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celuzlo se Revista

Literรกria

04 ~ Marรงo 2010


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Índice

Entre ? ! vista

Carlos Felipe Moisés

BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

Ademir Assunção Anderson Fonseca Andréa del Fuego André Dick Dirceu Villa

Eunice Arruda Fábio Aristimunho Vargas Lilian Aquino Pedro Américo de Farias Renan Nuernberger

46

GEO

Alfredo Fressia (Uruguai / Brasil) Joan Navarro (Espanha)

Caderno

18

Reynaldo Bessa Rodrigo Garcia Lopes Victor Paes Wellington de Melo

Literatura sem Fronteiras Pere Salinas (Espanha) Reynaldo Jiménez (Peru / Argentina)

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Crítico

Dialética da transgressão - por Carlos Felipe Moisés Ferreira Gullar: em que se apoia tal arquitetura? - por Dirceu Villa

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72 Edson Cruz (Organizador) Márcio-André (Depoimento)

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?

O que é

Alfredo Fressia Reynaldo Bessa Sylvio Back

LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

Ricardo Aleixo Pipol

celuzlo se # 04 ~ Março 2010 Expediente Editor: Victor Del Franco Projeto Gráfico, Diagramação e Revisão: Victor Del Franco

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poesia?

Colaboraram com esta edição: Ademir Assunção / Alfredo Fressia Anderson Fonseca / Andréa del Fuego André Dick / Carlos Felipe Moisés Dirceu Villa / Edson Cruz / Eunice Arruda Fábio Aristimunho Vargas / Joan Navarro Lilian Aquino / Márcio-André Pedro Américo de Farias / Pere Salinas Pipol / Renan Nuernberger Reynaldo Bessa / Reynaldo Jiménez Ricardo Aleixo / Rodrigo Garcia Lopes Sylvio Back / Victor Paes Wellington de Melo

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Contato: celuzlose@gmail.com

Os textos desta revista poderão ser usados para fins não comerciais, desde que sejam citados os nomes dos autores, o nome da revista e o link correspondente.


Editorial Os sentidos da visão Muitas são as formas de ver e observar os aspectos da vida, e dentre as diversas formas de ver, a poesia talvez seja a mais significativa. E quando digo poesia, não estou me referindo apenas àquela que se encontra nos versos de um poema, mas, também e sobretudo, àquela que está presente nas incontáveis manifestações da linguagem: seja na música ou no cinema, nos mitos de origem ou na busca pela compreensão das estrelas e partículas; os exemplos são múltiplos e variados, até mesmo em um belo e inesperado lance de futebol existe poesia. Nesta edição, entre outros assuntos, Carlos Felipe Moisés aborda a questão da poesia como uma forma de ensino e conhecimento, a poesia que ensina a ver como se fosse pela primeira vez, ou, segundo as palavras de Alberto Caeiro: O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do mundo... Boa leitura. Victor Del Franco Editor

Celuzlose 03 Clique aqui a para ler a 3 edição

No fechamento desta edição ocorreu o falecimento de José Mindlin, portanto, em memória, segue abaixo novamente o link para a versão digital da http://www.brasiliana.usp.br

http://issuu.com/celuzlose/docs/celuzlose_03

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Carlos Felipe Moisés

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Ver como se fosse pela primeira Vez Poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta. É mestre e doutor em Letras Clássicas e Vernáculas (USP). Entre alguns de seus livros publicados estão: Noite nula (poemas, 2008), Lição de casa & poemas anteriores (poemas, 1998), Poesia e utopia (ensaios, 2007) e Alta traição (traduções, 2005). Nesta entrevista, ele fala de sua relação com os poetas que fizeram parte da Coleção dos Novíssimos, o seu interesse pela obra de Fernando Pessoa, o convívio com José Paulo Paes e, também, sobre a organização do seu próximo livro de ensaios, Dialética da transgressão, que será lançado em 2010.

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A poesia é uma forma de ensino? E em que sentido essa forma de ensino está relacionada com a poesia? Essa é uma questão delicada e controvertida, mas capital. Dediquei a ela todo um capítulo de um livro saído uns anos atrás (Poesia e utopia), e acho excelente a oportunidade que você me oferece de voltar a ela. Não hesito em afirmar que poesia é uma espécie, a mais eficiente, de pedagogia, embora isso talvez choque um pouco as pessoas acostumadas a pensar em “pedagogia” como ciência, quase sempre excessivamente teórica. O caráter pedagógico da poesia é substancialmente prático e não tem nada de “científico”. A linguagem poética, independentemente de época, estilo, gênero etc., parte do pressuposto de que o que nós conhecemos, ou sabemos, ou vemos das coisas (de todas as coisas, dentro e fora) é sempre falso, incompleto, unilateral, distorcido. Poesia é uma forma de conhecimento que nos aproxima do mundo, que nos coloca mais perto das coisas, tornando-as mais claras, mais humanas embora clareza e humanidade muitas vezes nos deixem aturdidos, perplexos. Para a maioria das pessoas, o conhecimento científico do mundo, e não a poesia, é que nos aproxima das coisas; segundo essa visão, poesia é escapismo, não nos leva a “conhecer” nada e só nos convida a derivar para o universo paralelo do sonho e da fantasia. Eu penso que é exatamente ao contrário: o conhecimento poético é que nos aproxima das coisas; a ortodoxia do conhecimento científico só promove afastamento e alienação. O cientista, no seu afã de conhecer, está sempre no encalço de certezas, por isso rechaça a perplexidade e o aturdimento promovidos pelo conhecimento verdadeiro. O poeta, ao contrário, se alimenta da incerteza, da dúvida, da consciência de que tudo é ambíguo. E virtualmente inapreensível - mas encara isso como um motivo a mais para insistir em chegar lá, quer dizer, chegar ao âmago de todas as coisas, à sua essência, ao seu sentido mais autêntico. Por isso a lição número um da pedagogia poética é, como ensina mestre Alberto Caeiro, aprender a desaprender (ele fala em “uma aprendizagem de desaprender”). Desaprender o quê? Tudo aquilo que a ciência cautelosa e unilateral nos tenha ensinado, isto é, todas as certezas, todas as verdades falsamente definitivas. Só assim conseguiremos, quem sabe, ver o que as coisas 06 Celuzlose 04 - Março 2010

de fato são. Daí então essa ideia de que a poesia nos ensina a ver como se fosse pela primeira vez, ou seja, nos induz a olhar para as coisas com a liberdade e a plenitude de quem se livrou dos pressupostos, dos prejulgamentos e prejuízos que nos fazem enxergar nas coisas não aquilo que de fato está diante de nós, mas a “ideia” ou o “conceito” que a ciência quer que enxerguemos. O conhecimento poético não está interessado em ideias e conceitos, mas em realidades. Sendo assim, alguém dirá, a poesia não se aproxima perigosamente da filosofia? Eu não teria como negar, é isso mesmo, embora isto não se aplique a toda e qualquer poesia. E ainda acrescentaria: não foi por outra razão que Platão não quis saber de poetas na República. Como foi a sua aproximação com os poetas que fizeram parte da Coleção dos Novíssimos, e de que maneira você avalia essa convivência (no contexto político e cultural dos anos 1960) na sua formação poética? Foi por acaso. Em 1959, aos 17, eu terminava o colegial e um amigo, que trabalhava na gráfica do Massao Ohno, me levou até ele. Por seu intermédio, vim a conhecer os poetas da geração: Roberto Piva, Eunice Arruda, Paulo Del Greco, Eduardo Alves da Costa, Álvaro Alves de Faria e alguns outros, como o Cláudio Willer e o Antônio Fernando De Franceschi, por exemplo, que nessa altura ainda não se diziam poetas. Passamos a conviver, com alguma regularidade, todos ali à espera de que a “Coleção dos Novíssimos” nos tirasse do anonimato, o que começou a acontecer em 1960. Para mim, foi ótimo compartilhar com gente da minha idade umas inquietações que eu nem sabia que eram ou podiam ser “literárias”, e que até então eu só dividia com os amigos do colégio. A enorme heterogeneidade de gostos, temperamentos, perfis e experiências impediu que formássemos propriamente um “grupo”. Só o que nos unia era a circunstância da “Coleção”, a coincidência da idade e uma certa rebeldia, de matizes muito variados. O Massao, que idealizou a “Coleção” e a dirigiu enquanto durou (em 1964, esta já não existia), nunca se preocupou em definir ele próprio, ou em extrair de nós, um ideário, uma plataforma, um programa, ou qualquer coisa equivalente, que funcionasse como denominador comum. A “Coleção” é tão ou mais heterogênea do que já éramos por conta própria, e o


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Massao se incumbiu de acrescentar, à “Coleção” e à Antologia dos Novíssimos (de 1961), mais alguns nomes, que nós nem conhecíamos. (“Nós” são os nomes mencionados acima, aos quais, nos anos seguintes, foram-se acrescentando: Celso Luiz Paulini, Décio Bar, Bruno Tolentino, Lindolf Bell, Neide Archanjo e outros). A rebeldia, a que me referi antes, tinha que ver com a idade (éramos todos adolescentes) e um pouco também com a efervescência do período, no país todo. Acho que só fomos nos preocupar com o “contexto político e cultural” da época, não coletivamente mas cada um por si, depois do Golpe de 64, quando a “Coleção” já tinha deixado de existir. Por este e outros fatores, acho que foi uma geração condenada à dispersão, embora esses anos (a primeira metade da década de 1960) tivessem sido decisivos para a nossa formação - aliás tão variada e heterogênea quanto o permitiu a dispersividade que ocasionalmente nos reuniu em torno do editor Massao Ohno. De minha parte, sempre me recusei a fazer uma “análise” desse processo, seja do ponto de vista estritamente estético-literário, seja do ponto de vista cultural ou ideológico: acho que isso só deverá ser feito, se o for, um dia, por alguém de fora. Na Antologia Poética da Geração 60, da qual você é um dos organizadores, é interessante notar que os poetas reunidos no livro não participavam de nenhum “programa” ou “movimento literário” mas naquelas páginas estão representadas individualidades com linguagens e estilos diversos. Atualmente, essa percepção da diversidade se tornou ainda mais evidente. Isso é um sinal de que os “ismos” foram deixados de lado para se tornarem referências históricas? Essa antologia foi lançada no ano 2000, para assinalar os 40 anos da “Coleção dos Novíssimos”. A idéia tinha surgido 10 anos antes (incentivada pelo Cláudio Willer, com o endosso de quase todos os nomes mencionados antes) e eu fui contra, pela razão já exposta. Eu achava, e continuo achando, que isso deveria ser feito por alguém de fora, não por nós próprios. Não só por isso, claro, aconteceu naquela altura que a idéia não foi adiante. Uma década depois, o projeto renasceu: os amigos não só insistiram, mas me incumbiram da tarefa. Eu acabei aceitando, com a condição de dividir a responsabilidade com o

Álvaro Alves de Faria, que - eu sabia - tinha uma sólida documentação do que havia rolado naqueles 40 anos. Propus então, e o Álvaro concordou, que não seria uma antologia seletiva, mas deveria basear-se no mesmo argumento anterior: só alguém de fora teria a isenção necessária para selecionar o “melhor” que essa geração havia produzido, para decidir quem merecia “ficar” ou não. Nós faríamos um trabalho tanto quanto possível neutro, abrindo mão de “julgar”. Foi fixado um critério de inclusão, meramente cronológico (entraram na antologia todos os poetas que estrearam em São Paulo, entre 1960 e 1970, pelas mãos do Massao Ohno ou de outro editor), e não excluímos ninguém que estivesse nesse caso. Eu e o Álvaro lamentamos que, com isso, bons poetas que tinham estreado nos anos 50, ou dos 70 em diante, ficassem de fora. Mas nossa incumbência era uma antologia da “geração 60”, então era necessário estabelecer um limite cronológico. Conseguimos então reunir 132 livros de poesia, o saldo da geração que havia estreado na década de 60 - e, claro, reunidos todos os títulos publicados por esses autores, até 2000. O passo seguinte foi eu e o Álvaro escolhermos, de comum acordo, uma mostra representativa de cada um desses livros, que depois resolvemos ordenar não autor por autor (são 30 ao todo), mas por décadas. Essa Antologia poética da geração 60 é, assim, uma antologia tão neutra quanto possível - à espera de que algum crítico-historiador se debruce sobre ela (e, claro, sobre a íntegra de todos os livros ali representados), a fim de emitir, a respeito dessa geração, os juízos de valor cabíveis. É este, aliás, o estado em que se encontra, não só a poesia dos que estrearam em São Paulo nos anos 60, mas toda a poesia brasileira desses anos em diante, igualmente à espera de que alguém venha a contar a verdadeira história do que vem acontecendo, nessa área, no País. Só assim deixaremos de insistir naquela insuficiente história linear de (falsos) “ismos” que se sucedem, graças à pressão dos lobbies geracionais ou grupais. Na antologia que organizamos, eu e o Álvaro nos recusamos a promover algo semelhante, em favor da nossa geração. Enquanto não ganhar corpo a visão de fora, crítica e isenta, que todos aguardamos, nem os “ismos” serão deixados de lado, nem as individualidades que de fato o mereçam se tornarão referências históricas. Celuzlose 04 - Março 2010 07


Entre ? ! vista Um dos focos principais do seu trabalho de crítico literário é a obra de Fernando Pessoa. Como surgiu esse interesse e com qual (ou quais) dos heterônimos você possui maior identificação? Meu primeiro contato com Fernando Pessoa, lá pelos 16 anos, se deu através de uma antologia organizada por Adolfo Casais Monteiro, lançada em 1958, na coleção “Nossos Clássicos” da Agir. Foi um impacto muito forte, identificação plena, a descoberta de que poesia, além de registrar sentimentos, emoções, experiência de vida e por aí vai, pode abrigar, também, raciocínio, reflexão, especulação intelectual, não “ao lado de”, mas “dentro de”. Foi esse o teor do primeiro impacto, aliás expresso pelo próprio poeta naquele verso famoso que diz “O que em mim sente está pensando”. Foi a descoberta da possibilidade de uma poesia impregnada de filosofia, poesia como forma de conhecimento. Daí provém o resto: dúvida, ceticismo, ironia, busca ansiosa de alguma verdade que possa resistir à análise crítica, mesmo sabendo que isso não existe; e mais: revolta, angústia, nenhuma complacência consigo mesmo, rigor extremo, e muita imagi-

nação. Os heterônimos apareceram para mim, desde a primeira leitura, como uma genial criação ficcional, variação de personalidades, cada qual absolutamente convincente, coerente consigo mesma. A ficção dos heterônimos é representação metafórica das inevitáveis e fundas contradições do homem moderno. No começo, a identificação mais forte foi com Álvaro de Campos - consciência nervosa, inquieta, contraditória, passeando seu desespero pelos meandros da tradição cultural, sobretudo filosófica, e pelos cenários fragmentados da vida moderna e cosmopolita. Quase ao mesmo tempo, Alberto Caeiro - pelo contraste, pela ironia metafísica de uma consciência “natural”, em paz consigo mesma e com o mundo, graças à negação do pensamento (só da boca pra fora) e à valorização exclusiva dos sentidos, sobretudo a visão. De início, senti dificuldade em sintonizar com as odes clássicas do Ricardo Reis, com o lirismo tradicionalista do ortônimo, com a erudição histórica da Mensagem, os poemas ingleses etc. Depois, aos poucos, fui começando a apreciar essas outras facetas, e não fazia ideia de que seria tarefa para toda a vida: meu entusiasmo por Fernando Pessoa só tem feito crescer, até hoje.

“Foi a descoberta da possibilidade de uma poesia impregnada de filosofia, poesia como forma de conhecimento.”

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Em seu ensaio “Dialética da transgressão” você desenvolve uma reflexão sobre os caminhos da literatura contemporânea. Gostaria que você falasse um pouco sobre esse ensaio e os seus desdobramentos. Transgredir, ou seja, rebelar-se contra todas as regras e normas, tem sido desde sempre (isso não é nada novo, “transgressão” não é privilégio da modernidade) a condição de sobrevivência de todo e qualquer sistema, de toda e qualquer tradição: é preciso subvertê-los, minar-lhes as bases, inovar, em suma, para que o processo histórico siga adiante. Sem transgressão, o que há é estagnação. Isso significa que o ato transgressor só faz sentido se houver reação, repulsa, resistência contra as mudanças. A transgressão depende da conservação: uma não sobrevive sem a outra. É isso o que pretendo dizer com o “dialética” do título. A transgressão só faz sentido se provocar, em larga escala, choque, escândalo, indignação. O que acontece, então, no nosso tempo, em que ninguém mais, nas artes e fora delas, se choca, se escandaliza com mais nada? O que acontece numa sociedade e numa cultura como a nossa, à beira da anestesia geral, indiferente a tudo? O que acontece numa sociedade que, há décadas, passou a aplaudir e a aprovar, antes de averiguar de que se trata, toda e qualquer espécie de transgressão? O que acontece numa cultura como a nossa, em que transgredir passou a ser regra universal, praticada obediente e protocolarmente por todas as pessoas, em todas as esferas de atividade? Esse ensaio, publicado em versão resumida na revista Dicta & Contradicta, coloca essas questões, e outras, analisa-as historicamente, e conclui: essa transgressão burocratizada que temos hoje, transformada em norma inquestionável, perdeu o sentido, já não transgride mais nada. É só pensar na platitude quase-idiota com que as pessoas, hoje, empregam a toda hora, com ou sem pretexto (quase sempre, sem) a expressão “quebrar os paradigmas” (quando muito alternam para “romper com”), reduzida a mero clichê, totalmente esvaziado de sentido. Nosso tempo, construído sob a égide da mudança, da inovação, ou da transgressão, se tornou, paradoxalmente, um tempo estagnado. Minha intenção era só expor essa visão da modernidade, em sintonia com o que uma quantidade de críticos já havia observado, como Umberto Eco, T.S. Eliot,

Theodor Adorno, W.H. Auden e muitos outros. Mas, publicado o ensaio, as reações de alguns amigos me mostraram que ainda havia aí muito pano pra manga. As questões implicadas nessa visão eram (são) complexas demais para ficarem contidas num único ensaio, ainda que fosse um enorme texto de 20 páginas (o que saiu na revista é menorzinho). Comecei, então, cerca de dois anos atrás, a desenvolver uma série de temas correlatos, ligados à poesia, ao verso livre, à concepção linear da história, ao fetiche do “novo”, à literatura marginal, à diluição dos gêneros literários, à teoria da “desconstrução”, à academização das vanguardas e por aí vai. Quer dizer, escrito o primeiro ensaio, comecei a escrever um livro inteiro. E me dei conta de que essas questões não estavam no meu espírito só a partir desse ensaio inicial: vários artigos e textos avulsos, escritos 10, 20 anos antes, que eu tinha publicado em jornais e revistas, já lidavam, direta ou indiretamente, com essas mesmas questões. Constatei que, para mim, os impasses e becos-sem-saída da transgressão eram uma obsessão antiga. Tirei tudo então da gaveta, espalhei na mesa, passei tudo a limpo, mesclei aos vários ensaios, muitos inéditos, escritos nos últimos dois ou três anos, e o resultado é um livro, o mais volumoso que já escrevi (deu mais de 300 páginas), intitulado exatamente Dialética da transgressão, que acabo de encaminhar ao editor. Deve sair agora em 2010. É um livro que mostra, com a clareza de que sou capaz, o que penso a respeito de literatura moderna, essa que vem sendo produzida há mais de século, sob o signo da transgressão.

Leia nesta edição a versão integral do ensaio Dialética da transgressão (

(páginas 54 a 67)

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A imagem da noite sempre foi recorrente em seus poemas, desde o primeiro livro A poliflauta ao mais recente Noite nula. Até mesmo em Urna diurna a imagem da noite tem uma presença marcante. Seria certo afirmar que esse binômio “noite-dia” compõe a tensão predominante em seus versos? É possível que sim, eu não saberia dizer. Ao longo dos anos, vim desenvolvendo uma certa capacidade de analisar a poesia alheia, seja pelo prazer que isso me dá, seja por imposição profissional (aulas, artigos, prefácios etc.); ou seja, desde cedo me atraiu ir descobrindo, nos meandros e entrelinhas da poesia alheia, as constantes, as obsessões (todo poeta tem as suas), aquelas marcas fortes que individualizam o estilo de cada um. Mas nunca achei que valesse a pena fazer a mesma coisa com a minha própria poesia. Você está certo, a noite com seus derivados deve ser mesmo uma das minhas obsessões, tem que ver com as incertezas diante do desconhecido, certa propensão fatalista, impregnada de ceticismo, que me acompanha desde sempre. Mas desde sempre, também, a imagem da noite costuma ocorrer em associação com seu contraponto, o dia, representação de uma cega esperança em algo mais forte que as fatalidades. A tensão noite-dia tem que ver também (eu nunca tinha pensado nisso, você me instiga a fazê-lo) com a alternância entre revolta e aceitação, exasperação e tranquilidade, que estão sempre aí, se digladiando nos meus versos, sem que nenhuma consiga impor-se à outra. Se não for a tensão predominante, é uma delas. Você conheceu e teve contato direto com José Paulo Paes. Esse contato se transformou em influência ou se refletiu de alguma forma no seu modo de escrever? Meu convívio com o José Paulo vem do tempo em que eu tinha acabado de estrear e de entrar na faculdade, início dos anos 60. Nos conhecemos lá na Editora Cultrix, que ele dirigia, e convivemos harmoniosamente, com imenso proveito para mim, por mais de 30 anos. Logo de cara ele me lisonjeou, confiando-me umas traduções e outras tarefas. Ele era um escritor mais velho, muito mais experiente, mas nunca tirou partido disso, nunca se vangloriou, nunca sequer ameaçou fazer a minha cabeça, para me transformar num discípulo seu. Aos poucos fui-me dando conta de que isso não era um tratamento especial, uma concessão 10 Celuzlose 04 - Março 2010

que ele fizesse a mim. O Zé Paulo era assim mesmo com toda a gente, de qualquer idade, um homem que sabia respeitar as diferenças, que não fazia questão nenhuma de ensinar nada a ninguém. E o que ele teria a ensinar - como poeta, crítico, tradutor, editor - era imensurável. Acho que exatamente por isso ele me ensinou muito, a mim e a dezenas de amigos, que ele acolhia sempre com generosidade e atenção. Se eu fosse enumerar o que aprendi com ele, precisaria de umas duas ou três laudas. Então fico só com a lição maior que ele me passou, sem jamais ter dito uma só palavra a respeito: um homem não deve imaginar-se nem maior nem menor do que de fato é, não deve aumentar nem diminuir a importância que tenha, que quase sempre é quase nenhuma. O trabalho do tradutor é uma “Alta traição” bem resolvida? A intenção é que seja bem resolvida, mas isso é tão difícil, não é mesmo? Traduzir (uma das lições que aprendi com o Zé Paulo) nunca chegou a ser, para mim, uma tarefa a que eu me dedicasse de forma sistemática. Traduzir prosa ensaística, como Que é a literatura?, do Sartre, O Poder do Mito, do Campbell, ou Tudo o que é sólido desmancha no ar, do Marshall Berman ou História da polidez, do Frédéric Rouvillois (livros que traduzi com satisfação), é sempre um prazer, e as dificuldades se resolvem mais ou menos bem. O problema é traduzir poesia. Aí você não tem como escapar da “traição”. Também, pudera, convivendo com Zé Paulo Paes, acompanhando de perto as maravilhas de que ele era capaz como tradutor de poesia, eu pensava: isso não é para o meu bico. Então, ao longo dos anos, como mero exercício, só para calibrar a mão, fui traduzindo um poema aqui, outro ali, e ia largando tudo na gaveta. Cheguei até a publicar algumas dessas traduções, avulsas, em revistas, mas nunca pensei em traduzir um livro inteiro, de qualquer poeta. Um dia, mostrei alguns desses poemas a um amigo, o poeta, editor e também tradutor Reynaldo Damazio, ele se interessou, me incentivou, eu topei o desafio e me dediquei a retrabalhar aquele material todo. O resultado foi essa coletânea, com o título Alta traição, onde entra uma variedade de poetas, de língua inglesa, francesa ou espanhola. Não sei se as “traições” que eu cometi estão bem resolvidas, mas elas pelo menos tornam acessíveis, com um mínimo de dignidade, poemas que não chegariam ao conhecimento de leitores que não leiam em outras línguas.


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MOZART Italiana abraçada ao nobre da Baviera, Cujo olhar glacial se entrega ao seu langor... Ele afaga, nos frios jardins, com ardor, Seus seios túrgidos, à sombra da quimera. Entre suspiros de germânica ternura, Ele degusta, enfim, a preguiça de amar, Feliz de poder às frágeis mãos confiar A esperança da mente imersa na lonjura. Querubim, D. Juan, a lembrança mundana Vagueia, e ele tanto pisoteou as flores Que o vento se desfez, sem aplacar as dores Do jardim andaluz, túmulos de Toscana.

RETRATOS DE PINTORES E MÚSICOS (Uma tradução da série de poemas de Marcel Proust)

E no parque alemão, onde o tédio se esfuma, A italiana é de novo a rainha da bruma. No ar, seu alento esparge um halo de mel E a Flauta mágica destila, caprichosa, À sombra morna de uma tarde langorosa, O frescor dos regalos, dos beijos, do céu.

MOZART Italienne aux bras d'un Prince de Bavière Dont l'oeil triste et glacé s'enchante à sa langueur! Dans ses jardins frileux il tient contre son coeur Ses seins mûris à l'ombre, où têter la lumière. Sa tendre âme allemande - un si profond soupir! Goûte enfin la paresse ardente d'être aimée, Il livre aux mains trop faibles pour le retenir Le rayonnant espoir de sa tête charmée. Chérubin, Don Juan! loin de l'oubli qui fane Debout dans les parfums tant il foula de fleurs Que le vent dispersa sans en sécher les pleurs Des jardins andalous aux tombes de Toscane!

Alta traição (Unimarco, 2005)

Dans le parc allemand où brument les ennuis, L'Italienne encore est reine de la nuit. Son haleine y fait l'air doux et spirituel Et sa Flûte enchantée égoutte avec amour Dans l'ombre chaude encor des adieux d'un beau jour La fraîcheur des sorbets, des baisers et du ciel.

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Em uma das edições do K - Jornal de Crítica (outubro de 2008), você faz um relato interessante sobre a condição do escritor [e incluo também o poeta] que reproduzo na sequência: “Roda formada (casa de quem, não me lembro) por Zé Paulo, Osman Lins, Ricardo Ramos e eu. O comentário que circula, com o endosso de todos, é: literatura exige empenho integral, toda a energia concentrada no propósito da criação, esse negócio de escritor [poeta] diletante, escritor [poeta] de domingo não está com nada.” Em outras palavras, ser poeta é uma profissão? Aí está, outra vez, Victor, a importância do Zé Paulo na minha formação. Você se refere a esse relato de um encontro, informal, na casa dele, tantos anos atrás, na companhia de grandes escritores, nenhum deles com “pose” de escritor. A questão que você coloca, “Ser poeta é uma profissão?”, é para mim uma questão capital. Dediquei a ela um livro inteiro, que deve sair ainda este ano, e que chegou a se chamar exatamente “Profissão: poeta”. Depois o título

mudou, passou a ser “Frente & verso”. É uma coletânea de textos avulsos, de variados feitios, que discutem uma só questão, obsessiva: afinal, o que é ser poeta? Mas não é uma discussão teórica. Quem fala, no livro, não é o crítico, menos ainda o professor, mas o aprendiz de poeta. A idéia-chave (essa que rolou no papo informal, reproduzido no meu relato do encontro na casa do Zé Paulo), é que um poeta só deve ser levado a sério se se dedicar à poesia em tempo integral, isto é, se a poesia representar, para ele, um empenho verdadeiro, a vida toda concentrada no ato da criação. Se for só um passatempo, se o cara escrever por diletantismo, por mais brilhantes que possam ser os seus “achados”, será um negócio superficial, merecedor quando muito de algum interesse passageiro. Poesia, pra valer, é aquela que fica, para além das circunstâncias históricas, como testemunho de vida. Se você prestar atenção ao fato de que “profissão” (assim como “profissional”, “profissionalismo” e outros derivados) é um termo radicalmente ambíguo, eu acho possível, sim, afirmar que ser poeta é uma profissão.

“Poesia, pra valer, é aquela que fica, para além das circunstâncias históricas, como testemunho de vida.” 12 Celuzlose 04 - Março 2010


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Com a diversidade da produção poética que é realizada nos dias de hoje, a crítica literária se vê, de certa forma, diante de um impasse? A diversidade da produção poética atual não pode servir de desculpa: a crítica de hoje, como a de outras épocas, está diante do mesmo impasse que é caminhar sempre um passo atrás da criação autêntica. A crítica sempre foi, e continua a ser, atividade secundária, subsidiária, esforçando-se por acompanhar o que os verdadeiros criadores inventam, sempre um passo à frente. O que há de peculiar, hoje, é a

existência, ao lado da crítica de qualidade, que continua a ser praticada, uma crítica arrogante, encharcada de tecnicismos teóricos, que se julga mais importante que a própria poesia, e que, para isso, conta com a subserviência de uma pseudo-poesia, forjada a partir de pressupostos teoricamente mais avançados ou “modernos”. Mas eu acredito que isso não passa de modismo, além de não ser dominante; a crítica verdadeira, como disse antes, continua a ser praticada, atenta à diversidade, e humildemente à espreita do que os poetas inventam.

Nas 4 páginas seguintes, poemas de Carlos Felipe Moisés.

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NOITE NULA 1. Agora sim, agora sei : a noite, matilha de sombras, óleo espesso a escorrer da candura dos arranha-céus, a noite e seus milhares de barcos a apodrecer, prestes a naufragar ou a zarpar no romper da aurora, a noite agora cerra sobre a cidade as suas asas definitivas & então sim, sei : essa noite não é nada. A Terra tremeu um pouco (é verdade) mas foi só a debandada dos animais da tarde, esbaforidos, a devorar entre as nuvens de bronze a derradeira chama do sol frio — como soem fazer aliás todo dia. A casa também tremeu, um pouco. As paredes hesitaram, os enfeites sobre a cômoda a louça no armário os livros nas estantes ameaçaram ruir esfarelar-se no chão ou voar perdidos para sempre no reino do nunca-mais. Num átimo porém o dia já não era é como se dia aí jamais houvera e essa luz não fora senão o sonho acalentado pelo negrume da noite nula. Por isso, agora sei : essa noite não é nada.

2. Se não, vejamos. Noite nula : noite noite sem termo, noite do não-ser... Não presta para nada a noite, só para ensejar uns versos bem medidos. O coração metrificado pára ( heróico ou sáfico é tudo igual) e fim... Aí só resta escarnecer : amem a noite os magros crapulosos. O mal pior é mesmo ter nascido poeta inapetente, fazedor de versos frouxos, sem o menor viço : o mundo todo enfim enrodilhado na severa engrenagem do soneto. Mas o que tem a noite a ver com isso?

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Entre ? ! vista

3. Ah a noite! Concubina favorita do iracundo soberano cego, senhor dos gafanhotos azulados, todo garboso em seu negro manto. De dia não se importa com o destino dos seres que se abrigam nos limites sem fim do seu reino a perder de vista. (Se ele a perdeu, a quem mais valeria?) Mas basta o sol se pôr e a noite chega, exala o seu odor inebriante & el-rei já goza o primeiro dos mil orgasmos que noite adentro terá. E assim, de espasmo em espasmo (treva sobre treva), outro soneto se cumpre.

4. E chega de soneto! Chega de louvar a noite ou o soberano cego. Soberano de quê? De um reino sem fronteiras onde sob o manto de negras dálias marchetado a ninguém é dado ver o que el-rei jamais verá? E eu? Que tenho eu a ver com isso? Nada, nada! Tudo pretexto para que vez ou outra me escape por entre os dentes que rangem ( mas não de frio) um decassílabo. A noite é cálida. Não é nada a noite, mas aquece ou quase & ainda traz ao longe esse cortejo de pirilampos vadios que prestam para alguma coisa. É cálida a noite. Mesmo assim me embrulho no jornal de ontem me abrigo das notícias que não li me protejo do frio que não há. Nunca se sabe. Agora sei : nunca se sabe. Cerro os olhos me ajeito e aguardo. O ombro esquerdo dói (um pouco). É a posição, talvez, talvez a idade : há milênios não durmo ao relento. Vassalagem de sombras o tempo segue o seu curso no encalço da madrugada. Essa noite não é nada.

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URNA DIURNA Urna, clara urna! À minha frente inventado o claro dia incandescente. As horas rodopiam no teu bojo e teu sopro cobre o mundo visível, auréola negra. Branco, negro ou branco, azul, diurno, noturno: o silêncio é meu norte. E principia a secreta viagem no encalço do dia perfeito: diurna, luminosa urna, soturna, diuturba urna, urna somente urna. DIA FINDO Hoje o dia amanheceu silencioso como um sonho. Quantos dias eu perdi para ter um dia assim? Todo armado de segredos hoje enfrento cabisbaixo o carro do horizonte que fará de mim sol-posto. Posto aqui ou posto além, que claro sol repetiria o dia logo amanhecido entre as dobras do sono? Sonho fui ou sonho vim, cumpri o dia e fiz-me dia, melodia noite e dia, noite nunca paz noturna: aquele sonho, o dia findo.

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GERTRUDE STEIN para Ana Cecília Carvalho

Depois de escalar as geleiras do Himalaia Gerty fica sem ter o que fazer fazer. Para quem almeja chegar ao topo do Everest chegar ao topo do Everest é quase tudo mas para quem está à procura de uma rosa uma rosa uma rosa o Himalaia todo é nada branco sobre branco tão branco rútilo carmim : a rosa rosa rosa do nada. Tudo se repete nada repete a quietude do início da escalada nada compensa o vazio da meta não sonhada. Depois do Himalaia Gerty fica sem ter o que fazer fazer a não ser repetir : uma rosa é uma rosa é uma rosa uma rosa até a rosa se abrir e mostrar o descampado onde se esconde o nada : tudo tudo tudo enfim (já se vê) para quem desiste de perguntar mas Alice lhe ensina : qual a resposta? Silêncio silêncio mais nada nada? Então é hora de voltar a perguntar. Qual a pergunta? Gerty responde : é o amor é o amor é o amor é o amor?

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Nasceu em 1961. Poeta, jornalista e prosador, publicou LSD Nô (1994), A Máquina Peluda (1997), Cinemitologias (1998), Zona Branca (2001), Adorável Criatura Frankenstein (2003), A Musa Chapada (2008), em parceria com Antonio Vicente Pietroforte e Carlos Carah e Buenas Noches, Paraguaylândia (Paraguai, 2009). Lançou o CD Rebelião na Zona Fantasma (2005). Integrou as antologias Outras Praias (1998), Na Virada do Século (2002) e Geração 90 – os transgressores (2003), entre outras. Participou também de antologias internacionais na Argentina, Estados Unidos, Peru e México. Tem poemas musicados e gravados em discos por Itamar Assumpção, Edvaldo Santana, Madan e Ney Matogrosso, entre outros. Trabalhou como repórter e editor de cultura nos jornais Folha de Londrina, Folha de São Paulo, Jornal da Tarde e O Estado de São Paulo e na revista Marie Claire. É um dos editores da revista de poesia e arte Coyote, junto com os poetas Rodrigo Garcia Lopes e Marcos Losnak.

ELA, COM SEU CASACO FELPUDO (primeiro monólogo interior de Lili Maconha) Eu tento, mas muitas vezes perco o jogo. Ela chega e se instala. A IRA SILENCIOSA DE BLACK ICE Ela. Com seu casaco felpudo, escuro e grosso. Sylvia Plath: "Às vezes me sinto oca. É como se não tivesse nada atrás dos meus olhos". Eu sei o que isso significa.

O vento não se movimenta, os carros estão parados, peixes e folhas e vísceras de metal suspensas no ar da cidade, imóveis — fósseis congelados na vertigem de Black Ice. Deitada na cama, a Senhora dos Sonhos sonha, e seu sonho é puro carvão:

Às vezes faz muito frio do lado de fora. Do lado de dentro também.

cabeças decepadas, fuscas incendiados e libélulas com asas de areia. O breu devora os últimos pontos luminosos, postes se dissolvem — velas de concreto derretidas pelo fogo-fátuo que sobe pelas bocas de lobo. Ambulâncias rugem roucas pela madrugada de horrores, veias saltam pra fora do corpo, agulhas, luvas cirúrgicas e suturas não conseguem estancar o sangue de Lili Maconha. Black Ice executa passes de magia negra com as fraturas da Noite Negrume.

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Foto: Neuza Pinheiro

Ademir Assunção


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O GIRO DO TAMBOR Ambulâncias gritam blasfêmias e insultos no tráfego pesado da madrugada. Bilhões de imagens invisíveis transportadas em ondas eletromagnéticas espancam o espaço aéreo da Noite Negrume — dragões incinerados, moscas carnívoras, bolhas de loucura. Espelhos explodem nos banheiros encardidos. A guarda costeira detém golfinhos suspeitos para averiguação. Sombras-hieróglifos se esgueiram pelos becos entre latas de lixo e paredes descascadas, corpos descascados, almas descascadas. A mente é uma tela branca onde tudo se adere mas logo se apaga. Lili Maconha não sabe mais o que sente. Não sabe mais o que sabe. Só de calcinha, três carreiras esticadas no vidro rachado da mesa, ela olha a imagem da própria pupila, negra, enquanto gira, displicente, o tambor do 38.

MICOSE NA PELE DO TEMPO (segundo monólogo interior de Lili Maconha) Há tempos o faquir polia as pontas dos pregos com areia do Mojave. Há tempos e dimensões perdidas apenas esperando o momento certo da conexão. Há o tempo lá fora, chuva de granizo, fagulhas de fogos de artifício e brumas que se movem. Há o tempo dos estalidos distantes das estrelas. E há o tempo do Aqui, esse templo da linguagem que se enrola em frases-serpentes enquanto escrevo e que talvez continue traçando sinuosidades muito tempo depois. Mas de tempos em tempos alguém estoura os miolos, alguém explode [uma aeronave alguém fecha o livro e não o abre nunca mais.

(Poemas do livro A musa chapada) Celuzlose 04 - Março 2010 19


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Anderson Fonseca Nasceu em 1981 no Rio de Janeiro. Formado em Letras, editor-assistente da revista Confraria e coeditor da revista Aliás. Livro publicado: Alucinação (Editora Multifoco, 2009). Estes contos fazem parte de seu novo livro Bestiário de Gaveta (no prelo). Blog: http://escritosdo-exilio.blogspot.com E-mail: luizdovalefon@hotmail.com

RELÓGIOS Sendo eu um homem afeiçoado à preguiça, embora eu não seja contra o trabalho, mas tenho grande prazer em descansar deitado sobre a cama que minha esposa afetuosamente arrumou; para que não haja nenhum importuno que me tire de meu descanso, habitualmente adio os ponteiros do relógio. Já adiei os ponteiros para dias e depois meses, assim meu descanso durava longamente por estes tempos. No entanto, houve uma hora em que adiei os ponteiros para anos (não sei quantos)... E com os anos, surgiram feridas no meu corpo, e depois nas feridas cresceram fungos, os fungos se multiplicaram apegando-se à cama, e depois meu corpo se juntou à cama; e depois minha esposa limpou os fungos. Mas, agora que percebo que meu corpo se tornou uma coisa única com a cama, tanto que minha esposa sequer nota a diferença, sei que descansarei para sempre e sobre mim a minha amada mulher.

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O MENSURÁVEL SENHOR KLOXROTH O Senhor Kloxroth diz: – Eu sou pequeno, muito pequeno, do tamanho de um limãozinho, e tão pequeno sou que passo por despercebido. Mas minha alma é imensa. Entretanto, lamento minha estatura porque ser pequeno é ridículo. Ora, a pequenez é algo desprezível, não há, portanto, como amar o Senhor Kloxroth. Eu mesmo não me importo, considero-o um ser insignificante, sua presença em minha casa apenas atesta a cordialidade que ofereço a ele, sobretudo, a piedade langorosa que corrompe minha índole. Não nego que ao olhar um ser tão desprezível sinta-me superior e passo a contemplá-lo com compaixão, desejando sua morte para diminuir seu sofrimento. Embora, seja verdade, que o Senhor Kloxroth tenha uma alma de grandeza incomensurável, nada lhe apazigua a angústia de não ser visto, lançando-o a crença de que esteja só. A incomensurabilidade de sua alma é verdadeira pela seguinte prova: o Senhor Kloxroth possui um poder extraordinário, é capaz de alcançar a dimensão de uma cabeça de alfinete, atinge tal façanha para encontrar um túnel no espaço-tempo e por ele viajar a qualquer região do universo. Além de, mesmo estando num mesmo lugar, seu pensamento oscila entre várias dimensões abrangendo quase toda a existência. Não seria, portanto, exagero dizer, que o Senhor Kloxroth carrega dentro de si o mundo. Uma vez, ele esteve dentro de minha cabeça, nunca disse-me o que viu, e acho que não mereço saber. Contudo, quando viu-se no espelho se sentiu o menor de todos. Agora, a única solução que encontra está em guardar numa caixa dourada os objetos que colhe em suas viagens extradimensionais. E sei que ele se consolará até desaparecer diante dos meus olhos como um duende na fumaça.

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Foto: André de Toledo Sader

Andréa del Fuego Nasceu em São Paulo, em 1975. É autora da trilogia de contos Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu (projeto contemplado com a bolsa de incentivo à criação literária da Secretaria do Estado de São Paulo), do romance juvenil Sociedade da Caveira de Cristal (selecionado para o PNBE 2009) e da coletânea de crônicas Quase caio. Integra as antologias: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, Capitu mandou flores, Futuro Presente, entre outras. Blog: www.andreadelfuego.wordpress.com

Tomei um elevador com Clarice Lispector. Ela usava um vestido esmeralda e uma opala pendurada numa corrente. Segurava o cigarro para acendê-lo quando saísse, me olhou do joelho aos pés. Eu parei no térreo, ela continuou descendo.

Nuno Leal Maia me pediu o telefone do William Bonner. Não posso dar, conheci ele há pouco tempo, vai achar que tô distribuindo contato. Nuno Leal Maia tem que entender minha posição, o Bonner precisa confiar em mim.

Prezada atriz, quero convidá-la para o meu aniversário. A senhora não me conhece, quero fazer uma surpresa para meus convidados. Não se preocupe com isso, meu motorista irá apanhá-la no estúdio, nem precisa tirar o figurino. Chamei imprensa e seguranças, tudo no melhor gosto, da champanha ao fechamento da glote.

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Selton Mello me ignora, e daí? Homens mais magros já me cortejaram, nem por isso correspondi. Seleciono quem me escolherá, só não decoro a idade dos janotas. Não desisto por menos de dois foras, rejeição se configura na quinta ou sexta negativa.

Eu compreendo que você culpe a Tina Turner por um penteado de mau gosto. Não é adequado estimular um corte em série, latinos e asiáticos com nuca lisa e franja repicada. Meu coiffeur usa a navalha do avô, cabo de madrepérola. Encontre o seu, querida, e achando quem a tose, não me copie.

Darlene Glória e Ivana Arruda Leite foram criadas no mesmo orfanato. As duas têm dezesseis de miopia e cinco de astigmatismo. Nem de longe, nem perto, sabem precisar o lugar onde nasceram e se isso pesa na adoção. Em vez de enxergarem pontos, vêem traços, uma colher é um garfo. Quem se interessar por uma, tem que levar a outra.

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André Dick Nasceu em Porto Alegre/RS, em 1976. Publicou dois livros de poesia, Grafias (Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 2002) e Papéis de parede (Belo Horizonte: Funalfa; Rio de Janeiro: 7Letras, 2004). Tem dois livros inéditos: Calendário que recebeu menção honrosa do Concurso de Poesia Murilo Mendes, da Funalfa, em 2004, e O equilíbrio do dia que recebeu a Bolsa de Estímulo à Criação Literária, da Funarte. Publica, com Nicole Cristofalo, ensaios e traduções no blog Dado Acaso www.dadoacaso.blogspot.com E-mail: henriquedick@hotmail.com

CORUJA O olhar noctívago da coruja Corcovas de dunas entre gaivotas Galhos, mudas na noite úmida de asa em asa Graúnas brinquedos na grama, criansaúvas

VISTA Diante da janela para os fios de eletricidade da rua palmeiras se estendem entre galhos de flores laranjas (indefiníveis) ou rubras de vergonha pelo escapamento de andares e escadas mais acima junto à fumaça que rompe o céu azul. Também um galho se destaca ao máximo quase tocando com as pontas a luz caudalosa da manhã que se imprime em cada registro de telhados, antenas os portões com grades prontas para receber e quem chega muradas de folhagens se eximem de buscar mais longe – uma árvore solitária na beira do asfalto ruas acuadas pelo vento vermelho congestionado de verão.

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FÁBULA

EM MODAL Nenhuma dor Nem mesmo do exílio Na lança dos pilotis No julho mais restrito Nem no golpe Das gramas intravenosas Nem na tromba Do elefante que ressona Nem na cauda Do pavão inerte Que não vai embora Muito menos na borda Do ganso da lagoa Ou da palidez do pardal Ele só canta à noite Em modal E numa dissonância Nem nas verbenas Mais a distância Madeixas de Provença Nenhuma dor Na vasilha ou no estábulo De cavalos e vacas E um rouxinol de impacto

Do sol vermelho que esquenta os dias, cada vez mais frequente ursos acompanham de perto o calor constante do globo. Só na fábula, com lobos, na areia, uma pequena tartaruga, mas sem casco. Dentro do álbum, cigarras de Esopo. Mais cedo sobre a cama, blusões para o frio. Elefantes entre outros bichos, mapas, camelos para o calor, dromedários e não se recolhe o olhar diante da mesa aberta, enquanto alguns ramos do ipê à sombra do crocodilo – de plástico. Nas mãos do jardim derrapante hoje à mostra, uma tarde soam para dentro da janela alguns relâmpagos. Os dias se lançam para fora. Na chuva, sem nenhuma pressa ao máximo olhar elefantes, rinocerontes, a galope, cavalos. No inverno ânimo – só depois a passagem árvores, folhas desfolhadas a sós e, então, uníssono o mesmo pátio.

Muito menos o negro Do corvo, a pantera Mais negra, o úmero Do hipopótamo No hipotálamo do lagarto De rabo comprido Ou lagartixa, toda em escamas De jacaré na lagoa Nem no focinho Do leão marinho, Leopardo, ostra No ventre da baleia de Jonas

(Poemas do livro inédito O equilíbrio do dia)

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Dirceu Villa Foto: Valéria Garcia

Nasceu em São Paulo em 1975. Editou, com Cídio Martins, a revista de arte Gargântua (1998) e apresentou os programas de leituras e entrevistas da rádio CR37 - Casa das Rosas (1998-1999). Livros publicados: MCMXCVIII (Badaró, 1998), Descort (vencedor do Nascente, Hedra, 2003), e Icterofagia (contemplado com o PAC, Hedra, 2008). Escreveu de 2004 a 2008 a Officina Perniciosa, página de poesia e arte, dentro da revista virtual Germina Literatura. Traduziu e anotou o livro de poemas Lustra, de Ezra Pound (2003, ainda inédito), para o mestrado em literatura/USP; traduziu e prefaciou Um anarquista e outros contos, Joseph Conrad (Hedra, 2009). Publicou ensaio sobre Fernando Pessoa na revista Cult e escreveu prefácios para os Contos Indianos, de Stéphane Mallarmé (Hedra, 2006), Fausto, de Christopher Marlowe (Hedra, 2006), O Spleen de Paris, de Charles Baudelaire (Hedra, 2007) e Escritos sobre arte, também de Baudelaire (2008). Escreveu o ensaio “Em que se apóia tal arquitetura?” sobre a poesia de Ferreira Gullar, para volume da revista mexicana Alforja (2007) dedicada ao poeta brasileiro. Organizou a antologia comentada de doze poetas contemporâneos brasileiros, nascidos a partir de 1970, para a revista mexicana La Otra (2009). Adaptou a Ilíada, de Homero, para a editora Escala (2005). Deu aulas de poesia durante três anos no curso de Extensão Universitária da USP, e fez parte do corpo editorial da revista Cadernos de Literatura em Tradução (FFLCH/USP). Organizou, juntamente com Fabiano Calixto, o evento O Banquete, de leituras e debates de poesia na Biblioteca Alceu Amoroso Lima (2007). Lecionou poesia moderna e contemporânea internacional, em parceria com Ana Rüsche, na galeria b_arco (2007), e organizou, com Ricardo Domeneck, o debate virtual Cânone e Crítica no site literário dinos@nfíbios (2009). Lecionou na Casa das Rosas, espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, com o curso Ezra Pound: a invenção da poesia moderna, e foi o curador da exposição dos livros de Pound constantes na biblioteca de Haroldo de Campos (2008). Desenvolve atualmente tese de doutorado sobre a poesia dos séculos XV-XVI, de italianos e ingleses, e, paralelamente, uma ampla revisão dos cânones de poesia portuguesa e brasileira. Tem obra traduzida e publicada na Argentina, no México, nos EUA e no País de Gales. Mantém o blog O Demônio Amarelo, de poesia e cultura http://odemonioamarelo.blogspot.com

retratos passado, nem tão distante: rural; posam, como em retratos a óleo, circunspectos, em formações triangulares de resíduo místico, as roupas melhores; em festas de bairro: com ternos e rendas; em casa: onde se vêem cercados de plantas; no exército: rapazes em grupo, agachados, sorriem; senhoras nos quintais apertam os olhos ao sol matinal em varandas floridas, fachadas que parecem brotar como [árvores diante de procissões; garotos se empurram e riem infringindo o decoro solene de quem encara as lentes como encara a metafísica do tempo; congelados todos no imóvel retângulo que apela à memória e murmura aos seus olhos “quanta morte já foi vida”: retratos como fendas na parede por onde tudo o que foi se esforça para ser em nós ou conosco novamente. 26 Celuzlose 04 - Março 2010


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a pesca no estreito de bering, uma valsa em grupos, se agregam gaivotas: grades de gaiolas repletas de caranguejo real homens de óleo e metal agarram as gaiolas gritando “dinheiro!” — festejam carapaça em toneladas desliza pra carga — com água na proa —, empilhada

musa equilibrista nas franjas mal bordadas do império, em meio àquele sonho mal-sonhado de uma américa latina socialista, componho versos agridoces ditados pela musa equilibrista. musa? minto e, ao mentir, me encanta o verbo ofídio. banido, como dante e ovídio, no entanto mais pra dentro que pra fora? acessório num país necessitado, escrevo, tarefa pouco meritória. “enquanto zurzem helicópteros da polícia e não dão um tostão por coisas vivas, o perdulário deita sua amante — cabelo escuro, o traço a tinta — no branco leito inóspito, cama-página: um purista”, improvável, mas é inútil discutir. quem, dentre as hordas das revistas, ouviria essa história lamentável? é preciso progredir, diz o lema da bandeira e o dos grandes financistas. “quem sou eu?”, pergunto enfim ao oráculo de delfos, — nosce te ipsum, me responde; meu nome deixo inscrito é dirceu villa, que mais busca do que esconde, na terra já baldia que visita.

disparam cordames, roldanas mecânicas, dragam as presas e guincham gaivotas à volta estala o metal no convés, a equipagem derrapa, lavada de ondas de vento: quarenta nós, noroeste covos e patas quebradas no porão entupido e o barco afunda: agulha, almofada a casa do leme escurece sob o vagalhão frio, a pesca no estreito de bering por um fio.

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Eunice Arruda Nasceu em Santa Rita do Passa Quatro (SP) e atualmente mora em São Paulo. Desenvolve atividades ligadas à literatura - oficinas e leituras públicas de poesia mas dedica-se especialmente à escritura de poemas. Integrou a chamada “Geração 60”, ocasião em que lançou seu primeiro livro É tempo de noite (Massao Ohno Editora, 1960). Cursou “Comunicação e Semiótica”. Com 14 livros publicados, foi premiada no Concurso de Poesia Pablo Neruda, Buenos Aires, Argentina. Presença em antologias no Brasil e no exterior. Recebeu o prêmio de Mérito Cultural conferido pela União Brasileira de Escritores/RJ e foi homenageada com o prêmio Mulheres do Mercado (2005), concedido pela Casa de Cultura Santo Amaro - São Paulo/SP. Tem poemas gravados no programa Momento do Poeta Instituto Moreira Sales (IMS) - SP, disponível na Rádio IMS: www.ims.com.br E-mail: poetaeunicearruda@bol.com.br Blog: www.poetaeunicearruda.blogspot.com

LEMBRE Todo dia pise Um degrau de cada vez O MAR Todo dia lembre conheço o mar Em cada encontro há um adeus

neste domingo conheço a ternura verde da árvore na noite abraçando o nosso abraço neste domingo conheço o mar o nome que mistura as nossas águas

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NOSTALGIA Amo os casais

NO CHÃO mulheres agachadas trêmulas tateiam o que foi pátria pão

Ombro a ombro Pisando a mesma calçada Amo os casais que atravessam ruas estações Seguram as mãos não o tempo Amo os casais Que permanecem

ASSIM um mendigo foi expulso na porta da festa aquecida com vinhos

POEMA Não respire pouco ao cair da tarde Procure no corpo o caminho das veias

transparentes risos apagaram a lembrança do mendigo expulso na porta da festa

Não atire ao sono os dias de Deus

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Fábio Aristimunho Vargas Nasceu em 1977. É escritor, professor e advogado. Bacharel em Direito e mestre em Direito Internacional (USP), doutorando em Teoria Literária (UFPR). Livros publicados: Medianeira (São Paulo: Quinze & Trinta, 2005) e Pré-datados (São Paulo: Lumme, 2010). Organizador e tradutor da antologia Poesias de Espanha: das origens à Guerra Civil, em quatro volumes: Poesia galega, Poesia espanhola, Poesia catalã e Poesia basca (São Paulo: Hedra, 2009). Como tradutor, publicou ainda La entrañable costumbre, do mexicano Luis Aguilar (Tlaquepaque: Mantis, 2008), e Canto desalojado, do uruguaio Alfredo Fressia (São Paulo: Lumme, 2010). Recebeu bolsa de residência em Barcelona para tradutores de literatura catalã (2009). Mantém o blogue Medianeiro http://medianeiro.blogspot.com

O FUNDO DE UMA POÇA “de mon no-res perdut dintre l'abisme” Jacint Verdaguer 1 A quem, senão a cada um, pertence o que não foi? Passeando meu silêncio de calçada em calçada, que os lojistas franqueiam aos pedintes e aos artistas de rua, estátuas vivas que a chuva ácida não corrói, testemunho o desenlace da jornada de trabalho. É fim de tarde, e a vida esfria sob um sol que arde. 2 A chuva na cidade é menos bênção do que maldição. Não se salva nem São Pedro: já nem se conta seu milagre mas se acusa logo o santo pelas lágrimas de crocodilo. A chuva que passou terá lavado nossas almas ou levado a esperança? Enquanto frige o asfalto, restam poças por vestígio. 3 Poças tão cristalinas a distância, que quanto mais se põem ao alcance, a vista revela a sua verdadeira natureza de restos e sujeira. Poças que ocultam germes e outros riscos, feitas do equívoco de alguns chuviscos que dão no asfalto em vez de qualquer telha. E nessas poças é que o céu se espelha.

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4 Fora das poças ergue-se a cidade, que com seus altos e seus baixos há de nausear feito uma montanha-russa; dentro delas, o mundo se debruça. Os edifícios como estalactites projetam para baixo seus limites buscando o infinito, que despenca com a vertigem de uma boa encrenca. 5 Um passante caminha sobre o abismo desconhecido, sem saber do sismo que representam os seus passos; formam-se ondas de anéis que em rápida performance percorrem a completa superfície da poça até chegarem, qual velhice e fim dos dias, à borda extrema, quando se voltam sobre si mesmas, anulando-se. 6 No fundo de uma poça, no asfalto, onde se conjugam o profundo e o raso, esconde-se o reflexo de um rosto já esquecido: um rosto de antes, que um dia eu perdi e do qual contemplo o que não vim a ser: meu rosto que de mim mesmo se esqueceu. Sou o reflexo turvo e imperfeito de tudo o que podia ter-me feito. 7 Sempre fui o rascunho, o que se esboça e apaga, palimpsesto. Como a poça que não se imaginava poça enquanto chuva, também não me entrevia em tanto desarranjo e em estado mais propício me supunha, sem este velho vício de querer aprender com o erro alheio, de optar, entre os extremos, pelo meio. 8 Aos homens cumpre o que é e o que passou; o vir-a-ser pertence a Deus... Mas sou o que sou e o que já não terei sido – o não-ser é propriedade do indivíduo e também o define: esse que eu vi na calçada úmida a dobrar a esquina leva consigo aquele que teria seguido adiante e alguém que se adiaria. 9 É fim de tarde. Algum mormaço fere o que nos sentidos resta de mistério. Levanto os olhos: meu caminho trilha as margens secas, cruzeiro pleno de ilhas. E as águas que escapavam aos bueiros se escondem com os raios derradeiros. Também eu me retiro, palmilhando as poças inevitáveis, arrastando-as.

(Poema do livro Pré-datados)

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Lilian Aquino Nasceu em São Paulo (SP) em 1979. Tem poemas publicados nas revistas Inimigo Rumor, Mininas, Zunái e no jornal de poesia O Casulo. Integra o coletivo de poetas Vacamarela, que publicou sua Antologia em 2007.

Cotidiano Coloca na panela − polvilhando − um punhado de pimenta-do-reino e alecrim. O tempo cozinha, borbulha, dá gosto também. e mistura tudo com colher de pau. Atrás da casa, em latas velhas planta ervas e temperos e água pela manhã aqueles serzinhos seus. E, se ela troveja, é sempre garoa, sempre fininha e mansa. Sem saber do inferno ou do paraíso ou sobre as raízes que cultiva, sua terra é recém-descoberta e ela mesma recolhe seu lixo e queima.

Perspectiva Desde então reparo na sua roupa (nas cores que você combina) no beijo-camomila soprado enquanto deposita a caneca na pia – indiferentes se vermelho é bom com verde nossos corpos procuravam seu lugar natural – Reparo no seu jeito de pintar vejo de perto os tons quentes na sua pele (retocando) e rabisco buracos e ruídos que se harmonizam pela manhã

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Abrigo Por dentro Sai pela porta da frente larga tudo aberto a cozinha, o corredor vulneráveis a qualquer um que entra e olha no espelho frita ovos e abre os armários tira as conservas e come mas sem entusiasmo. Não sabe a utilidade das chaves – esse ser potável – crispado, volta limpa a frigideira e dorme na geladeira.

Debaixo daquele olhar encosta no tempo que pé ante pé traz um cheiro de jasmim e a novidade de envelhecer. Vai tocando as fissuras das paredes enquanto a cal pinta as pontas dos dedos – o rigor é seu telhado de zinco. Lento, contempla no parapeito os vasinhos das suculentas que sobrevivem à aridez dos dias sem sombra. Já é tarde e ele se engana por causa do horário de verão Se esquece de fechar as janelas quando vê as aleluias – o jeito é apagar a luz.

Areia no meio da areia das dunas ventava, sempre. e era branco e os grãos dançavam no ar você bem sabe, dia após dia, mudava. mas aquela cor não dizia nada sobre você permanecia branca e areia. o vento, ele sim, te fazia dele e escorria, porque pó leve e vulnerável. mas o sopro do mar, a que você se abandonava, não era cor e grãos: estes seus mistérios.

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Pedro Américo de Farias Nascido em Ouricuri – Pernambuco, em 1948, vive no Recife desde 1968. Não faz parte de qualquer movimento literário. Considera-se, lato sensu, um experimentalista das formas poéticas, usando a métrica ou o verso livre. Escreve e diz poesia, ensaia prosa crítica, mas prefere alimentar-se na leitura da prosa de ficção. Licenciado em Letras (Faculdade de Filosofia do Recife – 1978), pós-graduado em Educação de Adultos (Universidade Federal da Paraíba – 1981), trabalha com oficinas literárias, em especial de Leitura em voz alta de poesia. É funcionário da Fundação de Cultura (Prefeitura do Recife), na qual revisa textos e desenvolve projetos literários e editoriais, entre os quais o Festival Recifense de Literatura, cujas versões primeira – 2003, e segunda – 2004, coordenou. Myspace: www.myspace.com/pedroamerico

A pichação Onde era rio de água limpa hoje é esgoto a céu aberto Declare seu amor a sua cidade! – leu num outdoor Família

Sim! Eu amo esta merda! – grafitou embaixo

Mamãe, babá papai, bebendo

Blitzkrieg O comando chegou à favela atirando a torto e a direito abateu a tiros de escopeta e em legítima defesa uma criança nua que acordava assustada chorando e coçando os olhos

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O coração da matéria calma, poeta ninguém se transforma em poesia assim, da noite pro dia cada expressão, qualquer silêncio tem seu lugar, timbre e semântica a palavra vem, na frase, já fixa em conceito e ressonância há que descobri-la, desvendá-la como quem chupa cana a espremer o sumo sem jogar fora o bagaço seu próprio adubo está nisso a poesia o resto é queixume, destempero penitência travestida em versalhada é terreno pantanoso, poesia não vai lá. poesia é minha matéria esteja onde estiver busco-a sem pausa nem pressa no verso e na prosa na gíria-ginga dos guetos na geografia das falas na arqueologia do verbo. da poesia ninguém é dono também não cuida de ninguém sequer de indigente o poeta seja seu pastor cuide bem desse rebanho de signos que a criação bem cuidada emprenha e multiplica

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Literatura Brasileira Contemporânea

Foto: Fernanda Serra Azul

Renan Nuernberger Nasceu em São Paulo, em 1986. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo, atualmente prepara seu projeto de mestrado para o departamento de Teoria Literária da mesma instituição. Mesmo poemas, seu livro de estreia, está no prelo. renannuernberger@gmail.com http://mesmopoemas.blogspot.com

PORQUE NÃO FUMO FREE “(…) Morrer à míngua, Entre uma tempestade No copo e um lapsus linguae.” Augusto de Campos a tarde caiu isenta há duas horas nenhum perrengue (o céu, sem riscos) trompete, chá gelado, sexo satisfatórios : modos perfeitos de moldar o ar a tarde caiu isenta entre vácuos de outdoors cassados (o jazz, sem corações) hemingway, chet baker, times magazines : falsos cognatos da terra, souza cruz a tarde caiu isenta contra sólidos elmos e broquéis (o poeta, sem missais)

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LERO-OGÍDIA para Mariana Quadros

calipso, se eu soubesse que os percalços do caminho são chupões, afagos, ninhos, cafunés e aconchegos encerrava-se a guerra (desde antes, muito cedo) e cedia-me alegre (adeus, penélope; adeus, telêmaco) aos caprichos mais ardentes, todos soltos pelos pelos: cocaína, sol, delícia. no entanto, sei (pois saiba) que, se eu estivesse triste em ceder-me a seus caprichos, de nada adiantaria: gozaria mais, colapso.


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ELEGIA À TARDE DIAMANTES CRAVEJADOS NA GARGANTA antes do anoitecer ulterior a tarde morre aos poucos o céu iluminado não importa no claustro vislumbrá-lo não ilustrou o escuro oco (último tutano — tumulto do ser).

Pigarra e cospe a voz melodias reluzentes. O senhor engravatado e a mulata faceira tão brasil, bandeira, assistem convictos que é preciso machucar-se (o artista).

*

Em pé, a cantora expõe orgulho na garganta ferida pelo público vale tudo, esgaçar-se inclusive.

antes do anoitecer ulterior a tarde destece a manhã não há galos agora não há flores, só o dedo único inefável que (penélope pétreo) desamarra o frágil arranjo do mundo.

Encerrada a audição vão-se embora todos (cantora, público, equipe de palco) sem remorso: fim do ato, aplausos.

DA AUSÊNCIA para Lilian Aquino desperdiça, o mundo, em sua cama alvejada um espaço rente, justo, calculado dobra uma esquina e a cidade na barra de sua saia na aba de seu chapéu encardida desperdiça o mundo de sua alma descamada e despedaça.

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Reynaldo Bessa É cantor, compositor, violonista e poeta. Nasceu em Mossoró-RN e está radicado em São Paulo há vinte anos. Já lançou cinco CDs. O mais recente é “Com os dentes...” músicas suas sobre poemas de diversos autores brasileiros que vão de Alphonsus de Guimaraens à Carpinejar, passando por Leminski e Drummond. Tem poemas e contos publicados em diversas revistas e suplementos literários espalhados pelo país e exterior. Em 2008, lançou seu primeiro livro de poemas Outros Barulhos. Este entrou na lista dos livros finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2009 e venceu o 51º Prêmio Jabuti na categoria poesia. Site: www.reynaldobessa.com.br E-mail: contato@reynaldobessa.com.br

À minha frente, a madeira lustrosa refletindo olhos tristes, trepidava sobre sonoros paralelepípedos. Eu não queria acreditar. Só conseguia crer que meu pai fingia-se de morto com a mesma veemência que eu me fingia de vivo.

Um soco saiu de uma sexta-feira veloz e atingiu-me o flanco. Quando despertei, a solidão fazia a sua contagem. Gritava o número 8. Vi o sorriso de minha filha, num canto, brincando com as bonecas de porcelana de minha mãe. Procurei sufocar o odor de tantas derrotas mofadas com o cheiro de longínquas tardes recendendo a chiclete Adams. A solidão gritava o número 9. Recolhi todas as minhas forças e me reergui. Suada, a vida levantou-se do outro canto e veio com tudo. Engalfinhamo-nos novamente...

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Ela disse adeus Bateu a porta na minha cara O olho mágico é testemunha

Não quero só as mulheres Me apaixono pelo que é meu e que está dentro delas Elas bagunçam a minha vida Prometem coisas que não podem cumprir Mudam meus móveis e pensamentos de lugar Me fazem comprar coisas que não preciso Trazem gatos, cachorros e pássaros para dentro de casa Elas gostam de dançar em mastros imaginários Geralmente bebem mais do que eu Um dia, com um sorriso cansado, vão embora Deixam tudo Menos o que é meu e que está dentro delas

Numa separação eu não sei o que pesa mais. Se a solidão ou os livros dos quais nunca abro mão.

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Foto: Elisabete Ghisleni

Rodrigo Garcia Lopes Poeta, jornalista, compositor e tradutor, autor de 12 livros e um CD (Polivox). Editor da revista Coyote, é tradutor de Whitman, Rimbaud, Sylvia Plath, entre outros. Atualmente escreve seu primeiro romance e prepara um livro de poemas e um CD de canções inéditas. Seu livro Solarium foi incluído na lista dos mais importantes livros brasileiros de poesia dos anos 90 pela crítica Flora Süssekind. Em 2001 teve seu poema “Stanzas in Meditation” incluído na antologia Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século. Doutor em Letras (com tese sobre a poeta Laura Riding). Myspace (músicas): http://www.myspace.com/ogirdor2009 Blog: www.estudiorealidade.blogspot.com

ZEITGEIST Nocauteando celebridades disfarçadas de pinguins Monitorando a muvuca das transações e trapaças alpinistas Serpenteando entre escadarias cravejadas de citações Chutando o balde do crepúsculo com o bebê da aurora dentro Chegando firme na dividida com a mentira, pisando o calo da calúnia Colecionando estoques de paciência e delatores pederastas Beliscando morenas de fiberglass e pixels de altíssima definição Pegando marqueteiros pela orelha, levando o bispo milionário pelo pescoço Mostrando seu catálogo de golpes de jiu-jítsu para web designers Apavorando editores de moda com crucifixos de merda Partindo pra ignorância pra cima das floriculturas Esfaqueando a manhã e as boas intenções com sua adaga afiada Pulverizando jogadores de genoma e modelos chipadas Dando geral nos arquivos adulterados dos tribunais de justiça Assaltando pipoqueiros metafísicos e banqueiros artistas de fim de semana Distribuindo pirulitos de ácido para críticos literários Arrebentando a boca da razão com denúncias inconsequentes Estrangulando docemente a tarde carregada de câmeras de vídeo & trance music Pregando a irresponsabilidade fiscal, e anthrax para todos, Rifando o shopping lotado de ideias fixas com um grito de jihad O homem-bomba entra no poema.

(Nômada, 2004)

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RITO Alertas, trapaças, cobranças, compromissos: Quantas ilhas sem edição, vidas sem viço, A morte visita sem aviso? E, afinal, pra que mesmo tudo isso?

EL DUENDE

O que deu nesse mundo, caduco, O que ficou do tempo em que viver Era mais que só mudar de assunto Era rito, um estado de espírito?

O dia lapida o lado mais raro da dor. A mulher transpira pelos poros iridescentes dos dias.

Ou quando olhar era uma reza, Pensar que revelava a leveza, Música vindo de dentro (Precisa de centro?)

Há dias em que um homem tem o tamanho de uma flor.

Uma revolução do sentir nos fez ateus: Quisemos então ver a face de Deus. E você a meu lado, lembra De quando bastava uma fagulha Pra explodir uma Bastilha?

(Polivox, 2001)

(Nômada, 2004) HÁ ANOS VENDE SEU PEIXE podre seu suflê de vísceras para vegetarianos sem o menor senso de humor. Há tempos leciona o dialeto do caos dá conselhos ao sol vende orquídeas escritas com seu sangue para vampiros que têm medo do vermelho. Há séculos ele pratica a extinta arte da pluviometria fabrica ideias inúteis conta os carros da esquina compondo um poema longo e atroz. Há minutos ele liga para uma secretária eletrônica que repete, estranho, exatamente a gravação de sua própria voz. (Nômada, 2004) Celuzlose 04 - Março 2010 41


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Victor Paes Escritor, ator e editor da Confraria do Vento. Publicou O óbvio dos sábios (poesia, 2007). Tem publicados seus contos e poemas em diversas revistas e sites. É um dos 21 poetas da coletânea XXI poetas de hoje em dia(nte), organizada por Priscila Lopes e Aline Gallina, pela editora Letras Contemporâneas. Escreve também para teatro – com as seguintes peças montadas: Mara em um quarto e As três Marias – e se apresenta em eventos de literatura com seu trabalho de poesia cênica. Blog: www.victorpaes.blogspot.com

DEUS EX MACHINA A mãe de Cristina com os cabelos da filha nas mãos: – Por que não chorou hoje ainda? Tá ficando bonita agora? – Porque hoje eu vou rir. – Rir de que, garota? – Ué, pode ser até de você. Uma ordem só e Cristina chorou. Naquela semana, Cristina havia conhecido algumas ruas. E nelas ouviu algumas coisas. Ouviu que seu pai sabia dançar e que sua mãe tinha muitos nomes diferentes. Alguns eram engraçados, pois as pessoas riam quando falavam. Havia também aprendido uma coisa com o filho do pastor: ele jurou que as pessoas têm uma voz em casa e outra na rua... então, quando se conta lá o que se ouviu aqui, outra história totalmente diferente se conta. Talvez por isso a mãe gritasse tanto quando ela entrava em casa falando, porque só devia gostar da voz que tinha na rua, que falava a verdade. Com isso o garoto a convenceu a nunca contar em casa as brincadeiras estranhas que às vezes fazia com ela. E nesse rompante Cristina decidiu não levar para casa nada mais que fosse da rua. Foi assim quando uma vez achou no chão uma nota de dinheiro e um bilhete para uma tal de Idalina. Teve pena de Idalina perder um bilhete com seu nome. No bilhete, uma pequena missão e Cristina decidiu cumpri-la. Ao menos a coisa ficava feita. E fez, com algumas ajudas e ainda troco. Poderia levá-lo para a mãe, mas sabe lá de que roubo ou presente proibido ele teria vindo quando passasse pela porta adentro... Guardou-o no quintal, junto com o bilhete e um papel recebido. Perguntou à mãe se ela conhecia alguma Idalina. Ela disse que não, mas talvez estivesse mesmo ouvindo outro nome... 42 Celuzlose 04 - Março 2010


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Cristina com os cabelos nas mãos da mãe: – E por que meu pai trabalha de noite, mãe? – Ué, porque ele conseguiu esse trabalho... – E você, por que não trabalha? Uma ordem só e Cristina parou, chorando, de fazer perguntas. Cristina por dias parou no lugar onde achou o dinheiro e o bilhete, esperando Idalina. No início levava o troco, o bilhete e o papel que recebeu, mas começou a ser difícil disfarçar para a mãe o que fazia tanto no quintal ao sair e chegar. Então não levou mais e ficou que se Idalina aparecesse explicava tudo a caminho de casa. Se aparecesse adulta, seria fácil levá-la e entregar tudo pelo portão, apesar de difícil explicar à mãe. Melhor se aparecesse criança, pois podia entrar no quintal e até brincar com ela... em brincadeira tudo se explicava... e quintal ainda não era casa, não existia desrespeito... no quintal, as vozes não diziam nem verdade nem mentira. Mas Idalina não aparecia. Escreveu em uma folha “quem é Idalina?” e a segurava acima da cabeça para todos lerem. Para as crianças menores, lia, “quem é Idalina?”. Todos a olhavam espantados ou rindo e não era possível que Idalina fosse tão distraída, que não a tivesse visto. Talvez tivesse passado com a mãe, entendido tudo e não pudesse desmentir a história que tinha inventado para se explicar. Ou talvez fosse uma senhora de idade que só usasse os óculos para ler, não para andar. E ela não podia agora começar a ler para todo mundo que passasse. Será que essa Idalina era tão besta, que ninguém queria virar logo ela, para ajudá-la? Que nem a própria queria virar ela mesma? Começou a achar que ela é que estava virando besta ali. Um homem passou, leu a pergunta e parou: – Você tá perdida, garota? – Não, quem tá perdida é a Idalina. O homem perguntou por seu pai, sua mãe, sua casa... ela ficou com medo, foi embora e pronto, a última vez que esperou Idalina. A mãe de Cristina também chorava, mesmo que não soubesse mostrar por que, como a filha explicava tantas vezes. Chorar já era motivo para chorar. Mas não, só se chorava em dias de frio, e pouco, pois o frio era espremer tudo, até o que era de se rir. Mas ela chorava, sim. Um dia, em pleno calor, estava chorando, Cristina perguntou, e pela primeira vez ela explicou: – Sei lá... alguma história que eu li aqui nesse jornal... história é uma coisa que não para de acontecer com a gente... Quanto mais a gente quer que ela mude, ou que ela não mude, mais ela não para de acontecer... Mas Cristina já havia se distraído do que a mãe falava, por um detalhe no canto do jornal que ela segurava, uma coincidência que achou engraçada: estava escrito ali “Loterias”, e o mais engraçado é que havia uns números exatamente iguais aos do papel que recebeu junto com o troco de Idalina. Não sabia o que isso significava, mas como jamais ia poder contar à mãe, e, como tinha perdido a vontade de encontrar a besta da Idalina, isso tudo seria para sempre uma mentira... entre ela e Idalina. Celuzlose 04 - Março 2010 43


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Wellington de Melo Foto: Felipe Ferreira

Nasceu em Recife, 1976. Poeta, professor e tradutor. Publicou O diálogo das coisas (Ed. Universitária, Recife, 2007) e [desvirtual provisório] (Ed. Canal6, Bauru/São Paulo, 2008), que deu origem ao poema instalação homônimo, exibido na última Fliporto. Recebeu menção honrosa no Prêmio Nacional Mendonça Júnior de Crônica e Poesia (2007) com o poema “Casa”. Organizou com Lucila Nogueira (UFPE) e traduziu ao espanhol a edição de A musa roubada (CEPE), livro de poemas inéditos a partir dos manuscritos da poetisa da Geração 65, Terêza Tenório, lançado na Bienal do Livro de Pernambuco de 2007. Faz parte atualmente do grupo Urros Masculinos, com quem organizou o Sarapateliterário – leilão de manuscritos de escritores em Pernambuco. Organiza, com o mesmo grupo, a FreePorto, Festa Literária do Recife. Trabalha atualmente poemário O peso do medo – 30 poemas em fúria, a extensa narrativa Estrangeiro no labirinto, ainda sem previsão de publicação, e o livro Espaços vegetais & outros contos.

ART R ROG RIO um último poema mas você se eleva com um lagarto aceso com uma verdade de sete estrelas plantada na boca com um não incinerado na língua um último poema num varal de esperanças apodrecidas mas você me rasga a pálpebra com filetes de madressilvas me presenteia um espelho oco um terno mofado larvas de poetas abortados só queria um último poema mas último poema não há porque um último poema é como encaixotar palavras em cinco livros porque não há poema que caiba não há poema eu tentei destruir o verso e o peso do medo mas não acaba eu tentei mastigar a carne da poesia mas não acaba barr to c mpello não acaba dr mmond não acaba bl ke não acaba y rke não acaba b ndeira não art r rog rio não acaba p ssoa não acaba porque é muita carne pra pouca boca não acaba porque desliza como aquele lagarto aceso como o olhar de l rca aquele olhar de l rca antes do fuzilamento como a pupila de l rca soterrada pela areia quente de granada como a presa do cão andaluz mordendo o derradeiro olho de l rca mas l rca não cabe na boca do cão não acaba fed rico numa vala anônima fed rico sorrindo do meu último poema e de teu último livro porque ele sabe não cabe não acaba mesmo que a sua seja língua e a minha seja olho a sua riso e a minha náusea não acaba não cabe em nenhuma parte porque a pupila de aleph na minha pupila refletida carbonizou todos meus poemas retalhou toda a carne da poesia dinamitou a solidão do blog esquecido de rodr go de souza leão esse reflexo vale mais que o medo vale mais que a fúria porque essa poesia não é nada porque em recife ou salamanca em são paulo ou barreiros um olhar feio um trejeito um tiro certeiro uma estocada depois disso nada porque no final a conta tem que ser paga porque de nós só restarão mornas tardes em seminários inúteis com meninas menstruadas e esses livros de ventre morto

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FOTOGRAFIA agora quando a fúria já se faz ausência volto ao ofício de apagar-me ser só sombra dissipar lentamente toda vontade grudar-me enfim ao frio inaugural das paredes da casa verter-me em silêncio assumir sem culpa o abismo deixar-me capturar pelo instantâneo oblíquo da kodak acorrentar-me outra vez ao sótão ao sofá ao controle remoto à plácida paz da alcova amanhecer cada dia na mesmíssima cama calar calar calar e ser feliz eternamente feliz fotografia amarela em velho álbum de família

PINA o aço dos trilhos o sorriso azedo das crianças na ciranda aérea do coque o peso do para-brisas a máscara o vácuo passeio pedestre lambo os fios de alta tensão bicicletas adormecidas arranham inocências de terra batida manilhas-precipícios infância eu sou caminhos que você não entende seu olho agora nas casas que se derramam umas sobre as outras empilhadas sonhos numa gaveta perfurada há um muro que recorta o esqueleto da casa pessoas entalhadas nas paredes seus sorrisos cinza na frente da ruína o muro diante do muro diante do muro eu uma noite querendo ser dia as casas vomitando espelhos meu olho sugando essa paisagem quadrada meu olho incrustado nas vozes das cantigas dos meninos descalços sobem o muro os meninos com sua voz de esponja e vertigem eu avanço por pontes não nascidas árvores mortas cemitérios de automóveis e casas e casas destelhadas que sem teto a casa é uma virgem nua eu caminho sobre o asfalto mastigado pelo medo eu mastigo meu medo e limo letras mudas avanço para o pina enquanto ficam para trás as ruínas enquanto abandono a vertigem que a vertigem é a vontade de pular

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Alfredo Fressia Nasceu em Montevidéu, 1948 e reside em São Paulo desde 1976. Destacado poeta hispano-americano, Fressia criou uma sólida obra poética, traduzida para muitas línguas. Integra as melhores antologias do Continente. É também tradutor e cronista, autor do recente Ciudad de papel (Montevidéu, 2009). Publicou recentemente a antologia Canto desalojado (São Paulo: Lumme, 2010), com organização e tradução de Fábio Aristimunho Vargas.

POETA NO ÉDEN Não, Senhor, nunca fugirei do Paraíso, tenho em mim o leite eterno dos pais e dos filhos, e escrevo poemas para a saudade. Não, Senhor, nunca seguirei o rumo imprudente dos quatro rios, o que impele os nautas até o mar de monstruosas criaturas. Tinham podado os ramos de ouro que brilhavam na árvore da vida. E agora me chamam como almas. Não, Senhor, nunca comerei da árvore proibida. Apertei tantas vezes em minha mão as frutas suculentas. Aspiro os perfumes sedutores, – Et d'autres, corrompus, riches et triomphants – Nada sabes dos meus íntimos paraísos artificiais, e te ofereço as costelas úmidas e túrgidas para que sigas modelando o mundo enquanto durmo. Sou um menino imenso escrevendo docilmente no barro do Éden. Tenho um boneco de porcelana branca. Balbucia.

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POETA EN EL EDÉN No, Señor, nunca huiré del Paraíso, tengo en mí la leche eterna de los padres y los hijos, y escribo poemas para la nostalgia. No, Señor, nunca seguiré el rumbo imprudente de los cuatro ríos, el que impele a los nautas hacia el mar de monstruosas criaturas. Habían podado las ramas de oro que brillaban en el árbol de la vida. Y ahora me llaman como almas. No, Señor, nunca comeré del árbol prohibido. Apreté tantas veces en mi mano las frutas suculentas. Aspiro los perfumes seductores, — Et d´autres, corrompus, riches et triomphants — Nada sabes de mis íntimos paraísos artificiales, y te ofrezco las costillas húmedas y turgentes para que sigas modelando al mundo mientras duermo. Soy un niño inmenso escribiendo dócilmente en el barro del Edén. Tengo un muñeco de porcelana blanca. Balbucea.


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LITURGIA Meticulosamente desfiz o cadarço dos tornozelos, abri o cinto do ventre e baixei com cuidado os quadris. Desabotoo o meu peito com minúcia, tiro minha máscara facial do queixo até a nuca e se um calafrio dorsal delata minha coluna dobro-a como um feto cada madrugada.

LITURGIA Meticulosamente deshice el cordón de los tobillos, abrí el cinto del vientre y bajé con cuidado las caderas. Me desabrocho con minucia el pecho, me quito la máscara facial desde el mentón hasta [la nuca y si un escalofrío dorsal me delata la columna la pliego como un feto cada madrugada.

CARTÃO POSTAL Vista noturna do centro de Montevidéu, não reconheço o ar violeta das ruas, mas uma dura ametista de memória, e presa resistente dos dias. Não morrerei em Montevidéu, mas as mãos me ensinam o caminho ao pião quieto que girava com o mundo (a vista noturna do tempo da minha infância) Mas as fotos declaradas e a fé amarela nas gavetas, irreconhecível vista noturna em cima da minha cama, inverso o mundo, em outro idioma, um pião de mentiras: os olhos seguem presos à dura memória de outros dias.

TARJETA POSTAL Vista nocturna del centro de Montevideo, no reconozco el aire violeta de las calles, pero una dura amatista de memoria, y presa resistente de los días. No moriré en Montevideo, pero las manos me enseñan el camino al trompo quieto que giraba con el mundo (la vista nocturna del tiempo de mi infancia) Pero las fotos declaradas y la fe amarilla en los cajones, irreconocible vista nocturna encima de mi cama, inverso el mundo, en otro idioma, un trompo de mentiras: los ojos siguen presos a la dura memoria de otros días.

(FINAL) Encerro todo ciclo, em mim me acabo. Tirésias contempla o travesti em silêncio, por séculos se responde um eco humano e em mim me acabo.

(FINAL) Cierro todo ciclo; en mí me acabo. Tiresias contempla al travestí en silencio, por siglos se responde un eco humano y en mí me acabo.

(Tradução: Fábio Aristimunho Vargas) Celuzlose 04 - Março 2010 47


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Joan Navarro Oliva, País Valenciano, 1951. Professor de Filosofia. Autor dos livros de poesia Grills esmolen ganivets a trenc de por (1974), L'ou de la gallina fosca (1975), Bardissa de foc (1981), La paüra dels crancs (1986), Tria personal: 1973-1987 (1992), Magrana (2004), Sauvage! (2007), edição francesa de A. Salvador e A. Gato, Atlas - Correspondència 2005-2007 (2008), com o pintor Pere Salinas e tradução ao espanhol de Lola Andrés, e do texto narrativo Drumcondra (1991). Tradutor de Amado mio de P.P. Pasolini (1986) e, com Octavi Monsonís, de Ossos de sípia, d'Eugenio Montale (1988). Preparou e traduziu ao catalão Orides Fontela, Esfera (Una antologia), com prefácio de F. Aristimunho Vargas, no prelo. Tradutor ao espanhol dos livros de Elisa Andrade Buzzo, Noticias de ninguna parte, (México, 2009), e Canción retráctil, no prelo, e de Lígia Dabul, Luces, também no prelo. Os seus poemes apareceram em diversas antologias, como Katalonska Lirika Dvajsetega Stoletja (Ljubljna, 1982), Il Pomerio (Reggio Emilia, 1983) e Poesia catalana contemporània (Tokyo, 1991). Participou do Tordesilhas - Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea celebrado em São Paulo em 2007. Em fevereiro de 2009, interveio com a poeta Anna Montero nas KJCC Poetry Series organitzades por Lila Zemborain na Universidade de Nova York. Atualmente prepara a edição da segunda colaboração com Pere Salinas, Grafies·Incisions, com textos em catalão e tradução ao espanhol, francês, inglês e português. É editor da revista digital sèrieAlfa. art i literatura http://seriealfa.com

Pere Salinas Barcelona, 1957. Pintor. Sua obra foi exposta em diversas galerias da Áustria, Espanha, Finlândia, Holanda, Israel, Suíça e em feiras internacionais de arte contemporânea como ARCO-Madrid, Art-Frankfurt, Lineart-Gante, Art-Innsbruck e Kunstmark Dresden. A música e a poesia nutrem seu trabalho artístico. Elaborou séries sobre o Rèquiem de W. A. Mozart, o Concerto para violoncele de A. Dvořák, os Gurre Lieder de A. Schönberg e homenageou solistas como o violinista Isaac Stern. Em poesia teve F. Hölderlin, J. W. Goethe, F. García Lorca, T. S. Eliot, W. H. Auden, Juarroz como objeto de seu trabalho, e também obras de autores contemporâneos como La vida lenta de Manuel Crespo, Magrana de Joan Navarro, Llibre dels minuts de Gemma Gorga ou NO ON – Rèquiem de Víctor Sunyol. Pessoa comprometida com o seu tempo e sociedade, criou El Llibre de ràbia para mostrar a sua rejeição à entrada da Espanha na guerra do Iraque e La femme blessée, uma série de mais de cem desenhos, para deixar clara a sua repulsa diante de atos constantes de violência de gênero. Publicou Atlas - Correspondència 2005-2007, premiado pelo governo valenciano como o melhor livro editado em 2008, o seu primeiro trabalho conjunto com o poeta Joan Navarro. O seu segundo trabalho com o poeta valenciano, Grafies·Incisions, está em processo de edição. Neste momento prepara a exposição “Pere Salinas - Llibres d'artista”, produzida pelo Museu de Granollers e que será exposta também na Universitat de Barcelona.

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Burburinho de pássaros dentro da folhagem do pinheiro. O ouro cuida os liquens da memória, umbria da alma, as covas do ar, os talvegues que ninguém transita: Desabita a cavidade das palavras: Submerge-nos no devir das corolas ardentes:

Enrenou d'ocells dins del fullam de la pinassa. L'or cura els líquens de la memòria, l'obaga de l'ànima, els sots de l'aire, els tàlvegs que ningú no transita: Deshabita el balm de les paraules: Ens submergeix en l'esdevenir de les corol·les ardents: 26.12.05 Celuzlose 04 - Março 2010 49


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A chama sagrada. A fumaça. O ouro enferrujado das abóbadas. O ofegar frágil do bisão. O anel do totem: O círculo do olhar que engranza todas as rotas, os pigmentos das horas, as grafias da espera inquieta sobre o muro da gruta: Decolagem de cinzas.

La flama sagrada. El fum. L'or rovellat de les voltes. L'esbufec fràgil del bisó. L'anell del tòtem: El ròdol de la mirada que enfila totes les rutes, els pigments de les hores, les grafies de l'espera inquieta sobre el mur de la gruta: Envol de cendres. 20.04.06 50 Celuzlose 04 - Março 2010


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Esta quietude depois do vendaval: O cálice e os espinhos. Esta claridade imóvel das águas: A roda de orações da palavra: A rotação da estrela que se incandesce: A pérola do lótus. Este silêncio de fevereiro quando o pássaro retorna ao refúgio da semente adormecida: A cinza dos números: O trânsito à plenitude serena.

Aquesta quietud després del vendaval: El calze i les espines. Aquesta claredat immòbil de les aigües: El molinet de la paraula: La rotació de l'estel que s'aflama: La perla del lotus. Aquest silenci de febrer quan l'ocell retorna al cau de la llavor dormida: La cendra dels nombres: El trànsit a la plenitud serena. (Tradução: Fábio Aristimunho Vargas)

11.02.07 Celuzlose 04 - Março 2010 51


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Reynaldo Jiménez Nasceu no Peru, 1959, e vive em Buenos Aires. Publicou uma dúzia de livros de poesia (alguns no México e Espanha), dois de ensaio de invenção, uma antologia dos old frontmen & frontwomen da poesia peruana; traduziu para o castelhano, entre outros, Josely Vianna Baptista, Régis Bonvicino, Carlito Azevedo e Jussara Salazar; atualmente traduz Galáxias de Haroldo de Campos que será publicado em 2010 em Montevidéu e, também em 2010, será publicada na Argentina a antologia de Arnaldo Antunes (tradução em parceria com Ivana Martínez); desde os anos 1980 participa de eventos performáticos de poesia; autor de videopoemas; recompilador dos escritos inéditos ou dispersos de Néstor Perlongher; fundou várias editoras pequenas; criou e codirigiu a revista Tsétsé, assim como a editora homônima, entre 1995 e 2008. Possui diversos textos e ensaios publicados em seu blog: http://quepodriaponeraqui.blogspot.com

TEMPORAL () o amor não detém em seus espelhos escuridão de árvore no habitado tanque a ocultação do todo inutilmente rememora nomes nus quando relâmpago teu olho aparece

TEMPORAL ()

() celebrar sequer o que vem a morrer e a seu devido instante o célio ceder também quisera observatório atormentar ao devorar-te () permanecer assim contigo por completo atravessar-te mas não no sentido do dardo ouro a nuvem que não vês lasca solitária de portas que te fingem desperta ao inaudível sem mais atributo que estalos de água sua repentina antiguidade () satélites folhas caem nus desde a origem vaga na quietude a água lúcida acesa em outras sombras

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el amor no detiene en sus espejos oscuridad de copa en el morado estanque la borradura del todo inútilmente rememora nombres nudos cuando relámpago tu ojo aparece () celebrar siquiera lo que viene a morir y a su debido instante el celaje ceder también quisiera observatorio atormentar al devorarte () permanecer así contigo por completo atravesarte pero no en sentido del dardo oro la nube que no ves esquirla soledad de puertas que [te fingen despierta a lo inaudible sin más atributo que chasquidos de agua su repentina antigüedad () satélites hojas caen desnudos desde el origen vaga lo quieto el agua lúcida encendida en otras sombras


GEO

Literatura sem Fronteiras CARCA la muerte retumba esqueleto es del viento la muerte desanuda e intento su música y yo qué sé de su barba y yo qué sé de su túnica

CASCÃO a morte retumba esqueleto é do vento

a escondem os poemas os cartazes as buzinas

a morte desembrulha e inicio sua música

para que não seja outra ceia porque obscena a tapam

e eu o que sei de sua barba e eu o que sei de sua túnica

e o que faço entretanto eu sou o rei-eu fora de hora

a morte é a única esqueleto é o vento

enquanto canto entrando no quarto que já míngua

a música está nua e eu o que sei desta musa

o que faço entretanto eu morte a última chega

versa cornamusa comigo traz transcendental alegria

a mais distante distinta a menor entre as crias

transparente não saberias que é o toque de recolher

mais alerta se desprendida inteira até na caçada

que morrer é intocável que poder é que é tocar

quimera primeira moenda entre as almas íntima

e o que sei de suas ruínas sua podre andorinha

e resigno que ao arranhá-la e ao temperá-la arranho que

de baixo da sorte de dentro do dente

sacro asco que me guia afago que me confia

morte é inocente morte vai proibida

qualquer confim já é dia o primitivo cascão com sua casaca sua casca seu cabelo em ponta cascalho quando é ela e respira quando ela é e respira quando é ela e respira e respira respira respira

la muerte es la única esqueleto es el viento la música está desnuda y yo qué sé de esta musa versa cornamusa conmigo trae trascendental alegría transaparente no sabrías qué es el toque de queda qué quedarse es intocable qué poder es qué es tocar y qué sé de sus ruinas golondrina su podre desde abajo de la suerte desde dentro del diente muerte es inocente muerte va prohibida la esconden los poemas los carteles las bocinas porque no sea otra cena porque obscena la tapan y qué hago en tanto yo doy el reyo a su deshora mientras canto entrado al cuarto que ya mengua qué hago entre tanto yo muerte la última llega la más distante distinta la menor entre las crías más alerta si desprendida entera aun en la cacería quimera primera molienda entre las ánimas íntima y resigno qué al rascarla y al templarla rasco qué sacro asco que me guía roce a qué me confía cualquier confín ya es día la primitiva carca con su casaca su cáscara su pelo en punta cascajo cuando es ella y respira cuando ella es y respira cuando es ella y respira y respira respira respira

(Tradução: Victor Del Franco) Celuzlose 04 - Março 2010 53


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Dialética da transgressão* por Carlos Felipe Moisés

1

Cerca de meio século atrás, foi moeda corrente, entre nós, a ideia de uma “ciência da literatura”, que deveria conduzir, um dia, à fixação de um “vocabulário técnico”, básico, capaz de garantir a inteligibilidade de todos os textos críticos, assim como um grau mínimo de objetividade aos juízos de valor. O obstáculo a vencer era o “impressionismo”, designação genérica dos vícios e distorções de uma crítica subordinada às idiossincrasias ou à suposta “autoridade” do crítico, quando não à força da inércia. A estratégia prioritária pedia a aniquilação das “falácias reducionistas” (biografismo, historicismo, psicologismo, sociologismo etc.), isto é, as visões apriorísticas, com base nas quais a obra literária seria sempre rebaixada à condição de mero exemplo comprobatório de generalidades onipotentes e onipresentes, ponto de partida, e ao mesmo tempo de chegada, do esforço crítico. A primeira grande conquista, visível já no início dos anos 1960 (na Europa e nos Estados Unidos, algo equivalente vinha ocorrendo fazia algum tempo), foi o “primado do texto”, passo inicial no rumo de uma definição suficiente da “especificidade” literária. Na época, quem lidasse com arte cinematográfica, por exemplo, referia-se, com ar grave e pleno de intenções, ao “específico fílmico”, no mesmo diapasão com que os interessados em artes plásticas tratavam de isolar, fenomenologicamente, o “específico pictórico”, uns e outros a praticar seu ato de devoção a uma espécie de pureza substancial1, exclusiva de cada linguagem, vale dizer o fundamento ontológico sem o qual não seria possível assegurar que um quadro é só quadro ou que um filme é só filme, de modo que nenhum deles corresse o risco de se confundir com outro objeto qualquer. Se assim era, um pouco por toda a parte, a literatura não poderia ficar atrás. Partiu-se então no encalço do “específico literário” ou da “poeticidade”, que só poderia estar no texto, não em outra parte, e as condições para que a empreitada fosse bem sucedida eram claras: os estudos literários só farão jus ao status superior de “ciência” se lograrem, primeiro, definir adequadamente seu objeto; se forem capazes, em seguida, de formular um método próprio, alicerçado em rigor e objetividade (falava-se em “método”, mesmo, já que a palavra mágica “metodologia” ainda não se impusera como solução definitiva de todas as dúvidas daí decorrentes); e, por fim, se da empreitada resultar uma terminologia representativa das “verdades” comuns, que dariam embasamento ao sonho realizado: uma ciência geral da literatura. Seria ocioso tentar explicar por que isso não se deu. Se essas condições eram claras, não o era, porém, na mesma medida, o fato de que se tratava de uma concepção demasiado estreita de ciência, de extração francamente positivista, a se arrastar século XX adentro. Não é de estranhar, pois, que hoje estejamos mais distantes dessa ciência do que estávamos, meio século atrás. * Ensaio de abertura do livro homônimo, a sair em 2010 pela editora Confraria do Vento. 1) Na época, teve larga repercussão entre nós A revolução da arte moderna, do pensador austríaco Hans Sedlmayr (tradução do poeta surrealista português Mário Henrique Leiria: Lisboa, Livros do Brasil, s.d.), que analisa as “determinantes” da arte moderna, a primeira das quais seria a “procura da pureza”.

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Tem sido inegável, desde então, o refinamento dos estudos literários, com notórios avanços no rumo da investigação epistemológica e da fundamentação teórica, por vezes excessivas em seu arremedo de “ciência”, assim como da sofisticação terminológica e do empenho, não raro obsessivo, na novidade absoluta, o culto fetichista do mais moderno e avançado, ainda que não passe de velharia requentada. Um pouco por isso, embora não só, evidentemente, o que passou a prevalecer foi o relativismo generalizado. Hoje, ninguém hesita em aceitar que cada caso é um caso, cada juízo é um juízo, todos igualmente válidos. Um dos efeitos do relativismo foi a perda progressiva, nos últimos 50 anos, das referências e critérios comuns, mais ou menos estáveis, em matéria de juízo de valor. Antes, a poeira dos equívocos naturais, ou das distorções maliciosas, em pouco tempo assentava e todos ficavam sabendo quem era quem, ou que autores, obras e tendências de fato mereciam o apreço dos leitores e estavam aí para ficar, embora não indefinidamente, e sempre às voltas com alguma divergência. Meio século atrás, essa espécie de acordo tácito começou a se desfazer, graças – embora não só, mas também – à drástica redução do espaço concedido à literatura pela imprensa, espaço até então ocupado pela crítica especializada, cujos juízos se faziam acessíveis a todos os interessados. Antigamente, críticos escreviam para o jornal; hoje escrevem no jornal. A partir daí, especialistas passaram a dialogar com outros especialistas, a portas fechadas, e os juízos de valor com chance de vingar foram aos poucos se subordinando à imponderabilidade da troca de favores e do jogo de conveniências. O poder literário, antes decorrente do mérito e de alguma força inercial, passou a depender da capacidade de persuasão dos próprios escritores – os que se dedicam à tarefa da autopromoção – ou dos feudos formados pelos grupos de pressão, que se multiplicaram pelo país. Mérito, qualidade e talento foram sendo substituídos por uma boa estratégia de marketing. Outrora, os mais jovens se queixavam, alguns com razão, de que não tinham vez, mas muitos acreditavam que a dita “vez” só poderia resultar do vácuo deixado por algum velho desistente, como se a lógica das academias, com seus 40 imortais, valesse para a generalidade do sistema literário, e como se todos os velhos não passassem de tipos invejosos e arrivistas. A poucos ocorria que nos flexíveis meandros do sistema havia lugar para todos, era só uma questão de paciência. Para todos? Bem, para todos os portadores de qualidade, talento e mérito próprios. Hoje, em compensação, jovens e velhos já não têm de que se queixar, hoje todos têm vez, isto é, todos os que se dispuserem a fazer que sua vez aconteça, custe o que custar, antecipando-se ao agora inviável julgamento de consenso. Mas só os mais ingênuos ficarão espantados: entre esse quadro e o anterior, a diferença é de grau, não de substância: antes, só corriam atrás da glória efêmera os menos dotados, quase sempre morrendo de vergonha, cientes de que aquele acordo tácito cedo ou tarde se incumbiria de desmascará-los, colocando as peças no devido lugar.

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Um dos fatores determinantes do processo que conduziu a esse estado de coisas tem que ver, direta e indiretamente, com o fantasma da historiografia literária, ou dos estudos de literatura concebidos como visão panorâmica, exorcizado quando entre nós se esboçou o sonho de uma ciência literária. Adorno o enxergou com clareza meridiana: “Desde que se passou a buscar o fundamento de todo conhecimento na suposta imediatidade daquilo que é dado subjetivamente, procurou-se, de maneira por assim dizer fiel ao ídolo da pura atualidade, expulsar do pensamento a sua dimensão histórica”2. Consequência inevitável do primado do texto, condenaram-se, como obsoletos, os prestimosos excursos generalizadores, que se atinham aos estilos de época, às tendências dominantes e ao contexto sociocultural, para em seguida aí “situar” os escritores “representativos”. (E os demais? Os demais, já se vê, não contam para nada, só serviriam para subverter o esquema, tão bem arranjado, dos panoramas abrangentes.) Muito justa a condenação: essa espécie de visão fornecia, da literatura, uma imagem claramente distorcida, pois negligenciava o que o fenômeno literário tem de específico: o texto e sua singularidade. Tal concepção fazia a delícia de críticos que se lançavam com voracidade aos aperitivos e entradas e se ausentavam da mesa no momento em que seria servido o prato principal; e ao mesmo tempo frustrava leitores mais exigentes, incapazes de enquadrar, a contento, qualquer autor em qualquer estilo de época. Mas parece ter havido algum exagero nessa sentença sumária: o que havia a condenar era tão só a má qualidade de uma história contada por historiadores desprovidos de estofo crítico e, portanto, impossibilitados de lidar com as diferenças. Por outro lado, o exagero conduziu as correntes baseadas no primado do texto a uma espécie de beco-sem-saída, condenando a obra literária a passar por objeto autossuficiente, fora do espaço e do tempo. Condenou-se a (má) historiografia e atirou-se no ralo a consciência do processo histórico ou a historicidade, que faz da literatura um conjunto orgânico de fenômenos inter-relacionados, diacrônica e sincronicamente. Adorno adverte que “a historicidade interna do pensamento confunde-se com o seu conteúdo, e, assim, com a tradição”, para em seguida acrescentar que, “em contrapartida, o sujeito puro, completamente sublimado, seria o sujeito absolutamente desprovido de tradição”3, vale dizer o sujeito ingênuo e pretensamente livre dos condicionamentos históricos. Em sintonia com o que veio ocorrendo nas demais esferas da cultura moderna e pós-moderna, a história deixou de ser entendida como “passagem” de vetores que transitam do passado para o presente, permitindo gerar o futuro, e se converteu em tábula rasa, espécie de eterno presente que parece ter zarpado com sofreguidão no rumo do porvir, deixando para trás, por obsoleto, todo o passado inútil. Mas só parece. Na verdade, esse presente de ritmo freneticamente acelerado não partiu na direção de

2) Theodor Adorno, Dialética negativa, trad. bras. de Marco Antônio Casanova: Rio de Janeiro, Zahar, 2009, p. 53. 3) Idem, p. 54.

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parte alguma, está desde o início encalhado no mesmo lugar, em meio ao atravancamento de ruínas produzidas pela tempestade-progresso que, na conhecida visão de Walter Benjamin, arrasta o “Angelus Novus”, de Paul Klee, irresistivelmente, e de 4 costas, na direção do futuro. O presente esvaziado de passado e de antecedentes não tem como gerar consequentes, não tem como gerar futuro algum, muito menos o futuro redentor prometido pelo fetiche da novidade absoluta, sempre prestes a se realizar mas que jamais se realiza, pois, em seguida à sua apoteótica aparição, tudo será sempre descartado, engolfado pela redundância de um novo presente, que se pretende presente e novo para todo o sempre.

2

A cultura moderna continua a ser vítima da grande psicose romântica, responsável pela generalizada egolatria que nos convenceu a todos de que, em matéria de arte, literatura, poesia, tudo provém do gênio individual, tudo depende de termos nascido, ou não, com aquele dom extraordinário, milagroso, que faculta a uns poucos escolhidos criar, ninguém sabe como mas todos sabem o quê: as grandes obras, avatares do universo ao lado. A multidão humilde, extasiada, maciçamente formada por indivíduos que “não nasceram para isso”, se prostra diante dos gênios da raça, que iluminam o mundo humano como se falassem pelos que não têm voz. Enquanto isso, todos os artistas e escritores experimentam a convicção comum de que só chegarão a participar do espetáculo se forem capazes de criar uma obra absolutamente nova e original, marca de sua individualidade única. Por isso nunca houve, como no mundo moderno, tanto sonho de grandeza: Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando? Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas – Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas –, E quem sabe se realizáveis, Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? [...] O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. [...] Serei sempre o que não nasceu para isso.5

Mas o gênio individual, seja o verdadeiro, que efetivamente se destaca e comanda o espetáculo, seja a inefável figura daquele que nunca verá “a luz do sol real”, é sempre resultado de uma tarefa coletiva; é sempre, só, aquele esforço (pessoal, claro está) de arregimentar em si as grandes correntes de pensamento, pertença de todos e de ninguém. O gênio individual, de qualquer porte, não é a árvore milagrosa, que já nasce pronta, enraizada nas nuvens, mas a pequena planta que se nutre do húmus comum, e pode ou não crescer e frutificar, embora a psicose romântica a obrigue a disfarçá-lo, simulando uma singularidade e uma originalidade sempre irreais. Em matéria de arte e literatura, o fenômeno da partenogênese é uma impossibilidade.

4) W. Benjamin, “Theses on the philosophy of history”, in Illuminations, org. e intr. Hannah Arendt, trad. norte-amer. de Harry Zohn: New York, Shocken Books, 1969, pp. 257-258. 5) Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos: Lisboa, Ática, 1958, p. 252.

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Houve, em tempos longínquos, um poeta dos nossos que, num arroubo de franqueza, afirmou sentir em si “o borbulhar do gênio”. Quantos mais o teriam acompanhado, não fosse o falso pudor? A história, ora implacável, ora submissa, às vezes o aceita, às vezes o repudia, e até pouco tempo atrás era sempre a ela que recorríamos, quando queríamos saber quais são e onde se localizam os verdadeiros gênios individuais, para afinal confirmar que estes não se localizam em parte alguma, embora saibamos muito bem de onde provêm. Para isso serve, ou servia, a história literária. Outrora, não havia dificuldade em “situar” um Gregório, um Gonzaga, um Gonçalves Dias e até mesmo um Bilac ou um Cruz e Sousa, cada qual em seu respectivo contexto ou estilo de época. Isso era bom? Difícil admitir que sim. Era, quando muito, tranquilizador, pois propiciava a confortante sensação de que a literatura, a despeito de sua impressionante heterogeneidade, não passava de um imenso armário, com suas estantes e prateleiras, suas gavetas e escaninhos muito bem arrumados: tudo no devido lugar. Mas, e hoje? Hoje não temos onde “situar” nenhum dos escritores do século XX, a não ser que continuemos a enquadrá-los nos mesmos compartimentos do velho armário, carunchado e inútil, e, da metade do século para cá, transformado em caricatura, pelo acréscimo de novas gavetas e prateleiras, ainda mais falsas que as da tradição anterior. Será imediata, já se vê, a objeção ao que vou expondo: não temos onde “situar” nossos escritores porque não é esse o alvo dos modernos estudos literários. Um passo adiante foi dado e há que ser coerente. Mas, se assim é, por que insistimos em... situá-los? Por que não levamos a coerência até o fim, abrindo mão de certo historicismo, que nos incita sempre a comparar este autor àquele outro, para detectar tendências comuns, que permitam agrupá-los em esferas de influência e afinidade? Não é o que continuamos a fazer, século XXI adentro, quando nos aproximamos de uma obra literária, para lhe desvelar a singularidade? Repito: aquela equivocada historiografia morreu, mas a necessidade de perspectiva histórica e o apetite pelas visões micro ou macropanorâmicas permanecem, mais vivos do que nunca, em consequência do exagero atrás assinalado. Nos anos recentes, à medida que vai ganhando corpo a consciência do exagero, já se esboça a reação primária do privilégio concedido aos chamados “estudos culturais”, variante da contracultura dos anos anteriores. Tais estudos se empenham em vasculhar um pouco de tudo nos arredores do fenômeno literário, agora transformado em pretexto para a veiculação de outros interesses, às vezes mais, às vezes menos, por vezes nada sintonizados com a literatura, e com isso só fazem reviver a velha falácia determinista, superada meio século atrás – “superada”, bem entendido, para quem tenha prestado atenção e assimilado o que ocorreu daí por diante. Mas para os arautos da pseudonovidade “culturalista” nada foi superado e o que poderia representar avanço, ou correção de rota, não é senão melancólico retrocesso. Voltaremos a isso. Antes, convém examinar um pouco mais de perto a crise anterior.

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Outra consequência, paralela à condenação da história literária, foi a hipertrofia do conceito de “transgressão”, forjada na esteira que a antiga miragem de uma “ciência da literatura” deixou, ao implodir. Se o que pretendemos é o novo, a qualquer preço, o novo permanentemente renovado, então (os desdobramentos da psicose romântica não oferecem outra saída) não há como escapar: é preciso romper com o passado, é preciso transgredir, sempre. O velho lema do anarquista espanhol poderia bem servir de ilustração à lei máxima do nosso tempo: “¿Hay gobierno? Yo soy contra”. Ipso facto, logo em seguida ao primeiro ato transgressor, será preciso romper também com o que, havia pouco, era “novo” mas fatalmente deixou de ser. Voltaremos a isso, no momento oportuno. Antes, cabe frisar que, tendo migrado da esfera do religioso para a da ordem jurídica (ou das Tábuas da Lei para o Código Penal), “transgressão” acabou por se constituir, não só mas também, em categoria estética, passando a designar a postura do artista ou escritor que, sentindo-se cerceado pela rigidez do sistema vigente, lute por livrar-se dele ou para torná-lo mais flexível. O receio da punição, seja a divina, seja a da lei dos homens, poderia funcionar como freio à transgressão generalizada, de ordem religiosa ou moral, mas, na passagem para o âmbito da arte, já não há o que temer, para além da volatilidade das metáforas: caso sua transgressão atente contra alguma regra do sistema, o artista não corre o risco de ser condenado ao inferno nem ao cárcere. E há sempre a possibilidade de o sistema ceder à pressão e os sinais se inverterem: o interdito passa a ser o que deve ser dito. Se a transgressão é claramente desencorajada pelas Tábuas da Lei e pelo Código Penal, as prerrogativas dominantes do mundo moderno, pós-iluminista, só fazem encorajar e estimular o ato transgressor. Por isso, já não surpreendem constatações como esta, lapidar, de Affonso Romano de Sant'Anna: “Um dos princípios da arte moderna é a transgressão. Transgredir tornou-se o primeiro e, em alguns casos, o único mandamento da modernidade”.6 Mas transgressão não é privilégio exclusivo de escritores modernos e pósmodernos. Toda a grande literatura, de todos os tempos, nunca fez outra coisa senão inovar, romper com o passado, caso contrário estaríamos recitando Homero até hoje. Transgredir tem sido necessário, desde sempre, e isto se aplica à minoria de escritores superdotados, anunciadores de algo efetivamente inovador. Mas repetir e confirmar, para ampliar o território conquistado, têm sido igualmente necessários, embora isto só se aplique ao meritório esforço da imensa maioria dos medianamente dotados, sem os quais o sistema desmorona e a própria transgressão deixa de ser uma necessidade. Mas qual escritor estaria disposto a esquecer o “borbulhar do gênio” ou a doce condição de “gênio-para-si-mesmo”? Tal constatação, meridiana, nos põe diante de uma noção eminentemente histórica (vois-là!), no sentido de transitória e efêmera, adstrita a específicas circunstâncias de época: a transgressão de ontem ou se esvaiu, sem deixar vestígio, ou se converteu na moda de hoje. No primeiro caso, o experimental revelou-se inócuo e a novidade vazia foi descartada; no segundo, o experimento vingou e deixou de ser experimento, para que a novidade ganhasse o privilégio de alguma permanência. O novo, como tal, não contém valor em si, não tem como se autossustentar, é só o trânsito ou a ponte desejável entre o já-não-mais e o ainda-não, capaz de promover o verdadeiro avanço. Inovar radica numa pulsão substancialmente dialética: não há como

6) “Museu da transgressão”, in Desconstruir Duchamp: arte na hora da revisão: Rio de Janeiro, Vieira & Lent, 2003, p. 79.

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pensar-se em inovação sem que seu contrapeso, a manutenção da ordem em vigor, se faça presente. Imposto como valor em si, em nome da liberdade sem restrições, o novo se condena a seguir implodindo ad aeternum, no vazio da ausência de normas às quais se contrapor. Transgressão tem que ver com desobediência, irreverência, contestação, insubmissão, insubordinação, rebeldia, subversão, blasfêmia, iconoclastia etc. E, last but by no means least, arrogância – essa que provém da grande psicose romântica, para não recuarmos mais ainda. Desde tempos bíblicos, o leque de atributos inerentes à transgressão é imenso. Para que sua meta seja atingida, o transgressor conta necessariamente com a existência de uma Ordem ou um Sistema, rígido e intolerante, cerceador da liberdade ilimitada que ele almeja privilegiar. Diante da Ordem (ou Lei, ou Regra), não haveria senão duas alternativas: obedecer ou transgredir; diante do Sistema, também: é inserir-se nele ou manter-se à margem. Afinada por esse diapasão, a cantilena do maniqueísmo é praticamente inevitável: uma oitava acima ou uma oitava abaixo, mais nada. De início, transgredir foi a exceção, o último recurso dos artistas de vanguarda, já no final do século XIX, na esteira da rebeldia romântica; mas aos poucos, século XX adentro, virou regra geral, já que passou a contar com o beneplácito da maioria, convertendo-se até mesmo em necessidade de sobrevivência: transgrida ou pereça, isto é, condene-se ao (merecido) ostracismo. Assim entendida, a estratégia da transgressão impõe a sumária condenação do “velho” – não a condenação criteriosa desta ou daquela velharia, a ser descartada, mas indiscriminadamente a condenação de tudo quanto aí está, impondo também, no mesmo gesto, a entronização in limine de toda e qualquer “novidade”. A sociedade vai então, aos poucos, mergulhando no vórtice cada vez mais acelerado da novidade sem termo, cujo prazo de validade se reduzirá ao tempo de espera tolerado pela excitação permanente: uma vez entronizado, e antes mesmo de chegar propriamente a ser, o “novo” logo se torna caduco e vira sucata, à espera de ser substituído por seja-o-que-for, ainda mais avançado. O que poderia ser a realização do hedonismo universal (todos empenhados na obtenção do prazer propiciado pela alta tecnologia e pela indústria do consumo) acaba por se revelar inexorável condenação à absoluta impossibilidade de qualquer espécie de prazer genuíno. O simulacro de prazer proporcionado pela última novidade põe logo em destaque a dolorosa descartabilidade de todas as coisas, e só faz agravar a excitação e a ansiedade, atoladas no fosso sem fundo da insaciabilidade. Nada é capaz de satisfazer o compulsivo desejo de mais novidade. A força persuasiva dessa vertente da modernidade de fato nos brinda com a promessa do prazer infinito, mas a maioria dos viventes, hoje reduzidos à condição de usuários e consumidores compulsivos, passa ao largo da simulação. O que daí resulta é a mais contundente negação do hedonismo, o mais radical tedium vitae já experimentado pelo homem do Ocidente, como se se tratasse da mais sublime e redentora bem-aventurança. A razão é clara: não está em causa o prazer que cada qual deva ou possa buscar, segundo a medida e os critérios de suas escolhas pessoais; o que conta, isto sim, é esse “prazer” público e estereotipado, imposto a todos pela tirania da sociedade de consumo. (“Consumir”, não custa lembrar, é “gastar ou corroer até à destruição; devorar, destruir, extinguir”, como ensina o velho Aurélio; ou, na formulação mais sintética do novo Houaiss, “destruir(se) totalmente”.) Para quase todos, cegados

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pela euforia, é o triunfo da liberdade individual; para os mais atentos, como Adorno, é a derrocada do indivíduo: A deformação deplorada do mundo, uma deformação que abre as portas para o clamor pela ordem vinculante que o sujeito espera em silêncio que venha de fora, de maneira heterônoma, é, na medida em que sua afirmação é mais do que mera ideologia, fruto não da emancipação do sujeito, mas do fracasso dessa emancipação.7

Mas perdoe-me o leitor esse desvio, que poderia levar-nos a paragens extremamente rarefeitas. Voltemos a nosso propósito inicial, qual seja a inocente rebeldia transgressora de uns artistas excêntricos, mais de um século atrás.

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Na origem, como num Rimbaud, transgressão é estratégia de combate: “desregramento de todos os sentidos”, no encalço da “verdadeira vida”, e projetos utópicos, empenhados em algo como a “verdadeira vida”, exigem de fato altas doses de insurreição. Para celebrar a futura conquista da vida plena, o poeta-transgressor precisa minar pela base todos os obstáculos, sobretudo os morais e religiosos, que se lhe opõem. A utopia exige que cada um de seus versos se transforme no coquetel molotov de uma guerrilha sem tréguas, contra os valores estabelecidos. Firme na convicção de que é preciso denunciar todas as hipocrisias, romper com todos os tabus, eliminar toda e qualquer restrição à liberdade plena, o transgressor (refiro-me aos pioneiros, quando ainda havia um “sistema” forte e pujante, largamente reconhecido como inimigo a combater) não hesita diante do insulto e da blasfêmia, fazendo ao mesmo tempo o elogio premeditado do que a “boa” sociedade considera vício, libertinagem ou perversão. Com isso, sua poesia passa a depender da cumplicidade do leitor, esse parceiro indispensável, quer endosse a iconoclastia do poeta, quer se deixe ofender. Quando todos estiverem envolvidos – a maioria sem o saber – no magnânimo propósito da aristocratização do lumpesinato, imagine-se quão melancólica será a transgressão que já não encontre quem se sinta ofendido... 8

Em 1922, com a irreverência de sua clássica “Ode ao burguês”, Mário de Andrade tratou de chocar e escandalizar, lançando seu libelo contra o “burguês-níquel”, o “burguês funesto”, o “burguês-mensal”, o “burguês de giolhos / cheirando religião e que não crê em Deus”, e foi bem sucedido, pois contou com a reação ofendida de uma quantidade de leitores, críticos e escritores, que vestiram a carapuça. Graças ao choque e ao escândalo, muitos, quem sabe, libertaram-se de toda ou pelo menos alguma repressão, exterior e interior, e aderiram ao projeto de vida plena. Pelo menos era o que a transgressão esperava. Mas haverá, hoje, algum burguês – níquel, euro, real ou dólar – que se deixe escandalizar por qualquer espécie de blasfêmia? Não consta, há muito, que a resposta possa ser afirmativa.

7) T. Adorno, op. cit., p. 87. 8) A.R. de Sant'Anna (Desconstruir Duchamp, ed. cit., p. 81.) foi o primeiro a estabelecer esta associação.

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O homem medíocre, alvo da irreverência, fez-se de todo impermeável, passando a encarar o insulto como mera excentricidade, pitoresco, irrelevante. Isidore Ducasse, o conde de Lautréamont, temia a reação do pai, e a da censura policial de Napoleão III, por isso escondeu-se sob o pseudônimo. O escritor que insista nessa espécie de transgressão teria hoje algo a temer, de quem quer que seja? Sua fúria iconoclasta parece condenada a ecoar tão somente junto àqueles que já partilham da mesma fé e só fazem confirmar e aplaudir. Não é, supõe-se, o que o poeta “maldito” esperaria, em sua cruzada no encalço da “verdadeira vida”: ele certamente preferiria que as pessoas, físicas e jurídicas, se sentissem atingidas, se ofendessem para valer e reagissem com indignação. Com isso, quem sabe, a utopia estaria menos distante. Não se trata, por ora, de aferir os verdadeiros propósitos do ato transgressor, mas de constatar o esperto mecanismo de autodefesa que o burguês-níquel de outrora tratou de desenvolver, tão logo isso tudo começou – para não recuarmos muito, em 1863, quando Edouard Manet expôs, em Paris, no Salão dos Recusados, sua escandalosa (?) tela “Le déjeuner sur l'herbe”, inocente paisagem bucólica, em que uma senhora nua, recostada na relva, desfruta seu farnel, ao lado de dois senhores engravatados, enquanto no segundo plano vê-se outra senhora, em trajes diáfanos, reclinada, versão levemente irônica de alguma ninfa neoclássica. Não obstante, as reações da burguesia ofendida foram intensas. Nas décadas seguintes, outros transgressores insistiram, intensificando a ousadia e a blasfêmia, na mesma proporção em que a mediocridade bem pensante ia aprendendo a absorver o golpe, a fim de que tudo continuasse no melhor dos mundos. Ordem e Transgressão ou Sistema e Marginalidade de fato entretêm um jogo dialético inescapavelmente capcioso, de ambos os lados, posto a circular a partir do final do século XIX. Graças ao desconcerto geral do mundo moderno, regido pela irracionalidade da abolição de todas as normas e regras possíveis, transgressão & marginalidade ganharam prestígio e granjearam adeptos em quantidade – falsos adeptos, já se vê: com amigos desses, quem precisa de inimigos? A transgressão já não ofende, as aberrações já não berram e o marginal deixou de estar à margem: passou a fazer parte do sistema ou foi engolido por este. “Qualquer artista iniciante”, observa Sant'Anna, “começa por transgredir. Ainda não sabe as regras, mas já as renega. E cria-se uma situação absurda. Transgredir o quê, se antes dele, no passado recente, só havia transgressores?”.9 Tal é o caso do transgressor de segunda geração, enredado na armadilha de uma concepção linear, filogenética, do processo histórico, que induz cada geração a terçar armas com a imediatamente anterior. Mas “o artista moderno não tem mais para onde avançar”, já o assinalara Umberto Eco, nos anos 80 do século passado, restando-lhe apenas “voltar atrás, revisitar a tradição, mas com ironia, sem inocência”.10 Teria sido preciso aguardar tanto tempo para diagnosticá-lo? O artista moderno, na verdade, já não tinha para onde avançar desde as primeiras décadas do século XX, quando todas as barreiras foram rompidas, decretando-se a partir daí a tirania da liberdade absoluta, no rumo da transgressão fetichizada.

9) A.R. de Sant'Anna, op. cit., p. 79. 10) U. Eco, Postscript to The Name of the Rose, trad. norte-amer. de William Weaver: New York, Harcourt Brace, 1984, p. 67.

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Para além daquela linearidade, há que levar em conta a circularidade que tomou conta do processo, induzindo cada geração a repetir ad nauseam a rebeldia dos pioneiros. Assim, nas últimas décadas, os recém-chegados não têm tido dificuldade em farejar a “verdade” incontestada, segundo a qual todo o passado, próximo ou remoto, virou obsolescência, tábula rasa. Ato contínuo, sentindo-se desobrigados de conhecer as experiências pregressas, para levá-las adiante, ignoram o que aconteceu na véspera, retroagem à antevéspera e seguem condenando à morte os cadáveres já decompostos do “sistema”, da “tradição”, dos “cânones” e dos “paradigmas”, como se estes ainda estivessem aí, plenos de saúde, ou como se eles, os recém-chegados, estivessem de volta ao ano da Graça de 1863, quando Manet deu início ao processo. No âmbito jurídico, alegar ignorância das leis não exime de culpa o infrator, que sempre estará sujeito às punições previstas; já no âmbito de certa arte moderna, transgressão veio a ser exatamente sinônimo de ignorância, estratégica ou factual, não apenas das normas a serem rompidas, mas de todo o resto. Em vez de se assenhorear da ampla e flexível complexidade da arte dos antecessores, para a partir daí, e só então, atuar contra o sistema, como faz todo artista verdadeiro, o parvenu ignora quase tudo e passa a vender como “transgressão” qualquer sandice ou frivolidade que lhe venha à mente. Essa espécie de “vanguarda” não tem servido senão de álibi para a soberba. Resultado, dependendo da trincheira em que o leitor se situe, “sistema” será sinônimo de hipocrisia, beletrismo, redundância, mesmice, mediocridade – negação da verdadeira arte e da verdadeira vida, em suma – e por isso pode ser sumariamente ignorado, como se nunca tivesse existido, ou, pior, como se não continuasse a existir, em suas sucessivas metamorfoses; e “marginalidade” será a afirmação triunfante de que nem tudo está perdido: a estética e a ética dessa caricatura de transgressão passam por ser a última esperança. Ao mesmo tempo, para os do outro lado, “marginalidade” quer dizer apenas aberração e gratuidade, e só o “sistema” é que vale – mas estes pensam apenas num sistema idealizado, anterior à rebeldia, como se a transgressão dos últimos cem anos pudesse ser simplesmente varrida do mapa. As duas posições, afinal, se equivalem, enquanto manifestação de maniqueísmo primário, intolerância e rejeição declarada da possibilidade de mescla e intercâmbio. Ambas revelam deplorável desconhecimento da efetiva realidade literária do último meio século. Desde o início do século XX, transgressão e marginalidade têm lugar garantido em todos os grandes índices do sistema, que são, além dos museus, lembrados por Sant'Anna, os manuais de história da arte e da literatura, que continuam a proliferar; as enciclopédias, as retrospectivas, as galerias e os catálogos; assim como as colunas sociais, as revistas de variedades e as estratégias mercadológicas, com seus ícones de consumismo e exibicionismo – tudo sempre debaixo de rótulos variáveis, como “ousados”, “rebeldes”, “dissidentes”, “independentes” e congêneres, aplicáveis tanto à arte quanto aos “valores” sociais vigentes. Inovar e transgredir passaram a ser encarados não só com benevolência mas com indisfarçável simpatia, vindo a contar, in limine, com aprovação e aplauso gerais. Não é imediato, portanto, concluir que a aposta na transgressão pode representar apenas um caminho mais fácil, rápido e seguro, para ingressar no sistema?

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Curiosa complacência a desse sistema que simula rejeitar o que na verdade ama incluir, ou finge incluir o que na verdade deveria rejeitar – não por ser “contra”, mas por sua evidente má qualidade. “Qualidade”? Mas não foi decretado que o novo, válido em si e por si, é intrinsecamente bom? E quem ousaria enfrentar o risco de ser tachado de reacionário ou coisa pior? Afinal, transgressão o que é? Marginal é o que está do lado de fora mas almeja entrar? Ou é o que faz de tudo para permanecer de fora, mesmo, mas para isso precisa que haja um “dentro”, robusto e saudável, que lhe sirva de contraponto e o justifique? Logo, o transgressor da periferia acaba por colaborar, com extrema eficácia, para que o centro continue exatamente como e onde está. (Com inimigos desses, quem precisa de amigos?) O machadiano Simão Bacamarte, grão-senhor da Casa Verde, não teria dúvida: como são maioria, os da margem passam a ser o sistema, cujos ex-adeptos migram então para a marginalidade, de modo que tolerar com equanimidade vem a ser a única forma legítima de... transgredir. Nosso tema, o da transgressão, não se limita, claro está, à supraestrutura de que a literatura faz parte, esse pequeno reduto que nos habituamos a entender como o mundo das artes, privilégio concedido a uma minoria. A transgressão deita raízes nas pulsões mais primordiais, nos vetores subterrâneos que formam a infraestrutura responsável pelos destinos da sociedade como um todo – pelo menos da sociedade livre, igualitária e fraterna que começamos a sonhar, a partir da Revolução Francesa, e até hoje continua a ser perseguida. Frédéric Rouvillois, um dos mais competentes historiadores desse processo, é incisivo no que se refere ao paradoxo exposto nos parágrafos anteriores. Reforça a associação o fato de que o foco do historiador não é a rebeldia ou o impulso transgressor do artista, esse gênio incompreendido, mas o coletivo e anônimo respeito, ou desrespeito, às normas de conduta, às regras da prosaica... polidez. Diz Rouvillois, a propósito da sociedade francesa nas primeiras décadas do século XIX: Assim que as relações sociais se veem subvertidas pelas crises, notadamente políticas ou militares, as regras da boa conduta já não se aplicam, a não ser de forma esporádica, aleatória e incerta: o respeito à norma é que tende a ser, então, excepcional, e os atos extraordinários, em revanche, se multiplicam, sem que ninguém se deixe perturbar por isso.11

É o que tem ocorrido à transgressão de que vimos tratando, seja a que provém da revolta genuína, legitimamente inovadora, seja a que não passa de embuste e oportunismo, e não faz senão endossar as normas vigentes, assim na esfera das artes como na das boas maneiras. Mas quando já não houver autênticos transgressores e autênticos marginais, o sistema – índice de civilização – terá sido inteiramente tomado 12 pela barbárie, ou terá ruído de inanição. T.S. Eliot, analisando o uso estratégico da polêmica e do excesso de teorização, que costumam acompanhar a obsessão do novo, no mundo moderno, faz uma severa ponderação, que converge para esse mesmo ponto: “Numa sociedade de nível ideal, pode-se imaginar o valioso Novo a brotar naturalmente do Antigo, também valioso, sem necessidade de polêmicas e teorias; esta seria uma sociedade com uma tradição viva. Numa sociedade indolente, como são as sociedades atuais, a tradição é logo encarada como superstição, a exigir o repúdio 13 violento da novidade”. 11) F. Rouvillois, Histoire de la politesse, de 1789 à nos jours: Paris, Flammarion, 2006, p. 59. 12) Cf. Sérgio Paulo Rouanet, “Iluminismo ou barbárie”, in Mal-estar na modernidade: São Paulo, Companhia das Letras, 1993, pp. 9-45. 13) T.S. Eliot, “Reflections on vers libre”, in To criticize the critic: London, Faber & Faber, 1978, p.184.

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É o rumo que se descortina a partir da entronização da liberdade absoluta, razão pela qual, talvez, o mundo moderno esteja condenado a conhecer, em meio a magníficas e heroicas revoluções libertárias, algumas das mais hediondas manifestações de tirania e despotismo de toda a História – quer as que se abrigam sob o manto da intolerância religiosa ou ideológica, e não hesitam diante do genocídio, em nome da liberdade, quer as que assumem o disfarce da alta tecnologia triunfante, a serviço da dominação econômica. Será que tudo não passa de jogo semântico? O termo “transgressão”, transformado em moda e fetiche, teria sido mal escolhido? A sonhada “ciência da literatura” teria dado cobro ao exagero? Com efeito, se não houver uma ordem constituída, transgredir será gesto gratuito, sem sentido. Quem perceberá que existe um centro, se não houver periferia? E a lógica vale nos dois sentidos: o do pseudomarginal, que ambiciona tão somente garantir seu lugarzinho entre os acolhidos pelo sistema, e o do marginal genuíno, verdadeiramente empenhado em minar e subverter, ciente de que isso não deve ser feito de fora, mas de dentro: a periferia contestadora só faz fortalecer o centro, em permanente expansão. Transgressão e marginalidade, além de contestação estético-literária, presumivelmente amoral, subentendem também contestação política, sempre próxima da moral. A estratégia é basicamente a mesma: para sentir-se mais à vontade, e para que não venha a sofrer sua influência maligna, o burocrata da contestação coloca-se fora do sistema e ataca-o em todas as frentes, como se a possibilidade de contestar, e os por vezes bons argumentos utilizados para levar adiante a empreitada, não guardassem relação alguma com o sistema; como se o contestador tivesse nascido, e se formado, do outro lado do espelho. E como se destruir o sistema não destruísse junto a razão para seguir contestando, isto é, a razão de ser de quem contesta. Conclusão: a prioridade do transgressor é a conservação do sistema. Ao condenar e repudiar o sistema, o transgressor de carreira não abre mão das regalias que o gesto lhe possa proporcionar – no caso do escritor, ser lido por milhões de pessoas, em muitos idiomas; ser apontado pela mídia internacional como paladino da Justiça e da Liberdade; engordar sua conta bancária com apetitosos cachês e direitos de tradução ou adaptação para cinema e TV; e, se a sorte o permitir, embolsar o milhão de dólares com que a vetusta Academia, de ano em ano, contempla um escritor de destaque. Os donos do Poder, como os anciãos do Prêmio Nobel, amam alardear a hipócrita magnanimidade com que acolhem desfavorecidos e desafetos... Quando, no fim da vida, Jean-Paul Sartre recusou o prêmio, talvez tenha tentado passar uma imagem de “coerência” (não sei se alguém se preocuparia em lhe cobrar isso), mas já era tarde. Após uma vida inteira de luta, à margem do sistema, acabou por ser admitido. E domesticado. Receber ou não a honraria do Nobel não faria (não fez) diferença. O fato é que o prêmio foi concedido, prova definitiva de assimilação. E da inoperância dessa forma de transgressão protocolar e institucionalizada.

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O sarampo da transgressão radical e a catapora do absolutamente novo, combinados com doses excessivas de má-fé e arrogância, indigência cultural e inaptidão literária, não chegam a ser doenças, são achaques benignos, que só contribuem para fortalecer tanto o paciente quanto a medicina que o atende. O teatro da transgressão profissional e da marginalidade estratégica, em suma, não oferece o menor perigo à segurança do sistema; ao contrário, é a melhor garantia de sua longevidade. O burocrata da transgressão revela estar tão atrelado ao sistema quanto o mais convicto dos conservadores. De qualquer modo, defrontamo-nos sempre, como diria Adorno, com a necessidade de uma “dialética negativa”: “a filosofia precisa manter o sistema na medida em que o que lhe é heterogêneo se lhe apresenta enquanto sistema. [...] O sistema filosófico foi desde o início antinômico. Nele, o ponto de partida fundiu-se com a sua própria impossibilidade; no início da história dos sistemas modernos, justamente essa impossi14 bilidade condenou cada um deles a ser aniquilado pelo seguinte”. Durante décadas, a partir do início do século XX, a chave do êxito seguro foi épater le bourgeois, no séquito do exemplo vitorioso de Manet e companheiros. Mas o processo contaminou a sociedade, como um todo, a ponto de a categoria “burguês”, por exemplo, ter-se esvaziado de sentido. Mediocridade e intolerância – os alvos visados pela iconoclastia dos transgressores – deixaram de ser privilégio da burguesia e já não escolhem classe ou estamento social onde se instalem. O fato é que a transgressão de hoje, caso bem sucedida, será a badalação de amanhã, em qualquer dos altares do grande templo do consumo em que se transformou toda a sociedade. Nossos solertes comunicadores qualificariam de “descolada” a blasfêmia da moda, ou até mesmo de chic – mas acrescentando, neste caso, com o protocolar sorriso irônico recomendado por Umberto Eco: “como diria Eça de Queirós”.

14) T. Adorno, op. cit., pp. 26-27.

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A ironia está em que o escritor de fato maldito, ao insistir esteticamente na apologia do Mal, conforme a lição pioneira de Baudelaire, não faz senão chamar a atenção para um Bem supremo, utópico, ignorado por todos. Em nossa sociedade anestesiada, o verdadeiro inimigo do Bem não cometerá a ingenuidade de se apresentar como vilão, mas assumirá o disfarce do bom mocinho. Já o escritor da transgressão protocolar não usa disfarces, preferindo pôr em ação seu moralismo de sinal invertido. Ciência da literatura? Quem se preocupa com isso? Essa transgressão que viceja por aí, a que propósitos serve, afinal?

Carlos Felipe Moisés é poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta. É mestre e doutor em Letras Clássicas e Vernáculas (USP). Entre alguns de seus livros publicados estão: Noite nula (poemas, 2008), Lição de casa & poemas anteriores (poemas, 1998), Poesia e utopia (ensaios, 2007) e Alta traição (traduções, 2005).

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Ferreira Gullar: em que se apoia tal arquitetura* por Dirceu Villa

Ferreira Gullar é um nome pelo qual todos os poetas da minha geração (de 25 a 35 anos) têm respeito, e muitos, admiração. Há, no mínimo, duas peculiaridades a respeito dele como poeta, que podem sustentar ambas as coisas: uma, o fato de ilustrar, mais uma vez, o lugar de destaque do estado do Maranhão na poesia brasileira, entre os séculos XIX e XX, de onde também vêm Sousândrade, Odorico Mendes e Maranhão Sobrinho, descobertos pelos poetas concretos e mais importantes poeticamente do que o Romantismo oficial das antologias, que demandam revisão urgente; outra, Gullar foi o único a sobreviver, não só intacto mas prestigiado, após discordar frontal e publicamente dos caminhos propostos pelo concretismo. Pior: o heresiarca criou a dissidência neoconcreta, pois pertencia ao grupo original de que depois foi crítico veemente. Isso não é pouco, no meio exíguo e disputadíssimo da poesia brasileira, sobretudo naquele momento em que se queria definir quem estava do lado da brilhante novidade e quem era pelo mofo. Tendo sobrevivido ao pior, o que veio a lhe arranhar a carapaça, numa carreira sólida que se estende dos anos 1940 aos dias de hoje, foi o engajamento político, que deixou marca evidente em seus versos, sendo isso o que de fato importa ao lermos os livros de um poeta. E é, naquele caso, um poeta do veículo escrito e de mentalidade cosmopolita tentando compor como cantador de cordel, com o resultado advertido por Julio Cortázar no exemplo de “Algunos aspectos del cuento”, quando demarca a diferença de alcance e estrutura entre a tradição de contos orais argentinos e os do registro escrito, cada qual com suas especificidades. Diga-se a verdade: é uma parte bastante pequena da obra poética de Gullar, enfeixada sob o título “Romances de Cordel (19621967)” e mais alguns poemas políticos de Dentro da Noite Veloz; além disso, foram concebidos como coisa panfletária e eram os tempos duríssimos da ditadura, precisamente o tipo de acontecimento que desfigura a arte de uma época e de um lugar. Com a ditadura — e o que isso implica: censura, prisões, exílios, torturas e assassinatos — o Brasil retrocedeu trinta anos do ponto onde se encontrava cultural, política e socialmente, e o país ainda hoje se esforça para compensar & superar o enorme estrago feito. Mas o quê, nesta longa história dentro da poesia brasileira, podemos dizer da obra de Gullar, até este momento? Destacaria a contribuição notável de poemas como “Galo galo”, dentro do ótimo livro A Luta Corporal (1950-1953), do Poema sujo (1975), Dentro da Noite Veloz (1962-1975) e de sua obra mais recente, como o excelente Muitas Vozes (1999), que se depura, adquirindo cada vez mais a naturalidade eloquente de uma experiência poética muito pessoal. Hoje, o verso de Gullar é só o verso de Gullar, sua marca registrada, e desenvolveu uma flexibilidade expressiva considerável. Pensemos, por exemplo, que ele chegou a publicar, no início da carreira, com

* Ensaio publicado na revista Alforja (40ª edição) México – 2007

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os poetas da chamada geração de 45, mas, retrospectivamente (e creio que na própria época em que surgiram), seus poemas têm mais consciência de fatura, são mais duros, nada concessivos à linguagem idealizada e cheia de tênues divagações de brumas e amadas do grupo que queria reagir ao modernismo voltando para o refúgio, o locus amoenus da poesia parnasiana em pleno século XX do pós-guerras. Era até mesmo possível, nos poemas de A Luta Corporal, ler a nítida convivência com a imaginação aglutinadora, compressiva, ímpar dos poemas de Murilo Mendes. Então, se o concretismo foi bem-sucedido em opor à flacidez irrefletida de 45 um programa de vanguarda com atenção concentrada na palavra e na estrutura, como objetos, e num cânone que retomava o de Pound e enxertava nele o barroco, Mallarmé e vanguardas modernas internacionais, Gullar também o foi, através de uma poesia que, se não levou o elemento formal e visual ao ponto que os concretos levaram — não era sua intenção, como vimos —, é feita de um equilíbrio entre a palavra falada e o verso, conversacional sem ser frouxo, de poesia intensa e direta, coisa muito rara no Brasil (Roberto Piva, muito diferente de Gullar numa porção de outras coisas, também opera, como ele, num registro intenso e direto). E isso significava se opor à poesia de louça nacional, imitada da francesa, de seus colegas de 45. Nesse sentido, é evidente que Gullar guarda semelhanças de procedimento com o modernismo brasileiro, com os poetas que apreciava, como, entre outros, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; mas seu verso livre é eletrificado, rápido, de apreensão imediata, enquanto os modernos brasileiros tinham certa atitude de ironia & 1 melancolia infusas , coisa que lhe é completamente estranha. O Brasil não é muito familiar com poetas que exponham certa fúria, eles não aparecem com muita frequência nas artes literárias do país, mas esse é o caso da voz poética de Gullar. Razoavelmente identificada, é certo, com o ícone de seu “Galo galo”: Galo: as penas que florescem da carne silenciosa e o duro bico e as unhas e o olho sem amor. Grave solidez. Em que se apoia tal arquitetura?

Boa pergunta. Não era, é claro, como a notória arquitetura de outro importante poeta brasileiro, João Cabral de Melo Neto, que a utilizava no sentido estrito da precisa engenharia de seus poemas, mas talvez esteja mais próxima da ideia da fearful symmetry daquele tigre de Blake, que por necessidade inclui em seu desenho tanto uma fluidez harmônica de água quanto o ímpeto agressivo do bote. Essa é a mesma arquitetura que se reconfigura para dar forma a sonetos de construção impecável e para envolver aquele fluxo violento em que cabe tudo, chamado Poema sujo, onde encontramos os resquícios da jornada concreta nas paronomásias e espacializações, flutuando em meio a memórias que se agrupam no esquema da colagem cubista, imitando o crisol arcaico no qual as

1) Excetuando-se Oswald de Andrade, feito quase que inteiramente da matéria pontuda da ironia.

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lembranças se encontram em mélange com coisas imaginadas, e uma atrai a outra por nexos mais fortes — e mais dificilmente explicáveis — dos que normalmente imprime nelas a disciplina da razão. Começa, portanto, na dúvida e no escuro, no obstáculo, em repetições e ecos: turvo turvo a turva mão do sopro contra o muro escuro menos menos menos que escuro menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo escuro mais que escuro: claro

A frustração e as pressões do exílio chileno de Gullar surgem não apenas como tema, mas forçando a forma a se inclinar e servir essa explosão, e esse é um exemplo de como o sentido de forma, tantas vezes confundido com algo puramente “cerebral”, ou apenas “frio”, na verdade se desenvolve ao fogo, como quem bate um pedaço de ferro quente numa forja. Esse poema explosivo — em que tudo converge para um ponto, no qual uma coisa se transforma em outra — incorpora a vertigem da memória, unida à imaginação, ao desejo de superar a circunstância. Foi um poema único, não há dúvida, e nesse período Gullar diz ter sentido uma espécie de “toque de Midas” poético2, percebendo tudo à sua volta já infuso da natureza de linguagem transformadora da poesia. Então é possível perceber um percurso, numa estreia surpreendente com A Luta Corporal, onde o modernismo toma um caminho diverso mas não contrário; a participação nas mudanças importantes, impressas pela vanguarda concreta, reatualizando o espírito exploratório contra o retrocesso de 45, oco e idealizante; e, logo após, criticando a rigidez do programa concreto, sendo a favor da fluidez da forma sensível e especificamente contra a ideia “evolutiva” e “matemática” com que propunham encerrar o “ciclo histórico do verso”; no engajamento político que enfraquece sua obra, mas explode enfim no poema que o liberta, o turning point do “Poema Sujo”; na constituição de uma voz poética na qual a forma é cada vez mais o seu modo específico de pensar e perceber (mesmo movimento que se percebe, aliás, na obra recente de outro bom

2) Gullar diz isso numa entrevista de 1998, publicada na revista Poesia Sempre, Ano 6, Número 9.

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poeta, Leonardo Fróes). O que quero dizer com isso se pode ler em “Os Mortos”, poema que se encontra no livro Muitas Vozes: os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça

É perceptível a economia de meios, algum paralelismo, alguma consonância, um repertório pequeno e preciso de referências para impregnar os vivos dos mortos; o que é uma lição de concentração para os muitos que acham que para ser conciso basta escrever pouco, ou deixar tudo solto esperando que leiam isso como um aspecto sugestivo da poesia. Gullar permanece fiel ao corte claro de sua poesia, mas ela agora também se combina com o silêncio, entendido aqui como menos movimento, menos estridência. Não discuto aqui ─ embora todos esses aspectos tenham notória relevância para um retrato completo ─ sua crítica de arte, muitíssimo interessante e que abordou artistas brasileiros fundamentais de um período muito recente, como Siron Franco e Iberê Camargo, nem seu teatro, sua escrita jornalística ou as crônicas a que tem se dedicado ultimamente (a parte mais fraca de sua obra, junto com a propaganda de seu desgosto por livros imprescindíveis, como a Commedia de Dante e o Ulysses de Joyce, que ele apelida pejorativamente “cerebral”). Me parece que sua poesia, além de ser a parte mais importante do que escreveu, é também um dos núcleos que acabaram definindo um dos modos de se ler e escrever poesia no Brasil, com uma divisão mais de política cultural do que de fundo, que opôs os irmãos Campos (e seus seguidores) em São Paulo, e Gullar (e seus seguidores) no Rio de Janeiro. E hoje isso vem saudavelmente se esfumando, permitindo maior liberdade no entendimento das obras de ambas as opções, sem novas afiliações necessárias a este ou aquele grupo. Agora é provável que o reconhecimento do valor específico de cada um dos autores que, como Gullar, estavam no olho do furacão da segunda edição vanguardista do século XX encontre uma possibilidade de leitura mais ampla, onde entrem também oxigênio & luz. Ao menos é o que percebo & espero, como poeta e leitor muito interessado de poesia.

Dirceu Villa nasceu em São Paulo em 1975. Livros publicados: MCMXCVIII (Badaró, 1998), Descort (vencedor do Nascente, Hedra, 2003), e Icterofagia (contemplado com o PAC, Hedra, 2008). Desenvolve atualmente tese de doutorado sobre a poesia dos séculos XV-XVI, de italianos e ingleses, e, paralelamente, uma ampla revisão dos cânones de poesia portuguesa e brasileira. Mantém o blog O Demônio Amarelo, de poesia e cultura http://odemonioamarelo.blogspot.com

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O que é

poesia?

Foto: Giorgio Rocha

O que é poesia?

Edson Cruz (Ilhéus, BA, Brasil) é poeta, editor e revisor. Estudou Psicologia, Música e Composição e, atualmente, estuda Letras na Universidade de São Paulo. Foi um dos fundadores do portal de literatura Cronópios (www.cronopios.com.br) e editor até maio de 2009. Livros publicados: Sortilégio (Demônio Negro/Annablume, 2007) e O que é poesia? (Confraria do Vento/Calibán, 2009). Blog: http://sambaquis.blogspot.com E-mail: sonartes@gmail.com 72 Celuzlose 04 - Março 2010


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Calidoscópio da poética contemporânea A poesia é, de longe, a linguagem de maior potência de significação – “a mais condensada forma de expressão verbal”, no dizer de Pound –, e não é de espantar a variedade de leituras, de idiossincrasias, de práticas que permeiam a poética contemporânea e, evidente, a sua recepção. Tão diversas como o são os próprios seres e seus interesses. Ainda que todas as artes tenham a sua especificidade e complexidade, os poetas acreditam que a sua seja a mais complexa e inescrutável de todas. Bafejados pelas musas, os poetas são os seres mais suscetíveis do planeta. Eles carregam a responsabilidade, ou a pretensão, de serem as antenas da raça. E, cá pra nós, alguns realmente o são. Isso posto, perguntar-lhes à queima-roupa “o que é poesia?” poderia soar como provocação, ou, no mínimo, como um erro de avaliação e de foco. E, de fato, alguns assim o entenderam. No entanto, muitos poetas decidiram encarar o desafio da pergunta. Assim surgiu o projeto, no blog Sambaquis (http://sambaquis.blogspot.com), que instaurou o diálogo entre gerações, tradições, poetas e poéticas de forma despretensiosa e instigante. A consequência desse projeto é o livro O que é poesia?, editado pelos jovens valorosos da Confraria do Vento em parceria com a editora Calibán. No primeiro volume foram selecionados 45 poetas (de nacionalidade, calibragem e quilometragem diversas), porém, ainda há muitos outros que, possivelmente, farão parte de um segundo volume. Os poetas que agora integram esta seção da revista Celuzlose são alguns daqueles que, por motivos editoriais, não se fizeram presentes no primeiro volume do livro. Confira as respostas dadas por Alfredo Fressia, Reynaldo Bessa e Sylvio Back a esse velho e, ainda, legítimo questionamento.

Edson Cruz Organizador

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O que é

poesia?

Alfredo Fressia Nasceu em Montevidéu, 1948 e reside em São Paulo desde 1976. Destacado poeta hispano-americano, Fressia criou uma sólida obra poética, traduzida para muitas línguas. Integra as melhores antologias do Continente. É também tradutor e cronista, autor do recente Ciudad de papel (Montevidéu, 2009). Publicou recentemente a antologia Canto desalojado (São Paulo: Lumme, 2010), com organização e tradução de Fábio Aristimunho Vargas.

O que é poesia para você?

Caro Edson, elétrico e aceso, confesso que não gosto dessas perguntas gigantes – o que é a vida, o mundo, para que existe o homem. Uma resposta “ontológica” está condenada a ser incompleta. Idem às respostas fenomenológicas. Eu prefiro dar uma “resposta” – gigante também – assumidamente incompleta, a saber, a poesia é o melhor, mais profundo e mais denso espaço de reflexão da experiência humana. Por isso ela não é simpática ao capitalismo (assim dizia um verso de Gelman), nem aos tempos que correm, regidos pela pressa, pelo sumiço do homem nas multidões e pelas manipulações midiáticas. Ela é sabidamente perigosa e rebelde, uma teimosa mosca na sopa.

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O que é

poesia?

O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Iniciante ou velho de guerra, o poeta deve lembrar dessa rebeldia da poesia. O trabalho poético é artesanal, e não é vendável. A unidade da poesia é o poema, eventualmente até o verso, por isso o suporte livro não é absolutamente da sua natureza intrínseca. A poesia pode existir em qualquer mídia e qualquer paisagem humana, o jornal, a tela do computador, ou nessa “mídia” chamada memória. Ou até na lua, lembraria do peruano Jorge Eduardo Eielson, onde ele queria ser enterrado e queria enterrar um poema dele, coitadinho.

Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?

Não, meu caro Edson, só três textos de três poetas eu não escolho. A poesia é feita por todos, dizia meu patrício, o Isidoro Ducasse (e olha que ele se dizia Conde), ela é um tecido infinitamente polifônico, até pelo avesso do avesso o poeta é referência. Não há lugar para a penumbra em se falando de poetas. Quanto aos meus poetas mais amados, não somente eles são “íntimos” como também a obra deles quase não ilumina os poemas que me tocou escrever. Juro, é assim.

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O que é

poesia?

Reynaldo Bessa É cantor, compositor, violonista e poeta. Nasceu em Mossoró-RN e está radicado em São Paulo há vinte anos. Já lançou cinco CDs. O mais recente é “Com os dentes...” músicas suas sobre poemas de diversos autores brasileiros que vão de Alphonsus de Guimaraens à Carpinejar, passando por Leminski e Drummond. Tem poemas e contos publicados em diversas revistas e suplementos literários espalhados pelo país e exterior. Em 2008, lançou seu primeiro livro de poemas Outros Barulhos. Este entrou na lista dos livros finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2009 e venceu o 51º Prêmio Jabuti na categoria poesia. Site: www.reynaldobessa.com.br E-mail: contato@reynaldobessa.com.br

O que é poesia para você?

Prefiro começar citando um poeta brasileiro, Moacir Amâncio: “Ao tentar dizer, desdigo o não dito”. Agora vamos lá, já me sinto pisando o cadafalso: poesia é o hino de uma nação inexistente. O buraco da fechadura que dá pra outro buraco de outra fechadura que dá pra outro buraco e outros tantos buracos. Poesia é o que paira entre o que foi captado (por um grande poeta, obviamente!) e o que vai ser escrito: um vacilo, e já era o que ia ser dito. É como um tiro que parte de uma esquina deserta e acerta bem no meio do peito. É como uma beldade caminhando solitária ao longe, dentro da escuridão e exala um bom perfume que, vez ou outra, nos chega trazido pelo vento, mas é certo que nunca conheceremos essa beldade. A poesia nunca nasceu e, portanto, nunca morre. Não dê ouvidos aos vaticinadores. Poesia é como o fígado de Prometeu. Poesia não é a Fênix, mas sim as cinzas de si mesma. Um homem se atira do décimo quinto andar: o que está entre o salto e o impacto é poesia. É o que oscila entre o que você foi, é e será. Mas esqueça tudo o que eu acabei de dizer. Poesia é. Apenas deixemo-la na varanda do infinito, esparramada em sua espreguiçadeira.

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O que é

poesia?

O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira? Só há uma única oportunidade de se escrever a própria história, portanto não a desperdice contando a história dos outros. Borges dizia que o escritor é o leitor que escreve, mas não sei se um poeta se faz lendo muito, mas se você não é verdadeiramente um poeta, no final não terá perdido nada, ou seja, terá lido muito, isso é bom. Então, leia muito, mas só o que é bom (se você está lendo esse artigo, é porque sabe separar o bom do resto, não?) depois leia tudo de novo e se possível toque algum instrumento, de preferência um alaúde, uma cítara ou uma harpa, nunca um berimbau. Por diversos ângulos, tente dizer a mesmíssima coisa, à exaustão, e no final assoe o nariz com o resultado. Nunca se sinta pronto. Um poeta pronto é um poeta morto. E pra reforçar isso tudo, cito Quintana: “Um poeta satisfeito não satisfaz”. Depois saia pra dar algumas voltas, fazer amor e tomar uns tragos. Divirta-se, principalmente isso.

Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas? Ah! Pessoa com suas desassossegadas semeaduras. Murilo Mendes e sua precisão com o dedo em riste. Gullar, ah! Gullar e seus Poemas Sujos, com as páginas coladas umas nas outras de tanta poesia. Quintana com seus “desaforismos” e, puta merda, Bukowski que me alertou para a poesia sob as saias das mulheres, nos balcões de botecos ensebados, na música de Mozart ou numa briga de rua. Mas tem mais: Pound, Verlaine, Rimbaud, Baudelaire, (não há como fugir desses. Tente!). Manoel imprescindível de Barros, Cacaso, Drummond. E aí tem uma geração de malucos geniais que leio e que depois, maravilhado, vou tomar umas brejas com eles e falar sobre seus livros: Ademir Assunção, Carpinejar, Chacal, Edson Cruz, Frederico Barbosa, Nicolas Behr, Wilmar Silva, Ricardo Aleixo, Ricardo Corona, Ricardo Silvestrin, Victor Paes, Marcio-André. Mas tem a prosa também: Reinaldo Moraes, Fante (1933... foi um ano ruim é meu predileto), Kerouac, Henry Miller, Mirisola, Céline, Bataille, Philip Roth... (Complexo de Portnoy é um esporro de poesia... e mais...) blá, blá, blá... Mas acho que perdi o fio da meada. Qual foi a primeira pergunta mesmo?

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O que é

poesia?

Sylvio Back Foto: Cadi Busatto

Cineasta, poeta, roteirista e escritor. Filho de imigrantes, pai húngaro e mãe alemã, é natural de Blumenau (SC). Ex-jornalista e crítico de cinema, autodidata, iniciou-se na direção cinematográfica em 1962, tendo escrito, dirigido e produzido até hoje 36 filmes, entre curtas, médias e onze longas-metragens, esses, a saber: Lance Maior (1968), A Guerra dos Pelados (1971), Aleluia, Gretchen (1976), Revolução de 30 (1980), República Guarani (1982), Guerra do Brasil (1987), Rádio Auriverde (1991), Yndio do Brasil (1995), Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro (1999), Lost Zweig (2003) e O Contestado – Restos Mortais (2010). Publicou vinte livros entre poesia, ensaios e os roteiros dos filmes, Lance Maior; Aleluia, Gretchen; República Guarani; Sete Quedas; Vida e Sangue de Polaco; O Auto-Retrato de Bakun; Guerra do Brasil; Rádio Auriverde; Yndio do Brasil; Zweig: A Morte em Cena; Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro (tetralíngue); Lost Zweig (bilíngue) e A Guerra dos Pelados. Obra poética: O caderno erótico de Sylvio Back (Tipografia do Fundo de Ouro Preto, MG, 1986); Moedas de Luz (Max Limonad, SP, 1988); A Vinha do Desejo (Geração Editorial, SP, 1994); Yndio do Brasil (Nonada, MG, 1995); boudoir (7Letras, RJ, 1999); Eurus (7Letras, RJ, 2004); Traduzir é poetar às avessas (Langston Hughes traduzido) (Memorial da América Latina, SP, 2005), Eurus (português-inglês) (Ibis Libris, RJ, 2006); kinopoems (@-book) (Cronópios, SP, 2006) e As mulheres gozam pelo ouvido (Demônio Negro, SP, 2007). E-mail: sylvioback@gmail.com

O que é poesia para você? Poesia é a mais imponderável das criações do espírito humano. E a única totalmente imprevisível. “O poema não é um ato compulsório”, ensina W.H. Auden. Uma espécie de bricolagem holística do que fomos, somos e seremos, daí esse caráter profético ancorado, como se fosse uma segunda pele, em nosso e no inconsciente coletivo. Talvez uma “brisa mediúnica” que sopra sobre e dentro de você e do seu intelecto quando ela bem entende. Poema é como suicídio, você não premedita, simplesmente comete! Por isso, todo poema é uma obra completa. Na sua invenção, implodem tanto o passado quanto o devir. Só a palavra é presente, a dádiva sobrevivente. Em cada poema a imersão formal e a exorcização moral são tamanhas que ele sempre soa o último. Como se a musa jamais fosse voltar à cena do crime.

O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira? Tempos atrás fui interpelado por um neopoeta que me fez essa pergunta. De cara pensei em dizer que, antes de tudo, há que se ter talento e amar a poesia. O que são verdades incontornáveis. Mas, insuficientes. Na hora tive uma iluminação, pois nunca havia elucubrado sobre o tema. Disse-lhe algo mais ou menos assim: leia e releia muita poesia de qualidade, de todos os tempos, brasileira e estrangeira, essa, se possível, na língua do criador, caso não, traduzidos, com o original ao lado para conferir o "tamanho" da traição. Traduzir é poetar às avessas, assim chama-se o livreto com poemas do americano Langston Hughes que verti para o português. Portanto, mente, olhos e ouvidos atentos! A partir de então, numa autocrítica implacável, avalie até que ponto ficou influenciado por esses e outros poetas de sua preferência. Se pressentir que em um e outro poema ou verso existe identificação, isso ainda não é dicção própria, ou seja, não é a "sua" poesia, nem poesia, se rigorosos formos. E poesia é antes de tudo, rigor em todos os sentidos! Certo dia, passados, sei lá, os anos, passada a vida, passados os poemas, você surpreender nos seus versos uma inaudita estranheza, uma negação absurda de tudo que você pensa que seja poesia, como se "aquilo" não parecesse coisa sua, algo que não lembra nada do que você leu ou escreveu, e sente um misto de medo e felicidade, é bem provável que a "sua" poesia o tenha fulminado.

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O que é

poesia?

Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas? Muitas vezes o poema chega antes do poeta. No meu caso, eu cheguei fora de hora, maximizando a chamada "angústia da influência" (Bloom). Ainda que a estante de poesia seja maior do que a de livros de cinema, só ousei poetar já homem maduro com uma filmografia de trinta títulos. Leitor voraz desde a juventude, escrevi os primeiros versos aos 48, sem nunca antes ter cometido nenhum poema, nem por desfastio ou artimanha amorosa. movie junkie sou um reles / traficante de / fotogramas / antes fazendo fita / do que viver sem / Viveca Lindfors / movies não / há mais timing livre-se deles / do cowboy que fui / restam furtivas / infância e infâmia / a bala na lua / Méliès de olho / a dor irisada / queimei o filme queimei o poema / queimei se amei

Em fins de 1984, fui literalmente invadido por uma catadupa de inesperados versos sofridos e doridos, frutos de um incontornável drama existencial. Logo vieram Drummond e Mallarmé, advertindo que pensamentos & sentimentos não bastam, que é preciso penetrar "... surdamente no reino das palavras" (CDA), que um poema é feito de palavras, não de ideias. Para agravar a conflagração, foram chegando, imbricados, versos e estrofes inoculados pelas chamadas "palavras do antro". Fiquei perplexo e assustado. Ato contínuo, porém, procurei não apará-las da contundência de suas hipérboles erótico-fesceninas, do seu "amor & humor" (Oswald de Andrade), eivados de viço e isentos de vício. E dei-lhes passagem. Até hoje: dos sete livros publicados, quatro remetem-se, justamente, a esse gomo nobre da poética, o verso fescenino, também rotulado de pornográfico e poemas de sacanagem. Entretanto, grife dos maiores, tanto do Ocidente como do Oriente e d'África, do Egito, Grécia, Roma e China antigos à atualidade. Foi então que me dei conta, leitor contumaz de Catulo, Juvenal, Ovídio, Marcial, Bocage, das medievais "Cantigas d'escárnio e mal dizer", de Aretino, Gregório, Apollinaire, António Botto, Boris Vian, Hilda Hilst, Bernardo Guimarães, Whitman, Kafávis, Verlaine, Affonso Ávila, etc., o quão tinha sido refém do preconceito contra o verso licencioso. Ou seja, de expressões obscenas, daquele "baixo calão" aceito na prosa, no teatro, no cinema, mas proscrito na poesia. "Não existe palavra impura para o poeta", escreveu Manoel de Barros, ao ler meu livrinho de estréia, O caderno erótico de Sylvio Back. A poesia “empurece” qualquer palavra. ablução do grelo tantos vorazes ofícios / bocas e salivas assaz tanta porra que jorre / sacia vícios e ardores tantos orifícios há pra / aplacar dedos e dildos tanta ablução do grelo / o caralho é prisioneiro

Dado esse assincrônico despertar para o poema (são apenas vinte e dois anos escrevendo e publicando), fica difícil enunciar o paideuma fundador do meu estro. Embora fácil rememorar os primeiros leitores: coube à tríade de poetas paranaenses, Paulo Leminski, Alice Ruiz e Sérgio Rubens Sossélla, nos idos anos 1980, o aval e curso aos versos inaugurais, eles tão surpresos quanto eu. Até que ponto fui inoculado pelo seu poemário, só o tempo dirá. Na sequência, criadores e criaturas, antes deles, iam, foram e voltaram ao longo de, no mínimo quatro décadas, todos embaralhados a uma trintena de filmes dos mais variados torques estéticos, políticos e morais. Como se poema e cinema dormissem juntos e jamais tivessem trocado algum afago. Os fotogramas, na verdade, sempre embutiram epigramas. "O poema/antevê/o cinema" (álbum d'alma, em Moedas de Luz). Nessa voragem, só me resta homenagear, de forma randômica, poetas e poemas que, feito um eterno iniciante (vá-te, Back!), os leio e releio, descubro novos (como Laura Riding), deliciando-lhes a alma e a beleza com primevos pureza e encantamento. Sem que nenhum deles, propriamente, fosse ou é, o azimute dos fesceninos e que tais (o erotismo é o DNA de todo poema), sinto-me o receptáculo privilegiado dos influxos difusos e confusos, esmaecidos e quase todos prescritos ao longo do tempo, oriundos do inimitável fabbro de um, entre tantos (além dos citados), Bandeira, Issa, João Cabral, Auden, Celan, Sá-Carneiro, cummings, Murilo, Dickinson, Augusto de Campos, Bashô, Álvares de Azevedo, Rilke, Helena Kolody, Keats, Jorge de Lima, Paz, Wang Wei, Cecília Meirelles, Mallarmé, Eliot, Cruz e Souza etc etc etc. Quem sabe não seja de todo impertinente o título do meu novo livro: Isto ainda é poesia? Eurus sopre este poema / da página enxote / pro nume que dá / a lume sopre aqu / eloutro suma com todos e deixe o tí / tulo sumo do que / do verbo fora po / esia viés que ag / ora seria não és

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O que é

poesia?

Os caminhos da poesia contemporânea brasileira: dificuldades e acertos* por Márcio-André Diante da incrível quantidade de poetas que surgem a cada dia, com seus modos particulares de escrita, cada vez mais elaboradas e conscientes; da efervescência de grupos e coletivos literários espalhados pelo país; da feliz facilidade hoje em se veicular uma publicação, seja por meio eletrônico, seja por meio impresso; da liberdade de poder ser o seu próprio agente literário; e do número crescente de editoras que se voltam a esse que é o mais frágil dos itens de mercado, eis que se revelam outros desafios – antes ocultos ou adormecidos – para os quais não nos preparamos adequadamente. O momento do pós-orgia preconizado por Baudrillard e adiado pelos nefelibatas do pós-real – o pós-tudo glorificado ou criticado em seus extremos por meio milhão de especuladores –, descamba então na exigência de novos caminhos – ou bem mais que isso, de se enxergar passagens ao largo de todas as rotas. O que nos move não é mais a poesia para todos, isso parece ter se cumprido de maneira adequada: todos fazem poesia. O problema agora é compreender porque ninguém lê poesia. Atribuir o problema à qualidade das escolas, à insuficiência das políticas de leitura ou às tendências mercadológicas não contempla à questão, uma vez que independente disso tudo, nunca esteve se fazendo tanta poesia. Talvez não haja uma resposta, mas não porque faltem explicações ou quem a queira responder, mas simplesmente porque ainda não foi formulada a pergunta adequada. O projeto hegemônico lançou no mundo uma maneira eficaz, mas não necessariamente correta ou durável, de propor uma pergunta válida. A solução que ele dá para tanto excesso, cava um abismo ainda mais profundo, pois, se nos encontramos em um tal buraco, ele é a pá com a qual o cavamos. É na fundação excessiva de disciplinas e especializações que nos perdemos tentando encontrar a nós mesmos. Os estudos culturais, por exemplo, dão conta das diferenças simplesmente assimilando-as ao projeto dominante. Neles, os valores antigos são transferidos para ambientes periféricos, travestindo o mesmo e o de sempre com uma aura de marginalidade, inovação e rebeldia. É sabido que somente a descentralização não é suficiente para tocar o excêntrico. Em oposição à isso, encontramos os conservadores a la Harold Bloom, que ficam montando peças vitorianas sobre grandes teatros em ruínas. De um modo ou de outro, em um mundo que parece ter só se esmerado no aparo das arestas, a tática mais eficaz para a contemplação das diferenças tem sido a de torná-las sistematicamente identitárias. Com isso a contemporaneidade acaba sendo uma potência que gera energia em direções opostas: o mesmo que prepara para uma sindicância de reivindicações nos joga cada vez mais num processo maquinal. A verdade é que temos visto um uso leviano dos conceitos de “identidade” e “diferença” – ora se defendendo um, ora outro, de acordo com as conveniências –, sem que se leve em conta o mais relevante e o que de fato sempre moveu os pensadores do real: a tensão entre ambos. Pois, se por um lado evidenciar as diferenças na literatura é essencial, por outro é preciso criar uma consciência comum da literatura, para que não terminemos nas microinstitucionalizações da poesia e na guetização da literatura. O nosso desafio é alcançar aquilo que nunca esteve para ser alcançado e só podemos fazê-lo pulando fora do círculo vicioso, largando a pá e correndo para além do horizonte de eventos desse buraco fundo o suficiente para nos fazer desistir antes de tentar. Poderíamos começar com novas questões. Eis algumas delas: será que todos precisam de poesia? Será que ao que chamamos poesia – essa poesia de poetas e a maneira que ela se desenvolveu no século xx –, não se esconde a farsa de um protomercado que nem ao menos chegou a ser formulado? Será que o poético pode ser vendido? Será que ele é exclusividade dos grupos ou instituições que se formaram em sua defesa? Será que ele pode passivamente ser adequado e subclassificado em uma forma manifesta como a do poema, por exemplo?

* Texto que foi lido na Casa das Rosas na ocasião do lançamento do livro O que é poesia?

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O que é

poesia?

Sim, o poema é um dos ritos da poesia, mas não o único, nunca o foi. Mesmo as formas mais ordinárias de projeção no real resguardam o poético – isso sempre se soube, mesmo depois de adormecida tal consciência – e, portanto, o poético pertence a todos, leia-se poemas ou não. O que se precisa é saber desvendar o poético nessas formas ordinárias – até certo ponto isto esteve na mão do cantor e a verdade nua e crua é que não está mais: não se precisa mais de poetas, ou pelo menos, não como supomos. E, talvez, a grande resposta à charada seja bem simples: é que todos – fazedores de poemas ou não – desejam ser é, de alguma forma e mais do que nunca, seu próprio poeta, como fuga ao desencanto que se abate em todas as instâncias da realidade institucionalizante. Talvez (e isso é sempre um talvez) o poema não esteja mais cumprindo o seu papel de levar a poesia ao leitor, de fazê-los identificar no ordinário o que os poetas também enxergam. Mas tudo isso é menos triste para a poesia que para o poeta. Todo término e desesperança resguarda a possibilidade de um novo começo, ainda que seja para outros que não nós. Para isso é preciso que seus agentes sejam substituídos ou se movam segundos novos ethos. Se todas as ciências são ciências do espaço, a poesia, fundação do espaço, deve ser a consciência de seus acessos – e para isso o poeta deve pertencer a um fluxo ininterrupto de trânsito entre os topos, sem restrições impostas uns pelos outros. Falamos sempre de topos ontológicos, de uma geografia mais profunda que aquela calculada entre regiões politicamente delimitadas; uma biotecnologia da alma que se revela em estados de ser no mundo; todos autênticos e que devem ser respeitados e contemplados em suas diferenças. E é fato que até agora nós, poetas, perdemos muito tempo com questões menores, bloqueando os caminhos, emperrando o movimento e mantendo a poesia distante de sua urgência. Diante da escassez dos meios, nos preocupamos com a ocupação dos topos para dali dominar e excluir, criando mecanismos de defesa uns contra os outros e emperrando o movimento para uma realização poética plena. Há poetas, por exemplo, que fingem ignorar outros, enquanto elegem seus amigos para as resenhas e antologias e isso inibe o surgimento do novo, do surpreendente, da diferença; pior: dá margem a criação de gerações de poetas cínicos. Todos somos excluídos em alguma escala e não podemos – enquanto poetas – compactuar com qualquer forma de exclusão, seja por meio da institucionalização, do controle dos canais ou da reserva dos meios. Sim, somos, por natureza, diferentes! Sim, essa é a nossa maior identidade – a única permanência. A tensão entre fixos e fluxos do levantamento de nossa topologia, os erros ou acertos no título desta mesa [deste depoimento], revelam-se aí. O desafio para o poeta é ainda maior, é a democratização do trânsito entre os topos, a movimentação entre estados, em prol de uma topopoiésis, i.e.: a restituição da poética ao espaço. Em nossa topopoiésis, as diferenças não são excludentes e as identidades não são niveladoras. As diversas realidades são concomitantes, realidades opostas e contraditórias coabitam, consubstanciam e determinam o real, não por eliminação ou assimilação, mas em suas diferenças radicais. O fluxo de passagem de um topos a outro, pressupõe sempre a própria dimensão do outro. O outro é uma dimensão a mais em nosso sistema sensorial. Por isso ser poeta será, entre outras coisas, calar-se em meio ao falatório, ter o dom do silêncio diante do outro (poeta ou leitor); ser a recolha em meio ao excesso. Só nesse estado utópico (οὐ + τόπος, sem lugar), se faz o vislumbre do trânsito entre todos os topos, rompendo as fronteiras em direção a uma entropia. As diferenças só se mostram importantes quando confrontadas. Isoladas ou em identificação dialética, elas se anulam. Por exemplo, a potência geradora subsistente aos encontros propiciados nessa mesa [nesse lançamento] e os frutos que dela[e] podem surgir é mais importante que a diferença entre cada um de seus componentes isoladamente. Essas diferenças são, sim, relevantes quando confrontadas umas com as outras, possibilitando tensões criadoras de novos caminhos, de outros desígnios e de maneiras plurais de ver. O debate e suas possíveis formas de lapidação do pensamento é o que fertiliza e fomenta novos mundos a serem explorados pela poesia. Esse confronto traz muito mais vantagens que a disputa vazia ou a articulação de novos redutos. É somente nesse estágio de sabedoria dos poetas que se prevê o leitor autossuficiente, aquele que pode, atravessando diversos topos, erguer não um paideuma, mas uma topologia, uma vez que ele será o coautor de todo os livros. Pois bem, é esse leitor que salvará a poesia.

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LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

Ricardo Aleixo Belorizontino de 1960, é poeta, artista intermídia, performador, ensaísta e professor de design sonoro na universidade Fumec. Desde 2007 concentra suas atividades de criação e pesquisa no LIRA (Laboratório Interartes Ricardo Aleixo), onde também coordena cursos, oficinas e aulas particulares. Autor, entre outros, de Trívio e Máquina zero, lançará em setembro seu próximo título, Modelos vivos, escrito com recursos do Programa Petrobras Cultural.

BOCA TAMBÉM TOCA TAMBOR

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LÚCIDA RETINA

RONDÓ DA RONDA NOTURNA

q p n q n a q a m q m u

Poesia Visual

uanto + obre + egro uanto + egro + lvo uanto + lvo + orto uanto + orto + m

IMAGO MUNDI Celuzlose 04 - Março 2010 83


LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

BABELADORMECIDA

POÉTICA 84 Celuzlose 04 - Março 2010


LรšCIDA RETINA

Poesia Visual

3 VIDEOPOEMAS (links abaixo)

http://www.youtube.com/watch?v=O5qinkqcr9U

http://www.youtube.com/watch?v=2zBNH7-R3aw

des(continuida(des #1

Para dentro

http://vimeo.com/1891999

Real irreal

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LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

Pipol Poeta, desenvolvedor web, diretor de tv, documentarista e editor-fundador do portal de literatura e arte Cronópios.

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LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

H2Horas (Link abaixo)

Filme realizado com a colaboração http://www.cronopios.com.br/h2horas

dos autores do site Cronópios

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Celuzlose 04  

Revista Literária

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