim significa... J. Fernando: Refestança? Rita: Não, não... É algo que deve atingir o maior número de pessoas possível, que deve ser um lance popular. Eu acho que as pessoas que se intitulam roqueiros, que pegaram bandeiras do rock não pensaram justamente neste lado, nessa coisa feita pro


povo. Ficou uma música de músico pra músico, “vamos tirar um som”... Não se preocuparam, desprezaram as letras... Rick: A língua portuguesa dificulta a letra de rock? Rita: Eu não sei se dificulta agora. Acho que não. Uma vez que a gente fala português, tem muito a ver... É legal sofrer influências, ouvir muita coisa, tudo, se possível. Sofrer influências de tudo também é ótimo. Rick: Você escutou muito Stones - você escuta ainda? Rita: Ainda. Rick: O J. Fernando te viu no festival de jazz e até levou um papo com você... Que é que você achou do festival? Sem essa de “grande evento” - Acho que não tem nada a ver esse tipo de resposta. Rita: Aaah... Foi um barato... J. Fernando: Você só foi à tarde, não é? Só viu o John McLaughlin? Rita: É, como eu tava fazendo show todas as noites, então não dava... Eu achei bom, por exemplo, para as pessoas que tinham um lance musical seguro, forte. Ou faziam maravilhas ou desastres, como o Milton Nascimento, ou melhor, Milton Falescimento, certo (risadas quilométricas, berrinhos, sussurros lúbricos). E o HERMETO, um grande bruxo, roubou o show de todos... J. Fernando: Eu tava lá com o Ezequiel Neves e, no meio do show do Milton, ele deu o maior berro, foi uma loucura... Rita: Pro pessoal de fora foi mais loucura ainda... Mas foi muito Rock esse show de Jazz (a fazer caretas deliciosas). A Etta James fez rock puro... Rick: Rita, agora uma pergunta meio chata: qual a importância da Rede Globo em sua vida? Rita: (misteriosa, piscando os dedos, em posição de bote): Plin-Plin! (gargalhadas rumorejantes). Rick: Por que acabou o Tutti Frutti? Você brigou com o Carlini (guitarrista)? Rita: (gozativa) Não, absolutamen-

te, somos grandes amigos... (séria) Não posso dizer porque a briga não foi comigo, nem posso dizer que houve briga, numas de quem é esperto, se vira... Foi um lance com o Tutti, o Si, o Serginho. Então o Luís registrou o nome e propôs às outras pessoas... e ficou triste a coisa. No fundo era lance pra ser de todo mundo. Rick: Como é que é seu dia? (é uma pergunta tipo Capricho, essa!) Rita: Meu dia? Depende... Quando eu estou fazendo show, eu acordo muito tarde, lá pras 2 da tarde e eu acho isso horrível... Rick: Quando nós marcamos a entrevista para as 7 horas, o J. Fernando pensou “será que é 7 horas da manhã?” (risos tímidos) Eu disse “nem a pau”... Rita: Não, por mais bagunça que a gente faça, essa bagunça deve ser disciplinada... Mas aí, durante o dia eu faço muita coisa: massagem, ginástica, troco fraldas, faço música, escrevo... J. Fernando: E os teclados, você largou? Rita: Não, eu curto. Mas é que o piano está num lugar tão esquisito da casa. J. Fernando: E tem o Roberto, que toca mais... Rita: Não, ele gosta mais de guitarra... Rick: Fale alguma coisa de São Paulo. Rita: São Paulo? Quem pode falar mais é aquela música do Caetano, Sampa... J. Fernando: A tua mais completa tradução... Rita: (pop-star) De fato, eu sou apenas a mais completa tradução (risadas estrepitosas). Rick: Agora é moda, você falou numa música, ocupar o mercado estrangeiro... Rita: (irônica) É a Rede Globo da minha vida. (gargalhadas irresistíveis) Rick: Como é, tem mercado lá fora? Uruguai, Paraguai... Rita: Tem sim. Mas as pessoas sempre botam culpa em alguma coisa, tão é mais chic, de um cunho intelectual, político, so21


cial, ocupar o mercado estrangeiro, certo? (risos) Rick para J. Fernando: Ela tá politizada, não é Odara! Rick: Me diz uma coisa: qual o segredo da sua juventude - você é mais nova do que eu... (risadas e mais risadas, Rita cantarola algo) Rita: (felicíssima) Você me ganhou agora! (risos) Não tem segredo, não. Rick agora para a Rita Lee mãe: que você quer que o teu filho seja? Rita: Eu quero que ele seja feliz. Se ele for feliz vai fazer o que gosta. Rick para J. Fernando: Como todo papo de mãe.... (risos) Rick: E o punk? Rita: O punk é engraçado lá fora. Se eu fosse inglesa, eu acharia muito engraçado, mas no Brasil é muito esquisito. Rick: Agora vamos dizer alguns nomes e você vai dizer o que passar pela cabeça. John Travolta Rita: Só me traga o João na volta (risinhos) Zeca (Ezequiel Neves) Rita: O Zeca Jagger? Que é o Zeca... É o conde de são Genaro! (risos) Keith Richards Rita: Ele é ótimo... Um macaquinho (franzindo o rosto) um macaquinho drogado Rick: Figueiredo... Rita: Ele é um cava...lheiro (risadas medrosíssimas) Rick: Marlon Brando... Rita: Ah, o mar está tão brando... Rick: Sílvio Santos... Rita: Não sei, o Sílvio Santos já pegou fogo (risos calorosos) Rick: Sônia Braga... Rita: (cantando como criança) Eu visitei a dama da lotação, mas minas do rei Salomão. (risos) Rick: Karl Marx... Rita: (séria) Tudo bem, sou corinthiana. Rick: Woody Allen... Não vale dizer que é divertido ou gozado. Rita: Justamente, eu não acho nada disso, acho ele um chato, um neurótico... (risos paranóicos) Rick: Bom, pra acabar o papo, sua ficha: Rick: Signo? Rita: Capricórnio, ascendente: aquário. Rick: Prato predileto? Rita: (imitando com cabeça e gestos) Caranguejo. Rick: Cor? 22

Rita: (como uma criança chata): o azul, cor dos meus olhos. Rick: Música predileta de sua autoria? J. Fernando: É Modinha? Rita: Não, eu gosto dela, mas sou mais “não sei se estou piorando ou se as coisas estão melhorando”. É bem mais eu. Rick: Teu disco favorito é Babilônia? Rita: É. Rick: E “Hoje é o 1º dia do resto de sua vida” Rita: Esse aí marcou uma época muito confusa... Rick: Agora a pergunta chavão de todo roqueiro: qual o melhor conjunto do mundo? Se falar “Stones” ganha um beijo... Rita: Eu gosto deles, mas sou mais Stevie Wonder (é felicidade geral) Rick: Não adianta, vai ganhar um beijo do mesmo jeito... O que você achou da entrevista? Faltou alguma coisa? Rita: Foi ótima, não faltou nada. De onde vocês são mesmo? Rick: Nós fazemos o 3º ano da Poli, na USP. Rita: Eu fiz um ano de comunicações na USP. Quase faleci... J. Fernando: Nós já estamos meio mortos... Rick: É uma escola que enche o saco... Agora, off the record, porque esta puta burocracia para entrar aqui no teatro? Rita: (brincando de pop-star outra vez) Eu tenho os meus guarda-costas. J. Fernando: Aquele seu Pedro é um chato, se não fosse o Martino... Rick, J. Fernando e Cochinha: Bom nós vamos indo. Obrigado. Tchau! (beijos alucinógenos) Perguntas propostas por: Rick Jagger, J. Fernando Lee Koxinha Benvenutti. Fotografia: Koxinha Som: Koxinha * Infelizmente, as fotografias se perderam no tempo.


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Um anjo Pornográfico Nelson Rodrigues, considerado o maior dramaturgo brasileiro, é famoso por sua língua ácida tanto nas ficções quanto por ele mesmo. Quando se indignava com a platéia, não economizava impropérios. Amado, odiado e sempre endividado, encomendavam-lhe textos e ele os fazia. O resultado? Quase sempre chocava. Registrou com esmero a classe média brasileira e a desnudou, escancarando a hipocrisia presente nos idos das décadas de 40, 50 e 60. Tinha por mania implicar com pessoas que conhecia, que o diga Otto Lara Resende, seu amigo. Lembrado também por ter sido admirado pelos militares em plena Ditadura Militar, mas não lembrado por ter um filho caçado por esta. Nelsinho, seu filho, foi um dos “terroristas” mais procurados durante os anos de Chumbo. Usando de seu prestígio para com os militares, de 1969 a 1970, ajudou na localização, libertação e fuga de vários militantes da época. Seus escritos? Um inventário riquíssimo dos recônditos humanos. Inventário atemporal porque a capa de verniz social que cavoucou e pôs a vista, essa não muda nunca. Para quem quiser saber mais sobre a vida desse grande homem, o site http://www. releituras.com/nelsonr_bio.asp é muito bem detalhado e bem elaborado.

DELICADO - Primeiro, o casal teve sete filhas! O pai, que se chamava Macário, coçava a cabeça, numa exclamação única e consternada:— Papagaio!Era um santo e obstinado homem. Sua utopia de namorado fora um simples e exíguo casal de filhos, um de cada sexo. Veio a primeira menina, mais outra, uma terceira, uma quarta e outro qualquer teria desistido, considerado que a vida encareceu muito. Mas seu Macário incluía entre seus defeitos o de ser teimoso. Na quinta filha, pessoas sensatas aconselharam: “Entrega os pontos, que é mais negócio!”. Seu Macário respirou fundo:— Não, nunca! Nunca! Eu não sossego enquanto não tiver um filho homem! Por sorte, casara-se com uma mulher; d. Flávia, que era, acima de tudo, mãe. Sua gravidez transcorria docemente, sem enjôos, desejos, tranquila, quase eufórica. Quanto ao parto propriamente, era outro fenômeno estranhíssimo. Punha os filhos no mundo sem um gemido, sem uma careta. O marido sofria mais. Digo “sofria mais” porque o acometia, nessas ocasiões, uma dor de dente apocalíptica, de origem emocional. O caso dava o que pensar, pois Macáriotinha na boca uma chapa dupla. Quando nasceu a sétima filha, o marido arrancou de si um suspiro em profundidade; e anunciou:— Minha mulher, agora nós vamos fazer a última tentativa!

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”

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ndusam raer ferrumluiii et, qui blation sequa m reptium r e,to porem[ ... ] volore[ ... atus di consed que res ex es adi cullores sanda[ ... ]e verenillkui s d olupta tumquas quis quissed ignimp ori delest, a[ ... ][ ... ]vlu tem veniae que nisc[ ... ] im nos ne voluptam aceperu tumjsjsjs nobitatur e non ta corro ea[ ... ] nonsedi imillaksisiisjaiaa lupta et omnimil ev el am sandignis enim njo l miliqu[ ... ]idel ima gnih uaeptis sit llajsajiaiisjija it elitas r em acculparum to tem quis ac uossi reperum neceatet r e em. Issjianiecelljsijisiijdiish iisppp kjaijs equia plibus [ eos possita ec m exerrorepr e occus lorr[ ... ] o et del[ ... in comnimillab in r em uam niature cerate inverfe r estios test[ ... ], cor um id mpor e nam a ut imjhsj sjahsjaja jhdjhjsdjsh m e não nada para curar[ ... ] t atetus etusam ratem jskjaksj o cos oshumbugus atu[ ... ]v[ ... ] is eturemost [ , consecestis n ex plit ullupta edi t, of ficiis esec abor em dol upt a ionet afagos undo hu. c illor apiciet ndeles et aut eof fic [ ?[ ... ][ ... ][ ... ][ ... ][ ... ] scit[ ... ]ate por r em onsedi d o temperistiis dolupici ed qui q sem espaço novas novidadesluisial o de co[ ... ]nsequodi pta d mi, comnimi usc[ ... ] iis aliquas ide ostrum as es r erumlai

Karol Costal


NOVO PARTO - No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada às pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha epatusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu: “Não é pra já!”. Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário:— Meus dentes estão doendo! E, de fato, o grande termômetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura. A parteira duvidou, mas, daí a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora. É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha. Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão:— Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!

i officti nullab iur r em. hoje tumq[ ... ] qui aut eos nimoditiis lum sit vide entibus maxi siminis fuga. Et lit gnamet[ ... ] luptiuJIJSm .. ]o[ ... ] luptis t, evevnet [ la con eum enimijsjaias ures eo ssitas upt[ ... ] a pedigent[ ... empe aped gnimagnit s dolor est iq[ ... ] ue nam avolo et unt nde ex et quis nonet,hojeci i vidus, omnis nonanomollo aesem jis Ut r sim au t haruptur nulla nimustio. n estiunt, vol[ ... ] ][ ... ] orum a volupti enis exeraecte et rporuptis delent. nisqui ra cone [ doloriam voluptin luptam dolor i ue moluptiatur , sum idi ut quia audan da inci[ ... ] is vin pra unt invenit digent [ ... ]atium dolestiu r sam et eum r erum quatisintur? oluptatam, sunt vellitiu[ ... ]m explam, sun t llll[ ... ] adissit i asdit aut abor essint labo. Mus, ut Et vovlorer sper ovi delitatehue a eamaergo estibust, lamss facimus alivqu[ ... ]atem etvur rem doluptatuv [ r sequosame vend[ ... ]is nimusam q[ ... ]uiataaeum [ velit volor erion plautquiasperro te et ulvpa inull [ ab orupidebit, sandae cusam facere rehenecea[ ... o vel ipitaep [ ... ] endis t quature, om [ ni[ ... ] mfullli fvoluptat is sa nduci uosa ndento [ ommodit[ ... ] della vvut mo nsequam veles lecusam et imuslllllll

EUSEBIOZINHO- Assim nasceu o Eusebiozinho, no parto mais indolor que se possa imaginar. Uma prima solteirona veio perguntar, sôfrega: “Levou algum ponto?”. Ralharam:— Sossega o periquito!O fato é que seu Macário atingira, em cheio, o seu ideal de pai. Nascido o filho e passada a dor da chapa dupla, o homem gemeu: “Tenho um filho homem. Agora posso morrer!”. E, de fato, quarenta e oito horas depois, estava almoçando, quando desaba com a cabeça no prato. Um derrame fulminante antes da sobremesa. Para d. Flávia foi um desgosto pavoroso. Chorou, bateu com a cabeça nas paredes, teve que ser subjugada. E, na realidade, só sossegava na hora de dar o peito. Então, assoava-se e dizia à pessoa mais próximo: — Traz o Eusebiozinho que é hora de mamar!

FLOR DE RAPAZ - Eusebiozinho criou-se agarrado às saias da mãe, das irmãs, das tias, das vizinhas. Desde criança, só gostava de companhias femininas. Qualquer homem infundia-lhe terror. De resto, a mãe e as irmãs o segregavam dos outros meninos. Recomendavam: “Brinca só com meninas, ouviu? Menino diz nomes feios!”. O fato é que, num lar que era uma bastilha de mulheres, ele atingiu os dezesseis anos sem ter jamais proferido um nome feio, ou tentado um cigarro. Não se podia desejar maior doçura de modos, idéias, sentimentos. Era adorado em casa, inclusive pelas criadas. As irmãs não se casavam, porque deveres matrimoniais viriam afastá-las do rapaz. E tudo continuaria assim, no melhor dos mundos se, de repente, não acontecesse um imprevisto. Um tio do rapaz vem visitar a família e pergunta:— Você tem namorada?— Não.— Nem teve?— Nem tive. Foi o bastante. O velho quase pôs a casa abaixo. Assombrou aquelas mulheres transidas com osvaticínios mais funestos: “Vocês estão querendo ver a caveira do rapaz?”. Virou-se para d. Flávia:— Isso é um crime, ouviu?, é um crime o que vocês estão fazendo com esse rapaz! Vem cá, Eusébio, vem cá! Implacável, submeteu o sobrinho a uma exibição. Apontava:— Isso é jeito de homem, é? Esse rapaz tem que casar, rápido!

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A NAMORADA- Houve, então, uma conspiração quase internacional de mulheres. Mãe, irmãs, tias, vizinhas desandaram a procurar uma namorada para o Eusebiozinho. Entre várias pequenas possíveis, acabaram descobrindo uma. E o patético é que o principal interessado não foi ouvido, nem cheirado. Um belo dia, é apresentado a Iracema. Uma menina de dezessete anos, mas que tinha umas cadeiras de mulher casada. Cheia de corpo, um olhar rutilante, lábios grossos, ela produziu, inicialmente, uma sensação de terror no rapaz. Tinha uns modos desenvoltos que o esmagavam. E começou o idílio mais estranho de que há memória. Numa sala ampla da Tijuca, os dois namoravam. Mas jamais os dois ficaram sozinhos. De dez a quinze mulheres formavam a seleta e ávida assistência do romance. Eusebiozinho, estatelado numa inibição mortal e materialmente incapaz de segurar na mão de Iracema. Esta, por sua vez, era outra constrangida. Quem deu remédio à situação, ainda uma vez, foi o inconveniente e destemperado tio. Viu o pessoal feminino controlando o namoro. Explodiu: “Vocês acham que alguém pode namorar com uma assistência de Fla-Flu? Vamos deixar os dois sozinhos, ora bolas!”. Ocorreu, então, o seguinte: sozinha com o namorado, Iracema atirou-lhe um beijo no pescoço. O desgraçado crispou-se, eletrizado:— Não faz assim que eu sinto cócegas!

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PROBLEMA MATRIMONIAL- Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam:”É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!”.Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou:— Está muito bem assim!A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce. Mas a mãe chorou, replicou: “Não, meu filho. Seu tio tem razão. Você precisa casar, sim”. Atônito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, ele pergunta:— Casar pra quê? Por quê? E vocês? — Interpela as irmãs: — Por que vocês não se casaram? A resposta foi vaga, insatisfatória:— Mulher é outra coisa. Diferente.


O LADRÃO- Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava: “A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!”. Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme: “Desapareceu o vestido da noiva!”. Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema: “O golpe é casar sem vestido de noiva!”. Para quê? Ela se insultou:— Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim!Chamaram até a polícia. O mistério era a verdade, alucinante: Quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda — enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: “Quero ser enterrado assim”. Nelson Rodrigues

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O VESTIDO DE NOIVA- Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espetacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: “Não é bacana esse modelo?”. A reação do rapaz foi surpreendente. Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura:— Que beleza, meu Deus! Que maravilha! Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho. Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento: “Mas como é bonito! Como é lindo!”. E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimônia, brincou:— Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!

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28 foto: Martim Passos


Vivemos na era da ideologia Nossa saúde está nas mãos do mercado há muito tempo e assim não se pratica a saúde preventiva, a forma mais eficiente de melhorar a saúde de uma nação. Nossos médicos nem são educados para isso, já que devem se inserir no cenário da saúde atual. Nossa educação é péssima, mesmo nas mais caras escolas particulares. É enorme a quantidade de professores que afirmam abrir mão de alguns conteúdos e métodos de ensino para garantir a competitividade da escola frente à seleção do vestibular e aos sistemas de avaliação. Nossas cidades são planejadas pelo mercado imobiliário. A terra é mais uma mercadoria do que um meio para garantir boas condições de vida para a população. Sendo assim, nossas cidades são um caos. As condições de vida são péssimas. A insegurança e a desigualdade reinam. Nosso sistema de produção de alimento é globalizado. Os países subdesenvolvidos possuem enormes plantações para exportação, mas não dão conta da produção para eles mesmos. Assim, são dependentes da importação de alimentos, e os compram com o dinheiro recebido das multinacionais que possuem plantações em seu território. Configura-se uma espécie de neo-colonialismo. Muitos líderes mundiais hoje reconhecem que as recentes ondas de fome na África se devem ao fato de tratarmos o alimento como mercadoria e não como premissa para a vida. A alimentação é demasiada importante para ser controlada pelo mercado, dizem. Pois então a saúde, a educação e o planejamento urbano também. Não conseguimos enxergar esses pontos, pois vivemos na era da ideologia. Nunca estivemos tão convencidos de nossa ideologia frente à realidade. A ideologia neoliberal, que se diz pragmática e pós-ideológica, é tão forte que se mantém viva durante a crise causada por ela mesma. A liberação de

700 bilhões de dólares para salvar os bancos estadunidenses foi realizada de forma muito mais rápida do que a liberação de 2,2 bilhões de dólares pela OMC para desenvolver a agricultura no terceiro mundo. O reestabelecimento na fé do mercado é tratado com mais urgência do que a erradicação da fome, da mortalidade infantil e do analfabetismo. As premissas ideológicas de nossos tempos embutem nas pessoas a fé na mais irrealizável de todas as utopias: os problemas da sociedade podem ser resolvidos dentro do capitalismo. Todos estão cegos ao fato de que, na verdade, a maior parte desses problemas é estrutural ao capitalismo e não casos de mau funcionamento acidental do sistema. Temos de abrir os olhos e pensar outra forma de organizar a sociedade. A ideologia nos coloca num estado de negação da realidade. A realidade é que o capitalismo jamais acabará com a pobreza, já que funciona à custa da desvalorização do trabalho e, portanto, precisa de muita mão de obra barata para que sobreviva; a realidade é que as favelas não são espaços de não desenvolvimento capitalista, mas crescem com a entrada de mercados capitalistas em países periféricos; a realidade é que o macro planejamento e o fim do consumismo são as formas mais eficientes de nos salvar da catástrofe ambiental, mas contrariam os interesses e a lógica capitalista; a realidade é que não devemos ter medo de nos dizer anticapitalistas, que o nosso sistema é cheio de contradições, e não um ciclo fechado como prega a ideologia de nossos tempos. Definição de ideologia usada nesse texto: Falsa consciência, ideias capazes de deformar a compreensão sobre o modo como se processam as relações de produção. Surge a partir da divisão entre trabalho manual e intelectual. João Pedro Salva Geddo 29


USP e o Pseudo-Maniqueísmo À luz dos acontecimentos recentes (greves, protestos, assembleias, debates calorosos, trancaços) que vêm moldando o cotidiano do cidadão vinculado ao mundo universitário, seja acadêmica ou espacialmente, é natural que surja a indagação pessoal de quais são os agentes dessas transformações. É evidente que, diante da complexidade do tema e da percepção atrelada à cada um, existem pontos de vista muito distintos. Divididas em grandes grupos, as opiniões já estabelecidas acabam influenciando a reflexão, escolha e posicionamento individual do aluno mais desinformado, que acaba adotando uma visão dicotomizada. Fica como proposta, portanto, a exposição do atual panorama político da universidade para que, livre e de forma consciente, possa-se definir quais as intenções que melhor representam a vontade do leitor. Segundo a diretoria do Diretório Central dos Estudantes da USP (DCE), as propostas de intervenção podem ser divididas em três grandes blocos: “democracia, permanência e contra a repressão”. Ou seja, por exemplo, as diretas para reitor encaixam-se no primeiro, a devolução dos blocos K e L para moradia no segundo e a não-intervenção da PM nas manifestações no terceiro. É defendido por este também que é inadmissível que a reitoria não atenda imediatamente suas reivindicações. Logo, neste ponto de vista, é culpa da reitoria o transtorno causado na Universidade, haja vista que não acatou as decisões do DCE.

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Não obstante, é preciso notar que muitos estudantes queixam-se de não estarem engajados com o DCE e, muitas vezes, nem de acordo com as decisões tomadas. Assim, um empecilho para qualquer modificação na estrutura da Universidade, ou simplesmente para um consenso pacífico, é a falta de união entre os estudantes. Logo, sendo as propostas justas ou não, necessárias ou não-conforme a variabilidade das opiniões-, fica evidente que ambos os lados estão descontentes. A falta de sucesso no movimento é simultânea e proporcional à infelicidade daqueles que se sentem prejudicados por não poderem, por exemplo, entrar no Campus em dia de prova. Não só as propostas, mas as críticas da oposição podem também ser agrupadas em dois blocos: autoritarismo e cerceamento da liberdade. O primeiro argumenta que o DCE não é amplamente apoiado pelos alunos e que, ao decidir em nome dos mesmos, acaba sendo autoritário. Assim, a luta pela implementação das melhorias (segundo o DCE) pros estudantes acaba sendo questionada, sendo vista mais como um prejuízo que uma representação pelos outros alunos. E é exatamente este impasse que acaba fragmentando-nos e inviabilizando qualquer concordância entre as partes: ninguém assume que está errado. No que tange a questão das diretas para reitor, tema predominante e o “estopim” para a ocupação da reitoria e outros protestos, esperamos esclarecer o mecanismo de eleição para que possam tirar suas conclusões.


Dados retirados de uma reportagem feita pelo Jornal do Campus. (Link: http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2009/10/como-e-eleito-o-reitor/ ).

O caráter democrático ou não do sistema atual é questionado por várias esferas da universidade. Os defensores afirmam que a eleição indireta não consiste em um método autoritário, a lista tríplice representaria os candidatos preferenciais da comunidade universitária e a escolha final nas mãos do governador também seria democrática, uma vez que este foi eleito pela população do Estado de São Paulo, a qual mantém a faculdade e para a qual ela foi criada. Muitos opositores, por sua vez, afirmam que o modelo da lista tríplice e a decisão final do governador, que pode vir a escolher o candidato menos votado dentre os que compõe a lista, teria caráter autoritário. Além disso, a atual distribuição dos processos de escolha no primeiro e segundo turno tem uma participação mínima da comunidade universitária, diversas comissões e assembleias acontecem a portas fechadas, assim o aluno é impedido de participar efetivamente da escolha de seu reitor e de outras discussões importantes. O maior requerimento, portanto, seria a

abertura de um canal direto de comunicação . com a reitoria, para que assim, seja possível arquitetar um novo sistema. Em meio a tudo isso é preciso notar, todavia, que talvez ninguém esteja certo mesmo. Seja nas ideias, no forma de se expressar, na atitude perante a coletividade, todos erraram em algum ponto. Ou pelo menos, a entidade que representa o aluno errou. É fundamental, portanto, que todos tenham seus posicionamentos muito bem definidos, a fim de que a escolha da entidade que nos representa seja o mais absoluta possível e possa, de fato, representar a maioria do corpo de estudantes da USP. Assim, qualquer erro cometido por esta deveria ser questionado, com intuito que um reposicionamento seja feito. E é essa cobrança segundo uma entidade representativa que ilustra um quadro de democracia no campus. E é neste ponto em que poderíamos todos concordar.

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Cê viu? - Novembro 2013