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Tecendo Redes Edição Especial - I Encontro Estadual do PAIS | Itapipoca (CE) - Maio/2012

CARLA E BENONE: UM NOVO JEITO DE PRODUZIR SEM DEIXAR OS VELHOS AMORES

A comunidade Sítio Santo Elias fica na zona rural do município de Meruoca, zona Norte do Ceará, a 270 quilômetros de Fortaleza; a região, conhecida como Serra da Meruoca, é reconhecida legalmente como uma Área de Preservação Ambiental (APA). É neste lugar de terra fértil, onde mora a jovem agricultora Carla Maria Lopes, de 28 anos, há 14 anos, desde que se casou com José Domingos da Silva, de 42 anos, mais conhecido como Benone. A terra onde eles moram com seus três filhos ainda crianças, Moisés, Josué e Josias, foi recebida de herança da família de Benone. Filhos de agricultores e agricultoras, os dois, Carla e Benone, começaram desde pequenos a trabalhar na agricultura, aprendendo com seus familiares as práticas tradicionais de cultivo da terra, como a broca e a queimada, dentre outras, e foram essas experiências que sempre praticaram no sitio da família, onde vivem. Eles contam que trabalhavam sempre de forma tradicional, mas foi a partir do Projeto Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS) que eles ampliaram seus

conhecimentos sobre o manejo sustentável da terra e das plantas e sobre a diversificação produtiva em suas unidades familiares. Antes do PAIS, Benone tinha que roçar o mato, recortar, tocar fogo e arrancar os paus em coivara para depois cavar e plantar o milho, o feijão e a mandioca. E quando o roçado dava bom, no final do ano só dava para comprar uma roupa boa. Se fosse pagar trabalhador, então, a produção saía mais cara que comprar a comida. Como o roçado só tirava uma vez por ano, plantou também um bananal, que “dá para tirar uma coisinha o tempo todo”. Veneno, nunca usaram porque era caro e porque tinham medo. Carla sempre cultivou, ainda que pouquinho, o plantio de hortaliça num canteiro em cima de uma pedra da altura de um coqueiro. Fazia os canteiros de estrume e tronco de bananeira, que quando ia apodrecendo também já virava adubo. Era mais para o consumo mesmo. Complementava a renda vendendo o pouco excedente, bolos, doces e as bananas para o projeto da CONAB, que ia alimentar as crianças de colégio e orfanatos. Quando Benone chegou da reunião da associação comunitária dizendo “bora fazer um quintal produtivo”, ela não botou muita fé. “Será que vai dar certo? Como vai ser isso mesmo?”. Mesmo assim resolveu meter cara, porque “quem tem medo de comer não come”. Os dois foram trabalhando juntos. Benone começou a preparar a área para receber a tecnologia social PAIS, ela ia participando dos cursos, e os dois iam juntos se empolgando com o que ainda estava por vir. Participaram do curso de capacitações de implantação do PAIS junto com outros agricultores e agricultoras do município, se apropriaram da tecnologia, e, assim, aprenderam a estratégia. Antes mesmo que a equipe chegasse lá para acompanha a implantação, meteram cara de novo e foram montando o seu. No final de agosto de 2011, ficou todo levantado. Em setembro, ela já estava plantando.

Hoje o quintal está todo cercado com tela. Foi melhor, em vez de dividir o piquete das galinhas em dois, porque entrava muito cachorro e gato das vizinhanças e faziam fezes na horta. Carla, que já tinha sua pequena produção de hortaliças em canteiros suspensos no terreiro da cozinha, com o PAIS ampliou as técnicas e as práticas agroecológicas e tem hoje em seu quintal uma produção bem


diversificada. “Eu penso assim: é um quintal produtivo, então a gente tem que plantar um pouco de tudo. Já que não pode plantar muito, tem que ter um pouquinho de cada coisa”. Tangerina, banana. Batata, pimentão e cebolinha, tudo pertinho para aproveitar o terreno. Experimentaram, além das hortaliças e fruteiras previstas no projeto, o milho e o feijão, e viram que também dá certo nos canteiros – “enquanto todo mundo tava olhando, a gente tava comendo feijão maduro e milho verde”. Carla conta com orgulho que tem em sua unidade uma espécie de tomate, que dá fruto de mais de 700 gramas, que uma cunhada lhe deu a semente, ela não sabe ao certo de onde veio, só sabe que é um sucesso e já está guardando uma semente para plantar de novo no verão, porque “tomate bom é o do verão”. A horta ainda tem cebolinha, alface e chuchu, que sobe no pé de abacate e no cajueiro. Para manter o equilíbrio ecológico e manter a área com o controle de insetos e doenças na produção, Carla e Benone cultivam o mastruz e o fumo, que nasce do próprio estrumo e, no ao redor dos canteiros, vários pés de pimenta para repelir o que vem de fora. A qualidade de vida aumentou, melhorou o jeito de cultivar. Agora, Carla tem mais tempo, cuida de uma bodeguinha que a família tem e ajuda os filhos nas tarefas escolares. De manhãzinha, o sistema de gotejamento ajuda muito e aonde ele não chega usa a mangueira e regador. Aduba com esterco de gado mesmo, mas, de vez em quando, pega o esterco das galinhas, que é muito bom para a cebolinha porque ele nutre. As galinhas, ela cria bem livres. Do galinheiro no centro do PAIS, elas vão para o piquete, que é bem grande e

para dentro do sítio. Tem bananeiras, para ter sombra, e tudo o que cai no chão já vai servindo de alimento. Além disso, elas comem as verduras, o que sobra da horta, que já vai economizando na ração. E quando quer comer uma galinha, é só abrir e pegar no piquete, sabendo que é uma galinha “limpa”. De tudo Carla e Benone colhem sementes para plantar de novo. Só o que ainda compra é a semente de coentro, porque não produz o bastante para plantar outro canteiro e ele demora muito a sementar. De pimentão e alface já tem guardada. De alface, inclusive, já está preparando as mudinhas para depois elas irem para o canteiro. Se planejam também para plantar a cenoura e a beterraba, que já testou, diz Carla, “porque tudo a gente tem que testar, antes de ocupar um canteiro todo”. A dificuldade que a família ainda encontra é a de ter onde comercializar. Por isso, ela explica, a produção ainda é pouca, só para eles mesmos e para as galinhas. Eles comercializaram para CONAB e já atingiram a cota desse ano, por isso, não podem entrar no PNAE, mas se aparecer onde ela está pronta para meter a cara de novo. “O PAIS foi o melhor projeto que surgiu aqui pra gente. Não tinha nem como a gente plantar uma horta, era longe, o trabalho que eu tinha de subir aquela pedra para agoar, pra tirar alguma coisa. Agora não, é tudo pertinho de casa, a panela tá fervendo eu corro na horta, pego verdura. A gente se beneficiou muito”, explica Carla. Mas ainda mantém uns canteiros de coentro em cima da pedra, porque “não pode deixar os antigos amores”. Na comunidade Sitio Santa Elias, além da família de Carla e Benone, mais 9 famílias tem um PAIS implantado em seu quintal, com acompanhamento do CETRA e apoio da Fundação Banco do Brasil.


Carla e Benone: Um novo jeito de produzir sem deixar os velhos amores