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Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas

Ano 6 | nº 958| Setembro| 2012 Trairi - Ceará

Casa de Sementes Jucazeiro: lugar de encontro, lugar de trocas A comunidade Urubu está localizada em Trairi, município que carrega, suspenso em seu cartão postal, um território litorâneo com belas praias, visão esta que a comunidade, a 30km da sede de Trairi, não compartilha. Urubu é uma comunidade rural, que vivencia a realidade do clima semiárido com suas dificuldades de acesso à água para consumo humano e para produção, e ausência de políticas públicas. Era para ser um lugar esquecido, era para ser um lugar abandonado. Era para ser, mas não foi. Os moradores da comunidade contam que, por carregarem o nome de Urubu, sempre foram sinônimo de chacotas, de tiração de sarro, de piadinha por ter o nome de uma ave que rodeia os céus dos sertões no verão a procura dos restos, daquilo que ninguém quer mais, das sobras, da sujeira. Mas esta é uma história da comunidade Urubu. Uma comunidade linda, que construiu uma história diferente, que decidiu não ser mais esquecida, que não iria ficar mais com os restos, não seria mais abandonada pelas políticas públicas. Foi assim, com a Feira realizada pelos jovens da comunidade. necessidade de estarem inseridos nos projetos e de mostrarem que existia um povo que lutava e resistia em viver em suas terras, que foi criada a Associação Comunitária dos Moradores do Urubu (ASCAMOU). A Associação foi porta de entrada para organização da comunidade. Com ela, vieram o fundo solidário, a feira da comunidade, o produtivo e a casa de sementes e conquistas de uma comunidade que abençoada, que se fez bonita.

Casa de Sementes recebendo Intercâmbio no VII Territorial de Agroecologia e Socieconomia Solidária - ETA

rotativo quintal outras se fez

O relato emocionante da jovem Elisângela, umas das lideranças da comunidade, revela sua paixão pela comunidade e sobre o processo vivido através de todos esses projetos, que vem ampliando e construindo o conhecimento agroecológico na comunidade. “O que foi mais importante foi a mudança que ocasionou nessas pessoas, a partir do conhecimento, dessas transformações, dessas conquistas, desses grupos, dessas ações, de uma iniciativa que ocorreu em 2005 e mudou muito, muito, muito a vida de todos nós... Eu não me vejo fora dessa comunidade, eu não seria Elisângela se eu não morasse aqui,(...) não sei o que seria de mim se não existisse tudo isso”.

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Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas

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“Tem que ver pra crer e crendo é realizado” diz Conceição Mesquita A construção da Casa de Sementes se deu em 2010, de forma voluntária e com muita solidariedade das famílias da comunidade de Urubu. O terreno foi uma doação de seu Francisco Furtado, conhecido como Chico Louro. E, com a contribuição das famílias da comunidade, foi aparecendo a mão de obra de serventes, a limpeza do terreno, a ajuda para a alimentação, as pessoas para pegar água no açude. E tudo em forma de mutirão. A tradição de guardar sementes em casa já era um costume natural das famílias. Com a construção da casa de sementes O Jucazeiro, aos poucos essas mesmas famílias foram se

associando e trazendo suas sementes para formar o primeiro estoque. Para que tudo Mulheres da comunidade organizam as sementes ocorresse de forma organizada, a comissão responsável pela casa criou uma ficha de inscrição, uma ficha de recebimento e uma de devolução das sementes. É importante salientar também que essa função é desempenhada pelas mulheres da comunidade. Segundo as lideranças, a maior importância da casa de sementes é que gera autonomia para as famílias, que não precisam, assim, depender das sementes do governo que, além de chegar muito tarde à comunidade, não são de boa qualidade e nem sempre são adaptadas para a região. É o que acontece ao contrário com a Casa de Sementes O Jucazeiro. As famílias têm acesso rápido ao estoque. Quando começa a chover, as sementes já estão nas mãos dos agricultores e agricultoras, que sabem da procedência e da qualidade, não têm nenhum agrotóxico e a terra já esta adaptada a elas, porque foi produzida naquela terra. Elisângela Furtado e Conceição Mesquita lembra também que sempre são realizadas reuniões para a melhoria da qualidade das sementes nativas e para o resgate das sementes crioulas. A casa de sementes é meio de construção de conhecimento da e na comunidade. Foi através dela que todos se sensibilizaram em plantar sementes sem agrotóxico, dando valor as sementes nativas e crioulas. A cada encontro ou reunião, é aberta uma roda de conversa para a conscientização e valorização de ter uma casa de sementes e da preservação das sementes crioulas. A troca de saberes e a troca de sementes se dão de forma natural, tem agricultores e agricultoras que gostam de trocar suas sementes com o seu vizinho; outros não. Mas a comissão que organiza a casa de sementes incentiva os agricultores e as agricultoras a fazerem essas trocas, criando, assim, entre si, trocas de saberes, para o cuidado com suas experiências de armazenagem, possibilitam uma construção coletiva de sementes diversas. Atualmente, a casa de sementes também se tornou um espaço de encontro das famílias do Urubu, para reuniões da Associação, do Fundo Rotativo Solidário, do Grupo de Jovens e da realização da Feira Agroecológica da comunidade. É no espaço que são guardadas as sementes que garantem à comunidade a segurança alimentar e reforça a troca de conhecimento, de experiências, de saberes, de sabores. É exatamente no local onde existe a esperança de tempos melhores que a vida da comunidade Urubu cresce e germina. É o lugar mais frequentado da comunidade. É o lugar de crianças, jovens e adultos conviverem.

Apoio:

MARCA UGT

Programa Cisternas

Candeeiro casa de sementes Jucazeiro: lugar de encontro, lugar de troca  

Candeeiro casa de sementes Jucazeiro

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