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O que surgiu primeiro em sua formação, a poesia ou a música? Ou foi um processo simultâneo? Como ocorreu a sua aproximação com essas formas de linguagem?

“Em todos os casos, creio que o poeta deve agir como um músico da linguagem, alguém que também faz música com as palavras, mesmo que não tenha acompanhamento musical.”

Então é possível dizer que no momento em que você escreve um poema, você já pensa em como musicá-lo? O texto e a melodia caminham juntos ou, em alguns casos, a música vem antes do poema? Como um organismo vivo, feito de linguagem, cada canção ou poema é resultado de um processo único, irrepetível. Há poemas que foram musicados, meus mesmo ou de outros, como "O Assinalado" de Cruz e Souza (transformado num blues de vestimenta clássica) ou "Pariso", de Leminski. Criar uma canção foi o modo como homenageei ou confessei meu amor a estes poemas. É minha interpretação ou tradução deles também. Certos poemas já possuíam uma levada rap (que significa ritmo e poesia), como "New York" ou jazzísticas, como "A Solidão". Foram consequência direta de apresentá-los em público. Há poemas que viviam perfeitamente bem sozinhos, como "Quaderna", que certo dia, no fim do ano passado, deitado no escuro em uma sala de ensaio, percebi estar cantando o poema. A partir deste momento, virou canção, uma outra coisa. No caso de traduções, como "O Navegante", do anglo-saxão anônimo, a música criada (bordões no violão com reminiscências celtas, o som das ondas de um ocean-drum, mais efeitos de teclado) serve para ser uma ode paralela à música das palavras do poema, um componente que agrega dramaticidade e poeticidade, tornando-o evento, e que remonte, a propósito, a tradição bárdica que nos legaram os anglosaxões. Já há casos em que tenho a melodia e ao mesmo tempo uma imagem, uma ideia, uma cena de filme, como "Vertigo", de Hitchcock, junto com a associação de uma cena do poema "Ismália", e isso suscita um cenário para a construção de uma canção, como é o caso de "Vertigem". Em todos os casos, creio que o poeta deve agir como um músico da linguagem, alguém que também faz música com as palavras, mesmo que não tenha acompanhamento musical. 06 Celuzlose 06 - Setembro 2010

Foto: R.G. Lopes

Difícil precisar. Creio que foi a canção, as canções de ninar, as ladainhas, os trava-línguas, os jogos de linguagem. Creio que a criança entra na linguagem através da magia, da brincadeira, do ordinário tornado extraordinário. Desde que me lembro por gente, lembro-me de estar escrevendo. Prosa, histórias. A poesia veio um pouco depois, aos 15 anos, com Eliot, Pound, Rimbaud, Whitman, Drummond, Leminski. Sempre ouvi e li muito, tentando sempre coisas novas, instigantes. O violão, aprendi aos 11 anos, pelas mãos de uma tia-avó. Só depois é que fui amadurecendo a ideia de que as duas poderiam ser usadas para criar. Poesia e música são artes siamesas, as duas. Às vezes, nem sei se há tanto a diferenciação entre letra de música e poesia (arte da palavra) e música (arte dos sons). Que o diga Arnaut Daniel ou Paul McCartney.

Celuzlose 06  

Revista Literária

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