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Tecendo Redes Edição Especial - I Encontro Estadual do PAIS | Itapipoca (CE) - Maio/2012

CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO AGROECOLÓGICO: A EXPERIÊNCIA DA FAMÍLIA DE LUCIANO E JEANE NA DIVERSIFICAÇÃO DO SEU QUINTAL COMUNIDADE MUNGUBA - TRAIRI

Dentro do Território da Cidadania Vales do Curu e Aracatiaçu está o município de Trairi, a 124 quilômetros de Fortaleza no rumo oeste do Estado do Ceará. Município mais conhecido nacionalmente pelas belezas naturais de suas praias, é cenário, além da pesca, de atividades agrícolas familiares, desenvolvidas por cerca de quase 70% da sua população que vive na zona rural, em comunidades e assentamentos. Entre essa mistura de cultura litorânea e sertaneja encontra-se a comunidade de Munguba onde residem mais de 100 famílias, a maioria vivendo da agricultura familiar. Dentre essas, está a família do jovem casal, Luciano Paiva de Souza, de 36 anos, e Maria Jeane do Nascimento, de 27 anos. Luciano conta que passou cinco anos na sede do município de Trairi, “mas não foi bom, eu sempre gostei da agricultura, se um dia eu chegasse a conseguir uma riqueza, nunca abandonaria a agricultura,

planto porque gosto mesmo”, então ele voltou para a comunidade. Hoje ele mora com a esposa e os filhos Elen Tainara, de 5 anos, e Mateus Paiva, de 18, em um terreno de 1,5 hectares. Luciano sempre plantou perto de casa na terra aradada, nunca fez roçado, “porque além de agredir a natureza, dá muito trabalho”. E nessa de se preocupar com a natureza, a terra que, quando ele chegou era limpa, foi ficando cheia de plantas. No começo, era só feijão, milho e mandioca mesmo, além de deixar o mato crescer “porque a terra não pode ficar nua e o mato, quando arada, já vira estrumo para plantar”. Já tinha acessado um PRONAF B para criar galinhas e, na época, fez um curso criação de galinha caipira, mas teve que se desfazer da criação quando foi morar em Trairi. Depois, em 2011, chegou o projeto de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS). Tiveram reuniões na comunidade e três dias de capacitação no Assentamento Batalha, localizado no mesmo município, quando ele e os outros participantes do projeto aprenderam a montar o sistema PAIS. Depois de montado, houve um dia de campo no qual aprenderam a fazer os defensivos naturais e as técnicas de manejo dos canteiros, a trabalhar com produtos orgânicos e com os produtos naturais da terra através da compostagem. Em setembro, seu sistema ficou pronto e em outubro de 2011, a família já estava colhendo. Agora o quintal da família está bem diversificado. Tem milho, feijão, mandioca, cajueiro, coqueiro, graviola, batata, cebolinha, beterraba, pimentão, coentro, couve flor, couve manteiga, tomate, abacaxi, mamão, amora e alface. Logo no começo, Luciano teve alguns problemas com pulgão e começou a observar que existem algumas culturas atrativas e que se ele as plantasse próximo às hortaliças os insetos iam para lá; então planta maxixe, melancia e milho próximo aos canteiros de alface e cebolinha. Além disso, percebeu também que, plantando várias culturas em consórcio, elas ficam mais resistentes aos bichos da terra. De observação em observação, ele foi experimentando e criando outras coisas no quintal. Reparou que, depois que começou a dar as verduras que sobravam da horta para os


porcos e galinhas, os animais ficaram mais saudáveis. Destes, ele aproveita o estrumo dos porcos nos coqueiros, gravioleiras e bananeiras e o das galinhas nos canteiros de hortaliças. Reparou também que o sistema de gotejamento não dava muito certo no solo do litoral, porque a água infiltra muito rápido, assim, o substituiu por micro-aspersores. Ainda a partir da experimentação no terreno da praia, ele aprendeu a adubar aproveitando tudo o que sobra do seu terreno. É poda de cajueiro, palha de coqueiro e esterco de gado, que ele coloca a areia por cima e deixa decompor para depois plantar. O sistema de irrigação, ele montou já utilizando a renda, que varia de 80 a 100 reais por semana e vem da venda dos excedentes de produção do PAIS na própria comunidade e nas vizinhas. Luciano passa de casa em casa oferecendo as verduras. “Eles preferem comprar de mim, porque é natural e eu vou na porta, não tem nem que sair de casa. Tem até coisa que eles compram ainda na feira que perguntam: tu não vai plantar isso não?”, conta. Ele ainda planeja plantar mais. Para isso, já montou três canteiros para além dos implantados com o PAIS, apoiados em tronco de bananeira, com palha de coqueiro por baixo e matéria orgânica por cima, onde já está plantando cebolinha que, ele constata, dá melhor que no chão porque a matéria orgânica evita que a terra esquente. Para abastecer o resto da horta com sementes, ele tem um canteiro separado em um lugar que a terra nunca teve problema com praga nenhuma. “Eu penso assim: se eu tenho o Barrão, que é meu porco reprodutor, e as duas porcas para ter os porquinhos, eu tenho que ter um canteiro melhor para ser o reprodutor para os outros também”, explica. Apesar de toda essa criatividade, até a implantação do PAIS Luciano nunca havia recebido assessoria técnica rural. Ele acha que as visitas são muito boas, aprende com os técnicos, mas “eu também ensino a eles, porque se eu testo uma coisa aqui e ele vê que dá certo, depois já pode passar para outra pessoa que tiver o mesmo problema”. Embora a previsão de renda seja, a partir de julho, de pelo menos 1500 reais por mês, o maior ganho, para Luciano, é a saúde. Antes, quando tinha algum problema, Luciano aplicava carrapaticida nas plantas, chegando a ter, inclusive, reação alérgica aos agrotóxicos, “tomava até remédio controlado, todo mês estava no posto de saúde, ninguém sabia dizer o que era direito”. Com o aprendizado dos defensivos naturais, ele parou de usar o veneno e passou a se sentir bem melhor, não teve mais esses problemas, além da própria alimentação que melhorou, com o consumo de verduras e hortaliças com frequência.


A experiência da família de Luciano e Jeane na diversificação de seu quintal