Page 129

Caderno

Crítico

Para responder à angústia de Dante, São Tomás relata a vida de Francisco que, nos versos 52/54, é apresentado como nascido de um raio de sol (não diga Assis... mas diga Oriente) e, depois de descrever com toda a beleza de forma e linguagem a ruptura com seu pai, nos é relatado o casamento de Francisco, com a viúva naquele momento com mais de mil anos, por todos desprezada e por ninguém mais até ali amada. Ela era a mulher de Cristo, que com ele subiu à cruz, enquanto Maria a seu pé permaneceu. Quem era essa mulher? E Tomás nos esclarece: era a Pobreza. Francisco unira-se em um profundo relacionamento com a Pobreza, a quem somente Cristo desposara. Referindo-nos uma vez mais a Auerbach, a luta de Francisco não se traduzia simplesmente pela recusa aos bens familiares, mas por uma luta para alcançar aquilo que mais desejava e amava: a Pobreza em nome do Amor. O movimento franciscano foi o mesmo de Cristo em sua história: a união com a Pobreza. Neste ponto, concluímos com Auerbach que “toda história do mundo depois de Cristo está, para Dante, contida na imagem do noivo, que vai ao encontro de sua bem-amada”. A vida de Francisco, narrada indiretamente para destacar sua missão, apresenta-se como um modelo real, de alguém que historicamente imitou Cristo. Este modelo não é simplesmente ideal ou moral, ele se concretizou no mundo, como objeto de uma procura esforçada, como uma investigação, como uma busca real. Há a superação de uma essência contemplativa, para o alcance prático de uma conduta, para a realização de uma práxis direta e imediatamente fundada na vida. É a existência que permite a imitação do modelo; não se supera a realidade, vive-se intensamente nela e dela. É no decorrer da vida que se concretiza a lição real de São Francisco. Para Auerbach, o leitor medievo tinha consciência deste modo de leitura, denominado de interpretação figural. É o leitor moderno que precisa do suporte da pesquisa para compreendê-lo. Neste momento, procuramos ir um pouco além do ensaísta alemão para cumprir a tarefa a que nos propusemos. Para o leitor contemporâneo, nesta época pós-moderna, em que a racionalidade é o único pressuposto de qualquer práxis, de qualquer vínculo social ou moral, como poderia ser aproveitada a lição de Dante? Como vimos, embora rica em sua metafísica, a concepção de Dante exige uma prática real, um exercício empírico da vida de Francisco, da mesma forma como ele a viveu. Mas o que seria hoje casar-se com a Pobreza? Em que lugar esta viúva poderia ser encontrada? Largar tudo, viver na miséria, seria a solução para uma sociedade pós-industrial, mediada por uma economia de mercado? Dante certamente jamais chegou a pensar num modelo social moderno, mas os grandes autores têm o condão de, lembrando Ítalo Calvino, nunca terminar de dizer aquilo que tinham a dizer e que devem ser lidos para entendermos quem somos. Por trás da alegoria do casamento com a Pobreza, o que há? O Amor. Cristo desposa a Pobreza por Amor e desta união decorre também Amor. Celuzlose 08 • Dezembro 2011 129

Profile for Victor Del Franco / Poeta e Editor

Celuzlose 08  

Revista Literária

Celuzlose 08  

Revista Literária

Profile for celuzlose
Advertisement