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celuzlo se Revista

Literรกria

06 ~ Setembro 2010


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Índice

Entre ? ! vista

Rodrigo Garcia Lopes

BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

Ademir Demarchi Adriano Lobão Aragão Beatriz Bajo

34

Celso de Alencar Eduardo Jorge Micheliny Verunschk

GEO

18

Literatura sem Fronteiras

Jesús Ernesto Parra (Venezuela) Julien Burri (Suíça)

Caderno

Nicole Cristofalo Wanderson Lima

Melcion Mateu (Espanha) Pedro Granados (Peru)

42

Crítico

Breve história da literatura basca - por Fábio Aristimunho Vargas

Edson Cruz (Organizador) André Ricardo Aguiar

BIO

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O que é

?

?

52

poesia?

Lau Siqueira Linaldo Guedes

60

Vida & Obra

Lorenzo de´ Medici - por Dirceu Villa

74

LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

Guto Lacaz

celuzlo se # 06 ~ Setembro 2010 Expediente Editor: Victor Del Franco Projeto Gráfico, Diagramação e Revisão: Victor Del Franco

02 Celuzlose 06 - Setembro 2010

Colaboraram com esta edição: Ademir Demarchi / Adriano Lobão Aragão André Ricardo Aguiar / Beatriz Bajo Celso de Alencar / Dirceu Villa Edson Cruz / Eduardo Jorge Fábio Aristimunho Vargas / Guto Lacaz Jesús Ernesto Parra / Julien Burri Lau Siqueira / Lev Vidal / Linaldo Guedes Melcion Mateu / Micheliny Verunschk Nicole Cristofalo / Pedro Granados Prisca Agustoni / Rodrigo Garcia Lopes Wanderson Lima

Contato: celuzlose@gmail.com

Os textos e imagens desta revista poderão ser usados para fins não comerciais, desde que sejam citados os nomes dos autores, o nome da revista e o link correspondente.


Editorial Música da linguagem Uma questão que sempre está em pauta entre aqueles que apreciam a escrita poética e a música é tentar definir ou entender a relação que existe entre o poema e a letra de música. Recentemente, o filme-documentário Palavra (En)Cantada (http://www.palavraencantada.com.br) direcionou suas lentes para essa discussão ao registrar os depoimentos de diversos poetas e compositores. Na entrevista desta edição, Rodrigo Garcia Lopes coloca um ingrediente a mais nessa conversa: “Em todos os casos, creio que o poeta deve agir como um músico da linguagem, alguém que também faz música com as palavras, mesmo que não tenha acompanhamento musical”. Em 2009, o poeta e tradutor Fábio Aristimunho Vargas lançou uma antologia da poesia espanhola em quatro volumes, a saber: Poesia galega, Poesia espanhola, Poesia catalã e Poesia basca. No entanto, um pouco antes do lançamento da antologia, ele fez um estudo histórico da poesia basca e aqui apresentamos uma adaptação desse estudo que desenvolve um panorama da literatura basca desde a sua origem até os dias de hoje. Completando a presente edição, temos uma série de poemas visuais e poemas-objeto com o sutil e inusitado humor do artista plástico Guto Lacaz. Boa leitura. Victor Del Franco Editor

Celuzlose 05 Clique aqui a para ler a 5 edição http://issuu.com/celuzlose/docs/celuzlose_05

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Foto: Carlos Bozelli

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Rodrigo Garcia Lopes 04 Celuzlose 06 - Setembro 2010


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z v o o ice voc v ea x i v o o ce p v olivox

Poeta, escritor, tradutor, compositor e também é um dos editores da revista Coyote. Em 2001, lançou Polivox, seu primeiro CD e, atualmente, prepara outro CD com previsão de lançamento ainda neste ano de 2010. Entre alguns de seus livros estão: Solarium (Poesia, 1994), Nômada (Poesia, 2004), Vozes e Visões (Entrevistas, 1996) e Folhas de Relva (Tradução, 2004). Mantém o blog Estúdio Realidade (http://estudiorealidade.blogspot.com). Nesta entrevista são abordados temas como a relação entre poesia e música, a preparação do novo CD, o seu trabalho de tradutor e o período em que morou e fez mestrado nos Estados Unidos.

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O que surgiu primeiro em sua formação, a poesia ou a música? Ou foi um processo simultâneo? Como ocorreu a sua aproximação com essas formas de linguagem?

“Em todos os casos, creio que o poeta deve agir como um músico da linguagem, alguém que também faz música com as palavras, mesmo que não tenha acompanhamento musical.”

Então é possível dizer que no momento em que você escreve um poema, você já pensa em como musicá-lo? O texto e a melodia caminham juntos ou, em alguns casos, a música vem antes do poema? Como um organismo vivo, feito de linguagem, cada canção ou poema é resultado de um processo único, irrepetível. Há poemas que foram musicados, meus mesmo ou de outros, como "O Assinalado" de Cruz e Souza (transformado num blues de vestimenta clássica) ou "Pariso", de Leminski. Criar uma canção foi o modo como homenageei ou confessei meu amor a estes poemas. É minha interpretação ou tradução deles também. Certos poemas já possuíam uma levada rap (que significa ritmo e poesia), como "New York" ou jazzísticas, como "A Solidão". Foram consequência direta de apresentá-los em público. Há poemas que viviam perfeitamente bem sozinhos, como "Quaderna", que certo dia, no fim do ano passado, deitado no escuro em uma sala de ensaio, percebi estar cantando o poema. A partir deste momento, virou canção, uma outra coisa. No caso de traduções, como "O Navegante", do anglo-saxão anônimo, a música criada (bordões no violão com reminiscências celtas, o som das ondas de um ocean-drum, mais efeitos de teclado) serve para ser uma ode paralela à música das palavras do poema, um componente que agrega dramaticidade e poeticidade, tornando-o evento, e que remonte, a propósito, a tradição bárdica que nos legaram os anglosaxões. Já há casos em que tenho a melodia e ao mesmo tempo uma imagem, uma ideia, uma cena de filme, como "Vertigo", de Hitchcock, junto com a associação de uma cena do poema "Ismália", e isso suscita um cenário para a construção de uma canção, como é o caso de "Vertigem". Em todos os casos, creio que o poeta deve agir como um músico da linguagem, alguém que também faz música com as palavras, mesmo que não tenha acompanhamento musical. 06 Celuzlose 06 - Setembro 2010

Foto: R.G. Lopes

Difícil precisar. Creio que foi a canção, as canções de ninar, as ladainhas, os trava-línguas, os jogos de linguagem. Creio que a criança entra na linguagem através da magia, da brincadeira, do ordinário tornado extraordinário. Desde que me lembro por gente, lembro-me de estar escrevendo. Prosa, histórias. A poesia veio um pouco depois, aos 15 anos, com Eliot, Pound, Rimbaud, Whitman, Drummond, Leminski. Sempre ouvi e li muito, tentando sempre coisas novas, instigantes. O violão, aprendi aos 11 anos, pelas mãos de uma tia-avó. Só depois é que fui amadurecendo a ideia de que as duas poderiam ser usadas para criar. Poesia e música são artes siamesas, as duas. Às vezes, nem sei se há tanto a diferenciação entre letra de música e poesia (arte da palavra) e música (arte dos sons). Que o diga Arnaut Daniel ou Paul McCartney.


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Em 2001, você lançou o seu primeiro CD, Polivox, e agora está com planos para a gravação e lançamento do segundo CD. Você já pode adiantar algo sobre esse novo trabalho? Quero lançar, neste ano ainda, meu segundo CD. Já tenho material mais do que suficiente, mas dessa vez seriam apenas canções. Ao contrário de Polivox, que misturava canções, poemas falados e poemas sonoros ou com trilha, dessa vez quero apresentar apenas músicas inéditas e duas instrumentais. Será um disco gravado de maneira concisa, com base na voz e violão, e com alguns colaboradores nos arranjos e participações especiais. São músicas que ficaram de fora de Polivox ou compostas desde então, como "Quaderna", "Vertigem", "Fugaz", ou ainda parcerias antigas, como "Iluminações", com Bernardo Pellegrini, ótimo poeta e compositor de Londrina, e "Planetário", com Maurício Arruda Mendonça. A tradução acaba entrando de alguma forma, pois há também dois clássicos da canção americana, na minha versão.

2 poemas musicados do CD Polivox

A solidão

O assinalado

http://www.youtube.com/watch?v=ANV1_H7oGJA

http://www.youtube.com/watch?v=WQBOFnTRHMc

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Por falar em tradução, você possui um trabalho bastante consistente nesta área e já traduziu poetas com estilos bem diferentes como Sylvia Plath, Rimbaud e Walt Whitman. Você também está preparando traduções de Apollinaire. Gostaria que você falasse um pouco do seu trabalho de tradutor e, também, a partir de que momento você começou a se interessar pela poesia destes autores? Eles influenciaram, de alguma forma, a sua criação poética?

Foto: Jacqueline Sasano

A tradução, seguindo a dica de Pound, sempre foi um laboratório de aprendizado e pesquisa com a linguagem. Comecei a traduzir na mesma época em que comecei a escrever, e isso é curioso. A ideia depois, quando passei a encarar a tradução como uma atividade de crítica e criação literária, foi me concentrar, além das traduções isoladas, na obra completa de um determinado autor, e que esse autor tivesse importância fundamental para a arte da poesia em nosso tempo, casos-limite, digamos. Começamos, eu e Maurício Mendonça, com Sylvia Plath e, na sequência, foram as Iluminations de Rimbaud (seguido de um extenso ensaio). De-

pois, encarei a modernista Laura Riding, que levou a poesia a uma crise tamanha que a fez abdicar e renunciar a sua criação poética no auge da carreira. Em 2004, veio o desafio de traduzir outro marco da poesia contemporânea, Folhas de Relva, de Walt Whitman, que me consumiu dois anos de trabalho. Depois, sempre na linha de Pound, me debrucei sobre aquilo que é considerado velho para resgatar o novo em um poema antiquíssimo como "The Seafarer", do legado anglo-saxão (trabalho que me tomou um ano). E estou preparando mais um volume de traduções, mas creio que a tendência agora é dedicar-me mais e mais a minha obra, à poesia e à prosa, como o romance policial-histórico que acabo de terminar. Todas as soluções que a prática tradutória me fornece eu acabo incorporando, consciente ou inconscientemente, à minha poesia. Minhas escolhas tradutórias são testemunhas de minhas escolhas estéticas que, devo dizer, são bem ecléticas. E tentei aprender novos modos de escrever e novos modos de perceber através dos autores que traduzi. Eu não privilegio um procedimento sobre outro: tudo que excite novos insights sobre a arte da palavra me interessa.

“Todas as soluções que a prática tradutória me fornece eu acabo incorporando, consciente ou inconscientemente, à minha poesia.” 08 Celuzlose 06 - Setembro 2010


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SEMPRE Para Madame Faure-Favier

Sempre Iremos mais longe sem nunca avançar E de planeta em planeta De nebulosa em nebulosa O Don Juan dos mil e três cometas Mesmo sem sair da terra Busca energias inéditas E leva a sério os fantasmas E tantos universos esquecidos Cadê os mestres em esquecer Quem vai nos fazer esquecer essa ou aquela parte do mundo Cadê Cristovão Colombo a quem devemos o esquecimento de um continente Perder Mas perder de verdade Dar lugar à sorte grande Perder A vida pela Vitória

(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes) TOUJOURS A Madame Faure-Favier

Toujours Nous irons plus loin sans avancer jamais Et de planète en planète De nébuleuse en nébuleuse Le don Juan de mille et trois comètes Même sans bouger de la terre Cherche les forces neuves Et prend au sérieux les fantômes Et tant d´univers s´oublient Quels sont les grandes oublieurs Qui donc saura nous faire oublier telle ou telle partie du monde Où est le Christophe Colomb à qui l´on devra l´oubli d´un continent Perdre Mais perdre vraiment Pour laisser place à la trouvaille Perdre La vie pour trouver la Victoire

(Apollinaire)

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Fale um pouco sobre o seu romance policial. Já existe alguma previsão de lançamento? Preferia não falar muito disso, pois, afinal, é um romance de mistério. Há cinco anos de pesquisa envolvida e três anos de trabalho, no mínimo. É um romance policial-histórico e se passa numa década do século passado. Fiquei bem envolvido com a escrita deste livro que começou a germinar em minha cabeça em 2004, por aí, através de conversas que eu tinha com o Maurício Arruda Mendonça que seria meu parceiro neste projeto, mas acabou desistindo. Posso dizer que, desde que voltei dos EUA, três anos depois de morar lá, dando aula de português na Universidade da Carolina do Norte, estou morando dentro desse livro. Em 2009, passei uma boa parte do ano isolado numa praia de Florianópolis para poder me dedicar ao livro 24 horas por dia. Nunca havia, que eu me lembre, escrito narrativa, tenho talvez uns dois contos. Então, ir do jornalismo, da linguagem ensaística, da tradução e da prática específica da poesia para a prosa, o romance, e ainda mais um gênero com tantas convenções e idiossincrasias, foi como se eu estivesse aprendendo a escrever de novo. Foi um projeto muito importante. Nesse momento, 6 leitores especialíssimos estão fazendo a leitura do texto e quando esses originais caírem de novo na minha mão, farei a redação final. O livro possui mais de 350 páginas. Depois, inicia-se o périplo atrás de uma boa editora. Você comenta sobre o período recente em que morou nos EUA dando aulas de português, no entanto, você já esteve nos EUA em outra oportunidade, no início dos anos 1990. Nessa ocasião, você realizou diversas entrevistas com poetas, músicos e artistas norte-americanos e isso resultou na publicação do livro Vozes e Visões. Gostaria que você falasse sobre essa experiência americana. Como foi a sua aproximação com os entrevistados? Houve muita dificuldade nesse processo? Minha primeira temporada nos EUA foi de 1990 a 92 quando, com uma bolsa de jornalismo do Rotary, comecei a fazer Mestrado em Humanidades Interdisciplinares na Arizona State University. Foram dois anos muito ricos, a convivência universitária, a experiência americana, 10 Celuzlose 06 - Setembro 2010

como eu chamo. Meu mestrado foi sobre a literatura e o pensamento de William S. Burroughs. Sempre tive fascínio pela arte e cultura norteamericanas, e a poesia beat sempre foi um referencial ex-cêntrico. Já saí do Brasil apalavrado com o Samuel Leon, da Iluminuras, com a ideia de fazer um livro de entrevistas com feras da cultura americana. Bem, outra motivação foi a feliz coincidência da Universidade do Arizona ter comprado, uns dois anos antes, uma coleção preciosíssima e especial de manuscritos, cartas, originais, filmes e muitas outras coisas de William Burroughs. Nestes dois anos, entrevistei várias personalidades da cultura e da arte norte-americanas pelas quais tinha uma admiração desde sempre. Entrevistei William Burroughs, John Ashbery, Laurie Anderson, Stan Brakhage, Nam June Paik, Allen Ginsberg, Meredith Monk, Lawrence Ferlinghetti, entre outros. Foi uma oportunidade única para mim, trocar ideias e ter o contato vivo com a inteligência e sensibilidade destes artistas. Viajei pelos EUA para entrevistá-los. Depois estas entrevistas foram publicadas com destaque nos cadernos Mais e Letras, da Folha de S.Paulo e no Caderno 2 do Estadão. Aprendi muito com esta experiência. Não tive dificuldades em realizar as entrevistas. Alguns nomes com os quais eu já havia marcado a entrevista, como Frank Zappa, tiveram de cancelar, no caso deste último por motivo de doença. Eu conto os bastidores de algumas entrevistas do livro, você poderia citá-las. A dificuldade maior foi na volta, quando, sem emprego de novo, me deparei com duas caixas de sapatos cheias de fitas preciosas. Deu-se uns 4 anos transcrevendo as fitas, editando, traduzindo, organizando os textos introdutórios etc. Um trabalho que se requer muito, muito tempo.

Trechos dos bastidores de duas entrevistas feitas por Rodrigo Garcia Lopes e que foram publicadas no livro Vozes e Visões (Iluminuras, 1996)


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Durante a realização do livro, aconteceram vários momentos curiosos. Eu estava em Nova York para entrevistar, entre outros, o vídeomaker Nam June Paik. Conforme combinado, liguei ao meio-dia e, pela vigésima vez, deixei recado na secretária eletrônica. Minutos depois, ele ligou: “Acabei de chegar da Alemanha. Estou cansado. Mas está tudo certo, vamos marcar a entrevista para as três”, ele disse, num inglês macarrônico. “Ok”, respondi. “Daqui a três horas estou aí”. E Paik, do outro lado da linha: “Não, é às três da manhã!”.

Outra experiência foi com Allen Ginsberg, cujo depoimento eu considerava fundamental. Por sugestão dele, combinamos por três vezes a entrevista em Tucson, sul do Arizona, onde ele participaria de um festival anual de poesia organizado pelos estudantes da universidade local. Depois da performance e do workshop, aproximei-me do bardo beat e me apresentei. Ele disse simplesmente que não se lembrava de nada. Refresquei sua memória mas, infelizmente, eu havia esquecido meus álibis, os cartões-postais em que combinávamos o encontro. Ginsberg me olhou com um ar estranho, o olho esquerdo levemente paralisado, e disparou alguns palavrões. Depois fez que não era com ele. Pensei comigo: “Esse cara vai me dar essa entrevista de qualquer jeito”. No outro dia, convenci Ginsberg de que nós realmente havíamos combinado uma entrevista e ele topou. O começo rolou num velho Volkswagen branco dirigido por um hippie new age, costurando o cenário lunar de Tucson. Durante a entrevista, já na casa de um dos organizadores, Ginsberg parecia outra pessoa. Para provocá-lo, perguntei sobre como ele se sentia quando dizem que ele foi institucionalizado pelo sistema. Ele respondeu na lata: “De certa forma, isso é verdade. Eu sou os Estados Unidos da América!”.

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Em meados dos anos 1980, você publicou uma série de poemas que tinham a influência do zen-budismo. No entanto, esses poemas receberam a autoria de um heterônimo, Satori Uso, um poeta que veio morar no Brasil nos anos 1950. Posteriormente, a vida deste poeta foi transformada em um curta-metragem que foi premiado no Festival de Gramado em 2007. Gostaria que você contasse um pouco sobre a origem e a trajetória deste poeta-heterônimo. Além disso, é possível traçar um paralelo entre a “vida e obra” de Satori Uso e Araki Yasusada? Em 1985, eu editava uma página literária dominical na Folha de Londrina. Acabava de voltar da Europa, estava muito influenciado pelo zen-budismo e pela poesia oriental. Eu queria muito publicar esses novos poemas, que pareciam refletir uma outra personalidade além da minha. Como achei que seria antiético publicar meus poemas na página que eu mesmo editava, resolvi criar um heterônimo. Em japonês, satori quer dizer iluminação, uso é mentira, mentiroso. Satori Uso seria então uma "falsa iluminação". Londrina é uma cidade que possui uma grande colônia japonesa, por isso me pareceu verossímil, um lugar onde temos, inclusive, reuniões de haikaístas, grupos de haikais. Tanto que muita gente da colônia acreditou que o poeta tivesse realmente existido e estão o procurando até hoje. Folheando um livro de uma artista plástica nipo-brasileira, achei uma foto em P&B de um velhinho de boina tomando missô. Olhei e pensei: eis o Satori Uso! A página foi publicada na Folha de Londrina uma semana depois da "morte" de Satori Uso (1925-1985). Ou seja, o poeta já nasceu morto e com a intenção de divulgar minha própria obra. No texto de apresentação, criei toda uma biografia para ele. Entre outras coisas, que ele teria participado da vanguarda japonesa e imigrado para a Califórnia no fim dos anos 1950, onde virou amigo dos beats e mergulhou no jazz e na cultura americana. Daí ele recebeu um convite da família Akiro para imigrar para o Brasil e trabalhar no sítio da família no norte do Paraná. Na viagem de navio ele perdeu toda sua obra. Passou a ser uma pessoa calada e cada vez mais misteriosa, um poeta das sombras. Até que ele foi descoberto por alguns poetas nipo-brasileiros e o sítio virou um point de peregrinação. Satori era desprendido das coisas. Sua obra foi literalmente coligida, pois escrevia seus haikus em tiras de papel que ele jogava fora imediatamente após escrevê-los. Os discípulos literalmente recolhiam seus poemas pelo chão. Acho que além de criar uma personalidade poética, houve este interesse em ajudar a criar um espaço ficcional para Londrina, uma cidade bastante nova, ajudar a construir um imaginário. Isso foi em 1985. Sobre o Yasusada, conheci a polêmica envolvendo esta "invenção" de Kent Johnson em algum momento da metade dos anos 1990, o livro supostamente escrito pelo suposto poeta saiu em 1996, se não me engano, e claro que achei as coincidências bastante óbvias, até mencionamos essas coincidências em vários e-mails quando eu o entrevistava para a revista Coyote. Uso e Yasusada são irmãos no universo da heteronimia.

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A revista Coyote lançou recentemente a sua vigésima edição e já é uma referência em termos de revistas literárias no Brasil. Gostaria que você falasse sobre o trabalho editorial da Coyote. Quais as maiores dificuldades que foram superadas ao longo destes anos e quais as perspectivas para os próximos anos? Na Coyote somos três editores, Ademir Assunção, Marcos Losnak e eu. Nós nos conhecemos na UEL [Universidade Estadual de Londrina] quando cursávamos jornalismo. Era um ambiente efervescente. A revista era um velho sonho e já havia se manifestado em experiências anteriores, como a Hã e a K'AN. O projeto gráfico, do Losnak, é um dos elementos que dão a diferença da revista. Acho que a Coyote, em quase oito anos de estrada, já se firmou como uma referência cultural, como uma importante revista literária. Tentamos fazer a nossa parte para minorar um problema flagrante na realidade do país hoje: a dificuldade, por parte do leitor comum, de acesso à produção e reflexão de artistas e escritores brasileiros e estrangeiros, principalmente contemporâneos. Ela é feita em Londrina, norte do Paraná, e financiada pelo Programa de Incentivo à Cultura da prefeitura da cidade, com distribuição nacional pela Iluminuras. Em 20 números, a Coyote já publicou centenas de poetas, escritores, fotógrafos, tradutores, artistas gráficos, ensaístas e artistas em geral de Londrina e de vários estados brasileiros (Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul,

Santa Catarina, Minas Gerais, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Bahia, Mato Grosso, entre outros) e de diversos países (Argentina, Uruguai, Cuba, França, Irlanda, Estados Unidos, China, Síria, Peru, Inglaterra, Chile, México, Coreia, Eslovênia, República Dominicana, Romênia e Egito). Nossa ambição sempre foi fazer a revista que gostaríamos de ler. As principais finalidades da publicação têm sido a de revelar novos autores e textos pouco conhecidos, propor outras possibilidades estéticas além das canonizadas pela crítica e pela indústria cultural, bem como tornar-se um polo de aglutinação de escritores: um fórum de ideias e reflexões mas, sobretudo, um espaço de criação. Apesar das dificuldades de distribuição que ainda enfrentamos (nossa ideia é ter, no futuro, um site da revista disponibilizando todos os números) a principal missão da revista Coyote tem sido abrir suas páginas para abrigar escritores inéditos; divulgar obras de escritores mais conhecidos, mas que andam esquecidos; estimular a reflexão crítica através de ensaios e entrevistas; publicar traduções de autores internacionais de modo a ampliar as referências estéticas brasileiras. Outro dado importante é que ela figura, atualmente, entre as raras revistas brasileiras de literatura e arte que atingiram sete anos de atividade ininterrupta. Acredito que, no futuro, se um estudioso ou um leitor curioso quiser saber como era a literatura brasileira produzida no início do século 21, terá em revistas como a Coyote um rico material de investigação.

“nossa ideia é ter, no futuro, um site da revista disponibilizando todos os números” Nas 4 páginas seguintes, poemas de Rodrigo Garcia Lopes. Celuzlose 06 - Setembro 2010 13


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OUTRAS PRAIAS 1 O ar do verão vibrava como imitação que os dedos do maestro regiam, Além, (uma outra palavra para Adeus) E sua ausência imediata, que são próprias das coisas consideradas fora de seus centros; Náufragas, como ilhas dispersas circundadas por tanta Luz, e o mar hibernando o surf das manobras rápidas, radicais, engolindo praias, prises e personas Uma tontura que persiste após o estrondo doce do amor, antes e agora dobrando-se no Tempo Tudo a caminho, tudo rápida passagem, impressões, a textura da areia, seixos ao redor do sexo que é tudo e que sustém em linguagem Viva, a linguagem das marés e dos exercícios estratégicos do vento que uiva às coisas e nomeia lagoas e dunas, uma gíria imaginária O mar da página de jornal, gaivotas bicando lâmpadas à procura de águas vivas, quebrando-se Cristais, & uma visão do vórtex do vir-a-ser distraindo as cores excessivas, todo ornamento inútil, recolhidas em fotografias dinâmicas, e que se revelam lentamente em suas ausências em fuga, como nós, aos pés destas pedras, refletindo-nos na mudança desse poço, em sua condição. O que vemos daqui são gestos que querem o além o reflexo de erras nunca vistas, brisas nunca sentidas, uma viagem sem volta a territórios livres, como nômades detidos no meio de uma tempestade obsessiva. O que carregamos são espelhos que refletem sempre o diferente, enquanto nós, eu e você mudamos juntos. Nuvens dissipam-se em doces fragmentos, sentidos acenam do outro lado da baía, onde estivemos Há alguns instantes que ficaram Misturados com a lembrança do instante diferenciado, um ideograma na fumaça do cigarro, o haikai mais simples recolhido num vazio que vibra, diz, e muda. Um brilho secreto, isso o mar também nos traz sem cobrança alguma e além do privado e do profundo jaz o não dito, o absurdo de calar, o conferido: penínsulas e abraços de mar, studio marinho. E o modo como ele endereça suas maresias a nós mudos e humanos com seu estilo que no fim revela ser apenas a mancha do mar em sua blusa, uma blueprint, um sim.

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2 O Agora voava, deixando nossas respostas sem pergunta alguma. Acabamos nos cruzando, a caminho da estação onde nada se detém, na luz que grita atrás das [montanhas, No som de nossas vozes e olhares assustados como sempre Sílabas apagando beijos como a maré faz com [nossas pegadas recolhendo Apenas o silêncio, o silêncio. Registros de amanheceres sendo Eternamente abertos para agentes secretos Até que a página se vire como onda Deixando paisagens no retrovisor Longe de qualquer ideal de transparência ou [nostalgia. Linhas que nada são a não ser a trajetória das [gaivotas Deliciadas com as horas que ainda restam antes do [pouso. Primeiro dia de sol, a casa está vazia. Tesouras repousam quietas ao lado de Gencianas. Nova Geografia. A cena Está quase completa, viva nos músculos que [apanham rápido um clichê qualquer no ar, uma sombra. A voz, cada [vez mais, Se estilhaçava, ficando assim impossível dizer Quem falava ou soprava o vento no stylos das árvores rabiscando um céu que não era bem assim O que se queria dizer, um espaço implodido a cada [passo Dentro do corpo onde a natureza sopra seu processo As sentenças do mesmo rio nunca o mesmo rio Códigos nascidos sem qualquer charme, [e a gravidade De tudo o que prossegue, indestrutível, viagem.

3 Aqui o céu é fino feito papel. Regras se dissolvem como uma velha palavra na boca velha manhã com um gosto de folhas secas na boca Muito viva vívida doce e muito viva distribuindo seu teatro, lírica barata, seu [Gesamtkuntswerk, nos telhados onde pássaros respiram, quietos, sendo observados por gatos negros e cantados [obsessivamente por sons secos pela estação dos sustos, para além de si, [desejo de um presente acelerado como as ondas deste doce Desterro, O modo vazio e pleno como o olhar faz de tanta luz o ar vibrar Nos sentimos Oceanos, Pan, nos sentimos mais [humanos & sacamos parte da hera tomando a janela onde pouco ou nada [é dito Apenas sentido, o limite de um "ouvir-se dizer" que já não diz, reprisa Velhas cenas de um teatro previsível. Apenas o espectador mudou no fim de tudo E as estações se amontoam num canto do céu [esperando Um milagre, uma confortável Invisibilidade, que não tem nada a ver com O excesso desse sol depois de três dias de chuva Três úmidas palavras sussurradas e conduzidas [como o vento faz Às nuvens, nada necessariamente difícil ou vazio gruda à pele, livre De qualquer engodo, assinatura, assunto. Horas e horas de vidro, sentenças sem nome flutuam no manso ar do verão do interior e suas diferenças Vêm à tona, enfim, o que nos deixa ao menos uma chance para ouvir uma chuva invisível atrás da porta pela qual acabamos de passar.

(Poema do livro Solarium) Celuzlose 06 - Setembro 2010 15


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UM POEMA PARA O DESERTO com seus rios secos desde o começo com sua sede sonora com o sal que não pergunta do sentido deste paraíso perfeito templo sem vozes

que celebra

do sol que se deita

a tarde que dura, suprema,

olho de um sábio egípcio

em sua dimensão paralela

um oásis

o mar invisível que se quebra

onde o céu

manso

se amplia e revela

aqui

uma íris, ou quase,

onde não há água.

e a metade da lua

Não há margens, nem miragens.

magnífica

mas cedo ou tarde descobrimos

uma lágrima minha

o que este outono

fixando

tem para nos dizer:

o som misterioso dessas rochas e pessoas

— cores, peles, percepções —

automóveis deslocando seus vazios

tempo de silêncio

sob o fog azul da luz no sul

flutuando agora no ar

o trânsito pesado e veloz

fazendo

o stress das consoantes

bolhas na superfície

o desdobrar da seda

de um céu que é mais além

o cheiro do fumo e de café africano sensação imprecisa, pedra preciosa

(Poema do livro Solarium) 16 Celuzlose 06 - Setembro 2010


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GÊNESIS Há em você um silêncio que escuto Um céu que vejo enquanto juntos, há um amor que se parece com tudo, menos susto, há uma mente & um corpo no vazio dessa paisagem (quando teu rosto, viagem, ressurge nos tremores da miragem) ou quando a toco, ou quando em pensamento a toco, como um sopro, você mesma, que amo, enigmagem. E há uma chuva que cai só uma vez por ano. Há o sibilo misterioso da serpente. E há seu beijo que há de me fazer humano.

Tempe, Arizona, outubro de 1999

(Poema do livro Solarium) Celuzlose 06 - Setembro 2010 17


BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

Ademir Demarchi Nasceu em Maringá-PR (1960) e reside em Santos-SP. É editor da revista de poesia BABEL e publicou os livros de poemas Os mortos na sala de jantar (Realejo, Santos, 2007); Do sereno que enche o Ganges (Coletivo Dulcineia Catadora, São Paulo, 2008) e Passeios na floresta (Éblis, Porto Alegre, 2008).

DA ÂNIMA PARA O ANIMAL E DE ANIMAL PARA ANIMAL (Poemas inéditos)

METAFÍSICA BARATA Quem entra pela metafísica e nela piamente acredita sem querer vira barata antes de morrer Um abraço terno pela manhã e a pergunta o que vai ser de nós? Ah, vamos morrer e virar pó, oras. Você vai se dissipar em árvores, arbustos, amoras, na couve que outro com fome irá comer, numa ovelha, num rato, numa barata... Ai, que horror!, disse, me afastando e voltando à vida humana que não ata nem desata indo fazer como gado o que se tem de fazer antes de morrer e vir a ser uma cópia exata:

ENQUANTO LEIO Enquanto leio e me vou sem sanha pelo mundo, perdido nos livros Minha cadela finge enleio, perfeita aranha em sorrateira soneca Não me engana, pois a sapeca não sonha, isso sim, arteira vigia Sonhar, sonho eu em meio a florestas, monstros e soldadescos devaneios Um distraído total e sem pelos mas ela está atenta a qualquer harpia Ou movimento estranho que faça o mundo se voltando contra nós E se ele ousa e isso ocorra, corre ela latindo bravia espantando o atroz Esforço-me em amavios para demovê-la, mas ah, teimosa!, ela não cede Vai guardando aos poucos diminuindo o rosnar afinado como um motor potente Que acelera a mil novamente a novo ruído me olhando de canto e dizendo Viu seu besta, não lato em vão, vá ensacando sua prudência que ingente Tudo o que você viu e sonhou nos livros aí fora está, vindo e chegando! 18 Celuzlose 06 - Setembro 2010


BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

DA IMOBILIDADE DO JACARÉ O

jacaré mexeu

um

bilionésimo de

milímetro o

rabo

quando leve

e

longamente inspirou.

Não vi e então ele expirou. Também não vi. Seu olho aberto não piscava boiando na imobilidade mas respirava por ele o mundo à sua volta e foi por lá que a lagoa entrou que eu entrei e que tudo entrou para olhar a partir de dentro e respirar a imobilidade e criar o mundo lá fora como uma

projeção seca e

aguada

que as

variações de

e

luz

calor tornavam

moventes

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Adriano Lobão Aragão Nasceu em Teresina, Piauí, em 1977. Formado em Letras pela UESPI, leciona língua portuguesa e literatura na rede particular de ensino de Teresina. Fundador da revista amálgama, publicação dedicada à literatura. Em 1998, através do concurso Novos Autores, recebeu o Prêmio Cidade de Teresina pelo livro Uns Poemas, publicado no ano seguinte pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Em 2005, publicou Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra, pela Fundac. Seu livro Yone de Safo foi agraciado, em 2006, com o prêmio Torquato Neto instituído pela Fundação Cultural do Piauí e publicado pela amálgama no ano seguinte. Em 2009, publicou as cinzas as palavras. Participou das coletâneas Versos Diversos (Passos/MG), Poetas do Brasil 2000 (Porto Alegre/RS) e Estas Flores de Lascivo Arabesco, poemas eróticos piauienses (Teresina/PI). Atualmente, edita o site dEsEnrEdoS www.desenredos.com.br e o blog Ágora da Taba http://adrianolobao.blogspot.com

e quando retorna a si a oferenda e o que saber de teu anseio entregue ao ventre e ao seio alheio [quando retorna a si a oferenda que há pouco somente sêmen seria? e que força haveria em teu sangue que não vê as marcas [de teu semblante impressas em um outro ser? e como artífice tenaz empenhas o obstinado ofício de reinventar-se [em imagem e semelhança na fêmea que emprenhas e eis novamente em teus braços os traços que em ti afirmam [a perpétua condição de semeador e como impetuoso autor revisando a própria obra chega até si o desejo e a hora [de descartar o esboço que feito fora outrora e eis que teu riso e tua mão se estendem a apenas um dos irmãos [para que corra o risco e o destino de existir em vão e que seja a mão que se ergue em fratricídio a mesma que jaz em suplício [e ambas as duas palmas de tuas mesmas mãos e o que saber de teu feito quando retorna a si a oferenda [que reafirma em teu filho teu genitor? (inédito)

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as tardes as manhãs as tardes quentes e iguais a todas as outras as manhãs desprovidas de ânsias vãs seguem lentamente aos currais como se guardassem mais que o passado dos dias de amanhã e perene a si tece a tarde disposta sobre nós como noite de homem só como tempo que não se mede agudo vento que segue sem rumo sem prumo sem voz iguais a todas as outras se tramam em nós as marcas em caminho aberto a faca como vento leva suas folhas iguais a todas as horas na erma eternidade do nada e perene a si tece a tarde disposta sobre nós as tardes quentes e iguais a todas as outras as manhãs (in as cinzas as palavras, 2009)

e plantam flores onde fenecem os frutos da terra e plantam flores onde fenecem os frutos da terra para mães que não podem resistir às dores do parto as vítimas de tanta desgraça atiram-se às trevas pelos mesmos gestos de efusão materna acumulados sem que nenhum júbilo encontrasse aquele que caminha onde plantavam no sagrado barro os ossos do pecado desfeito abrigo e caminho da palavra medida que as mãos de uma mãe recolhe para o útero vazio e com a língua recobre e cura a própria ferida e planta flores onde fenecem os frutos de Eva e grita as dores do parto de um filho sem umbigo (in yone de safo, 2007)

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Beatriz Bajo Nasceu em São Paulo/SP, 1980. Poeta, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ) e aluna especial do mestrado em Letras (UEL). Participou de antologias e mantém publicações em revistas literárias como Coyote e Polichinello e em espaços virtuais como Portal Cronópios, Germina Literatura e Confraria do Vento. Traduziu o livro Respiración del laberinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora e trabalha atualmente com uma novela, também mexicana, pela editora LetraSelvagem. Livro de estreia: a face do fogo (Selo [e] editorial, 2010) uma parceria da Annablume com o selo Demônio Negro. O segundo livro, : a palavra é, será lançado em setembro de 2010 pela Atritoart. Morou por 17 anos no Rio de Janeiro (RJ) e vive há 4 em Londrina. Edita a seção literária do site Armadilha Poética http://www.armadilhapoetica.com é colunista do site Trema Literatura http://www.tremaliteratura.com e insiste em cultivar o blogue http://lindagraal.blogspot.com

vem pisando na flor desbotando destruindo desnutrida de dor dolorindo dorandando no torturado caminho indo indo indo vem afiando o espinho descendo a ladeira mais torta expondo a ferida que ia farta comendo a ilusão hirta deserta verdade decerta bondade no aperto do que está perto no destro prazer no incesto entre a flor e o verso

a humanidade é uma colher em riste fico à sua espera : de boc A berta — faminta — colho somente o ferro / trinco os dentes encolho minha indignação pela saliva. 06h00 10/04/2007

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era um dia como hoje e uma boca como nunca como muda enorme, imensa, rubra ninguém soube o porquê do inchaço não haverá explicação fato é que cresceu tomou conta do rosto destacou-se até rachar entre peles e salivas e pomadas estava mudada sendo comida não cabia mais o riso qualquer abertura ardia como envelhecida enrugava-se quase murcha suspeitou-se que um beijo envergou a – dona da boca – curvada estava e no fogão rastros de uma fuga... 12/03/2007


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A face do fogo se flor esta.sem cor na vertigem do botão que não resvala por dentro é a esmo o que desbota des.com prometido com a seiva anterior que abraça o gosto mentolado do instante despetalado todo corola em cor verve primitiva vertendo a face do fogo alhures arvoredo no limiar do passa redo em mim Fenda Laminada que Ondula o Rasgo Estranhamente Sublime o tempo é faca foi-se a foice flamejante talhando arestas esquinas sequiosas ovário de lírio orvalho que sangra que singra como tu sóis . quando tu fores flores de alecrim te perfumarão em lençóis segredos girassóis 16h23 02/08/2009

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1/2. cada beijo é como comer borboletas para que as matizes de dentro se libertem, se debatam no assanhar das asas entre os predicados que traquinam no diafragma que raia em transversais contrações ventos adverbiais 1/3. Assim que se deitou Sobre meu pé tão delicadamente Trouxe-me algo de fenda Algo de talho, latente Entre os batentes da minha janela Adentrando pelos basculantes Roendo as sementes 2. O dia inteiro nascia dentro de mim Madrugada de 18 de janeiro de 2008

dança sempre o que há de mais quente é o que escorre e entra é que a febre do teu nome avança pelas calçadas e contemplo a senha pelas fresta das portas que serão abertas pés descalços enquanto me embaraço em pernas que procuram arrebatar as fissuras do salto no chão que espera a dança e arrisca o vão do asfalto A ironia da vida está no instante em que se cala. Madrugada de 18 de janeiro de 2008

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Celso de Alencar Poeta e declamador paraense, radicado em São Paulo desde 1972. Tradutor da poesia do nicaraguense Rubén Darío. Autor de Tentações (1979), Salve Salve (1981), Arco Vermelho (1983, 1985 e 1992) Os Reis de Abaeté (1985), O Pastor (infanto-juvenil, 1994), O Primeiro Inferno e Outros Poemas (1994 e 2001), Sete (2002), A Outra Metade do Coração (CD - Antologia poética), Testamentos (2003), Livro Obsceno (2008). Participou de diversas antologias entre as quais: Poesia Contemporânea Brasileira (Portugal, Ed. Alma Azul, 2001), Poesia do Grão-Pará (Governo do Estado do Pará, 2001), Scéne Poétique (Dez poetas franceses e dez poetas brasileiros, edição do Consulado da França em São Paulo e Cena - Centro de Encontro das Artes, 2003).

MUITAS VEZES EU FALO COISAS ESTRANHAS Às vezes eu me deparo com pessoas que não entendem o que eu falo. Mas quando eu digo: gontom, gontom, gontom, gontom, gontom ou cros, cros, cros, cros, cros, cros, sou facilmente compreendido. Aqueles que me ouvem e têm compreensão dessa minha estranha fala, são os que eu encontro com a cabeça dentro de mim. Por isso muitas vezes andando com botas de couro e pano aquelas próprias para se proteger do frio eu digo coisas estranhas em voz alta nu coberto de carvão e anil dentro de uma caixa silenciosa de papelão onde só aqueles que me compreendem plenamente conseguem ouvir.

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PANDORA (primeira parte do poema) 1. Eu quero reencontrar a minha boca para falar de ternura ou mesmo de água, se for preciso e dizer vejam o meu umbigo como treme. Muitos homens me têm como virulenta quando, por muitas vezes, me descarnei com pedaços de madeira verde para salvar criancinhas ou mesmo para conter as suas dores que se deslocavam pelos seus dedos. Pelas minhas imprecações julgam-me perversa quando o mais que faço é proteger os meus dentes. Por que não tocam os meus seios que amamentaram tantos homens e ainda se mantêm inteiros como se fossem sequência do meu rosto? Se naquilo que eu faço não há bondade, deem-me então os seus conselhos. Devo deixar que os meus inimigos me matem ou torturem a minha vagina? Não me tenham como indigente, morta ou mesmo sem língua. Não há nenhuma mulher que se iguale a mim nem mesmo aquela que anda com pescoço de touro e mãos de buracos de cabra. Eu sei calcular as horas e por onde andam a lua e os animais infantis. Eu beijo as patas dos cavalos e suas cabeças e não há loucura em mim. Digam-me quais são os cegos que enxergam o horizonte? Digam-me os seus nomes para que eu lhes murche a vida. Não me tenham como inimiga ou mesmo incendiária. Ponham-se sobre as janelas para que eu contemple os seus mamilos expostos na paisagem.

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Foto: Carolina Vieira

Eduardo Jorge Nasceu em Fortaleza, 1978. Publicou San Pedro (2004), Espaçaria (Lumme Editor, 2007), Caderno do Estudante de Luz (Lumme Editor, 2008) e possui no prelo A língua do homem sem braços (Prêmio Minas Gerais de Literatura 2009). Vive em Belo Horizonte.

Não consigo encontrar Eduardo em casa Hélio Oiticica o arrastado dos pés bambos, do som da preguiça ao tacanho jogo de escadas dos anos vinte em vários lances e outro aceno, até logo. uma despedida de sempre no novo jogo do desvio: a boca de dois leões amarelo embotado – uma plântula desperta o pensamento possível embrião e olhar sério de outro rumo, que desce ao aroma de talco vindo da conversa com a senhora fotografada, antes: hoje de um dia cinza-escuro, oscilando as qualidades do nulo e do passeio em busca de ar, fluídos de água sobre os passos rápidos de freira sem guarda-chuva – como continuar o pensamento em broto equilibrando desequilibrando o corpo em direção a catedral, cruzar o amontoado de pombos e indeciso entre a direita e a esquerda, sempre. um táxi rumo a festa na loteria, disse a senhora. agora a situação de hazard – a espreita de coincidências a vida e, de repente o passo acelera, há uma firmeza áspera na resposta, [momento entre as ligações dos carbonos do seu corpo e o traçado da hidra fêmea sobre o centauro, croqui depois do cinza-escuro espalhado em estrelas, setembro depois de 1978] dobra sagital a esquerda, notícias tem deles por outros desvios. Diga ao Eduardo que eu escrevi para ele duas cartas e ele não me respondeu ainda, Lygia Clark (Inédito)

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Bom dia, qual é o seu destino? ainda escuro entre poças ou pelo rio foi madrugada assim, na sonoridade dos pés molhados enquanto mililitros confundem a troca das partituras: seus mínimos sons visuais a música das capas de chuva, e, o que atinge as costas. quando se anda assim de bicicleta, o quê mais úmido, eis: as listras da pista de pouso, algodão até às avessas, enquanto segura o que é portátil, também a casa vazia, comigo e duas mudas de trevo, na valise, a troca de assunto: um livro permanece fechado.

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nova miragem via sokurov, metades quando chegam as palavras (sim, sem acento, algumas sílabas – explicação, aqui longe) sons, sons e a resposta, não sei onde este aqui. a nuvem nega uma forma e quem diz ainda eu? sons, sons e uma miragem de poeira, algum deserto. sem sombra, aquilo precede adivinhação em transparência (as casas amontoadas conjunto de papel móbile e se chove, silêncio). quem fala aqui? alguém dorme. (Remake de “Miragem via Sokurov”, Caderno do estudante de luz, 2008)

(de Caderno do estudante de luz, 2008)

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Micheliny Verunschk Foto: Jader Rosa

Poeta, escritora e crítica literária. É colunista da revista eletrônica de literatura Cronópios (www.cronopios.com.br) e colaboradora da revista Continuum, do Instituto Itaú Cultural. Publicou os livros Geografia Íntima do Deserto (Landy, 2003) e O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003). Foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura com o livro Geografia Íntima do Deserto, em 2004. Participou das antologias Na Virada do Século – Poesia de Invenção no Brasil; Invenção Recife; Pernambuco: Terra da Poesia; Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século XXI e da Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milênio, publicada em Portugal em 2008. Tem poemas publicados na França, Portugal, Estados Unidos e Canadá.

POSITIVO. NEGATIVO. Três e trinta da manhã. O sono, um sonho distante. Meu corpo estendido no sofá e Jeanne Moreau falando sobre a maldição da beleza absoluta. Em frente à porta do quarto percebo a gata branca a me olhar. Tem a cabeça pequena e olhos muito grandes, que parecem tristes na composição geral do conjunto. Talvez seus olhos sejam do tamanho normal e o fato de a cabeça ser pequena é que dá a impressão de que eles são maiores e melancólicos. No banheiro dos fundos, outra gata, a preta, mia. Está presa. Vai passar alguns dias aqui e não se deu bem com a gata branca. Um amigo viajou e pediu que a abrigasse por um tempo. Tem água, comida, uma almofada e uma caixa de areia no cubículo. Mas creio que não está confortável pois, sempre que lembro dela, penso no gato emparedado de Poe e quase chego a escutar o pequeno coração retumbando pelas paredes do apartamento. A gata branca continua a me olhar e Jeanne Moreau some no chuvisco azulado do aparelho de TV que perdeu o contato com um satélite muito longe daqui. Conto de 1 a 120 e de 120 a 1, vezes repetidas. Costumo fazer contagens, listas, jogos mentais e um variado repertório de brinquedos intelectuais que inventei ao longo dos anos para noites como esta. Teriam a função hipotética de restaurar o sono perdido, mas sempre me despertam mais. Minha cabeça costuma ser uma boa companhia para as noites de insônia, solidária, ela parece não desligar nunca. No entanto, não consigo escrever. Há alguns anos era diferente. A insônia não era um baque às três e trinta da madrugada. Era uma continuidade. Acordava às seis e ia dormir às duas, três, por vezes quatro da manhã. Assim, era fácil ser produtivo. Era fácil escrever um livro, trezentas vidas. Porém, hoje a insônia se configura de outra forma. Deito cedo, sinto sono. A noite parece perfeita. Às três e trinta, um pouco mais, um pouco menos, tudo se quebra, um copo partido entre os dedos.

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Jeanne Moureau retorna e é uma velha de suéter vermelho e colar de pérolas a falar sobre a maldição da beleza absoluta. As atrizes da Novelle Vague não envelhecem e essa senhora de ar requintado certamente não é Jeanne Moreau. Que mal acreditar nisso se é uma verdade estabelecida para mim essa noite? As atrizes da Novelle Vague existem apenas em preto e branco, como as duas gatas, a que me espiona, a que me denuncia. A TV, novamente sem sinal. Quantos nomes estapafúrdios de homens posso enumerar de A a Z? Em noites como essa perco totalmente a fé em mim, na capacidade de ser algo ou alguém para além da insônia. Se esvaem todas as vontades. De ser um grande jornalista, amante, cineasta, escritor. As palavras com as quais lido nas noites de insônia são, sem sombra de dúvida, patéticas. Elas giram como móbiles e me encantam por horas, mas se esgota aí toda a capacidade que possam ter de beleza. Claro, algumas delas cantam e pedem um conto ou um poema, mas a letargia e estupidez que de mim se apoderam não me movem ou comovem. Em noites de insônia, vivo em estado de vírgulas ininterruptas. Vírgulas negras sobre papel branco, não mais. Jeanne Moreau volta mais uma vez, mas me desprendi dela. Ao menos momentaneamente. Preciso ver se a gata preta está bem. Não acho os meus chinelos e sei que quando passar da sala à cozinha, o chão estará gelado. Deveria procurar os chinelos antes e evitar o desconforto. Mas o coração da gata preta me chama. Ele bate alto, goteja sangue. Meus pés doem um pouco ao contato do chão da cozinha, mas logo se acostumam. O piso parece um tabuleiro de xadrez. Meus pés, dois peões. Abro a porta do banheiro, entro e a gata se enrosca nas minhas pernas. Fecho a porta e sento na privada. Dez minutos de afago e meu coração dividido como um bife de fígado. Cansei de Jeanne Moreau. Poderia agora dançar um pouco, ou ler e-mails, ou pintar o apartamento inteiro. Poderia chorar e, quem sabe, dormir soluçando. A gata esfrega seu queixo contra o meu. Poderia fazer uma caminhada e aproveitar para recomeçar a fumar. Ou bater uma punheta pensando nas atrizes da Novelle Vague. Ou nos atores. Poderia escrever uma obra-prima, ou ler uma das tantas que não li, mas só consigo pensar na metragem do celeiro onde eu empilharia os 400 corpos do sono que não vem. A TV não sai do ar há quinze minutos. Acho que agora segura. Mas os créditos brancos sobre fundo negro levam Jeanne Moreau de mim. Zapeio. Uma luta. Um programa de culinária. Um seriado policial. Um culto evangélico. Leilão de gado. Uma luta. Um programa de culinária. Um seriado policial. Um culto evangélico. Leilão de gado. A gata branca se encostou numa almofada. Vai dormir. A gata preta silenciou. Deve estar dormindo também. Três canais em manutenção. Muitos desenhos animados. O noticiário 24 horas avisa que o dia parcialmente nublado promete pancadas de chuva. Oito horas manhã. Vou deitar e só aí percebo que meu olho esquerdo não enxerga nada. Visão parcialmente nublada. Desabo e sei que sonharei com pequenos monstros incendiários e com Jeanne Moreau pelas próximas duas horas. Não mais que isso.

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Nicole Cristofalo Poeta e tradutora, cursa Letras na Universidade de São Paulo (USP). É autora de linhas, livro de poemas ainda inédito, do qual os poemas publicados aqui fazem parte. Além disso, estuda a obra de Oliverio Girondo e publica seus artigos e ensaios, sobre João Cabral e Paul Valéry, entre outros, no blog Dado Acaso (http://dadoacaso.blogspot.com), com André Dick.

O demônio meridiano O sono do meio-dia traz a ausência de vultos que envolvem pálidos a pele do rosto e o sufoca de desejo de outras celas acedia nas paisagens refletidas pela extensão do corpo sutil fluido bilioso de monges renascentistas e pintores de fantasmas miméticos perfis de árvores e flores não vistos ainda tristitia ou escritores que sentem há séculos o zumbido agudo de Saturno enquanto comprimem a orelha esquerda de sangue espesso e escuro entranham espíritos de melancolia

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Poema sinfônico Durante o salão vermelho motivos e figuras são tocadas por um ato apenas em pequenas mãos sublimadas de luvas brancas descrevem o fraseado muito antes extenso vestido de cordas vibrantes toda cauda negra envernizada derramando o poema sinfônico.

Deveria ser assim não ouvir nada quando apaga a luz e deixam o sonho mais silencioso limpar a fuligem ruidosa que bate no vidro da janela colidindo lembranças dispersas nos flashes da rua entram pela porta envernizada do guarda-roupa os olhos de alguém tranquilo naquele sonho que anda como se já estivesse muito antes de dormir e é encontrado por cima dos postes de luz “gosto dos seus rostos e vi outras vezes ontem à noite no que me pareceu um segundo andar silencioso”

Lençol Quando se descobre deitado na cama o sopro abraça a pele como se o asfalto que sustenta o sereno a cobrisse no descanso úmido da folha escorregadia como a claridade às cinco da manhã

acompanharia suas cores mas o aroma da fronha lisa carrega o ar enquanto subo e para cada carro que passa espero sentir o estrondo vindo do meu lado direto do chão sem o travesseiro a cabeça entregue ao corpo.

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Wanderson Lima Poeta, ensaísta e professor universitário (UESPI). Publicou, entre outros, Balé de Pedras (poesia, Prêmio Torquato Neto) e Reencantamento do mundo (crítica de cinema, em coautoria com Alfredo Werney). É coeditor da revista dEsEnrEdoS http://www.desenredos.com.br e mantém o blog O fazedor http://blogdowandersonlima.blogspot.com onde escreve sobre cinema e literatura.

Poemas de FAUNA DOMÉSTICA (inédito, 2009-2010)

Vaga-lume Uma luz tão gaga só podia dar em poesia. Pegá-la não dá choque; e há um cheiro, que não é de lâmpada nem de fêmea. Funciona bem só no escuro, na roça; e se alegra mais com canto de grilo.

Variações em torno do grilo I

IV

Uma gota de infância em cada grilo.

Grilo, ò gula de estribilho.

II

V

Só ouve o grilo – o solitário.

Grilo, me gruda ao olvido.

III

VI

Baco, ò Baco, dá vinho ao grilo!

Breve estribilho? Ai, grilo da Tailândia.

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Na mesa da sala que faz a abelha no meio das moscas? Na cadeira de balanço onde a avó sentava – poeira, memória e duas moscas.

Hierofania Dois fios dançantes se insinuam na fenda da parede: barata. Eu espero, contendo o asco, a Visão. (É tempo de recolher o nojo, de alimpar a nódoa, de esconder a rosa de náusea em outro jardim). Ali está, coisa preta, marrom, vermelha talvez, de perninhas frias, que fazem cócegas. Aqui na minha mão é o teu lugar – e pode ser que eu vomite – e lembre o desamparo que senti nas antigas tertúlias, e a fome mal redimida de um deus mais vasto que o pigmeu dos catecismos. Ela voa. E resvala no meu ombro, pesa no meu ombro, suja meu ombro sem resgatar meu desamparo. Minha mão continua limpa, e eu preciso cortá-la.

Uma mosca, de noite, sozinha – meu Deus, procurando o quê?

O pires de doce sobre a mesa da sala – as moscas chegaram primeiro.

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Literatura sem Fronteiras

Jesús Ernesto Parra Nasceu em La Victoria, Venezuela (1979). Poeta, escritor, editor e ensaísta. Foi editor e fundador das revistas latino-americanas Platanoverde e 2021: Pura Ficción. Cursou Comunicação Social na UCAB-Caracas. Seu trabalho poético aparece no livro Sombras que cruzn las paredes (El Perro y La Rana, 2005) e na antologia de poesia venezuelana Em-Obras (Equinoccio, 2008). Sua narrativa aparece na antologia Nuevo Cuento Latinoamericano (MareNostro, 2009) editada por Julio Ortega. Seu trabalho jornalístico está em muitas publicações latino-americanas e é colaborador e colunista de revistas venezuelanas como Exceso, Complot, Contrabando e Exxito.

Quero me encontrar novamente com Wim Wenders [naquele café onde transmitem futebol Quero me aproximar desse senhor grisalho [e de óculos e escutar seus pensamentos Quero abraçá-lo pelas costas, enquanto sentado [coloca mais açúcar em seu café Quero abraçá-lo e dizer que o amo, [que é verdade que estamos muito sozinhos nesta cidade em que os anjos se jogam dos tetos. Sei que não me escutará. Muito menos poderá sentir meu abraço de celuloide. As segundas e terceiras partes nunca foram boas, [inclusive para os filmes do novo cinema alemão. Wenders quiçá ponha mais açúcar no café que já esfria. Observará com descuido os clientes que assistem [ao futebol e gritam com os gols do Schalke04. Wim Wenders sairá caminhando sem fazer barulho. [Como um anjo em um mundo de ascéticos. Esses turistas, duas mesas atrás, não notarão [sua ausência e seguirão obcecados em seu relato de verões felizes Não perceberão como Wenders já se perde [na próxima esquina e muito menos como continua pensando naquela [estrela que se perdeu em uma triste [estrada do Texas.

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Quiero volver a encontrarme a Wim Wenders [en aquel café donde daban el fútbol Quiero acercarme a ese señor canoso y con [gafas de alta graduación y escuchar sus pensamientos Quiero abrazarlo por la espalda, mientras sentado [coloca más azúcar a su café Quiero abrazarlo y decirle que lo amo, [que es verdad que estamos muy solos en esa ciudad donde los ángeles se tiran de los techos. Se que no me escuchará. Mucho menos podrá sentir mi abrazo de celuloide. Las segundas y terceras partes nunca fueron buenas, [incluso para las películas del nuevo cine alemán. Wenders quizá le ponga más azúcar al café que ya se enfría. Mirará al descuido a los clientes que siguen el fútbol [y gritan con los goles del Schalke04. Wim Wenders saldrá caminando sin hacer ruido. [Como un ángel en un mundo de escépticos. Esos turistas que dos mesas atrás no notarán su ausência [y seguirán obcecados en su relato de veranos felices No se percatarán como Wenders ya se pierde [en la próxima esquina y mucho menos como continúa pensando en aquella estrella [que se perdió en una triste carretera de Texas.


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Literatura sem Fronteiras

Às vezes penso na solidão de Angela Merkel não deve ser agradável um mundo onde [as roupas sempre ficam apertadas onde não existem cortes de tailler [para geometrias como as suas corpo de senhora da Alemanha Oriental e no qual os impérios se desfazem em códigos binários a ninguém interessam suas ideias e muito menos seus atos você é um fantasma no zapping, enlatado entre comédias americanas legendadas Às vezes penso no café da manhã [de Angela Merkel no edifício da Chancelaria no andar mais alto, dessa delicada [casa de bonecas basta olhar para baixo e então encontrar uma [rara escultura duas mandíbulas de aço que se apresentam [antes da mordida antes do bote final o escultor basco que as criou, sabe que Europa é uma mulher em cima [de um touro e que as reunificações são apenas mandíbulas [quebradas Frau Merkel se pergunta quando acontecerá essa mordida definitiva antes da última torrada Às vezes escuto o twist de Angela Merkel e uma dança me pega de surpresa se fico em silêncio se tiro o som da televisão e posso escutar o ruído dos tecidos sintéticos que se esfregam contra o corpo da Chanceler nos pegaremos pela cintura, faremos o passo do afogado e deixarei que a chefe de governo sonhe em ser Uma Thurman em um filme de Tarantino.

(Tradução: Victor Del Franco)

A veces pienso en la soledad de Angela Merkel no debe ser hermoso un mundo donde [los trajes siempre te quedan apretados donde no existen cortes tipo tailler para geometrías como las tuyas cuerpo de señora del este de Alemania y en el que los imperios se desvanecen en códigos binarios a nadie le interesan tus ideas y mucho menos tus actos eres un fantasma en el zapping, emparedado entre comedias americanas subtituladas A veces pienso en el desayuno de Angela Merkel desde el edificio de la Cancillería en el piso más alto, de esa delicada casa de muñecas basta mirar abajo para encontrarse con una [rara escultura dos mandíbulas de acero que se encuentran antes [de la mordida antes de la bocanada final el escultor vasco que las creó, sabe que Europa es una mujer subida a un toro y que las reunificaciones son solo mandíbulas rotas Frau Merkel se pregunta cuando ocurrirá ese mordisco definitivo antes de la última tostada A veces escucho el twist de Angela Merkel y un batir de caderas me toma por sorpresa si me quedo en silencio si pongo en mute la televisión capaz y puedo escuchar el ruido de las telas sintéticas que se frotan contra el cuerpo de la Canciller nos tomaremos por la cintura, haremos el paso del ahogado y dejaré que la jefa de gobierno sueñe con ser Uma Thurman en una peli de Tarantino.

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Literatura sem Fronteiras

Julien Burri Nasceu em Lausanne, Suíça fracesa, em 1980. Com dezessete anos publicou sua primeira coletânea de poemas, La punition, e uma peça de teatro, L'étreinte des sables que recebeu o Prêmio Internacional dos jovens autores em Bruxelas. Publicou Journal à Rebours (poesia, 2000), Je mange um boeuf (romance, 2001), Jusqu'à la transparence (poesia, 2004), Si seulement (poesia, 2008) e La poupée (romance, 2009). Os poemas aqui traduzidos são retirados da obra Jusqu'à la transparence, cuja edição bilíngue francês-português, traduzida por Prisca Agustoni, está no prelo pela Editora Sans Chapeau de Juiz de Fora.

Cada corrente de ar cada palavra, cada olho aberto. (Tudo pode mudar pela manhã). Um instante para ver a extensão do esquecimento tudo está ali no entanto nada se deixa reconhecer.

Chaque courant d'air chaque parole, chaque œil ouvert. (Tout peut changer au matin.) Un instant pour voir l'étendue oublieuse tout est là pourtant rien ne se laisse reconnaître.

Não vê-lo a não ser em sonho É bem a prova que ele permanece por lá. Há um duplo fundo nessa caixa. (Seu rosto é clandestino.) Num bar, seguir falando refazer a cena. Ela vai embora em farrapos A borda dos copos desaparece. Nas garrafas, o vinho evaporou. Retornar cada dia para constatar os estragos.

Ne le voir plus qu'en rêve C'est bien la preuve qu'il est encore là. Il y a un double fond dans cette boîte. (Son visage est clandestin.) Dans un café, parler toujours refaire la scène. Elle part en lambeau Le bord des verres disparaît. A l'intérieur des bouteilles, le vin s'est évaporé. Revenir chaque jour constater les dégâts.

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Não sentir mais que um arrepio, no braço, até a cabeça (Morder o gesso.)

Ne plus sentir qu'un frisson, dans le bras, jusqu'à la tête (Mordre le plâtre.)

O sol sobre a pele demasiadas vezes iniciou o mesmo desenho. Os dedos quiseram tirar a poeira da cabeça. As mãos quiseram reter as árvores novas. Agora elas são inencontráveis sob a cortiça.

Le soleil sur la peau trop de fois a commencé le même dessin. Les doigts ont voulu de la tête ôter la poussière. Les mains ont voulu retenir les jeunes arbres. Maintenant elles sont introuvables sous l'écorce.

O sopro já não caia o frio. A relva já não guarda a forma do corpo. As mãos, muito afastadas dos olhos, são esquecidas.

Le souffle ne fait plus blanchir le froid. L'herbe ne garde plus la forme du corps. Les mains, trop éloignées des yeux, sont oubliées.

(Tradução: Prisca Agustoni) Celuzlose 06 - Setembro 2010 37


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Foto: © Bartomeu Amengual

Melcion Mateu Nasceu em Barcelona, 1971. É autor de três poemários em língua catalã: Vida evident (Prêmio Octavio Paz 1998), uma homenagem atualizada a Vita nova de Dante; Ningú, petit (2002), baseado na HQ clássica Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay; e Jardí amb cangurs (2005). Acaba de concluir Illes lligades, livro ainda inédito. Alguns poemas seus foram traduzidos ao espanhol, francês, inglês, português, russo e esloveno. Como tradutor, publicou em catalão autores como Siri Hustvedt, Michael Ondaatje e John Ashbery, e colaborou ocasionalmente com artigos sobre literatura e atualidade cultural de Nova York, cidade onde vive desde 2005, com os suplementos culturais de El País, La Vanguardia e, com mais frequência, o jornal catalão Avui. Atualmente cursa o doutorado no departamento de espanhol e português da New York University, nos Estados Unidos.

O MAIOR DOS SONHOS O meu sonho maior não são as fadas, nem o navio das viagens perigosas, nem um castelo grande como a página. É um sonho maior, vai mais além, além da própria noite e das paisagens que alimentam a mente e não a vista: o arame que quebrou do guarda-chuva, os postes enevoados da avenida, o vazio carrossel que espera o dia. É um sonho maior que os outros sonhos. Por um sonho tão grande eu vendia a alma que tivesse entre as mãos. Nem a princesa saberia onde achar-me. Nesse instante, nenhum sonho, nenhum baile de máscaras, os brinquedos teriam o mau sonho de não poderem mais dormir comigo. Nenhuma música, nenhum desenho, nenhum desejo obstruído nem fantasma, nem esforço inventado ou fantasia, o meu sonho maior é despertar. (Ningú, petit, 2002)

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EL MÉS GRAN DELS SOMNIS El meu somni més gran no són les fades ni el vaixell dels viatges perillosos, ni cap palau tan gran com ho és la página. És un somni més gran, va més enllà, més enllà de la nit i dels paisatges que alimenten la ment i no la vista: les barnilles rompudes del paraigua, els fanals emboirats de l´avinguda, el carrusel desert que espera l´auba. És un somni més gran que els altres somnis. Per un somni tan gran vendria l´ànima que tingués entre mans. Ni la princesa no sabria on trobar-me. Aquell instant, cap somni en veritat, cap ball de màscares, les joguines tindrien el malson que mai més no podrien acostar-se´m. Cap música potser, ni cap dibuix, cap desig ofegat ni cap fantasma, cap afany inventat, cap fantasia, el meu somni més gran és despertar-me.


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Ao ir para fechar a janela, surpreendo-a com a clara intenção de tirar a camisa. Ela me vê, se vira e puxa a cordinha da persiana.

Assim que a vi cruzar a rua, [penso (como pensam muitos) que faz um gesto com a intenção de me saudar.

A vizinha aí da frente não deseja que eu a veja.

É um fato casual: súbito, um dia, quando outubro se assenta nos terraços, surge uma moça que do trem descia e, de longe, seguimos os seus passos.

A vizinha aí da frente não deseja que eu a veja pois eu tinha o olhar ardente. A vizinha aí da frente não deseja que eu a veja pois eu tinha o olhar ardente. Vai sumindo lentamente. A vizinha aí da frente não deseja que eu a veja pois eu tinha o olhar ardente. Vai sumindo lentamente a vizinha aí da frente. (Vida Evident, 1999)

Alta, magra e com certa miopia, tal como veio perde-se a espaços. Tem um ar de tristeza e de alegria que às taças faz tremer com seus compassos. Também detém-se o belo, quando ido. Na calçada distante o olhar repousa a refazer a imagem e a figura: lábio rosa, pastel o seu vestido, sua olhada distante e quase impura, a mão que quer saudar mas já não ousa. (Vida Evident, 1999)

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En anar a tancar la finestra, la sorprenc amb la clara intenció de treure's la camisa. Ella em veu, es gira i pren el cordill de la persiana.

Un cop l'he vista creuar el carrer, [em penso (com pensen molts) que fa un gest amb la intenció de saludar-me.

La veïna del davant no desitja que la vegi.

És un fet casual: de sobte, un día, quan l'octubre s'asseu a les terrasses, hi ha una noia que baixa del tramvia i, des de lluny, seguim les seves passes.

La veïna del davant no desitja que la vegi qui l'estava desitjant. La veïna del davant no desitja que la vegi qui l'estava desitjant. Lentament es va tapant. La veïna del davant no desitja que la vegi qui l'estava desitjant. Lentament es va tapant, la veïna del davant.

Llarga, prima, i amb certa miopia, tan prest es perd com surt d'entre les masses. Té un aire d'alegria i melangia que va fent tremolar totes les tasses. La bellesa, quan fuig, també s'atura. A la vorera absent, cada ull reposa per a refer la imatge i la figura: el seu vestit pastel, els llavis rosa, la mirada distant i quasi impura, la mà que vol fer adéu i ja no gosa.

(Tradução: Fábio Aristimunho Vargas) Celuzlose 06 - Setembro 2010 39


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Pedro Granados Nasceu em Lima, Peru, 1955. PhD em Hispanic Language and Literatures pela Boston University. Livros de poemas: Sin motivo aparente (1978), Juego de manos (1984), Vía expresa (1986), El muro de las memorias (1989), El fuego que no es el sol (1993), El corazón y la escritura (1996), Lo penúltimo (1998), Desde el más allá (2002) e Soledad impura (2009). Novelas: Prepucio carmesí (New Jersey: Ediciones Nuevo Espacio, 2000), Un chin de amor (Lima: San Marcos, 2005) e En tiempo real (Lima: PYTX/ Mar con Soroche, 2007). Parte de sua obra foi traduzida para o inglês, português e alemão. Blog: http://blog.pucp.edu.pe/blog/granadospj

À noite para R.B. De noite Com meu cérebro de batráquio saio pra te buscar mas não te acho a te devorar e não te acho. Quiçá terás partido Quiçá ainda não voltaste e apenas com mil fantasias e com o que poderíamos dizer meus olhos e mandíbulas de papelão pedra - verde e rezumante mas escondendo um humano dentro. Um mamífero recém destetado um focinho tenro que insiste em te tratar como se fosses uma fera Por isso meus pés dentro da lama e meu sexo e meu rabo que arrasto e meu hálito que não é de papelão pedra Perdido e meio evaporado nesta noite nesta manhã de Lima coberta pela noite onde meu cérebro de ave me faz desejar outro mundo nem melhor nem pior que este quiçá mas totalmente coberto de fato por tua companhia.

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En la noche para R.B. En la noche con mi cerebro de batracio salgo a buscarte y no te encuentro a devorarte y no te hallo Quizá te habrás ido quizá aún no hayas vuelto y solo con mil fantasías y con lo que podríamos decir mis ojos y mandíbulas de cartón piedra - verde y rezumante pero que esconden un humano dentro Un mamífero recién destetado un hocico tierno que insiste en tratarte como si fueras una fiera Por eso mis pezuñas dentro del lodo y mi sexo y mi cola que arrastro y mi aliento que no es de cartón piedra Perdido y como evaporado en esta noche en esta mañana de Lima cubierta por la noche y donde mi cerebro de ave me hace desear otro mundo ni mejor ni peor que éste quizá pero completamente cubierto eso sí por tu compañía


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Eu também recebi Eu também recebi aqueles copiosos E pontuais cheques E vi neve E vivi, mais ou menos, Que nem pessoa decente. E uma formosa mulher Ficou me esperando Com seus quadris pendulares De encontro ao meu ventre Com o seu quadril E aquele leve compasso Ali mesmo onde A gente vira homem feliz. Também atravessei o lago Congelado E, por que não, Fugi com a fumaça mais viva De qualquer chaminé Colocada na vastidão do caminho. Sem dúvida fui feliz E continuo sendo. Ainda que Ruim de vida por uma memória E não podendo prescindir dela. Poetas vivemos por causa de uma recordação. Não pra fazermos o bem nem o mal Às pessoas Nem pra ficar de acordo Com o mundo. Não me importa o mundo Ainda que goste dele Bem como do primeiro rebento dos teus olhos Quando estás no ponto De entender de ouvir de te fixar Que fui Que sou o homem mais abençoado contigo. Para a poesia Porque existe Em meio a necessidades E à esquiva bonança. Para a poesia. Para a mãe A filha A filhastra. Para a poesia Que não impõe Mudar tua vida E nem por acaso outorga qualquer perdão. Para ela, a linda Que vem, comumente, Com nossos mortos Mas não está morta E nem é espertalhona. Uma nuvem de borracha Um céu de borracha Uma cidade de borracha Poesia, velharia de faca Que já nem bates E deitas tudo fora.

Yo también he recibido Yo también he recibido esos jugosos Y puntuales cheques Y visto la nieve Y vivido, más o menos, Como una persona decente. Y una mujer muy hermosa Me ha esperado Con sus caderas de péndulo Contra mi vientre Con su cadera y su leve Compás Allí donde uno Es un hombre muy feliz. También he cruzado el lago Congelado Y, por qué no, Huido con el humo más vivo De alguna chimenea Colocada en el vasto camino. Sin duda que he sido feliz Que soy feliz todavía. Sólo que Vivo mal por un recuerdo Y no puedo prescindir de él. Los poetas vivimos por un recuerdo. No para hacer el bien o el mal A la gente Ni para acertar Con el mundo. Me importa un comino el mundo Aunque guste del condimento Y del brote primero de tus ojos Cuando te hayas en estación De entender de escuchar de fijarte Que he sido Que soy el hombre más afortunado Contigo. A la poesía Porque existe En medio de las necesidades Y la esquiva bonanza. A la poesía. A la madre La hija Y la hijastra. A la poesía Que no impone Cambiar tu vida Ni otorga acaso ningún perdón. A ella, la linda La que viene, por lo común, Con nuestros muertos Pero que no está muerta. Pero que no es avivata. Una nube de hule Un cielo de hule Una ciudad de hule Poesía, cuchillo viejo Pegas a penas Y lo hechas todo a perder.

(Tradução: Lev Vidal) Celuzlose 06 - Setembro 2010 41


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Breve história da literatura basca por Fábio Aristimunho Vargas

1. Literatura basca A literatura basca é definida como o conjunto da produção literária em língua basca ou euskara. Tal como ocorre na definição tradicional da nacionalidade basca, em que o indivíduo se identifica como euskaldun, que significa, literalmente, “aquele que tem a língua basca”, o critério que importa para a definição desta literatura é o idioma, e não a territorialidade (jus solis) ou a ancestralidade (jus sanguinis) do autor. Por tal critério, os autores que em território basco (seja no País Basco peninsular ou espanhol, chamado Hegoalde, seja no País Basco continental ou francês, chamado Iparralde) escreveram em outras línguas, sobretudo em castelhano e em francês, inscrevem-se na tradição literária dessas línguas, sendo portanto considerados parte da literatura basca apenas os autores que escreveram em basco. O primeiro fato destacável desta literatura é o seu tardio surgimento como modalidade escrita em comparação às demais literaturas da Europa Ocidental. O primeiro livro publicado data de 1545. No entanto, a forte tradição de cultura oral do povo basco permitiu a subsistência de formas literárias medievais até sua impressão em época tardia, a partir do século XVI, ainda que quase sempre de maneira fragmentária. Ilustrativo disso é a preservação de canções medievais tais como Bereterretxeren kantorea (A canção de Bereterretxe), Milia Lasturkoren Eresia (Canto fúnebre de Mília de Lastur) e Beotibarreco gudua (A batalha de Beotibar), entre muitas outras. Essa tradição oral (Ahozko tradizioa) se mantém viva até os dias de hoje, sobretudo na arte do bertsolarismo, expressão literária cantada e repentista de grande popularidade. Existem registros escritos da língua basca anteriores a 1545, embora muito escassos e reduzidos, tais como as inscrições aquitanas encontradas em epitáfios datados do século II d.C., frases em basco que aparecem nas Glosas Emilianenses, conjunto de pequenas anotações manuscritas à margem de um códice latino, que remontam ao século X e que são consideradas os primeiros registros escritos não epigráficos da língua, além de um breve vocabulário basco elaborado por Aimerich Picaud para os peregrinos de Santiago de Compostela, datado do século XII. Tais registros, no entanto, não chegam a conformar o marco inicial da literatura basca. 42 Celuzlose 06 - Setembro 2010


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2. Século XVI: literatura inicial (Hasierako literatura) Considera-se a obra inaugural da literatura basca o livro Linguae Vasconum Primitiae (Primícias da língua dos bascos), datado de 1545, do clérigo Bernat Etxepare (1480?-?). Este livro, composto de dezesseis poemas, é a primeira obra impressa em língua basca. O autor se mostra consciente de seu pioneirismo: no poema Kontrapas (Contrapasso) afirma terem se equivocado aqueles que achavam impossível escrever em basco e invoca a língua, que diz não ter sido impressa até então, a se espalhar pelo mundo. Etxepare orgulhosamente se proclama, assim, o iniciador da literatura basca. Alguns críticos consideram que a importância dessa obra reside mais em seu interesse histórico, linguístico e bibliográfico do que propriamente em sua qualidade literária. A segunda obra conhecida é a tradução ao basco do Novo Testamento, elaborada por Joannes de Leizarraga (1525-1601), intitulada Iesu Christ Gure Iaunaren Testamentu Berria e impressa em 1571 em La Rochelle. A tradução lhe foi encomendada pela rainha de Navarra Juana de Albret, que havia renegado o catolicismo e adotado o calvinismo. A empreitada de Leizarraga, levada a cabo com o auxílio de quatro colaboradores, encontrou inúmeros obstáculos por não dispor de um modelo e de uma tradição em prosa. A grande fragmentação dos dialetos e o imperativo de se dirigir à maioria dos bascos conduziram Leizarraga a delinear os primeiros fundamentos de uma prosa basca. Adotou como base o dialeto labortano apoiado em elementos do baixo-navarro e do suletino, embora concebendo uma morfologia arcaizante, a partir da ideia de que quanto mais se remontasse às origens mais encontraria uma língua unificada, e fazendo inúmeros empréstimos da sintaxe românica. No entanto, o modelo de Leizarraga, tal como o calvinismo em Navarra, não vingou.

3. Século XVII: a Escola de Sara e uma voz destoante No século XVII, período de florescimento da cultura basca, surgiu um grupo de escritores eclesiásticos preocupados em fazer-se entender pelo povo. Esses autores que passaram a escrever na língua que era entendida pelo povo, ou seja, em basco, formam o movimento literário conhecido como Escola de Sara, nome que se deve ao fato de a maioria deles provir do triângulo formado entre as localidades de Sara, Ciboure e San Juan de Luz. Os autores da Escola de Sara têm em comum o fato de serem clérigos, escreverem livros religiosos, sobretudo em poesia, terem formação humanista e adotarem uma versão popular da língua basca. Entre eles, destacaram-se os clérigos Axular e Etxeberri Ziburukoa. Outros nomes da Escola de Sara: Maestre, Etxeberri Ziburuko, Aramburu, Argaignaratz, Harizmendi e Povreau. Celuzlose 06 - Setembro 2010 43


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Pedro Axular (1556-1644), procedente de Navarra e pároco de Sara, é considerado um dos melhores prosistas da literatura basca. Gero (Depois), seu único livro, publicado em 1643, discorre de maneira ascética sobre o vício de se deixar as tarefas para depois, correlacionando o pensamento de diversos autores clássicos por meio de uma retórica elaborada. Joanes Etxeberri Ziburukoa (1580?-?), homem de grande cultura, escreveu três livros, todos em verso e com temática religiosa. Adotou a métrica do bertsolarismo e outros recursos próprios da literatura oral, como repetições e rimas pegajosas, com o objetivo de que seus versos fossem cantados e memorizados pelo povo. Para além da Escola de Sara, uma voz destoava do uníssono predominante. Arnaut Oihenarte (1592-1667), tradicionalmente considerado o primeiro escritor basco não eclesiástico, foi autor de um tratado teórico sobre literatura basca e uma história do povo basco. Sua poesia contrastava fortemente com a tradição oral, popular e eclesiástica da poesia então praticada, adotando critérios como exatidão métrica, linguagem culta, riqueza de rimas, inovações formais, tratamento delicado do tema, neologismos e purismos.

4. Século XVIII: período de assimetrias Neste período, o protagonismo em matéria literária cabia ao País Basco peninsular, que vivenciava um novo florescimento de suas letras. Já a literatura do País Basco continental, após seu auge experimentado no século XVII, entrara em uma crise que se prolongaria pelo século XVIII, submergindo numa quase esterilidade de produção literária. Uma figura central do período, ainda que a maior parte de sua obra tenha sido escrita em castelhano, foi o jesuíta Manuel de Larramendi (1690-1766), considerado o grande impulsionador de uma nova geração de escritores em língua basca. No livro De la antigüedad y universalidad del bascuenze en España (1728), Larramendi realiza uma apologia do basco como língua literária, afirmando tratar-se do idioma mais antigo da Europa, que deu origem a muitas palavras castelhanas e apresenta poucas exceções e irregularidades, constituindo assim uma língua filosófica, doce e agradável. Também publicou um Diccionario castellano, bascuence y latín (1745) e a primeira gramática da língua basca. Entre os autores do período sobressai Joanes Etxeberri de Sara (1668-1749), médico e escritor basco-francês preocupado com o ensino e a defesa da língua, que adotou o dialeto labortano. Também se destacam os jesuítas Agustín de Cardaberaz (1703-1770) e Sebastián Mendiburu (1708-1782), este último apelidado de “Cicerón Vascongado”. Com obras orientadas especialmente para o apostolado, ambos os autores fizeram uso do dialeto guipuscoano, elevando-o a linguagem literária. Do teatro do século XVIII são relevantes as obras Acto para la Nochebuena, de Pedro Ignacio Barrutia (1682-1759), considerada uma das melhores peças de todo o teatro basco, e El Borracho burlado, de Xabier María de Munibe (1723-1785), ópera cômica em castelhano e em basco. 44 Celuzlose 06 - Setembro 2010


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5. Século XIX: estagnação e posterior Renascimento A literatura basca experimentou um acentuado declive ao longo do século XIX, até seu último quartel. Por outro lado, nesse período houve um grande desenvolvimento dos estudos filológicos e antropológicos, surgindo renomados estudiosos. No País Basco peninsular teve continuidade a literatura religiosa em dialeto guipuscoano. São autores dessa época, Juan Bautista Agirre de Asteasu (1742-1823) e Francisco Ignacio de Lardizábal (1806-1855). Um trabalho importante sobre o folclore basco foi elaborado por Juan Ignacio Iztueta (1767-1845), na obra Guipuzkoako dantza gogoangarrien condaira edo historia (1824). Também começa a conformar-se o dialeto biscainho literário a partir de religiosos como Juan Antonio Moguel (1745-1804), Pedro Antonio Añibarro (1748-1830) e Pedro Pablo Astarloa (1752-1806). No País Basco continental, apesar dos reflexos da Revolução Francesa e a política de uniformização linguística do Estado jacobino, a literatura em língua basca se manteve sem maiores sobressaltos. Tiveram especial importância as obras de clérigos, que se escudavam na língua para manter sua influência sobre a consciência do povo, como Martín Duhalde (meditações cristãs), Francisco Laphitz (hagiológios), Michel Elissamburu (polemista anti-republicano) e Jean Pierre Arbelbide (obra pastoral e ascética). Na poesia, Jean-Martin Hiribarren (1810-1866) construiu paisagens lendárias e cantou as glórias do povo basco em versos 'bertsolaris' (Eskaldunac, 1853) e Indalecio Bizkarrondo “Bilintx” (1831-1876) se destacou com sua poesia de temática amorosa e com o bertsolarismo improvisado. Especialmente importante foi o mecenato do príncipe francês Louis Lucien Bonaparte (1813-1891), sob cujo patrocínio se realizou a tradução da Bíblia aos quatro dialetos literários bascos, além de seus estudos sobre a língua basca e seu célebre mapa linguístico. A partir do último quartel do século XIX, paradoxalmente após a abolição dos Foros Bascos em 1876, a literatura basca experimentou um novo período de florescimento. Esse período é conhecido como Renascimento Basco (Eusko Pizkundea), marcado, sobretudo, pela organização dos Jogos Florais (Lore Jokoak), certames literários promotores e difusores da língua basca. Os Jogos Florais do País Basco peninsular tiveram por mecenas Dom José Manterola (1849-1884), fundador da revista Euskal-Erria (1880-84) e organizador da primeira antologia de poetas bascos, enquanto que no País Basco continental o grande mecenas dos Jogos Florais foi Antoine d'Abbadie (1810-1897), geógrafo francês-irlandês reconhecido por suas expedições à Etiópia durante a primeira metade do século XIX. Uma crítica pertinente aos Jogos Florais é que não teriam servido de vitrine para nenhuma obra de grande qualidade, embora seja incontestável sua importância para o renascimento da vida cultural basca. Nessa época, surgiram os primeiros movimentos que pregavam a necessidade de unificação da língua. As principais publicações do período, em torno das quais se agrupavam os literatos da época, eram a revista EuskalErria, publicada em Donostia-San Sebastián, e, no País Basco continental, as revistas Le Reveil Basque, republicana, e Escualduna, conservadora. Celuzlose 06 - Setembro 2010 45


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No que diz respeito à poesia, alcançaram fama as composições de Pierre Topet (1786-1862), conhecido sob o pseudônimo “Etxahun”, José María Iparraguirre (1820-1882), Jean Baptiste Elizanburu (1828-1891) e Felipe Arrese-Beitia (1841-1906). As obras destes poetas partilham um certo timbre elegíaco, tratando de temas bucólicos e nostálgicos, evocando uma realidade basca idealizada, mítica e por vezes periclitante ante a iminência de desaparecimento da língua. São autores claramente identificados com os princípios idealizadores dos Jogos Florais.

6. Primeiras décadas do século XX: Pré-Modernidade e Modernidade O impulso renascentista que teve início em fins do século XIX continuou nas três primeiras décadas do século XX. Surgiram inúmeras revistas (Revista Internacional de Estudios Vascos, Gure Herria, Euskal Esnalea etc.) e se formaram importantes associações culturais (Eusklatzaleen Biltzarra, Sociedad Euskaltzaleak). Em 1919, foi fundada a Euskaltzaindia/Real Academia de la Lengua Vasca, acontecimento de singular importância para o período. Seu primeiro presidente foi o clérigo Resurrección María de Azkue (1864-1951), autor prolífico em vários gêneros. O período é também caracterizado pelo surgimento do nacionalismo basco, que defendia a recuperação do idioma e a potencialização de sua literatura, apesar de que, na prática, fosse o castelhano a língua empregada por seus líderes e em sua propaganda. Sabino Arana (1865-1903), considerado o pai do nacionalismo basco e fundador do Eusko Alderdi Jeltzalea/Partido Nacionalista Vasco (EAJ-PNV), defendia um excessivo purismo do idioma, que se pode observar efetivamente em sua obra não política. A prosa realizada no período permaneceu ruralista e retratando costumes, sendo alguns dos principais autores José Manuel Echeita (1842-1915), Domingo Agirre (1864-1920) e Jean Barbier (1875-1931). Outros escritores dessas décadas foram Evaristo Bustintza “Kirikiño” (1886-1929), que publicou contos em dialeto biscainho em diversos periódicos, Jules Moulier “Oxobi” (1888-1958), poeta e fabulista em versos, Gregorio Múgica (1882-1931), diretor da revista Euskal-Esnalea, e Jean Echepare (1877-1935), médico e jornalista. No teatro surgiram autores como Toribio Alzaga (1861-1941), que dirigiu a Academia Municipal de Declamación Euskara, fundada em 1915, e Avelino Barriola (1886-1944), que consagrou o drama burguês basco abordando temas como dinheiro, religião e nacionalismo. Já a poesia do início desse século permaneceu substancialmente atrelada aos padrões dos Jogos Florais dos anos anteriores, predominando uma versificação devedora do bertsolarismo e uma temática em geral bucólica e saudosista. Destacaram-se poetas como Emeterio Arrese (1869-1954), Kepa Enbeita (1878-1942) e Pablo Zamarripa (1877-1950). Tal cenário começa, no entanto, a mudar radicalmente mais ou menos a partir da entrada da década de 1930, com o surgimento da geração poética da República (Errepublikako belaunaldia), integrada por Aitzol, Orixe, Lizardi e Lauaxeta.

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LAUAXETA (Laukiz, 1905 – Vitoria-Gasteiz, 1937)

A UM TRABALHADOR ASSASSINADO

(Tradução: Fábio Aristimunho Vargas)

I Langille eraildu bati

Minas vermelhas da Biscaia minha, ferida aberta na montanha verde! Ó mineiro do rosto tão moreno, carrega no ombro tua picareta. Tua afiada picareta no ombro ao sol vai reluzindo, morro abaixo. Vem na trilha – a manhã em tuas costas – até a fábrica do céu cinzento. Há rumores de greve pelas ruas – punhos cerrados, macacões azuis –. De sua parte, os patrões, sempre indolentes, contam com tua ajuda, ó telefone. Ó mineiro do rosto tão moreno, correm telefonemas pelos fios. Como reluzem tantas capas negras da guarda civil vindo pela trilha! E como se parelham a bandidos com seus longos fuzis trazidos no ombro! Minas vermelhas da Biscaia minha, ferida aberta na montanha verde!

I ¡Ene Bizkai'ko miatze gorri zauri zarae mendi ezian! Aurpegi balzdun miatzarijoi ator pikotxa lepo-ganian. Lepo-ganian pikotx zorrotza eguzki-diz-diz ta mendiz bera. Ator bideskaz, – goxa sorbaldan –, kezko zeruba yaukon olera. Opor-otsa dok txaide zabalan, – ukabil sendo, soñanzki urdin –. Jaubiak, barriz, nasai etzunda, laguntzat auke, i, urrutizkin. Aurpegi balzdun miatzarijoi ari bittartez deyak yabiltzak. ¡Bideskan zelan dirdir-yagijek txapel-okerren kapela baltzak! ¡Orreik yaukoen gaizkin-itxura sispa luziak lepo-ganian! ¡Ene Bizkai'ko miatze gorri, zauri zarae mendi ezian!

II Morro abaixo vai, entre quatro guardas, o mineiro do rosto tão moreno. Seus olhos negros são como punhais, mas que não podem irromper o cerco. Para onde carregam algemado esse teu corpo forte cor de ferro? Se tivesses coragem, molharias a picareta em sangue inimigo. Às margens do Nervião – tremor de trilhos –, quanto esforço, querendo libertar-se! Mas o seu grito não se pode ouvir devido ao ruído enérgico das fábricas! Os longos fuzis ficam fumegantes – há rumores de greve pelas ruas –. Ó mineiro do rosto tão moreno, hás de banhar-te no teu próprio sangue! Na Casa Gómez beberão os guardas civis, depois de tudo, o melhor vinho. Minas vermelhas da Biscaia minha, Poesias de Espanha: ferida aberta na montanha verde! das origens à Guerra Civil (São Paulo: Hedra, 2009).

II

1931

1931

Poesia Basca

Mendiz bera lau txapel-okerrez aurpegi balzdun miatzarija. Begi baltz orreik sastakai dozak baña zatittu ezin esija. ¿Noruntz aroe esku-lotuta burni margodun gorputz gogorroi? ¡Sendua ba'intz, etsai-odolez bustiko eunkek pikotx zorrotzoi! ¡Nerbion-ertzok, – tranbi-dardara –, azkatu-nayez, zenbat alegin! Baña olaen zarata-artian aren ayotsik adittu-ezin! Sispa luziak sutan yagozak, – opor-zaratak txaide zabalan –. ¡Aurpegi balzdun miatzarijoi igeri adi eure odolan...! Txapel-okerrak edango yabek ardao onena Gomez-etxian. ¡Ene Bizkai'ko miatze gorri, zauri zarae mendi ezian!

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Um grande impulsionador das letras no período republicano foi José de Ariztimuño Olaso (1896-1936), também conhecido como “Aitzol”, pseudônimo formado pela apócope de seus sobrenomes. Clérigo e jornalista, membro ativo e ideólogo do PNV, fundador da revista Yakintza, foi por muitos anos diretor da Sociedad Euskaltzaleak (Os amigos do euskara), onde se entregou com devoção pouco monástica ao renascimento da cultura basca. Desempenhando um papel singular como teórico e instigador dos rumos da nova poesia, atuou como organizador de concursos de bertsolarismo e promotor do EuskeraEguna (Dia da Língua Basca) e dos Olerki-egunak (Dias da Poesia Basca), entre diversas outras atividades de combate social e cultural. Em torno de Ariztimuño/Aitzol surgiria uma nova geração, a dos autodenominados Olerkariak (Os poetas), que começava a abrir horizontes totalmente novos, buscando um fazer poético mais elaborado e uma inédita arquitetura da versificação. Como grandes representantes da poesia produzida naquele momento destacaram-se Nicolás Ormaetxea “Orixe” (1888-1961), José María Aguirre “Lizardi” (1896-1933), Esteban Urkiaga “Lauaxeta” (1905-1937) e Luis de Jauregi “Jautarkol” (1896-1971). Lizardi e Lauaxeta são dois dos maiores poetas da língua basca de todos os tempos, responsáveis diretos por conduzir a literatura basca a uma irremediável Modernidade que tão bem lhe cai. Com o início da Guerra Civil, Ariztimuño/Aitzol refugiou-se em Labort, no País Basco continental. Tentando retornar de barco a Bilbao para se pôr às ordens do governo basco, junto com outras cem pessoas, foi detido por forças franquistas, preso, torturado e fuzilado no cemitério de Hernani em 17 de outubro de 1936. No ano seguinte, Lauaxeta também acaba preso por tropas franquistas, ao se dirigir a Guernica após o bombardeio, e é fuzilado em um cemitério de Vitoria-Gasteiz. Com o prematuro desaparecimento destas duas figuras encerrou-se um período de ouro da literatura basca.

7. Décadas de 1940 e 1950: a geração da continuidade O fim da Guerra Civil (1936-39) e a instauração de um regime centralizador na Espanha impuseram novos obstáculos à literatura basca. Nesse contexto de pós-guerra surgiu a chamada geração da continuidade, com quase todos os escritores bascos produzindo a partir do exílio, sobretudo na França e na América Latina, com uma pers-pectiva temática e estética em geral continuadora do pré-guerra. Durante toda a década de 1940 foi publicado somente um livro em língua basca no Estado Espanhol e, só em princípios dos anos 1950, a editora Itxaropena recebeu autorização para publicar em basco. Telesforo Monzón (1904-1981), conselheiro do Governo Basco no exílio e autor do poemário Urrundik (De longe, 1945), e Jokin Zaitegi (1906-1979), criador da revista Euzko-gogoa (1950-59) na Guatemala, tradutor dos gregos clássicos e autor do poemário Goldaketan (Arando, 1946), são os autores dos primeiros livros do pós-guerra editados no exílio. Salbatore Mitxelena (1919-1965), frei franciscano, publica em 1949 o longo poema Arantzazu, euskal poema (Aránzazu, poema basco), que põe fim a mais de uma década de silêncio literário no País Basco peninsular.

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Nicolas Ormaetxea “Orixe”, que fora um dos Olerkariak da geração da República, permanece ativo nesse período. Personagem controvertido entre seus contemporâneos, considerado por alguns o mais importante poeta de seu tempo embora não o melhor, Orixe publicou em 1950 seu poema épico Euskaldunak, respondendo, ainda que tardiamente, ao desafio romântico proposto por Ariztimuño/Aitzol de busca pelo “poema nacional”, uma obra fundamental que despertasse a consciência liguística e cultural da nação basca, a exemplo do que Mireio, de F. Mistral, e Kalevala, de E. Lönnrot, haviam feito pelo provençal e pelo finlandês. Da geração do pós-guerra destacam-se ainda, na poesia, Nemesio Etxaniz (1899-1982), poeta e responsável pela revista Egan, e Santiago Onaindia (1909-1997), fundador das revistas Karmel (1950) e Olerti (1959), além de tradutor da Odisséia e da Eneida para o basco. Já na prosa sobressaem nomes como Juan Antonio Irazusta (1881-1952), José de Eizaguirre (1881-1948), Eusebio Erkiaga (1912-1993) e Martin Ugalde (1921-2004).

8. A partir da década de 1960: renovação, ruptura e novos rumos A partir dos anos 1960 começa uma renovação estética, surgindo novos autores com novas inquietudes. Nessa ruptura, estes autores superam as temáticas folclóricas das gerações anteriores para se dedicar às problemáticas humanas e sociais contemporâneas, tudo coincidindo com as transformações sócio-econômicas que afetam o País Basco e com a recuperação da cultura e das artes. A Euskaltzaindia/Real Academia de la Lengua Vasca retomou, em 1968, o trabalho de unificação da língua basca, fato de inestimável importância para a literatura. São desenvolvidos importantes estudos linguísticos e sobre literatura basca, destacando-se em especial o papel do linguista Koldo Mitxelena (1915-1987) como grande artífice do processo de unificação. Os autores mais emblemáticos desse período, que fizeram eco de uma nova sensibilidade vinculada à cena política e cultural e que formaram a vanguarda da renovação estética, foram Jon Mirande (1925-1972), poeta basco-francês que vivia em Paris, que se destaca por sua poesia contestadora dos valores tradicionais, marcada pela ironia e frequentemente identificada com a estética do feio, e Gabriel Aresti (1933-1975), autor de Harri eta Herri (Pedra e povo, 1964), que cultivou uma poesia social e engajada, numa linguagem popular e que influenciou toda uma geração. Também convém mencionar Federico Krutwig (1921-1998), político e poeta de temática agnóstica e de ruptura com a literatura tradicional, que preconizou a luta armada, e Jean Diharce “Xabier Iratzeder” (1920- ), poeta e frei beneditino, que se dedicou à poesia religiosa. A partir de 1968, começou a se desenvolver uma poesia mais intimista, marcada pelo simbolismo. Destacam-se Juan María Lekuona (1927-2005), clérigo e membro da Euskaltzaindia/Real Academia de la Lengua Vasca, inicialmente influenciado pela poesia social de Aresti mas que enveredou sua lírica por outros caminhos; Bitoriano Gandiaga (1928-2001), frei franciscano, com um lirismo permeado por um certo “franciscanismo poético”, em que destacam os elementos da natureza e a simplicidade da linguagem, além de um tom contemplativo com temática religiosa, política e social.

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Da geração seguinte, mais próxima dos dias atuais, sobressaem José Antonio Hartzabal “Artze” (1939- ), poeta e músico, que praticou a poesia espacial e é autor do singelo poema Txoria, txori (O pássaro, esse pássaro), que, interpretado musicalmente por Mikel Laboa, se transformou numa famosa canção; Xabier Lete (1944- ), músico, político e poeta, que cultivou um lirismo existencial e de protesto; Koldo Izagirre (1953- ), poeta e importante tradutor de poesia basca para o castelhano; Bernardo Atxaga (1951- ), escritor de romance, poesia e teatro, membro da Euskaltzaindia/Real Academia de la Lengua Vasca, é um dos máximos expoentes da literatura basca, tendo sido traduzido para diversos idiomas; Joseba Sarrionandia (1958- ), autor de poesia, narrativa e ensaio, em 1985 escapou da prisão após ter sido condenado por ser membro do grupo ETA, e desde então se desconhece seu paradeiro embora continue escrevendo e publicando. A partir dos anos 1980, o panorama literário basco já se encontrava plenamente consolidado, com uma multiplicidade de vozes literárias dispersas em um volume de publicações anuais em constante crescimento.

Esse texto é uma adaptação da monografia Panorama histórico de la poesía vasca: una mirada lusohablante http://culturavasca.asmoz.org/index.php?option=com_content&view=article&id=68:aristimunho-vargas-fabio-2008-qpanorama-historico-de-la-poesia-vasca-una-mirada-lusohablanteq&catid=40:2007-2008&Itemid=59&lang=es

Clique aqui para ler a versão integral (Arquivo PDF em espanhol)

Fábio Aristimunho Vargas é escritor, professor e advogado. Bacharel em Direito e mestre em Direito Internacional (USP), doutorando em Teoria Literária (UFPR). Livros publicados: Medianeira (São Paulo: Quinze & Trinta, 2005) e Pré-datados (São Paulo: Lumme, 2010). Organizador e tradutor da antologia Poesias de Espanha: das origens à Guerra Civil, em quatro volumes: Poesia galega, Poesia espanhola, Poesia catalã e Poesia basca (São Paulo: Hedra, 2009). Como tradutor, publicou ainda La entrañable costumbre, do mexicano Luis Aguilar (Tlaquepaque: Mantis, 2008), e Canto desalojado, do uruguaio Alfredo Fressia (São Paulo: Lumme, 2010). Recebeu bolsa de residência em Barcelona para tradutores de literatura catalã (2009). Mantém o blogue Medianeiro http://medianeiro.blogspot.com

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Bibliografia ALDEKOA, Iñaki. Historia de la literatura vasca. Donostia: Erein, 2004. ARIZTIMUÑO, José de (“Aitzol”). Idazlan guztiak = Obras completas. 6 vols. San Sebastián: Erein, 1986–1988. ______. Itz-aurrea. Disponível em: <zubitegia.armiarma.com/aipa/mar/0190.htm>. Acessado em: abr.2008. ARNAUD D'OYHENART. Proverbes et poesies basques. Présentation et notes de Jean-Baptiste Orpustan; traduction espagnole de Fermintxo Arkotxa; annexe, Notes pour une édition critique et une traduction française des Poesies d'Oyhenart, de Renè Lafon. St. Etienne de Baigorri: Izpegi, 1992. BASQUE POETRY – Euskal poesiaren ataria / El portal de la poesía vasca. Disponible en: <www.basquepoetry.net>. Accedido en: abr.2008. BILLELABEITIA, Miren M.; KORTAZAR, Jon (Edición y Traducción). Euskal baladak eta kantu herrikoiak = Baladas y canciones tradicionales vascas. Edición bilingüe. Madrid: Atenea, 2002. BOSTAK BAT. Hiztegia 3000 = Diccionario 3000. Euskera–Castellano. Eusko Jaurlaritza / Gobierno Vasco. Disponible en: <www1.euskadi.net/hizt_3000>. Accedido en: mayo 2008. GARZIA, Joxerra. Basque oral ecology. In: Oral tradition, vol. 22, October 2007, number 2. p. 47–64. Disponible en: <journal.oraltradition.org>. Accedido en: abr.2008. EUSKALTZAINDIA / REAL ACADEMIA DE LA LENGUA VASCA. Euskal Onomastikaren Datutegia (EODA). Toponimia. Disponible en: <www.euskaltzaindia.net>. Accedido en: jun.2008. ______. Hiztegi Batua = Diccionario unificado. Disponible en: <www.euskaltzaindia.net>. Accedido en: mayo 2008. KORTAZAR, Jon. Diglosia y literatura vasca. Postgrado Especialista en Estudios Vascos: Ciencias Humanas, Sociales y Naturales. [S.l.]: Fundación Asmoz, [2007]. ______. Olhar milenarista sobre a literatura basca. In: Revista Cult, n. 46, maio de 2001. p. 55–57. KORTAZAR, Jon; ELORTZA, Jerardo (Coords.). Lengua y literatura. Postgrado Especialista en Estudios Vascos: Ciencias Humanas, Sociales y Naturales. [S.l.]: Fundación Asmoz, [2007]. MICHEL, Francisque. Le Pays Basque: sa population, sa langue, ses moeurs, sa littérature et sa musique. Paris: Librairie de Firmin Didit Frères, 1857. Digitalizado pelo Google. Disponible en: <books.google.com.br>. Accedido en: abr.2008. MITXELENA, Koldo. Textos arcaicos Vascos. Madrid: Minotauro, 1964. ZELAIETA, Angel. Rafael Micoleta Camudio: “Modo breue de aprender la lengua vizcayna”. Bilbao, 1653. Transcripción de la obra. Disponible en: <www.euskomedia.org>. Accedido en: mayo 2008.

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O que é

poesia?

Foto: Giorgio Rocha

O que é poesia?

Edson Cruz (Ilhéus, BA, Brasil) é poeta, editor e revisor. Estudou Psicologia, Música e Composição e, atualmente, estuda Letras na Universidade de São Paulo. Foi um dos fundadores do portal de literatura Cronópios (www.cronopios.com.br) e editor até maio de 2009. Livros publicados: Sortilégio (Demônio Negro/Annablume, 2007) e O que é poesia? (Confraria do Vento/Calibán, 2009). Blog: http://sambaquis.blogspot.com E-mail: sonartes@gmail.com 52 Celuzlose 06 - Setembro 2010


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O que é

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Calidoscópio da poética contemporânea A poesia é, de longe, a linguagem de maior potência de significação – “a mais condensada forma de expressão verbal”, no dizer de Pound –, e não é de espantar a variedade de leituras, de idiossincrasias, de práticas que permeiam a poética contemporânea e, evidente, a sua recepção. Tão diversas como o são os próprios seres e seus interesses. Ainda que todas as artes tenham a sua especificidade e complexidade, os poetas acreditam que a sua seja a mais complexa e inescrutável de todas. Bafejados pelas musas, os poetas são os seres mais suscetíveis do planeta. Eles carregam a responsabilidade, ou a pretensão, de serem as antenas da raça. E, cá pra nós, alguns realmente o são. Isso posto, perguntar-lhes à queima-roupa “o que é poesia?” poderia soar como provocação, ou, no mínimo, como um erro de avaliação e de foco. E, de fato, alguns assim o entenderam. No entanto, muitos poetas decidiram encarar o desafio da pergunta. Assim surgiu o projeto, no blog Sambaquis (http://sambaquis.blogspot.com), que instaurou o diálogo entre gerações, tradições, poetas e poéticas de forma despretensiosa e instigante. A consequência desse projeto é o livro O que é poesia?, editado pelos jovens valorosos da Confraria do Vento em parceria com a editora Calibán. No primeiro volume foram selecionados 45 poetas (de nacionalidade, calibragem e quilometragem diversas), porém, ainda há muitos outros que, possivelmente, farão parte de um segundo volume. Os poetas que agora integram esta seção da revista Celuzlose são alguns daqueles que, por motivos editoriais, não se fizeram presentes no primeiro volume do livro. Confira as respostas dadas por André Ricardo Aguiar, Lau Siqueira e Linaldo Guedes a esse velho e, ainda, legítimo questionamento.

Edson Cruz Organizador

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O que é

poesia?

André Ricardo Aguiar Nasceu em Itabaiana-PB em 1969. Atualmente, mora em João Pessoa. Cursou faculdade de jornalismo e letras. Começou com os livros de poemas A Flor em Construção e Alvenaria. Colaborou em revistas como Correio das Artes, Crispim, Poesia Sempre, Ficções (Portugal), Zunái, Cronópios e Germina. Ingressou na literatura infantil com O rato que roeu o rei (Rocco) e Pequenas reinações. Também editou um livro de crônicas, Bagagem Lírica. Blog Fora da Gaveta http://andrericardoaguiar.wordpress.com É membro do Clube do Conto da Paraíba. E-mail: diariodebordo@yahoo.com

O que é poesia para você?

Poesia é uma resposta com todas as perguntas por dentro.

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O que é

poesia?

O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Conviver de maneiras bem variadas com o mundo e com os livros, aceitar todas as leituras como um incessante vai e vem entre conhecer e desconhecer. Tirar proveito disso em qualquer dia. Exercer o ato da escrita como se dependesse do alimento. Como se andasse de bicicleta sem a angústia do destino. E só publicar de voz pensada.

Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?

Drummond, Pessoa e Jacques Prévert. De Drummond, “A máquina do mundo”; do Pessoa, os poemas heterônimos; de Prevért, “Para pintar o retrato de um pássaro” (Pour faire lê portrait d'um oiseau). Drummond, porque empreende um percurso vertical aos questionamentos do mundo e da linguagem; Pessoa, porque estreitou incessantemente o jogo entre espelhos; Prévert, pelos jogos lúdicos, pela linguagem pedindo espaço para brincar. Estes poetas oferecem direções não tão alinhadas, antes, trabalham um certo jeito torto de viver, um viver onde o literário adoece de vida.

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O que é

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Lau Siqueira Nasceu em Jaguarão (RS), 1957 e atualmente vive na Paraíba. Livros publicados: O comício das veias (junto a Joana Belarmino - Editora Idéia, 1993), O guardador de sorrisos (Editorial Trema, 1998), Sem meias palavras (Editora Idéia, 2002), Texto Sentido (Edições Bagaço, 2007). Blogs: http://poesia-sim-poesia.blogspot.com e http://lau-siqueira.blogspot.com E-mail: lausiqueira@yahoo.com

O que é poesia para você? Às vezes eu me pergunto exatamente o contrário: o que não é poesia pra mim? Pois sendo uma busca (talvez seja esta a minha melhor convicção), a poesia alimenta minhas andanças pelos labirintos e pelo horizonte infinito das linguagens. Por isso é tanto e ao mesmo tempo, nada. É como o ar que a gente nem vê e no alvoroço das coisas, não percebe que o que respiramos de forma refletida é o melhor dos alimentos. Penso que poesia é não ter medo do ridículo. Ou seja: é experimentar sempre, buscar sempre, mergulhar sempre... É estar no fio da navalha, entre o lírio e o ácido. Na verdade, a utopia do poeta. A poesia é um nó que não depende de nós.

O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira? Imagino Rimbaud respondendo esta sua questão. Ele sempre me deixou confuso sobre isso. Tenho um amigo que começou a escrever poemas (e bons poemas) aos 50 anos. Acho que nos dois casos, a poesia chegou antes. Ela já estava ali. Com 51 anos de poesia errante, eu próprio me sinto sempre iniciando. É como se em cada poema tudo estivesse recomeçando. Acho que todo poeta, em qualquer poema, está iniciando. E como um iniciante atento, você deve estar aberto às influências mais diversas, deve estar atento, respirando todas as perspectivas da arte e do mundo.

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O que é

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Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas? Preciso deixar claro que minhas escolhas são essas, mas também são outras. Portanto, vou à minha estante de poetas, agora, buscá-los meio que num faro aleatório, mas preciso, certeiro... Vou escolher três textos entre os quais recorro quando qualquer ausência me asfixia.

1 – GERALD MANLEY HOPKINS

2 – RONALDO AZEREDO

(tradução: Augusto de Campos)

PARAGEM-PARAÍSO Uma noviça toma o véu Quis ir para um lugar Onde não falte fonte, Nem grasse gelo áspero e bifronte; Só lírios para olhar. Pedi para ficar Onde o vento não ouse, Silente, a verde vaga ao porto pouse; Longe, o clamor do mar. Não apenas esse texto, mas tudo que eu li de Hopkins é referencial para o meu trabalho embora nem de longe eu cometa a heresia de querer chegar perto. Hopkins inventou possibilidades para que outros, em outras épocas, inventassem seus próprios caminhos na poesia. E eu, disciplinado, estou na fila. Nesse poema ele cria imagens inusitadas e propõe as reflexões profundas e diversificadas cada vez que leio.

Quando se fala em Poesia Concreta, geralmente, são os nomes dos geniais Augusto e Haroldo que aparecem. No máximo, um Pignatari. Muito justo! No entanto, criadores como Ronaldo Azeredo me ensinaram muito sobre a vvvvvvelocidade da linguagem poética. Este poema acima me impactou na primeira mirada e me ensinou a buscar na Poesia Concreta um elo com o futuro e não a veneração patologicamente oportunista e tolinha de alguns diluidores disfarçados de ema inventiva.

3 – LI PO (tradução: Cecília Meireles)

A DANÇARINA MEIO EMBRIAGADA A brisa faz ondular os nenúfares Cujo perfume vem embalsamar o palácio Erguido no meio do lago. Um pouco embriagada, Li-Si dança. De repente, cambaleia, apóia-se no leito de jade branco E sorri.

Com Li Po aprendi que a poesia é a verdadeira precursora da fotografia. Também aprendi que poesia tem cheiro e movimento. (Aliás, tenho sérias desconfianças disso.) Que outros melhores motivos eu teria? Celuzlose 06 - Setembro 2010 57


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O que é

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Linaldo Guedes Nasceu em Cajazeiras - PB, 1968. Poeta e jornalista. Livros de poesia publicados: Os zumbis também escutam blues e outros poemas (Textoarte Editora, 1998) e Intervalo Lírico (Dinâmica Editora, 2006). Lançou também Singular e Plural na poesia de Augusto dos Anjos (ensaio, Editora A União) e coorganizou os livros Correio das Artes, 50 anos (volumes de poesia e contos - Editoras A União e Universitária, 1999) e Diálogos (Editora Aboio, 2004). Atuou nos principais jornais de João Pessoa, como O Momento, Correio da Paraíba, Norte e A União, além de ter trabalhado na TV Tambaú e na Rádio Tabajara FM. Foi editor do Correio das Artes da Paraíba. É também professor de Literatura do ensino médio. Blog: http://linaldoguedes.blog.uol.com.br E-mail: linaldoguedes@uol.com.br

O que é poesia para você? Poesia é mais do que um estado de espírito, como apregoam alguns. Poesia é, antes de tudo, uma busca incessante pelo seu EU através da linguagem. Este EU não é apenas o indivíduo em si, mas, principalmente, a forma como ele se relaciona com o mundo. Afinal, nosso EU é forjado dentro do contexto social e cultural em que estamos inseridos. Poesia também é descoberta e surpresa. Descoberta dos potenciais da linguagem, sobretudo. E surpresa ao perceber que somos capazes de construir utopias apenas com palavras.

O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira? O iniciante deve perseguir preferencialmente a linguagem. Não a linguagem rebuscada, elitizada. Nem tampouco a linguagem sem consistência, vulgar. Falo de Linguagem como algo maior. Como a fonte de todo o bom poema. Linguagem esta que é adquirida através da leitura de livros e poetas. Sem preconceitos, o iniciante deve visitar autores de todas as escolas literárias, de todas as tendências. A partir daí, começar a criar seu estilo, que é fundamental em qualquer pessoa que se atreva a ser escritor ou poeta. O estilo é o próprio poeta, parodio Buffon. Dono de um estilo, o iniciante deve passar a ler também teoria e crítica literária, para moldar melhor sua poesia dentro daquele estilo que escolheu para escrever.

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Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?

Teria vários poetas, mas vou ficar em três brasileiros: Gregório de Matos, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. São três autores de tempos, escolas e épocas diferentes, mas fundamentais para uma melhor compreensão da importância da poesia brasileira no contexto atual. Em Gregório, vejo o pioneirismo poético, aliado ao seu estilo múltiplo, que ia do deboche ao erótico, sem esquecer do religioso e do político. Em Drummond, a multiplicidade de faces em sua poesia, a grandeza da metafísica e a permanência como o grande nome da poesia brasileira do século XX. E em Cabral, a consciência rigorosa da importância da linguagem e o Nordeste ecoando em seus versos com a secura do nosso clima. Citaria três textos referenciais de cada um desses poetas. De Gregório, o poema "A cada canto um grande conselheiro". Escolho este por representar uma crítica aos governantes da Bahia, mas, também, uma crítica, com muita perspicácia, à hipocrisia do indivíduo comum, quando diz “não sabem governar sua cozinha, mas podem governar o mundo inteiro". Como aquele velho ditado de que o macaco nunca dá fé do seu rabo, o poema ironiza com isso, com o fato de a pessoa ficar olhando a vida alheia e não reparar nos seus próprios erros. De Drummond, eu escolheria o “Poema de sete faces”. Publicado no primeiro livro do poeta, penso que ele representa um resumo de toda a poesia drummondiana. Estão nele o misticismo do anjo torto, o erotismo implícito (“a tarde talvez fosse azul não houvesse tantos desejos”), o cotidiano (“o bonde passa cheio de pernas...”), a solidão (“o homem atrás do bigode (...) tem poucos – raros – amigos”), o medo (“meu Deus porque me abandonaste”), a metafísica (“Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é o meu coração”) e a busca do prazer (mas essa lua, mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo). É um poema-síntese de todos os principais temas abordados na poesia de Drummond. E de Cabral, eu indicaria “Tecendo a manhã”, poema que é exemplo claro da perfeição do poeta na construção de sua linguagem poética. "Um galo sozinho não tece a manhã: ele precisará sempre de outros galos”, afirma o poeta. E a partir daí vai tecendo um dos poemas mais perfeitos da literatura brasileira. Não é a manhã que tece entre outros galos, como determina o poema. É Cabral que vai enredando sua teia poética entre outros poetas brasileiros e educando poeticamente, mesmo que para isso tenha que usar e abusar da metáfora da pedra.

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BELLE ,

FRESC HE

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E PUR PUREE

VIOLE

B e l le , f resche e purpur che qu ee viole ella ca , ndidiss ima m qual p an cols ioggia e, o qual puro ae tanti p r produ i첫 vag r volse hi fior' che far non su ole? Qual r ugiada , qual tante v terra o ver qua aghe be l sole l l e z z e in voi Onde il raccols suave o e d ? o r n atura o il ciel tolse, , che a tanto b en degn ar ne v uole? C a re m ie viole t t e, quel che vi e la man lesse in o tra l'a vi ha d ltre, ov i tante e eri, in eccellen sorte zie e pr egio orn ate. Quella che il c o r m i tolse, lo fe' ge e di vil ntile, a lano cui sia quella te cons adunq orte, ue, e n on altr i, ringr aziate .

Dirceu Villa Celuzlose 06 - Setembro 2010 61


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MENTE INTERA, VIRTÙ VERA: Lorenzo de’ Medici por Dirceu Villa

Não tenho NENHUM apreço ou admiração por figuras do poder, não importa de que lado estejam, ou mesmo se se acomodam num centro, imbecil & ilusório, entre aquelas duas imbecilidades extremas. Não me interessam, porque o pressuposto do poder é o poder, &, se esse é o pressuposto, está fora da órbita do meu interesse ou respeito: a mediocridade é o atoleiro comum desses tipos, quando não algo pior do que a mediocridade. Dito isso, tenho grande admiração por esse indivíduo, essa exceção à regra, Lorenzo de' Medici (1449-1492), alcunhado Il Magnifico. Vamos a um resumo bem grosso modo, bem rústico, dos eventos & da importância: nascido na poderosa família Medici, de Florença, seu avô Cosimo e seu pai Piero haviam sido signori da cidade anteriormente. Atraíram o ódio de outras famílias, de nobiliarquia que excedia em muito a dos Medici, espezinhados como meros mercadores & banqueiros, sem sangue azul. Uma dessas famílias, que recuava sua prosápia até, quem sabe? cruzados, ou mesmo vetustas casas senatoriais romanas? — eram os Pazzi. Pazzi, plural que vem de pazzo: louco, idiota. Cosimo, o pater patriae, avô de Laurentius, era homem mui prático, de cuja praticidade resulta, em parte, sua atividade de patrono das artes: é adequado ornar a cidade & é conveniente ser lembrado por mais do que mero dispêndio mesquinho & egoísta de dinheiro (o argumento claramente não vale para as classes altas no Brasil). Marxistas leem “burguês” por todo lado nessa história. Impressionado com Gemisthos Plethon — filósofo bizantino demasiado cioso de seus deuses olímpicos para se interessar por algo como cristianismo, q expôs a filosofia de Platão durante encontro em Florença, com presumível ardore —, Cosimo, já idoso, pede que o filho de seu médico, o também médico Marsilio Ficino, educadíssimo em grego & latim, traduza as obras daquele grego antigo, cuja língua ignora, para poder ler & se iluminar antes de bater as botas.

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Ficino mais tarde se lembraria do velho Plethon, associado a Platão, em seu prefácio à tradução das Enéadas do neoplatônico Plotino, como se lê no manuscrito iluminado da Biblioteca Laurenziana, em Firenze: cognomine Pletonem quasi Platonem alter, “de sobrenome Plethon, quase outro Platão”. Isso dá início a algo sem precedentes na história do pensamento e da arte ocidentais: o mundo se tornava uma refração das idéias, originais e divinas, & daí deus & os gregos fazem as pazes, cristianismo & filosofia grega insinuam uma concordância que irá, no próximo século & meio, mudar tudo. O cardeal Egidio da Viterbo (e ele era nada menos que um cardeal de l'Église catholique) escreveu por exemplo a Ficino dizendo como eram felizes, eles, que viviam o retorno de Saturno, a era de ouro. Piero, pai de Lorenzo, era um homem mediano & modesto; sofrendo de gota, & sem muito entusiasmo por qqer. coisa na vida, morre ainda jovem, deixando seus dois garotos (Lorenzo & Giuliano) à frente da cidade. Lorenzo, o mais velho, tem apenas vinte anos, embora já tenha sido ensaiado para o poder em embaixadas nas quais representava a cidade. Os Pazzi pensam, nesse momento, que eis aí uma fraqueza — ora, só dois moleques —, & durante a missa na catedral de Santa Maria del Fiore, os Pazzi & gente ligada a eles, como o bispo de Pisa, fazem atacar os dois Medici com facas: com mais de uma dezena de estocadas, Giuliano, o belo, fica estendido, sangrando & morto, no chão da igreja. Laurentius, por outro lado, recebe apenas um corte leve na garganta, & foge para trás de seus homens, junto do púlpito. Segue-se um acerto de contas que nos acostumamos a ver nos livros & filmes saídos das mãos de Mario Puzo. Parte desse ajuste a própria Florença fará, caçando os assassinos para os Medici. Um dos assassinos, Bernardo Bandini, fugido para Constantinopla & capturado mais tarde, será oferecido como presente a Lorenzo pelo sultão Mohamed II, do império otomano. Duas moedas são cunhadas: uma com a efígie de Giuliano, LVTVS PVBLICVS [luto público], & a outra com Lorenzo, SALVS PVBLICA [salvaguarda pública].

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Excomungado pelo papa, e suportando uma guerra, Lorenzo traz a famosa pax medicea com um truque notável: vai ele mesmo, sem escolta armada, a Ferdinando, rei de Nápoles, aliado do papa, para conseguir a paz: ou era assassinado por lá & se tornava um mártir, ou retornava com a paz estabelecida, porque de outra maneira o ônus da guerra cairia sobre Roma & Nápoles. Conseguiu a paz & o chamado “período áureo” para Florença & para as artes, como lemos Giorgio Vasari escrever no seu importantíssimo Le vite dei più eccelenti pittori, scultori ed architettori. Esse período áureo é o de poetas como Angelo Poliziano, filósofos como Marsilio Ficino e Pico della Mirandola, pintores, iluminadores e escultores como Domenico Ghirlandajo, Sandro Botticelli, Leonardo da Vinci e Michelangelo, apenas para destacar os nomes mais evidentes: Botticelli pintaria a Primavera e o Nascimento de Vênus para um primo de Lorenzo. Se v. for a Florença, e se caminhar pelas ruas & avenidas de pedra do centro istorico, se v. passar pelo magnífico átrio dos Uffizi que dá no Arno pela Ponte Vecchio, se caminhar dentro do Palazzo Pitti, que fica no Oltrarno, se entrar no Museo Nazionale del Bargello, achará Lorenzo representado uma ou outra vez, & com um robe, ou uma bata, em pé, meditativo, pintado e esculpido por Verrocchio, Bronzino, Vasari; no Pitti, v. o verá em meio aos filósofos, aos poetas, às Musas, enquanto os outros signori históricos de Florença aparecem por toda a cidade em armaduras, montados no esquema conhecido das figuras de poder, a estátua equestre. Mesmo se v. entrar no Cine Odeon, na Via de' Sassetti, perto do Palazzo Strozzi, v. verá, na parte superior acima da tela, os célebres versos da “Canzona di Bacco e Arïanna”, dos Canti Carnascialeschi do Magnifico: Quanto è bella giovinezza, che si fugge tuttavia. Chi vuole esser lieto, sia, di doman non c'è certezza. Que eu diria, em minha língua: Juventude e sua beleza que nos foge, todavia. Quem quiser, prove alegria, o amanhã não é certeza.

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Não é acaso a diferença notável nas obras públicas e panegíricas. Lorenzo foi poeta, & não dos fracos: Shakespeare o lê & o aproveita em uma de suas peças mais doces & ricas, A Midsummer Night's Dream; Lorenzo escreveu também um texto, hoje lido apenas por especialistas (hélas!), mas fundamental para a compreensão da poesia do Quattrocento & mesmo a dos três séculos seguintes, o Comento sopra alcuni dei suoi sonetti; Lorenzo integra também um importante diálogo filosófico escrito por Cristoforo Landino, o De Vita Activa & Contemplativa, no qual demonstra que o desejável é o equilíbrio. Maquiavel, no final das Istorie Fiorentine (capítulo 36 do libro ottavo) afirma que o quasi che divino Giovanni della Mirandola deixou sua terra e se estabeleceu em Florença pela generosidade de Lorenzo, que “amava qualquer um que fosse excelente em uma arte”, a mesma coisa que Vespasiano da Bisticci dissera de sua avô, Cosimo, naquele precioso livro para historiadores & abelhudos, o Vite di Uomini Illustri del Secolo XV. E uma coisa particularmente graciosa diz o signor Machiavelli: “Nem dele se poderiam aduzir vícios q. maculassem suas tantas virtudes (tante sue virtù), ainda que fosse nas coisas venusinas maravilhosamente envolto, e que se deleitasse com homens brincalhões & mordazes, e com jogos pueris, que a tal homem não pareciam convenientes, de maneira que foi visto muitas vezes, entre seus filhos e filhas, misturado em suas brincadeiras”. Se sabemos (e sabemos) que o discurso é obviamente condicionado pela retórica panegírica que constrói o personagem admirável, reconhecemos nas obras do próprio os motivos justos para que essa adulação não seja mero uso genérico. Há dois famosos provérbios toscanos de q. não devemos nos esquecer: um: Onestà e gentilezza, sopravanza ogni bellezza [Honestidade e gentileza superam qqer. beleza], e dois: Mente intera, virtù vera [Mente inteira, virtude verdadeira]. Lorenzo era um feio q. sabia o valor da beleza, & de como construir uma mente preparada para ela: a vida ativa e a contemplativa como o espelho uma da outra. Lemos suas cartas, & ele lutava para ser respeitado, que seus inimigos faziam questão de recordar sua nobreza recente. Lemos seus poemas, & ele era capaz de escrever os melhores poemas de gênero popular (os belos & muitas vezes hilariantes carnascialeschi, por exemplo), assim como a Altercazione, longo poema filosófico em terza rima, que expõe principalmente as idéias neoplatônicas de Marsilio Ficino, & os mais refinados sonetos, em companhia do seleto grupo de poetas que realmente escreveu sonetos que prestam.

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Traduzi dois poemas de Laurentius Medice (seu nome, de laurus, “louro” do latim, já parecia coroá-lo poeta, & muitas vezes se usou o trocadilho para bajulá-lo): um deles, o belíssimo “Lascia l'isola tua” parte de uma pequenina ode de Horácio (I, 30), uma prece para evocar Vênus junto com seu fervidus puer — o molequinho ardente Eros, ou Amor; no poema de Lorenzo, Vênus é evocada para acabar com a castidade à moda da deusa da caça, Diana. No outro, Lorenzo desdobra o mote de uma elegia latina de Poliziano, Molles o violae, veneres munuscula nostrae (Ó tenras violetas, presente da minha Vênus), numa pequena história do amor à distância.

Lorenzo sofria também de gota, como o desafortunado Piero, seu pai. Dizem que chamou Girolamo Savonarola, frade dominicano educadíssimo, mas verdadeiro fanático religioso de grande & contagiosa eloquência febril, para ouvir sua confissão & para a absolvição in extremis. Lorenzo se sentia culpado por, sendo banqueiro, operar o terrível pecado da usura, a ser punido com lava no outro mundo. Morreu em 1492, meses antes de Colombo descobrir a América. Dois anos depois (1494), envenenados por arsênico, morreriam dois de seus melhores amigos, Angelo Poliziano e Giovanni Pico della Mirandola. Fim do período de esplendor: Florença passaria às mãos inábeis de Savonarola com a invasão francesa. Ele faria sua famosa Fogueira das Vaidades, queimando livros & obras de arte em 1497; um ano depois, o próprio Savonarola seria frito na Piazza della Signoria, como se estivéssemos na Commedia dantesca & a lei fosse o contrapasso.

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Vamos aos poemas de Lorenzo sem demorar mais nesta brevíssima apresentação. Única coisa antes: direto do Comento, traduzi também o arrazoado de LM para o soneto: o q. é o soneto? Abaixo, a melhor resposta q. tenho lido, sobretudo porque depois, ainda, Lorenzo acrescentaria que a dificuldade é também musical, pois é fácil & perigoso escrever sonetos sem suono di versi. A musicalidade, nessa forma exígua, é também um exercício & um desafio para o ouvido treinado.

Gaudete, D.

Dirceu Villa nasceu em São Paulo em 1975. Livros publicados: MCMXCVIII (Badaró, 1998), Descort (vencedor do Nascente, Hedra, 2003), e Icterofagia (contemplado com o PAC, Hedra, 2008). Desenvolve atualmente tese de doutorado sobre a poesia dos séculos XV-XVI, de italianos e ingleses, e, paralelamente, uma ampla revisão dos cânones de poesia portuguesa e brasileira. Mantém o blog O Demônio Amarelo, de poesia e cultura http://odemonioamarelo.blogspot.com

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DO COMENTÁRIO SOBRE ALGUNS DE SEUS SONETOS É sentença de Platão que narrar breve e lucidamente muitas coisas não só parece admirável entre os homens, mas coisa quase divina. A brevidade do soneto não comporta sequer uma palavra em vão; e o verdadeiro assunto e matéria dos sonetos, por esse motivo, devem ser algumas sentenças agudas e gentis, narradas de modo conciso e restritas a poucos versos, fugindo à obscuridade e à dureza. Há grande semelhança e conformidade de estilo, dessa maneira, com o epigrama, quanto à agudeza da matéria e à destreza do estilo, mas o soneto é digno e capaz de sentenças mais graves, tornando-se, então, um tanto mais difícil. (...) As canções me parecem ter grande semelhança com a elegia (...) e por terem maior espaço em que possam vagar, não reputo tão difíceis quanto o soneto.

Tradução: Dirceu Villa

DEL COMENTO SOPRA ALCUNI DEI SUOI SONETTI È sentenzia di Platone che il narrare brevemente e dilucidamente molte cose non solo pare mirabile tra gli uomini, ma quasi cosa divina. La brevità del sonetto non comporta che una sola parola sia vana; e il vero subietto e materia de' sonetti per questa ragione debbe essere qualche acuta e gentile sentenzia, narrata attamente e in pochi versi ristretta, fuggendo la oscurità e durezza. Ha grande similitudine e conformità questo modo di stilo collo epigramma quanto all'acume della materia e alla destrezza dello stile, ma è degno e capace il sonetto di sentenzie più gravi, e però diventa tanto più difficile. (...) Le canzone mi pare abbino grande similitudine colla elegia (...) Le canzone ancora, per avere più larghi spazii dove possino vagare, non reputo tanto difficile stile quanto quello del sonetto.

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DEIXA AQUELA ILHA TUA TÃO DILETA Deixa aquela ilha tua tão dileta, deixa o teu reino belo e delicado, Ciprina deusa: vem sobre o relvado suave e verde em que um riacho deita. Vem a esta sombra que a brisa espreita, fazendo murmurar todas as árvores ao som doce e amoroso de suas aves e que esta por sua pátria seja eleita. E se tu vens a estas claras linfas, traz teu amado e caro filho contigo, que aqui não se conhece o seu valor. E tolhe a Diana as suas castas ninfas, que agora seguem leves, sem perigo, pouco prezando a virtude do Amor.

LASCIA L'ISOLA TUA TANTO DILETTA Lascia l' isola tua tanto diletta, lascia il tuo regno delicato e bello, Ciprigna dea, e vien sopra il ruscello che bagna la minuta e verde erbetta. Viene a quest' ombra ed alla dolce auretta che fa mormoreggiar ogni arbuscello, a' canti dolci d' amoroso augello; questa da te per patria sia eletta. E se tu vien tra queste chiare linfe, sia teco il tuo amato e caro figlio; chè qui non si conosce il suo valore. Togli a Diana le sue caste ninfe, che sciolte or vanno e senz' alcun periglio, poco pressando la virtù d' Amore.

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LASC

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Lascia

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TUA T

ANTO

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DILET

TA

l' isola

tua ta nto dil il tuo etta, regno d Ciprig e l icato e na dea bello, , e v ien sop che ba ra il ru gna la scello minut a e ver de erbe tta. Viene a ques t' omb ra ed a che fa lla dol mormo ce aur reggia a' can r etta ogni a ti dolc r b u s cello, i d' am questa oroso a ugello da te p ; er pat ria sia eletta . E se tu vien t ra que sia tec ste chi o il tu are lin o ama fe, to e ca chè qu ro figl i non s io; i conos ce il su o valo re. Togli a Diana le sue che sci caste n olte or infe, v a n no e se poco pr n z' alcu essand o la vi n perig rtÚ d' lio, Amore . lascia

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BELAS, FRESCAS, PURPÚREAS VIOLETAS

Belas, frescas, purpúreas violetas que aquela candidíssima mão colhe, qual chuva ou então qual puro ar escolhe tão belas flores pôr entre as eleitas? Que orvalho, sol, ou ainda qual terra tanta e vária beleza em vós recolhe? Onde natura o olor suave colhe, e o céu a tanto bem louvar se aferra? Minhas caras violetas, a mão vos elegeu entre outras, de tal sorte, que de excelência e graça as fez ornar. Aquela que colheu meu coração e de vil o fez gentil e seu consorte, é a quem deveis, não outra, sempre honrar.

BELLE, FRESCHE E PURPUREE VIOLE Belle, fresche e purpuree viole, che quella candidissima man colse, qual pioggia o qual puro aer produr volse tanti più vaghi fior' che far non suole? Qual rugiada, qual terra o ver qual sole tante vaghe bellezze in voi raccolse? Onde il suave odor natura tolse, o il ciel, che a tanto ben degnar ne vuole? Care mie violette, quella mano che vi elesse intra l'altre, ove eri, in sorte vi ha di tante eccellenzie e pregio ornate. Quella che il cor mi tolse, e di villano lo fe' gentile, a cui siate consorte, quella adunque, e non altri, ringraziate.

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BELLE

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Belle, f resche e purpur che qu ee viole e l l a ca , ndidiss ima m qual p an cols ioggia e, o qual puro ae tanti p r produ i첫 vag r volse hi fior' che far non su ole? Qual r ugiada , qual tante v terra o ver qua aghe be l sole llezze i Onde il n voi ra suave o ccolse? dor nat o il ciel u r a tolse, , che a tanto b en degn ar ne v uole? Care m ie viole t t e, qu che vi e ella ma lesse in no t r a l'alt vi ha d r e, ove e i tante ri, in so eccellen rte zie e pr egio orn ate. Quella che il c or mi to lo fe' ge lse, e d i ntile, a villan cui sia o quella t e consor adunq t e, ue, e n on altr i, ringr aziate .

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LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

Foto: Nina Lacaz

Guto Lacaz Nasceu em São Paulo/SP, 1948. Arquiteto e artista plástico. Estudou Eletrônica Industrial pelo Liceu Eduardo Prado (1970) e Arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São José dos Campos (1974). Entre 1978 e 1984, lecionou Comunicação Visual e Desenho de Arquitetura na Faculdade de Artes Plásticas da PUC de Campinas. Criou, produziu e apresentou Eletro-Performance (1983/2008); Estranha Descoberta Acidental (1984); Máquinas I a V (1999/2009), entre outras. Livros publicados: Desculpe a Letra (2005), Gráfica + Inveja (2007) e omemhobjeto (2009). Site: www.gutolacaz.com.br

CRUSHFIXO

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LÓGICO EQUILÍBRIO

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PASSEIO NO INFINITO

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ISAAC NEWTON / ALBERT EINSTEIN

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ORGASMO MÚLTIPLO

CÓDIGO DE BARRAS 78 Celuzlose 06 - Setembro 2010


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LILIAN

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SÉRIE PARES / ÍMPARES

Foto: Edson Kumasaka

LUPA / TELESCÓPIO

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Foto: Edson Kumasaka

CAVALO / PITÃO

Foto: Edson Kumasaka

AMPULHETA / RELÓGIO

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THE BOOK IS ON THE TABLE

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PASTA COM PÁSSARO

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