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BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

PANDORA (primeira parte do poema) 1. Eu quero reencontrar a minha boca para falar de ternura ou mesmo de água, se for preciso e dizer vejam o meu umbigo como treme. Muitos homens me têm como virulenta quando, por muitas vezes, me descarnei com pedaços de madeira verde para salvar criancinhas ou mesmo para conter as suas dores que se deslocavam pelos seus dedos. Pelas minhas imprecações julgam-me perversa quando o mais que faço é proteger os meus dentes. Por que não tocam os meus seios que amamentaram tantos homens e ainda se mantêm inteiros como se fossem sequência do meu rosto? Se naquilo que eu faço não há bondade, deem-me então os seus conselhos. Devo deixar que os meus inimigos me matem ou torturem a minha vagina? Não me tenham como indigente, morta ou mesmo sem língua. Não há nenhuma mulher que se iguale a mim nem mesmo aquela que anda com pescoço de touro e mãos de buracos de cabra. Eu sei calcular as horas e por onde andam a lua e os animais infantis. Eu beijo as patas dos cavalos e suas cabeças e não há loucura em mim. Digam-me quais são os cegos que enxergam o horizonte? Digam-me os seus nomes para que eu lhes murche a vida. Não me tenham como inimiga ou mesmo incendiária. Ponham-se sobre as janelas para que eu contemple os seus mamilos expostos na paisagem.

Celuzlose 06 - Setembro 2010 25

Celuzlose 06  

Revista Literária

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