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celuzlo se Revista

01 ~ Junho 2009

Literรกria


Índice 04

Entre ? ! vista

Fábio Aristimunho Vargas BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

16

Andréa Catrópa Celso Borges Hélio Neri

22

GEO

Literatura sem Fronteiras

Enrique Winter (Chile) Martín Barea Mattos (Uruguai) LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

26 Marcelo Sahea

celuzlose # 01 ~ Junho 2009

Expediente Editor: Victor Del Franco Projeto Gráfico, Diagramação e Revisão: Victor Del Franco

02 Celuzlose 01 - Junho 2009

Colaboraram com esta edição:

Contato: celuzlose@gmail.com

Andréa Catrópa Celso Borges Enrique Winter Fábio Aristimunho Vargas Hélio Neri Marcelo Sahea Martín Barea Mattos Wallace O´Brian

Os textos desta revista poderão ser usados para fins não comerciais, desde que sejam citados os nomes dos autores, o nome da revista e o link correspondente.


Editorial A título de apresentação Celuzlose: uma revista que tem a proposta de afirmar a vitalidade da literatura e contribuir com a divulgação das diversas vertentes da linguagem contemporânea. E nessa diversidade de expressões, qualquer tentativa de estabelecer quais são as supostas “linhas de força” da literatura apresenta resultados bem controversos; não porque essas “linhas de força” se romperam, mas porque as linhas se entrelaçam e formam um tecido amplo que coloca em xeque o manual de conceitos rígidos que pretende definir estilos e eleger um cânone supremo. As linguagens são variadas e o diálogo entre a contemporaneidade e a tradição acontece em muitos níveis e em vozes plurais. Mudando um pouco o foco da questão, certa vez, não há muito tempo, foi perguntado a um poeta qual é o papel da literatura contemporânea, e ele, em tom espirituoso, respondeu: o papel da literatura contemporânea é o papel A4. Pois bem, parafraseando essa resposta, eu diria que o papel da literatura contemporânea é o papel digital. E essa constatação é cada vez mais confirmada pelo crescente número de portais e sites literários que surgem na Internet; além, é claro, dos e-books e e-readers que, em breve, serão encontrados em qualquer livraria nas grandes cidades. Porém, aqueles que cresceram e viveram numa época anterior ao domínio da Internet (e eu me incluo nessa categoria) talvez se questionem: será que o prazer de ter um livro nas mãos, sentir sua textura e folheá-lo, deixará de existir? A possibilidade de que essa situação ocorra nas próximas gerações não pode ser descartada, entretanto, deixando de lado esse incerto e duvidoso exercício de futurologia, o ponto central nisso tudo é o seguinte: não importa o formato no qual um livro (ou revista) seja apresentado, o mais importante é o seu conteúdo. Celuzlose: navegue e folheie à vontade. Boa leitura.

Victor Del Franco Editor

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04 Celuzlose 01 - Junho 2009


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Fábio Aristimunho Vargas

Quinquelín5ue Poeta, tradutor e advogado, Fábio Aristimunho Vargas lançou recentemente a coleção Poesias de Espanha (Hedra, 2009) com 4 volumes, dos quais a coletânea Poesia catalã foi premiada pelo Institut Ramon Llull, de Barcelona. Nesta entrevista, ele fala de seu trabalho de tradutor, do período em que atuou na Academia de Letras da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e dos próximos livros que está preparando.

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Em abril de 2009, você lançou a coleção Poesias de Espanha, uma antologia de fôlego que abrange um largo período histórico e inclui as quatro línguas oficiais espanholas. Quando você teve seu primeiro contato com a literatura espanhola? Já havia alguma referência desde a infância ou isso só aconteceu muito posteriormente? A coleção Poesias de Espanha: das origens à Guerra Civil é resultado de dois anos de trabalho árduo, mais alguns meses de infindáveis revisões e editoração. Em alguns momentos tive a impressão de que não terminaria nunca a antologia e acabaria abandonando o projeto pelo caminho. Mas, felizmente, consegui manter um ritmo de trabalho bastante intenso para poder lançar os quatro volumes da coleção - Poesia galega, Poesia espanhola, Poesia catalã e Poesia basca - a tempo do aniversário dos 70 anos da Guerra Civil Espanhola, em abril de 2009. Dos quatro idiomas da coleção, a minha primeira referência é a língua castelhana, que trago da minha infância em Foz do Iguaçu, no Paraná, minha cidade de origem e onde hoje moro novamente. Na Tríplice Fronteira o mundo hispânico é algo tão próximo quanto o seu vizinho e os colegas de colégio ou de trabalho. Sem falar que o meu pai era hispanofalante, apesar de ele falar apenas português em casa. Quando estive na Espanha, em 2002, para um curso de pós-graduação, tive o meu primeiro contato com as outras línguas do país, de cuja existência eu tinha conhecimento mas me surpreendi com sua vivacidade, sobretudo com a onipresença do catalão nas ruas de Barcelona e com a persistência do euskara no País Basco. Retornando a São Paulo, onde morava na época, comecei a estudar catalão e basco, a convite de amigos próximos, e mais tarde o galego. E como escritor, naturalmente era sempre a literatura dessas línguas o meu ponto de apoio, que eu lia conforme estudava o idioma.

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Durante o processo de organização da antologia, além do período histórico, quais foram os outros critérios para a seleção dos poemas? Numa antologia as escolhas e as renúncias são sempre arbitrárias. Procurei o mais possível estabelecer um critério objetivo de seleção, como, por exemplo, eleger os autores mais importantes de cada período literário, refletindo em número de autores a importância de cada período literário e o prestígio de cada autor no número de seus poemas - quanto mais fundamental o autor, mais poemas seus foram incluídos na antologia. Mas qual ou quais poemas selecionar de cada um desses autores? É nesse momento que impera a subjetividade e a seleção acaba se norteando pelos gostos do organizador, o que é algo inevitável. Ainda assim procurei manter um certo equilíbrio temático e de tons, sem nenhum tipo de preconceito literário. Na antologia é possível encontrar poemas jocosos, metalinguísticos, populares, eruditos, políticos, religiosos, epistolares, ideológicos, distribuídos de maneira aleatória e equilibrada por toda a coletânea.

“Sou muito preocupado em reproduzir ou recriar os aspectos formais dos poemas, na melhor linha de certa tradição brasileira de ‘transcriação’ de poesia.”


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Após ler as traduções (ou transcriações, como preferir), fica evidente o cuidado e o rigor que você dedicou ao trabalho. Um bom exemplo disso é o poema basco “O marinheiro” de Betiri Olhondo. Gostaria que você falasse um pouco sobre a carpintaria das traduções. Os poemas bascos chegaram a dar insônia, ou estou enganado? Sou muito preocupado em reproduzir ou recriar os aspectos formais dos poemas, na melhor linha de certa tradição brasileira de “transcriação” de poesia. Em muitos poemas a rima e a métrica me vêm com naturalidade na tradução, mas em vários outros resultam de um verdadeiro parto, ante a dificuldade de se respeitar a forma do poema original. Tenho uma satisfação especial pelo resultado da tradução do poema basco “O marinheiro”, de Betiri Olhondo, mas também de poemas como “Vivo sem viver em mim”, de Santa Teresa de Ávila, “Prisioneiro”, de Jordi de Sant Jordi, “A vaca cega”, de Joan Maragall, e das cantigas galegoportuguesas, neste último caso apresentadas como releituras modernas dos originais medievais. De fato, as traduções do basco foram as mais complicadas, por uma série de motivos. Por não se tratar de uma língua neolatina e por ter uma sonoridade muito peculiar, o ritmo dos poemas não é facilmente transposto na tradução, restando ao tradutor criar um ritmo totalmente novo para cada poema. A tradução, nesse caso, é uma versificação totalmente nova, em que se aproveita não mais do que a ideia do original. Eu me orgulho de alguns momentos em que consegui reproduzir algo da sonoridade do verso original, em passagens como “à beira da estrada carreteira pouco transitada”, de Xabier

Lizardi, e “não buscamos baleia, apenas nova ideia”, de Lauaxeta, mas reconheço que foram poucos os momentos em que as assonâncias e sobretudo as aliterações conseguiram passar pela peneira do idioma. Por outro lado, foi na antologia da poesia basca em que mais abusei das traduções em versos brancos, algo que ainda assim se justifica: dada a dificuldade para decifrar o sentido do original, em muitos casos não me sentia à vontade para “trair” o texto em busca da melhor rima, preferindo recriar a sonoridade com outros recursos rítmicos.

Como foi feita a pesquisa para a elaboração das notas finais, incluindo o quadro sinótico e o guia das ortografias? A pesquisa para as notas foi feita como em qualquer trabalho monográfico: investigação em acervos físicos e eletrônicos, fichamentos, levantamentos bibliográficos etc. Para isso acionei bibliotecas estrangeiras, sobretudo espanholas, e as bibliotecas particulares dos amigos, que gentilmente me emprestaram livros sem prazo para devolução. Também comprei muitas obras, na maior parte com preços em euro, que pesaram no meu bolso. Nas notas incluo não só informações objetivas sobre a vida e a obra dos autores, mas também alguns comentários sobre sua poética particular e sobre questões pontuais do trabalho de tradução. Uma curiosidade é que a antologia da poesia basca é baseada na minha monografia “Panorama histórico de la poesía vasca: una mirada lusohablante”, que elaborei para obtenção do título de Especialista em Estudos Bascos, pela Fundación Asmoz de Eusko Ikaskuntza e pela Universidad del País Vasco, sob orientação do Prof. Jon Kortazar, um grande crítico da literatura basca. Já o Quadro sinótico, que compara cronologicamente os períodos literários das quatro literaturas, é fruto das minhas reflexões sobre o tema e embasa algumas das conclusões a que cheguei a respeito da relação que há entre literaturas ao mesmo tempo tão próximas e tão distantes, conforme exponho na Apresentação dos volumes. O Guia das ortografias é um estudo gentilmente elaborado e cedido pelo revisor da antologia, o Prof. Miguel Afonso Linhares, de Roraima, que acompanhou de perto e desde cedo colaborou com a elaboração do projeto Poesias de Espanha.

Fotos das páginas 07 e 10: Aniele Nascimento

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No período em que morou em São Paulo, você estudou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e participou das atividades da Academia de Letras que existe na Faculdade. Como foi essa passagem pela Academia de Letras e o seu trabalho na edição da revista FNX? A Academia de Letras da Faculdade de Direito de São Paulo, fundada em 1932, foi uma verdadeira escola para mim, um período valioso de aprendizado. De lá trouxe muita experiência de editoração e vivência literária, e sobretudo os amigos que permaneceram para além do quinquênio da faculdade. Por muito tempo fiz parte do conselho editorial da Revista Phoenix, que em seu número XIX, de 2005, mudou seu nome para FNX. Com a revista aprendi muito sobre organização e editoração de obras literárias, um conhecimento fundamental para mim hoje em dia. Eis o blog da Academia de Letras: <http://stoa.usp.br/academia/weblog/>.

Por falar na revista FNX, afinal de contas, quem é Wallace O'Brian? Wallace O'Brian é um heterônimo e personagem coletivo, criado pelo pessoal da Academia de Letras para personificar tudo o que considerávamos ruim em poesia. Seus versos são, em regra, derramados e excessivamente líricos, tratando de temas anacrônicos como cavalaria, os deuses greco-romanos, a tradição céltica. E sempre eram inseridas frases com duplo-sentido aparentemente acidental. Em 2004, a revista Phoenix (FNX) trouxe um dossiê revelando a gênese de Wallace O'Brian, até então secreta e envolta em mistérios, além de uma coletânea de seus poemas. Na realidade, tudo foi uma grande brincadeira literária e Wallace O'Brian era, de certa forma, um manifesto poético do grupo, só que às avessas.

A Lenda do Cavaleiro Inexpugnável Por séculos sem fim percorro as mais remotas terras, trilhas e paragens. Diversas desventuras e paisagens conheci e enfrentei junto aos portais. Da Galileia aos Bálcãs e aos Urais as feras me acompanham pelas margens desta vida que levo em desvantagem beirando o abismo e as trevas infernais. Sigo essa triste sina em solidão mas sei que usam meu nome injustamente sem critério ou propósito decente pra vocês deixo agora a maldição: Pois que em vossas cabeças raios caiam! Muito prazer, sou Wallace O´Brian.

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S A A R T E OP R O O palíndromo é um vício? A arte do palíndromo é uma grande diversão, mas também um vício, um estorvo. O Laerte tem uma série de tiras sobre palíndromos, que ele curiosamente assina como ET Real. Uma delas ilustra bem a fixação do palindromista na procura pelo palíndromo: um sujeito está no ônibus e lê uma placa em que está escrito restaurante; pensando em várias combinações de letras a partir do espelho da palavra, ele chega ao resultado: “E.T. na rua; T.S.E. redobra garbo de restaurante”, e a charge termina com ele procurando por uma caneta. Essa tira é genial, pois ilustra com perfeição a experiência palindrômica e a condição do palindromista. Eu coleciono os palíndromos que faço, e já contabilizo algumas centenas, embora admita que são poucos os que guardam alguma verossimilhança e concisão, que são critérios para se avaliar a qualidade de um palíndromo.

T E N E T

O R PO E T R A A S Já que mencionei, cito alguns palíndromos de minha autoria: “O spa local a colapso”, “Medo, pejo - hoje podem”, “Somava zero. Rezávamos”, “O céu sueco”, “Lê, Dr., o cordel”, “À cobaia dai a boca”, “Até o professor vil lê papel. Livros, se for poeta”, “Museu - és um?”, “O laico gênio foi negociá-lo”, “A letra é arte lá”, “O anônimo bar abomino? Não!”, entre vários outros, para nem citar os palíndromos impublicáveis. Certa vez eu e meu amigo Guilherme Almeida de Almeida organizamos um curso de criação de palíndromos na Casa das Rosas, que foi bastante divertido, especialmente para nós mesmos. Também sou o proprietário de uma comunidade no orkut dedicada à arte palindrômica, chamada “Palíndromos e palindromania”, e convido os leitores a fazer uma visita. É difícil unir palíndromo e poesia, pois o resultado em geral é nonsense ou na linha arte pela arte. Mas já fiz algumas tentativas e incursões literárias no palíndromo, como os micropoemas da “Série palindrômica”.

4 POEMAS DA SÉRIE PALINDRÔMICA

ALVARIANA

CANTO GENERAL

a ira cá bate: tabacaria

“a vaga vida dure”, neruda divagava

ORAÇÃO

TERRA

orem: “oh, homero...”

mesmo com, sem

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Em 2005, você lançou “Medianeira”, seu primeiro livro de poesias. Está preparando o próximo livro de poesias ou os seus trabalhos atuais estão voltados totalmente para a tradução? Tenho dois livros na gaveta, um de poesia e outro de poesia infantil, que estão amadurecendo antes de serem publicados. Não tenho pressa de publicar, sei que todo livro tem um ciclo próprio de gestação que não convém acelerar. Também estou num processo de incorporação das minhas leituras ibéricas, que talvez resultem em novos poemas, dos quais o poema “De um trabalhador confiscado na Ponte da Amizade” é um primeiro fruto. Por enquanto estou mais focado mesmo no meu trabalho como tradutor. Hoje tenho três projetos de tradução em

andamento, sendo que um deles já está em fase de editoração, a antologia Canto desalojado, que reúne poemas de Alfredo Fressia, poeta uruguaio radicado em São Paulo. Também tenho planos para organizar uma continuação da coleção Poesias de Espanha, desta vez tratando do restante do séc. XX que não foi abrangido pela primeira coleção. Esta continuação terá como subtítulo “do pós-Guerra a 2000” e já contabiliza uma quantidade razoável de poemas e poetas traduzidos, só que desta vez vou trabalhar com mais calma, sem a pressão de uma data pré-estabelecida para o lançamento. É uma lição que aprendi com o trabalho insano a que me submeti na primeira coleção. Não que eu me arrependa, pois é um trabalho de que me orgulho bastante, mas não pretendo repetir a experiência tão cedo.

“Também estou num processo de incorporação das minhas leituras ibéricas, que talvez resultem em novos poemas, dos quais o poema ’De um trabalhador confiscado na Ponte da Amizade’ é um primeiro fruto.” 10 Celuzlose 01 - Junho 2009


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De um trabalhador confiscado na Ponte da Amizade A partir do poema “A um trabalhador assassinado”, de Lauaxeta, poeta basco fuzilado na Guerra Civil Espanhola

Como trabalhadores, todos somos a cada dia um pouco assassinados. Um pouco a cada dia relembrados que trazemos em nossos cromossomos o que podíamos ser mas não fomos por nossa culpa, pois pouco estudados. Nessa guerra incivil dos remediados, nossa bagagem tanta, feito os pomos-de-Adão dos travestis, nos denuncia à distância à polícia aduaneira, que sabe aliviar toda caçamba dos excessos. Vivemos na fronteira de nós mesmos, e somos nós a muamba que é confiscada um pouco a cada dia. Foz do Iguaçu, abril de 2009

Nas 4 páginas seguintes, traduções da coleção Poesias de Espanha feitas por Fábio Aristimunho Vargas.

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Entre ? ! vista PERO DA PONTE (séc. XIII) Se eu pudesse desamar a quem só me desamou, e pudesse um mal buscar a quem mal só me buscou! Assim me vingaria eu, se pudesse mágoas dar a quem mágoas só me deu.

Se eu podesse desamar a quem me sempre desamou, e podess' algum mal buscar a quem mi sempre mal buscou! Assi me vingaria eu, se eu podesse coita dar, a quem mi sempre coita deu.

Mas só não posso enganar coração que me enganou, pois que me faz desejar a quem não me desejou. E por isso não durmo eu, pois não posso mágoas dar a quem mágoas só me deu.

Mais sol nom poss' eu enganar meu coraçom que m' enganou, per quanto mi faz desejar a quem me nunca desejou. E per esto nom dormho eu, porque nom poss' eu coita dar, a quem mi sempre coita deu.

Rogo a Deus desamparar a quem me desamparou, ou que possa eu perturbar a quem só me perturbou. E logo dormiria eu, se pudesse mágoas dar a quem mágoas só me deu.

Mais rog' a Deus que desampar a quem mi assi desamparou, ou que podess' eu destorvar a quem me sempre destorvou. E logo dormiria eu, se eu podesse coita dar, a quem mi sempre coita deu.

Talvez ouse perguntar a quem não me perguntou, por que ela me a fez cuidar se ela nunca me cuidou. E por isto padeço eu, pois não posso eu mágoas dar a quem mágoas só me deu.

Vel que ousass' em preguntar a quem me nunca preguntou, per que me fez em si cuidar, pois ela nunca em mim cuidou. E por esto lazero eu, porque nom poss' eu coita dar, a quem mi sempre coita deu.

Poesia Galega

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Entre ? ! vista FEDERICO GARCÍA LORCA (Fuente Vaqueros, 1898 - Granada, 1936)

A AURORA A aurora de Nova York tem quatro colunas de lodo e um furacão de negras pombas que chapinham nas águas apodrecidas. A aurora de Nova York geme pelas imensas escadas buscando entre as arestas nardos de angústia desenhada. A aurora chega e ninguém a recebe em sua boca porque ali não há amanhã nem esperança possível. Às vezes as moedas em enxames furiosos perfuram e devoram meninos abandonados.

Poesia Espanhola

Os primeiros que saem compreendem com seus ossos que não haverá paraísos nem amores desfolhados; sabem que vão ao atoleiro de números e leis, aos jogos sem arte, a suores sem fruto. A luz é sepultada por correntes e ruídos em impudico desafio de ciência sem raízes. Pelos bairros há gentes que vacilam insones como recém-saídas de um naufrágio de sangue.

LA AURORA La aurora de Nueva York tiene cuatro columnas de cieno y un huracán de negras palomas que chapotean las aguas podridas. La aurora de Nueva York gime por las inmensas escaleras buscando entre las aristas nardos de angustia dibujada.

La aurora llega y nadie la recibe en su boca porque allí no hay mañana ni esperanza posible. A veces las monedas en enjambres furiosos taladran y devoran abandonados niños. Los primeros que salen comprenden con sus huesos que no habrá paraísos ni amores deshojados; saben que van al cieno de números y leyes, a los juegos sin arte, a sudores sin fruto. La luz es sepultada por cadenas y ruidos en impúdico reto de ciencia sin raíces. Por los barrios hay gentes que vacilan insomnes como recién salidas de un naufragio de sangre.

in Poeta en Nueva York, 1929-30 Celuzlose 01 - Junho 2009 13


Entre ? ! vista BARTOMEU ROSSELLÓ-PÒRCEL (Palma de Maiorca, 1913 - El Brull, 1938)

A MAIORCA, DURANTE A GUERRA CIVIL Verdejam ainda aqueles campos e perduram aqueles arvoredos e por sobre o mesmo azul se recortam as minhas montanhas. Ali as pedras invocam sempre a chuva difícil, a chuva azul que vem de ti, cadeia clara, serra, prazer, claridade minha! Sou avaro com a luz que nos olhos me resta e que me faz estremecer quando te recordo! Agora os jardins são como músicas e me perturbam, me fatigam como num tédio lento. O coração do outono já se vai em harmonia às chaminés graciosas. E as ervas são queimadas nas colinas de caçada, entre sonhos de setembro e neblinas tingidas de crepúsculo. Minha vida se liga toda a ti, como de noite as chamas ao escuro. Barcelona, setembro 1937

A MALLORCA, DURANT LA GUERRA CIVIL Verdegen encara aquells camps i duren aquelles arbredes i damunt del mateix atzur es retallen les meves muntanyes. Allí les pedres invoquen sempre la pluja difícil, la pluja blava que ve de tu, cadena clara, serra, plaer, claror meva! Sóc avar de la llum que em resta dins els ulls i que em fa tremolar quan et recordo! Ara els jardins hi són com músiques i em torben, em fatiguen com en un tedi lent. El cor de la tardor ja s'hi marceix, concertat amb fumeres delicades. I les herbes es cremen a turons de cacera, entre somnis de setembre i boires entintades de capvespre. Tota la meva vida es lliga a tu, com en la nit les flames a la fosca.

Poesia Catalã

14 Celuzlose 01 - Junho 2009

Barcelona, setembre 1937


Entre ? ! vista

CONTRAPASSO

BERNAT ETXEPARE (Sarasketa, 1480? - ?)

Euskara, jalgi hadi kanpora.

Euskara, mostra a tua cara.

Garaziko herria benedika dadila, euskarari eman dio behar duien tornuia.

Abençoada seja a terra de Garazi, pois elevou o euskara a uma nova base.

Euskara, jalgi hadi plazara.

Euskara, mostra-te na praça.

Bertze jendek uste zuten ezin eskriba zaiteien; orai dute forogatu enganatu zirela.

Achavam impossível escrever-se em euskara, e já o povo não basco viu que se equivocara.

Euskara, jalgi hadi mundura.

Euskara, sai mundo afora.

Lengoajetan ohi hintzan estimatze gutitan; orai aldiz hik behar duk ohorea orotan.

Entre as línguas a tinham como dentre as mais pobres, mas agora há de ser de todas a mais nobre.

Euskara, habil mundu guzira.

Euskara, o mundo ganharás. Outras línguas chegaram já a seu esplendor, mas a nossa há de ser de todas a maior.

Poesia Basca

Bertzeak oro izan dira bere goien gradora; orai hura iganen da bertze ororen gainera. Euskara.

Euskara.

Baskoak orok preziatzen, euskara ez jakin arren, orok ikasiren dute orai zer den euskara.

Muitos gostam dos bascos sem sua língua falar, e agora ao euskara poderão comprovar.

Euskara.

Euskara.

Oraidano egon bahiz inprimitu bagerik, hi engoitik ebiliren mundu guzietarik.

Se até o momento nunca foste impressa, agora pelo mundo o teu giro começa.

Euskara.

Euskara.

Ezein ere lengoajerik ez franzesa ez berzerik orai ez da erideiten euskararen parerik.

Não há nenhuma língua, nem mesmo a francesa, que hoje ao euskara se compare em beleza. Euskara, sai para bailar.

KONTRAPAS

in Linguae Vasconum Primitiae, 1545

Heuskara, jalgi hadi dantzara. Celuzlose 01 - Junho 2009 15


BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

Andréa Catrópa Nasceu em São Paulo, em 1974. Faz doutorado em Teoria Literária e coordenou a série de programas de rádio Ondas Literárias. Integra as coletâneas de poesia Antologia da Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milênio (6 dias, 6 noites, 2008), 8 femmes (2007), Vacamarela – 17 poetas brasileiros do XXI (2007) e publicou Mergulho às avessas (Lumme, 2008).

FOSSO desgosto de tudo não sei se doença a aura inversa das coisas ilumina-se em saturno sonhos de chumbo são mote e blecaute fantasmas de fumo abrem o cadeado da pele penetram pelos poros pulmões são cinza massa encefálica medula óssea e há sempre um lugar mais fundo onde cavar

16 Celuzlose 01 - Junho 2009

MONUMENTO é certo o que não tem remédio remediado está mas garanto que meia hora sob o secador não lhe fará mal, pense com os quadris: não há democracia na beleza. avance sobre a boca do mundo pise em sua língua. os embasbacados com a firmeza de seu lombo só consentirão. tire, tire mesmo proveito. a sua carne é glória e aleluia. marche contra a tirania dos genes, louve sempre os benefícios da ciência.


BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

TRÁFEGO TRÊS DEFINIÇÕES PARA O POEMA a cadela ia na frente sustentando um osso na boca

o touro que na arena é surpreendido pela dor da lâmina

o riso quase oriental vinha dos olhos submissos ao homem

a bomba que teme se espatifar na casa onde um menino sonha

ambos desatinavam o trânsito margeando o meio-fio

o corpo que aberto sobre a maca espera pela autópsia

ela inaugurava o asfalto para o dono e graciosamente ofuscava o peso de sua carroça. RELÓGIO o coração quando para antes borra de lentidão as coisas ou subitamente paira (apesar da inquietude) como um beija-flor?

AURORA CANÇÃO PARA ROUSSEAU a cidade tem artérias cheias de coágulos, seus pulmões enguiçados sonham nuvens de fumaça a cidade para relógios, fecha sinais, apaga a luz para mostrar estrelas, para dizer que é apenas uma segunda natureza, o hábitat daqueles que não sendo pássaros, sobrevoam casas não sendo vermes, deslocam-se nos subterrâneos não sendo ratos, vivem de restos

caminhávamos ultrapassando casas - a solidão me tinha na mira - só uma rua comum, mas tambores no meu peito como se meu pai me depositasse numa caravela para desbravar novos mundos ou se rasgasse em mim o que havia de eu para renascer

Celuzlose 01 - Junho 2009 17


BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

Celso Borges Poeta e letrista maranhense de São Luís onde nasceu em maio de 1959. Nos anos 70 e 80, fez parte dos principais movimentos de poesia que surgiram na cidade: Arte e Vivência, Guarnicê e Akademia dos Párias. Tem sete trabalhos de poesia publicados, os dois últimos, XXI (2000) e MÚSICA (2006), no formato livro-CD e com a participação de mais de 50 artistas de vários estados brasileiros, entre eles Zeca Baleiro, Chico César, Vítor Ramil, Rita Ribeiro, Sérgio Natureza, Ceumar. Vanessa Bumagny, Carlos Careqa, Kleber Albuquerque e Décio Rocha, além dos poetas Ademir Assunção, Ricardo Corona e Micheliny Verunsck. Ele também é parceiro, entre outros, de Zeca Baleiro, Papete, Lourival Tavares, Chico César, Gerson da Conceição e Alê Muniz. Vive em São Paulo desde 1989.

ESPERANÇA plantar rosas entre ratos nem mais nem menos longe de mãos, perfumes, acenos plantar rosas e açucenas entre ratos que nelas mijarão plantar então uma constelação de flores e crescerão

18 Celuzlose 01 - Junho 2009


BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

PORRADA MURRO NO VENTO COICE NA SOMBRA O AMOR TEM LONGO ALCANCE

amor tem cor amor corrói amor dá dor amor dói amor die

PAIXÃO tropeça nas palavras: já não sabe se é amor ou romã o que lhe tira a fome. Mastiga o corpo da fruta - boca de veludo em carne de ferro sangra.

ÚLTIMO PEDIDO Não me cruzem as mãos Os dedos entre os dedos, não Quero apenas como peso no peito a estrela certa: o coração

Celuzlose 01 - Junho 2009 19


BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

FEBRE

Hélio Neri

Febre de em vão falar com dedos brutos Para falar puxa e repuxa a língua, E não lhe vem à boca uma palavra! Augusto dos Anjos

I não é preciso dizer o quando dói, o quanto dura este caminho (se é que se pode considerá-lo) e mesmo se dissesse não haveria de conseguir, retratar (fielmente) que cada corte abrupto sangra, e cada espaço entre espaço não é só uma fratura (exposta), é um rompimento que não se pode emendar, corrigir e cada momento perdido, dissolvido no ar, é um lamento imensurável a concisão, não como limite de conhecimento, de criação mas cirurgia asséptica: cortando a podridão em volta da pele, em volta de tudo, que é impuro, que é oscilação medo ou dúvida setas não indicam nada e não há setas, o guia é uma bússola imaginária, que pode ser estrelas, lua, ou qualquer outra coisa, que raramente funciona difícil ainda é manter o ritmo, o fôlego, o afã, às vezes, a força falta, falha, energia desvinculada da disposição do corpo que, exausto, desaba e se debate convalescente longe do que poderia ser sustentação, equilíbrio e força lamenta, sofre, e nada, ninguém pode socorrer

20 Celuzlose 01 - Junho 2009

Nasceu em Santo André (SP), 1973. Coordenou o projeto Vozes Próprias na Casa da Palavra (Santo André). Tem poemas nas revistas A Cigarra, Arte e Agitação sem Futuro, Não Funciona, O Casulo, Zunái e Trópico. Publicações: Avulsos (Edição do autor, 2002 - plaquete), Sombra das Coisas (Alpharrabio Edições, 2003 - plaquete), Registro (Alpharrabio Edições, 2005 - plaquete), Febre (Alpharrabio Edições, 2006 - plaquete), Anomalia (Alpharrabio Edições, 2007 - livro). Atualmente, prepara um novo livro de poemas com o título de Palavra Insubordinada.

II aturdido, desorientado, um temporal de coisas na cabeça, queimando, fervendo, a incerteza é tudo e nada é exatamente solucionável (carregar uma cruz sem saber para onde ir) exato exílio do ser, trancado, recluso por entre as paredes do próprio abrigo, respirando sempre o mesmo ar (oxigênio, que aos poucos vai se tornando veneno letal, debilitando ainda mais sua resistência) corpo oco e travado, o vazio é tudo que há desmedida desintegração para com as coisas, nada está aberto à imaginação, um desacordo de sensações toma forma de proporções inimagináveis, é vácuo extenso o que cobre toda essa atmosfera


BR.XXI

Literatura Brasileira Contemporânea

III a fé desiste de existir não há em quem se amparar, se esgueirar, os pés pisam e afundam, o nó fica na garganta, lágrimas vêm e não caem, passam pensamentos de desespero, desilusão desenfreada, quem sabe começar de novo, ou desistir totalmente (uma senhora levanta às seis da manhã, toma condução lotada, enfrenta as piores condições que o dia pode oferecer, além do chefe, da firma, do calor escaldante, volta para casa sabe-se lá que hora, exausta, esmorecida, cuida dos filhos, da comida, da casa e, antes de deitar, agradece a Deus por mais um dia) a confusão na mente é um furacão e não tem prazo para terminar

IV agora eu sei: tudo é um enorme poema as estrelas, o céu, o universo a conversa das crianças uma flor que desabrocha natural os amigos, tudo que está ao redor um trabalhador comum em qualquer lugar do mundo uma mãe que acolhe seus filhos, todas as coisas que vamos carregar pelo resto da vida: um beijo, uma angústia, um anseio, um dia de sol, de chuva, calor, frio as tragédias, as catástrofes a dor sempre presente nos momentos inesperados (a oficina de Deus prepara mais um capítulo e segue) rompe-se o amanhecer fecha-se o anoitecer tudo intercala-se infinito

V explode nos neurônios uma festa, uma grande festa delírio, fascinação, rapto imediato das coisas dos sentidos, de tudo a emoção instala-se em mim e fica, guarda momentos de inacreditáveis sensações atmosfera de felicidade espalhada e exalada por todo canto qualquer tentativa de fuga é inútil, é em vão lutar esta guerra, lutar contra o que não morre, o que não cessa, os olhos vêem, deliram, dilatam, tudo é êxtase, júbilo, emoção agora sim, estou próximo do ápice nunca mais deixar escapar estes momentos, estes acontecimentos, a mão rabisca um papel e a sombra que se forma neste papel é um outro mundo (paralelo, de coisas, de imagens, de possibilidades) e invenção o raro é chegar até aqui (se é que aqui é alguma coisa, se é que cheguei a algum lugar) a viagem vai cessando, o trajeto se esvai, e daqui o que se vê é o sol nascendo, alguns tetos das casas, uma e outra pessoa talvez saindo para o serviço

Celuzlose 01 - Junho 2009 21


GEO

Literatura sem Fronteiras

Enrique Winter Santiago do Chile, 1982. Reside em Valparaíso, é editor de Ediciones del Temple e advogado. Participa de discos, revistas e antologias como: El Vértigo de los Aires: Poesía Latinoamericana (1974-1985) no México e Hofstra Hispanic Review nos Estados Unidos (2007). Foi traduzido parcialmente para o inglês e português. Recebeu o primeiro prêmio do XI Festival de Todas las Artes Víctor Jara (2003) e as bolsas da Fundación Pablo Neruda (2002), do Premio Mustakis - Biblioteca Nacional (2003) e do Consejo del Libro y la Lectura (2005). Publicou Atar las Naves (2003), uma prévia de Rascacielos (2006), Rascacielos (2008) e, em seguida, algumas traduções de Philip Larkin.

ELES E NÓS Eu não sou leite contaminado, mas um copo de leite quente com chocolate amargo.

MANTRA

ELLOS Y NOSOTROS

Com as feridas dos dedos pinto alguns quadros que compram a bom preço aqueles que em mim as fizeram.

Yo no soy mala leche, sino una taza de leche caliente con chocolate amargo.

MANTRA Con las heridas de los dedos pinto unos cuadros que compran a buen precio quienes me las hicieron.

22 Celuzlose 01 - Junho 2009


GEO

Literatura sem Fronteiras

VANGUARDA Os jovens poetas. Perigosos como artes marciais milenares no ginásio do burguês. VANGUARDIA Los jóvenes poetas. Peligrosos como artes marciales milenarias en el gimnasio del burgués.

6 A. M. Já vendida a noite o sol é a moeda órfã que encerra as apostas. 6 A. M. Ya vendida la noche el sol es la moneda huacha que acaba las apuestas.

10 P. M. Ela é a noite e eu um arranha-céu na noite: pinta minhas janelas de amarelo esconde minha estrutura. 10 P. M. Ella es la noche y yo un rascacielos en la noche: pincela mis ventanas de amarillo esconde mi estructura.

(Traduções: Victor Del Franco)

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GEO

Literatura sem Fronteiras

Martín Barea Mattos Montevidéu, Uruguai, 1978. Poeta, cantor e artista visual. Publicou os livros de poemas: Fuga de Ida y Vuelta (La Gotera, 2000), 2995, Cadaver del Diecisiete (Artefato, 2003), Los Ojos Escritos (43 Premio Feria Nacional de Libros, 2003), Por Hora Por Dia Por Mes (Estuario, 2008). Na música, produziu o disco Por Hora Por Dia Por Mes (edição do autor, 2007), que conta com interpretações e improvisações de músicos em distintas apresentações públicas. Como artista visual, expôs pinturas e esculturas, realizou vídeos e performances no Uruguai, Argentina, Brasil e México. Coordena, desde 2006, o ciclo de leituras, performances e recitais, RONDA DE POETAS. Nestes sites, as distintas obras podem ser acessadas: www.geocities.com/martinbareamattos www.myspace.com/rondadepoetasarchivo www.myspace.com/porhorapordiapormes

A POESIA IMPERANTE imagina a morte porém não pode matar somente com palavras corpo sem palavra já está morto pensa e clareia cada dia cada lâmina e renova o domínio interno.

LA POESÍA IMPERANTE imagina la muerte pero no puede matar sólo con palabras cuerpo sin palabra ya está muerto piensa y blanquea cada día cada hoja y renueva el dominio interno.

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GEO

Literatura sem Fronteiras

CÓDIGO Honra dou minha palavra dou meu poema devolvo o silêncio e a possibilidade de ser traído me dá sua palavra outro poema e o silêncio não tenho opção dou minha palavra.

CÓDIGO Honor te doy mi palabra te doy mi poema te devuelvo el silencio y la posibilidad de ser traicionado me das tu palabra otro poema y el silencio no tengo opción te doy mi palabra.

LÍRIO DE LÍRIO somemos a idade de cada ser humano para vivenciar que somos mais úteis que os senhores que em nome de deus somam a idade dos mortos somemos a idade dos mortos em nome de qualquer homem de deus morto chamemos aos mortos por seu nome e ao deus morto somemos sua vida a nossa única vida somos mais que a morte de deus.

LIRIO DE LIRIO sumemos la edad de cada ser humano para vivenciar que somos más útiles que los señores que en nombre de dios suman la edad de los muertos sumemos la edad de los muertos en nombre de cualquier hombre de dios muerto llamemos a los muertos por su nombre y al dios muerto sumemos su vida a nuestra única vida somos más que la muerte de dios.

(Traduções: Victor Del Franco)

Celuzlose 01 - Junho 2009 25


LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

Marcelo Sahea Poeta, performer e artista gráfico. Publicou um e-book: 'ejs (2001) e dois livros de poesia: carne viva (2003) e Leve (2006). Participou de diversas antologias e revistas de literatura, poesia, arte e cultura. Participou de exposições e mostras de poesia visual em Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Realiza a performance poética intermídia Pletórax, que já foi apresentada em Brasília, São Paulo, Rio Grande do Sul e Belo Horizonte.

CISCO

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LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

SOS

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LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

EGG/EGO

EMBRIOM

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LÚCIDA RETINA

Poesia Visual

VOCEU

NÃO CABE

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celuzlo se@gmail.com

30 Celuzlose 01 - Junho 2009


celuzlo se

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Revista Literária

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