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celuzlo se Revista

Literรกria

03 ~ Dezembro 2009


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Índice

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Rodrigo Petronio BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

Alice Ruiz Deborah Goldemberg Edson Cruz Elisa Andrade Buzzo

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Lau Siqueira Leonardo Gandolfi Maiara Gouveia Paulo Ferraz Ruy Proença GEO

Jesús Aparicio González (Espanha) Luis Aguilar (México) Caderno

18

Literatura sem Fronteiras Luis Armenta Malpica (México) Luís Serguilha (Portugal)

44

Crítico

Antropofagia e linguagem poética no século XXI - por Lau Siqueira Um livro sem fim - por Reynaldo Jiménez

56

LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

Celso Borges Rodolfo Franco

Colaboraram com esta edição:

celuzlose # 03 ~ Dezembro 2009

Expediente Editor: Victor Del Franco Projeto Gráfico, Diagramação e Revisão: Victor Del Franco

02 Celuzlose 03 - Dezembro 2009

Alice Ruiz Celso Borges Deborah Goldemberg Edson Cruz Elisa Andrade Buzzo Fábio Aristimunho Vargas Jesús Aparicio González Lau Siqueira Leonardo Gandolfi Luis Aguilar Luis Armenta Malpica Luís Serguilha Maiara Gouveia Paulo Ferraz Reynaldo Jiménez Rodolfo Franco Rodrigo Petronio Ruy Proença

Contato: celuzlose@gmail.com

Os textos desta revista poderão ser usados para fins não comerciais, desde que sejam citados os nomes dos autores, o nome da revista e o link correspondente.


Editorial Ciclos Quando esta edição da Celuzlose começou a ser preparada, não era possível imaginar que certas sintonias aconteceriam de forma casual. É claro que isso não é uma prioridade na elaboração da revista, mas, às vezes, as similaridades aparecem de maneira inesperada. Para o leitor entender um pouco melhor o que estou querendo dizer, segue abaixo uma das sintonias entre os textos desta edição: No início da entrevista com Rodrigo Petronio, ele diz: “No caso do mito, acredito que toda a poesia e toda a arte partam de uma abertura mítica. Esta é a raiz de onde nasce a criação. Para ser mais claro, acredito que o mito seja o princípio de inteligibilidade do mundo”. No texto de Reynaldo Jiménez sobre o livro Catatau de Paulo Leminski, uma de suas observações é a seguinte: “A linguagem no Catatau é o verdadeiro personagem da literatura. Literatura que volta a ser na medida em que se abandona uma noção estabelecida para iniciar essa aventura que é o mito”. Os dois trechos acima abordam aspectos distintos da linguagem e, no entanto, eles se completam como se fizessem parte do mesmo movimento circular. Em ritmo semelhante, o videopoema Circle (que está no final desta edição) é outro ingrediente que compõe a mesma forma de sintonia e que alimenta indefinidamente o ciclo que existe entre mito e linguagem. Boa leitura.

Victor Del Franco Editor

Celuzlose 02 Clique aqui a para ler a 2 edição http://issuu.com/celuzlose/docs/celuzlose_02

Celuzlose 03 - Dezembro 2009 03


Foto: AndrĂŠ Fernandes

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m p u a e d Ă­s s Nas trilha

04 Celuzlose 03 - Dezembro 2009


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Rodrigo Petronio Poeta, ensaísta, professor, pesquisador e editor. É formado em Letras Clássicas e Vernáculas (USP) e tem os seguintes livros publicados: História Natural (poemas, 2000), Transversal do Tempo (ensaios, 2002), Assinatura do Sol (poemas, 2005), Pedra de Luz (poemas, 2006) e Venho de um País Selvagem (poemas, 2009). Nesta entrevista, ele fala de suas referências poéticas, de seus estudos e reflexões para um novo livro de ensaios, além de sua recente viagem ao México onde participou de alguns encontros literários.

Selvagem Celuzlose 03 - Dezembro 2009 05


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A sua poesia dialoga bastante com temas e autores de natureza "mítica-mística". De que maneira surgiu essa aproximação? As suas leituras da adolescência já indicavam esse percurso? Gosto muito dessa relação da poesia com o mito e com a mística. No caso do mito, acredito que toda a poesia e toda a arte partam de uma abertura mítica. Esta é a raiz de onde nasce a criação. Para ser mais claro, acredito que o mito seja o princípio de inteligibilidade do mundo. O mito é a clareira que soma em si todas as perspectivas possíveis de acesso ao real, como aquela floresta de Ortega y Gasset, que uniria em si a soma de todas as veredas contidas nela. Por isso, a poesia é mítica e a sua realidade se mostra como um afastamento ou aproximação de uma perspectiva originária, espécie de nascente da linguagem. Mas para tratarmos disso, seria preciso uma digressão que não cabe neste diálogo. No caso da mística creio que seja uma modalidade de compreensão e da linguagem um pouco mais específica, e tenho me interessado muito por ela. Faço parte do Núcleo de Estudos de Mística e Santidade (Nemes), coordenado pelo Luiz Felipe Pondé, e que tem me trazido muitos ensinamentos valiosos nesse sentido. O interesse talvez tenha vindo de minhas primeiras leituras de Blake ou mesmo da ideia de uma mística da transgressão, contida em Bataille e em autores modernos que seriam, na expressão dele, místicos de um mundo sem Deus. Só fui compreender melhor Allen Ginsberg, por exemplo, quando percebi a sua conexão com a mística hassídica, e, do ponto de vista formal, o quanto Kaddish e O Uivo tinham a ver com a essa tradição judaica de cunho mais “profano” e popular. Porém, por mais aberta que possa ser a incorporação do termo mística pela arte e pela literatura, esse diálogo pode transbordar a pertinência da mística e acabar gerando meras mistificações e equívocos. Além disso, acabei criando algumas dúvidas em relação à primazia da transgressão na arte moderna, se ela não nos levaria inevitavelmente a um impasse. Por isso, de tempos para cá, tenho me afastado dessas concepções livres demais da mística, e me dedicado a estudar a tradição e a literatura da mística ortodoxa, se é que podemos dizer assim, sobretudo a chamada mística especulativa, derivada da teologia negativa ou teologia apofática. Nos primeiros padres da igreja grega, como 06 Celuzlose 03 - Dezembro 2009

Nemésio, Gregório Nazianzeno, Gregório de Nissa, pelos quais tenho uma grande admiração, já encontramos uma teologia mística, que transcende os princípios racionais da filosofia que lhes serviu de base. Depois temos os neoplatônicos, como Porfírio, Jâmblico e, sobretudo, Plotino, e o Pseudo-Dioniso Areopagita, dos quais nascem os fundamentos da teologia negativa. A obra do Pseudo-Dioniso é uma maravilha, um épico do espírito em sua busca tateante da luz. É um ponto de clivagem tanto a ocidente quanto a oriente. E ela será de novo o elo perdido de união entre a filosofia e a teologia gregas e latinas no trabalho colossal de Scotus Erígena, que, além de tudo, faz também a ponte entre a mística antiga e toda a mística moderna, seja como tradutor do Pseudo-Dioniso, seja como um dos maiores representantes da teologia negativa no Ocidente. É desse eixo que nasce a mística da luz do século XII, sobretudo em Chartres, com Bernardo de Clairvaux e Hugo de Saint Victor, e, um século depois, São Boaventura. É desse eixo que floresce Ruysbroeck e a mística renana, com Tauler, Suso e o insuperável Mestre Eckhart. Deles se vai a San Juan de la Cruz, a Santa Teresa D'Ávila, a Silesius. Há também a tradição sufi da mística persa. Creio que Attar, Ibn Arabî e Rûmî estejam entre os maiores poetas de todos os tempos, além de terem escrito obra que tangencia os limites da compreensão e da linguagem, que singra sempre no limiar entre a consciência de si e a luz do mundo. E o caminho da mística não se esgota aí, não pode ser entendido como uma etapa superada do pensamento, como querem os positivistas de todas as latitudes. O exemplo de Simone Weil, no século XX, o demonstra, com proposta e forma muito distintas, mas ainda assim ancorada no fundo sem fundo da mística, bem como os de Heidegger e Wittgenstein, para mencionar casos extremos, na filosofia. A apophasis (impossibilidade de dizer), a kenosis (esvaziamento de si), a metanoia (transformação interna radical), as ideias do homo viator e do itinerarium mentis in Deum, o grau zero da consciência, a relação simétrica entre o vazio da consciência e a plenitude do mundo, a linguagem que busca uma excentricidade de si mesma, o fundo sem fundo (Ungrund) de que fala Eckhart, o desprendimento radical, no qual o próprio Deus se desprende de si e deixa de ser Deus: os temas da mística já são poesia em estado bruto.


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Aproveitando que você faz uma referência à teologia negativa, li um comentário seu sobre a obra de Augusto dos Anjos em que você desenvolve um conceito denominado “princípio de negatividade” ou “afirmação negativa”. Fale um pouco desse conceito. Augusto dos Anjos é um dos poetas brasileiros mais importantes para mim, embora sinta pouco a sua marca naquilo que escrevo. Às vezes temos admiração por um autor, ou até mesmo incorporamos elementos seus à nossa revelia, mas eles acabam não sendo centrais para o conjunto do que escrevemos ou para a nossa poética. O que gosto nele é a sua falta absoluta de definição, que é fruto de uma postura selvagem em relação à poesia, esta sim, mais moderna do que muitos modernismos. Sua forma é de cunho parnasiano; seus temas científicos poderiam ser tidos como naturalistas, ou como um enciclopedismo tardio, de almanaque, à moda do século XVIII, mas acabam sendo talhados em pinceladas grossas que se aproximam mais de alguns simbolistas excêntricos; algumas de suas paisagens são francamente baudelaireanas, mas ao mesmo tempo nada nele soa a spleen ou a tédio decadentista, estando mais próximo da podridão estelar e dos movimentos recônditos de pólipos e moneras do que de uma afetação finissecular de uma consciência crítica parisiense; por fim, em seus melhores momentos, creio que Augusto dosAnjos se aproxime de uma das poucas definições convincentes que lhe servem: um poeta expressionista. Um dos poucos, talvez o único expressionista brasileiro. Um expressionista sui generis que, obviamente, não chega aos voos de um Gottfried Benn nem à genialidade de um Trakl. Mas que assim mostra o seu lugar absolutamente excêntrico e, por isso mesmo, dos mais enraizados no imaginário brasileiro, com suas idiossincrasias e equívocos, com seus desenvolvimentos regressivos, plenos de contradições que, em arte, são um sinal de mais, não de menos. Quanto ao princípio de negatividade, é um conceito que tenho desenvolvido e que noto na arte sobretudo a partir do século XVII, especialmente a partir do Dom Quixote, mas que retroage ao século XII e até um pouco antes. Ele tem relação com um esvaziamento dos núcleos provisórios de sentido da realidade. Não é um conceito de ordem mística, pois a kenosis da mística acaba por reafirmar a transcendência divina. Esse conceito diz respeito, sim, aos níveis de articulação entre a linguagem e o mundo. Acredito que esse princípio negativo esteja no cerne da poesia de Augusto dos

Anjos, e sinto que, em razão dessa especificidade, seja muito difícil vinculá-lo à mística sem forçar demais o que tradicionalmente se entende por mística, como eu disse anteriormente. Dos Anjos identifica o movimento de nossa consciência à vida infracelular e à pulsação cósmica, feita de geração e corrupção, de devir e de decomposição; em alguns poemas, faz desse movimento uma espécie de apostasia do sentido não manifesto do mundo. Mas essa sua visão nunca nos conduz a uma transcendência da consciência em relação à linguagem, da linguagem em relação ao mundo e de Deus em relação à consciência, à linguagem e ao mundo, como se propõe no horizonte da mística. Para Dos Anjos, esse percurso se dá como intensividade e extensividade da matéria; ele, entretanto (e essa é uma das ironias de sua obra), o simula como ato divino, como se Deus estivesse presente no drama cósmico da criação e também no verme, no esterco, na podridão, no húmus e em cada um dos órgãos e secreções de nosso corpo, sem metáforas holísticas e sem totalizações simbólicas, tão ao gosto da nossa Nova Era. Para o Mestre Eckhart, o Universo é o movimento de editus e reditus, ou seja, a respiração de Deus; para Dos Anjos, é a sístole e a diástole do corpo de um Deus morto, de um Deus de tal modo humilhado pela matéria e subjugado pela degradação que o constitui, que sua potência praticamente consiste em confessar seu fracasso; sua glória e seu corpo glorioso se reduzem à sua mais confessa, suja e irredimível materialidade. Nesse sentido, Dos Anjos é profundamente cristão, pois ele realiza, em uma lógica ad absurdum, a descensão do Verbo no corpo até a sua consumação, de modo que sequer a carne ressuscita. Já o movimento da mística é praticamente oposto. A impotência é sempre e em primeiro lugar do sujeito que conhece, do intelecto arrogante em seus disfarces e miserável em sua clara e distinta estupidez. E quando a impotência é de Deus, o é para revelar um mais-além, que não é nunca material, mas sempre um abismar-se no Nada que é Deus e que é o que está além de Deus. O movimento místico quer ultrapassar o Deus concebido como substância, acessar o que se encontra além de toda a substância, inclusive das substâncias divinas. Daí sua espculação chegar aos limites do compreensível e também do existente, ao abismo sem forma e aos fundamentos sem fundos da alma, que é o Nada divino. Em Dos Anjos, essa viagem da alma estanca na plenificação absoluta da matéria e em sua imanência, além da qual não há absolutamente nada. Celuzlose 03 - Dezembro 2009 07


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Este conceito também está presente em sua poética? Creio que sim, mas talvez em um sentido mais amplo. Este livro mais recente, Venho de um país selvagem, por exemplo, é um livro que ronda uma atmosfera de conflito entre o positivo e o negativo, entre a floresta e o deserto, entre a afirmação da terra e o exílio. Há nele uma abertura para a transcendência, mas ela parece que nunca se completa, pois há também um conflito de base em todos os poemas. Isso foi intencional. Mais que isso: foi involuntário. Precisava ser assim. Na verdade, esse é um dos pontos que gostaria de superar em um próximo livro. Precisava dar nome à abjeção, tocar a ferida, incorporá-la, vivê-la. As imagens de capa e quarta capa, do Farnese de Andrade, foram meticulosamente escolhidas. Quis incorporar a figura da vítima sacrificial. Falar dela em primeira pessoa, para depois ressuscitar, ao fim da travessia. Talvez meu próximo livro comece pelo fim deste. Tenho sentido necessidade de chegar a uma síntese de vivências e da linguagem. Não tenho dúvida de que para haver o milagre da vida é preciso que nos defrontemos com o Mal, que o incorporemos, que o conheçamos, cada vez mais. A passagem pelo Inferno para chegar ao Paraíso não é meramente nominal ou um simples epos literário. Tampouco é uma tola superação, entendida e catalogada em nossas cabeças quadradas, sejam elas católicas, iluministas, marxistas ou positivistas. Essa passagem é necessária, essencial. A Queda não foi um erro, mas a primeira etapa da salvação. Os místicos, os avatares, os santos, todos eles só foram o que foram porque perceberam o Mal, a

abjeção, a miséria, a falta de sentido, o absurdo. E souberam amar o Mal, para poder transfigurá-lo. Cristo era espiritualizado? Pois bem: traduziu sua espiritualidade em chagas e pústulas pelo seu corpo. Foi pregado numa estaca entre dois bandidos. E, ao fim, abandonado pelo Pai. Tudo isso também faz parte da mensagem de Cristo, e não pode nunca ser ignorado. Buda só se iluminou quando se deu conta do nojo de existir, da infâmia que é estar vivo, do asco que é o sem-sentido da vida. Não adianta querermos ficar apenas com o lado compassivo de sua mensagem, de seu amor infinito pelas criaturas sofredoras. Teremos apenas metade de Buda. É preciso passar pelo Nada para chegar ao ser. Esse caminho não é reversível nem tem atalhos. Creio que em tempos de religiões de bidê, de holismo, de Nova Era, de sínteses de não sei o quê com não sei o quê, de massagens coletivas, em que o sagrado está cada vez mais sendo reduzido a funções terapêuticas, essa mensagem terrível das grandes religiões deve estar cada vez mais viva. Isso não quer dizer que não se busque a luz. Se não houver integração, os conflitos se transformam em espelhamentos. Viram miragens intelectuais. Repetições infernais e obsessivas. Como se acreditássemos no mundo das representações, como se as máscaras fossem a realidade última. Assim nos afastamos do Espírito e chegamos à psicanálise. E aí tudo se perde. Embora Venho de um país selvagem sinalize a morte das representações, tente tocar a inocência e atingir uma suposta nudez, há nele um conflito de fundo entre desgraça e redenção. Ao passo que para o Espírito, não há cisão. Agora estou num trânsito, tentando achar as sínteses possíveis depois da experiência do Nada.

“Este livro mais recente, Venho de um país selvagem, por exemplo, é um livro que ronda uma atmosfera de conflito entre o positivo e o negativo, entre a floresta e o deserto, entre a afirmação da terra e o exílio.”

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Foto: André Fernandes

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“Por isso, muitas vezes temos a sensação perigosa de que a loucura é uma hiperlucidez.”

Nesse contexto, a poesia está mais relacionada com uma forma de revelação ou de loucura? Há uma frase de que gosto, segundo a qual há apenas uma diferença entre o poeta e o louco. Ambos vão em direção ao abismo, mas o poeta desvia, enquanto o louco cai. Essa frase é um pouco descritiva demais; na vida, as coisas não são tão nítidas. Algumas vezes o poeta pode cair... Mas há uma distinção, sim, entre o delírio da criação e a autodestruição. Embora o poeta possa, em momentos de fúria ou de possessão, ser tomado por esta última. A loucura é uma das coisas de que mais tenho medo. Algumas vezes já me senti prestes a enlouquecer. Isso não

chega assim de uma hora pra outra; a loucura vai se infiltrando, percebendo o ambiente, convive contigo, bebe do teu copo, come da tua comida. Quando mal percebemos, o pensamento está prestes a perder o prumo; e os valores, a verdade, a moral, o hábito, o medo, as convenções, enfim, tudo isso parece irremediavelmente ridículo. Por isso, muitas vezes temos a sensação perigosa de que a loucura é uma hiperlucidez. Bom, toda a literatura, de Orfeu a Sófocles e a Shakespeare, de Cervantes a Dostoiévski e a Kafka, não é nada mais do que uma variação gigantesca em torno desse tema, nada mais do que jogos e espelhamentos entre o avesso e o direito, vistos sob um olhar que vem de fora. Celuzlose 03 - Dezembro 2009 09


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Você também atua como editor, professor, pesquisador e ensaísta. Como essas atividades se relacionam entre si e como elas interferem (ou não) na sua criação poética? Sinto que são todas atividades complementares. Tenho gostado cada vez mais dos trabalhos de edição. Eles nos colocam em contato com a feitura material do livro, que é muito bonita. Há uma série de detalhes um pouco chatos, mas que também lançam outra luz sobre o livro, e pode-se dizer mesmo sobre o texto, entendidos como fenômeno cultural. Isso também me interessa. A pesquisa e as aulas também são algo que me alimentam muito. Tenho gostado de trabalhar com cursos livres, pois assim tenho a possibilidade de criá-los, sobre temas e autores que gosto, e para os quais haja um público interessado. Desse modo consigo me realizar de diversas formas, seja do ponto de vista intelectual, por estar em contato com esses temas e autores, seja ao sentir que assim faço circular

as ideias nas quais acredito. O ensaio é o complemento literário do estudo e da pesquisa. Toda aula é um ensaio, até certo ponto. Às vezes tenho um ímpeto reflexivo que pode, num certo sentido, contaminar a poesia. Preciso estar atento a isso. Mas ao mesmo tempo gosto muito do ensaio e da reflexão filosófica, entendidos como literatura. Ultimamente estou um pouco afastado da poesia, sinto que com a publicação de Venho de um país selvagem preciso ficar um pouco quieto. Ando em silêncio, não estou escrevendo. Percebo que estou maturando uma nova fase, uma nova escrita, que minha percepção da poesia tem mudado. E creio que seja melhor ficar recolhido por um tempo. Também, um dos motivos desse silêncio é que estou estudando e recolhendo material para escrever um trabalho ensaístico de mais fôlego. Além do que, tenho pesquisado e estudado alguns assuntos para criar novos cursos. O que me enriquece como leitor, e isso é o fundamental.

“Ando em silêncio,não estou escrevendo. Percebo que estou maturando uma nova fase,uma nova escrita, que minha percepção da poesia tem mudado.”

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Esse trabalho ensaístico de mais fôlego ao qual você se refere é uma continuidade do livro Transversal do Tempo, ou você vai por outros caminhos? Não. Vou por outros caminhos. O Transversal do Tempo é um livro mais monográfico e mais centrado na literatura. Um livro pouco autoral, de um sujeito de vinte e poucos anos. Cada capítulo é sobre um escritor, e eles acabam dialogando superficialmente entre si a partir de um pano de fundo que une todos eles. Mas essa unidade não chega a ser explicitada. Estou com um novo livro de ensaios inéditos no qual tento abrir mais o esquadro, e propor uma visão mais temática, na qual a unidade existente entre as obras se sobressaia, se destaque da leitura focada de cada uma delas. Algo mais aberto, mais temático, mais amplo. Primeiro pensei em criar uma linha que amarrasse todos esses ensaios já escritos, um horizonte comum no qual eles se inscrevam; creio que farei isso. Mas esse trabalho ensaístico que estou preparando é mais ambicioso e talvez consiga reunir nele todas as minhas leituras e interesses desenvolvidos até agora. Gostaria de escrever uma história da alma. Que no fundo seria uma história da imortalidade. Tenho me convencido de que a invenção da imortalidade foi uma das maiores, talvez a maior revolução operada pela humanidade. Maior que a invenção do fogo, da roda ou do alfabeto. Muito maior do que a da filosofia. Excepcionalmente maior do que a da imprensa. Até mesmo o nascimento da consciência é

subsidiário ao nascimento da imortalidade, porque a alma é muito mais abrangente do que consciência. Sinto que nos desenvolvemos em um movimento centrípeto, em espiral, sempre em virtude da proximidade e do afastamento desse eixo. Alguns filósofos atuais têm tentado sínteses interessantes, mas partindo de outros núcleos de sentido. Peter Sloterdijk propõe algo semelhante em Esferas, obra monumental, em três tomos, que traça o percurso imaginário, filosófico, político e artístico da esfera na história da representação. No caso, me interessa rastrear quando a concepção de imortalidade nasce, as principais mudanças em seu sentido e, sobretudo, quando ela começa a declinar, até chegar à sua quase completa extinção nos dias de hoje. E as implicações disso. Trata-se de uma crença, compartilhada por todos os homens, não de um conceito filosófico ou de um assunto universitário. Sendo assim, é o tipo de núcleo que gera outros núcleos periféricos, que produz práticas e valores, orienta formas de vida e de organização da sociedade, da sexualidade, do imaginário. Intuo que a mutação nessa crença produziu uma alteração antropológica das mais significativas. É um trabalho muito difícil, cheio de ciladas e abismos, que vai levar alguns anos. É preciso um diálogo entre filosofia, antropologia, história, teoria da literatura, história das religiões, até arqueologia. Como o assunto é muito grande, se conseguir dar uma pequena contribuição para ele já me darei por satisfeito. Isso é o que mais tem me motivado ultimamente. Celuzlose 03 - Dezembro 2009 11


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Em relação a sua atividade de editor, fale um pouco sobre a Edições Rumi. Qual é a proposta editorial? Por enquanto, a Edições Rumi ainda é uma empresa que tenho e com a qual presto serviços a outras editoras. Publiquei há pouco uma antologia de poemas da Maiara Gouveia, Pleno Deserto, em uma edição simples e de tiragem pequena, que me deu muita alegria fazer. Além de ótima poeta, ela é minha mulher, o que dá uma dupla realização. Projetos editoriais não faltam. Gostaria de publicar, principalmente, poesia e ensaio. Mas por ora não tenho estrutura pra isso. Quem sabe em breve? Vamos ver como as coisas andam.

Atualmente a Biblioteca Brasiliana de Guita e José Mindlin está passando por um processo de digitalização que é realizado na USP e algumas obras já estão disponíveis na internet. Da mesma forma, outras iniciativas semelhantes são realizadas ao redor do mundo. Como você vê essa transferência do conteúdo impresso para o meio digital? Vejo com otimismo e com muitos bons olhos. Faz pouco tempo houve a polêmica envolvendo o projeto do Google, de disponibilizar material digitalizado das bibliotecas e de centralizar as compras de livros pela internet. O ponto delicado está em definir a diferença entre ter acesso a um livro físico em uma biblioteca pública e baixá-lo de um site. São espaços públicos distintos e maneiras distintas de apropriação de um material, concordo. Mas quase sempre esses pruridos morais relativos à propriedade intelectual e às patentes estão mais ligados aos interesses das corporações do que aos produtores e ao valor cultural objetivo das obras. Também se desconsidera a possibilidade bastante realista de convivência pacífica das obras em dois suportes diferentes. Imagino que apenas um masoquista leria Proust na tela do computador ou imprimiria a Busca do tempo perdido em sua HP. Essas mídias vão forçosamente mudar. Seu valor, seu sentido, sua acessibilidade. Mas não haverá superação de uma pela outra. Por isso, se disponibilizarem todas as obras do planeta na internet, eu apoiarei.

Clique aqui para conhecer a http://www.brasiliana.usp.br

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Você esteve recentemente no México e participou de alguns encontros literários. Como foi esse intercâmbio? Foi uma das melhores viagens que já fiz, um intercâmbio muito rico. Fiz leituras em Puebla, uma pequena cidade próxima da Cidade do México, na qual há a Casa do Escritor, um espaço público que recebe escritores de vários lugares do mundo. Fui para Mérida, uma das cidades mais antigas da América, ao sul, na Península de Yucatán, que é uma zona maia, e ali fiz alguns dias de oficinas e leituras. Depois voltei ao DF e participei de um bate-papo e leitura na Unam (Universidade Nacional Autônoma do México). Por fim dei um breve curso sobre Guimarães Rosa na Fundación para las Letras Mexicanas, antiga Fundação Octavio Paz. Além de ter conhecido o país, a cultura mexicana e os mexicanos, um povo que adorei, e de ter conversado muito e conhecido um pouco mais da sua literatura, voltei com uma série de ideias e projetos concretos de estreitamento de relações entre os dois países. A poesia mexicana é acintosamente desconhecida no Brasil. E vice-versa. Isso decorre da posição insular que o Brasil assume frente aos demais países hispânicos, que nos faz mais próximos dos EUA e de outros países europeus do que dos nossos vizinhos e da Península Ibérica. Curiosamente, o mesmo descaso se passa com relação à poesia portuguesa, que é de nossa mesma matriz cultural e da mesma língua, além de ser uma das

melhores poesias do mundo. E, no entanto, a ignoramos ostensivamente. Nunca saímos de Fernando Pessoa. A cultura popular brasileira tem traços medievais, com expressões, símbolos e vocabulário que vêm do século X e foram se transformando e se sedimentando com o tempo. Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, João Cabral e Ariano Suassuna perceberam isso muito bem. É uma linha evolutiva, uma das mais fortes e longas tradições culturais europeias que ainda se preservam sem se romper. Mas os meios intelectuais brasileiros são muito afrancesados. Isso parece ter removido do horizonte essa nossa herança ibérica, que é riquíssima. E demonstra que a Missão Francesa de fato foi vitoriosa. Com relação ao México, chegamos em Octavio Paz e paramos. Sendo que eles têm uma poesia de muita qualidade, tanto nas gerações anteriores a Paz, como a do grupo Contemporâneos (Xavier Villaurrutia, Carlos Pellicer, Jorge Cuesta, José Gorostiza), quanto nas gerações um pouco posteriores, com nomes como Eduardo Lizalde e Eduardo Langagne, entre outros. E isso não só no que diz respeito ao México. Enquanto esse isolamento brasileiro perseverar, nossa poesia se empobrecerá, pois se manterá alheia às experiências artísticas mais interessantes que há em países cuja expressão cultual, linguística e política é muito semelhante à nossa. E tampouco saberá o que fazer com a herança ibérica, que é o coração de tudo o que chamamos de Brasil.

Foto: André Fernandes

“Além de ter conhecido o país, a cultura mexicana e os mexicanos, um povo que adorei, e de ter conversado muito e conhecido um pouco mais da sua literatura, voltei com uma série de ideias e projetos concretos de estreitamento de relações entre os dois países.” Nas 4 páginas seguintes, poemas de Rodrigo Petronio.

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A CHUVA REFAZ OS INTERIORES EM SILÊNCIO A chuva refaz os interiores em silêncio. Desmancha todos os muros com suas luvas. Somos todos estrangeiros. Não há ninguém lá fora. O sol não veio. Seus favos de trigo não deitaram sobre a noite. Nem a água antiquíssima pousou sobre meus cabelos. O cristal ainda dorme em seu primeiro espinho. Que venha a política. A merda polida por palavras. O assassinato em nome de nobres causas. Civilização, arte, imbecis emoldurando o nada. Todos nós, coisas entre coisas, avessos da espada. Holocausto ao vazio, templos de lata. A fauna nos povoa quando somos este espaço Entre o voo verdadeiro e um projeto de asa. A cada gota um deus em mim se levanta nesta sala. Sei que foste pra outro país, inacessível. Trazes apenas a marca de tua alma em cada objeto E caminhas pela casa e te perdes nos espelhos. Uma estupidez qualquer que nos tire deste peso: Existirmos sem palavras, sermos sem saber do ser, seu veio. Essa morte abjeta, compartida, ossos animados, Gado sem recheio que vende a alma em troca de conceitos. Apenas eu e tu, contra o mundo, o círculo não se completa. A chuva, ela e apenas ela, eternamente cai. Não explica, não indaga, não oculta, não confessa. Apenas demonstra a lei da gravidade e sua beleza: Maior afirmação de quem sorri em plena queda.

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ANTÍTESE O poema me espera, fora de mim, Para que eu me realize nele. A sua falta de essência me completa, E o que nele sobra me extravasa: Transbordo em seu sinal de menos: Sua ausência de ser é minha casa. Sustenho seu corpo, sem mistério. Adentro seu espaço, sem pegadas. Encontro-o quando perco o centro. Menor que a parte, ele não me abarca. Maior que o todo, ele é meu avesso. Não é o mundo o que ele me revela. Não é a mim mesmo que nele procuro. Não é a poesia o que ele desperta. Mas o hiato que vai da ideia à fala. Onde o coração bate mais livre. Mergulhado na matéria mais precária, Pulsa em nós ao ritmo da estrela Tanto mais imortal em quanto vive, Eternidade da luz que se apaga. Isento da palavra que o aprisiona, Alheio ao conceito que o mutila, Imerso em cada coisa que o transcende, Mergulhado no mundo sem limite: Vou ao poema, retorno ao nada: A voz me liberta de minha alma E assim eu sou o Outro que me habita.

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MEIO-DIA I Subsisto porque a carne não tem nome. E onde busco Deus só encontro falha. A poesia se desdobra entre a luz e o cadafalso. O sol logo nos preme contra o espelho. E nem todos os homens já nasceram. Não estamos vivos. Morte é máscara. A renúncia ao mundo é mais tranquila Quanto menos em mim o mundo arda. Mas no coração da pedra a água brota. Urgência de amor. Líquida flor de magma. Cada passo inscreve uma lápide no abismo. Uma vez: basta. Uma só vez. Basta. Apenas respirar o monumento vivo Que entre meus membros se dissolve. Pelas veias flui sua nuvem rápida. Adelgaça meu pulmão e me dilata. Depois virá a Estrangeira. Romper-me a fala. Dar-me a ração de tempo que me falta. E é pra ela que somente existo, Senhor. Salvação da minha carne e minha alma. A paz me acolhe em um nada além do nada.

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Entre ? ! vista

II Entre a luz e o sem-nome sei que habito. Matéria viva ainda a ser inaugurada. Entre o que sobra à asa e falta ao mito. Recolho-me: a água solar me guarda. Muitos séculos eclodem em meu canto. Aurora de broqueis, sonhos de espada. O sangue em torrente me atravessa. O que não sei de mim não me ultrapassa. O sol brota em meu peito, pulso e casa. Ó artérias, templo em combustão, espaço virgem. As árvores conservam a pura duração. Ó seiva verde que em meu corpo destilo. A história de cada passo sobre a terra. O beijo em si de cada beijo dado. Aniquilo-me para poder suportá-los. Para retê-los em minhas mãos desde a origem. Morro pelo amor para nunca ser perdoado. Sou a flora que explode e sua semente. Um peregrino maldito, anjo sem halo. O fruto ingente, tudo o que já foi realizado. O país onde começa e morre todo mundo. O passado e o porvir em mim eu trago. Porque eu sou um ponto. Não o arco. Sou o que falta a Deus e a seu contrário.

III Fincado neste chão sou sem limite. Entre a ideia da luz e uma tocha apagada. Precário meu amor. Tudo é precário. Pobre a minha virtude porque meu ódio é fraco. Clamo por um sol que queime e não ilumine. Aqueça minha garganta desde o talo. A salvação só acolhe os desregrados. Quem em fogo e excesso queima e brilha. O resto é pantomima. Suor e salário. Cadáver adiado e mortos que procriam. Afundo os pés na relva ilimitada. Sua falta de horizonte me alimenta. O infinito só redime o que em si mata. Seu espelho terroso me renova. Para que a morte cumpra sua alquimia. Estou aqui. Uma só vez é o que nos destina. Equidistante de Deus e da mortalidade. Ela me salva para que Ele me ilumine.

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Alice Ruiz

Foto: Vilma Slomp

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Poeta, compositora, haikaista, tradutora e publicitária. Publicou seus primeiros poemas em jornais e revistas culturais em 1972. E em livro a partir de 1980. Recebeu duas vezes o prêmio Jabuti de poesia. Várias de suas letras foram gravadas pelos parceiros, Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Alzira Espíndola, José Miguel Wisnik, entre outros e também por vários intérpretes como Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, Gal Costa, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, entre outros. Site: www.aliceruiz.mpbnet.com.br / Blog: http://aliceruiz.com.br

primeira estrela Vésper véspera do que se espera vira primavera

não vai dar tempo de viver outra vida posso perder o trem pegar a viagem errada ficar parada não muda nada também pode nunca chegar a passagem de volta e meia vamos dar

que viagem assim que você chega a abóbora vira carruagem

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na esquina da consolação com a paulista me perdi de vista virei artista equilibrista meio mãe meio menina meio meia-noite meio inteira inteiramente alheia toda lua cheia

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ainda me viro e me vejo pronta a te chamar a te contar que aprendi hoje coisas que você soube ainda te vejo em cada bicho em cada pensamento me surpreendo olhando com teus olhos de pesquisa e o que vejo vira beleza ainda te sinto em tudo que permanece como se tua pressa de vida que se extingue ficasse um pouco em tudo ainda

sou uma moça polida levando uma vida lascada cada instante pinta um grilo por cima da minha sacada

gotas caem em golpes a terra sorve em grandes goles chuva que a pele não enxuga lágrima a caminho de uma ruga água viva água vulva

sem luto pelo obsoleto só ab so luto

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Deborah Goldemberg Foi curadora do I Sarau das Poéticas Indígenas da Casa das Rosas (2009), participa do projeto inter-estadual EIXADA de literatura, é colunista do projeto internacional de blogueiros Global Voices e da revista eletrônica Oca das Letras. Livros publicados: Ressurgência Icamiaba (Demônio Negro / Annablume, 2009) e O Fervo da Terra (Carlini & Caniato, 2009). E-mail: debbiegoldemberg@yahoo.com.br Blogs: http://ressurgenciaicamiaba.blogspot.com e http://fervodaterra.blogspot.com

O FERVO DA TERRA Trecho do capítulo 6 E a sedução do garimpo não é só as mulher não, é muito mais. Talvez seja difícil pra ocês entender o colorido invertido desse mundo do garimpo. Vou contar pra ocês um caso. Uma vez, antes de a febre dar em Nina, nós fomos convidado pra festa de um garimpeiro chamado Faísca que deu sorte na lama e encontrou uma pepita gigante de grande. Pronto, enricou! Nina vendia coisa pra rapariga favorita dele, a Liete, e ele quis provar gratidão convidando nós pra festa. Ele convidou foi todos os que algum dia ajudaram ele, os que venderam fiado pra ele nos dia de fome, os que emprestaram pra ele comprar os equipamento nos início, convidou esse povo tudinho. Mais de duas centenas de gente ele chamou pra ir pra festa. E olhe que foi festa boa danada, com tudo do melhor pra se comer e beber, até o tal do uísque que eu nunca tinha provado na vida. O cabra trouxe até banda de forró do Ceará, daquelas boa mesmo, que era pra o sanfoneiro tocar até o sol raiar! O povo ficou tudo alegre, de esperança renovada da vida, confesso que foi a única vez na vida que eu esqueci da lida e caí na farra. Aprendi que no garimpo o ganho de um vira festa pra todos! Faísca passou a noite cercado das rapariga mais bonita de Peixoto, todas se oferecendo pra ele. Liete nem se importou, que ela sabia que no dia seguinte ele ia levar era ela pra um lugar chamado Paris, num país chamado França, que ninguém nunca tinha ouvido falar, mas que quem apitou tinha sido um cabra de instrução, um tal engenheiro da Guiana Francesa que passou por ali e disse que era lugar inda melhor que Sum Paulo! Faísca queria retribuir bem a ela que tinha acolhido ele nas noite dura da vida na lama. Pra mulher dele de verdade, que tinha ficado no Acre e ele não via faz mais de ano, ele mandou dinheiro pra comprar casa nova, com tudo novo dentro, uma caminhonete das grande, roupa nova pra os menino deles, tudo o que ela quisesse. Verdade é que os garimpeiro tinham era jeito pra ser generoso quando a sorte batia e eles montavam no ouro. Que era por essa mesma razão que a riqueza deles não durava nada, isso era. Ali no quente do entusiasmo, do jeito que vinha rápido, ia tudo embora. Agora, se é que vale mais a pena levar a vida do ávaro ou do farto é pergunta que até hoje eu me faço. Posso dizer que vi os dois modo de vida. Sei que pra quem vive longos tempos a prudência compensa, mas como apostar nisso?

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Trecho do capítulo 13 Voltamos pra dentro da mata. Desta vez pra ficar escondido uns meses, até dar tempo de os pessoal esquecer um pouco o ocorrido. Dona Fernanda foi quem assumiu a fazenda, mulher de fibra ela foi. Passou a comandar os peão tudo, fez que nem tivesse fibra de homem no saber confiar pouco e punir duro sempre que fosse preciso. Só de vez em quando que Seu Luis descia o rio e aparecia no meio da noite na casa sede, na hora que ninguém mais estava acordado, daí somente que ele ajudava ela nas decisão de negócio que ela tinha dúvida. Mas ela fez foi cuidar muito bem da fazenda. Verdade é que as finança não notaram diferença na transição de nós pra ela, os negócios foram é muito bem. Eu e Seu Luis passamos a viver no isolamento. Nesses dias, eu pensei que tinha afinal uma boa razão pra eu ter nascido índio, porque meu saber ajudou foi muito a gente no convívio na mata, muitas vez com questão de vida ou morte. Montamos um abrigo de palha de buriti dentro da floresta densa, eu teci duas redes e pronto, essa virou nossa morada. Vivemos ali colhendo os fruto e caçando. Seu Luis gostou demais de caçar. Sempre tinha sido homem da agricultura, mas depois que acertou pegar umas duas capivara ele viciou naquilo! Acordava animado pra caçar, dia após dia. Nós saía cedo, voltava, limpava os bicho, colocava eles na fogueira, um ajudava o outro. No mais, muito era o silêncio nosso e os ruídos das vivalmas da mata. Nós sempre fomos assim de poucas palavra, mas nos entendíamos profundo. De certo jeito, era o que nós precisava mesmo depois dos ocorrido da cidade, um retiro pra dentro da natureza, algo que ajudasse a gente a entender a nossa própria. Fumávamos deitado na rede e, pensando em voz alta, eu acabei perguntando pra ele o que nós ia fazer quando voltássemos pra casa. Estava escuro, então não pude ver a expressão dele. Aguardei resposta ouvindo a sinfonia da floresta. Depois de um longo tempo ele me disse que não sabia mais. Que, por incrível que pudesse parecer, ele, um Castilhos, não conseguia mais ter clareza do que seria o seu futuro. Eu comigo pensei que a floresta havia por fim tido efeito completo naquele homem. Por fora, já fazia era tempo que ele não era mais o mesmo do início. A pele foi se curtindo morena no sol e as roupas andava quase sempre cobertas de barro ou carvão. Agora, era a vez das águas entrarem pra dentro do barco. Bem que ele tentou derrubar a floresta, usou de todas as armas que tinha. Uma parte delas, ele conseguiu, mas ele não se apercebeu que pessoas também são árvores, mais teimosas do que as verdes, e que há um bocado delas por aqui. Esta região nossa é traiçoeira, esse alto de Centro-Oeste. Dizem que é Centro-Oeste, mas o que se vê aqui é a cultura da floresta. Só se engana quem não pode ou não quer ver.

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Edson Cruz

Nasceu em Ilhéus (BA), 1959, é escritor, editor, revisor e preparador de textos. Estudou Psicologia, Música e Composição e, atualmente, faz a graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP). Um dos fundadores do portal de literatura CRONÓPIOS (www.cronopios.com.br) e editor até maio de 2009. Já preparou e revisou, entre outros, obras de Márcia Denser, Carlos Nejar e Virginia Woolf. Foi palestrante em eventos literários no Uruguai e na Argentina, sempre falando sobre poesia, literatura na internet e literatura e novas mídias. Professor de violão, língua e literatura brasileira. Ministrou Oficinas de Criação Poética a convite da Câmara do Livro de Porto Alegre. Foi Curador do evento Cartografia Web Literária, em parceria com o SESC-Consolação, edição de 2008. Livro publicado: Sortilégio (Demônio Negro, 2007). Prepara seu segundo livro de poesias e uma adaptação do épico indiano Mahâbhârata. Escreve com frequência no blog: http://sambaquis.blogspot.com - E-mail: sonartes@gmail.com

samsara pois tudo se transforma mesmo o nada que não quer ser algo vira alguma coisa que logo vem a ser outra do feitio que ela vida quando se desativa e a chama passa a se chamar morte naquele des equilíbrio tênue de quem precisa e quer renascer (Poema do livro inédito, Sambaquis)

insígnia habito este mundo ave do paraíso sem pernas rascunho que não pousa nunca

mi menor a solidão Bashô em mim

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revelação sopro tenho uma certeza uma epifania pessoal - quase religiosa o caminho que escolhi é o melhor - entre os caminhos é o melhor, pois foi o que escolhi. tenha uma certeza apesar da convicção que me anima - quase fanática não estou disposto a enforcar apedrejar jogar bombas atirar exterminar abraçar com morteiros no culote embargar economicamente eliminar civilizar ninguém, por não compartilhar de meu júbilo de minha sina solitária. (Poema do livro inédito, Sambaquis)

assim como não há eu vejo assim como não dá ensejo assim e só assim desejo

cortes há um rio que nos separa dos outros rio lethos de esquecimento encalhes duplos o mundo é outro segundo a dualidade do ser a margem que nos divide é a pele que nos irmana

eu

quem vislumbra o tu é nutriente da relação

um ser atônito feito um deus absorto

aquele que comunga o isso não é

em meu rosto gotas de um mar morto

está só (Poema do livro inédito, Sambaquis) Celuzlose 03 - Dezembro 2009 23


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Elisa Andrade Buzzo

Nasceu em São Paulo, 1981. Formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo. Depois de seu primeiro livro de poemas, Se lá no sol (Rio de Janeiro, 7Letras, 2005), teve trabalhos publicados em diversas revistas e coletâneas como Cuatro poetas recientes del Brasil (Buenos Aires, Black&Vermelho, 2006), Caos portátil, poesía contemporánea del Brasil (Ciudad de México, El Billar de Lucrecia, 2007), Poesia do dia - poetas de hoje para leitores de agora (São Paulo, Ática, 2008) e Roteiro da poesia brasileira - anos 2000 (São Paulo, Global, 2009), dentre outras. Seu segundo livro, Noticias de ninguna parte/Notícias do lugar algum (Ciudad de México, Limón Partido, 2009), tem edição bilíngue português/espanhol. Na internet, mantém o blog Calíope: http://caliope.zip.net e uma coluna no Digestivo Cultural: http://www.digestivocultural.com

Me gustaría elaborar tu rostro. Me gustaría envolver tu rostro en papel aluminio. Comprimir tu rostro. Compartirlo. Reducir tu rostro. Guardarlo en una bolsa del pan. Atesorarlo como emblema en mi llavero. Guardar un llavero con tu rostro en mi cartera. Me gustaría guardar la textura de tu rostro en mi piano de cola. Domesticar tu rostro. Remojarlo. Dominarlo. Perder la información de sus facciones: de su nariz, de su hocico, de sus pómulos, de su ojos. Perder sus labios y su dentadura. Me gustaría olvidar sus belfos, sus lóbulos. Me gustaría palpar los pliegues de tu rostro. Devolverle su gesticulación. Rodrigo Flores Sánchez

o que você faria, o que você faria se encontrasse, no bonde ou na rua, os cabelos, a altura, tudo batia, mas o poste impedia a certeza, preferi recuar, impossível, e no bonde, você sentado de perfil não me reconheceu, é o que você faria, não me reconheceria numa cidade diferente, num outro contexto, foram três minutos de um perfil indeciso, o mesmo jeito medroso de seus vinte e um anos num país estranho, o que você faria, o que você faria se me tivesse todas as noites, se eu te visse no acaso do zapping e topasse com seu rosto inacessível.

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Versos livres Como pássaros felizes Mulatinho classe A Um moreno de alta classe Não precisa harpa nem lira (...) Sai dançando pela rua Feliz por ser dos morenos.

Versos brancos Como presas de elefantes Versos soltos Como malcriadas nuvens

(Cecília Meireles) Vi nas ruas: mulatinho classe A óculos barba e celular meu aviãozinho monomotor um tipo Machado de Assis monóculo casaca e guaraná estilo Cruz e Souza colônia estrelas e tralalá ou ainda Lima Barreto com o tempo virou popstar

quando está deitado digo que está pousado depois decola nos meus braços sardinha é sua gasolina meu aviãozinho monomotor - tão leve corpinho compacto que, se desaba sobre as casas será apenas nuvem de pelos e garras fincadas

Rinitis Dá-me um lenço (quer) sabor laranja Pode ser pior para sua rinitis, logo aviso, tem o sabor menta, um pouco melhor para as fossas nasais Esta doença acomete uma parcela tão significativa da população que há uma prateleira inteira dedicada ao assunto Você (ele) já se acostumou a viver meio entupido e sua voz é levemente fanhosa, mas vá lá, tem seu charme, que despe as folhas penetra até mesmo nestas fibras tratadas Aspiro este caule nascido na sua terra até chegar nesta prateleira suja da loja de um real e dava-lhe lenços, polidamente, tentando com isso conquistá-lo Dá-me arrepios vê-lo fungar desprotegido Está claro, me preocupava com suas pífias secreções

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Lau Siqueira Nasceu em Jaguarão (RS), 1957 e atualmente vive na Paraíba. Livros publicados: O comício das veias (junto a Joana Belarmino - Editora Idéia, 1993), O guardador de sorrisos (Editorial Trema, 1998), Sem meias palavras (Editora Idéia, 2002), Texto Sentido (Edições Bagaço, 2007). Blogs: http://poesia-sim-poesia.blogspot.com e http://lau-siqueira.blogspot.com

DEUS fingiu que estava criando o mundo trabalhou seis dias oito horas em dois turnos salário de cento e oitenta pregos ornamentou noites criou nuvens e ventos do barro fez a criatura num sopro o inventário das paisagens uma vez pronta a maquete exonerou-se e ficou mudo hoje dies dominicu reaparece com trezentas mil faces midiáticas (dizem que vive em tudo)

pedra sobre sabão sem voz nenhuma nego apelos ao silêncio (tributo da existência) vivo porque em mim fazem pouso as palavras e o universo oco dos sentidos de onde a poesia sempre voa como um pássaro imprevisto e some como um risco

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poemail a palavra insiste em ser livre por isso transcrevo silêncios dos quais não guardo memória

signo a cadeira onde sento para escrever poemas sequer suspeita da trama conceitual que envolve sua existência

escrevo versos de indigência catalã ou virulência bárbara que consumimos ao luar que se esconde entre folhagens densas e extensões minimalistas as cartilagens do que sonhamos caem do telhado como um inseto que desistiu de tudo

grafite morrer é quase um imprevisto TINTO SECO

morro sempre quando penso que não existo

Querido diário. Vírgula. Nova linha. Sou um cidadão do meu tempo. Ponto. Olho ao meu redor e vejo que a esperança habita somente os olhos de quem luta. Ponto. Vejo lampejos de medusa. Ponto. Vejo tudo pelo olhar que assusta. Ponto. Vejo a louca entre a viagem e a musa. Ponto. Ponto. Ponto. Vejo a vida difusa. Ponto. Inconclusa. Ponto. E ponto. Ponto.

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Leonardo Gandolfi Nasceu no Rio de Janeiro em 1981. Atualmente trabalha sobretudo com literatura portuguesa e tem um livro publicado: No entanto d´água (7letras, 2006).

- TODAS AS MINHAS COISAS SÃO TUAS

Quando fiz Do you know the way to San Jose, preparei algumas variantes que acabaram ficando de fora da versão final, gravada em 1968 por Dionne Warwick. A mais importante delas talvez tenha sido uma pequena quebra de andamento mais ou menos na metade da música, indicada sobretudo por uma mudança de nota no terceiro dos cinco trompetes que, naquele instante, preenchiam os espaços em branco. Isso, apesar de rápido, sempre me remetia a um tempo em que meu pai me levava ao bar a meio quilômetro da nossa casa. As notas de um piano que eu nunca mais ouviria. Anos depois, toda vez que toco Do you know the way to San Jose, penso no meu pai, as mãos no bolso. A música que fiz com certeza não fala disso, a suspeita a um só tempo oportuna e desacreditada que nos separa dos nossos. Frio antigo e úmido que, como depois percebi, da ação até a demora não leva nem mesmo alguns segundos.

(Todos esses poemas fazem parte do livro inédito Espiões em apuros)

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NUNCA FECHE O CRUZAMENTO

Quando os policiais finalmente nos [prenderam, eu estava com o sono atrasado e nas minhas mãos o livro do Omar Khayyam por acidente. Meu mundo não é feito de rancor. Porque quando consigo ser justo, lembro-me bem dos amigos e, apesar da dívida de gratidão que tenho, imagino que nosso paraíso seja um tipo de prisão de ventre [ad eternum. É realmente uma honra estar aqui com vocês, meus amigos. Na verdade, eu vim mesmo dizer como vai e quanto ao resto, o sorriso trespassado das mulheres, [Omar Khayyam, o mercado negro da memória, [não tivemos dinheiro para viver outra coisa qualquer. Aliás, a própria subsistência teria sido um problema se no devido tempo não nos tivessem traído o nosso peito estufado e um gosto comum pela troça.


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CRONOLOGIA

ITINERÁRIO

No avião você quer que eu feche a janela, mas, veja, as minhas mãos estão atadas. Esse vento atinge sobretudo teu rosto porque esse vento é sobretudo a imagem que você escolheu da tua filha morta e da qual você não sabe ainda como se desfazer. No entanto sabemos - e com alguma segurança que a ressurreição como queríamos é apenas uma hipótese distante. Daí que talvez seja [preciso escolher entre paciência e pressa. E por enquanto é você a responsável por diferenciar uma da outra. Nesse instante a aeromoça se assusta com o vento, mas também não sabe o que fazer. Veja, minhas mãos estão atadas, diz ela, e avisa que vai chamar o comandante, mas o comandante [não vem. Parece tristeza, mas é menos sutil porque não termina e então aquilo que reconhecemos como felicidade de alguma forma se mostra atávico e descontínuo. Alguém quer trocar de lugar? Você, parece, se distrai com alguns comentários meus sobre o livro da Isabel Allende que fala disso e daquilo. Nesse caso as lágrimas são mero detalhe. As minhas representam o mais perto que já cheguei do que meu pai chama de amor desinteressado. As tuas são a visão mais nítida que já tive daquilo que conhecemos por - me perdoe a expressão ferida aberta. O vento desarranja todo o teu longo cabelo e teus pensamentos, como o avião em que estamos, atravessa um oceano de certezas [descritivas.

Tecnicamente não sou lá boa pessoa. Amei e fui amado sem ter visto nisso amor ou o que quer que seja. Em segredo traí amigos e a memória alheia. Cultivei a mentira, o medo, a covardia, tudo no seu registro menos assertivo, e só mais tarde fui aprender que ao melhor mal coube a mim apenas a melhor resposta. Pois, se houve bem no mal do qual fiz parte, foi o de ver que as pedras que tenho no bolso também estão no bolso daqueles a quem não abracei nem dei a mão. Nossa canção, embora solitária e cheia de paz, é uma só canção e, cante o que cantar, ouviremos apenas os ruídos desse que tem sido apesar de tudo o nosso tempo.

ATRASADOS Esse o milagre último, quiçá penúltimo, o dos transportes públicos quando [desponta o dia e se acendem nossas ilusões. E o fim da esperança é felizmente uma questão de trânsito ou de beleza involuntária, como por exemplo, quando já não buscar o meu o olhar algo esquivo da moça mais bonita [do ônibus. De modo que ao descer não volto [a vê-la, embora em cada canto ainda me [acompanhem a dor do amigo morto faz um mês e a permanente sensação de que as coisas não têm corrido assim tão bem.

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Maiara Gouveia

Nasceu em São Paulo, 1983. Poeta, publicou ensaios, poemas e artigos em revistas virtuais e impressas do Brasil e de outros países. Na Universidade de São Paulo (FFLCH - USP), desenvolveu trabalho de pesquisa acerca da obra de Cesário Verde. Trabalha no mercado editorial há algum tempo, oferecendo serviços como preparadora de textos e leitora crítica, sobretudo de material didático e livros infantis. Em 2006, foi finalista do Prêmio Nascente - USP, com o livro de poemas O Silêncio Encantado. A obra inaugural sofreu alterações e hoje se chama Pleno Deserto (Edições Rumi/Nephelibata, 2009). E-mail: maiaragouveia@gmail.com

UM. O MAGO. OUTRA VEZ O CORPO Força matemática Em microprocessadores O fruto da bondade não explodiu nesse solo rude. Somos o Corpo e outra vez o corpo. Animal divino que saqueia e fere, cobre de lírios esse ventre estrangulado.

Força matemática Em jogos políticos Força matemática Em bancos e loterias Força matemática Em cálculos algoritmos Não é força matemática Em fórmula alquímica

SEM NOME O perfume da rosa e o talhe Ou o caule que se curva ao Sol Sem nome - seria o mesmo O mesmo rosto ao redor da Lua E o doce olor que vive nela Rolaria de alma em alma Sem nome, rosa-universo

Não é força matemática Em mapa de astrologia Não é força matemática Em poema de Cabral Não é força matemática Em oráculo ou esfinge Relativo é aplicável Aos postulados explícitos Pra calcular o futuro Considera-se o infinito

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ANTICRISTO às cerdas do embaraço a chafurdar numa sequência de sustos - a matéria do absurdo: o absurdo na boca da raposa que o resume - a natureza talvez à espera de um riso amarelo - a pele sôfrega em branco e preto - melodia e morte (num contraste) - lirismo forjado em que a Queda ameaça em câmera lenta - a forma de um incômodo pungente que nos cerca - método a dissecar o medo e a violência: o menino de pés retorcidos a cair pela janela: a mácula habita o Éden - assim em três cabeças (sobretudo) gravidade numa dança que antecede a suspensão: o lençol branco na máquina - a criança despejada no branco da neve com este urso de pelúcia - o pesadelo da água um brilho delineia uma senha - a mulher abriga o mal: mistério - nascimento de estranha devastação assim sem remédio afundar na fonte árvore rude e seca sêmen vermelho da presa feto no ânus da fêmea nada acolhe - tudo expele um verde escuro e sem remédio - o caos reina

a terra uma cópula (eterna) de vítimas queimadas pela ausência do bom senso: o mal numa fé em poder consumir pela força o corpo e o céu onde o corpo sucumbe zombaria é história de homens a fé num lugar sem dono em que a fera dorme onde tudo é farto e uma graça redime do ódio - aos iguais irmana o contrário ao imperativo é amor - enfraquece e a culpa daninha adorna o inferno: matar pra comer: rapina que consome num segundo outro rato do ar emana um sussurro tenebroso de vozes abafadas por razões cheias de flama pela precisão de mutilar o que não cabe numa ordem: assim explica-se a brutalidade - zombaria uma história de quem se levanta inflamado diante do absurdo: ímpeto de mutilar o centro qualquer substância perfurar o outro com o peso da angústia

ela grita: Nada adianta a sangrar sem os lábios do sexo arranca todo o prazer assim como o Éden às bruxas enterradas que proliferam mortes sempre más porque humanas e o domínio da força avança sobre ela: Nada adianta - as razões para o destino impedem qualquer redenção - enforcada pelo homem: assim sem remédio afunda na fonte árvore rude e seca sêmen vermelho da presa no fogo ele manca a fruta doce mata o apetite e a fêmea sem face multiplica-se: melodia e morte em preto e branco o contraste entre a fartura e a mendicância - um lirismo forjado (sobretudo) pela precisão de mutilar o que não cabe em uma ordem NADA além.

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Paulo Ferraz

Nasceu em Rondonópolis (MT), 1974. É poeta e editor. Graduou-se em Direito e concluiu mestrado em Teoria Literária sobre a poesia brasileira contemporânea, ambos na Universidade de São Paulo. Publicou os seguintes livros: Constatação do óbvio (1999), Evidências pedestres (2007) e De novo nada (2007), indicado para melhor livro do ano em 2007 no 3º Prêmio Bravo! Prime de Cultura, depois adaptado para o teatro no projeto “Poetas em Cena”. Foi editor da revista de poesia Sebastião, traduziu os livros O céu mais líquido de Luis Armenta Malpica e A santa de José Javier Villarreal, e organizou o Roteiro da poesia brasileira, anos 90.

NÃO ESQUECER - nº 1 para Matias Catrileo Matias Catrileo. Nunca ouvimos esse nome. Matias Catrileo. Continuaremos a não ouvir esse nome. Matias Catrileo. Esqueçam esse nome. Matias Catrileo talvez nem seja um nome. Matias Catrileo não é ninguém. Matias Catrileo é um índio. Matias Catrileo não é um índio. Índios não existem. Índio bom é índio morto. Índio é coisa de branco. Matias Catrileo não é chileno. Matias Catrileo é mapuche. Não, mapuches não existem. Mapuches são chilenos. Não, mapuches não são chilenos. Mapuches são mapuches. Lautaro é mapuche. Lautaro é chileno. Lautaro não é Lautaro. Lautaro é maçom. Matias Catrileo não é Lautaro. Matias Catrileo não viu a cabeça de Lautaro na plaza de Armas de Santiago. Espanhóis e chilenos não gostam de mapuches. Mapuches ou araucanos. Matias Catrileo não lutou na Guerra do Arauco. Matias Catrileo não viu Caupolicán ser empalado. Não leiamos La araucana. Matias Catrileo não morreu na Guerra do Pacífico. Matias Catrileo não roubou o mar boliviano. Pablo Neruda não escreveu La Araucana. Pablo Neruda era comunista e chileno. Pablo Neruda era Ricardo Eliezer Neftalí Reyes Basoalto. Pablo Neruda não era mapuche. Matias Catrileo não votou em Allende. Matias Catrileo não matou Allende em 11 de setembro, nem cortou as mãos de Victor Jara. Matias Catrileo não apoiou Pinochet. Pinochet não leu La araucana. Pinochet matou Alberto Bachelet. Pinochet sabia que mapuches não existem. Mapuches não têm terra. Mapuches não tem cultura. Matias Catrileo não tem língua. Mapuches não bebem Concha y Toro. Matias Catrileo não votou em Ricardo Lagos. Allende, Pinochet e Lagos são chilenos. Matias Catrileo é Mapuche. Mapuches são terroristas. Autodeterminação dos povos não se aplica a mapuches. Mapuches são chilenos. Matias Catrileo é chileno. Gabriela Mistral não invadiu terras. Nicanor Parra não cursou agronomia. Gonzalo Rojas não teve 22 anos. Vicente Huidobro não levou um tiro pelas costas. Por la razón o la fuerza não é seu lema. É do Chile. É de Michelle Bachelet. Michelle Bachelet não foi morta por carabineros, nem pelos de Pinochet, nem pelos seus. Bachelet não disse: nosotros, los mapuches, somos sus indígenas; nosotros tenemos que ser los indígenas de Chile, nosotros no somos los "indígenas de chile", nosotros somos Mapuche, somos aparte, somos un pueblo que siempre ha estado aquí, que nació en esta tierra, y va a morir aquí, va morir peleando, aunque sea peleando, morir. Matias Catrileo o disse. Quem matou Matias que o embale. 32 Celuzlose 03 - Dezembro 2009


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NO CAFÉ PITTORESQUE Funciona mais ou menos assim: você, você entra em cena, chega, escolhe uma mesa. Senta-se. Olha ao redor de si. Deixa um livro de poesia sobre a mesa. Abre. Os pés de um garçom em sua direção. Logo nos primeiros versos te interrompem. Boa noite. Boa noite, uma caneca de chope. O que você lia mesmo? Você precisa de outra distração, poesia não serve. Lá está a caneca. Tente se concentrar nesta espuma, no mundo filtrado pelo vidro dourado-úmido. Você até sente os primeiros goles, passa a língua sobre o lábio superior (o movimento é rápido, ninguém veria, mesmo que visse, não poria reparos), sim, o calor está insuportável, por isso essa mesa ao ar livre - me esqueci de dizer, a mesa foi escolhida ao ar livre, você respondeu ao boa noite, mas na verdade é fim de tarde -, mas pensar no clima não é suficiente para te fazer esquecer de que já era tempo de ela haver chegado. Começa então o ritual de olhar o vazio da entrada. O vazio, o vazio ( ), o vazio que se repete. Funciona mais ou menos assim, você olha como se quisesse materializá-la, já viu isso em filmes, por isso, mesmo inconscientemente, crê que a vontade pode controlar a natureza, seus elementos e suas leis, fazendo-a aparecer sob o batente. Assim você segue, não há um período regular, mal retira os olhos e os torna em seguida, no fundo você queria ter uma espécie de surpresa, que seus olhares se cruzassem ao acaso (como se cada um andasse em rota de colisão por ruas repletas de gente indiferente), que seu olhar interceptasse o sorriso dela logo no seu nascimento, capturando o primeiro movimento muscular, ali sob o batente, ficando maior a cada passo. Você queria que isso ocorresse agora, nesse instante. Tira os olhos. Outro chope e outros muitos olhares para o vão, o livro desapareceu. Agora um para o relógio, sim, o relógio pode se transformar numa ampulheta, contando o tempo ao avesso até o último grão quando então ela, não, não, ela não chegou, ou o telefone, olhe firme para ele, olhos nos olhos, tudo não passa de uma questão de autoridade, ele serve a você, então diga pausado (mas com firmeza): parla! Garçom, outro chope. Funciona mais ou menos assim, você relaxa, acende um cigarro, dá um trago profundo e expira, na verdade é um suspiro, a fumaça e os pensamentos se dissipam no ar. Então ela está sob o batente. Sorrindo, o primeiro movimento muscular, ficando maior. Funciona mais ou menos assim.

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Ruy Proença Nasceu em 9 de janeiro de 1957, na cidade de São Paulo. É autor dos seguintes livros de poesia: Pequenos séculos (Klaxon, 1985), A lua investirá com seus chifres (Giordano, 1996), Como um dia come o outro (Nankin, 1999), Visão do térreo (Editora 34, 2007), além do infantil Coisas daqui (SM, 2007). Traduziu a coletânea Boris Vian: poemas e canções (Nankin, 2001), da qual foi também o organizador, e Isto é um poema que cura os peixes, de Jean-Pierre Siméon (SM, 2007).

CIRCUITOS: TUMULTO as cores das carpas represadas no tanque do chafariz estão chorando os edifícios suas garras felinas arranharam os céus alguns de tão maleáveis têm apelidos eróticos Marilyn Monroe por exemplo aqui no chão porém junto às carpas num café poucas pegadas de sol e samba caminhos estreitos e curtos

COMO UM CÃO Em busca da felicidade escolheu viver como um cão. Passou a morar dentro de um barril. A roupa do corpo um pouco de alimento e o barril: seus únicos bens. Uma repórter o abordou. Ele disse: “Filha, já leu Jean Genet?” Um dia sentado ao sol junto de seu barril recebeu a visita do presidente dito O Grande Pai.

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Aproximando-se o presidente, comitiva ao redor, perguntou-lhe: “Algum desejo?” (Tivesse e seria imediatamente satisfeito.) “Sim, desejo que saia da frente do meu sol.”


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ANOTAÇÕES PARA UMA BIOGRAFIA DA TERRA ATÉ QUE JORRE A LUZ A Terra tem 46 anos. Até os 7 anos de idade dela nada se sabe. Até os 42 sabe-se muito pouco. Os dinossauros só apareceram quando a Terra já tinha 45 anos completos. Os mamíferos entraram em cena nos últimos 8 meses. Exatamente na metade da última semana alguns macacos parecidos com o homem evoluíram para um homem parecido com o macaco. Três dias antes de completar 46 anos a Terra sofreu a última glaciação completa. O homem moderno surgiu nas últimas 4 horas. Há apenas 1 hora descobriu a agricultura e se fixou à terra como sedentário. A revolução industrial ocorreu no último minuto. Nos 60 segundos seguintes o homem conseguiu transformar um paraíso num lixo.

para Ecléa Fosse o que contemplamos nosso alimento. Um pássaro come os frutos da figueira. O outro olha e não come. Ninguém sofreria. O pássaro que não come o fruto presta atenção. Atenção: prece natural da alma. O contrário da certeza, da posse. Entregar-se através do olhar e da escuta ao que é secreto silencioso quase invisível. Ninguém diria: 'não quero nem saber!' Tudo sacrifica para ver e saber. A renúncia do pássaro que não come reparte multiplica para todos nós os frutos saborosos. Felicidade: fosse o que contemplamos nosso alimento. Celuzlose 03 - Dezembro 2009 35


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Nasceu em Brihuega (Espanha), 1961. Formado em psicologia, tem 8 livros de poemas publicados: Poemas como pasos (1981), Sendas del corazón (1988), Como trago de agua fresca (1991), Las caras del espejo (1996), La casa del siervo (1999), Con distinta agua (2003), El sueño del león (2005), Las cuartillas de un náufrago (2008). Blog: http://jesusapariciogonzalez.blogspot.com

Coloquei infinitas pedras nas Pirâmides. Poli sem descanso as colunas do Partenon. Levantei as oitenta e oito torres de Ávila. Deixei minhas marcas no mármore da Basílica de São Pedro. Lavei todo o cristal rosado do Seagram Building. Não fiz nada. Sentado em uma pedra ao pé da montanha vejo crescer a relva. Solidão e silêncio movem minhas mariposas. Um mundo está feito.

Puse infinitas piedras en las Pirámides. Pulí sin descanso las columnas del Partenón. Levanté los ochenta y ocho torreones de Ávila. Dejé mis huellas en el mármol de la Basílica de San Pedro. Lavé todo el cristal rosado del Seagram Building. No hice nada. Sentado en una piedra al pie de la montaña veo crecer la hierba. Soledad y silencio mueven mis mariposas. Un mundo queda hecho.

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Parece que foi ontem quando sonhava ser um com as estrelas. Talvez a manhã entre pela janela toda a luz do céu. Fecho os olhos, vejo que sou essa centelha que passa e se faz aurora. Não há antes nem depois sou todo agora.

Parece que fue ayer cuando soñaba ser uno con las estrellas. Tal vez mañana entre por mi ventana toda la luz del cielo. Cierro los ojos, veo que soy esa centella que pasa y se hace aurora. No hay antes ni después lo soy todo ahora.

SOBRE O PAPEL Sobre o papel disponho meu campo de batalha minhas divisões e o quartel do inimigo, minha igreja, meu ateliê e o tablado da festa. Sobre o papel construo meus barcos, meus jardins, faço o amor e guardo minha pureza, dou custódia e altar ao meu segredo. Sobre o papel sou junco flexível a todo vento, leão dourando garras entre amapolas, diamante oculto, poeira de escura biblioteca. Com um papel vou aos meus desertos e dos meus desertos volto com um papel. Trecho de mar congelado no qual deixo fugazes pegadas. No papel, a vida. De todas suas mentiras fica uma, a única que vale de verdade: o ponto que inaugura o silêncio.

SOBRE EL PAPEL Sobre el papel dispongo mi campo de batalla mis divisiones y el cuartel del enemigo, mi iglesia, mi taller y el tablao de la fiesta. Sobre el papel construyo mis barcos, mis jardines, hago el amor y guardo mi pureza, doy custodia y altar a mi secreto. Sobre el papel soy junco flexible a todo viento, león dorando garras entre amapolas, diamante oculto, polvo de oscura biblioteca. Con un papel voy a mis soledades y de mis soledades vengo con un papel. Trozo de mar nevado en el que dejo fugaces huellas. En el papel, la vida. De todas sus mentiras queda una, la única que cuenta de verdad: el punto que inaugura el silencio.

(Tradução: Victor Del Franco) Celuzlose 03 - Dezembro 2009 37


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Luis Aguilar Nasceu em Tamaulipas (México), 1969. É jornalista, escritor e docente de literatura contemporânea e jornalismo cultural na Universidad Autónoma de Nuevo León, onde cursou jornalismo; máster em Gestão da Comunicação pela Universidad Autónoma de Barcelona. Publicou Eclipses y otras penumbras, Soberbia de cantera, Tartaria, Mantel de tulipanes amarillos e Los ojos ya deshechos. Ganhou os prêmios “Sobre rieles” (2001), Nacional de Poesía Joven Manuel Rodríguez Brayda (1988), o Premio Nacional de Periodismo Cultural Fernando Benítez (2006) e em 2004 obteve, com Los ojos ya deshechos, menção honrosa no Premio Regional de Poesía Carmen Alardín. Sua obra foi traduzida ao inglês, francês e português. Os poemas aqui publicados são do livro O entranhável costume ou El livro de Felipe, publicado por Mantis Editores e Selo Sebastião Grifo.

CONVERSÃO SEM HERÓIS Cansa-se das máscaras descascadas, dos relógios defasados; da hora em que algum homem insistente - quase ridiculamente - em que não deixará de ser menino. Então aprendem-se canções de ninar apenas para - chegado o momento - ser o cais ao qual se aferre aquele infante que extraviou seus heróis, mas ganhou a sorte imperceptível de transformar-se em homem. Por isso menti quando lhe assegurei não ter vícios: aquela noite, em seu berço, começaram os meus melhores vícios.

CONVERSIÓN SIN HÉROES Uno se cansa de las máscaras descascaradas, de los relojes desfasados, de la hora en que algún hombre insiste - casi ridiculamente - en que no dejará de ser niño. Entonces aprende uno canciones de dormir nada más para - llegado el momento - ser el muelle al que se aferre aquel infante que extravió a sus héroes, pero ganó la dicha imperceptible de convertirse en hombre. Por eso le mentí cuando aseguré no tener vicios: aquella noche, en su cuna, empezaron mis mejores adicciones.

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NÃO DEVO DEIXAR DE ESCREVER SEU NOME Já disse que em minha caixa de felino carregava antes de você a inquietude de uma centena de formigas. Agora falta dizer que reprovei em matemática no bacharelado e não entendi jamais a utilidade das operações bio-químico-físicas; que jamais acreditei nos astros como não fosse por chorar a inutilidade que rege o ser humano. Mas me faltaria dizer que o papel mais exato da terra é aquele sobre o qual se desliza o nome de Filipe, um universo que deve repetir-se em todos os planos que resistam os ligamentos da mão: não devo deixar de escrever seu nome / (não devo deixar de escrever seu nome / não devo deixar de escrever seu nome / não devo deixar de escrever seu nome / não devo deixar de escrever seu nome / não devo deixar de escrever seu nome / não devo deixar de escrever seu nome / et cetera). Sim: o desenho físico do universo concretizou a perfeição das aranhas quando teceu a rede - matemática pura para que meus versos mais distantes não encontrassem proximidade a não ser em volta dos seus fossos. Na última investida, antes que deus se soubesse derrotado pela semelhança mais perfeita de seu sonho - o homem de seu nome -, me falta nada mais dizer que não faz falta vela para nenhum regresso e sepultei minhas moedas reservadas a Caronte; que bastam seus olhos de origami para nele dobrar todas as constelações ao longo e ao largo do zodíaco; que não tudo dá volta porque é você o múltiplo perfeito de deus.

NO DEBO DEJAR DE ESCRIBIR SU NOMBRE Ya dije que en mi caja de felino cargaba antes de usted la inquietud de un centenar de hormigas. Ahora falta decir que reprobé matemáticas en el bachillerato y no entendí jamás la utilidad de las operaciones bio-químico-físicas; que jamás creí en los astros como no fuera por llorar la inutilidad que rige al ser humano. Pero me faltaría decir que el papel más exacto de la tierra es aquel sobre el cual se desliza el nombre de Felipe, un universo que debe repetirse en todas las planas que resistan los ligamentos de la mano: no debo dejar de escribir su nombre / (no debo dejar de escribir su nombre / no debo dejar de escribir su nombre / no debo dejar de escribir su nombre / no debo dejar de escribir su nombre / no debo dejar de escribir su nombre / no debo dejar de escribir su nombre / etcétera). Sí: el diseño físico del universo concretó la perfección de las arañas cuando tejió la red - matemática pura para que mis versos más distantes no encontraran cercanía sino en torno a sus fosos. En la última embestida, antes de que dios se supiera derrotado por la semejanza más perfecta de su sueño - el hombre de su nombre -, me falta nada más decir que no hace falta vela para ningún regreso y he sepultado mis monedas reservadas a Caronte; que bastan sus ojos de origami para doblar en él todas las constelaciones a lo largo y ancho del zodiaco; que no todo da vuelta porque es usted el múltiplo perfecto de dios.

(Tradução: Fábio Aristimunho Vargas) Celuzlose 03 - Dezembro 2009 39


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Luis Armenta Malpica É poeta, tradutor e diretor da Mantis editores. Autor de treze livros de poemas publicados: Voluntad de la luz, Des(as)cendencia, Ebriedad de Dios, Luz de los otros, Ciertos milagros laicos, Mundo Nuevo, mar siguiente, Sangrial e El cielo más líquido, entre outros. Livros e poemas de sua autoria foram traduzidos para o inglês, francês, alemão, italiano, catalão, romeno, português, árabe e russo. Ganhador de prêmios nacionais e internacionais de poesia, conto e romance, entre os quais se destacam Efraín Huerta, Ramón López Velarde, Benemérito de América, Alí Chumacero, Amado Nervo, de San Roman e Ibero americano de Poesia Continentes. Ex-prêmio de poesia Aguascalientes, em 1996. Pelo seu trabalho editorial recebeu a Pluma de Plata, em 2006. Os poemas aqui publicados fazem parte do livro O céu mais líquido, editado por Mantis Editores e Selo Sebastião Grifo.

[tentação inicial]

Bem nos cai o café sobre a mesa o aroma em silêncio alarga o sorriso que esboçamos juntos e de noite deixa cair três gotas sobre a luz já seca. Cravo no botão ou rosa no decote dá no mesmo se ambos compartilham a terra sob o sonho: porque o melhor amigo pendura tua calça quando a blusa explode e são outros sapatos os últimos a ocultar seu assombro sob a cama com zelo.

[tentación inicial] Bien nos sienta el café sobre la mesa el aroma a silencio alarga la sonrisa que nos pusimos juntos y de noche deja caer tres gotas sobre la luz ya seca.

Faz-se sua vontade (não aqui não agora) como na luz o dia.

Clavel en el ojal o rosa en el escote da lo mismo si ambos comparten tierra bajo el sueño: porque el mejor amigo cuelga tu pantalón cuando la blusa explota y son otros zapatos los últimos en ocultar su asombro bajo la cama en celo.

Mais valeria dormir já separados do que em sonhos se une porque só a música guarda perfeitamente as lembranças.

Hágase su voluntad (no aquí no ahora) como en la luz el día. Mas valiera dormir ya separados de lo que en sueños se une porque solo la música guarda bien los recuerdos.

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[música de fundo] O certo é que chove. Pensamento ou liturgia, o certo é que chove. Gonzalo Rojas

A água veio a mim como uma galinha entra em casa alheia: pela fresta - suja - até o saguão do pátio à cozinha à sala ao quarto: encharcando as colchas levantando as cadeiras apagando as velas. Foi tanto o percorrido que há lodo nas minhas pupilas. Também molhou o sítio da minha avô (dura-máter, quarenta, os vales da lembrança) e alguma partitura - catedral submersa que então me agradava. Era um chover tão profundo como nunca havia visto. Assim é chover em mim uma água milagrosa que não tinha me molhado E me afogaria. Mas se se deve morrer (uma vez que se deve morrer ao que parece) faleçamos de amor pelo que somos em todas as direções contra todos de raiva e de loucura faleçamos de pé, como as árvores faleçamos de luz e sem baixar a vista.

[música de fondo] Lo cierto es que llueve. Pensamiento o liturgia, lo cierto es que llueve. Gonzalo Rojas El agua vino a mí como entra una gallina en casa ajena: por la rendija súcia - hasta el zaguán del patio a la cocina la sala el dormitorio: encharcando las colchas levantando las sillas apagando las velas. Fue tanto lo que anduvo que hay lodo en mis pupilas. También mojó la finca de mi abuela (duramadre cuarenta, los valles del recuerdo) y alguna partitura - catedral sumergida que entonces me agradaba. Era un llover tan hondo como nunca había visto. Así es llover en mí un agua milagrosa que no me había mojado. Y me ahogaría. Pero si hay que morir (puesto que hay que morir según parece) fallezcamos de amor por lo que somos en todas direcciones contra todos de rabia y de locura fallezcamos de pie, como los árboles fallezcamos de luz y sin bajar la vista.

(Tradução: Paulo Ferraz) Celuzlose 03 - Dezembro 2009 41


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Nasceu em Vila Nova de Famalicão, Portugal. Coordenador de uma Academia de Motricidade-Humana. Poeta e ensaísta, suas obras são: O périplo do cacho (1998), O outro (1999), Lorosa´e Boca de Sândalo (2001), O externo tatuado da visão (2002), O murmúrio livre do pássaro (2003), Embarcações (2004), A singradura do capinador (2005), Hangares do Vendaval (2007), As processionárias (2008), Roberto Piva e Francisco dos Santos: na sacralidade do deserto, na autofagia idiomáticapictórica, no êxtase místico e na violenta condição humana (2008), KORSO (2009) estes últimos em edições brasileiras. Seu livro de prosa intitula-se Entre nós (2000), ano em que recebeu o Prêmio de Literatura Poeta Júlio Brandão. Participou em vários encontros internacionais de literatura e possui textos publicados em diversas revistas de literatura no Brasil, Espanha e em Portugal, além de outros trabalhos traduzidos em língua espanhola e catalão. Responsável por uma coleção de poesia contemporânea Brasileira na Editora Cosmorama.

7 - O abdómen-do-corvo (ou O prestidigitador) da desobediência das engrenagens do sopro côa-se um intercalar de nomes, o funcionamento giratório dos cristais sobre a terra branca, as transparências-das-soldaduras-inomináveis, os rastos em gravitação dos esgrimistas, as iluminações-dos-fluídos-dos-instrumentos-arteriais, o combustível interminável do idioma zoológico, a prancha dos sulcos das ENCRUZILHADAS, as membranas enigmáticas/jubilatórias dos hortos alimentares, as luzes acolhedoras dos golpes dos ciscos das moradas, as probabilidades dos voos nas células epidérmicas dos historiadores. As propulsões dos mantos organizam a significação rigorosa dos minerais como uma ocupação de labaredas abismadas/fecundas a segredarem e a resguardarem os cotovelos inspiradores do chão-dos-lírios (anémona de cobre ondulatório investigada pela infidelidade primordial dos aerólitos): desfloração exactorial dos astros destinguida entre a delirante rugosidade das circunstâncias geográficas que complementam as sílabas irreversíveis dos tambores celestes (rolantes iluminações subterrâneas: deflagração veloz da profundidade salina) _____ os núcleos de calores bifurcados respondem pressurosamente às aparelhagens instintivas das fronteiras inominadas/aterradoras que evidenciam as concordâncias dos cepos dos corredores engolfados: desassossego nos ofícios aglomerados das luras: translação do enfarte das lâmpadas na capital dos aguaceiros: os pavios das feitiçarias desanuviam a voluptuosidade dos cestos das escamas-dos-autocarros: retratos a tropeçarem exilados nas narrativas das clareiras imprevistas: a obliquidade-comburente das reentrâncias é inundada pelos prodígios oscilantes: as cortinas das hienas geométricas (as bicicletas-do-aguaceiro) circundam os relâmpagos dos animais balsamizados/minados entre a pausa exausta do matadouro fantasmagórico:________ a armadilha arquitectónica encaracola-se nos mergulhos das anexações terrestres e as frequências dos sentidos das quilhas circunvagam na contradança do sol-do-esquecimento (raios inarticuláveis a metaforizarem a equação do hálito das fissuras da antiguidade entre as ciladas evadidas do húmus dos ângulos dos ilusionistas como um assalto de luzes renovadas a contornarem o bastião das astronómicas sardas das vulvas: magníficas geografias a reconciliarem os cofres das romarias das primorosas árvores:_____ o sangue embriagador da herança dos morcegos sobe pelas pérolas intraduzíveis da terra e as graciosíssimas abelhas dos espelhos cerram-se selvaticamente nas zonas-dos-estúdios-das-translações (paisagens tumefactas a entontecerem as constelações com os delírios dos seus alvélolos interiores): embocaduras das cesarianas a desarrumarem os lábios invioláveis/gravitacionais da perseguição altíssima da placenta: o sopro talhador ferve/restaura/remexe a inclinação alegórica da gema anatómica da pinhal-de-sal (estrangulamento da fundura da casa sazonada a lacerar a frutificação circulatória: os excrementos da letargia são trilhados/forrageados pela concha-garganta sibilante da biomassa magnetizada): 42 Celuzlose 03 - Dezembro 2009


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mármores, locomotivas, mandíbulam, _________ o fulgor do halo-da-virgulação espreita as braçadas do arado puro a exaltar-se no reservatório baptismal das ervas: esta consequência das transfusões dos aresdas-corujas cicatriza o esplendor dos flancos-dos-relâmpagos-polares ao reconhecerem as asas d'água dos respiradouros (épocas dos favos translúcidos e incompassíveis): o repouso das bocas planetárias concentra a visão-da-sentença-do-mundo que esplende na decomposição das uvas ciclónicas: combustão dos debulhadores das proas selvagens (as glândulas dos batuques): o fogo da respiração regressa às geografias infusas das ancas-asteróides como o fio do pisco-de-peito-ruivo nas gigantescas maçãs a salvar as cavidades dos enxames de terra: eixos das lunações a aliviarem a consistência dos uivos das placentas solares (marfim das serrações do vazio): as substâncias tacteantes das janelas desamarram as encruzilhadas das infâncias: prolongamento dos heliótropos das gargantas sobre as laranjeiras esqueléticas da praia-das-HIPÁLAGES e os vasos espasmódicos das circulações oceânicas levantam-se nos compêndios das bebedeiras das olariasdo-fim-da-tarde (os batimentos das velas em diagonal são intransmissíveis): ________________ os vidros separadores do fundo atlântico emolduram as adufeiras-climatólogas nas estremaduras das cadências neonatologistas (órgãos arteriais de raras melodias): os pássaros-dos-arquipélagos aspiram o equilíbrio dos halos biorrítmicos dos pesquisadores-de-fissuras-de-radares: o estrondo das redes crepusculares ressurge nos reversos da papoila negra e os traços dos pulmões ultrapassam a cicatriz circulatória dos bolseiros-do-oceanário que coarctam os refluxos das sedas fotográficas entre os pórticos dos insectos azuis (anéis-das-garras topográficas ramificados na língua das atmosferas inextinguíveis): as sementes das cadências dos subúrbios alastram os aromas dos mamíferos intertextuais (intérpretes de lâmpadas-rituais-meridionais entre as giravoltas dos subjugadores de aurífices): invasora incomunicabilidade a cativar os jactos dos cetáceos e as aldeiaslíquidas são sincronizadas pela boca-folhagem das bússolas milenares: dominações planeadas pelo arrebatamento gigantesco das máscaras-dos-cavalos-das-constelações. Cosmologias dos percursos dos astrolábios-vaticinadores: as sobrevivências memorialistas desordenam as sacudiduras dos esquadroscontraluz do húmus das bermas aleatoriamente inchados ao conjugarem as fisgas do firmamento com as medulas-solares dominadoras dos maxilares dos bailarinos (acumulação de revestimentos-graffite entre as breves gerações das investigadoras terrestres que emendam a multiplicidade solene/sibilante das curandeiras (___ balouços dos cânticos antárticos ___) ao longo da adrenalina dos ombros-dos-auditórios os predadores conquistam o estuário do silêncio os murmúrios-mostradores das dinastias das mós homeopáticas (chama-carbúnculo-das-posições-do-receituário-ciclópico ao triunfo das simulações dos ecossistemas citadinos) aerossóis nas zonas de subducção (os pavilhões FRENÉTICOS dos touros-da erosão-hermafrodita manipulam as cabines do medo rolante quando exalam os efeitos de estufa nos íntimos ferry-canalizadores-do-restolho lunático onde a destreza incandescente do espólio das víboras alinha as obstetras soberanas do mistério às influências científicas da adversidade) (mimetismo dos utensílios a protagonizar a disponibilidade do gancho de fogo) mercúrio da transparência entricheirado nos bastidores dos andamentos: os vimes-órbitais a rendilharem o alcance mais espreguiçado dos bichos-da-marcha-solar: ________ a vela engrinaldada de borboletas é adquirida pelos cumes-da-fertilidade-dos-estaleiros (traços dos dobramentos geológicos): monitorização-das-trovoadas: (consumação dos movimentos verticais do solo) as personagens adaptáveis da locomotiva corcovam-se na coincidência das aspas-aborígenes-dos-pavões perguntadores dos cata-ventos imperecíveis: (bailarinas construtoras das amostras dos termómetros dos corações imperiais): aqui os fenómenos meteorológicos dissolvem o ferrolho eléctrico dos pássaros sobre as manobras duradouras das confidências do OLHO-DA-TEMPESTADE E O RADIADOR amadurece os sinais beligerantes dos terrenos-da-septicemia onde as laminações desenfreadas dos fluxos migratórios pontilham as jardasenguias do (silêncio). Catástrofe-nas-estagnações-dos-hemisférios. As consequências extasiadas das pálpebras-aeronáuticas localizam os desígnios das transgressões dos coágulos-da-madeira porque metralham os circuitos dos caracóis das jangadas-de-ferro (compêndio das raízes iluminados pelas queimaduras dos touros): estratagemas equivalentes às ataduras-cartazes das luminárias que estrangulam as sendas dos microcosmos e os espadachins dos forasteiros abismados perdem as estrofes dos contactos visuais: os passaportes órfãos das sentenças-dos-enxertos transpõem o caule-pulmonar da caverna das águas para listrarem o coral gesticulante das noras: giro auricular a regressar à desfloração dos comboios fantasmagóricos (ou uma hélice-de-utensílios a sucumbir no barítonos dos sismos): a manifestação do voodas-turbinas irisa as arribações entrelaçadas de águas mordedoras de lâmpadas-terrestres e as sonâmbulas supercélulas repetem-se na matéria telefónica do alvor para drenarem a adstringência do meridiano duma boca-galopada-por-outra-boca-abrasada: garganta da mente a derramar-se como a fábula da consequência-do-chão resgatada às tumescências do desfloramento das tocadoras temporais: as arestas febris largam as pontes inaudíveis das ruas nas estrelas periodicamente desvairadas como as noivas-de-lava nos enxames memoriais que abandonam as parteiras prisioneiras em salitres florescentes para sorverem a claridade instantânea das barragens geológicas: rotação prodigiosa do vocabulário-das-estações que urdem o farol da infindável abertura dos mapas da metalização-animal Celuzlose 03 - Dezembro 2009 43


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Crítico

por Lau Siqueira

A poesia que vem sendo produzida nesses tempos de blogs, sites, orkut e twitter começa a revelar características muito particulares. A internet desencadeou um processo que ainda está em fase de assimilação pelos pensadores da história e da teoria literária do nosso tempo. A princípio, havia uma inexplicável desconfiança e um parcial desinteresse em relação a esses meios por parte significativa dos escritores. Muito especialmente pelos poetas. Nos primeiros momentos houve uma tentativa de desqualificar esta produção. Como se a facilidade de veiculação e a interatividade da internet somente permitisse a divulgação de poetas de águas rasas. Certamente que havia um fundo de verdade nisso todo. A internet servia e ainda serve para divulgar muita coisa de qualidade bastante duvidosa. Nos primórdios da rede, as desconfianças eram muitas e a mitificação da nova mídia nos remetia sempre às reflexões de Umberto Eco e seus apocalípticos e integrados. Em pleno agosto de 2009, me pego pensando nisso em frente ao meu computador. Naturalmente, com uma necessidade enorme de compreender esse processo e refletir um pouco sobre a influência que essa verdadeira revolução nas mídias tradicionais possa ter provocado não apenas na forma de divulgação da poesia, mas também e principalmente nas perspectivas para a construção de uma nova linguagem para a poesia. A verdade é que o virtual passou a se aproximar com maior intensidade do cotidiano, confundindo-se com ele exatamente através da escrita. Para Pierre Levy, “a tela informática é uma nova 'máquina de ler' o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor particular. Toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular.” Segundo o próprio Levy, seria um erro fatal considerar o computador apenas uma máquina de escrever e de ler. Existe toda uma cultura sendo formulada através dessa nova forma de conhecimento. 44 Celuzlose 03 - Dezembro 2009


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Crítico

Na verdade o que se pode perceber é que no meio de um lixo acumulado e natural, produzido por milhões de seres humanos sedentos de expressar publicamente suas angústias (e confundindo isso com poesia, tantas vezes) foi transbordando uma poesia de qualidade, densa, amparada no respeito às tradições, mas também sem medo de experimentar e não ser exatamente como o que já se dava por estabelecido na circunstância poética brasileira e pelo mundo afora. Para desmistificar esse rolo compressor inicial, eu pergunto: que mal faz um mau poeta ao escrever versos ruins? Ou que mal há, por exemplo, em publicá-los nos sites e nas ainda existentes listas de discussões sobre literatura e poesia? Certamente que nenhum. O bom leitor haverá de saber selecionar os bons textos. Há, com certeza, uma seleção natural e os poetas, sejam eles novos ou já reconhecidos, foram e continuam sendo naturalmente peneirados. Agora não mais pelos cânones e pela crítica fardada. Quem começa a dar as cartas é, também, esse mau poeta que, muitas vezes, acaba sendo um bom leitor. Podemos observar com certa clareza que existe um fato novo na poesia contemporânea que precisa ser analisado com maior profundidade. Os poetas que foram surgindo, muito especialmente após o início do século XXI, são poetas que também são leitores da poesia que circula na rede. Isso gerou algo extraordinário, pois aniquilou as “verdades absolutas”. Ser louvado publicamente por A ou B possuía um valor inestimável que hoje já começa a gerar profundas dúvidas. Não que isso tenha aniquilado a crítica. Muito pelo contrário. Agora basta ter um blog para que o exercício da crítica possa receber as atenções devidas. Ou seja, em tempos de capitalismo selvagem, aumentou a concorrência e só se estabelece quem tem competência. Até mesmo a pseudocrítica peçonhenta ganha a oportunidade de trocar de pele, de se renovar. Poetas que nunca publicaram um livro impresso ou mesmo os que somente conseguiam publicar edições com distribuição regional, passaram a disputar palmo a palmo os espaços e as atenções dos críticos e leitores do país e do mundo. Uma disputa que os coloca em pé de igualdade com nomes que vinham sendo incensados de forma pouco justificada pela mídia burguesa. Tanta vez pagando caro para ter livros distribuídos nacionalmente (com pouca racionalidade) pelas grandes redes de distribuição. Celuzlose 03 - Dezembro 2009 45


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Agora as coisas estão em maior ou menor escala, no mesmo ponto de partida. Passamos a perceber o surgimento de poetas que são, na verdade, leitores e leitoras da produção poética de ilustres desconhecidos que abundam na rede. Com alguma qualidade alguns, com muita qualidade uns poucos e uma grande maioria com pouca qualidade. Ainda valem, logicamente, as indicações dos grandes mestres. Essa nova lógica não exclui a tradição. No entanto, naturalmente, cada um de nós foi tecendo as próprias leituras e com elas infringindo todos os códigos do comodismo pálido de uma cultura acadêmica dominante. Tudo precisou ser novamente observado, analisado, pesquisado e, finalmente digerido por todos. É claro que isso não determina o fim da cultura acadêmica, mas certamente que a coloca na obrigatoriedade de refletir sobre ela mesma. No ensaio “Poesia nova - uma épica do instante”, em “O poeta e a consciência crítica” (Editora Perspectiva - SP, 2008), Affonso Ávila escreve um pouco sobre tudo isso. Segundo ele, “a situação atual da poesia no Brasil reflete, entre afirmações criadoras e perplexidades críticas, a mudança radical de concepção do fato poético que, nos últimos dez anos, se operou em nosso país. Essa transformação, intimamente vinculada à modificação mais abrangente das estruturas de conscientização de nosso povo, não se restringiu a um fenômeno de linguagem como parecerá à primeira vista. Suas implicações são mais profundas e traduzem, simultaneamente, uma nova atitude do poeta diante da realidade que suscita o ato criador e a adequação do seu instrumento ao imperativo das modernas técnicas de comunicação”. Além de ser uma das mais representativas expressões da arte de vanguarda no Brasil, Affonso Ávila nos remete a reflexões que certamente deverão retorcer os ferros da crítica tradicional, mesmo aquela que usa a internet não como um poderoso instrumento interativo, mas como mais um veículo para difusão de uma tendência da “política literária”. Todavia, lamentavelmente, abrindo mão de receber a imensa carga de informações da novíssima produção poética e crítica que aflora também a partir das universidades, embora extrapolando limites geográficos e metodológicos.

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A nova poesia, portanto, passou a contar não apenas com a sua natural evolução a partir da perda total do controle das informações pelos “babalorixás”, mas também com a análise lúcida de pensadores e teóricos da poesia que, na verdade, sempre estiveram mergulhados para muito além do nosso tempo. Como Affonso Ávila, Amador Ribeiro Neto, Anelito de Oliveira e outros poucos que sabem que a poesia não sobreviveria se todos os olhares estivessem fixados no passado. Aqui na Paraíba, por exemplo, existem “doutores” que se negam a reconhecer inclusive a produção literária do século XX. Isso me faz ter dúvidas acerca do mau cheiro exalado pelos banheiros do CCHLA. Seriam necrotérios? Infelizmente, boa parte dos estudiosos da poesia não passa de funcionários públicos preguiçosos que não ousam sequer realizar uma única leitura consequente da evolução da linguagem poética. Para eles, a cena atual não existe. Triste dos que pensam assim. Morreram para um mundo que os torna naturalmente desnecessários. O que se conclui é que a nova poesia é leitora dela própria. Pratica naturalmente a antropofagia oswaldiana que designou os destinos de um modernismo que não estancou na semana de 22. A nova poesia foi beber nos mestres, certamente. Mas, não cometeu o suicídio de desconhecer o surgimento de novos horizontes a partir das janelas abertas pelo futurismo deflagrado no final do século XIX, pelas vanguardas. O caminho é continuar experimentando, arriscando, buscando compreender o presente. Traduzindo de forma mais apurada as ideias de José Paulo Paes: “somente não envelhece o que já nasceu velho”.

Lau Siqueira nasceu em Jaguarão (RS), 1957 e atualmente vive na Paraíba. Livros publicados: O comício das veias (junto a Joana Belarmino - Editora Idéia, 1993), O guardador de sorrisos (Editorial Trema, 1998), Sem meias palavras (Editora Idéia, 2002), Texto Sentido (Edições Bagaço, 2007). Blogs: http://poesia-sim-poesia.blogspot.com e http://lau-siqueira.blogspot.com

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Um livro sem fim por Reynaldo Jiménez

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Catatau de Paulo Leminski é daqueles livros que ao transformar a concepção do literário, propõem novas formas de leitura. Por seu poder conectivo no verbal e no semântico, sua força de arrasto é a do magma: gestação em um caos que não inibe o leitor mas que o impulsiona a navegar, a ser navegado pela linguagem de uma insurgência que surge com absoluta precisão. A mais alta precisão é aquela que alcança um tal grau de polivalência significativa que transforma toda noção previamente assimilada, todo significado em seu repouso, toda sintaxe prefixada a seu referente, todo referente e todo sujeito. Plante uma bananeira, nó na bandeira, pensei que me perseguiam cavando meu esconderijo, me queriam para festejar entre os estranhos - as imagens dos meus amigos - os santinhos. Pradizo nos hortos dóxios, paradescos. Maltratado que nem cavalo de exu, apanha mais que cachorro de bugre, mais bem apanhado que arara caída do pau! Mãos postas: palma colada na palma, dando por encerrado o ciclo de braços abertos que culminou como a cálculo o quanto mais pequeno do peixe imune à pesca! Fecha o circuito, dobra-ser o ser sobre si mesmo, concentrando os fluxos da substância de sua natureza. Solutio continuitatis: fálsia modéstia pérsia. Pentadáctilo pedalando o dédalo do pélago com mão polidígita: arcanos noéticos! Sede, chave que abre a fonte! A erva embala e embota, desboleta, a árvore resvala e resbotalha: bancalhota, erva maior. Sentimentério, chiguágua! Te valho como intérprete, médico de crises incomprensórias, sábado de uma semana de desentendenças, como quem serve de ponte num exército de rios, assim de molde a levantar as suspeitas de todos os coretos da paróquia, desfios dos quaresmáticos, o carreirista desabalado! Só se for pavor!

A linguagem no Catatau é o verdadeiro personagem da literatura. Literatura que volta a ser na medida em que se abandona uma noção estabelecida para iniciar essa aventura que é o mito, quando, nas palavras de Lezama (cito de memória) “a imagem é um mito compartilhado e o mito, uma imagem que inicia sua aventura”. O in(d)ício nada fortuito é uma reflexão situada, falando sobre a condição americana, da indagação por uma linguagem: não a pergunta (retórica) por uma linguagem (equivalente a grandiloquente pergunta por um deus) mas a conversão de toda linguagem adquirida em pergunta viva (em si mesma sagrada, veículo de um deus, onde cada palavra designa um de seus aspectos).

1. Durante a escrita deste texto se teve em conta a segunda edição de Catatau: Editora Sulina, Porto Alegre, 1989. A terceira edição, crítica e anotada, é da Travessa dos Editores, Curitiba, 2004 (ao cuidado da poeta e artista visual Jussara Salazar, dado que não está na edição) com apresentação de Décio Pignatari, que aponta: “Paulo Leminski como que seguiu à risca o libreto do seu destino inscrito na palavra catatau, que quer dizer, a um só tempo, pequeno e grande. Primeiro, fez o grande, o difícil, o vertical - esta obra que lhe tomou oito anos de dedicação, fervor e sofrimento. Saído do deslumbrante inferno criativo, voltou à superfície para rever as estrelas, tal anti-Eurídice a chamado de Orfeu: inferno, nunca mais! E pôs-se, com gosto e desenvoltura, a realizar a segunda parte de sua missão, a tarefa propriamente poética, que lhe trouxe a merecida fama e o imerecido e cruel julgamento existencial dos fatos. Possa este mapa, que não queria ver cartografado, levar e elevar o seu Catatau aos campos elíseos literários do que de mais instigante e original se prodiziu no passado século brasileiro”.

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Paulo Leminski escreveu esse livro indômito com o qual inicia a sequência de suas publicações e nada do que produziu depois foi parecido com Catatau. Digo isto sem o propósito de desqualificar os outros aspectos de sua escritura - complementares, na realidade, do grande vazio que esse livro gera ao seu redor - sujeito (mais que objeto, mais que objeção explícita, explicitação dos meios de escrita favorável a uma conotação impregnante, de fecundar a linguagem com a energia de um cosmos convertido em perguntas). Porém, Catatau obriga a forçar a vista, a percepção deve imbuir-se com o poderoso minimalismo que movimenta, por dentro e por fora, as (quase) infinitas variações desta selva. A selva é minimal em sua proliferação: cada matiz ilumina um mesmo movimento. A dança da linguagem é o pensamento silábico, a condição rítmica da origem, a exploração de um novo sentido nunca explicitado, nunca definitivo. A linguagem anima a sua América e nos corresponde, no entanto, repensa, artisticamente, como poucas vezes foi visto, o fato de estar aqui, de ser isto, sem nome fixo, sem possuir mais que a atenção do que é percebido. O questionamento à lógica cartesiana é o óbvio ponto de partida, porém, à maneira dos antigos navegantes, não há ponto de chegada, a nova terra não pode ser totalmente conquistada: ela enfeitiça, ela provoca o efeito de uma devoração. As Índias Ocidentais são a miragem de uma consciência devorada por seus projetos, a projeção de um terror não resolvido na cultura que conquista, um terror arcaico ao Outro que ressurge apenas ao transpor o mare nostrum. Tão logo se pisa no solo imaculado, saltam regiões da mente que se projetam no mapa. Os mapas da mente ficam absortos na paisagem e a paisagem é uma série composta de mudanças, de ritos de passagem, de linguagem adulterada como se fosse líquida, mas no sentido da lava, do coalho, do olhar arrancado de sua abstração por uma concretude sem limites, por empenho da matéria. América é o corpo que o sujeito cartesiano perde em sua ideia de si, seu solipsismo justificador de toda atitude imperial, possesso de ansiedade por possuir a terra, as riquezas da terra, a terra convertida em mundo, olhar, extensão do olhar. América em Catatau oferece a palavra, à maneira de um fungo poderoso, ou, na realidade, a palavra recobra o dom inventivo, viaja nos interstícios e sequelas do nomear. Pensamento, então, implicaria também permitir que a palavra, através da linguagem, fale por/para nós: o texto é um medium para quem quiser oferecerlhe a sua própria voz, já que uma vez e outra Catatau parece chamar a leitura em voz alta e propor a circunavegação do sentido. O dia não faz outra coisa, um hiato afasta a hipótese, o silêncio tem uníssono, é quase nada, um isso, - se não fosse a febre que sabe. De tudo sempre sabem todos: afastando o alvitre de um lapso, vacilam os fundamentos. Um mar, - só que ao contrário; um som que ninguém sabe donde, espelho não erra. Observem exatamente: na Pérsia, isso é comum. As festas persas giram em torno disso mesmo. Todo nome de boi começa a guerra; incentivá-las por todos os lados! Meu nome - nem a penapau! Guerra a ferro, e fogo na festa! Cangacanjica! A flecha atinge Aquiles decerto mas na máscara, o que é outro caso. O espelho reflete tanto a guerra como a festa, não tendo estilo. Uma cobra dá um salto contra o espelho e cai no meio da festa. De quem é, de quem não é, nisso - o exército persa dança. Caso singular: ninguém na Pérsia sabe dançar embora dancem da manhã à noite. Elamentabilis! No axiomanexim, a exegese: quem usa máscara descarece de espelho. O espelho prejudica a dança, olhe nos outros, neles se reflita. Dentro da dança persa, tem um gesto como um soco, um pulo de gato no escuro e um grito de socorro. Baccha bacchans! Ignora-se o autor mas devia ser muito velho a julgar porque é uma dança muito minuciosa em malícias. Próprio dos tigres: não fazer força, feder basta. Gansogingrivit! Que flecha é aquela no calcanhar daquilo? Picatacapau! Pela pena é persa, pela precisão do tiro - um mestre. Ora os mestres persas são sempre velhos. E mestre, persa e velho só pode ser Artaxerxes ou um irmão, ou um amigo, ou discípulo ou então simplesmente alguém que passava e atirou por despautério num momento gaudério de distração. Flecha se atira em movimento, ninguém está parado. Nem o cavalo, nem o cavaleiro; nem a mente, nem a mão; nem o arco, nem a flecha, e o alvo o vento leva: tiro certo. Dentiscalpium in oculo. Todo teu lado direito puxa a linha, todo o esquerdo segura a flecha. Spes! Tiro feito, volta-se à unidade perdida. Mas arcos atrás isso não é coisa que se diga, que se faça, arqueiro pouco diz. Cala-se, de hábito, porque ignora tudo na arte em que é exímio.

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Além dos gêneros, alcança a invenção, além do preconceito literário. Além da linha, além do tempo linear, instala entradas e saídas ao impossível: a completude sempre insatisfeita, porém, em uma estranha mescla que faz da leitura de Catatau um impregnarse no osso do verbal. Leitura rima com aventura: Catatau é o canto de um pássaro escuro que se esconde nas folhas e nos pêlos do animal eriçado, o feitiço do pássaro na garganta de quem se atreve a pôr sua voz no que é desdito. Já que é o livro quem conduz a voz, quase diríamos que a impulsiona, para novas epifanias ou milagres que são apenas perceptíveis e logo então superados (ultrapassam as vozes) pelos seguintes. Incessante microscopia, sílaba a sílaba, a poesia recupera o canal mediúnico, porém, nesta longa permanência na inspiração, no inspirador, nesta meditação não-cartesiana da língua favorável a uma linguagem (americana?) ressurge a insurgência do magma, do inconsciente coletivo e a dimensão mítica na encantação que se provoca. Provocação à essência da língua no sentido de tocar a visão, de alterar a percepção e o espaço-tempo da língua. Que língua? Aqui se transferem e acrescentam - maceradas nos jogos da linguagem - as feridas apontadas à percepção, ao peso material da palavra, à possibilidade de que esta contenha, todavia, uma certa verdade. Minúscula essa verdade, na medida do gesto humano, irmão e mútuo daquilo que a linguagem guarda, cápsula anímica e vívida, contração da cauda do caranguejo que parece retroceder mas avança ou, ao menos, se move sem eira nem beira, em uma recordação da ressonância, no livro aquático que despensa ao sujeito e o faz circular como se fosse no ácido, mas vivificado por suas ciladas de caçador na floresta. O caçador não se esconde: está exposto. Fala performática, a escrita dissolve toda prisão e sua realidade acrescentada se faz capaz de envolver e assim ampliar toda a série de supostas realidades últimas. A maturidade do moderno entendida como ceticismo, o progresso assumido como imóvel disparador até um futuro sempre espelhante, distante, a inteligência somente captada em seu papel ordenador (administrativo) ou hábil (a habilidade do bailarino mental ao contrário da dança que dissolve em seu seio aos que dançam), ficam aqui como mínima ondulação. O movimento traça os signos e a linguagem se faz mais rápida que a memória. Temos que aprender novamente a ler: Catatau. Adianto que não há bicho que eu entenda. Maior o olho, mais denso fica, o tamanduá se tamanduíza com toda a força: querendo captar sua verdade num piscar de olho e num cambiar de lente, apanhálo na primeira. Talvez, porém, não vale a pena. Nenhum vale um quadrado, um círculo, um zero. E a mim que me interessa? Daqui ao infinitamente grande ou ao infinitamente pequeno, a distância é a mesma, tanto faz, pouco me importuna. Ali canta a máquina-pássaro, ali pasta a máquina-anta: ali caga a máquina-bicho. Não sou máquina, não sou bicho, eu sou René Descartes, com a graça de Deus. Ao inteirar-me disso, estarei inteiro. Fui eu que fiz esse mato: saiam dele, pontes, fontes e melhoramentos, périplos bugres e povoados batavos. Eu expendo Pensamentos e eu extendo a Extensão! Pretendo a Extensão pura, sem a escória de vossos corações, sem o mênstruo desses monstros, sem as fezes dessas rezes, sem a besteira dessas teses, sem as bostas dessas bestas. Abaixo as metamorfoses desses bichos, - camaleões roubando a cor da pedra! Polvos no seco: no ovo quem deu antes no outro, uma asa na linha do galho ou um pulo em busca de agasalho? Não sabem o que fazer de si, insetos pegam a forma da folha; mimeses. E a forma? Coisas da vida! Vinde a mim, geometrias, figuras perfeitas, - Platão, abri o curral de arquétipos e protótipos; Formas geométricas, investi com vossas arestas únicas, ângulos impossíveis, fios invisíveis a olho nu, contra a besteira dessas bestas, seus queixos barbados, corpos retorcidos, bicos embaraçosos de explicar, chifres atrapalhados por mutações, olhos em rodela de cebola! Vinde círculos contra tamanduás, quadrados por tucanos, losangos verso tatus, benvindos! Meu engenho contra esses engenhos! A sede que some fede que fome! Falta-me realidade.

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Temos que seguir lendo. Temos que deixar que a leitura aconteça na vida e somente assim saber que se apaga. O autor é feiticeiro na conexão com o indômito, e, no entanto, crepitar invicto de meteoros que atinge o tênue véu da sensibilidade: se a memória é enganada, o engano tem graça, faz graça, deslumbra com um sorriso que se desconhecia. O leitor de Catatau nunca poderá chegar ao final do livro, lerá o final para acalmar a sede da chegada e nada haverá senão a sede daquele álcool que continua além do fumo, da perda do rumo e da devoração (ah, Oswald): posto que o sujeito escrutador culmina nos intestinos da paisagem - ao contrário de nossas cidades nas quais prevalece o terror ao não-humano ao menos que se mostre domesticado e arrancado da origem: um espelho de pobreza que resume a queda ou o colapso de um projeto cartesiano, entre outras coisas. O antropocentrismo canibal não é, todavia, a antropofagia de um projeto americano, porém, a América devora Lope de Aguirre que pretendia possuí-la em seu Eldorado e transtorna Alvar Núñez Cabeza de Vaca, que se fez xamã, curandeiro tribal e quase albino pela magia selvática que faz estanheza. As histórias dos conquistadores são a alucinação de uma lógica que, por fixar tanto os marcos, fica parada diante do abismo de quem não reconhece o espelho. Leminski elabora seu circuito mestiço, o sincretismo que implica antropofagia e devolução das moedas convertidas em fagulhas de uma guirlanda de sons e entonações. Porém, Leminski não apenas trafica palavras com a intenção de demonstrar a grandeza de sua escrita, mas é inegável que ele se deixou penetrar pela força do transpessoal neste relato descontínuo ao interior de um desencontro que é também uma espera (na medida em que Descartes, diálogo interno deste livro, ele mesmo, vê perdida toda esperança de manter o governo sobre “seu pensamento”). Força que transpõe o pessoal e deixa de ser veículo de autoexpressão ou de mera expressão de alguma ideia, de algum suporte virtual ou desejado e se expande em racemos de ressonâncias, no desfiar do ardor de toda Ariadne que se orgulha de estar perdida, de fato, por conta de um labirinto e pelo efeito do feitiço que o real é. Cada qual dá o quê? Você aí, que é que acha? Não acho; me abaixo. Aboio de bicho busca apoio em outro berro, vice-vira-serva-volta, a conviceversa não vai longe; salvanor, com perdão da má palavra, - eu! Ondem? Acá. Ora essa, e esta, então? Logo não houve jamais algum dia tal, for? Não sei se está, se não sei, quem sabe lá, eu sei aqui: antes de ser, pague ainda ouça que nem tudo é assisenhor. Conosco ou como os outros, isso sim é que é isso mesmo; se assim for, isto é, por mim, nunca: de vez em quando é tanto quanto mais puder, também faz tanto tempo que agora é só isso, por exemplo, já? Este país cheio de brilho e os bichos dentro do brilho é constelação de olhos de fera.

Não se poderia separar o emblema móvel deste poema que se postula ao infinito como uma somatória do indizível, do que não encontra definição, do que também não busca definição e do que segue perdido na noite da fala. Nas larvas da ruminação das falas que configuram uma fome específica e inesgotável. Fala de quem se afoga no que não pode recordar. A memória está ás portas de uma dúvida. É um umbral permanente que deixa um certo sabor acre na boca quando já foram lidas várias páginas, em qualquer parte do texto, até que um assomo de alteridade alcança seu arrebatamento e o leitor é tomado pela escritura babélica, joyceana e roseana, sim, carrolliana e tropicalista, sim, haroldiana e barroca, sim, mas rítmica em um sem fim de plantas, de percepções de palavras como órgãos, organismos e células na cela expandida do ar onde são sonadas.

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Temos que ler em voz alta apenas isso, a possibilidade de recordar que a palavra está esperando. Que não é encontrar o que chama, mas o chamado dessa chama voraz que dá a sede e se cumpre no desejo com grande maravilha de inconclusão para retornar à roda das mutações. Palavra mutante que não retrocede em seu papel de convocar, que emite percussão e melodia e ao mesmo tempo percorre as vias laterais do cérebro, habilitando-o a misturar seus hemisférios. A geometria é ritual e as devorações são uma estratégia para expandir a língua. A língua de quem? Ninguém é o autor de seu livro e, no entanto, aquele que assinara como Paulo Leminski segue invicto, passará muito tempo antes que possa ser decifrado. Catatau refuge ao mesmo tempo que se materializa. Inaugura uma nova resistência que perpetua as tentativas de expansão de outros (não tantos) anteriores ou paralelos; porém, para ler Leminski temos que perdê-lo, temos que saber que ele não é o autor mas o outro. Não por glosa borgiana apenas, mas pelo roçar contínuo que seu tratamento implica na língua. Nos envolvemos na leitura ou não podemos continuar. O livro se distancia, às vezes durante meses, mas retorna e desafia com a sua falta de fundo: já sabemos, ele nunca nos abandonará, a menos que o fogo ou o fim acabem com o livro. Este livro inteiro é uma conexão portátil, um buraco negro onde o roçar das ideias se conectam, a cabeça se faz eco, a força motriz ou inaugural da linguagem sobe pelas pernas, dança no compasso cíclico, as coisas fluem além de seu relato ou descrição. A luz matriz que ilumina os vocábulos por dentro, desde sua consciência concretista, por que não, conduz à rota de um propósito, um plano que, no entanto, é aventura, itinerário da alma transpassada à pessoa do texto, ao eu lírico que é um Descartes que perdeu seu sujeito cartesiano e se perdeu em um sem número de fábulas. A fábula intacta, anterior à língua, esse impulso neolítico que para Octavio Armand seria a arcaica atração pela poesia. O explorador se faz exploração; o corpo da letra é uma língua que canta, que para falar canta e se atem a uma atenção paralela, a uma segunda e terceira e quarta consciência, a uma simultaneidade (curiosamente não cubista) que, se bem, não anula o fluxo da fala, mas supera qualquer imitação de algum discurso. A voz escrita não grita nem silencia e, se percute na receptividade do leitor, o faz ao atravessar semanticamente os vários níveis de leitura. Nenhum discurso e, no entanto, todos os discursos: entrecruzar de falas, de habitats, de hábitos. Nenhuma centralidade e, no entanto, todas as excentricidades convertidas em eixos, em pontos axiais, em axilas de uma alma-besta em seu devir-escritura. Catatau: a linguagem é alucinógena e a alucinação em seu devir-escritura. A gente crê que lê mas é esse raro espelho da linguagem o que nos lê. Cifra-nos porque o texto escorre, se faz inexplicável, nada decifraria em suas páginas outra coisa que a coisa mesma e plena que o faz. Porém, há mais por trás ou por baixo das alucinações: há esse indício da visão, esse mostrar-se como em certas figuras tântricas (incluindo as précortesianas) da cabeça que nasce de seu próprio corpo, que é o corpo da deusa. Aqui a chamo: Incompletude. Aqui a clamo: Devoração.

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A duração de Catatau, não pelo volume mas pela proliferação de ressonâncias, parece calculada, parece sugerir que não será possível chegar à sensação de que o livro foi lido. Duplos ou triplos fundos, a dificuldade com as etimologias, a surpresa convertida em método: o caminho sem forma, sem o amadurecimento no resultado (claridade do mundo, delimitação do sentido) que pudesse, talvez, ser desejado. Não há ingerência do sujeito nesta sequência de inferências, senão a sequela de um rastro nas águas da língua. Naufragar era preciso porque toda precisão, sendo necessária, se abre ao ambíguo, ao multívoco, ao policêntrico. A percepção como uma cosmo-lógica (também a imersão numa paisagem, paisagem verbal, inaugurando uma topografia do indômito) se alinha com um desacato da escritura, tão prazeroso quanto tortuoso, tão arisco quanto suscitador de investigações. Neste aperto, foi-nos aperitivo um espantacibo, versão animal daquele princípio que mais não podia ser taxativo: tatuo que só sabe um tabique, etc. Calma, vamos aparecer. Paz? Vai haver. Tendo aparecido, irão aprazendo assim que estejermos prospiratas: vou carecendo de condições mínimas de estabilidade, de cuidados extras uma desatenção que ninguem deixou de cometer muito longe nos alhures. Henrique-se! O egrégio dolo, de enternecer pedras, entornar caldo, desnortear gato, ficou de parecer, de amargar, bom de lidar, o Artífice de cortesias a chapéu alienado! O tumor entorpece e o torpor entumesce, ensimesmando-nos. Já ia esquecer mas vai esquecer em outro olvidrório! Viesse permanecer, permana aqui, o melhor lugar para tal prática: as coisas não vêm oferecendo condições de jogo, nós estamos, não reclamem! Devagar vou estabelecendo meus recordes. Veio me estarrecendo o abuso mais assíduo entre os bandos destas platibandas: coisa não condiz, o fá da glote com as escabrosidades bemóis do fagote! Soa um apitite, afá para o fá, o acorde do povo, o tom de morte! Onde ouvi-lo aqui? Onde ouvi-lo aqui, ó permanecênides em geléia, ó partisão do parmesão? Angaria mais saber civil. Com a casa cheia, mijando de porta aberta? Destílogos perderam-se na mudança, metálogos: fica o nodo górdico pelo pólo nosso nos pórticos do golfo pérsico! Eles, não, mas ele, né? de nós dois, vós é que nois e eu que sou nido? Por cópia presta e pronto pretexto. Aura zeferina, zendavestal nos meus cachos, uma alavanca ao alcance de todos os calcanhares, da caravana não se escarapinha nem um cavanhaque! Saque nulo: não tem me chegue que não me mate, ningúem me sinegura! Começando o escuro a ser, nunca mais dextrimina de escurecer: saco seja mala, é só título que se conserva! Minuluscufúsculo! Onde o lustro fosco busca, bifurca e se disturba, trisulque o sólito, a troglo dita! Antro? Unaltro. Lazurento! Quenquerqueira nos guarde de que se dumquerque! Lospessostesso! Achei um alibi nesta aleluia: o mais hábil em álibi não saberia estar mais a leste de lhures ou lhufas. A que ponto chegou a veia que mais corcoveia, algarismo se recobrando do abismo, consulta o metabolismo e - devendo se distinguir dos disfarces com que se confunde, decide-se a bancarrotar! Xingo o guincho: abaca-te!

As áreas do traçado são areias movediças, nunca se obtem a certeza de estar rodeando algum objeto. Não há objeto: há máscaras verbais. O sujeito foi disparado, dissipado. É um vício do ânimo, e seus estados, supor uma entidade a esse sujeito. Porém, por sua vez, outra moral não é construída, nem outro mundo: se planeja na canábica impressão e ali a trapaça de Occam pontua ou pontualiza simplesmente a presença (a fantasmagoria) da estrutura. A intempérie de quem ficou (ao final) sem mais sujeito, sabe que a estrutura e seus dispositivos, em termos foucaultianos, não deixaram de buscá-lo novamente para capturá-lo. Por isso a escrita se faz lenta, mas com tanta aceleração simultânea que já é impossível (e inútil) a tentativa de se entender com ela.

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A escrita em Catatau é a febre racional, ou seja, como a paixão assumida além do sucesso ou do alcance. E ali seu alcance, precisamente, ali seu sucesso ao decidir o abandono do sujeito à escritura, pela escritura em imanência, como estado de iminente ocorrência sempre mutante. Leminski é artista capaz de incontáveis decisões em uma mesma página: essa microscopia dispara filosofias inconciliáveis e desencontros frutíferos oferecendo o alimento em pequenas doses de palavras sobre a familiaridade do permitido, sobre uma percepção domesticada à base de preceptivas taxonômicas e economias de sentido. O conciliábulo do texto, palimpsesto sempre, ancestral por ser permutante, propõe aqui (e mais próximo) a convivência comunicante do que está isolado, a ruptura com todo “rupturismo”, o súbito (e eterno - fora da conta do tempo) abandono da lente que se acreditava em foco. A mímesis com o tom (sua capacidade de entonar, nada menos) se torna inevitável e até desejável: se trata da mais pura impregnação, da intenção e da curiosidade que incitam e acompanham o leitor.

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Crítico

Uma outra vez é feita a proposta a esse leitor artista de sua leitura (de sua loucura), como exigência básica, conforme Mallarmé, que implicaria na existência da inspiração, mas ela só pode aflorar, em rigor, do próprio leitor: a escrita (poesia) aflora para inspirar. Porém, essa inspiração não instala uma moral simultânea, uma leitura que garanta uma centralidade na eclosão da qual possa se instalar perante o outro da escritura. Catatau é livro inspirador: percorrê-lo é instigar o desejo de escrever. Escritura somática: dá corpo a um despensar. Onde os realismos preenchem sua dose exigida de “Realidade” com insinuações, interpretações, a superstição de conclusões, discursos de todo signo, esta escrita leminskiana abre conversas multidirecionadas, enxame de koans. Põe em dúvida a verdade de uma lógica, não para substituí-la com outro cogito de cima do púlpito, mas para ser alcançada por nós, seus leitores, na palpitação de um pulso: a palavra inesperada nos espera.

Reynaldo Jiménez nasceu no Peru, 1959, e vive em Buenos Aires. Publicou uma dúzia de livros de poesia (alguns no México e Espanha), dois de ensaio de invenção, uma antologia dos old frontmen & frontwomen da poesia peruana; traduziu para o castelhano, entre outros, Josely Vianna Baptista, Arnaldo Antunes, Carlito Azevedo e Jussara Salazar; atualmente traduz Galáxias de Haroldo de Campos que será publicado em 2010 em Montevidéu; desde os anos 1980 participa de eventos performáticos de poesia; autor de videopoemas; recompilador dos escritos inéditos ou dispersos de Néstor Perlongher; fundou várias editoras pequenas; criou e codirigiu a revista Tsétsé, assim como a editora homônima, entre 1995 e 2008. Possui diversos textos e ensaios publicados em seu blog: http://quepodriaponeraqui.blogspot.com

(Tradução: Victor Del Franco) Celuzlose 03 - Dezembro 2009 55


LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

Celso Borges Poeta e letrista maranhense de São Luís onde nasceu em maio de 1959. Nos anos 70 e 80, fez parte dos principais movimentos de poesia que surgiram na cidade: Arte e Vivência, Guarnicê e Akademia dos Párias. Tem sete trabalhos de poesia publicados, os dois últimos, XXI (2000) e MÚSICA (2006), no formato livro-CD e com a participação de mais de 50 artistas de vários estados brasileiros, entre eles Zeca Baleiro, Chico César, Vítor Ramil, Rita Ribeiro, Sérgio Natureza, Ceumar, Vanessa Bumagny, Carlos Careqa, Kleber Albuquerque e Décio Rocha, além dos poetas Ademir Assunção, Ricardo Corona e Micheliny Verunsck. Ele também é parceiro, entre outros, de Zeca Baleiro, Papete, Lourival Tavares, Chico César, Gerson da Conceição e Alê Muniz.

G

IA VIRA VÍC VÁR A IO U RA VI VÁRIAS LÍNG U A S

SOLITÁRIA M LÍN RA I V

LINGUAGEM

S VIRAM V ÍR RIA U VÁ S 56 Celuzlose 03 - Dezembro 2009


LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

ECLIPSE

TUDO É LUTO N O ABSOLUTO SOL

Celuzlose 03 - Dezembro 2009 57


LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

Rodolfo Franco Antropólogo de formação, designer gráfico de profissão, poeta de vocação e tem pretensão de chagar a mago. Nasceu no Brasil e vive na Espanha desde 1989 onde publicou os livros 22 Corazones e Álbum de Cromos. Coeditou a revista Delta Nueve e participou de diversas exposições, recitais poéticos, performances e tertúlias. Outros trabalhos: www.myspace.com/doorforfalcon

CRÂNIO

58 Celuzlose 03 - Dezembro 2009


LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

AS 4 ESTAÇÕES

VOGAIS

Celuzlose 03 - Dezembro 2009 59


LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

AMOR

VÊNUS

60 Celuzlose 03 - Dezembro 2009


LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

NEPHTIS

Celuzlose 03 - Dezembro 2009 61


LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

BERASHITH

62 Celuzlose 03 - Dezembro 2009


LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

CIRCLE (Videopoema - link abaixo) Rodolfo Franco e Bruno Reis

Baseado no décimo arcano maior do Tarot http://vids.myspace.com/index.cfm?fuseaction=vids.individual&VideoID=49998104

(A roda da fortuna)

Celuzlose 03 - Dezembro 2009 63


Celuzlose 03  

Revista Literária

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