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Stefani Ceolla de Moraes

UMA GENTE NOBRE E AUDAZ

Personagens que fazem a hist贸ria de Santa Cec铆lia


Uma gente nobre e audaz Personagens que fazem a hist贸ria de Santa Cec铆lia


Para Lires Estefana da Silva Ceolla, com todo meu amor.


PRÓLOGO Em Santa, plural não existe. Passar vontade de comer algo ataca as bicha, jogar fora é pinchar e desafeto é caipora. Estrada é de chão batido e o vento quando bate forte é minuano. Sujeito meio louco é destemperado das ideia e se é pra provocar, a gente entica. Tirar sarro é catimbar e fazer carinho é dar barda. Se dá briga, é entrevero, mas sempre tem alguém pra apaziguar. O céu é azul e no chão tem grimpa. Gente boa é bagual e gente ruim é bocó. Mas gente ruim quase não tem. Santa é lugar de gente humilde. Que cresceu sabendo quando é tempo de plantar, quando é tempo de colher. Sabe onde é o chovedor e que se chover, pode carmariá. Faz cruz de sal em cima da mesa pra se proteger dos temporal e mandinga pra recuperar a plantação em época de geada. É gente que dorme e acorda cas galinha pra tomar chimarrão, faz churrasco nos domingo e gosta de um bailão. É gente de fé que faz festa pra tudo quanto é santo. Vai à missa e só pode comungar depois de se confessar. Se tiver encosto, é só se benzer. Benzedeira cura também Mal-de-Lázaro, Mal-dos-Peito e outras doença dos nervo. É gente que cresceu cantando o hino da cidade na escola e o hino nacional também. Tinha que ainda rezar um Pai Nosso antes da aula e professor levava a criançada na rédea curta. Tinha que estudar pra ser alguém na vida porque o estudo é a única herança que os pais podiam deixar. A maioria dos trabalhador puxa tora do mato e leva pras fábrica pra tratar da madeira. Na época do pagamento, pessoal do interior vai pra praça fornecê – que é fazer o rancho. Arroz, feijão, muita carne, galinha caipira e outras coisa têm que tá na mesa. Salame e queijo é pro café com mistura. Bom mesmo é misturar com camargo. No inverno, é época de pinhão. Tem que comer paçoca e entrevero – que não é o mesmo que descreve as briga lá do início do texto. Quando falta tudo isso na mesa, é porque bateu o rafaé. Encontrou um conhecido de manhã? Cumprimente. - Dia? - Dia. 3


É à noite? Cumprimente também. - Noite? - Noite. Quer ser um pouco mais simpático? Então complete: - Bão? Sujeito tem que ser educado, mas não pode ser fresco demais. Bagual apareceu meio indecente e falou coisa que você não gostou? Chulispa! Povo gosta duma fofoca, mas se respeita. Respeito, na verdade, é coisa que tá virando característica só de gente do interior, e tá se perdendo. A modernidade tá chegando e na escola ninguém mais reza nem canta hino. Criançada não brinca de roda e piazada já tá parando de crescer querendo ser laçador. Baile tá virando coisa de gente antiga. Chote figurado daqui a pouco vai ser coisa do passado. Gurizada tá froxando pro serviço e tem uns que quando tão fora têm até vergonha de dizer de onde são. Uma cidade de tanta cultura e tradição não pode se perder. Quem sabe, botar em palavras tudo que a gente foi dê saudade e a gente resolva voltar a ser o que é. Afinal, cidade nenhuma é boa se não tem história. E história é o que Santa Cecília mais tem.

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AS ORIGENS Adão Goetten foi o primeiro dos nobres e audazes habitantes de Santa Cecília. Alemão, chegou ao Brasil em 1829. Iludidos com promessas de terras férteis, lucros e qualidade de vida, os imigrantes se instalaram no país. Os alemães que embarcaram no porto de Bremen no navio Charlotte & Louise tiveram um destino diferente daqueles chegados em épocas anteriores. Em vez de se instalar nas proximidades do litoral, ou às margens do rio Itajaí-Açu, aqueles imigrantes tiveram como missão desbravar o inóspito sertão do Brasil. Foram instalados na região de Rio Negro, entre Santa Catarina e Paraná. O terreno era acidentado, o frio intenso e as promessas que esperavam não foram cumpridas. Havia uma única vantagem no local: ficava no caminho dos tropeiros, por onde criadores de gado do Sul do Brasil transportavam a boiada para o Sudeste. Os habitantes recém-chegados sabiam que o caminho ainda não havia sido desbravado. Os tropeiros passavam, mas não ficavam. Mesmo assim, quando soube que a estrada até Lages havia sido aberta, Adão decidiu conhecer o território. Em toda a extensão do caminho das tropas, decidiu fixar residência na área menos promissora. Conhecida como Serra do Corisco, a região cortada pelo rio Correntes ainda era habitada somente pelos índios, que reagiam à chegada do homem branco. Por estar no alto da serra, no coração de Santa Catarina, era escolhida pelos tropeiros como ponto de parada. As tempestades, os raios e o frio intenso não assustaram Adão Goetten. Ali, se instalou com a família. E deu origem à cidade tema deste livro. Nasceram, no lugar escolhido pelo alemão, alguns de seus filhos. Aos poucos, foram chamando para a região as outras famílias vindas da Alemanha. Granemann, Arbegaus, Rauen, Drissen, Grein, Schumacher, Hau, entre outros, também escolheram a Serra do Corisco como lar. Adão Goetten, o desbravador, era um homem de personalidade forte. Sua fama permanece no imaginário de seus descendentes ainda hoje. No livro Raízes de Santa Cecília, José Eloí Goetten relata uma passagem narrada por Emil Odebrecht, que teria sido hóspede de Adão: “O velho Adão, porém, tinha ainda seus caprichos, e poderia tornar-se 5


bem agressivo, bastava que alguém discordasse de algum ato ou atitude sua. Adão, ao receber viajantes, acolhia essas pessoas num rancho ao lado da sua casa. Depois de dar de comer, obrigava seus convidados a cantar uma velha canção, a qual repetia tantas vezes que as pessoas chegavam a ficar roucas”. Apesar do modo de tratar, nunca deixou de receber quem por ali passava. Adão teve, com Ana, sua esposa, 11 filhos. No terreno infestado de pedras, como descrevem ainda os moradores mais antigos, a atividade principal tornou-se a criação de gado. Assim, Adão foi mais um a viver do caminho em que se instalou. O caminho das tropas era formado por extensos carreiros que ligavam o Sul principalmente ao estado de São Paulo, onde estavam os maiores abatedouros do país. A vida daqueles que do transporte viviam estava longe de ser fácil. Levavam meses para transportar uma boiada. Seu “pouso” era a sombra das árvores. Sua renda ficava para que as famílias se mantivessem – aqueles que tinham – durante os meses que passavam fora. Com a necessidade de se fixar, foi na Serra do Corisco que muitos dos tropeiros decidiram fazer família, dando continuidade ao povoamento da região. Décadas depois da chegada dos primeiros habitantes à Serra do Corisco, o interior catarinense já estava povoado. Cidades como Lages, Caçador e Curitibanos já existiam. A vila em torno do rio Correntes fazia parte deste último município. O século seguinte começou com uma intensa batalha na região: a Guerra do Contestado. Um misto de fanatismo religioso, insatisfação social e disputa territorial resultou na sangrenta batalha ocorrida em Santa Catarina. A Serra do Corisco ficava no meio desta disputa, que, narrada nos livros de história, assemelha-se a uma guerra civil: pela primeira vez no Brasil, aviões foram usados para reprimir uma batalha interna. Mais uma vez, o nobre e audaz morador destas terras aparece. No ano de 1914, jagunços já haviam invadido, incendiado residências e matado civis em toda a região contestada. A vila do rio Correntes não escaparia de uma ação. Na localidade, o mais atuante morador era um descendente de Adão Goetten. Honrando o sobrenome da família, João Goetten Sobrinho protegeu o Corisco. 6


O apelido João Bravo não negava o homem que o carregava. Inicialmente, conta José Eloí Goetten, “ele não queria envolver-se nas ideologias dos sertanejos, respeitando inteiramente suas crenças. Mas, com o passar do tempo, com o crescimento de novos redutos e o acúmulo de pessoas para serem alimentadas, sem que nada produzissem, e com contingentes inclinados para o roubo e o crime, as ameaças absurdas ao comércio de João Goetten eram cada vez mais iminentes. As ameaças eram tão sérias que o obrigaram a organizar, às suas custas, um grupo de 32 homens para defender o povoado do Corisco”. Os jagunços que lutavam na Guerra do Contestado disputavam uma batalha heróica. Já haviam tomado grande parte do território, formavam redutos e amedrontavam até mesmo o Exército brasileiro, obrigado a intervir. Não amedrontaram, porém, 32 nobres e audazes homens, que armados com facões feitos de pau e outras armas de pouca capacidade letal, enfrentaram o grupo que chegava ao Corisco. Segundo o livro de José Eloí, os jagunços chegaram na noite de 6 de outubro de 1914. O pequeno exército montado por João Goetten Sobrinho já estava à espera. Antes que os rebeldes pudessem reagir, foram atacados. Os defensores do Corisco tinham a seu favor o fato de conhecer o campo de batalha. Na escuridão, conseguiram o mais surpreendente: fizeram com que os homens, comandados por Francisco Camargo, conhecido pelo apelido de Chico Pitoca, matassem uns aos outros. Nenhum defensor do Corisco morreu. O comandante do grupo invasor não teve a mesma sorte. Foi nas terras de Santa Cecília que Chico Pitoca padeceu. Em seu bolso, os homens de João Goetten Sobrinho encontraram um bilhete que o rebelde havia recebido de seu superior. A carta dizia assim, na íntegra, sem correções: “O senhor Francisco Maria Camargo, eu vos dou ordem e Deus e São João Maria lhe dará o poder; e força para ir com um piquete de 15 home em casa de João Goetten. Se houver peludo terão que brigar e esbodegar com tudo os peludo e resgatar uns preso que tem lá e esta hora será de madrugada, entrarão nas trincheiras sem dar tiro, só a facão, e depois disso feito, terá o direito de lançar a mão no que for dos peludos, só menos em dinheiro, isso sim não; e respeitar muito as famílias e não injuriar e terão o direito de dar as voltas que for necessário; e enconvidar os que 7


for do acampamento para virem com o que puderem trazer, e o que for peludo, terão de matar sem perdão, só não prenderem e as casa dos peludo terá o direito de queimar, só deixando a casa onde acomode as famílias, e os home que for Goetten é para ir de cepo aparado, menos mulher e criança”. Quem assina é Francisco Alonso de Souza. O plano, apesar de bem articulado, não obteve êxito. O Corisco escapou do ataque. Os homens de João Goetten Sobrinho sobreviveram. A vila só voltou a sofrer com a guerra mais uma vez, em 1915, quando rebeldes saquearam o local. Mais uma vez, permaneceu intacta, diferente do que houve nas grandes cidades da região. Resultado do trabalho do homem nobre e audaz. A história começa aí, mas é extensa. De vilarejo virou distrito, de distrito vila, e de vila município em 1958. O antigo caminho das tropas que cruzava Santa Cecília se tornou a BR-116. O primeiro prefeito foi outro descendente dos desbravadores alemães que chagaram ao sertão: Antônio Granemann de Souza, o ainda lembrado Seu Tonico. A característica dos moradores continua a mesma daquele homem de personalidade forte, que atravessou um oceano, um caminho de tropeiros, e encontrou entre os pinheiros, na beira de um rio gelado, um lugar para se instalar. Adão Goetten tinha a personalidade forte. Seus descendentes seguiram assim. Seguiram, também, aquilo que marcou João Goetten Sobrinho. Granemann, Arbegaus, Rauen, Hau e demais povoadores do lugarejo em nada se diferenciam destes homens. Não é possível contar nestas páginas a história de cada um deles. Muito menos da cidade que fundaram. Este livro, aliás, não tem a pretensão de ser um livro de História. Quer, no entanto, ser um livro de histórias. Nas próximas páginas, não há a trajetória de Adão Goetten, nem de Henrique Granemann, primeiros habitantes do local. Há a vida de homens e mulheres de hoje, que continuam atendendo às qualidades comuns de seu povo, que compõem a letra do hino da hoje cidade de Santa Cecília: uma gente nobre e audaz.

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SEU NALO ME CONTOU Em um caderno escolar, do tipo universitário, a caneta Bic azul riscou palavras que juntas formam uma grande história. A letra é de Floresnal Granemann, conhecido como Nalo. De família ceciliense tradicional, sempre teve interesse pela história da cidade. A Guerra do Contestado e sua repercussão na região, em particular, é o que mais lhe chama atenção. Isso se deve à criação. Homem do campo, sempre teve contato com outros antigos moradores das terras na Serra do Corisco. Ouviu de muitos deles aquilo que melhor representa a história oral da cidade de Santa Cecília. Não ouvia, porém, só por ouvir. Sempre munido de papel e caneta, anotava as peleias que os mais antigos contavam e voltava para casa com os bolsos abarrotados de pequenos trechos da história ceciliense. Dia desses, em casa, decidiu passar a limpo antes que aquilo tudo se perdesse. E começou a passar para o caderno o que havia anotado em pedaços soltos de papel. Rendeu. Narrados, os relatos representam um grande livro. A redação obedece às normas da Língua Portuguesa e é composta por um vocabulário rebuscado. Para ele, nada mais é que um conjunto de histórias que ouviu. Para a posteridade, pode ser um dos mais fiéis relatos do que é o verdadeiro homem ceciliense. Assim começa o texto escrito no caderno: “Quando falamos em Contestado, em respeito às raízes históricas e hábitos do caboclo pardo, nos referimos ao episódio bélico e ao palco dos sangrentos combates do conflito social cronologicamente estabelecido entre 1912 e 1916”. E discorre, em seguida, sobre os principais fatos ligados à Guerra, especialmente aos episódios ocorridos na região de Santa Cecília. Seu Nalo tem uma opinião bem formada sobre os personagens da guerra. Não vê, de forma alguma, os jagunços como criminosos. Sabe que o combate se deu não apenas pela disputa de território pelos estados vizinhos, mas também por uma batalha social, pela valorização do homem que vivia nestas terras e pelos seguidores de líderes religiosos. “A população do Planalto pegou em armas e deu o grito de guerra no episódio conhecido como Guerra do Contestado. Foram várias as causas do conflito armado. Ocorria um movimento messiânico, uma luta pelos direitos, um combate pela posse de terras. O Contestado uniu 11


mais de 30 mil pessoas”, conta Seu Nalo. “Nem todos os sertanejos eram rebeldes, nem todos os rebeldes eram fanáticos, nem todos os fanáticos eram jagunços”. Para eles, “os sertanejos catarinenses formavam o bravo exército de João Maria. Era formado por homens, crianças e até mulheres. Extrabalhadores da estrada de ferro abandonados a sua própria sorte. Antigos combatentes farroupilhas e maragatos, ex-integrantes da guarda nacional, incluindo foragidos da justiça e de outros estados. Juntos atacaram e se defenderam. Lutaram pela sobrevivência até que as forças legais se convenceram de que estavam diante de um inimigo não inferior”. Santa Cecília foi palco de combate. O mais importante deles ocorreu em 29 de setembro de 1913, segundo Seu Nalo. A data difere daquela citada nos livros de história, mas representa a mesma batalha. Naquela noite, os jagunços invadiram a vila. Foram contidos por um grupo de homens que defenderam a localidade. “Não tendo segurança, a única solução para João Goetten Sobrinho foi organizar um piquete de homens armados mantido por suas próprias contas”. “Os jagunços atacaram atrás de uma taipa de pedra. Eles atacaram o sentinela e quando os homens daqui viram, estavam debaixo do facão dos jagunços. Contava meu saudoso pai, Alípio Granemann, que nessa peleia morreram 14 de cada lado. João Carneiro, um dos jagunços, conhecido como Carneirinho, que era um homem violento, ficou morto atravessado em cima de uma taipa, e foi morto por Jesus Goes. Na manhã do mesmo dia, avistaram Chico Pitoco, sentado baleado à beira de um açude, identificado como jagunço por um bilhete que tinha em sua calça, com encomendas da casa de João Goetten Sobrinho. Ele ainda estava vivo, depois mataram ele”, escreveu Seu Nalo no caderno. E completa: “José Colette, outro homem daqui, determinou que fossem todos enterrados em uma vala só”. Seu Nalo ainda conta que “João Goetten Sobrinho, depois da peleia, ficou pobre e fraco das ideias, de certo pelo trauma que teve, e morreu. As pessoas que tinham memória fraca iam perdendo o juízo durante a guerra”. Do embate em Santa Cecília, Seu Nalo guarda as recordações que pôde levantar ao longo de sua vida. Na parede da sala principal da casa 12


em que vive, na avenida Nereu Ramos, estão pendurados dois facões de pau. Neles, está talhada a data da batalha na cidade, em que todos os jagunços morreram. “Para ter um símbolo que resista a esta data, eu mandei fazer dois ‘facão’ de pau. A primeira arma dos jagunços era isso, eles brigavam com isso aí e matavam com isso. Com essa arma, se defenderam de canhões e metralhadoras”, conta Seu Nalo, que opina: “para ver como eles eram valentes”. Outra recordação é uma antiga foto do grupo que defendia Santa Cecília, organizado por José Colette e João Goetten Sobrinho. Não se sabe quem fez a fotografia nem as circunstâncias em que a foto foi tirada. O que é evidente é que ali aparecem os homens que defenderam firmemente a vila. “Para ver o tipo do caboclo. Essa era a guarda que tinha em Santa Cecília para se defender dos jagunços”. Segundo escreveu em seu caderno, “os combates foram reduzindo gradativamente até terminarem em dezembro de 1915. Morreu muita gente de fome no final da guerra”. E mais uma vez, recorre ao que ouviu dos moradores mais antigos. “Essa história quem me contou foi seu Altino Ribeiro”, diz, antes de começar. “Caetano de Souza, da Serra da Esperança, que fica no município de Lebon Regis, viajava a cavalo e para não morrer de fome comeu sua própria montaria, que era de couro cru”, conta Seu Nalo. Outro fato curioso foi contado por Maria Terezinha Feraldi: “Sua mãe sempre dizia que sua tia, Maria Granemann, foi levada pelos jagunços junto com 200 cabeças de gado do seu avô, Manoel. Quando matavam novilho com a marca do avô, ela não comia a carne”. Seu Nalo ainda conta a história de Helena Granemann: “Ela foi levada pelos jagunços e não quis voltar, acompanhou por livre e espontânea vontade”. A guerra terminou em 1916, quando foi assinado o acordo de limites e os redutos dominados pelo exército. O líder religioso também foi morto. E a história da região, da qual Seu Nalo muito sabe, seguiu adiante. Não fala tão bem de sua própria história quanto relata o que aconteceu durante a Guerra do Contestado. Mas segue uma ordem cronológica que começa mais ou menos assim: “Quando eu tinha 17, 18 anos, morei em Santa Cecília trabalhando como escrevente no tabelionato. Depois fui servir no exército, no Rio de Janeiro. Achei que a minha profissão deveria ser diferente, voltada à lida do campo e do gado”. 13


Em Santa Cecília, casou com Cloci, também moradora da cidade. O casal morou em Palmas, cidade do oeste catarinense, e depois voltou à terra natal. Seu Nalo continuou trabalhando com gado, vocação que foi passada para seus dois filhos, Carlos e César. Em 2009, Cloci faleceu, depois de dois derrames. Não consegue falar da esposa sem que os olhos fiquem marejados. “Até hoje sinto muita falta. Fomos casados por 40 anos. O meu pai e o da Cloci eram fazendeiros e as fazendas eram próximas. A gente se conheceu desde criança. A gente brincou junto, estudou junto. Naquela época, os pais contratavam professores particulares, que davam aula nas casas dos vizinhos. Depois nós namorados. Paramos quando eu fui servir o exército. Fiquei um ano, e quando voltei continuamos juntos”, explica Seu Nalo. Além das recordações da esposa, guarda na memória a Santa Cecília em que cresceu. “As residências começaram a desenvolver mais depois que passou a município. Aí veio o progresso”. Aos 71 anos, aposentado, ainda não parou de trabalhar. “Sempre estou na ativa, não fico parado”. Hoje, dedica, porém, o tempo que pode ao que mais gosta de fazer: conversar e contar suas histórias. “Eu gosto de conversar, né. Recebemos bastante visita, graças a Deus nossa casa sempre tem bastante gente. Não se passa um dia em que não venha alguém aqui”, comemora. E seguindo o exemplo do homem ceciliense, não sente-se cansado e mostra-se sempre disposto a recomeçar. “Na atividade da gente, sempre tem que melhorar e se aperfeiçoar. Nós criamos gado aqui na nossa região com muita dificuldade na época do inverno. E tem que se adequar a coisas que saem do costume da gente”. A história relatada por Seu Nalo, em seu caderno, conta que “a vitória final da Guerra do Contestado se deu devido ao emprego de grande armamento, como canhões. Tiveram que usar esse armamento pesado para poder dominar, se não, seriam dominados. O inimigo era muito superior do que pensaram”. E define assim, com relatos históricos, o cidadão ceciliense: “Assim é e será, por muito tempo, o caboclo da nossa região: verdadeiro, serrano, autêntico homem da terra”. Sem saber, ele acaba se definindo, e muito bem, nestas palavras. 14


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OS EMPREENDEDORES Era década de 1930 e a família Bonet, que já trabalhava com madeira no Rio Grande do Sul, soube que, no local onde, na época, estava o chamado caminho das tropas, seria aberta uma estrada. A via ligava o Sul ao estado de São Paulo. Naquela década, porém, não passava de um carreiro por onde os tropeiros transportavam gado até os grandes frigoríficos. Mesmo assim, o espírito empreendedor fez com que fosse iniciada uma jornada até então pensada como provisória ao longo do interior catarinense. Já na década de 1950, na Serra do estado, instalou-se Hermes Bonet e sua esposa, Alzira. O objetivo era ficar no local até que a madeireira estivesse instalada. Nunca mais saíram. “Viemos provisoriamente e ficamos até hoje”, afirma Alzira. Foi por causa dos negócios da família que eles se conheceram. Ela morava em Caçador, cidade vizinha a Santa Cecília, e foi lá que se casaram. Depois, moraram no Tibúrcio, uma vila próxima à cidade de Rio das Antas, também no Meio Oeste. Foi só depois de uma jornada que os levou a São Paulo e a Curitiba que se instalaram em Santa Cecília, que ainda não havia sido emancipada. Alzira havia ido para Caçador dar a luz ao filho, Flavio, quando soube que a família do marido havia adquirido uma serraria na cidade. A empresa pertencia à família Pigatto, de Mafra, que extraia e tratava madeira. A primeira instalação foi na região conhecida pelo nome de Sepultura, próxima à Coletoria Velha, antigo posto de pagamento de impostos, nas margens do então caminho das tropas. Lá, a família viveu numa casa humilde, sem luz nem água, até que mudou-se para a cidade, numa residência em condições semelhantes. “Era uma casa de madeira boa, mas sem luz nem água. A gente não se apressou em melhorar as coisas porque desde o início sabia que era em caráter provisório”, explica Alzira. Hermes completa: “Foi um esforço muito grande, muita dificuldade, abnegação, não tinha recursos. E quando eu falo recurso, eu não falo nem de dinheiro para comprar. Mesmo que tivesse dinheiro, não tinha onde comprar”. A cidade mais parecia uma vila. “De Santa Cecília a Caçador dava três horas de viagem”, conta Alzira. Hoje, para percorrer o caminho se leva em média uma hora. “Tinha uma meia dúzia de casas”, completa 17


Hermes. Entre as famílias que ali moravam na época, lembram dos Arbegaus, Hau, Granemann e Goetten. “Tinha só a serraria, o restante trabalhava com pecuária”, diz Hermes. Alzira define a cidade como “uma vilazinha”. A maioria da população trabalhava na área rural. O encontro dos moradores se dava em festas de igreja, que até hoje ocorrem. “Os fazendeiros todos vinham parar aqui, traziam barracas e acampavam porque não tinha onde ficar. Não tinha nem carro nem estrada”, conta Alzira. E foi nesse ambiente que a empresa Bonet nasceu. Hermes reconhece que não sofreram tanto quanto os primeiros habitantes da cidade. “Esse pessoal que veio teve mais dificuldades no princípio. A gente já veio em função de saber que a rodovia estava projetada, já tinha sido iniciada a estrada de Mafra até Lages, que ligaria os extremos do país”, recorda. A oportunidade de progresso era evidente com a abertura da rodovia. “A primeira serraria foi em Sepultura. Aí compramos a empresa do Pigatto e viemos provisoriamente arrumar a serraria aqui. Os negócios ficaram maiores e foram precisando de uma pessoa meio permanente aqui”, explica Hermes. “Se a gente tivesse ficado em Curitiba, talvez tivesse condições mais favoráveis de educar os filhos. Mas precisava de alguém aqui”, completa. O casal teve quatro filhos e, mesmo longe dos grandes centros, decidiu que teriam oportunidade de estudar. “Compramos um apartamento em Curitiba e colocamos lá para estudar, foram mantidos com a nossa renda daqui”, conta Alzira. Os negócios foram evoluindo e, sem que a família se desse conta, a relação com Santa Cecília tornou-se definitiva. “Depois de um tempo a gente comprou uma área no Timbó, montamos uma serra fita. Encabecei o assunto para fazer a primeira estrada para chegar ao Buriti, localidade do Timbó Grande. Desde aquela época nós improvisamos a estrada”, conta. Foram quase 50 anos de espera por uma rodovia que levasse até a localidade, hoje emancipada de Santa Cecília. “Todo governo prometeu que vinha o asfalto, agora por último que veio”, explica Hermes. E com a efetiva construção da BR-116, que corta a cidade, os negócios se firmaram definitivamente, assim como a família Bonet em Santa 18


Cecília. “Conforme foi sendo aberta a estrada, compramos nosso primeiro caminhão, porque antes o transporte de tora do mato para a serraria era de carroça”, conta o empresário. “Muita gente estava se instalando aqui em função da abertura da estrada, da BR-116, na década de 60”, explica Alzira, ao justificar o crescimento da cidade. Isso também foi bom para os negócios. “Trouxemos gente de fora e tivemos que ensinar. Não era coisa que carecia de muito conhecimento”, completa Hermes. A estrada, que hoje passa em frente à empresa, mudou de lugar desde que a família chegou. Na época, o caminho das tropas passava por trás da serraria, a poucos metros de onde a BR-116 passa hoje. Pontes foram construídas, a via pavimentada e a ligação com outros lugares feita. “Já tinha ligação para o porto de Itajaí, muita madeira era levada para lá”, conta Hermes. Ele sabe das críticas em relação à extração da madeira, mas também dos benefícios que trouxe à cidade. “Em relação à produção, nós fomos os primeiros que viemos aqui e demos origem a uma nova atividade, que gerava muitos empregos. Depois foi pensado em reflorestamento e se tornou a riqueza de Santa Cecília”, afirma. Para ele, as florestas que hoje estão ao redor da cidade são maiores do que quando chegaram. “Floresta nativa tinha pouco. É costume dizer que os madeireiros vieram aqui e destruíram. Sim, mas plantaram muito mais do que foi extraído. Hoje, não se pode mais cortar a mata nativa. Então assim que a gente termina de cortar, começa a plantar”, explica. Ao contar as histórias, o casal olha para o passado. Apesar do sofrimento, não esconde a satisfação pelas conquistas. Hoje, o grupo Bonet dispõe de uma área de 743 mil metros quadrados, e duas unidades. Hermes continua trabalhando, com apoio dos filhos e sócios. Alzira, que lembra mais da parte sofrida, da dificuldade de mãe, define a paciência com que enfrentou as dificuldades em poucas palavras: “Eu acho que eu tinha um gênio bom, né Hermes?”. Hermes, porém, continua aquele mesmo homem de mais de um século atrás. Não esbanja, não comemora, não se sente com a missão cumprida. Essas características, para ele, vieram de casa. “A gente se criou naquele ambiente de trabalho, de progresso, de economia. Então 19


quando surgia a oportunidade, a gente queria trabalhar para produzir. Às vezes a gente fazia sacrifícios porque o dinheiro que tinha, a gente queria aplicar. O trabalho era prioridade, o lazer não”, conclui. Para o casal, esta é a receita para uma vida de sucesso.

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POR TRÁS DA MÁQUINA DE COSTURA A máquina da marca Veritas, toda feita de ferro, com pedal e o símbolo talhado nas laterais da mesa que a completa, é a companheira de Francisca Silveira da Costa Grimes há mais de 50 anos. O equipamento é ainda mais antigo, tem pelo menos 80 anos de idade. É com ele que Dona Chica, como é conhecida, trabalha diariamente no ofício que aprendeu com o marido, Manoel, depois de casados. “Antes eu não sabia colocar um fio numa agulha”, conta. Aprendeu. E, mais que isso, descobriu o que pode ser um dom. “Não me imagino fazendo outra coisa na vida”. Dona Chica nasceu no interior da cidade de Esmeralda, no Rio Grande do Sul. Foi criada no sítio. O irmão, Marcelino, foi servir ao Exército em Vacaria. Lá, ele conheceu Manoel, morador de Santa Cecília, que também servia. Conheceu também uma de suas irmãs, com quem se casou. Para aproximar as famílias, certa vez o irmão de Francisca levou Manoel para conhecer a casa da família em Esmeralda. Ela tinha apenas 13 anos, mas foi a que mais chamou atenção do pretendente. As visitas não cessaram dali em diante. Aos 17 anos, Dona Chica casou-se com Manoel. “Foi indo, ele sempre ia lá em casa até que deu casamento. A festa foi no sítio, o padre foi na casa dos meus pais e a gente casou”, conta. Manoel já tinha uma casa em Santa Cecília, onde foram morar. “A casa tinha cinco peças, era lá na Rondinha (bairro da cidade). Lá só tinha a casa do meu sogro e a nossa, naquela época. As outras eram perto do asfalto”, relembra. “Santa Cecília cresceu muito rápido. Quando eu cheguei, tinha uma meia dúzia de casas. Eu custei para acostumar, só meu irmão morava aqui. Mas eu comecei a trabalhar e fui gostando”, conta. Manoel trabalhava como alfaiate, em casa, e Dona Chica passou a ajudá-lo com o serviço. Pegou jeito e gosto pela profissão. Explica que “o alfaiate é diferente de uma costureira, porque trabalhava mais com roupa de homem, para mulher era pouco”. Mas se adaptou. Para dar conta da demanda, instalou um motorzinho na máquina de costura, “porque só no pedal foi ficando cansativo”. O marido parou de trabalhar, e ela continuou. Hoje, tem a mesa da sala de costura abarrotada de encomendas. “Graças a Deus é bastante coisa, mas eu dou conta”, 23


afirma. Com a idade, além de adaptar a máquina, passou a usar óculos para conseguir costurar. Mas, por gozar de boa saúde, não pretende parar. Tem na memória histórias de quando chegou à cidade. “Santa Cecília era um mato. Nós construímos essa casa há quase 50 anos. Quando a gente foi fazer a mudança para cá, teve que vir uma carroça que passasse por um banhado. Era tudo mato, vassourão”, conta. Desde então, a família mora na residência que fica no Centro da cidade. Na época, Dona Chica explica, era como viver num sítio. “A gente tinha até caixa de abelha aqui. Nós tirávamos uma lata de mel por verão das abelhas que a gente tinha. Tinha uma casinha velha em frente de onde era o banco (na hoje avenida Nereu Ramos). Tinha uma meia dúzia de casa na cidade”, recorda. Desde que chegou, teve contato com as famílias tradicionais, que fundaram Santa Cecília. “Tinha a família Goetten, que mais tinha terra aqui, os Granemann, os Arbegaus”, diz. Serviço nunca faltou. “Vinha gente de fora, as pessoas que vinham e trabalhavam nas serrarias, o pessoal da Polpa (Polpa de Madeiras S/A, serraria)”, explica. Lembra que a BR-116 já havia sido aberta, mas era bem diferente da que vemos hoje. “Tinha a BR, mas não era de asfalto. Era tudo pedra”, revela. Mercado, lojas, nada disso havia em Santa Cecília. A diversão das famílias eram as festas de igreja. “Tinha festa na igreja, que era bem pequena, de madeira. Outra coisa que a gente fazia muito naquele tempo era festa surpresa”, conta. Funcionava assim: “Se você estava construindo uma casa, quando ficava pronta, a turma batia lá e fazia surpresa. Fazia janta, umas festas bem boas”. “Era pouca gente, então todo mundo se conhecia”, completa. A única coisa que sente falta foi de não ter estudado. “Não estudei nada, nunca fui pra escola. Sei ler e escrever muito pouco”, conta. Quem a conhece pouco, porém, não desconfia. Anota informações sobre as encomendas em pedaços pequenos de papel, que ficam presos a sacolas com alfinetes. “Eu marco minhas coisinhas de um jeito que eu entenda”, diz. “Mas acho falta. Se eu tivesse estudado, hoje eu faria coisas muito diferente das que eu faço hoje”. Na época, porém, não se importou. “Quem mora no sítio, só teve 24


aquela vidinha de sítio, nem sonhava. A gente nem imaginava o que era uma vida lá fora”, explica. A carência que teve em educação, fez questão de mudar nos filhos. “Graças a Deus, consegui dar uma educação razoavelmente boa para eles. Estão adultos e estudando até hoje”, conta. Dona Chica teve três filhos: Cleomar, Vilmar e Dilma, que já faleceu. Teve também uma grande participação na criação dos netos – são oito, e mais três bisnetos. “Eu trabalhava muito, então eu fazia os dois, gêmeos (Cleomar e Vilmar), fazerem os serviços da casa. O nego gostava, fazia bem. A nega disse que não queria ser doméstica, disse que ia arrumar emprego. Na primeira loja que ela foi, conseguiu. Tinha apenas 13 anos”, conta. Nego e nega é como se refere aos filhos. “Quando a nega saiu da loja, era maior de idade. Fez concurso público para a prefeitura e trabalha na biblioteca até hoje”, completa. Com o filho foi diferente. “O nego nós não queríamos que fosse servir ao Exército. Ele insistiu, disse que queria ir. E foi. Ficou oito anos no batalhão, em Lages. Entrou lá, já tinha o segundo grau completo, estudava de madrugada direto. Com seis meses passou a cabo. Ele nunca foi peão de trecho, ele cuidava das turmas”, explica a mãe orgulhosa. “Aí ele passou a trabalhar nas máquinas pesadas. Trabalhou muito tempo na abertura da estrada do Rio do Rastro”, diz. Vilmar deixou o Exército quando começaram a transferir os cabos para o Amazonas. “Ele não quis ir. Era aquela época de febre amarela e aquela coisa toda, então saiu do batalhão”, conta Dona Chica. De volta à Santa Cecília, abriu uma loja de móveis usados. Mas Vilmar foi percebendo as mudanças no mercado e um novo nicho. “Depois de um tempo ele percebeu que já tinha muita loja de móveis e abriu uma loja de moto. Agora está construindo e está muito bem”, revela a mãe. Com os filhos criados, os netos e bisnetos encaminhados, Dona Chica poderia fazer planos de parar e descansar. Mas não faz. “O meu serviço é a máquina mesmo. O que eu gosto é disso. Não me vejo parada”, afirma. “Se um dia eu tiver que parar de costurar, não sei o que fazer”, completa. O amor pela profissão pode ser um dos ingredientes da receita que faz com que Dona Chica tenha uma saúde de ferro aos 73 anos de idade. 25


Conta que não se alimenta nem se cuida de nenhuma forma diferente. Mas ama o que faz. Pensa em, daqui a um tempo, se mudar para um apartamento. “Se puder, vou continuar no meu serviço. Mas é complicado porque em apartamento é difícil quem chega. Mesmo assim, parada eu não vou ficar”, garante. Não planeja abandonar um dia a máquina que a acompanha há décadas. Conta que não exige esforço nem manutenção. “É só engraxar a cada 15 dias”, explica. Máquina boa, se isola na pequena sala da casa de madeira, que fica de frente para a rua, hoje movimentada, liga o rádio na Alvorada, em som baixo, coloca os óculos, o fio na agulha, e continua a trabalhar. “Tenho encomenda até o ano que vem”.

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FILHOS DA HISTÓRIA Dona Izolina e Seu Guinato são casados há mais de 60 anos. Ela, Granemann, ele, Gaudêncio, se conheceram nas festas de igreja que aconteciam na cidade, onde iam a cavalo, vindos do interior. A família de Izolina foi uma das primeiras a se instalar em Santa Cecília. Vivia do campo, plantando para subsistência e criando gado, porco e outros animais. Guinato honrou a história ao trabalhar como tropeiro, como eram chamados os que faziam o transporte de gado do Sul para outras regiões do país. A BR-116, que hoje corta Santa Cecília, chegou a ser chamada de Caminho das Tropas, por servir de passagem para os tropeiros que a abriram para que depois virasse rodovia. Os dois moraram no interior, no Rio Grande do Sul e Paraná, e depois voltaram para Santa Cecília, onde criaram os filhos e estão até hoje. Têm na memória histórias marcantes e inusitadas sobre a pequena e fria cidade na Serra catarinense. “Quando eu nasci, Santa Cecília era distrito de Curitibanos”, lembra Izolina. “Quem vivia aqui morava no sítio. Na cidade mesmo não tinha dez casas”, completa Guinato. Na casa de madeira em que vivem, ao lado do fogão a lenha, equipamento essencial para quem precisa enfrentar os rigorosos invernos, eles param para puxar na memória histórias de seu tempo. Izolina lembra que, quando era criança, “tinha Goetten, Hau e Arbegaus em Santa Cecília”. Custa para recordar nome e sobrenome de antigos moradores. Mas alguns foram marcantes. Cita a mulher conhecida como Véia Alice, que era parteira. “Naquela época não tinha médico. Quando era tempo da criança nascer, ou a parteira dava jeito, ou o neném morria”, explica. Escola de fácil acesso também não tinha. Para garantir a educação dos filhos, o pai de Izolina contratou uma professora particular. “O pai trouxe uma professora de Caçador, que dava aula para a gente”, conta. Dona Izolina teve oito irmãos. Os homens mais jovens foram estudar fora, em Lages. As mulheres ficaram e aprenderam as tarefas domésticas. “Tinha que cuidar da casa, da lavoura, tirar leite, fazer queijo”, recorda. 29


Foi só depois de casar e tentar a vida nos estados vizinhos que Izolina e Guinato se instalaram na cidade. Passaram por tempos difíceis. “O Guinato trabalhava numa firma de pecuária. Já passou o rio Pelotas nadando, transportando gado a cavalo. Uma vez, de canoa, a canoa quase virou e uma mula foi mostrando por onde passar”, fala Izolina sobre as histórias do marido. “A vida era dura”, completa. Tão dura que ela acha que hoje “ninguém tem direito de reclamar”. “Tudo era difícil. Antes, para ter mantimento, tinha que plantar, puxar gado a cavalo, caminhão não tinha”, explica. Lembra que, quando escutava o ronco de um caminhão, todos paravam para ver quem era, de onde vinha. Além do trabalho árduo, as únicas distrações eram as festas da igreja. “Tinha festa em 3 de maio, 6 de agosto e 22 de novembro”, conta Izolina. Foi numa dessas que ela e Guinato se conheceram e começaram a namorar. Foi também numa dessas ocasiões, há 61 anos, que se casaram. “Para casar tinha que ser em época de festa, que era quando tinha padre, que vinha de Curitibanos”, explica. Quem rezou a missão de matrimônio dos dois foi um padre chamado por ela de Frei Demiciano. “Era um padre tão nomerento”, diz, com indignação, ao recordar os palavrões de baixo calão pronunciados pelo religioso. Apesar disso, o casamento foi uma grande festa. “Foi na igreja da cidade, naquele mesmo lugar, mas outra, pequena, de madeira”, conta Izolina. “A festa reunia todo o povo de Santa Cecília”, completa Guinato. Ela conta que quem fazia a festa eram as “boleiras”, mulheres da família Hau que faziam os bolos. O casal teve quatro filhos, todos crescidos em Santa Cecília. “A gente criava os filhos mais à vontade, não tinha muita preocupação”, diz Izolina. Para namorar, tinha que ser em casa, e ninguém ficava na rua à noite. Hoje Izolina e Guinato contam ainda seis netos e dois bisnetos. Participaram da criação de todos. As netas Claudine, Roberta e Helena, filhas de Airton, o Ito, moraram com os avós. “A Claudine criou-se comigo, para poder estudar na cidade”, conta. Ito e a esposa moravam no interior, onde não tinha escola. Lembra com carinho da infância das netas. “A Dine nasceu com as pernas tortas e usou um aparelho para endireitar. A mãe dela ensinou ela a caminhar sem engatinhar. Depois 30


ela quis engatinhar, é coisa da natureza. Aqui ela engatinhava por todo o corredor, ia para debaixo da mesa e ficava olhando para cima, procurando a gente”, conta Izolina. “A Roberta também parou aqui comigo, a Helena, todas para estudar”, completa. A casa fica no centro da cidade, mas tem características de uma propriedade rural. No terreno, eles ainda cultivam uma pequena horta e alguns animais, como galinhas. Para Izolina, isso faz bem para a saúde. “A verdura vem em primeiro lugar, é um bom alimento. Tenho uma lavourinha, planto alguma coisinha aqui. Mas deu muito gelo aqui no último inverno, morreu tudo”, lamenta. O inverno de Santa Cecília desde sempre causa situações como essa, segundo Izolina. “Uma vez deu uma neve muito grande que ficou alta, branqueou tudo. Outra vez deu uma que o Guinato teve que pegar uma ripa e tirar o gelo de cima da casa. Lá no Faxinal (interior de Santa Cecília), quando morava lá, ainda era solteira, tinha uma cozinha de chão, lá fora. Deu tanta neve que não dava para passar. A gente conseguiu fazer boneco de gelo”, recorda. Nessa época do ano, o jeito mesmo é ficar dentro de casa. Izolina sempre gostou dos trabalhos manuais. “O que tenho de crochê e tricô nessa vida não dá para contar”, diz. Hoje, sente não poder mais fazer. Sofre de artrose e não consegue mais manejar a agulha como fazia antes. Os dois se concentram no serviço de casa e descansam. Também pudera. Izolina tem 78 anos. Guinato, 81. É tanta bagagem nas costas que ele lembra de ouvir no rádio a notícia de que a Segunda Guerra Mundial havia chegado ao fim. “Em Lebon Régis, tinha um comerciante que era o único que tinha rádio na região. Ele escutou que tinha acabado a guerra e saiu na rua gritando ‘pessoal, acabou a guerra, acabou a guerra’. Lembro como se fosse hoje”, conta. Depois de algum tempo, Guinato também pôde comprar um. “Ele vendeu porco em Videira para poder pagar”, lembra Izolina. Ela conta que “passava noticiário, tinha mais ou menos a hora certa de ouvir. Todo mundo parava pra escutar”. O rádio era um artigo de luxo. “Quem chegava em casa reparava que a gente tinha”, conta. Essa não foi a única “modernidade” que viram chegar à cidade. Izolina conta que, na juventude, o meio de transporte era o cavalo. “Quem tinha uma carroça chamava atenção”, afirma. Quando chegou o pri31


meiro carro, a cidade parou. “O primeiro carro que teve foi do Seu Tonico (Antonio Granemann de Souza, primeiro prefeito da cidade), que a mãe uma vez alugou pra ir à Lages, na casa de uns parentes. Não me lembro como era, só que era azul”, recorda. O tempo passou e tudo foi mudando. Mas o casal conta que vive muito bem e feliz em Santa Cecília. Ao relembrar a história, Izolina afirma: “Era tudo diferente, mas a gente não ligava, era a única realidade que a gente tinha”. Hoje olham para trás e percebem as mudanças. Dos oito irmãos, Izolina tem apenas três vivos. E conta que, como eles, é na cidade que pretende terminar seus dias, ao lado de Guinato.

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A VISÃO DO EDUCADOR José Francisco Dalzotto tem uma visão pessimista da educação em Santa Cecília. Às vésperas da aposentadoria como professor, afirma categoricamente: “Somos educados para sermos escravos.” Foram 27 anos de labuta em escolas da cidade, 26 deles no Colégio Estadual Irmã Irene, o maior do município. Emprestou também seus dotes para escolas particulares da região e se consagrou como premiado professor de Física e Matemática. Jamais largou o sítio da família, em que vive até hoje e onde pretende aproveitar a aposentadoria. “Só no Irmã Irene, já faz 26 anos que trabalho. Comecei no Léia (Escola Básica Léia Matilde Gerber). Estou envolvido há 27 na educação aqui”, conta Dalzotto. Seu histórico, diferente do de muitos professores de pequenas cidades do interior, principalmente os de sua época, é extenso. “Fiz três faculdades distintas. Primeiro fiz Ciências Biológicas, depois Matemática Pura. Aí fiz pós em Matemática, depois Física Pura, e, em seguida, pós em Gestão Administrativa Escolar”. Acredita que, para dar o bom exemplo e manter-se atualizado, o professor não deve jamais parar de estudar. Hoje, dá aula de Física no Irmã Irene e na escola particular Maria Imaculada, em Curitibanos. Chegou a lecionar Matemática na universidade. “Mas por uma questão financeira acabei optando pelo colégio particular. Educação é assim mesmo”, afirma, ao salientar que, apenas de escola pública, o educador não consegue sobreviver. A dedicação fez de Dalzotto um professor de referência na região e respeitado nacionalmente. Em 2008, orientou um projeto que foi finalista na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica. “Repeti o feito este ano de novo”, conta, com orgulho. Em 2011, o aluno orientado por Dalzotto voltou a ficar entre os 40 melhores em uma competição que reúne 900 mil estudantes brasileiros. “Pela primeira vez, uma escola que não é militar conseguiu repetir o feito”. Ele também foi responsável por fazer o Colégio Estadual Irmã Irene receber prêmio de destaque em todas as edições da Feira de Matemática de Santa Catarina entre 1998 e 2006. Parou de participar quando se tornou difícil conciliar o cargo de diretor da escola e professor, mas 35


guarda na memória tudo que foi conquistado durante aqueles anos. “Na verdade, isso não te traz retorno financeiro, mas a compensação de um ideal cumprido, um objetivo alcançado”. Na casa em que mora, no sítio, tem tudo guardado. Num espaço destinado às pesquisas, estão a maquete de uma usina termoelétrica, de uma usina eólica, de uma hidrelétrica, entre outros trabalhos desenvolvidos com alunos que até hoje estão na memória do educador. Foi um histórico de batalha em sala de aula, mas hoje, aos 53 anos, mostra certa desilusão ao falar da profissão. “A educação nunca foi prioridade e nunca será. É de interesse dos governantes formar escravos. Aqui em Santa Cecília é isso que acontece. Precisam manter o povo na ignorância para que aceitem as condições subumanas oferecidas ao trabalhador daqui”. São quase três décadas que embasam o que diz. “Aqui o que acontece é o seguinte: não existe política pública, tudo é feito por interesse. São meia dúzia de pessoas que querem o poder e se mantêm no poder a qualquer custo. A qualidade de vida da população é o que menos importa”, opina. Esta situação, para ele, só poderia ser revertida com educação. “Mas não vai acontecer enquanto estiver na mão do governo. A população vê isso acontecendo e não reage”. São 27 anos de espera. Quando iniciou a carreira na educação, Dalzotto esperava que a educação, um dia, se tornasse prioridade. Ainda não é. Desiludido, apesar de tantas conquistas, planeja deixar as salas de aula e se dedicar à família. “Eu estou a um passo da aposentadoria por tempo de serviço. Acho que agora está na hora de eu dar uma acalmada e cuidar da minha vida pessoal, porque você se entrega. Eu sou pesquisador, gosto de ver a coisa fluir, saber como funciona. Quando eu colocava uma coisa na cabeça, que eu tinha que fazer um invento para o cara entender o que está acontecendo, eu trabalhava até conseguir explicar. Isso demandava muito tempo”. O fascínio pela Matemática e pela Física, pelo modo como as coisas funcionam, por poder colocar na prática aquilo que muitos professores optam por explicar com o giz no quadro negro, foram as motivações de Dalzotto. Ele mesmo sabe que deixar a sala de aula até pode ser 36


fácil, mas abrir mão da pesquisa não será. “Mas a gente define prioridades e preciso relaxar um pouco”. O local para o descanso já está pronto há muito tempo. É o sítio de sua família, em que sempre viveu e planeja viver até o fim dos seus dias. Lembra que já recebeu muitas propostas pra se mudar de Santa Cecília e dar aula em outras cidades. “Mas não tem como deixar isso aqui, é um pedaço da história da gente”. De fato, é. Para se ter uma ideia, a grande porta verde usada na cozinha da casa de Dalzotto já foi usada na antiga igreja matriz de Santa Cecília, que fica perto dali, morro acima. “O prédio era todo de madeira e, depois de reformado, a porta veio parar aqui”. Mais do que um marco histórico da cidade, a porta mostra a participação da família na construção da paróquia. Colocada ali, na cozinha, onde todos que entrarem na casa possam ver, mostra também o evidente amor de Dalzotto pela cidade, que não largou apesar das decepções. “Eu poderia sair daqui e ir para outro lugar, mas os problemas enfrentados na educação seriam os mesmos. Aqui, pelo menos pude criar meus filhos com conforto e tranquilidade”, diz, sabendo que os tempos mudaram, e a tranquilidade de outrora não é mais característica da pequena cidade do interior. Aproveita para contar que a aposentadoria não será sinal de que o velho pesquisador parou: “Meu filho logo entra na faculdade e quer estudar Engenharia. Me pediu para ir junto, fazer algum curso nessa área. Quem sabe, né?” E ele não convence nem a si mesmo de que realmente quer deixar de estudar. “É a alma do professor”.

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“EU NÃO TENHO CALÇAS” No fusca velho, um homem de vasto bigode se apresenta de chapéu, lenço, bombachas e botas. Téia, como é conhecido por todos em Santa Cecília, é, talvez, a figura mais emblemática da cidade. Há quem diga que, “da BR-116 para lá, é tudo Rio Grande do Sul”. Se fosse verdade, Téia seria o grande representante gaúcho no município. Porém, aquele que poderia ser um gaúcho que nasceu no lugar errado, é filho da família que deu origem a Santa Cecília. Aos 74 anos, se orgulha de jamais perder o bom humor. Apesar da vida difícil, fala do passado sempre com carinho. Lembra a Santa Cecília da época em que era criança. “Era capoeirada, mato. O que não era fazendeiro, era agregado”. O pai seguia a tendência e era fazendeiro. Com ele, o único filho homem aprendeu as lidas do campo. “Trabalhei até os 13 anos”. Depois disso, passou a estudar em Caçador, onde ficou até os 19 anos. Retornou quando o pai, ainda jovem, faleceu. “Ele era meu ídolo”, afirma o filho saudosista. Foi do pai que Téia herdou o figurino. “Ele morreu de bombacha”. Desde então, também evitou outra vestimenta que não fosse aquela que o tornou conhecido. “Eu não tenho calças”, garante. Depois da morte do pai, Téia passou mais alguns anos em Santa Cecília, até que vendeu um terreno e decidiu morar na vizinha Lebon Régis. Isso ocorreu em 1964. Naquele mesmo ano, a família de Marli, de Videira, também passou a morar naquela cidade. Foi lá que o casal, junto há 45 anos, se conheceu. Quem os vê dançando nos bailes que ocorrem na cidade e na região – em todos, até o fim – suspeita que ambos já sabiam dançar antes de se conhecerem e apenas aprimoraram a arte juntos. Téia se apressa em desmentir. “A gente aprendeu a dançar juntos, depois de casados”. As mais de quatro décadas de salão justificam a harmonia do casal na dança. “Esses tempos fomos a um baile em Curitibanos e nos agradeceram pelo show que demos”, conta, rindo. Pais de dez filhos, a harmonia mostrada nos bailes também existe dentro de casa. Em 1970, o casal se mudou novamente. “Voltei para a querência”, explica Téia. Para sustentar a grande família, a vida foi de 39


muito trabalho. “A Marli fez um curso de cabeleireira e eu era técnico em Veterinária. Trabalhei muito tempo no Sindicato Rural, e também sempre tive o sítio. Tinha um gadinho, plantava um pouco”. Teia também se aventurou na política. Em 1976, foi candidato a prefeito, mas não se elegeu. “Perdi por nulidade de voto, por causa do apelido”, justifica. Na cidade, ninguém sabe o verdadeiro nome de Téia. “É Delci José Goetten de Brito, muito prazer”. Depois, elegeu-se vereador e, no pleito de 2008, se tornou vice-prefeito de Santa Cecília. Gosta do contato com a população. “Muita gente me conhece, né. Fica fácil virem até a gente”. Mesmo eleito, decidiu, há pouco tempo, alugar a casa na cidade e ficar morando no sítio. Continua vindo de lá diariamente para atuar na prefeitura. “Mas achei bom ficar lá, poder cuidar de perto das minhas coisinhas. Lá do sítio, consigo ver toda a cidade”. A vida dura também sempre teve diversão. Não há bar tradicional de Santa Cecília que não tenha no estoque uma quantidade razoável de Brahma quente. É a bebida preferida de Téia. “Tomo umas três ou quatro por dia. Nos bailes, tomo umas oito. Mas tem que ser fora do gelo”. Explica que, “profissionalmente”, tem 56 anos de Brahma. “Na verdade são 60, mas os primeiros quatro bebi escondido”, revela. Segundo Téia, o gosto um tanto quanto estranho tem explicação. “No interior, quando comecei a beber, não tinha geladeira. Então tinha que tomar quente mesmo”. Depois, quando a mudança chegou, com geladeira boa e outras cervejas, tentou mudar de hábitos, mas não conseguiu. “Tem que ser quente para sentir o amargo da cerveja”. Chegou a deixar a companheira de décadas de lado há alguns anos, quando descobriu uma úlcera. Naquela época, gostava também de uma cachaça. Mas teve de abandonar o cigarro, o que ele jura que foi a cura para o estômago. “Fumei por 30 anos. Fiz um monte de tratamento, remédio, mas quando larguei o cigarro fiquei bom”. Fusca velho, Brahma quente, bombacha. Goetten, Téia carrega nas veias o sangue dos desbravadores do inóspito sertão catarinense. Na cidade, nasceu, cresceu, teve filhos e netos, e afirma: “Vou terminar meus dias aqui”. 40


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UM HOMEM DE FAMÍLIA Claudino Ceolla carrega na carteira uma pequena foto, antiga, em preto e banco. Nela, aparece uma jovem branca, de sorriso tímido, olhos pequenos meio puxados incrustados no rosto redondo rodeado pelo cabelo curto e encaracolado. No verso da fotografia, está escrita a frase “Para você, este sorriso”, assinada por Lires. A foto tem mais de 50 anos. Foi entregue a ele quando Lires Estefana da Silva, ainda adolescente, jovem de família relativamente abastada, se apaixonou pelo italiano carrancudo e trabalhador. Claudino nasceu e foi criado numa comunidade rural localizada no interior da cidade de Rio das Antas, no Vale do Rio do Peixe. Lires nasceu perto dali. Ele costuma contar que, ainda jovem, com aproximadamente 13 anos, saiu de casa carregando “três patacon”. O sotaque interiorano misturado ao italiano, que aprendeu com os pais, descendentes de imigrantes, o trai ao tentar falar o bom português. Mas não deixa, nem por isso, de contar suas histórias. Patacon, para Claudino, é moeda. Apesar de tantas, nunca disse claramente aos netos como conheceu Lires. Conta que, depois de sair de casa e se instalar em Rio das Antas, trabalhou como caixeiro viajante. Havia sido também homem de confiança de comerciantes locais, e assim ganhou respeito da comunidade. O rosto é sério, e, apesar de refletir profundamente sua personalidade, deixa brechas para o jovem sonhador e festeiro. Com as viagens que a profissão lhe exigia, conheceu muitas mulheres. “Tinha uma namorada em cada cidade”. E vive a vida a contar aos netos – são 12 – as histórias dos bailes, das festas, das viagens de trem, sem nunca se esquecer de salientar as dificuldades vividas naquele tempo. Sossegou. Casou-se com Lires, filha de Adolfo Corrêa da Silva, homem por quem sempre teve grande respeito. Adolfo havia sido prefeito da cidade de Santa Cecília e era influente. Mesmo assim, manteve a humildade até os últimos dias de sua vida. Wirth Bonet da Silva, mãe de Lires, é mulher de quem fala, ainda hoje, carregando grande amizade. Foi mais que sogra, companheira em todos os momentos da vida do casal. 43


Casaram-se jovens, Lires tinha 16 anos. A primeira filha, Tânia Aparecida, nasceu com o auxílio de parteira. Logo nasceu Stelamaris. Em seguida, veio Giovane, que faleceu 4 meses após o nascimento, devido à encefalite. “Nunca vou me conformar”, dizia Lires. Sabia, melhor do que ninguém, a dor de perder um filho. Seu exemplo serviu de consolo para muita gente. Aí veio Claudia Mara, Claudete Cristina e Luiz Adolfo para completar a trupe de nomes compostos. Cada um dos filhos deu ao casal muitos netos, que foram sempre a alegria de Lires. Costumava dizer que aquilo que não pode fazer aos filhos, fez aos netos. Os filhos a acusavam de deseducar. Nunca se importou. Chamava a cada um pelo nome no diminutivo, ou então optava pelo predominante “filhinha” – no feminino porque dos 12, são apenas três homens. Claudino, no entanto, nunca foi assim. Pressionou os filhos para que estudassem. Manteve as meninas em colégio interno e nas boas escolas de Curitiba e Lages, cidades onde o estudo era melhor. Mas digamos que as mulheres da família tinham outros planos. Tânia e Stela gostavam mesmo é de fazer peguinhas na avenida XV de novembro com o carro do pai. Certa vez, Claudino colocou as duas dentro do veículo e as levou para aquela avenida. Disse que queria saber como é que elas faziam. E mostrou, para horror das filhas, que já sabia muito bem o que acontecia por ali. Infelizmente, para ele, a demonstração de pulso firme não funcionou muito bem. Descobriu da maneira mais inusitada possível que Stela fumava. Ela arremessou, de dentro do quarto da casa em que moravam, um cigarro pela janela. Atingiu as costas do pai e lhe queimou a camisa. Apesar do flagrante, tentou negar. Não convenceu. As histórias serviram de exemplo para os netos. Cresceram rindo e ouvindo a importância do estudo e do trabalho. Sua própria trajetória era o mais evidente exemplo. Depois de anos de estrada, Claudino instalou um dos primeiros postos de combustíveis da cidade. Fotos antigas mostram uma solitária bomba de gasolina nas margens da BR-116. O trabalho foi pesado, com Lires ao lado. Há quem se lembre de vê-la grávida, de roupão, vendendo combustível no posto, manivelando, pois não havia energia elétrica na cidade na 44


época. Foram duas unidades: uma no centro e outra na Coletoria Velha, comunidade histórica, berço da fundação da cidade. Os filhos também foram criados no trabalho do posto. Com o tempo, foi possível investir também na agricultura e pecuária. Claudino teve fazendas em que criou gado e plantou os mais variados cultivos que a região permitia. Foram bons tempos, que não duraram para sempre. Em um acidente de carro, Claudino e Lires perderam Tânia, a filha mais velha. Estava em uma festa no Rio Bonitinho, comunidade rural, e na volta para casa, o acidente aconteceu. Lires jamais se recuperou. “Eu ando com muita saudade da Tânia”, dizia, até seus últimos dias de vida. A saudade de uma pela outra hoje já não há. Existe apenas a dos que ficaram, entre eles Claudino. “Todo dia, quando acordo, ando todo o pátio procurando a Lires. Quando percebo que não vou encontrá-la, sento e tomo meu chimarrão”, contou certa vez. As andanças pelas árvores e roseiras cultivadas pela mulher, que havia falecido há quatro meses, creio que continuam. Certas coisas nunca morrem. Claudino continua o mesmo homem forte de sempre. Vive dando sustos na família. Certa vez, na fazenda, ajudava a pegar um touro. O animal avançou sobre ele, que subiu em uma mangueira alta e de lá caiu. Costelas e ombro quebrados foram o saldo da ousadia. Questionado sobre quantos anos tinha para fazer aquele tipo de tarefa, respondeu “tenho idade suficiente para trabalhar”. Entre chiados do pulmão ferido e a voz fraca, ainda completou a frase: “Ninguém conhece meu gado melhor do que eu”, com aquele sotaque de sempre. O que pode parecer prepotência, na verdade é a vida de um homem que precisou confiar em si mesmo antes de poder confiar em alguém. Ensinou isso aos seus descendentes. “Amigo de verdade, a gente tem um só”, diz aos netos. E insistiu para que nunca dependessem de ninguém além de si mesmos. Outros bons exemplos, nem sempre seguidos e nem verdadeiros, foram dados. “O vô nunca fez um porre”, afirmava, cada vez que exagerava na cerveja. Essa, aliás, só não é mais companheira do que o vinho que diariamente o acompanha nos almoços. Tem também “um uisquezinho pro vô”. E a cachaça quente num copo de geleia. 45


Arruma as mais variadas desculpas para poder tomar seus golinhos não recomendados pelo médico. Um dia, viu na TV que tomar vinho faz bem para o coração. Outra vez, leu no jornal que a cerveja é boa. Já que está escrito, por que não? Hoje, sente que precisa parar de assinar jornal. “Já não consigo mais ler”. Mas dirigir consegue. E ai de quem diga o contrário. Se o carro aparece batido, o portão arranhado, sempre há um culpado que não é ele. São poucos os que ainda ousam discutir. Os que tentam, saem perdendo. Aposentado, sem os postos e com apenas uma fazenda, agora passa mais tempo em casa. Lires reclamava. Começou a se meter nas tarefas domésticas, na cozinha, e sempre teve, em tudo, um pitaco para dar. Sábia era ela que, com os anos, aprendeu a ignorar. Para os outros, ainda se trata da uma peleia difícil, que ele promete que vai durar. “Acho que vivo mais uns dez anos”, disse, às vésperas de entrar na casa dos 80. Duvidar dele é ousadia de poucos. Já não é mais o homem durão de outros tempos. Hoje, cada vez que fala do passado, por vezes precisa cortar as frases. Olha para o nada, parecendo ver, em sua frente, acontecimentos registrados na memória. Já não esconde mais as lágrimas. Ergue os óculos, mostra os olhos azuis, enxuga e volta a falar. Não é porque são tristes ou nostálgicas que devem deixar de ser contadas. Exclama um “barbaridade” quando o peito aperta e segue adiante. Sempre. “Por que a vida nunca foi fácil”.

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AGRADECIMENTOS Aos meus pais, Stelamaris Ceolla e Gilberto Bueno de Moraes. A ela por ter sido mãe, amiga e editora. E ele, pela paciência, força e apoio. Aos dois por serem meus melhores amigos. Ao meu irmão, meus avós, tios e primos, por serem a minha base, meu porto seguro. Aos colegas de trabalho, de hoje e de ontem, pelo apoio e confiança, por me lembrarem, sempre, que sou capaz. Àqueles que se tornaram amigos e os que sempre foram. Aos entrevistados, que abriram suas vidas para dar origem aos perfis publicados nesta obra. À Luana Portella, que diagramou este livro, e à minha orientadora Laura Seligman, pela liberdade e por me mostrar que sempre é possível melhorar. Em especial a minha avó, Lires Estefana da Silva Ceolla, a minha tia Tânia Ceolla Gaudêncio e a minha Alice Ceolla de Moraes Rodrigues, por transformarem a saudade e o amor em inspiração.

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